Mostrando postagens com marcador IRA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador IRA. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A IRA II



SANTO   TOMÁS
Santo Tomás, seguindo Gregório, indica as seis filhas da ira: rixa, perturbação da mente, insultos, clamor, indignação e blasfêmia, consideradas sob três aspectos, a ira no coração, na boca e nas ações. Citou-as nesta ordem, embora achemos que a perturbação da mente devesse ter sido mencionada em primeiro lugar. Rixa é estado de hostilidade entre pessoas ou grupos, é contenda, tumulto, caso que pode ser considerado como uma contravenção penal. Clamor, insultos e blasfêmias são da boca ou do corpo (braços e pernas) enquanto gritaria, palavras (insultos), atitudes ou gestos que têm o poder de atingir a dignidade de alguém. Blasfêmia é palavra que insulta o sagrado, ato de rogar pragas, amaldiçoar.


INVEJA  ( EDVARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

A sinonímia da ira é vasta. Ela pode se manifestar de várias maneiras. Anda sempre, de modo especial, como se disse, na companhia de três sentimentos igualmente intensos, dominadores, como a inveja, o ciúme e o medo... Lá no fundo, todos sabemos, mais ou menos claramente, que o ser humano odeia o que lhe causa incômodo, desprazer, mal-estar, ou seja, qualquer tipo de sofrimento. Como fenômeno da vida afetiva, a ira é algo que se impõe. Por isso, é preciso reconhecer que não temos ira, mas, ao contrário, é ela que nos tem, sempre uma paixão, como sobre ela falaram Santo Agostinho, Montaigne ou Descartes.

Muitas vezes, ouvimos: tenho ódio. Mas ódio de quê, de quem? Embora tenhamos aprendido, desde a infância, a distinguir os sentimentos positivos e elogiáveis dos socialmente negativos e reprováveis, quanto mal já não fizemos e continuamos a fazer por causa das várias formas de ódio que alimentamos inconscientemente, de um modo disfarçado, escondido ou recalcado. Todos os que escreveram sobre o ódio, filósofos, poetas, sociólogos, teólogos, psicólogos, religiosos, escritores, ou simplesmente os que o vivem e sobre ele falam, são unânimes na afirmação de que a energia desse sentimento é tão poderosa que pode transformar inteiramente a vida de quem é possuído por ele. Ele vive dentro das casas, está em todos os relacionamentos humanos, paira nas ruas, espalha-se como um vírus.


O ÓDIO , 1896 ( PIETRO  PAJETA )

Um exemplo que comumente encontramos no nosso quotidiano é o da ira entre os membros de uma mesma família, entre irmãos. O ódio entre os gêmeos parece ser o mais perturbador. Em todas as culturas e mitologias encontramos histórias sobre os gêmeos e o ódio que sentem um pelo outro. O fenômeno dos gêmeos sempre colocou, desde a antiguidade, o problema da ambivalência, exprimindo, nesse caso citado, uma oposição entre forças da luz e forças das trevas. Simbolizam eles, no fundo, a própria dualidade do ser humano, as suas oposições internas e o conflito que devem enfrentar para superá-las. Caim e Abel, Rômulo e Remo, Esaú e Jacob são exemplos clássicos destas oposições. Inúmeras histórias apresentam os gêmeos como antagonistas, um bom e outro mau, este último sempre criando obstáculos para perturbar a relação entre ambos.

CAIM  E  ABEL
( PIETRO  NOVELLI , 1603 - 1647 )
Um dos principais ingredientes da psicologia das multidões no capítulo da violência coletiva é o ódio. É ele o responsável tanto pelo arrebatamento como pelo sentimento de agressividade que se apossa em determinadas ocasiões dos grandes grupos humanos, das multidões, O linchamento é um dos aspectos deste ódio. O ódio acionado coletivamente provoca o dogmatismo, a intolerância e traz também a ideia de irresponsabilidade, pois todos o sentem. O ódio dá unanimidade; como todos são culpados, ninguém é culpado. O ódio, nesta perspectiva, é um sentimento simples, extremado, intenso. Ademais, opera por contágio. No linchamento, o ódio é um gatilho que, quando disparado, não há como fazê-lo voltar atrás.

WILLIAM  LYNCH
Linchar é executar sumariamente, sem julgamento regular e por decisão coletiva, um criminoso ou alguém suspeito de sê-lo. É a chamada lei de Lynch, que apareceu nos USA como um instrumento de justiça dos brancos racistas. Quase todas as vítimas de linchamento eram negras. Quem a instituiu, ao final do séc. XVIII, foi um fazendeiro da Virgínia, William Lynch. Criminosos apanhados em flagrante, muitas vezes forjado, eram sumariamente liquidados. Existe uma copiosa literatura sobre o linchamento, tanto histórica como sociológica e jurídica. Distinguem-se dois tipos de linchamento. Um é bem ordenado, limpo como o chamavam os especialistas, praticado por gente rica, limitado o castigo apenas ao criminoso, O outro é o chamado coletivo, praticado por grupos, no qual podem tomar parte várias pessoas; é desordenado, difuso, e pode gerar outras formas de violência muitas vezes incontroláveis, como incêndios, quebra-quebras etc. 

FREUD
(W.V. KRAUSZ, 1878-1959)
Segundo Freud, o ódio é uma paixão que procura a destruição do seu objeto. Ódio e destruição. assim, caminham juntos. Quando odiamos, quando estamos irados, queremos, no fundo, destruir. Essa vontade de destruição está associada a objetos ou seres que sejam fonte de uma sensação de desprazer, de dor, de incômodo, de sofrimento para nós. Pessoas próximas ou distantes, familiares, podem merecer todo o nosso ódio. O ódio não admitido por um parente volta-se geralmente contra a própria pessoa, muitas vezes na forma de uma culpa autopunitiva, de somatizações. O masoquismo, nesse caso, é outro companheiro do ódio. Masoquismo, como sabemos, é um comportamento, inclusive sexual, através do qual uma pessoa tem necessidade de sentir dor e
L.S. VON MASOCH
humilhação para obter alguma coisa, algum prazer. Chega esse comportamento às vezes ao sadomasoquismo, fazer sofrer e sofrer ao mesmo tempo. O nome deriva de cenas descritas nos livros de Leopold Sacher von Masoch (1836-1895), nobre, escritor e jornalista austríaco. Como exemplo, Freud cita casos de ódio entre mãe e filha, na luta mais ou menos explícita que ambas podem travar para serem amadas pelo pai, de forma exclusiva; o ódio entre irmãos ou irmãs, na luta pelo amor parental etc. 

Freud insiste na tendência inata à maldade, à agressão, à destruição, à crueldade. Socialmente, isso, para ele, é desastroso, já que o homem satisfaz sua aspiração ao gozo, a viver bem, segundo esse entendimento, à custa do seu próximo. Para viver em sociedade, é necessário renunciar a toda essa agressividade, o que nem sempre se consegue. Procura-se então um derivativo que receba a carga destrutiva que acumulamos. Este derivativo pode ser buscado fora da comunidade, do país, da classe social, exportado etc. “Criam-se” inimigos para receber toda a agressividade recalcada. Isto pode acontecer internamente, também. Alguém precisa ser satanizado, para que nos sintamos aliviados. 

BODE EXPIATÓRIO
( W. J. WEBB - 1830 - 1904 )
Um exemplo disto é o tema universal do bode expiatório, que nos vem desde a mais remota antiguidade. Elegemos um bode expiatório, que passa a receber todo o nosso ódio. Projetamos nele toda nossa culpa a fim de tranquilizar a nossa consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de uma punição, de uma vítima. Sacrificado o bode expiatório, nos aquietamos, ficamos tranquilos, pelo menos por uns tempos. Um dos melhores exemplos do que aqui se fala está nas touradas. Como não sabemos lidar com a nossa besta interior (a nossa vida instintiva), a mantemos intocada, montando um espetáculo de sangue, violência e morte para que alguém, o toureiro, no qual nos projetamos, se encarregue, em nosso nome, de matá-la simbolicamente numa arena através do sacrifício de um touro. 

Lembramos que a tradição do bode expiatório é universal e funciona em ambientes familiares, em locais de trabalho, na vida escolar, nos meios de comunicação de massa, na política, onde quer que pessoas se agrupem para fazer alguma coisa. É muito usada por pessoas, grupos sociais ou pela própria sociedade como um todo, que nada faz, para projetar a sua culpa (a sua inércia, o seu comodismo, o apego aos seus privilégios, a sua hipocrisia, a sua má-fé etc.) e aquietar a sua consciência que sempre tem necessidade, como se disse, de um culpado, de um castigo e de uma vítima.

Qualquer pessoa medianamente informada sabe que o Judaísmo e duas dissidências suas, o Cristianismo e o Islamismo, satanizaram e continuam satanizando a mulher, cada um à sua maneira. As três são consideradas religiões patriarcais porque defendem o poder do pai e a ideologia que ele representa, quer em termos religiosos, políticos, econômicos, sociais ou familiares, mesmo que formalmente esse poder possa ser exercido por mulheres, como encontramos alguns exemplos no passado e no mundo atual.


LILITH
Entre os judeus, um dos mais significativos exemplos dessa atitude, um verdadeiro ódio com relação à mulher, está na Bíblia. No Gênese, registra-se que Deus criou o macho e a fêmea em condições de igualdade. Contudo, o macho, com o beneplácito divino, não deu à fêmea tal condição. Rebelando-se, ela fugiu para o deserto e dali passou ao mar Vermelho. Os judeus deram a esta primeira mulher de Adão o nome de Lilith, considerando-a como um demônio e rainha da noite,
SITRA ACHRA
unindo-se ela a Samael, o senhor das trevas do Sitra Achra (o Reino do Mal). Belíssima, sedutora, além de raptora de crianças, ela ataca aqueles (homens) que, através de suas poluções noturnas, dormem sozinhos para ter com eles filhos-demônios. Eva só aparece mencionada no capítulo seguinte, como um produto masculino, inteiramente submissa a Adão, seu senhor e mestre. 

Samael, esposo de Lilith, na forma de uma
serpente-demônio, seduziu Eva, o que provocou a expulsão dela e de seu esposo Adão do paraíso. Lilith reina sobretudo nas sextas-feiras e é representada comumente sob os traços de uma mulher nua com a parte inferior do corpo pisciforme, numa evocação direta da imagem das primeiras sereias.    

Entre os judeus, hoje, apesar de todos os “avanços” (mulheres disputando o rabinato, seu acesso aos textos religiosos etc.), na liturgia tradicional, nos chamados agradecimentos matinais feitos a Deus, ainda têm muito valor frases como esta: 
Bendito sejas Tu, Rei do Universo, que não me fizestes mulher. 

Quanto ao Islã, basta citar apenas, em que pesem diferenças entre alguns países, para caracterizar a profunda desigualdade entre homens e mulheres, que a poligamia continua como uma prerrogativa masculina, que a mulher para trabalhar e se educar fora de casa precisa de autorização do poder masculino ao qual estiver subordinada, que a estética feminina continua como uma imposição masculina etc. etc. etc.

Ainda recentemente (estamos em 2019), na Arábia Saudita, foi noticiado pela imprensa que cobre o oriente e pelas redes sociais (Internet, Twitter etc.) que o Mufti (jurisconsulto, erudito, imã) da Arábia saudita, o sheikh Abdul Aziz Al-Sheikh, expediu uma nova fatwa, aviso religioso que tem a força de orientação legal, sem ser propriamente uma lei. Esse aviso é geralmente baixado pela figura
LEI  SHARIA
religiosa mais elevada no mundo islâmico. No exemplo ora citado, se declara que o homem pode comer a sua mulher no caso de estar submetido a situações de fome severa. Homens podem, assim, de acordo com a Sharia, a lei islâmica, comer partes do corpo de sua mulher até que a sua fome seja satisfeita. O Mufti disse, para justificar a sua proclamação, que ela é uma evidência do sacrifício que as mulheres devem fazer com relação aos seus maridos e que, com isto, elas estarão dando uma demonstração suprema de união com a carne deles. Esclareceram mais os meios religiosos sauditas que a fatwa do Grande Mufti deve ser seguida pelos muçulmanos de todo o mundo. 

TERTULIANO
No Cristianismo, os exemplos abundam. Lembremos inicialmente de Tertuliano (155-222), o primeiro dos escritores cristãos, que exerceu na África do Norte um verdadeiro magistério doutoral, sendo muito grande a sua influência na formação da linguagem teológica do cristianismo latino. São dele as seguintes palavras (De Cultu Feminarum) sobre a mulher: Mulher, tu és a porta do Diabo. Foste tu que tocaste a árvore de Satã e a primeira a violar a lei divina. Com efeito, sempre responsabilizada pela queda do gênero humano, excluída, em

SÃO JOÃO CRISÓSTOMO
inúmeras religiões cristãs ou não, do sacerdócio, a mulher sempre recebeu qualificativos muito depreciativos. Aristóteles, o sábio estagirita, adotado pelo tomismo, a chamou de macho mutilado. São João Crisóstomo, um pouco mais suave, disse: a mulher é uma ferida da natureza sob a máscara da beleza. Se formos à filosofia (Schopenhauer, Michelet, Proudhon, Hegel, Nietzsche etc.) encontramos também os mesmos ataques às mulheres. Do último citado, temos esta “pérola”: A mulher foi o segundo erro de Deus.

Poucos admitem o ódio que sentem por si mesmos porque gostariam de ser diferentes e não conseguem.  Mas esse ódio é um fenômeno universal, como podemos constatar. Na história das religiões, temos o exemplo de pessoas que, embora o desejem, encontram muita dificuldade para se afirmar na vida, por razões diversas: tomadas por um grande idealismo, por uma incontida ânsia de espiritualidade, alegando muitas vezes desprezar as coisas mundanas, costumam desenvolver uma pulsão tão agressiva contra o seu próprio corpo físico que se entregam a certas práticas que podem ser consideradas como formas disfarçadas de um suicídio lento. Fazem parte dessas práticas o abandono do mundo, a renúncia a um nome, ao ambiente familiar e a entrega a formas severas de mortificação. Este último aspecto aparece muitas vezes nas religiões sob o nome de ascetismo (askeo, em grego, exercitar-se), que se caracteriza sobretudo pela renúncia ao prazer sexual e muitas vezes pela recusa à satisfação de outras necessidades básicas. 

STENDHAL
Daí, quanto a este item, os vários motivos de pessoas que se dizem religiosas, motivos no mais das vezes inconscientes. Muitas vocações religiosas são, no fundo, refúgio; medo do sexo; saída para desilusões sentimentais; forma de evitar a angústia das escolhas diante das exigências da vida;  egolatria disfarçada (complexo de Moisés: querer guiar, salvar ou influenciar pessoas), como meio de resolver os seus problemas materiais da
DE J. RIVETTE, 1966
existência, ficando asseguradas casa, comida e, dependendo da personalidade de cada um, maior ou menor possibilidade de ascensão na carreira religiosa e/ou social. O romance
O Vermelho e O Negro, de Stendhal, dentre os vários aspectos de sua grandeza, é um dos melhores exemplos do que se expõe aqui). Outro exemplo: a capitulação diante da filosofia de um tempo, conforme se pode ler em A Religiosa, romance de Diderot, que serviu de roteiro para os belíssimos filmes que dele fizeram Jacques Rivette e Guillaume Nicloux). Aliás, a visão que Diderot tinha das mulheres e do
DE G. NICLOUX, 2013 
feminino é uma clara contestação das envergonhadas razões dos que tentam encontrar desculpas para o machismo de filósofos. Em pleno século XVIII, lá está em
Sobre as Mulheres: mulheres, como eu vos lastimo! Não havia senão uma compensação para vossos males; e se eu fosse legislador, talvez a tivésseis obtido. Libertas de toda servidão, vós seríeis sagradas em qualquer lugar em que tivésseis aparecido.










sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A IRA - I

    
A  IRA  ( HIERONYMUS  BOSCH , C.1450 - 1516 )
                                    
 A ira se define, no geral, como um intenso sentimento de ódio, de cólera, de aversão, dirigido a uma ou mais pessoas em virtude de alguma ofensa ou insulto. Pode ser também rancor generalizado em função de alguma situação irritante. Expressa-se a ira, muitas vezes, como fúria, raiva, indignação. No latim, ira é sinônimo de rabies, que em português transformou-se em raiva. 

IRA
(GIOTTO, 1266-1337)
Muitas vezes, o colérico, o cheio de ira, manifesta o seu descontentamento de modo muito agressivo, inclusive com violência. Por isso, falamos de acessos, de crises, de explosões de cólera. Podemos descarregar nossa ira de vários modos, com violência, ferozmente ou usando de solércia, de astúcia. O solerte, mesmo que não tomado totalmente pela ira, é, neste exemplo, o que age para causar muito mal a alguém com aparência de honestidade. O solerte é hábil, ardiloso, sabe despistar, é cheio de artimanhas. 
  
Em muitos casos, a ira é recalcada, explicando-a Freud, nesse caso, a partir do complexo de Édipo, ou seja, hipótese em que ela se volta contra um rival numa situação amorosa. Pode também a ira, assim, ainda com Freud, derivar-se do amor, sendo ela recalcada, coexistindo, em muitos casos, ambos os sentimentos.

Na literatura, a mais conhecida ilustração do que está acima pode ser encontrado num poema de Catulo, 84 aC-54 aC, poeta latino. É o famoso verso odi et amo (odeio e amo), que, segundo um dos melhores textos escritos sobre o jogo do amor (há boa tradução em português), Eros e Pathos, de Aldo Carotenuto, nos diz que o conflito entre estes dois sentimentos, o ódio e o amor, está sempre presente numa relação amorosa, mesmo que raramente atinja o limiar da consciência, como diz o autor. Completando o parágrafo, ele conclui: A prática clínica ensina que onde está presente um sentimento toma vida e consistência também o seu contrário. Os opostos que, com a sua interação, dilaceram o indivíduo, constituem o dinamismo secreto da vida. O amor reclama, pois, e até exige, a co-presença do ódio. 
CATULO
Pela importância de Catulo na poesia lírica latina, vale registrar aqui, ainda que brevemente, um pouco da história desse famosíssimo dístico Odi et amo. Nascido em Verona, em 87 aC, viveu ele a maior parte de sua breve vida (apenas 30 anos) em Roma. De família nobre e rica, desde cedo dedicou-se às artes (poesia principalmente), frequentando   os meios sociais mais elevados, cultos e corruptos da cidade. Apaixonou-se pela bela e depravada Clódia, que ele chamou de Lésbia, esposa do cônsul Metelo Céler, imortalizando-a no mencionado dístico, uma estrofe mínima de dois versos, a seguir exposta e traduzida:   
            
Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris.
Nescio: sed fieri sentio et excrucior.
(Odeio e amo. Por que agir assim? se me perguntas.
Não sei: só sei que o faço e sinto que me torturo )

Justos ou injustos, a ira, o ódio ou a raiva têm um campo semântico vasto: execração, gana, malquerença, rancor, sanha, zanga, repulsa, asco, aversão, fastio, nojo, ojeriza, repelência, repugnância, hostilidade, antagonismo, querela, rivalidade, agressividade, cólera etc. No fundo, a ira é um sentimento de irritação, violento, que nos leva a querer mal a alguém e, muitas vezes, a nos alegrarmos com o mal que lhe acontece. Embora possamos apontar algumas diferenças entre as palavras citadas, elas acabam se confundindo, sendo usadas como sinônimos. Muitas dessas palavras já não se usam mais, ficaram para trás, perdidas nos textos de escritores do passado.

De ira vieram palavras como iroso, iracundo e irado. A primeira palavra designa aquele que está possuído e dominado por grande ira, por esta grande paixão, que pode ser passageira. Iracundo é o habitado pela paixão. Irado indica o ato de irar-se alguém. No homem irado, a ira é como um fogo que queima. No iroso, como
ANTÔNIO  VIEIRA
um incêndio que abrasa. No iracundo, como matéria inflamável que a menor faísca põe em chamas. Um bom exemplo deste último nos foi  indicado pelo padre Antônio Vieira, gênio da língua portuguesa, ao falar de Moisés. Trata-se do caso em que ele, com as próprias mãos,  atacou um egípcio, prostrando-o morto a seus pés. Vieira sentenciou: Moisés era arrebatado e iracundo. 
CRUZ  E  SOUZA
O grande poeta negro catarinense, Cruz e Souza, um dos grandes nomes do Simbolismo brasileiro, filho de escravos alforriados, referiu-se a um ódio bom que o alimentava nos combates contra o obscurantismo da época: Ódio são! Ódio bom! Sê meu escudo/ contra os vilões do amor que infamam tudo/ Das sete torres dos mortais pecados! Manzoni (Alessandro), famoso autor do século XIX, italiano, dizia: é uma das vantagens deste mundo poder odiar e ser odiado sem se conhecer. 

O ódio pode tomar muitos caminhos. Quando se volta contra a humanidade, indicando falta de sociabilidade, tem o nome de misantropia. Já misoginia é a aversão a mulheres em geral; muito usada também a palavra para designar homens que não gostam de fazer sexo com mulheres. Já a xenofobia será a aversão a estrangeiros. O ódio religioso ou político aparece como fanatismo ou intolerância. 

Sob o nome de lissa (lyssa, grego) são descritas umas pústulas que aparecem na parte inferior da língua de pessoas mordidas por um animal que sofre de raiva. Atribuía-se a raiva canina a um verme, lissa, que causava a doença. No ser humano, a mordida deste cão causaria a hidrofobia, aversão ou terror mórbido da água. Sabe-se hoje que a hidrofobia ou raiva é uma doença infecciosa causada por um vírus, transmitida ao homem pela mordida de animais infectados, como o cão, o lobo, o gato ou o morcego, caracterizada por lesões no sistema nervoso central que podem provocar convulsão, tetania e paralisia respiratória. 

Na mitologia grega, os deuses, os heróis e os mortais que nela aparecem apresentam algumas vezes um comportamento inexplicável, uma conduta totalmente imprudente, que, conforme as descrições, é proveniente de um obscurecimento ou confusão mais ou menos longa da mente, causando descontrole da vontade. Uma espécie de loucura temporária atribuída à ação de uma potência
HÉRCULES  CRIANÇA
demoníaca externa. Esta potência tinha o nome de Lyssa. Tomado por ela, Hércules, por exemplo, chega a um tal estado de fúria, a um ódio inexplicável; ainda bem jovem, esmagou a cabeça de Lino, seu professor de música, só porque ele o repreendeu por ter cometido um erro. É também tomado por Lyssa que o nosso herói mata a sua família. Lyssa, às vezes, é chamada de Anoia, etimologicamente ausência de consciência, raiva furiosa, que provoca a perda total da faculdade de pensar, de raciocinar.

A expressão física mais contundente da raiva nós a encontramos na Mitologia grega na figura do deus Ares. Pelas suas histórias, é Ares, sem dúvida, um dos  mais odiosos personagens do mito grego; sempre enraivecido, é aquele que excita o ódio, o desgosto, a indignação. É apelidado de bebedor de sangue, de senhor das lágrimas, de flagelo de Deus etc. Onde ele aparecia só havia sofrimento, dor, guerra, inimizade, luta. Seu nome, Ares, tem relação com palavras que lembram enfurecimento, desgraça e infortúnio. 

É Ares filho partenogênico da deusa Hera; sua geração foi motivada pelo ódio que a deusa sentia por Zeus, seu marido, devido ao grande número de seus filhos espúrios, “semeados” fora do casamento. Somente Afrodite o acalmava, o amolecia, suavizando-o um pouco. Terão, ele e a deusa, uma filha chamada Harmonia, isto é, filha da guerra e da paz. Mas terão também, por outro lado, dois monstros como filhos, os gêmeos Fobos (Pavor) e Deimos (Horror). 


ARES
Ares, como toda divindade grega, tinha o seu séquito. Dele faziam parte, além dos gêmeos, Éris, a deusa da discórdia, as Keres (destruição, ruína, podridão), monstros femininos alados, que se alimentavam do sangue de moribundos nos campos de batalha. Sempre com roupas ensanguentadas, garras aduncas, corpo coberto de serpentes, aproveitavam elas para liquidar os agonizantes. A divindade Enio também fazia parte do grupo; era um demônio feminino devastador, sempre presente nos campos de batalha. Lembremo-nos ainda de diversos outros filhos que Ares teve, todos medonhos, violentos, assassinos, salteadores, brutais, espalhados pelo mundo.

Esplêndido fisicamente, Ares andava sempre armado. Sua presença era anunciada por seus uivos, por seus gritos e pelo barulho de suas armas. Entre os deuses do Olimpo, era o mais distante de Zeus, sempre odiado e evitado por todos, ninguém desejando a sua companhia. Entre os romanos, Ares é Marte. Na Astrologia, é o planeta Marte, simbolizando o fogo dos desejos, a vida instintiva, o dinamismo, a violência, o desrespeito pelo outro e também a genitália masculina. 

Os latinos, por exemplo, tinham o adjetivo rabidus, que significava furioso, enraivecido. Virgílio, o grande poeta latino, usa esse adjetivo para nos descrever a boca espumante da Sibila em delírio. Para o poeta, o cão tricéfalo infernal, Cérbero, tinha uma fame rabida (fome raivosa), com a suas bocarras sempre espumantes. 


DIES  IRAE  ( HANS  MEMLING , 1430 - 1494 )

O frade franciscano Tommaso de Celano (séc. XIII) colocou a ira numa famosa obra, Dies Irae, O Dia da Ira, para profetizar sobre os acontecimentos do Juízo Final. Consta que nesse dia ter-se-á um calor como nunca houve. Nesse dia, o Sol e a estrela Sirius, a estrela da canícula, da constelação do Cão Maior, estarão em conjunção. Já os profetas do fim do mundo, nos afirmam também que esse acontecimento se dará num tórrido dia de verão, estação em que as pessoas pecam mais.

LORD   BYRON
A inveja, a raiva e o ódio costumam caminhar juntos. O verbo latino é odi. Como dizia Byron, poeta inglês dos sécs. XVIII-XIX, o ódio é o prazer mais duradouro; os homens amam com pressa,
BALZAC
mas odeiam com calma. A energia do ódio é apontada por vários filósofos, psicólogos e escritores. É de Balzac, escritor francês, séc. XIX, esta observação: O sentimento que o homem suporta com mais dificuldade é a piedade, principalmente quando a merece. O ódio é um tônico, faz viver, inspira vingança; mas a piedade mata, enfraquece ainda mais a nossa fraqueza.

Chamamos de ódio figadal, profundo, visceral, o que vem do fígado porque a bile, secreção desse órgão, foi sempre um símbolo do ira, segregada justamente sempre sob a ação nervosa que a produz. O fígado é o lugar dos movimentos da cólera, do fel, da animosidade, das intenções deliberadamente venenosas, o que
SÃO  JOÃO  DA  CRUZ
explica o seu sabor amargo.  No Islã, por exemplo, o fígado é o lugar das paixões e da dor. S. João da Cruz, poeta místico espanhol, interpretando Jeremias (Lamentações), liga o fel à memória, à morte da alma, à privação de Deus.  Neste sentido, o fel se opõe ao vinho, pois é o contrário da bebida da vida, usado na eucaristia, que permite a metamorfose. Cheios de fel, não mudamos. Fel e bile se equivalem: lembram amargor, sempre um estado de espírito que reflete agastamento, azedume, impulsos destrutivos.

A vesícula biliar é o lugar onde simbolicamente encontramos as expressões da agressão, do amargor, do mau humor, da irascibilidade. Agressão não como ataque frontal, agressão como postura inamistosa, constante, cultivada, antipática, irritadiça. Os coléricos (cholé, bile, e aírein, alçar) precisam deixar fluir a bile, símbolo da energia vital retida, de algum modo. Se não o fizerem, poderão ser levados a estados de pressão e de excitação prolongados, causadores de situações hipertensivas desastrosas. 

Um outro aspecto deste problema "biliar" é o da melancolia (bile negra), mal causado por excesso desse tipo de bile que leva os indivíduos dele acometidos à lentidão, tristeza e prostração. Era, no passado, o que se chamava de abatimento, apoucamento, atrabilis (atra, negro, sombrio), marasmo, soturnidade, taciturnidade, neurastenia. Este estado aproxima-se daquilo que hoje tem o nome de psicose maníaco-depressiva (problema mental marcado por grande oscilação emocional, alternando-se nele fases de mania (excitação, hiperatividade em grego) com fases de depressão (sentimentos de inadequação, retardamento de ideias e movimentos, ansiedade, tristeza, ideias de suicídio, às vezes). Muitas doenças de pele, eczema, erisipela, psoríase, lúpus eritematoso cutâneo, pênfigos, melanomas e outras, têm relação com o ódio e a raiva. Estas doenças nos remetem sempre uma ideia de autoagressão. 


CONDE  GOBINEAU
A ira e o ódio aparecem na vida social de diversas formas. Uma delas, geradora de muita violência, de guerras, é o racismo. Nos tempos modernos, um dos grandes teóricos do racismo foi Joseph Arthur, o Conde Gobineau (1816-1882), diplomata e escritor francês. Serviu na Pérsia, na Grécia e no Brasil, onde manteve muito cordialmente relações intelectuais com D.Pedro II. Dentre outros livros, deixou um, muito famoso, o Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, no qual apresenta ideias da
CHAMBERLAIN
superioridade da raça nórdico-germânica sobre as demais. Sua teoria foi explorada pelos pangermanistas (pangermanismo: agrupar todos os povos de origem germânica sob um só Estado) e pelos adeptos do nacional-socialismo (nazismo). Na Inglaterra, um dos grandes defensores dessas ideias foi Houston Stewart Chamberlain (1885-1927), escritor alemão de origem britânica, autor de uma obra sobre Richard Wagner, cuja filha (Eva) desposou. É um dos precursores do nazismo.

O racismo ganha expressão através de doutrinas ou sistemas políticos fundados sobre o direito de uma raça, considerada pura e superior, de dominar outras. O racismo se expressa também por preconceitos mais ou menos extremados contra indivíduos pertencentes a grupos regionais menos adiantados economicamente dentro de um mesmo país. Na Itália, por exemplo, temos o preconceito dos habitantes do norte, mais adiantado economicamente, contra os do sul, os chamados meridionali ou terrone. O mesmo acontece, aliás, aqui entre nós com relação aos nordestinos que vieram de seus estados viver no sul, em busca de melhores condições de vida. É tanto o preconceito que mesmo os nossos dicionários já o registram. Baianada, por exemplo, passou a ser sinônimo de coisa mal feita, patifaria, baixaria.

O racismo também é encontrado naquela atitude que chamamos de xenofobia, palavra de origem grega que quer dizer aversão ao estrangeiro, àquilo que é diferente dos nossos valores, ao que é, em suma, diferente de nós. Foram os antigos gregos que criaram a palavra para designar aquele sentimento diante de povos que não participavam de sua cultura e, sobretudo, que não falavam a língua grega. O som da língua desses povos, aos ouvidos gregos, soava bar, bar, bar... Eram os bárbaros, para os gregos, grosseiros, não civilizados. Já na Linguística, a palavra barbarismo, como ensinam os mestres, descreve a tendência de se usar indiscriminadamente palavras e expressões de outras línguas, como nós fazemos aqui no Brasil, ao substituir quase que totalmente, o Português pela língua dos nossos neocolonizadores norte-americanos em muitas áreas da nossa vida (negócios, computação, música popular, televisão, publicidade, comércio, tecnologia etc.).


SANTO  TOMÁS 
Alguns filósofos gregos, como os peripatéticos, falavam de uma ira justa, enquanto outros, como os estoicos, sempre se referiram a esse sentimento como vicioso. Santo Tomás considerava a ira como uma paixão e, por isso, nos dizia, olhando-a sob um ponto de vista formal, que ela sempre proviria de uma alma apetitiva, ou seja, seria sempre um desejo de vingança. Sob o ponto de vista material, afirmava que a ira estava relacionada com alterações fisiológicas, com aquecimento, calor, estados que chamamos de coléricos.