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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A IRA II



SANTO   TOMÁS
Santo Tomás, seguindo Gregório, indica as seis filhas da ira: rixa, perturbação da mente, insultos, clamor, indignação e blasfêmia, consideradas sob três aspectos, a ira no coração, na boca e nas ações. Citou-as nesta ordem, embora achemos que a perturbação da mente devesse ter sido mencionada em primeiro lugar. Rixa é estado de hostilidade entre pessoas ou grupos, é contenda, tumulto, caso que pode ser considerado como uma contravenção penal. Clamor, insultos e blasfêmias são da boca ou do corpo (braços e pernas) enquanto gritaria, palavras (insultos), atitudes ou gestos que têm o poder de atingir a dignidade de alguém. Blasfêmia é palavra que insulta o sagrado, ato de rogar pragas, amaldiçoar.


INVEJA  ( EDVARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

A sinonímia da ira é vasta. Ela pode se manifestar de várias maneiras. Anda sempre, de modo especial, como se disse, na companhia de três sentimentos igualmente intensos, dominadores, como a inveja, o ciúme e o medo... Lá no fundo, todos sabemos, mais ou menos claramente, que o ser humano odeia o que lhe causa incômodo, desprazer, mal-estar, ou seja, qualquer tipo de sofrimento. Como fenômeno da vida afetiva, a ira é algo que se impõe. Por isso, é preciso reconhecer que não temos ira, mas, ao contrário, é ela que nos tem, sempre uma paixão, como sobre ela falaram Santo Agostinho, Montaigne ou Descartes.

Muitas vezes, ouvimos: tenho ódio. Mas ódio de quê, de quem? Embora tenhamos aprendido, desde a infância, a distinguir os sentimentos positivos e elogiáveis dos socialmente negativos e reprováveis, quanto mal já não fizemos e continuamos a fazer por causa das várias formas de ódio que alimentamos inconscientemente, de um modo disfarçado, escondido ou recalcado. Todos os que escreveram sobre o ódio, filósofos, poetas, sociólogos, teólogos, psicólogos, religiosos, escritores, ou simplesmente os que o vivem e sobre ele falam, são unânimes na afirmação de que a energia desse sentimento é tão poderosa que pode transformar inteiramente a vida de quem é possuído por ele. Ele vive dentro das casas, está em todos os relacionamentos humanos, paira nas ruas, espalha-se como um vírus.


O ÓDIO , 1896 ( PIETRO  PAJETA )

Um exemplo que comumente encontramos no nosso quotidiano é o da ira entre os membros de uma mesma família, entre irmãos. O ódio entre os gêmeos parece ser o mais perturbador. Em todas as culturas e mitologias encontramos histórias sobre os gêmeos e o ódio que sentem um pelo outro. O fenômeno dos gêmeos sempre colocou, desde a antiguidade, o problema da ambivalência, exprimindo, nesse caso citado, uma oposição entre forças da luz e forças das trevas. Simbolizam eles, no fundo, a própria dualidade do ser humano, as suas oposições internas e o conflito que devem enfrentar para superá-las. Caim e Abel, Rômulo e Remo, Esaú e Jacob são exemplos clássicos destas oposições. Inúmeras histórias apresentam os gêmeos como antagonistas, um bom e outro mau, este último sempre criando obstáculos para perturbar a relação entre ambos.

CAIM  E  ABEL
( PIETRO  NOVELLI , 1603 - 1647 )
Um dos principais ingredientes da psicologia das multidões no capítulo da violência coletiva é o ódio. É ele o responsável tanto pelo arrebatamento como pelo sentimento de agressividade que se apossa em determinadas ocasiões dos grandes grupos humanos, das multidões, O linchamento é um dos aspectos deste ódio. O ódio acionado coletivamente provoca o dogmatismo, a intolerância e traz também a ideia de irresponsabilidade, pois todos o sentem. O ódio dá unanimidade; como todos são culpados, ninguém é culpado. O ódio, nesta perspectiva, é um sentimento simples, extremado, intenso. Ademais, opera por contágio. No linchamento, o ódio é um gatilho que, quando disparado, não há como fazê-lo voltar atrás.

WILLIAM  LYNCH
Linchar é executar sumariamente, sem julgamento regular e por decisão coletiva, um criminoso ou alguém suspeito de sê-lo. É a chamada lei de Lynch, que apareceu nos USA como um instrumento de justiça dos brancos racistas. Quase todas as vítimas de linchamento eram negras. Quem a instituiu, ao final do séc. XVIII, foi um fazendeiro da Virgínia, William Lynch. Criminosos apanhados em flagrante, muitas vezes forjado, eram sumariamente liquidados. Existe uma copiosa literatura sobre o linchamento, tanto histórica como sociológica e jurídica. Distinguem-se dois tipos de linchamento. Um é bem ordenado, limpo como o chamavam os especialistas, praticado por gente rica, limitado o castigo apenas ao criminoso, O outro é o chamado coletivo, praticado por grupos, no qual podem tomar parte várias pessoas; é desordenado, difuso, e pode gerar outras formas de violência muitas vezes incontroláveis, como incêndios, quebra-quebras etc. 

FREUD
(W.V. KRAUSZ, 1878-1959)
Segundo Freud, o ódio é uma paixão que procura a destruição do seu objeto. Ódio e destruição. assim, caminham juntos. Quando odiamos, quando estamos irados, queremos, no fundo, destruir. Essa vontade de destruição está associada a objetos ou seres que sejam fonte de uma sensação de desprazer, de dor, de incômodo, de sofrimento para nós. Pessoas próximas ou distantes, familiares, podem merecer todo o nosso ódio. O ódio não admitido por um parente volta-se geralmente contra a própria pessoa, muitas vezes na forma de uma culpa autopunitiva, de somatizações. O masoquismo, nesse caso, é outro companheiro do ódio. Masoquismo, como sabemos, é um comportamento, inclusive sexual, através do qual uma pessoa tem necessidade de sentir dor e
L.S. VON MASOCH
humilhação para obter alguma coisa, algum prazer. Chega esse comportamento às vezes ao sadomasoquismo, fazer sofrer e sofrer ao mesmo tempo. O nome deriva de cenas descritas nos livros de Leopold Sacher von Masoch (1836-1895), nobre, escritor e jornalista austríaco. Como exemplo, Freud cita casos de ódio entre mãe e filha, na luta mais ou menos explícita que ambas podem travar para serem amadas pelo pai, de forma exclusiva; o ódio entre irmãos ou irmãs, na luta pelo amor parental etc. 

Freud insiste na tendência inata à maldade, à agressão, à destruição, à crueldade. Socialmente, isso, para ele, é desastroso, já que o homem satisfaz sua aspiração ao gozo, a viver bem, segundo esse entendimento, à custa do seu próximo. Para viver em sociedade, é necessário renunciar a toda essa agressividade, o que nem sempre se consegue. Procura-se então um derivativo que receba a carga destrutiva que acumulamos. Este derivativo pode ser buscado fora da comunidade, do país, da classe social, exportado etc. “Criam-se” inimigos para receber toda a agressividade recalcada. Isto pode acontecer internamente, também. Alguém precisa ser satanizado, para que nos sintamos aliviados. 

BODE EXPIATÓRIO
( W. J. WEBB - 1830 - 1904 )
Um exemplo disto é o tema universal do bode expiatório, que nos vem desde a mais remota antiguidade. Elegemos um bode expiatório, que passa a receber todo o nosso ódio. Projetamos nele toda nossa culpa a fim de tranquilizar a nossa consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de uma punição, de uma vítima. Sacrificado o bode expiatório, nos aquietamos, ficamos tranquilos, pelo menos por uns tempos. Um dos melhores exemplos do que aqui se fala está nas touradas. Como não sabemos lidar com a nossa besta interior (a nossa vida instintiva), a mantemos intocada, montando um espetáculo de sangue, violência e morte para que alguém, o toureiro, no qual nos projetamos, se encarregue, em nosso nome, de matá-la simbolicamente numa arena através do sacrifício de um touro. 

Lembramos que a tradição do bode expiatório é universal e funciona em ambientes familiares, em locais de trabalho, na vida escolar, nos meios de comunicação de massa, na política, onde quer que pessoas se agrupem para fazer alguma coisa. É muito usada por pessoas, grupos sociais ou pela própria sociedade como um todo, que nada faz, para projetar a sua culpa (a sua inércia, o seu comodismo, o apego aos seus privilégios, a sua hipocrisia, a sua má-fé etc.) e aquietar a sua consciência que sempre tem necessidade, como se disse, de um culpado, de um castigo e de uma vítima.

Qualquer pessoa medianamente informada sabe que o Judaísmo e duas dissidências suas, o Cristianismo e o Islamismo, satanizaram e continuam satanizando a mulher, cada um à sua maneira. As três são consideradas religiões patriarcais porque defendem o poder do pai e a ideologia que ele representa, quer em termos religiosos, políticos, econômicos, sociais ou familiares, mesmo que formalmente esse poder possa ser exercido por mulheres, como encontramos alguns exemplos no passado e no mundo atual.


LILITH
Entre os judeus, um dos mais significativos exemplos dessa atitude, um verdadeiro ódio com relação à mulher, está na Bíblia. No Gênese, registra-se que Deus criou o macho e a fêmea em condições de igualdade. Contudo, o macho, com o beneplácito divino, não deu à fêmea tal condição. Rebelando-se, ela fugiu para o deserto e dali passou ao mar Vermelho. Os judeus deram a esta primeira mulher de Adão o nome de Lilith, considerando-a como um demônio e rainha da noite,
SITRA ACHRA
unindo-se ela a Samael, o senhor das trevas do Sitra Achra (o Reino do Mal). Belíssima, sedutora, além de raptora de crianças, ela ataca aqueles (homens) que, através de suas poluções noturnas, dormem sozinhos para ter com eles filhos-demônios. Eva só aparece mencionada no capítulo seguinte, como um produto masculino, inteiramente submissa a Adão, seu senhor e mestre. 

Samael, esposo de Lilith, na forma de uma
serpente-demônio, seduziu Eva, o que provocou a expulsão dela e de seu esposo Adão do paraíso. Lilith reina sobretudo nas sextas-feiras e é representada comumente sob os traços de uma mulher nua com a parte inferior do corpo pisciforme, numa evocação direta da imagem das primeiras sereias.    

Entre os judeus, hoje, apesar de todos os “avanços” (mulheres disputando o rabinato, seu acesso aos textos religiosos etc.), na liturgia tradicional, nos chamados agradecimentos matinais feitos a Deus, ainda têm muito valor frases como esta: 
Bendito sejas Tu, Rei do Universo, que não me fizestes mulher. 

Quanto ao Islã, basta citar apenas, em que pesem diferenças entre alguns países, para caracterizar a profunda desigualdade entre homens e mulheres, que a poligamia continua como uma prerrogativa masculina, que a mulher para trabalhar e se educar fora de casa precisa de autorização do poder masculino ao qual estiver subordinada, que a estética feminina continua como uma imposição masculina etc. etc. etc.

Ainda recentemente (estamos em 2019), na Arábia Saudita, foi noticiado pela imprensa que cobre o oriente e pelas redes sociais (Internet, Twitter etc.) que o Mufti (jurisconsulto, erudito, imã) da Arábia saudita, o sheikh Abdul Aziz Al-Sheikh, expediu uma nova fatwa, aviso religioso que tem a força de orientação legal, sem ser propriamente uma lei. Esse aviso é geralmente baixado pela figura
LEI  SHARIA
religiosa mais elevada no mundo islâmico. No exemplo ora citado, se declara que o homem pode comer a sua mulher no caso de estar submetido a situações de fome severa. Homens podem, assim, de acordo com a Sharia, a lei islâmica, comer partes do corpo de sua mulher até que a sua fome seja satisfeita. O Mufti disse, para justificar a sua proclamação, que ela é uma evidência do sacrifício que as mulheres devem fazer com relação aos seus maridos e que, com isto, elas estarão dando uma demonstração suprema de união com a carne deles. Esclareceram mais os meios religiosos sauditas que a fatwa do Grande Mufti deve ser seguida pelos muçulmanos de todo o mundo. 

TERTULIANO
No Cristianismo, os exemplos abundam. Lembremos inicialmente de Tertuliano (155-222), o primeiro dos escritores cristãos, que exerceu na África do Norte um verdadeiro magistério doutoral, sendo muito grande a sua influência na formação da linguagem teológica do cristianismo latino. São dele as seguintes palavras (De Cultu Feminarum) sobre a mulher: Mulher, tu és a porta do Diabo. Foste tu que tocaste a árvore de Satã e a primeira a violar a lei divina. Com efeito, sempre responsabilizada pela queda do gênero humano, excluída, em

SÃO JOÃO CRISÓSTOMO
inúmeras religiões cristãs ou não, do sacerdócio, a mulher sempre recebeu qualificativos muito depreciativos. Aristóteles, o sábio estagirita, adotado pelo tomismo, a chamou de macho mutilado. São João Crisóstomo, um pouco mais suave, disse: a mulher é uma ferida da natureza sob a máscara da beleza. Se formos à filosofia (Schopenhauer, Michelet, Proudhon, Hegel, Nietzsche etc.) encontramos também os mesmos ataques às mulheres. Do último citado, temos esta “pérola”: A mulher foi o segundo erro de Deus.

Poucos admitem o ódio que sentem por si mesmos porque gostariam de ser diferentes e não conseguem.  Mas esse ódio é um fenômeno universal, como podemos constatar. Na história das religiões, temos o exemplo de pessoas que, embora o desejem, encontram muita dificuldade para se afirmar na vida, por razões diversas: tomadas por um grande idealismo, por uma incontida ânsia de espiritualidade, alegando muitas vezes desprezar as coisas mundanas, costumam desenvolver uma pulsão tão agressiva contra o seu próprio corpo físico que se entregam a certas práticas que podem ser consideradas como formas disfarçadas de um suicídio lento. Fazem parte dessas práticas o abandono do mundo, a renúncia a um nome, ao ambiente familiar e a entrega a formas severas de mortificação. Este último aspecto aparece muitas vezes nas religiões sob o nome de ascetismo (askeo, em grego, exercitar-se), que se caracteriza sobretudo pela renúncia ao prazer sexual e muitas vezes pela recusa à satisfação de outras necessidades básicas. 

STENDHAL
Daí, quanto a este item, os vários motivos de pessoas que se dizem religiosas, motivos no mais das vezes inconscientes. Muitas vocações religiosas são, no fundo, refúgio; medo do sexo; saída para desilusões sentimentais; forma de evitar a angústia das escolhas diante das exigências da vida;  egolatria disfarçada (complexo de Moisés: querer guiar, salvar ou influenciar pessoas), como meio de resolver os seus problemas materiais da
DE J. RIVETTE, 1966
existência, ficando asseguradas casa, comida e, dependendo da personalidade de cada um, maior ou menor possibilidade de ascensão na carreira religiosa e/ou social. O romance
O Vermelho e O Negro, de Stendhal, dentre os vários aspectos de sua grandeza, é um dos melhores exemplos do que se expõe aqui). Outro exemplo: a capitulação diante da filosofia de um tempo, conforme se pode ler em A Religiosa, romance de Diderot, que serviu de roteiro para os belíssimos filmes que dele fizeram Jacques Rivette e Guillaume Nicloux). Aliás, a visão que Diderot tinha das mulheres e do
DE G. NICLOUX, 2013 
feminino é uma clara contestação das envergonhadas razões dos que tentam encontrar desculpas para o machismo de filósofos. Em pleno século XVIII, lá está em
Sobre as Mulheres: mulheres, como eu vos lastimo! Não havia senão uma compensação para vossos males; e se eu fosse legislador, talvez a tivésseis obtido. Libertas de toda servidão, vós seríeis sagradas em qualquer lugar em que tivésseis aparecido.










sábado, 9 de novembro de 2019

DOS PECADOS - I

  
OS  SETE  PECADOS ( HIERONYMUS  BOSCH , 1450 - 1516 )

Os dicionários definem o pecado como a violação de um preceito religioso. É sempre uma desobediência a qualquer norma de conduta estabelecida pelas religiões. Pecado, na antiga Roma, de peccare, latim, era simplesmente cometer uma falta qualquer. Quando o cristianismo se tornou religião oficial do império, a palavra passou a ser usada no sentido religioso também. Peccare, na origem, significava tropeçar. Peccus era a palavra latina que se usava para designar o que andava mal, o manco, o perneta. 

Os preceitos religiosos mais simples que os adeptos das religiões deviam observar foram reunidos sob o nome de mandamentos. Eles deram base ao que se chamou de moral, regras de vida e de convivência, desta ou daquela religião. Estas regras são, sobretudo, de foro íntimo, isto é, ligam-se antes mais ao âmbito da individualidade de cada um, segundo a própria consciência, e depois à vida em comum.
Muitos dos mandamentos estabelecidos pelas religiões podem ser desrespeitados sem que nada aconteça ao pecador. Por exemplo, o pecado da gula. Já outros mandamentos, ao fazer parte da estrutura jurídica das várias sociedades, tipificam contravenções, delitos ou crimes. Neste caso, é o Estado a fonte material de um direito a que se deu o nome de penal, uma vez que é o legislador quem cria as normas penais, dadas ao conhecimento de todos por meio de leis.  A fonte do Direito Penal é, pois, a lei e subsidiariamente, dentre outros elementos, os costumes, a analogia, a equidade, os tratados e convenções internacionais estabelecidos. 


INVEJA  ( EDVARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Cabe ao Estado, assim, fixar as normas penais a cuja observância os indivíduos podem ser compelidos mediante coerção (jus puniendi). A estas normas todos estão vinculados. O mesmo não acontece com relação aos mandamentos religiosos, como se disse acima. Posso ser, por exemplo, uma pessoa invejosa e nem por isso serei punido pelo Estado. O pecado da Inveja, como se sabe, está tipificado como pecado mortal pela Igreja Católica.


Chama-se no Direito Canônico, na Igreja Católica (etimologicamente, do grego katholikós, de kata, para baixo, e holos, para todos, isto é, para baixo e para todos, universal), o conjunto de leis e regulamentos feitos ou adotados por ela para o governo da organização cristã católica e de seus membros. Cada religião cristã, além da católica, como a anglicana, a ortodoxa, a presbiteriana e a luterana, tem hoje o seu Direito Canônico (canon, em grego, é lei, princípio,  medida).

O catolicismo adotou, como mandamentos, o Decálogo (do grego, dez ditos, dez palavras), nome dado a um conjunto de normas que, segundo a Bíblia (Antigo Testamento), teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas (Tábuas da Lei) de pedra e entregues ao profeta Moisés no alto do Monte Sinai. Nessas placas recebidas por Moisés estavam sintetizadas as normas que deveriam orientar a vida dos crentes. Os dez mandamentos aparecem mencionados em dois livros do Antigo Testamento, no Êxodo e no Deuteronômio. 


MOISÉS  RECEBENDO  AS  TÁBUAS  DA  LEI
( 1868 , JOÃO ZEFERINO  DA  COSTA )


Moisés é nome que vem do hebraico, Moxeh ou Mosheh, este por sua vez originário do egípcio, mes, mesu, que tanto significa filho como servo. O nome do nosso profeta, ao que parece, faz parte do nome Ramsés, servo de Ra, nome de vários faraós da 19ª e da 20ª dinastias, chamados ramessessidas. Alguns estudiosos hebraicos fazem o nome Moisés derivar do verbo retirar (msh). No geral, historicamente Moisés é situado no séc. XIII aC., como membro da tribo de Levi. Abandonado ao nascer, nas águas de um rio, foi acolhido pela filha do faraó, que o educou como um filho. Adulto, Moisés matou um egípcio que maltratava um judeu (tomara conhecimento da sua origem hebraica por volta dos 40 anos) indo, por isso, se refugiar no país de Madian, a leste do Sinai, lá se casando com a filha de um sacerdote de nome Jethro. 

ABRAÃO , À DIREITA
CATEDRAL DE CHARTRES
Os mandamentos acima mencionados representam as cláusulas da aliança concluída entre Deus e Israel e neles estavam fixadas as bases religiosas que iriam orientar a vida política e social do povo israelita. A aliança (berit, em hebraico) faz referência ao acordo estabelecido entre o primeiro patriarca Abraão, que vivia em Ur (cidade da Suméria, na antiguidade situada na embocadura do rio Eufrates) e Deus, Yahvé, nele estando incluídos itens como a circuncisão dele e de seus descendentes homens e a doação de terras a Israel (Canaã, a Terra Prometida). Etimologicamente, Abraão, do hebraico Abhraham, quer dizer o pai é exaltado. No Gênesis, ele será chamado de o pai de todas as nações. O pacto foi estabelecido em Harran (cidade da Mesopotâmia) entre Yahvé, sob o nome de El Shaddai, e Abraão.

CIRCUNCISÃO  DE  JESUS ( FRIEDRICH  HERLIN , C. 1460)

Judeus que não fizessem a circuncisão estariam excluídos do pacto celebrado. Deste pacto fazia parte também a promessa de uma numerosa descendência, que viria através de Ismael (origem dos povos do deserto, os beduínos), filho dele, Abraão, e da serva Agar (concubina); de Isaac, filho dele e de sua esposa Sarah. Com a morte dela, Abraão uniu-se a outra concubina, Quetura, e com ela teve mais seis filhos. A aliança foi renovada por Moisés no Monte Sinai, nela se incluindo os dez mandamentos entregues por Deus, dando-se o nome de Torá (etimologicamente, ensinamento) à primeira expressão dessa aliança. 

MOISÉS  NO MONTE  SINAI (NICOLAS  DE  VERDUN, 1130 - 1205)


CATECISMO
Os dez mandamentos entregues a Moisés são os seguintes: 1) Não terás outros deuses diante de mim; 2) Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu; 3) Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; 4) Que do dia do shabat se faça um memorial, tomando-o como sagrado;5) Honra teu pai e tua mãe; 6) Não matarás; 7) Não cometerás adultério; 8) Não furtarás; 9) Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo; 10) Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem tudo que a ele pertencer. Jesus, como está em Mateus (22:37-40), no Novo Testamento, resumiu o que está acima em dois grandes mandamentos: 1) Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. 2) Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.


Os mandamentos que Moisés recebeu, considerados mais de perto, não estabelecem, a rigor, as bases para a fundação de uma religião, pois constituem muito mais um conjunto de leis e de regras do que propriamente uma religião revelada. Leis e regras morais com um caráter imperativo que conscientizadas ditam um comportamento que impossibilita aquele que delas toma conhecimento de praticar certos atos, roubar, matar, mentir, cobiçar o que é dos outros e assim por diante. Além do mais, os mandamentos têm um sentido prático, de alcance social, na medida em que impõem obrigações relacionadas com a vida coletiva. 

ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( 1966 , MARC  CHAGALL )
Moisés, ao descer do monte Sinai, encontrou seu povo adorando um bezerro de ouro, eguel ha-zahav, em hebraico. Ficou muito enfurecido, quebrando as duas tábuas que recebera de Deus. Aarão, irmão de Moisés e de Miriam, foi o responsável pela construção do bezerro com o ouro obtido dos seus irmãos judeus, procedimento que, em última instância, significou a substituição da vida espiritual pela vida material.

Os dez mandamentos judaicos no mundo cristão passaram a ter a seguinte redação, conforme Compêndio do Catecismo da Igreja Católica: 1) Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas; 2) Não usar seu santo nome em vã; 3) Santificar os domingos e festas de guarda; 4) Honrar pai e mãe e os outros legítimos superiores; 5) Não matar, nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo; 6) Guardar castidade nas palavras e nas obras. 7) Não furtar nem justamente reter ou danificar bens do próximo; 8) Não levantar falsos testemunhos nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo; 9) Guardar castidade nos pensamentos e desejos; 10) Não cobiçar as coisas alheias. Segundo o cristianismo, quem ouve os dez mandamentos e os coloca em prática tem vida eterna. Os mandamentos enunciam os deveres fundamentais do católico para com Deus, para com seu próximo e para com a Igreja.

TALMUD
(C.1960, MARC CHAGALL
)
Os judeus designam o pecado pela palavra chet, que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo a Deus, é admitido. Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus, entretanto, permitiu que, tendo optado pelo Mal, o homem, desde que arrependido, pudesse voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.

SANTO  AGOSTINHO ( 1645 , PHILIPPE  DE  CHAMPAIGNE )

No catolicismo, Santo Agostinho vai pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja sempre insistiram num ponto: qualquer pecado é um abuso de liberdade. São Paulo já havia discorrido sobre a universalidade do pecado e da imensa miséria que oprimia o homem.

As religiões fundadas a partir da Bíblia deixaram de lado, porém, até hoje uma questão fundamental, a do livre-arbítrio, ou melhor, o problema de como se evitar que interferências desconhecidas influenciem nossas decisões. Tanto as religiões como a ciência não conseguiram até hoje resolver esse problema. O estudo da Verdade proclamada pelas religiões ou pela filosofia (ética, moral)  não têm sido capaz de fazer com que os homens consigam pôr em prática os seus preceitos. Desde a antiguidade, o conhecimento das religiões sempre se manteve apenas teórico, condenado a se mostrar impotente diante das referidas influências. Basta ver, por exemplo, como continuamos roubando e matando cada vez mais, inclusive em nome das religiões.

Renovando-se constantemente, tais influências nos mantêm numa espantosa maioria em experiências de vida totalmente condicionadas. Nenhuma intervenção religiosa tem se mostrado válida para eliminar a ignorância, isto é, os tremendos fatores de servidão que nos aprisionam, que nos impedem de melhorar a nossa capacidade de discernir realmente o que mais interessa ao homem individual ou coletivamente, tendo-se em vista o reino dos Céus. Quaisquer que sejam os nomes que possamos dar a esses fatores, dinheiro, poder, egoísmo, ignorância, ódio, prazer, vingança, sucesso, eles, como se diz popularmente, desde que o mundo é mundo, vêm nos aprisionando cada vez mais.   

ANJO  SORRIDENTE
CATEDRAL DE REIMS
O que as religiões nos ofereceram, como meio mais eficaz, para nos ajudar quanto ao que está acima, a vencer as forças da servidão do Mal que nos subjugam, foi a intervenção dos anjos. Em todas as tradições religiosas não só oriundas do Antigo e do Novo Testamento encontramos a ideia, a crença, melhor dizendo, de que seres espirituais superiores atuariam como intermediários entre o divino e o humano. A palavra anjo veio para a língua portuguesa através do grego (angelos) e do latim (angelus), com o sentido de mensageiro, intermediário ou daquele que anuncia. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo é um ser puramente espiritual, servidor de Deus, e seu mensageiro com relação aos humanos.  

Recebem também essas entidades genericamente o nome de anjos da guarda, já que uma de suas principais funções é a de tomar conta das almas (vida interior) dos seres humanos, de velar continuamente por eles, defendendo-os e guardando-os. Neste sentido, são um símbolo da própria consciência humana. Muitos os conhecem pelo nome de anjos custódios, palavra que tem o mesmo sentido. Custodiar é proteger, defender, guardar. Segundo o catolicismo, os anjos foram criados num estado de graça e de felicidade, com a liberdade de escolher entre o bem e o mal.
Os  anjos, como potências  invisíveis,  têm  correspondência com valores humanos, representando desde a mais alta espiritualidade, a vida mística, até o seu nível mais baixo, o dos seres que se entregam totalmente aos estados mais abjetos da sua vida instintiva. No primeiro caso, a iconografia, em função da sua elevação e imaterialidade, os representa com asas e sempre vestidos de branco. Já sob o ponto de vista da Psicologia, representam os anjos as energias positivas ou negativas do inconsciente. Alguns anjos, como se sabe, pecaram por orgulho e foram condenados eternamente, como demônios, ao mundo infernal, instigando o homem a optar sempre pelo caminho do mal. Jung considera que os demônios representam as funções inferiores que atuam na escuridão do subconsciente humano. Historicamente, lembremos que os anjos, ao mais recuadamente que possamos chegar, são entidade encontradas em antigas crenças astrais assiro-babilônicas que, espalhando-se pelo mundo semítico, foram utilizadas depois pelo monoteísmo dos hebreus com o nome de malachim, classificados em diversas hierarquias. 

ADÃO  E  EVA  NO  JARDIM  DO  ÉDEN
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

O catolicismo classifica os pecados de três maneiras: 1) Pecado original ou adâmico: dele participam todos os seres humanos devido à sua origem. Adão e Eva, ao comer dos frutos de uma árvore que Deus lhes mostrara, proibindo-os de deles provar, foram expulsos do paraíso. Esta expulsão definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte. Pelo sacramento do batismo, estabelecido mais tarde, este pecado pode ser perdoado.


SATÃ
(GUSTAVE  DORÉ,1832-1883)
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem e o que é do Mal, isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. Livre arbítrio, como se sabe, é a possibilidade que tem o ser humano, em função de sua vontade, de decidir sobre alguma coisa, sem a interferência de qualquer condicionamento, motivo ou causa. 

Renovando-se constantemente, tais influências nos mantêm (segundo as religiões fundadas a partir da Bíblia), numa espantosa maioria, inclusive os que se dizem religiosos, em experiências de vida totalmente condicionadas. Nenhuma intervenção religiosa tem se mostrado válida para eliminar a ignorância, isto é, os tremendos fatores de servidão que nos aprisionam, para melhorar a nossa capacidade de discernir realmente o que mais interessa ao homem individual ou coletivamente. 


SITRA  ACHRA
O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, O Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda, e governadas por Samael e Lilith. Samael é o príncipe dos demônios, chefe dos anjos que foram expulsos do céu. Lilith foi a primeira mulher de Adão, criada juntamente com ele por Deus, em condições de igualdade. Ao perceber que Adão, com a concordância de Deus, não a consideraria como uma igual, Lilith fugiu para o mar Vermelho, unindo-se em seguida a Samael, tornando-se a principal figura feminina do Mal.

Os judeus dão também o nome de Agrat Bat Mahalata, a uma rainha dos demônios, neta do Ismael bíblico, que anda pelo mundo a espalhar o Mal. Concubina de Samael, teve seus poderes controlados pelo sábio Chanina Ben Dosa, que lhe permitiu apenas atuar nas noites de terça e de sexta-feira, recomendando-se que nenhum judeu saia sozinho nessas noites. Chanina Bem Dosa, natural da Galileia, foi um famoso operador de milagres, asceta, que viveu no primeiro século da era cristã. 

ADÃO  E  EVA
PETER PAUL RUBENS,1577-1640
Para dar a Adão uma parceira, Deus a ligou às costelas dele, ao seu flanco, formando uma espécie de ser andrógino, separando-a depois. Esse feminino recebeu o nome de Eva, promovendo o próprio Deus o casamento de ambos, uma cerimônia na qual tomaram parte muitos anjos, tudo com muita música e dança. Adão é nome que lembra barro, húmus, limo, lama vermelha. Para outros, o nome, ao que parece, vem de adamah, do hebraico, terra arável. Outros ainda relacionam o nome Adão ao assírio adamu, verbo que significa fazer, produzir.

Eva, segundo o Gênesis, é nome que vem de Hawwah, mãe de todos os seres que vivem, nome dado à segunda mulher de Adão depois da expulsão do paraíso. Antes de deixar o paraíso, ela se chamava Aicha (vivente) ou Icha (esposa), palavra que se aproxima de iccha, desejo, em sânscrito. O nome Eva também lembra awwah, desejo, em hebraico. Eva poderia ainda vir de Heba, esposa do deus hitita das tempestades.

O mundo judaico-cristão, profundamente misógino, ao invés de considerar Eva como uma iniciadora, pois Adão, isto é, o homem, sem ela, jamais teria adquirido uma consciência, sempre preferiu vê-la como responsável pela perdição da humanidade. A destacar ainda, quanto à grafia do nome Eva ou Ava, em várias línguas, que dele faz parte a letra V, que nos lembra o triângulo, forma sempre associada ao sexo feminino.  
   
SAMAEL  E  GABRIEL
(GUSTAVE DORÉ,1832-1883
)
São os pecados dos homens que, segundo o judaísmo, nutrem o Sitra achra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel, sendo então expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam.

À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do
A QUEDA DO HOMEM
CATEDRAL NOTRE- DAME, PARIS
Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O judaísmo e o islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. Participando desse entendimento, o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege.

O Talmud (literalmente, estudo em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que Samael, na forma de uma serpente, se uniu a Eva no Jardim do Éden nela injetando a sua peçonha, que foi transmitida a todos os seus descendentes. As forças satânicas do Sitra Achra, desde então, tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. 

O  BATISMO (ANDREA DEL VERROCHIO,1435-1488)

O batismo, no cristianismo, como rito de agregação, elimina os efeitos do pecado original, abrindo as portas da vida cristã. Pode ser feito por mergulho (do grego baptismós, mergulho, imersão, ablução) ou por aspersão. Torna aquele que o recebe cristão católico para sempre. Formalmente, requer que sejam utilizados a água (renascimento, origem da vida), o óleo (relacionado com uma preparação para os embates da vida; quem o usava, antes de entrar nos combates, para melhor lutar, eram os lutadores romanos), a vela (o brilho,  uma luz nova) e as vestes brancas (entrar puro na nova vida).


sexta-feira, 23 de março de 2012

MITOLOGIAS DO CÉU - A LUA (4)





Dentre os povos da Ásia Menor que desenvolveram uma mitologia lunar, não podemos esquecer dos hebreus, que, como aguerridos monoteístas, oficialmente sempre combateram cultos astrais. Viveram em constante luta contra o politeísmo dos povos vizinhos, especialmente o dos cananeus, mas, sobretudo, contra o próprio politeísmo, pois, não esqueçamos, os seus primeiros patriarcas vieram da Mesopotâmia.

Como "povo eleito", os rabinos hebreus atribuíam a uma infidelidade a Yahvé todas as catástrofes que se abatiam sobre Israel. É nas proibições da lei mosaica e na maldição dos seus profetas que encontramos informações sobre os cultos astrais tão combatidos. Punições e ameaças de danação eterna são encontradas aos montes em vários textos, todos com a finalidade de proclamar a superioridade de Yahvé.

Todavia, a cada momento, em inúmeras passagens dos livros sagrados, para o que souber ler ou mesmo para os que não o souberem, a persistência dos cultos astrais, da astrologia, é facilmente detectada. Numa passagem bíblica, por exemplo, encontramos em Isaías (III, 18) referências às pequenas luas (luetas), jóias em forma de crescente lunar, que as jovens ostentavam numa clara afronta aos textos religiosos.

Os hebreus, como se sabe, utilizavam um calendário lunar, como aliás o faziam todos os semitas. Enquanto foram nômades, só a Lua, com as suas fases bem distintas, lhes permitiu estabelecer a medição do tempo. Sedentarizados, o calendário lunar permaneceu útil. Suas festas religiosas podem ter perdido algumas características, pois de pastores passaram a agricultores, mas, no fundo, permaneceram as mesmas.

CALENDÁRIO LUNAR

Em hebraico a palavra mês e Lua são muito semelhantes. O calendário hebraico é lunar, contendo o ano doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Quando o mundo foi criado, contam antigas histórias, a Lua era tão brilhante quanto o Sol. Porém, como não seria possível admitir a existência de dois astros do mesmo tamanho, o da Lua foi diminuído. O povo de Israel, desde sempre, sempre foi simbolizado pela Lua, um povo cuja “sorte” aumentava e diminuía conforme as fases do astro. No tempo do Messias, o Sol e a Lua voltarão a ter o mesmo tamanho, retomando Israel a sua antiga glória.


ISHTAR

Os eclipses da Lua sempre foram considerados como muito maléficos para os judeus, pois quando a Lua deixava de ser vista as forças do mal tinham o seu poder aumentado. Dormir à luz da Lua era sempre muito perigoso para os judeus, pois os que assim faziam podiam ser atacados pelo demônio feminino Agrat Bat Mahalat, cujo modelo era a deusa Ishtar, dos mesopotâmicos.

SAMAEL

Agrat Bat Mahalat é a rainha dos demônios, concubina de Samael, o gênio do Mal, rei dos demônios, que os judeus dizer ser neta do Ismael bíblico, ou seja, o ancestral dos ismaelitas árabes.

AGAR E ISMAEL EXPULSOS POR ABRAÃO. AO FUNDO, SARA E ISAAC

Ismael (Ismail) é irmão de Isaac, sendo este o ancestral dos judeus. Ambos eram filhos de Abraão, o primeiro nascido da escrava Agar e o outro de Sara, a esposa oficial. Tendo Ismael nascido antes de Isaac, Sara exigiu de Abraão que ele e a mãe fossem expulsos, obrigando-os a ir para o deserto. Segundo os judeus, Ismael e a mãe tornaram-se errantes até que um anjo de Deus os conduziu a um poço onde o Senhor anunciou a Agar que seu filho seria um verdadeiro animal selvagem que lutaria contra todos e todos contra ele. Deus prometeu também que de Ismael nasceria uma grande nação cujos membros seriam os “filhos do vento”, isto é, os povos do deserto, nômades e livres, os beduínos (de bedaw, deserto), que se consideram como os descendentes diretos de Ismael.


Dizem os judeus que a atividade nefasta de Agrat foi limitada pelo sábio Chanina Ben Dosa, milagreiro carismático galileu do séc.I, podendo ela atuar somente nas noites de terça-feira e de sexta-feira, após ela ter implorado para que ele não a banisse do mundo. O Talmud recomenda, pois, que ninguém saia sozinho nessas noites, que são, como se sabe, de Marte e de Vênus, astrologicamente. Os rabinos e místicos judeus recomendam também que se evite olhar a Lua nessas noites, podendo ela ser vislumbrada, porém, rapidamente quando da cerimônia da Lua nova. É a chamada kidush levaná, santificação da Lua nova.


As festas de celebração da Lua nova entre os judeus vêm provavelmente do período nômade, antigos cultos que profetas como Oseas e Isaías mais tarde passaram a condenar enfaticamente. Tais festas, como se sabe, são realizadas até hoje, com o nome de rosh chodesh, início, cabeça, do mês.



A santificação da Lua acontece geralmente sábado à noite, recitam-se orações e participantes se cumprimentam com as palavras shalom aleichem (a paz esteja convosco). O ritual expressa a esperança de que Deus restaurará a luz da Lua e a antiga grandeza de Israel.


O shabat, que hoje tem um profundo sentido religioso entre os judeus, não era visto dessa maneira pelos profetas bíblicos do antigo testamento, pois tinha relação com a Lua cheia. Shabat era a festa da Lua cheia dos povos nômades. Shabater significava parar de crescer, isto é, representava o momento em que a Lua atingia no mês a sua plenitude, parando de crescer. Era uma festa alegre, de caráter orgiástico, momento de celebração em que a Lua se mostrava em toda a sua glória.

Com a sedentarização das tribos nômades, essa festa foi perdendo as suas características para os judeus, passando a ser vivida como uma cessação de atividades, repouso, período que devia ser consagrado a Deus, uma espécie de reprodução do sétimo dia da criação. Seu tempo, sagrado, se opunha assim ao profano.



Hoje, o shabat judaico vai do anoitecer de sexta-feira à noite de sábado. O judeu deve descansar, não realizando nenhum trabalho que signifique o controle do homem sobre a natureza. Há toda uma liturgia que regula a festa, luz, velas, cantos, visita à sinagoga. Textos rabínicos dizem que se os judeus conseguissem observar fielmente todos os preceitos estabelecidos para a festa, o Messias viria, pois a harmonia cósmica se realizaria. As forças do mal (Sitra Achra) não conseguiriam exercer qualquer ação no universo.

Com a implantação do cristianismo (séc.V dC), o shabat passou a ser considerado como uma festa em que feiticeiros se reuniam, libertando-se as forças do mal, que então podiam agir livremente. Tais festas, nessa visão, teriam origem nos cultos lunares provenientes de bacanais pagãs, nas quais o deus Baco (Dioniso) era invocado sob o nome de Sabazios.

Sabazios é palavra que também possui o sentido de efeminado e que designava um deus frígio, de culto orgiástico, semelhante ao de Dioniso. Na mitologia grega, lembro, Sabazios foi o nome dado ao chamado “primeiro Dioniso”, filho de Zeus e de Perséfone na forma de serpente, trucidado pelos titãs.


NOITE DE WALPURGIS

Havia dois Shabats: o Grande (assembleia geral) se realizava nas noites de 2 de fevereiro, 30 de abril (noite de Walpurgis), 23 de junho e 31 de outubro. O Pequeno se realizava através de reuniões menores, por regiões, em quaisquer dias da semana, mas de preferência na sexta-feira. Há inúmeras lendas medievais sobre estas reuniões, sempre realizadas nas noites de Lua cheia. Falam-nos elas de corpos cobertos de unguentos maravilhosos, deslocamentos aéreos, refeições à base de sapos, cadáveres de crianças não batizadas, de enforcados, de cães putrefatos etc. O sal era banido, assim como o vinho, o óleo e tudo mais que fosse usado pela igreja católica ou por ela bendito. Realizavam-se missas negras, cantava-se, dançava-se, uma orgia geral. Ao canto do galo, o shabat se dissolvia. Na tradição européia, os lugares desertos e abandonados, locais de realização dessas demoníacas celebrações, deviam ser evitados, facilmente reconhecíveis, aliás, pois nenhuma erva ou flor neles crescia, nenhum canto de pássaro neles era ouvido, lugares para sempre malditos.



Como o shabat, a festa da Páscoa (Pessach) era também ligada ao plenilúnio. Uns fazem derivar o nome da festa da palavra pesak, mancar, saltar, dançar ritualmente. A Bíblia dá outra explicação: a palavra significaria “passar sobre”.


Era a festa que celebraria a libertação dos escravos israelitas do Egito e que apontaria para a redenção do mundo na idade do Messias. Comemora-se também nessa festa a colheita da cevada e o fim da estação das chuvas.

O Pessach caía sempre na primavera, no meio do mês, período da Lua cheia, sendo proibido o consumo de pão levedado. A cerimônia começava no anoitecer da véspera do dia quinze de Nissan, a noite do êxodo, com uma refeição familiar. A festa era conhecida também como a do pão ázimo (fig.esq.), o pão dos escravos. Tudo terminava no momento em que os israelitas cruzavam o Mar Vermelho.

Vários acontecimentos estão incorporados à festa: a partida do Egito, o período nômade no deserto, a festa do décimo quarto dia do mês de Nissan, o primeiro mês lunar do calendário hebraico. Mês associado à primavera, ao signo de Áries, ao carneiro, Nissan começa no fim de março e se estende até meados de abril.


No Islã oficial, como em Israel, todos os fenômenos celestes estão submetidos a Deus. Conta-se que certa vez o Profeta se irritou quando ouviu interpretações sobre um eclipse. Disse, peremptório, que o Sol e a Lua eram apenas sinais de Allah. Afirmações com esta negavam toda autonomia a qualquer objeto, qualquer que fosse ele, pois tudo dependia de Allah, criador do céu e da terra. O mesmo afirmava (afirma hoje) a teologia oficial judaica, quando os rabinos diziam (dizem) que os judeus não precisam da astrologia, pois os livros sagrados continham todas as respostas.

O que temos, porém, no Islã, na realidade, com relação às influências da Lua é que ela tem muito a ver com rituais religiosos, muitos deles, senão a maioria, provenientes da tradição árabe pré-islâmica. O astro lunar ocupava e ocupa, como se sabe, um lugar de destaque na refinada cultura superior islâmica. Antes do Islã, o conhecimento que os árabes possuíam da Lua reduzia-se às chamadas mansões lunares, conhecimento, aliás, fortemente influenciado pela tradição védica.

MANSÕES LUNARES
Foi sobretudo a astronomia-astrologia grega, quando Ptolomeu (séc. II dC) foi traduzido para o árabe (Almagesto), que deu um grande impulso aos estudos árabes nesta área do conhecimento, levando por exemplo os astrônomos a calcular não só com grande precisão os eclipses, mas a desenvolver uma avançada astrologia, depois transmitida ao ocidente cristão.

ALMAGESTO

O Almagesto (O Muito Grande), famoso tratado de Ptolomeu, foi traduzido para o árabe no séc.IX. Nele se expõe o sistema geocêntrico, dele fazendo parte uma lista de 1022 estrelas, cálculos sobre a distância do Sol e da Lua, descrição de eclipses e referências a instrumentos então usados para a observação do céu.

No mundo árabe, principalmente entre as elites, as influências lunares foram muito estudadas, sobretudo pela astrologia prática. Uma das ideias mais admitidas era a de que a Lua, astro das variações cíclicas, governava tudo o que era variável na Terra, tudo o que estava submetido ao crescimento e ao declínio.

AL-QAZWINI

Um texto, extraído de um tratado de cosmografia do séc.XIII, al-Qazwini, mais as informações que colhemos pessoalmente no Instituto do Mundo Árabe de Paris e na tese Images du Ciel d´Orient au Moyen Âge, de Anna Caiozzo), nos dizem que as influências da Lua dependem de seu caráter úmido, enquanto as do Sol provêm de seu caráter quente. Os autores dos textos exemplificam tudo isto discorrendo sobre o movimento das marés, da ação da Lua sobre o corpo dos humanos e dos animais, falando-nos da circulação dos humores, do sangue, das crises de saúde, da lactação das mulheres, da disposição física, das enxaquecas, da proliferação de insetos, da quantidade de peixes nos rios e mares, dos grandes e pequenos animais, do transplante de árvores, da frutificação nos pomares, dos frutos lunares e da sua coloração (ameixas, melões, sésamo, pepinos, abóboras, metais) tudo dependendo da maior ou menor umidade que a Terra recebe em função da fase lunar (começo, meio e fim do mês).

Mesmo Avicena (fig.dir.), por volta do ano mil, grande médico, místico e filósofo, árabe-islâmico, que muito polemizou com astrólogos, reconhecia o efeito das influências lunares no corpo humano. A astrologia suscitou sempre uma forte oposição religiosa quando os astrólogos começaram a discutir os ciclos da história mundial segundo as influências celestes. A doutrina alquímica, oriunda do mundo greco-alexandrino, também provocou inquietações e oposições declaradas de representantes do pensamento teológico oficial árabe. As teses astrológicas, contudo, iam se propagando com base na lei da correspondência. O corpo humano era o microcosmo, um reflexo do céu, o macrocosmo.


AL QAMAR (SURA)

A Lua tem entre os árabes o nome de “al Qamar” ou “Badr”. É representada por um personagem masculino sentado dentro de semicírculo ou crescente, pés nus, vestindo uma espécie de blusa azul, aberta no peito, as calças vermelhas. Uma representação talvez calcada em imagens védicas. Cada fase da Lua recebe um nome, chegando-se ao detalhe de dar uma designação aos períodos intermediário de cada uma delas. A Lua, como se viu, sempre evocou transformações, mudanças, passagens de um estado a outro, o eterno devenir das coisas. Como símbolo de beleza, a Lua é inspiradora de muitos nomes femininos, nomes como Kmar (Lua cheia), Kamriya (pequena Lua), Badr ou Bedra (Lua cheia), Badr an-nur (Lua de luz), Munira (luminosa) etc.

Pelas informações de Heródoto e de outros viajantes, além naturalmente dos registros que chegaram até nós, é possível afirmar que os persas pré-islâmicos tiveram um desenvolvido culto lunar. Para eles, Mah, a Lua, era a divindade que regulava os dias, sendo o décimo segundo dia do mês a ela consagrado, conforme hinos cantados em sua homenagem.


Os iranianos, como se sabe, fazem parte do mundo indo-europeu, do ramo ariano mais exatamente, que ocupou uma extensa região que fica num planalto a leste da Mesopotâmia. Eran, Eiran, de ária (nobre, leal, senhor), era o nome do país (compare com Erin, o nome celta da Irlanda). Os primeiros registros religiosos desse povo apareceram num texto chamado Avesta, dando corpo à chamada religião mazdeana. Esses textos foram destruídos quando da invasão de Alexandre e depois reconstituídos com base na tradição oral.

O culto do fogo, típico das tribos indo-européias, ocupava o centro de todo o movimento religioso, ao lado dos ritos relacionados com o haoma (Soma védico; fig.dir.), que falavam de imortalidade. Nesse recuado período da história persa, Mitra era então a principal divindade (lugar depois tomado por Ahura Mazda), nele se reunindo, em termos absolutos, o poder sobre as regiões celestes (conduzia o carro solar), o poder militar, o conhecimento etc.

Sob inspiração da astrologia caldaica (mesopotâmica), os astros eram objeto de cultos muito especiais, principalmente: Hvare-Khchaeta (Sol), Mah (Lua), Anahita (Vênus) e Tichtriya (Sirius).


Os organizadores desses cultos eram os Magos, que constituíam uma importante corporação sacerdotal, mantendo inclusive, com grande pureza, as primitivas práticas rituais arianas.

Devido a reformas religiosas posteriores (zoroastrismo e maniqueísmo), as antigas divindades astrais passaram a ocupar uma posição de menor relevo. A pregação do reformador Mani (fig.esq.), cerca de 240 aC, falava da existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (Bem) e o das trevas (Mal). O homem teria que ajudar as forças do Bem através de várias práticas ascéticas. As forças do Bem nessa luta eram guiadas pelos seis “Imortais Benfeitores” (Amesha Spenta), algo semelhantes aos arcanjos bíblicos, cada um deles responsável por um setor da criação.



A Lua (Mah), nesta nova ordem, colocou-se sob as ordens de um destes Benfeitores, chamado Bahman, o Espírito do Bem, que era, dentre outras funções, o grande protetor dos rebanhos.


Esta posição da Lua se devia, segundo os antigos cultos, à sua natureza bovina, identificação seguida, aliás, universalmente e que explica sua submissão a Bahman. Mah funcionava neste esquema como uma intermediária entre o Espírito tutelar e os rebanhos, mais exatamente como protetora da “Vaca Primordial”, personificação não só de toda a espécie, mas de centro simbólico no qual se juntam ideias de fecundidade, de maternidade, de abundância, e de imagens como a da nuvem celeste, de brancura, de leite etc. Neste contexto religioso, a Lua funciona também como purificadora dos mares porque ela provoca movimentos de alternância, o movimento das marés, ligados diretamente às suas fases.

AHURA MAZDA

Os antigos persas viam também nas fases da Lua a marcha do tempo. Quando criados, os astros, o Sol, a Lua e as estrelas, não se moviam, segundo os antigos textos. Com o assalto das forças do mal (a luta eterna entre Ahura Mazda ou Ormazd, as forças da luz, e Ahriman, as forças das trevas), os astros tiveram que percorrer o caminho que lhes foi designado para que a renovação pudesse acontecer, expulsando-se o mal do mundo.