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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

DOS PECADOS II

                                          
OS SETE  PECADOS  CAPITAIS

2) Pecado mortal é pecado grave que pode ser considerado de diversos modos, mas sendo, antes de tudo, uma ação livre e consciente do homem que quebra a relação homem-vida religiosa. O homem perde totalmente o contacto com o divino, ao qual se ligava pela religião (de religare, religar, latim). O pecado mortal introduz uma desorganização no mundo, rebaixando o divino, o espiritual, a níveis puramente físicos. A gravidade do pecado mortal tem dois componentes profundamente deletérios sob o ponto de vista da lei divina: ele é cometido com pleno conhecimento, isto é, quem o comete sabe o que está fazendo e a ele adere plenamente com a sua vontade.

Dolo é procedimento fraudulento, denota má-fé, é logro, ardil, que pode levar alguém a fazer com que outra pessoa pratique um ato lesivo contra si mesma. No Direito Penal, é ação deliberada de violar a lei por ação ou por omissão, com pleno conhecimento da criminalidade do que é feito. Nestes sentidos, o pecado mortal causa a perda da graça divina, levando à danação eterna. Esta danação eterna entre os antigos gregos significava o encerramento da alma no Tártaro, a camada mais profunda do Hades (O Inferno), de onde ela jamais sairia, isto é, reencarnaria, lugar de sofrimentos eternos, onde a luz jamais chegava. 


INFERNOS ( LIVRO DAS HORAS DO DUQUE DE BERRY , C 1415

O pecado mortal, sob os aspectos acima mencionados, é, pois, sempre doloso, isto é, quem o comete tem a deliberada intenção de cometê-lo, de violar a lei divina, tem pleno conhecimento do que está fazendo. Aquele que vive em estado de pecado, cometendo, por exemplo, continuamente, os chamados pecados capitais, está preso a um destino que o levará certamente à danação eterna. Para sair deste estado, será preciso que o pecador retorne ao reino de Deus através da Graça, pelo arrependimento e pela penitência. Para Santo Tomás, os vícios capitais são sete vícios especiais que gozam de uma especial liderança. O vício compromete muitos aspectos da conduta humana, é uma restrição à autêntica liberdade e um condicionamento para o mal.


O   DIA   SEGUINTE  ( EDVARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Para possibilitar ao fiel receber ou voltar a receber a graça divina, a Igreja católica instituiu os sacramentos, atos rituais não só a tanto destinados como também a conferir sacralidade a certos acontecimentos da vida cristã. Os sacramentos, como sabemos, são sete: batismo, confirmação (crisma), eucaristia, reconciliação (confissão, penitência), unção dos enfermos, ordem e matrimônio.

A CONFISSÃO DE UMA MULHER ITALIANA
(KARL PAVLOVICH BRYULLOV, 1799-1852)
A instituição da confissão sempre mereceu grande destaque para garantir que o crente voltasse a receber a graça divina. Este destaque foi muito realçado entre os sécs. XIII a XIX. Os confessionários foram realmente os centros através dos quais se desenvolveu um verdadeiro drama entre a dialética da culpa e do perdão. O confessor foi uma espécie de médico de almas durante esse período. Milhões de pessoas durante os séculos apontados passaram por confessionários no mundo ocidental em busca do perdão, lugares onde sofredores, seres culpados, angustiados, encontravam a sua redenção. 

SANTO  AFONSO  DE  LIGÓRIO
Santo Afonso de Ligório escreveu no seu Guia do Confessor: para cumprir os deveres de um bom pai, o confessor deve mostrar-se cheio de caridade, e o primeiro uso que deve fazer dessa caridade consiste em acolher com igual benevolência todos os penitentes, pobres, sem instrução e cobertos de pecados. Recomendava o autor, além de uma abertura especial para a benevolência, que fosse adotada uma técnica cuidadosa de escuta e de questionamento do pecador. 

A maneira afável e cuidadosa proposta por Santo Afonso de Ligório foi adotada pela Igreja católica até a segunda metade do século XIX. Tal procedimento não impediu, porém, que uma certa hostilidade se fizesse sentir, principalmente por parte dos homens, com relação ao sacramento da confissão. Os sacerdotes, em muitos casos, foram acusados de intervir na intimidade dos lares, na política, de opor a mulher ao homem etc. 

Outro fator que afetou bastante o sacramento da confissão em meados do séc. XIX foi um conjunto de ideias que desde o final do séc. XVIII entrou em circulação. A verdade das religiões, tida como revelada, indiscutível, começou a ser combatida por intelectuais que falavam, muitos sem o saber direito o que faziam, em nome da nova classe ascendente, a burguesia. No geral, este movimento que filosoficamente tomou às vezes o nome de Iluminismo ou de Enciclopedismo, se opunha à ”verdade” de que os centros da vida estavam  na Igreja, na realeza, na nobreza e na tradição. Não mais confundir o presente com o eterno, como queria a Igreja. Combater a espiritualidade cristalizada, refundi-la no sentido de torná-la algo vivo, em permanente movimento.

ASCLÉPIO
Outro grande problema para as religiões, esvaziando mais os confessionários,  tomou forma na segunda metade do século XIX: o papel de ajudar as pessoas na solução de seus crimes, pecados ou faltas, geradores de crises de consciência, começou a ser assumido por certos profissionais da área médica. Com a “redescoberta” da chamada vida subconsciente (já conhecida pelos antigos gregos do Santuário Médico de Epidauro, do deus Asclépio), esses profissionais, que hoje são os nossos psicólogos, psiquiatras ou psicanalistas, vêm, desde os fins do séc. XIX, desempenhando, em grande parte,
SANTUÁRIO  DE  EPIDAURO ,  RUÍNAS
com maior ou menor sucesso, com o auxílio ou não da Química, a função de psicoterapeutas, cumprindo, em grande parte, senão totalmente, a função que antes cabia aos sacerdotes nos confessionários. Pertinente por isso, aqui, a observação jungiana de que os modernos tratamentos, baseados na análise, tiveram origem no sacramento da confissão. 

  CAVALGADA  DOS  PECADOS
Os pecados mortais mais comuns são: 1) Idolatria, a real ou a simbólica. 2) Substituição do amor e do serviço a Deus pelos bens do mundo (conforto e prazer); neste item estão incluídos a falta à missa dominical; o trabalho dominical desnecessário; fazer compras aos domingos; o marido, acomodado, que deixa a esposa assumir a condição de cabeça do casal; controle da natalidade; aborto, laqueadura e vasectomia etc. 3) Incesto. 4) Adultério. 5) Concubinato. 6) Masturbação. 7) Falta de modéstia no vestir. 8) Embriaguez e drogas. 9) Práticas homossexuais. 10) Heresia. 11) Apostasia. 12) Eutanásia. 13) Agnosticismo. 14) Atos no vestir que mais revelam o corpo que o cobrem. 15) Inseminação artificial e muitos outros pecados que seria longo demais  aqui enumerá-los. O papa Gregório X (Concílio de Lyon, 1274) declarou que as almas daqueles que morreram em pecado mortal ou apenas com o pecado original, em qualquer caso, descem imediatamente ao Inferno, embora punidos com diferentes castigos.


EVRÁGIO DO PONTO
Dentre os pecados mortais destaque especial para os pecados capitais (etimologicamente, de caput, capitis, em latim, cabeça, no sentido de elevado, de importante). Embora o tema dos sete pecados capitais já tivesse aparecido antes do cristianismo, quem teve a ideia de listá-los foi o monge asceta Evágrio do Ponto (séc. IV dC), autor do livro Origens Sagradas de Coisas Profundas. Como um bom asceta, muito preocupado com as tentações mundanas, vivendo em locais afastados dos centros urbanos, Evágrio procurou fixar aqueles que, segundo a tradição, mais facilmente corrompiam os homens.

Estes pecados, na Igreja católica, entretanto, só foram devidamente fixados no séc. VI dC, pelo papa Gregório Magno. Para tanto, ele usou as Epístolas de São Paulo onde aparecem definidos, como pecados, vários vícios de comportamento:: Orgulho (Soberba), Inveja, Ira, Indolência, Avareza, Gula e Luxúria. Nesta lista, a Indolência entrou no lugar da Acídia ou Preguiça e a Melancolia foi substituída pela Inveja. 

 A  DIVINA  COMÉDIA
Dante Alighieri, entre os séc. XIII e XIV, em sua A Divina Comédia, concebeu o Inferno como uma espiral descendente dividida camadas, que descem da superfície da Terra até o seu centro. Quem o guiou nessa viagem foi Virgílio, o poeta da Eneida. É no oitavo ciclo, dividido em dez fossos (malebolges, fossos do mal), que são punidos os que cometeram pecados mortais, os fraudulentos, os rufiões, os sedutores de toda espécie, os

aduladores, os simoníacos, os adivinhos, os feiticeiros, os políticos corruptos, os hipócritas, os ladrões, os conselheiros fraudulentos, os astrólogos, os provocadores de escândalos, os heresiarcas, os alquimistas, os falsificadores etc. A lista dos sete pecados capitais só se tornou oficial, porém, no séc. XIII, com a Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino. 

Ainda que encontremos as noções de pecado em várias religiões, como no judaísmo e no protestantismo, a referente a pecados capitais parece ser exclusividade do catolicismo. O nome que aparece aqui é o de Santo Tomás (1228-1274), teólogo e filósofo italiano, nascido em Aquino, perto de Nápoles.  Recebeu o apelido de Doutor Angélico tanto pela santidade de sua vida como pela importância de sua obra filosófica. Ele nos explica que quando a Igreja católica usa a palavra capital para designar os referidos pecados está se fazendo, primeiramente, uma referência a uma passagem de São Paulo, em Coríntios: um homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra sua cabeça. Em segundo lugar, capital tem a ver com um versículo das Lamentações: espalharam-se as pedras do santuário pelas cabeceiras de todos os caminhos. Em terceiro lugar, Tomás nos diz que cabeça significa chefe ou governante do povo, pois os seus outros membros são de certo modo por ela governados. A lista de Santo Tomás era a seguinte: Vaidade, Inveja, Ira, Acídia, Avareza, Gula e Luxúria. 

TRIUNFO DE S. TOMÁS
(B.GOZZOLI ,1420-1497)
Para Tomás de Aquino os três sentidos supracitados têm relação com os vícios capitais. Além disso, prossegue o Doutor Angélico, um pecado pode se derivar de outro de quatro maneiras: 1) pela supressão da graça divina; 2) o pecado predispõe a uma inclinação, podendo criar um hábito; 3) um pecado costuma oferecer matéria a outro; 4) um pecado causa outro quanto à finalidade, isto é, para cometer um pecado, um homem pode se servir de outro. 

A Igreja católica desde o início, isto é, desde que definidos os pecados capitais, procurou oferecer aos seus fiéis meios de enfrentá-los, as chamadas virtudes fundamentais. Foram Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino que, cada um a seu modo, a partir de Platão, fixaram virtudes que podem auxiliar os pecadores. A palavra virtude vem de virtus, latim, onde tem o significado de qualidades que fazem o valor de um homem física e moralmente. Virtus, por sua vez, vem de vir, viri, homem (em oposição à mulher), homem na plenitude do termo, distinto de homo, ser humano.


SOPHROSYNE, 1872
( E.BURNE - JONES )
Chamadas também de virtudes cardinais, as virtudes fundamentais são quatro: 1) prudência, originalmente em latim sapientia, aquela que ajuda a discernir o inferior do superior, o bem do mal, ligada a ideias de escala, de medida, de regra. É considerada mãe de todas as virtudes. Praticada, permite que o homem aprenda a entender o que são as paixões, a razão e a fé. Esta virtude tem relação direta com a sophrosyne dos gregos, palavra que lembra comportamento precavido que leve em consideração os outros; aponta-nos etimologicamente a palavra para ideia de sanidade moral, para autocontrole, moderação. Na mitologia grega, Sophrosyne era um daimon, uma entidade sobrenatural situada entre os humanos e os deuses. Atuava no sentido contrário de Afrodite, deusa que inspirava grandes paixões. Como Aidós, o Pudor, outro daimon, Sophrosyne, desgostosa com o comportamento dos humanos, abandonou-os, indo viver entre os olímpicos.  

2) justiça, de jus, juris, o direito, em latim, o que é reto. Justitia é aquilo que é conforme o que é justo, reto, sentimento de equidade. Qualidade do que está conforme com o que é direito, correto. Por extensão, realização dos deveres relativos ao divino.  3) fortaleza, que assegura a firmeza, a constância dos propósitos na procura do Bem. É força moral. É um esforço que a pessoa deve fazer sobre si mesma para mobilizar toda a sua energia no sentido do fim a ser atingido. 4) temperança ou moderação,  permite o controle das paixões, virtude de quem é comedido, sóbrio, contido, Manter o corpo e a mente sob controle, domínio sobre as faculdades de percepção e de ação. Conhecer a diferença entre sensualidade e sensibilidade.  Às vezes, estas quatro virtudes se tornam sete, sendo assim apresentadas: humildade, disciplina, caridade, castidade, paciência, generosidade e temperança. 

Conforme alguns textos apontam, a humildade, como o nome sugere, lembra positivamente consciência das próprias limitações. Negativamente, é sentimento de fraqueza, de inferioridade com relação a alguém ou a alguma coisa. Submissão, fraqueza de caráter. Disciplina é saber obedecer a regras e regulamentos, cumprir obrigações e deveres, inclusive com relação a pessoas que nos sejam hierarquicamente superiores. Caridade, aqui, é disposição favorável em relação a alguém em situação de inferioridade material, física, mental ou psíquica. Lembra a empatia. Castidade, externamente, além de controle com relação aos prazeres dos sentidos, é, sobretudo, purificação interior. A constância, a força e a clareza dos nossos pensamentos, do nosso raciocínio, precisam da castidade nos dois sentidos. Paciência é a capacidade de saber avaliar o que é  e o que não é mais importante em nossa vida. Ter noção do que é possível realizar mais ou menos rapidamente. O grande inimigo da paciência é o que antigos gregos chamavam de koros, o desdém, a altivez arrogante. Generosidade é virtude daquele que sabe sacrificar os próprios interesses em benefício de outrem, da humanidade. Temperança é noção de comedimento, de proporção que temos entre nós e os outros. É também  o esforço que podemos fazer, para mais ou para menos, no sentido de nos encaixarmos melhor socialmente para que o todo funcione melhor.  Ajustes na convivência humana. 

3) Pecado venial – Venial, etimologicamente, é o que é digno de perdão, desculpável. Venia, em latim, quer dizer graça, favor, que se dá ou se presta ao que é perdoável, ao que é leve. O que caracteriza este pecado é, sobretudo quando cometido, a ausência de consentimento. Ele é cometido sem o que o pecador tenha a deliberada intenção de cometê-lo. Não há adesão de sua vontade, mesmo que ele possa, em certas circunstâncias, ser considerado como grave, mortal. Ele não é doloso, é culposo, segundo a linguagem do Direito. É um pecado que não rompe a ligação do crente com Deus, mas a enfraquece. É pecado que merece penas mais leves, purificadoras. Perigoso, porém, se muitas vezes repetido, podendo levar à adoção de hábitos nefastos.


PURGATÓRIO  ( G. DORÉ , 1832 - 1883 )
Purgatório, na teologia católica, é o lugar onde as almas dos que cometeram pecados veniais vão purgar as suas faltas antes de ir para o Paraíso (do persa, etimologicamente, amplo parque, pomar, jardim). As almas dos que morreram na graça de Deus, mas não estão inteiramente livres de seus pecados, vão para o purgatório para se purificar completamente. A tradição católica fala que há um fogo purificador no purgatório. A fim de ajudar as almas que vão para lá, a Igreja recomenda aos seus fiéis, de um modo geral, que pratiquem atos meritórios, como esmolas, obras de penitência, doações a obras católicas etc.

Ideias semelhantes quanto à purificação dos pecados existem em outras tradições religiosas, mas sem uma conceituação como a que lhe deu o catolicismo. Muitos Padres da Igreja católica nos dizem que a ideia da existência de um estado intermediário entre o Céu e o Inferno já pode ser encontrada em São Paulo (Coríntios). O
SÃO  PAULO
catolicismo parece ter fixado o conceito de purgatório (sem a ideia de reencarnação) doutrinariamente a partir de Santo Agostinho como um lugar onde as almas seriam purificadas através de um fogo que sempre causaria muita dor (purgatorius ignis). O modelo do purgatório católico veio, sem dúvida, da mitologia grega, do Érebo, lugar de trevas inferiores, situado no Hades, antes do Tártaro, para onde ia a alma (psyche), na forma de um eidolon, purgar os seus crimes, temporariamente, para depois reencarnar. O Purgatório é assim, como se disse, no catolicismo, um lugar intermediário entre o Céu e o Inferno. Há muitas hipóteses sobre a sua adoção pelo cristianismo. Uma delas, que nos parece muito viável, foi a de que nos primeiros tempos do cristianismo o extremismo Céu-Inferno afastava muitas pessoas da religião cristã, então procurando se afirmar no mundo romano.  


COMPÊNDIO DO CATECISMO
Para o Compêndio do Catecismo da Igreja católica, publicado em 2005, o purgatório é o estado dos que morreram na amizade de Deus, com a certeza de sua salvação eterna, mas que ainda têm necessidade de purificação para entrar na felicidade do céu. As almas das pessoas que morreram em pecado mortal e nunca se arrependeram sinceramente vão para o Inferno, morada de Satanás. Nunca mais sairão de lá, não há arrependimento possível. O castigo é eterno, como no Tártaro da mitologia grega. Já as almas que foram para o purgatório sempre terão a certeza de que lá permanecerão por uns tempos, de nunca irão para o Inferno, todas indo para o Céu, mesmo que seja no final dos tempos.

PAPA  BENTO  XVI
Por fim, lembremos que a Igreja católica acrescentou, em 2008, à tradicional lista dos pecados capitais (ao que parece, agora, a ser sempre atualizada), mais sete, adaptados à vida moderna, conforme divulgação do Vaticano. Quem tomou a iniciativa foi o papa Bento XVI. São eles: 1) Pressa – Uma pessoa apressada não tempo para Deus. A pressa é mão da ira e causa acidentes. 2) Manipulação genética, pecado “tecnológico”, ou seja, tentar o homem “brincar” de Deus, algo absolutamente inaceitável. 3) Interferir no meio ambiente, o que não passa da adição de imperfeições à Criação divina. 4) Causar pobreza – Retirar dinheiro dos outros por Avareza. 5) Ser muito rico – causa desigualdade social, o que é inaceitável, pois todos são iguais perante Deus. 6) Usar drogas – interferir no organismo humano, sagrado diante de Deus. 7) Causar injustiça social, preconceito e bullying, em sua maioria.

Ao finalizar este capítulo sobre o tema de nosso interesse, julgo oportuno observar que muito do que a Igreja católica tem como estabelecido doutrinariamente até hoje com relação aos pecados não levou em consideração o que Santo Tomás de Aquino nos deixou sobre a Astrologia. O que ele escreveu sobre a Astrologia encontra-se espalhado sobretudo em sua Suma Teológica, textos que reunidos nos permitem formam um todo bastante coerente sobre a influência dos corpos celestes, como ele mesmo anotou. 

As observações de Santo Tomás sobre a Astrologia são bastante sensatas e lógicas, indicando que, além de um sério estudioso da matéria astrológica,e do mundo natural, ele a praticou também. Evidente que não podemos considerá-lo, quanto a este particular, como um “horoscopista”, desses que sempre dela se valeram e valem para faturar “algum”, antes nas feiras e mercados e hoje em “consultórios” bem mobiliados. Santo Tomás estudou Astrologia com base em sua formação filosófica, usando o seu conhecimento para abordar questões incômodas como a do livre-arbítrio. Usou também o que sabia para combater os que se aproximavam da Astrologia sob o ponto de vista da superstição e da feitiçaria. Como ele mesmo proclamava, escrevia, sim, muitas páginas para combater os falsos astrólogos, o que lhe permitiu compreender e reconhecer ainda mais o valor da Astrologia. 

Nesta perspectiva, Santo Tomás entrou em choque com outras importantes figuras do cristianismo, como Santo Agostinho, por exemplo, que viu a Astrologia apenas através dos falsos astrólogos, da sua “banda podre”. Santo Tomás radicalizou a sua posição de estudioso da Astrologia quando afirmou haver uma conexão real entre os astros e as inclinações do homem, ou seja, suas predisposições inatas. E o Doutor Angélico, reafirmando sua posição favorável à Astrologia, concluiu que os verdadeiros astrólogos poderiam, a partir dessa e de outras constatações, sem contrariar a doutrina católica, elaborar a sua ciência sobre as referidas conexões. Afirmava mais Tomás que o destino dos homens não estava rigorosamente “escrito” nos astros quando do seu nascimento. Sua máxima, a de que “astros inclinam, não determinam” foi desde então incorporada à “boa” Astrologia. 
A Astrologia defendida por Santo Tomás, nunca estudada a rigor pela
JEAN BAPTISTE MORIN
Igreja Católica (só por uns poucos de seus membros), e muito menos aplicada, tinha bases racionais e lógicas como aquelas que os árabes transmitiram ao ocidente, praticada por sábios como Ptolomeu (muito citado por Tomás), Kepler, Cardan, Tycho-Brahé e por aquele que talvez tenha sido o maior astrólogo de todos os tempos, Jean-Baptiste Morin de Villefranche. 


SANTO  ALBERTO 
Santo Tomás, como se sabe, foi aluno de Santo Alberto, o chamado Doctor Universalis, pela vastidão de seus conhecimentos. Para Alberto, a Astrologia como a Alquimia eram conhecimentos obrigatórios, principalmente a primeira, segundo ele, ao explicar como a esfera celeste (zodíaco e planetas) moldava não só o caráter de uma criança que estava para nascer como exercia influências sobre o poder curativo das ervas medicinais. 


SANTO  TOMÁS
( GENTILI  FABRIANO , 1370 - 1427 ) 

Foi, entretanto, Santo Tomás quem codificou a posição da “banda saudável” da Igreja católica medieval com relação à Astrologia, ao combater o determinismo adotado pelos falsos astrólogos que carregavam para as suas interpretações as suas próprias paixões e, sobretudo, quando a serviço dos Grandes, os seus interesses pessoais sob o ponto de vista político e econômico. 





sábado, 9 de novembro de 2019

DOS PECADOS - I

  
OS  SETE  PECADOS ( HIERONYMUS  BOSCH , 1450 - 1516 )

Os dicionários definem o pecado como a violação de um preceito religioso. É sempre uma desobediência a qualquer norma de conduta estabelecida pelas religiões. Pecado, na antiga Roma, de peccare, latim, era simplesmente cometer uma falta qualquer. Quando o cristianismo se tornou religião oficial do império, a palavra passou a ser usada no sentido religioso também. Peccare, na origem, significava tropeçar. Peccus era a palavra latina que se usava para designar o que andava mal, o manco, o perneta. 

Os preceitos religiosos mais simples que os adeptos das religiões deviam observar foram reunidos sob o nome de mandamentos. Eles deram base ao que se chamou de moral, regras de vida e de convivência, desta ou daquela religião. Estas regras são, sobretudo, de foro íntimo, isto é, ligam-se antes mais ao âmbito da individualidade de cada um, segundo a própria consciência, e depois à vida em comum.
Muitos dos mandamentos estabelecidos pelas religiões podem ser desrespeitados sem que nada aconteça ao pecador. Por exemplo, o pecado da gula. Já outros mandamentos, ao fazer parte da estrutura jurídica das várias sociedades, tipificam contravenções, delitos ou crimes. Neste caso, é o Estado a fonte material de um direito a que se deu o nome de penal, uma vez que é o legislador quem cria as normas penais, dadas ao conhecimento de todos por meio de leis.  A fonte do Direito Penal é, pois, a lei e subsidiariamente, dentre outros elementos, os costumes, a analogia, a equidade, os tratados e convenções internacionais estabelecidos. 


INVEJA  ( EDVARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Cabe ao Estado, assim, fixar as normas penais a cuja observância os indivíduos podem ser compelidos mediante coerção (jus puniendi). A estas normas todos estão vinculados. O mesmo não acontece com relação aos mandamentos religiosos, como se disse acima. Posso ser, por exemplo, uma pessoa invejosa e nem por isso serei punido pelo Estado. O pecado da Inveja, como se sabe, está tipificado como pecado mortal pela Igreja Católica.


Chama-se no Direito Canônico, na Igreja Católica (etimologicamente, do grego katholikós, de kata, para baixo, e holos, para todos, isto é, para baixo e para todos, universal), o conjunto de leis e regulamentos feitos ou adotados por ela para o governo da organização cristã católica e de seus membros. Cada religião cristã, além da católica, como a anglicana, a ortodoxa, a presbiteriana e a luterana, tem hoje o seu Direito Canônico (canon, em grego, é lei, princípio,  medida).

O catolicismo adotou, como mandamentos, o Decálogo (do grego, dez ditos, dez palavras), nome dado a um conjunto de normas que, segundo a Bíblia (Antigo Testamento), teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas (Tábuas da Lei) de pedra e entregues ao profeta Moisés no alto do Monte Sinai. Nessas placas recebidas por Moisés estavam sintetizadas as normas que deveriam orientar a vida dos crentes. Os dez mandamentos aparecem mencionados em dois livros do Antigo Testamento, no Êxodo e no Deuteronômio. 


MOISÉS  RECEBENDO  AS  TÁBUAS  DA  LEI
( 1868 , JOÃO ZEFERINO  DA  COSTA )


Moisés é nome que vem do hebraico, Moxeh ou Mosheh, este por sua vez originário do egípcio, mes, mesu, que tanto significa filho como servo. O nome do nosso profeta, ao que parece, faz parte do nome Ramsés, servo de Ra, nome de vários faraós da 19ª e da 20ª dinastias, chamados ramessessidas. Alguns estudiosos hebraicos fazem o nome Moisés derivar do verbo retirar (msh). No geral, historicamente Moisés é situado no séc. XIII aC., como membro da tribo de Levi. Abandonado ao nascer, nas águas de um rio, foi acolhido pela filha do faraó, que o educou como um filho. Adulto, Moisés matou um egípcio que maltratava um judeu (tomara conhecimento da sua origem hebraica por volta dos 40 anos) indo, por isso, se refugiar no país de Madian, a leste do Sinai, lá se casando com a filha de um sacerdote de nome Jethro. 

ABRAÃO , À DIREITA
CATEDRAL DE CHARTRES
Os mandamentos acima mencionados representam as cláusulas da aliança concluída entre Deus e Israel e neles estavam fixadas as bases religiosas que iriam orientar a vida política e social do povo israelita. A aliança (berit, em hebraico) faz referência ao acordo estabelecido entre o primeiro patriarca Abraão, que vivia em Ur (cidade da Suméria, na antiguidade situada na embocadura do rio Eufrates) e Deus, Yahvé, nele estando incluídos itens como a circuncisão dele e de seus descendentes homens e a doação de terras a Israel (Canaã, a Terra Prometida). Etimologicamente, Abraão, do hebraico Abhraham, quer dizer o pai é exaltado. No Gênesis, ele será chamado de o pai de todas as nações. O pacto foi estabelecido em Harran (cidade da Mesopotâmia) entre Yahvé, sob o nome de El Shaddai, e Abraão.

CIRCUNCISÃO  DE  JESUS ( FRIEDRICH  HERLIN , C. 1460)

Judeus que não fizessem a circuncisão estariam excluídos do pacto celebrado. Deste pacto fazia parte também a promessa de uma numerosa descendência, que viria através de Ismael (origem dos povos do deserto, os beduínos), filho dele, Abraão, e da serva Agar (concubina); de Isaac, filho dele e de sua esposa Sarah. Com a morte dela, Abraão uniu-se a outra concubina, Quetura, e com ela teve mais seis filhos. A aliança foi renovada por Moisés no Monte Sinai, nela se incluindo os dez mandamentos entregues por Deus, dando-se o nome de Torá (etimologicamente, ensinamento) à primeira expressão dessa aliança. 

MOISÉS  NO MONTE  SINAI (NICOLAS  DE  VERDUN, 1130 - 1205)


CATECISMO
Os dez mandamentos entregues a Moisés são os seguintes: 1) Não terás outros deuses diante de mim; 2) Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu; 3) Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; 4) Que do dia do shabat se faça um memorial, tomando-o como sagrado;5) Honra teu pai e tua mãe; 6) Não matarás; 7) Não cometerás adultério; 8) Não furtarás; 9) Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo; 10) Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem tudo que a ele pertencer. Jesus, como está em Mateus (22:37-40), no Novo Testamento, resumiu o que está acima em dois grandes mandamentos: 1) Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. 2) Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.


Os mandamentos que Moisés recebeu, considerados mais de perto, não estabelecem, a rigor, as bases para a fundação de uma religião, pois constituem muito mais um conjunto de leis e de regras do que propriamente uma religião revelada. Leis e regras morais com um caráter imperativo que conscientizadas ditam um comportamento que impossibilita aquele que delas toma conhecimento de praticar certos atos, roubar, matar, mentir, cobiçar o que é dos outros e assim por diante. Além do mais, os mandamentos têm um sentido prático, de alcance social, na medida em que impõem obrigações relacionadas com a vida coletiva. 

ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( 1966 , MARC  CHAGALL )
Moisés, ao descer do monte Sinai, encontrou seu povo adorando um bezerro de ouro, eguel ha-zahav, em hebraico. Ficou muito enfurecido, quebrando as duas tábuas que recebera de Deus. Aarão, irmão de Moisés e de Miriam, foi o responsável pela construção do bezerro com o ouro obtido dos seus irmãos judeus, procedimento que, em última instância, significou a substituição da vida espiritual pela vida material.

Os dez mandamentos judaicos no mundo cristão passaram a ter a seguinte redação, conforme Compêndio do Catecismo da Igreja Católica: 1) Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas; 2) Não usar seu santo nome em vã; 3) Santificar os domingos e festas de guarda; 4) Honrar pai e mãe e os outros legítimos superiores; 5) Não matar, nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo; 6) Guardar castidade nas palavras e nas obras. 7) Não furtar nem justamente reter ou danificar bens do próximo; 8) Não levantar falsos testemunhos nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo; 9) Guardar castidade nos pensamentos e desejos; 10) Não cobiçar as coisas alheias. Segundo o cristianismo, quem ouve os dez mandamentos e os coloca em prática tem vida eterna. Os mandamentos enunciam os deveres fundamentais do católico para com Deus, para com seu próximo e para com a Igreja.

TALMUD
(C.1960, MARC CHAGALL
)
Os judeus designam o pecado pela palavra chet, que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo a Deus, é admitido. Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus, entretanto, permitiu que, tendo optado pelo Mal, o homem, desde que arrependido, pudesse voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.

SANTO  AGOSTINHO ( 1645 , PHILIPPE  DE  CHAMPAIGNE )

No catolicismo, Santo Agostinho vai pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja sempre insistiram num ponto: qualquer pecado é um abuso de liberdade. São Paulo já havia discorrido sobre a universalidade do pecado e da imensa miséria que oprimia o homem.

As religiões fundadas a partir da Bíblia deixaram de lado, porém, até hoje uma questão fundamental, a do livre-arbítrio, ou melhor, o problema de como se evitar que interferências desconhecidas influenciem nossas decisões. Tanto as religiões como a ciência não conseguiram até hoje resolver esse problema. O estudo da Verdade proclamada pelas religiões ou pela filosofia (ética, moral)  não têm sido capaz de fazer com que os homens consigam pôr em prática os seus preceitos. Desde a antiguidade, o conhecimento das religiões sempre se manteve apenas teórico, condenado a se mostrar impotente diante das referidas influências. Basta ver, por exemplo, como continuamos roubando e matando cada vez mais, inclusive em nome das religiões.

Renovando-se constantemente, tais influências nos mantêm numa espantosa maioria em experiências de vida totalmente condicionadas. Nenhuma intervenção religiosa tem se mostrado válida para eliminar a ignorância, isto é, os tremendos fatores de servidão que nos aprisionam, que nos impedem de melhorar a nossa capacidade de discernir realmente o que mais interessa ao homem individual ou coletivamente, tendo-se em vista o reino dos Céus. Quaisquer que sejam os nomes que possamos dar a esses fatores, dinheiro, poder, egoísmo, ignorância, ódio, prazer, vingança, sucesso, eles, como se diz popularmente, desde que o mundo é mundo, vêm nos aprisionando cada vez mais.   

ANJO  SORRIDENTE
CATEDRAL DE REIMS
O que as religiões nos ofereceram, como meio mais eficaz, para nos ajudar quanto ao que está acima, a vencer as forças da servidão do Mal que nos subjugam, foi a intervenção dos anjos. Em todas as tradições religiosas não só oriundas do Antigo e do Novo Testamento encontramos a ideia, a crença, melhor dizendo, de que seres espirituais superiores atuariam como intermediários entre o divino e o humano. A palavra anjo veio para a língua portuguesa através do grego (angelos) e do latim (angelus), com o sentido de mensageiro, intermediário ou daquele que anuncia. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo é um ser puramente espiritual, servidor de Deus, e seu mensageiro com relação aos humanos.  

Recebem também essas entidades genericamente o nome de anjos da guarda, já que uma de suas principais funções é a de tomar conta das almas (vida interior) dos seres humanos, de velar continuamente por eles, defendendo-os e guardando-os. Neste sentido, são um símbolo da própria consciência humana. Muitos os conhecem pelo nome de anjos custódios, palavra que tem o mesmo sentido. Custodiar é proteger, defender, guardar. Segundo o catolicismo, os anjos foram criados num estado de graça e de felicidade, com a liberdade de escolher entre o bem e o mal.
Os  anjos, como potências  invisíveis,  têm  correspondência com valores humanos, representando desde a mais alta espiritualidade, a vida mística, até o seu nível mais baixo, o dos seres que se entregam totalmente aos estados mais abjetos da sua vida instintiva. No primeiro caso, a iconografia, em função da sua elevação e imaterialidade, os representa com asas e sempre vestidos de branco. Já sob o ponto de vista da Psicologia, representam os anjos as energias positivas ou negativas do inconsciente. Alguns anjos, como se sabe, pecaram por orgulho e foram condenados eternamente, como demônios, ao mundo infernal, instigando o homem a optar sempre pelo caminho do mal. Jung considera que os demônios representam as funções inferiores que atuam na escuridão do subconsciente humano. Historicamente, lembremos que os anjos, ao mais recuadamente que possamos chegar, são entidade encontradas em antigas crenças astrais assiro-babilônicas que, espalhando-se pelo mundo semítico, foram utilizadas depois pelo monoteísmo dos hebreus com o nome de malachim, classificados em diversas hierarquias. 

ADÃO  E  EVA  NO  JARDIM  DO  ÉDEN
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

O catolicismo classifica os pecados de três maneiras: 1) Pecado original ou adâmico: dele participam todos os seres humanos devido à sua origem. Adão e Eva, ao comer dos frutos de uma árvore que Deus lhes mostrara, proibindo-os de deles provar, foram expulsos do paraíso. Esta expulsão definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte. Pelo sacramento do batismo, estabelecido mais tarde, este pecado pode ser perdoado.


SATÃ
(GUSTAVE  DORÉ,1832-1883)
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem e o que é do Mal, isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. Livre arbítrio, como se sabe, é a possibilidade que tem o ser humano, em função de sua vontade, de decidir sobre alguma coisa, sem a interferência de qualquer condicionamento, motivo ou causa. 

Renovando-se constantemente, tais influências nos mantêm (segundo as religiões fundadas a partir da Bíblia), numa espantosa maioria, inclusive os que se dizem religiosos, em experiências de vida totalmente condicionadas. Nenhuma intervenção religiosa tem se mostrado válida para eliminar a ignorância, isto é, os tremendos fatores de servidão que nos aprisionam, para melhorar a nossa capacidade de discernir realmente o que mais interessa ao homem individual ou coletivamente. 


SITRA  ACHRA
O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, O Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda, e governadas por Samael e Lilith. Samael é o príncipe dos demônios, chefe dos anjos que foram expulsos do céu. Lilith foi a primeira mulher de Adão, criada juntamente com ele por Deus, em condições de igualdade. Ao perceber que Adão, com a concordância de Deus, não a consideraria como uma igual, Lilith fugiu para o mar Vermelho, unindo-se em seguida a Samael, tornando-se a principal figura feminina do Mal.

Os judeus dão também o nome de Agrat Bat Mahalata, a uma rainha dos demônios, neta do Ismael bíblico, que anda pelo mundo a espalhar o Mal. Concubina de Samael, teve seus poderes controlados pelo sábio Chanina Ben Dosa, que lhe permitiu apenas atuar nas noites de terça e de sexta-feira, recomendando-se que nenhum judeu saia sozinho nessas noites. Chanina Bem Dosa, natural da Galileia, foi um famoso operador de milagres, asceta, que viveu no primeiro século da era cristã. 

ADÃO  E  EVA
PETER PAUL RUBENS,1577-1640
Para dar a Adão uma parceira, Deus a ligou às costelas dele, ao seu flanco, formando uma espécie de ser andrógino, separando-a depois. Esse feminino recebeu o nome de Eva, promovendo o próprio Deus o casamento de ambos, uma cerimônia na qual tomaram parte muitos anjos, tudo com muita música e dança. Adão é nome que lembra barro, húmus, limo, lama vermelha. Para outros, o nome, ao que parece, vem de adamah, do hebraico, terra arável. Outros ainda relacionam o nome Adão ao assírio adamu, verbo que significa fazer, produzir.

Eva, segundo o Gênesis, é nome que vem de Hawwah, mãe de todos os seres que vivem, nome dado à segunda mulher de Adão depois da expulsão do paraíso. Antes de deixar o paraíso, ela se chamava Aicha (vivente) ou Icha (esposa), palavra que se aproxima de iccha, desejo, em sânscrito. O nome Eva também lembra awwah, desejo, em hebraico. Eva poderia ainda vir de Heba, esposa do deus hitita das tempestades.

O mundo judaico-cristão, profundamente misógino, ao invés de considerar Eva como uma iniciadora, pois Adão, isto é, o homem, sem ela, jamais teria adquirido uma consciência, sempre preferiu vê-la como responsável pela perdição da humanidade. A destacar ainda, quanto à grafia do nome Eva ou Ava, em várias línguas, que dele faz parte a letra V, que nos lembra o triângulo, forma sempre associada ao sexo feminino.  
   
SAMAEL  E  GABRIEL
(GUSTAVE DORÉ,1832-1883
)
São os pecados dos homens que, segundo o judaísmo, nutrem o Sitra achra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel, sendo então expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam.

À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do
A QUEDA DO HOMEM
CATEDRAL NOTRE- DAME, PARIS
Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O judaísmo e o islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. Participando desse entendimento, o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege.

O Talmud (literalmente, estudo em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que Samael, na forma de uma serpente, se uniu a Eva no Jardim do Éden nela injetando a sua peçonha, que foi transmitida a todos os seus descendentes. As forças satânicas do Sitra Achra, desde então, tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. 

O  BATISMO (ANDREA DEL VERROCHIO,1435-1488)

O batismo, no cristianismo, como rito de agregação, elimina os efeitos do pecado original, abrindo as portas da vida cristã. Pode ser feito por mergulho (do grego baptismós, mergulho, imersão, ablução) ou por aspersão. Torna aquele que o recebe cristão católico para sempre. Formalmente, requer que sejam utilizados a água (renascimento, origem da vida), o óleo (relacionado com uma preparação para os embates da vida; quem o usava, antes de entrar nos combates, para melhor lutar, eram os lutadores romanos), a vela (o brilho,  uma luz nova) e as vestes brancas (entrar puro na nova vida).