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domingo, 17 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (5)


VERÃO
(MARC CHAGALL , 1938)
Não podemos deixar de lembrar ainda que alguns mitos gregos nos falam de  sistemas familiares em que as faltas e crimes dos pais são pagos pelos filhos. Acontecimentos dessa natureza estão registrados em muitas histórias e  descrevem a meu ver um mal-estar, ou melhor, uma espécie ferida que às vezes não fecha nunca, apresentada por grande parte dos capricornianos, ferida que lhes faz sentir que nunca obtiveram dos pais o que deles realmente necessitaram.   

Mitos gregos que melhor exemplificam o que acima aponto são os que nos falam da família dos átridas, também chamados de pelópidas, e da família dos labdácidas. Os primeiros têm como ponto de partida Tântalo, pai de Pélops, que por sua vez gerou Atreu, Tieste e Plístene, sendo o primeiro pai de  Agamêmnon e Menelau. Quanto à segunda, tudo começa com Lábdaco, passando por Laio, até chegar a Édipo e seus filhos. Nas duas famílias, uma corrente ininterrupta de traições, misérias, mazelas, crimes, incestos, mortes, onde um tipo de paternidade capricorniana
GEIA  E  URANO
apresenta claramente aspectos em que as ideias de fecundação se misturam às de dominação, de inibição e de autoridade indiscutível. O grande arquétipo deste tipo de paternidade tem naturalmente como modelo original a figura de Cronos, que, em última instância representa o mundo da autoridade em oposição ao das forças da mudança e da inovação. Cronos, como se sabe, é um titã, nascido de uma relação incestuosa entre Geia, a terra, e Urano, o céu, seu filho e amante. 

A mitologia grega, quando é posta em discussão a questão da paternidade (tema capricorniano, por excelência), deixa claro que no seu contexto (o das tradições patriarcais) a figura paterna é muito mais uma instauradora de valores, de leis e de regras que propriamente uma figura familiar, papel que elimina uma possível pretensão de igualdade da figura materna com ela. É nesse cenário
ÉDIPO E ANTÍGONA
(BRODOWISKI, 1784-1832
que, no mundo moderno, a figura paterna ainda se insere:  é o pai que estabelece o que é justo, bom e conveniente para a família e para os filhos, sendo considerado, por isso, como fonte de transcendência. Mas deixa ele também implícito, ao desempenhar desse modo o papel que lhe cabe, que o progresso passa pela sua supressão, tudo como também nos descrevem as histórias das dinastias da mitologia grega e de personagens como Édipo, Orestes, Teseu, Antígona e muitos outros.

É do mundo romano que nos vem um dos mitos que a tradição astrológica costuma associar a Capricórnio. Refiro-me à história de Janus, o deus bifronte dos povos da península itálica, por eles considerada como uma divindade indígete, isto é, autenticamente nacional, por oposição às importadas, as novênsiles. Janus, com efeito, tinha o seu culto celebrado no mês de janeiro, mês em que o Sol atravessa a constelação de Capricórnio. Uma das faces de Janus olhava o passado e a outra o futuro. Numa das mãos ele carregava uma chave e na outra uma foice. A chave, como sabemos, tem um duplo simbolismo, ela fecha, trazendo ideias de limite, de separação, de impedimento, de encerramento, e abre, sugerindo um
JANUS
meio de dar acesso a algo, de permitir, de libertar. Também símbolo de sabedoria, a chave, com o bastão, aparecem nas mãos de Janus como deus das portas solsticiais, exercendo assim uma função de guia (do qual o bastão é um símbolo) abrindo o caminho iniciático. O bastão de Janus dá ritmo à marcha do iniciado; sua dimensão, sua forma e sua flexibilidade correspondem sempre a medidas sagradas. Com a foice, na forma de um crescente lunar, Janus incorpora mais traços saturninos, simbolizando a sua figura tanto a morte como a esperança de um renascimento, falando-nos assim do inexorável progresso temporal.

Janus, como se sabe, é, entre os romanos, o guardião da porta principal, chamada janua. Por extensão, Janus acabou adquirindo poder sobre tudo aquilo a que o ser humano dava início, como está na palavra initium. A etimologia mais remota de Janus está numa raíz indo-europeia, ya, que tem o significado de passar, transitar. Entre os romanos, passagens abertas eram chamadas de iani. É por esta razão que o início do ano na Roma antiga foi colocado sob a tutela de Janus, no seu mês, janeiro, isto é, no signo de Capricórnio, pois neste mês o Sol, a 21 de dezembro, retomava o seu caminho de volta em direção do hemisfério norte. 

Lembremos, porém, que nem sempre foi unânime este entendimento entre os romanos, quanto ao mês que marcaria o início do ano. Segundo a tradição mítica, Rômulo havia fixado o início do ano no mês de março, em homenagem ao deus Marte, seu pai. Numa Pompílio, o segundo rei de Roma,  alterou essa disposição ao estabelecer o início do ano no mês de Janeiro e
JUNO
definindo o mês seguinte, fevereiro, meses inexistentes. Fevereiro vem de februa, um apelido da deusa Juno (Hera) enquanto esposa de Fébruo (O Purificador), uma divindade infernal. O mês de fevereiro (februaris mensis) era o último do antigo calendário romano, mês dedicado às expiações e purificações. Fébruo acabou sendo identificado como Pai Dite (Dis Pater), o equivalente do Plutão (Hades) grego, divindade em honra da qual se realizavam, no mundo romano, no período, as
NUMA   POMPÍLIO
cerimônias de mundificação e de expiação anuais. Esse mês foi instituído por Numa Pompílio desejoso de igualar o sistema romano de contar o tempo com o dos povos mais cultos (gregos e fenícios), com os quais os romanos começavam a entrar em contacto. Lembremos que Numa Pompílio (715-672 aC) é um personagem que não tem a sua identidade histórica claramente definida, aparecendo muitas vezes como uma figura mítica. 

A título de curiosidade, é de se lembrar também que o mês de fevereiro é o menor dos meses do ano. Isto se deve ao fato de no tempo do imperador Augusto (63 aC-14 dC) os seus aduladores terem proposto que o mês a ele consagrado, agosto, até então com 30 dias, tivesse a ele acrescentado mais um, para se igualar ao de julho, consagrado ao seu tio, o grande imperador Julio César, já falecido. Seria inadmissível, diziam tais aduladores, que o maior imperador romano, o divino Augusto, ficasse numa situação inferior à de qualquer outro imperador. Assim, o mês de fevereiro foi usado para que tal acerto fosse feito no calendário romano. 


O imperador Carlos Magno, todo poderoso sobre a Europa ocidental, no séc. VIII, fez o início do ano retornar à data fixada por Rômulo. No séc. XIII, a Igreja Católica tentou fazer coincidir o início do ano com o sábado de Aleluia, quando se procede à cerimônia do fogo novo, da bênção das pias batismais, e com a ressurreição de Cristo, que assegura ao homem uma promessa de vida nova e feliz. No séc. XVI, o rei Calos IX, fixou para a cristandade o princípio do ano no primeiro dia do mês de janeiro.  

Voltando a Janus, é de se ressaltar que o deus possuía um templo em Roma com doze portas, com um altar em cada uma delas. No dia 1º de janeiro, nesse templo, os romanos trocavam presentes, figos, maçãs, bolos de mel, peles de carneiro, taças de vinho etc., costume que está na base das festividades celebradas até hoje, entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Janus, no panteão romano, pode ser citado juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos que perseguiam os vivos como personificação de antepassados mortos, transformados depois em entidades protetoras da família e da casa. Janus é um desses deuses mais antigos entre os romanos, sendo, como se disse, representado com duas faces contrapostas numa cabeça, dominando as portas de passagem. Era uma divindade de caráter nacional. Numa das sete colinas de Roma, desde tempos muito remotos, havia uma cidade denominada Janiculum, em sua homenagem. 


LARES   E   PENATES

Segundo alguns mitólogos, Janus teria sido um herói que emigrara da Tessália (Grécia) para a Itália, recebendo do rei Câmeses parte de seu reino. Morrendo este último, conta o mito que Janus reinou sozinho no Lácio e que acolheu mais tarde o deus Cronos que emigrara para a Itália depois da vitória dos olímpicos. Janus dividiu seu reino com ele (como Câmeses o fizera), recebendo Cronos, entre os romanos, o nome de Saturno (nome que vem dos verbo
TERMAS   DE   SATÚRNIA
latino serere, semear, plantar). Unindo-se à deusa Ops Consivia (a Terra, semelhante à deusa Cibele, da Ásia Menor), a prodigalizadora da abundância, Saturno fundou uma cidade fortificada (Saturnia) na região do Capitólio, assumindo a condição de uma divindade civilizadora, instaurando a chamada aetas aurea (idade do ouro). 

As figuras de Janus e de Saturno acabaram por se fundir. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis ianuarius, o mês que marca a passagem de um ano a outro, como também a ele foi atribuída a tutela de todos os começos, sendo por isso invocado ao nascer de cada dia, antes de qualquer outra divindade. Na festa celebrada em sua honra, no dia 9 de janeiro, era feito o sacrifício (agonium) de um carneiro (guia do rebanho). O santuário principal do deus, o Janus Geminus ou Quirinus (quiris, quiritis, nome pelo qual eram designados  os cidadãos romanos) estava situado ao norte do Fórum, diante do templo de Vesta. A estátua de Janus bifronte foi
JANUS   BIFRONTE
colocada debaixo de um arco na porta principal da cidade, de modo que ele olhasse para a sua entrada e a sua saída. Esta atitude era considerada pelos romanos como um símbolo de sua solicitude, o que o transformava no patrono dos porteiros. Aliás, como porteiro (janitor), Janus usava o seu bastão (virga) para evitar as intrusões molestas e afastar animais inconvenientes. Nesta função de porteiro, Janus era chamado pelos sobrenomes de Patulcius, o que abre, e de Clusivius, o que fecha. O culto de Janus estava centralizado na colina Janiculum, onde o rei Anco Márcio havia estabelecido uma fortificação para proteger o caminho dos comerciantes que iam à Etrúria e ao porto do Tibre, razão pela qual Janus recebeu o apelido de Portunus. Com o tempo, Janus tornou-se não só protetor das entradas e das saídas como dos comerciantes e dos navegadores. Sua cabeça figurava na mais antiga moeda dos romanos. 





Deus ambivalente, deus dos deuses na Roma antiga, Janus assumiu a condição de deus das transições e das passagens, marcando inclusive a evolução do passado em direção do futuro, de um estado a outro, de um mundo a outro. Sua dupla face significava que ele supervisionava tudo, tanto as entradas e as saídas como olhava para o interior e para o exterior. Neste sentido, Janus é a encarnação do próprio princípio da vigilância que pode se constituir também na imagem de um imperialismo sem limites. Sua figura bifronte está sempre nos arcos, nas portas, nas galerias, nos lugares de passagem. Alguns mitólogos fazem referência a um Janus quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do universo. 

A cabeça de Janus passou a alguma culturas como o símbolo da ambiguidade, algo assim como uma lâmina que tem dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus é considerada como a união do positivo e do negativo, qualidades que estão em todas as situações e ações humanas. Entre os romanos antigos, a cabeça bifronte de Janus era também um símbolo da vigilância (pessoas que têm “olhos na nuca”). Aos poucos, porém, esse sentido se perdeu para dar lugar ao da falsidade, como no caso da pessoa que tem “duas caras”, pessoa não digna de confiança, a que oculta o seu verdadeiro eu.    

DESTRUIÇÃO  DO  TEMPLO  DE  JERUSALÉM
( NIKOLAI   GE , 1831 - 1894 )
Entre os judeus, Tevet é o mês de Capricórnio, relacionado com a montanha e, no corpo humano, com a raiva e o fígado. O nome Tevet indica uma carência, uma falta de influência divina. Foi durante este mês que o cerco que levaria à destruição de Jerusalém começou; durante o mês de Tamuz, brechas foram abertas nas muralhas da cidade; em Av, o templo foi destruído. Assim, Tevet (Capricórnio), Tamuz (Câncer) e Av (Leão) são considerados pelos judeus como meses de influências negativas.

CHANUKÁ  ( CHAGALL , 1887 - 1985 )
Tevet é o décimo mês lunar do calendário hebraico a contar de Nissan, mês do Êxodo, ou quarto mês a partir da festa de ano novo (Rosh ha-Shaná). Tevet começa geralmente na segunda metade de dezembro. A festa de Chanuká (festa das luzes) estende-se até os primeiros dias deste mês. Em seu oitavo mês foi completada a tradução da Bíblia para o grego pelos setenta e dois sábios. A história desta tradução está narrada numa obra grega (carta de Arísteas). Por ela ficamos sabendo que a Torá, no séc. III aC, foi traduzida e passou a fazer parte da biblioteca do imperador egípcio Ptolomeu Filadelfo, em Alexandria. O sumo sacerdote de Jerusalém enviou setenta e dois sábios (seis para cada tribo) que fizeram a tradução, que impressionou bastante o imperador. Os rabinos consideraram, entretanto, a tradução uma tragédia, pois não a viram como correta, apenas um texto para uso dos gentios. No dia dez de Tevet se realiza um jejum público para lembrar o cerco de Jerusalém pelos babilônios, cerco este que deu origem à destruição do primeiro templo. Este dia de jejum é o único no calendário judaico que pode cair numa sexta-feira. 

O elemento terra aparece associado a Tevet, simbolizando o vagaroso poder de materialização que nele predomina. Entretanto, é dentro da terra que o poder de sustentação da vida está contido, assim como é dentro do fígado que está o sangue novo, fonte de energia do corpo humano. Segundo algumas tradições, os meses de Tevet (Capricórnio) e de Shevat (Aquário) correspondem aos dois olhos. Este entendimento decorre do fato, segundo tais tradições, de serem os olhos humanos os órgãos que mais facilmente afastam o homem da espiritualidade, segundo o ditado: O olho vê, o coração deseja.

Segundo a astrologia judaica, os olhos correspondem a dois meses do verão, Tamuz e Av, e, por essa razão, por ação reflexa, se ligam a dois meses do inverno, Tevet e Shevat. O atributo natural de Tamuz é a visão, sentido dependente do olho, lugar onde o mal encontra a sua primeira base de influência. Este signo aparece associado ao caranguejo, lembrando, por isso, movimento e flutuação. 

O astro que se associa a Tevet é Shabtai, Saturno, nome que etimologicamente lembra limitação, inatividade, razão, confirmando-se as tradições, pelas quais ele dá lugar a que as influências destrutivas do mal se manifestem. No seu aspecto positivo, Saturno representa a compreensão profunda, a erudição, e a contemplação, associada ao Shabat, na medida em que refreia a atividade mundana para permitir a experiência do transcendental. A expressão negativa deste signo, segundo a astrologia judaica, está no fato de ser Tevet para os cristãos um mês festivo, pois está na base da religião cristã, religião que quanto mais se difundia maior a perseguição e o sofrimento dos judeus.

A tribo relacionada com este signo é a de Dan, que tem a ver com o poder do severo julgamento. Dan, nome que quer dizer julgamento, é o sétimo filho de Jacó e o primeiro de Bilha (escrava de Rachel), ancestral de uma pequena tribo que se instalou em Leshem, perto da nascente do rio Jordão, no extremo norte de Israel. Sansão foi o
ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( MARC  CHAGALL )
mais célebre dos descendentes desta tribo. No acampamento dos judeus, no deserto, a tribo de Dan ocupava um território onde o Sol se escondia, o norte, associado a Satã, ao mal, lugar do infortúnio, de obscuridade e morte, como o atesta Jeremias: é do setentrião que a infelicidade se espalhará  sobre todos os habitantes do país. Em muitas catedrais e igrejas cristãs, a porta do norte é conhecida como a porta do Diabo. O norte, para os judeus, é uma direção associada à acumulação de riqueza; foi dela, conforme explica a Midrash (método de interpretação bíblico), que a tribo de Dan recebeu o ouro com o qual contribuiu para a confecção do bezerro de ouro. 


Segundo os judeus, os nascidos no mês de Tevet costumam demonstrar uma forte inclinação para amealhar riqueza material. Esta tendência está expressa na letra Ayin, a letra deste mês, bem como está associada ao olho direito. Os judeus, durante a sua vida, devem prestar especial atenção neste mês à função espiritual da visão, conforme está em Isaías (cap. 40, 26): levantai vossos olhos ao alto e vede que criou esses corpos celestes: quem faz marchar em ordem o exército das estrelas e as chama a todas pelos seus nomes: pela eficácia da sua fortaleza, e força, e poder, nem uma só faltou. 

O mês de Tevet tem como atributo emocional a raiva (rogez), que tem o mesmo valor numérico da palavra Yirah, orgulho e consciência inspirada. Isto pode ajudar alguém a direcionar a energia de sua raiva orgulhosa contra a inclinação ao mal. A palavra raiva (rogez) é também numericamente equivalente à palavra poder (gevurah). O Mal usa o poder para vencer a santidade de Israel. A vitória sobre os atributos negativos do mês de Tevet pode trazer a uma pessoa um grande crescimento espiritual. A letra Ayin, acima mencionada, conforme certas tradições, representa também o poder de Esaú; sua forma, agachada e curva, simboliza a queda de Esaú.

Esaú, lembremos, em hebraico é peludo, felpudo, filho de Isaac e de Rebeca, apelidado O vermelho, considerado como o ancestral dos edomitas. Ávido de poder, trocou a sua primogenitura com seu irmão gêmeo e mais novo, Jacó, sendo depois privado da benção

SITRA   ACHRA 
paterna em razão de conflitos com o irmão. Assassino, estuprador e adúltero, Esaú morreu quando um neto de Jacó, durante os funerais deste, cortou-lhe a cabeça. Entre os judeus, Esaú simbolizou primeiramente o cruel império romano e depois, na Idade Média, o mundo cristão, pela sua postura antagônica com relação aos descendentes de Jacó. Entre os místicos, Esaú representa o Sitra Achra, o lado do Mal.

Os filisteus (povo semítico, talvez originário de Creta ou do sul da Ásia Menor; por volta de 1.200 aC), instalaram-se nos territórios sírios e palestinos e no norte do Egito; aniquilaram os hititas, fundaram várias cidades, dente elas Gaza; exerceram sempre muita pressão sobre Israel, o que contribuiu para fazer dele uma monarquia; no final do séc.VIII aC, foram submetidos pelos assírios), astrologicamente, são representados para os judeus pelo signo de Capricórnio. Desejando purificar a má influência da origem de sua mulher filisteia, lembram os judeus que Sansão, da tribo de Dan, deu-lhe de presente uma cabra.

Segundo a astrologia judaica, a influência de Capricórnio atinge negativamente Israel só se negligenciados ou esquecidos os preceitos da Torá. Particularmente importante neste mês é a influência do patriarca José, cuja história (sua estada no Egito) é sempre lida ao final do shabat, destacando-se a insegurança que ele deve ter experimentado enquanto vivendo no país dos faraós, um traço capricorniano, segundo os judeus. Durante os meses de Tevet e Shevat são lidos também trechos do livro do Êxodo. A influência de Sagitário em Tevet é representada por José e é enaltecida na festa da Luzes.


CABRA
Para os judeus, a cabra é, dentre todos os animais que vivem em rebanhos, o primeiro a avançar quando chega a um pasto. Essa afirmação está baseada no Talmud, maneira de agir que se confunde com o próprio processo da criação. Antes havia trevas, agora há luz, concluem os judeus. A natureza da cabra, no sentido de tomar a dianteira, assemelha-se à natureza dos capricornianos. Esta postura, porém, tanto pode significar, como eles a consideram, impulso em direção da espiritualidade como em direção da impureza material. Quanto ao primeiro, há que se remover todos os obstáculos quando a meta é a vida espiritual. A grande santidade de Capricórnio está no valor numérico da palavra gdee (cabra), dezessete, o mesmo valor numérico da palavra tov, divindade. 

É preciso lembrar que os judeus não vêem o bem e o mal como forças independentes, mas produzidas pelo próprio Deus. Encontramos em Isaías: Eu formo a luz e crio a escuridão. Eu faço a paz e crio o mal. Muitos rabinos recomendam que uma bênção
SAMAEL
deve ser proferida tanto na ocorrência do bem quanto do mal, pois tudo o que Deus faz é feito no sentido do bem. Na Idade Média, muitos filósofos judeus consideravam que o mal era tão somente a ausência do bem. A Cabala, entretanto, afirma que a fonte do mal está no Sitra Achra, o Outro Lado, sempre em conflito com as forças do bem. O Sitra Achra é o nome genérico das forças demoníacas, estruturadas de modo sefirótico. Esse Outro Lado não tem energia própria, sendo um parasita da luz divina, uma espécie de antimatéria. É governado por Samael, príncipe dos demônios, e por Lilith, gênio feminino do mal.   

O mal que os filisteus sempre representaram para o povo judaico sempre apareceu associado a Lilith e ao poder que ela tem sobre o reino do desejo. Dalila, que Sansão tentou subjugar, é uma manifestação desse poder. Sansão, como sabemos, é um herói bíblico nazirita que viveu no tempo dos Juízes, oriundo da tribo de Dan. Dotado de força extraordinária, realizou proezas que o
SANSÃO MATA LEÃO (CHAGA
tornaram célebre entre o povo de Israel. Matou um leão com as suas próprias mãos e pôs em fuga os seus inimigos, atacando-os com a queixada de um asno. Sua mãe foi avisada pelo anjo Uriel que teria um filho, a ser educado no caminho da religião, pois ele livraria Israel da opressão dos filisteus. Vitimado, porém, por violentas paixões sexuais, acabou sendo entregue aos filisteus por uma de suas amantes, Dalila. Aprisionado, seus olhos foram vazados, sofrimento que lhe coube como uma punição, um castigo divino, assim entendiam todos, por ter sempre cedido às tentações da luxúria que eles lhe traziam. Enquanto aprisionado em Gaza, cego, as mulheres iam visitá-lo na sua cela, para com ele ter relações sexuais, na esperança de  ter um filho tão forte quanto ele. Sabemos que Sansão fez com que o templo filisteu desmoronasse, rompendo as colunas que o sustentavam. Sua morte, para os judeus, teve sempre a característica de um martírio altruísta.


Para a astrologia judaica, o nome de cada signo ensina o processo pelo qual a alma de cada um dos tipos zodiacais pode ser aberta para o divino. A imagem de uma flecha sendo disparada (Sagitário) guarda analogia com a saída da alma do mundo infernal. Esta flecha encontra a sua estabilidade em Tevet, Capricórnio, o tempo de autodisciplina e de preparação para a iluminação. Este processo alcança o mês seguinte, Shevat, Aquário, com a ideia de retidão. 

Negativamente, Tevet pode trazer influências de caráter depressivo, que levem à solidão, ao auto-confinamento. As letras da palavra gdee (cabra) podem ser arranjadas de modo a formar geed, falo. Para os judeus, o uso inadequado deste último, no sentido de desejo, gera ocasiões em que o bem é removido de sua normal posição neste signo. O símbolo da pureza capricorniana é o tsadik (homem justo, probo, personificado como José), cuja energia possibilitou a vitória que a festa das Luzes simboliza, corrigindo-se o que de mal houver em Tevet. José, como se sabe, venceu a tentação do olhar que, dentre outras coisas, leva ao adultério. O poder para a vitória sobre esta tentação está escondido no povo de Israel, sendo ele chamado por isso de reminiscência de José pela tradição religiosa.



CONSTELAÇÃO   DE   CAPRICÓRNIO 

A constelação de Capricórnio estende-se hoje de 2º a 24º Aquário, sendo suas estrelas pouco significativas astrologicamente. Sua principal estrela (alfa) é Giedi, também chamada de Algedi, num dos chifres da cabra, de magnitude ligeiramente superior a 3, hoje a cerca de 3º10´ de Aquário. Este nome é retirado de Al Jady (A Cabra), o nome árabe da constelação. Ptolomeu viu nela influências da natureza de Vênus e de Marte. Há nela também alguns traços uranianos, que sugerem acontecimentos inesperados, às vezes violentos e agressivos, dependendo, é claro, de sua posição e aspectos. A estrela beta de Capricórnio é dupla, Dabih Major e Dabih Minor, na base do chifre. A estrela gama é Nashira, a Afortunada, na região da cauda da figura. Com exceção da primeira estrela mencionada e de Deneb Algedi, estrela delta, as estrelas de Capricórnio não têm maior expressão astrológica. A rigor, a única levada em consideração é esta última, a 22º50´ de Aquário, situada na cauda da cabra, com magnitude 3,1. Entre os árabes é Al Dhanab al Jady (a cauda da cabra). Ptolomeu a relacionou com Saturno e Júpiter, lembrando legalidade, tempo, justiça, sabedoria que protege e que auxilia, vontade de ajudar liderando. Para que estas
LE   VERRIER
características ganhem relevo e destaque é necessário que Deneb Algedi mantenha de algum modo relações positivas com o signo de Libra e com planetas que nele se encontrem. Um fato curioso com relação a Deneb Algedi é que o astrônomo Le Verrier manifestou sempre seu descontentamento com relação às efemérides de Urano, descoberto em 1.781.
GALLE, 1912-1910



Achava Le Verrier, na década de 1840, que havia um elemento perturbador da órbita uraniana, uma massa desconhecida, a 5º na direção leste de Deneb Algedi. Poucos anos depois (1846), com base nesta indicação, o astrônomo Galle descobria o planeta Netuno.









  

terça-feira, 22 de setembro de 2015

GALAHAD II


                     
GALAHAD
    
As mais antigas civilizações, desde as primeiras etapas de sua formação, sempre glorificaram alguns seres que de certa maneira se destacaram por feitos ou deixaram algum exemplo. Reis, príncipes, fundadores de religiões, de impérios, de cidades, guerreiros etc. De um modo geral, a esses seres se deu o nome de herói, palavra que veio do grego, héros, heroos, latinizada depois, usada também, nos mitos, para designar um semideus (filho de uma divindade e de um mortal) ou um mortal divinizado. Mesmo as civilizações que não seguiram de perto os modelos asiático e europeu, como as do norte, centro e sul americanas, tiveram essas figuras nos seus mitos. A única exceção que realmente poderíamos destacar, com relação ao tema heroico, nós a encontramos na civilização egípcia, nele inexistente. 

Nas suas raízes etimológicas (gregas) mais profundas a palavra herói designava na mitologia o filho de um deus ou de uma deusa com um ser humano. Aos poucos, a palavra passou a ser utilizada para denominar um mortal divinizado após a sua morte (evemerização) e também aquele que se notabilizou por seus feitos guerreiros, sua coragem, sua abnegação. O sentido da palavra foi se ampliando, admitindo-se depois seu uso para apontar pessoas que suportaram um destino incomum ou que se dedicaram, até com o sacrifício da própria vida, a trabalhar pela humanidade. Do século XVIII em diante, com o Romantismo, uma nova dimensão foi incorporada à palavra, principalmente através da Arte, mais da Literatura. Determinados personagens que problematizavam sua relação com a sociedade começaram a ser chamados de heróis. Hoje, a palavra é aplicada a pessoas que se destacam por suas relações, dignas ou indignas, que se tornam de algum modo o centro das atenções.


CAVALEIRO  MEDIEVAL  E  SUA  DAMA

De um modo geral, os heróis, nos mitos de todas as culturas, são considerados também como um elo, um traço de união entre a terra e o céu. Podem eles, contudo, em determinados casos, adquirir a imortalidade através de feitos e conquistas excepcionais. No geral, simbolizam um esforço evolutivo, um desejo de superação, de transcendência, que é buscado em meio a impulsos muitas vezes contraditórios, desmedidos, que os levam a tentar se igualar aos deuses ou até mesmo superá-los. Os temas da vida heroica se fixam na conquista da glória, da imortalidade, procuradas através de dois caminhos principais, a via social (horizontal) e a via espiritual (vertical) que, às vezes, se interpenetram. 

Sabemos que a imagem do herói pode se associar em sonhos, em todos os estágios do desenvolvimento psíquico do ser humano, à presença de um guia, de um mestre, de um orientador. Essa figura estará sempre relacionada com o devenir, com o futuro do sonho do herói, como uma proposta de mudança indispensável de autosuperação, de evolução, de transcendência.  


LEITURA   NOS   CONVENTOS

O tema do heroísmo nas lendas (legenda, em latim, o que deve ser lido), além dos caminhos acima apontados, tomou também uma outra direção a partir dos séculos do início da era medieval. As lendas, nesses primeiros tempos, tinham por motivo a vida de santos e de mártires, cujas histórias, reproduzidas em textos, eram lidas (daí o nome legenda, o que deve ser lido) nos refeitórios dos conventos. Passaram essas histórias depois à vida profana como contos populares que tinham por base certos fatos que aos poucos foram se embelezando, se desenvolvendo, transmitidas e transformadas pela imaginação popular. Tais lendas procuraram invariavelmente descrever ações ou ideias através da crônica de certos heróis, com o objetivo de fazer com que o público participasse desse mesmo impulso. Perdeu-se, assim, o fato histórico e no seu lugar o que mais se fixou foi a ação maravilhosa. 

A palavra maravilhoso, do latim mirabilia, traduz tanto a ideia de algo que espanta com a daquilo que pode merecer também crédito, sempre causando admiração, opondo-se tais conceitos aos de realidade ou de normalidade. Há sempre, também, a ideia de transgressão de fatos empíricos. No Ocidente, na cultura medieval, o maravilhoso torna-se um motivo central na literatura cavaleiresca dos sécs. XII e XIII, uma espécie de arma cultural a serviço da aristocracia e dos meios eclesiásticos.


CANÇÃO DE GESTA


Nas lendas, a via é mais social. Ao contrário dos mitos, os personagens lendários não participam, de um modo geral, do divino. O herói da lenda é um personagem enraizado na história, notabilizado por seus feitos guerreiros, por sua coragem, tenacidade, abnegação, magnanimidade e pureza.  Alguns heróis, embora fixados no plano social, histórico, simbolizaram, entretanto, pelo seu exemplo, uma proposta de transcendência “vertical”, espiritual, religiosa. 


CARLOS   MAGNO

Com o título de canções de gesta aparecem nos séculos seguintes ao reinado de Carlos Magno (768-814), na Europa, principalmente na França, algumas produções poéticas, geralmente compostas em versos de dez sílabas, que louvavam os feitos maravilhosos e heroicos de certos cavaleiros que teriam vivido nas cortes de tempos passados, de modo especial, na época carolíngea, entre os sécs. VIII-IX. Esta literatura é considerada como um subgênero da epopeia e tem características formais específicas, usa uma linguagem estereotipada e procura desenvolver temas ao mesmo tempo religiosos e guerreiros. Gesta vem do latim, gesta, gestorum e tem aqui o sentido de façanhas, feitos heroicos, memoráveis, reais ou imaginários. 


Desde o final do séc. XI, a canção de gesta passou a ser salmodiada por um cantor profissional itinerante, diante de um público muito variado e em grande parte analfabeto que se reunia em lugares de grande concentração popular, praças públicas, feiras, mercados ou lugares de peregrinação. Os auditórios desta literatura, de forte tradição oral, eram entusiastas tanto nas cidades como nas estradas. O ritmo era um dos elementos essenciais destas produções. Os cantores (poetas) procuravam desenvolver seus temas repetidamente, uma sucessão de clichês muitas vezes, usando técnica semelhante à dos aedos (poetas-cantores) gregos dos tempos de Homero (850 aC), tudo para facilitar a sua memorização. De outro lado, valendo-se de recursos como os da variação na repetição, uma espécie de retórica muito peculiar, procuravam eles prender a atenção dos auditórios, formados em grande parte, como se disse, por um público iletrado.

TROVADOR 
Esta literatura, inicialmente voltada para a glorificação dos feitos fundadores da civilização medieval, guerreira, feudal e cristã, foi mudando, a partir do séc. XII, procurando expressões menos rudes, mais elegantes de vida, nas quais as mulheres passavam a ter um papel mais ativo. Surge então a chamada literatura cortês, praticada nas cortes. Dava-se o nome de corte à entourage de um príncipe; era essa entourage que o ajudava e aconselhava, auxiliando-o a administrar os seus domínios, a fazer justiça e a tomar decisões políticas. Nos séculos XI e XII, as cortes dos príncipes ocidentais constituíram o cenário onde começou a se desenvolver esta literatura.

Os costumes e as maneiras se suavizam nesse período. A nobreza medieval se tornou uma classe hereditária cada vez mais fechada. Sob a influência da Igreja Católica, os sentimentos de generosidade e de polidez entraram em circulação. Criou-se uma vida mundana, pontuada por festas e cerimônias. As mulheres, as damas, adquiriram um papel importante na fixação das novas regras de convivência palaciana, regras estas que aos poucos iam permeando inclusive as camadas sociais mais baixas.

 As escolas episcopais e monásticas formavam um público de leitores atraídos pelas obras em latim e em francês. Estas obras eram escritas especialmente para uma elite mais civilizada, tendo por tema aventuras sentimentais em meio a ambientes elegantes e luxuosos. Esta literatura tomou o nome, como se disse, de cortês porque se destinava, sobretudo, a um público que frequentava a corte. 

No séc. XII, a promoção da mulher é favorecida por uma iniciativa da Igreja Católica. O culto da Virgem Maria, até então apagado, passou a ser muito prestigiado nos meios católicos com o objetivo de se realçar, como altamente desejáveis sob o ponto de vista social, modelos espiritualizados de vida. Esses modelos procuravam acima de tudo valorizar o papel da mulher na construção dessa nova ordem, destacando temas como a concepção do mundo e da sociedade articulada por uma relação hierárquica entre a carne e o espírito, impondo-se este àquela de modo indiscutível; como a santidade do casamento; como a virgindade da mulher solteira; como a atenuação da natureza carnal da mulher, não mais vista fonte absoluta da luxúria e do pecado; como a desculpabilização da mulher, sempre considerada a causadora da expulsão do Paraíso; como as limitações eclesiásticas e judiciárias a que as mulheres estavam submetidas, entendidas como naturais, pois o homem (só ele) tinha sido criado à imagem de Deus (Gen 1,26) etc.


                               ANUNCIAÇÃO ( FRA ANGELICO)

Lembre-se que a Virgem Maria, que antes do século IX só tinha uma festa (1º de janeiro), no fim do século XII já contava com quatro: Anunciação (25 de março), Assunção (15 de agosto), Natividade (8 de setembro) e Purificação (2 de fevereiro). Entre os séculos XIV e XV, acrescentar-se-ão Visitação, Entrada no Templo, Dores de Maria e finalmente Concepção. Com esta promoção, a Virgem Maria se “individualizou” e adquiriu autonomia com relação às questões ligadas ao seu Filho, apesar de todas as discussões que se seguiram nos meios cristãos sobre tal “independência”, muito incômoda às vezes, sempre tivessem procurado garantir a pureza da mãe de Deus, declarada como virgem ante partum, in partu et post partum. 


VISITAÇÃO  DA  VIRGEM  MARIA  A  SANTA  ISABEL  (GIOTTO)

Uma das melhores imagens sobre o papel da mulher nessa nova ordem apareceu entre os séculos XV e XVI como a temos no conjunto das seis tapeçarias, denominadas La Dame à la Licorne, hoje no Musée de Cluny, em Paris. Em cada tapeçaria, sobre um fundo ornado de flores (mille fleurs) e animais, uma jovem mulher é representada cercada de emblemas heráldicos, notadamente um leão e um unicórnio. O conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos; na sexta tapeçaria aparece a frase À mon seul désir, ou seja Segundo o meu livre arbítrio, ou ainda Sem submissão aos sentidos. 


TAPEÇARIA  LA  DAME  À  LA  LICORNE  


Dentro da literatura cortês, muito variada, há um tópico temático que recebeu o nome de matéria bretã, de inspiração celta, mais exatamente a lenda do rei Arthur. Em 1.135, Geoffrey of Monmouth publicou a sua Historia Regnum Britanniae (História dos Reis da Bretanha), em latim. Esta obra foi traduzida livremente, em octassílabos, para a rainha Alienor, pelo poeta anglo-normando Wace. Revelava-se por ela, para os franceses, a lenda do rei Arthur, chefe dos celtas, que comandou a resistência contra a invasão dos saxões no século VI. 

A figura de Arthur se situa entre a fronteira do real e do imaginário. Sua identidade histórica é a de um chefe militar que organizou no século VI a luta da nação bretã contra o invasor saxão. A literatura vai lhe dar uma segunda existência e fazer dele um rei mítico, um soberano ideal, ao mesmo tempo modelo e representação de todas as virtudes cavaleirescas da Idade Média. 


REI    ARTHUR




A história de Arthur se insere nas tradições da mitologia dos celtas e fala de sua volta, do seu retorno maravilhoso. As lendas trataram Arthur como um rei poderoso e refinado, que mantinha uma corte luxuosa, dela fazendo parte, como mais próximos, os valentes cavaleiros da Távola Redonda. Estes cavaleiros sentavam-se à grande mesa circular para evitar disputas quanto às preferências reais. O cenário das aventuras de Arthur e de seus cavaleiros era a Armórica (nome da Bretanha antes do séc. VII) e mais a região compreendida pela Cornualha, por Gales e pela Irlanda.


TÁVOLA   REDONDA



A crônica de Arthur foi cantada por bardos galeses e por diversos outros (Nennius, Monmouth), fixando-se na França pela obra de Wace e principalmente pela de Chrétien de Troyes (1.135-1.183), o criador do romance moderno, centrada esta última no ciclo do Graal. No século XIII, todas estas obras foram colocadas em prosa sob o título de Lancelot em Prosa ou Corpus Lancelot-Graal, compreendendo cinco partes: A História do Santo Graal, A História do Mago Merlin, O Livro de Lancelot do Lago, A Demanda do Santo Graal e A Morte do Rei Arthur. 


  HISTÓRIA  DE  LANCELOT  E  O  SANTO  GRAAL


O Graal ou Santo Graal (gradalis em latim é um prato largo e cavo, uma espécie de terrina, onde se colocam alimentos de forma gradual; em grego, temos krater, que deu a forma latina cratale, cratalis) seria um cálice muito grande, de que Jesus Cristo teria se servido na última ceia com os discípulos e no qual José de Arimateia teria recolhido o sangue e a água provenientes das chagas do
GRAAL
Crucificado quando de sua Paixão. Segundo lendas bretãs medievais, o Graal teria sido levado para a Bretanha e depositado numa capela dentro de um bosque. O tema do Graal está na base de muitas lendas, de acontecimentos maravilhosos, de fatos extraordinários, inspirando os romances do rei Arthur e dos seus cavaleiros.


Como não poderia ser diferente, as versões sobre a história do Graal, produzidas ao longo dos séculos, são muitas e até, às vezes, contraditórias. Mas há algumas, pouco exploradas, que nos parecem interessantes pois, em que pese toda a carga de maravilhoso e de extraordinário presente, nos permitirão encontrar alguns veios históricos pouco explorados. 

JOSÉ  DE  ARIMATEIA
Um deles, por exemplo, tem como ponto de partida o papel de José de Arimateia na história do Graal. Explorando-o, tomamos conhecimento, numa das versões, de que foi ele, Arimateia, quem trouxe o Graal para a Europa. Senador, discípulo secreto de Jesus, rico comerciante, seus negócios estendiam-se por todo o Mediterrâneo, da Palestina à Britânia. Nas novas terras, Arimateia, liderando um grupo, foi aprisionado e libertado tempos depois por um certo Mordrain, que, como diz a lenda, devidamente inspirado por Cristo, passou não só a lhe prestar assistência como construiu um mosteiro para abrigar o Graal. Para guardião da sagrada peça, foi designado Alain, filho de um cunhado de
CASTELO  DE  COBERNIC
Arimateia. Por ter, certa vez, pescado um grande peixe, com o qual pode alimentar toda a família, Alain passou a ser chamado de Rei Pescador, título que, desde então, ligeiramente adaptado (Rico Pescador) passou a ser aplicado a todos os sucessivos guardiões do Graal. Alain levou depois o Graal para o castelo de Corbenic, onde, bem mais tarde, irão procurá-lo os cavaleiros do rei Arthur.



O apelido de pescador, como se sabe, é um título dado a São Pedro, pois, pela sua ação catequética, ao converter os homens, ele os “pescava”, salvando-os da perdição. Os apóstolos de Cristo eram, em grande parte, pescadores de profissão. Além do mais, lembremos que é de um dos títulos de Cristo, em grego, Iesus Christos Theou Uios Soter (Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador), que sai a palavra Ichtus, peixe, em grego, símbolo do Cristianismo.

As versões sobre a história do Graal apontam um número bastante variável com relação aos cavaleiros. Esse número oscila, segundo as versões, entre doze e cento cinquenta. Os cavaleiros de Arthur se empenharão na busca do precioso cálice, que tomará um sentido místico e eucarístico nos romances. Com efeito, o Graal é tanto um símbolo da vida mística como de aspiração à perfeição cristã que leva a Deus. A cavalaria, que antes estivera a serviço do rei ou da dama, de inspiração terrestre, militar, colonizadora, estava agora a serviço do céu, uma cavalaria celeste. 

Dentre os mais hábeis cavaleiros na busca do Graal destacaram-se Lancelot e Perceval. Contudo, por viverem mundanamente, não conquistarão o precioso tesouro. Foi Galahad ou Galaaz, filho de Lancelot do Lago, cavaleiro puro, livre de toda tentação terrestre, que de fato se aproximou do objeto maravilhoso, antes de deixar a terra, contemplando-o num êxtase que representava a felicidade mística. 

Para chegar ao Graal, símbolo da plenitude interior, era preciso, diz a história, ir além de Lancelot ou de Perceval. O Graal equivale ao caldeirão da mitologia celta, que tanto proporcionava de modo inesgotável alimento para o corpo como iluminava interiormente. É uma conquista que não está ligada a ações externas, mundanas, pelas armas, mas, sim, a uma radical transformação interior, do espírito e do coração.


CORNUCÓPIA
Sob o ponto de vista mundano, entretanto, o Graal, pelos poderes que confere, pode ser considerado um talismã, algo assim como a cornucópia criada por Zeus, a lâmpada de Aladin, o anel de Gyges, o capacete da invisibilidade ou as sandálias voadoras que Perseu usou. Tecnicamente, o talismã (do grego, telesma, objeto consagrado), pela sua preparação ritual e natureza mágica, tem relação com poderes, sendo, neste sentido, ativo. Difere do amuleto (do latim, amuletum, protetor, preservativo), de natureza passiva, que protege contra infortúnios e desastres, exercendo uma função apotropaica, afastando os males. Era o caso, entre os antigos gregos, de estatuetas do deus Príapo, colocadas nos pomares e jardins das casas para afastar Phtonos, a Inveja. 

O tema do Graal vem sendo utilizado desde o século XIX também por alguns estudiosos, fora dos fechados circuitos universitários, para defender a tese de que sempre existiu na Inglaterra, institucionalmente, uma Igreja, cuja origem se perdia em tempos muito remotos, anteriores mesmo à chegada do Graal. Tal defesa se baseia numa possível ligação estabelecida entre a Palestina e a Inglaterra. Cristo e o rico José de Arimateia, em segredo, diz a lenda, visitaram o local, onde se localizava a ilha de Avalon do mito celta, lugar em que, mais tarde, se formaria a pequena cidade de Glastonbury, perto de Bristol, a cerca de 150 km. de Londres.

Depois da morte de Cristo, Arimateia, conforme se disse, em companhia de um grupo, conseguiu chegar ao local por ele anteriormente visitado, ali se levantando uma igreja para guardar a preciosa peça. Esta ligação, reativada mais tarde, teria dado origem à Igreja Anglicana, por pressão de emissários que teriam vindo da Terra Santa. Estes emissários, segundo a tese sobre a qual ora discorremos, se fixaram em Glastonbury.          Estas histórias sobre
Glastonbury (onde se realiza nos tempos de hoje talvez o maior festival de música popular da Grã Bretanha) ganharam grande divulgação principalmente a partir do século XIX, tocando corações e mentes, provocando um revival sem precedentes da mitologia celta, como aconteceu, por exemplo, pioneiramente, com William Blake. 




A história do Santo Graal ganha outra dimensão, ampliando-se bastante o seu alcance simbólico, histórico e psicológico, quando estudada à luz da Astrologia (signo de Virgem). É pelas aproximações que podemos fazer entre a lenda do Graal e a Astrologia, que ampliamos o sentido dessa história. A começar por trazer à discussão o problema da sua origem. Uma variante esquecida, mas muito importante, nos coloca diante de um texto que Guyot, poeta provençal da metade do séc. XII, teria encontrado em Toledo, na Espanha, numa biblioteca. Por esse texto, de autoria de um tal de Flegitanus, astrólogo, tomamos conhecimento de que a história do Graal era, como nele está, de origem árabe. O nome Flegitanus provinha, ao que parece, do persa, formado a partir de felehedaneh, palavra que quer dizer astrologia. Não só por esta, mas por outras razões, não será estapafúrdio admitir que a história do Graal tenha sido trazida do Leste para o Ocidente pelos Cavaleiros Templários. 


CAVALEIROS   TEMPLÁRIOS

Se ao que está acima acrescentarmos outras observações de natureza astrológica não será disparatado defender a hipótese de que a história do Graal é, antes da sua cristianização, como ocorreu com relação a muitas lendas medievais, um texto de inspiração astrológica. É a partir de Virgem, signo-recipiente do ego nascido no signo anterior, Leão, que devemos fazer a opção: buscar um caminho evolutivo, indo em direção do terceiro quadrante zodiacal, que se abre com o signo de Libra, ou regredir, ficando à mercê das várias pressões instintivas, representadas pelos signos anteriores (Câncer, Gêmeos, Touro e Áries). A purificação do ego leonino em Virgem pede, para a grande aventura cavaleiresca, que, feitos os votos de Galahad, o homem ideal entre na posse de suas três virtudes: coragem, fidelidade e pureza.


GLASTONBURY  TOR
Ao que está acima, acrescente-se, para justificar a persistência da lenda e as suas ligações com a Astrologia, que recentemente descobriu-se em Glastonbury uma enorme figura zodiacal, traçada em extensa área do solo, nos arredores da cidade, entendendo-se ela até a famosa colina (Glastonbury Tor), onde está porta que dá acesso a Avalon, local de culto de antigas divindades femininas.  

Galahad é filho de Lancelot e de Elaine, filha do Rei Pescador. Seu nome vem do hebraico, galead, testemunho, de onde chega ao latim bíblico, Galaad (Gênesis XXXI, 47-48). Galahad, na história, era descrito como um cavaleiro extremamente delicado, solícito, o que menos tinha a ver com aventuras sexuais. Sua pureza e sua quase que total ingenuidade é que lhe deram fama. Lendas celtas revelam que quando a Távola Redonda foi instituída um lugar foi mantido deliberadamente vazio. Esse lugar era chamado de Siège Dangereux (Assento Perigoso), destinado ao cavaleiro que um dia encontraria o Graal. Este cavaleiro deveria possuir uma inigualável
RAINHA  GUINEVERE
pureza e, para provar seu valor, teria de retirar uma espada de uma pedra onde fôra cravada (este episódio é uma transposição do mesmo acontecimento que encontramos no mito de Teseu, famoso herói grego). Vários cavaleiros do cortejo de Arthur, incluindo Gawain (Gauvain) e Perceval, tentaram em vão retirar a espada. Lancelot, ciente de sua adúltera relação com a rainha Guinevere, para não desvalorizar a prova, declinará de tentá-la. 


Ao chegar a Camelot, Galahad, lançou-se à prova, realizando-a
CAMELOT
com sucesso. É depois deste acontecimento que os cavaleiros vão procurar o Graal, sendo Galahad o primeiro a dele se aproximar, não podendo, por isso, retornar ao mundo dos homens. Sua alma foi transportada por anjos para os céus, para onde também foi o Graal, levado da terra misteriosamente por mãos que das nuvens desceram. 


Através dos séculos, a imagem de Sir Galahad, como a de um cavaleiro cristão puro e ascético, foi suplantada pela de um cavaleiro cortês, um perfeito gentilhomme. Alguns estudiosos que especularam sobre os romances do Graal chegaram a sugerir que isto se deveria provavelmente a uma certa homofonia entre Galahad e a palavra galant em francês ou gallant, graceful em inglês, (galante, gracioso, gentil, valente, garboso). É com este sentido que Galahad “vive” na língua inglesa como um termo que descreve um modelo de cavalheirismo e de cortesia com relação ao sexo oposto, um perfeito gentleman. 

O ideal de espiritualização da cavalaria, que Galahad encarnou, mais do que qualquer outro cavaleiro, se perdeu. O que ele passou a representar no ideário anglo-saxônico está bem longe daquele cavaleiro que era, antes de tudo, o mestre da sua montaria. O cavaleiro que, ao mesmo tempo em que servia a sua religião e o seu rei, que participava das cerimônias da corte ou que poderia se devotar a uma dama, nunca deixava de interiorizar os seus combates. Talvez o que tenha contribuído bastante para esta descaracterização tenham sido as palavras do velho rei Merdrain, ao abraçar o nosso herói: Galahad, preposto divino, lídimo cavaleiro por quem tanto esperei, abraça-me e permite que eu repouse sob tua proteção, a fim de que eu possa morrer entre teus braços; pois tu és virgem e mais puro que qualquer outro cavaleiro, tanto quanto a flor de lis, signo de virgindade, é mais branca que qualquer outra flor. És um lírio de virgindade, és uma rosa ereta, uma flor de boa virtude e da cor do fogo, o fogo do Espírito-Santo que tão bem te ilumina, eis que minha carne, envelhecida e morta, já se sente toda renovada. (A Demanda do Santo Graal). 

BALDER
Galahad é também, sem dúvida, um símbolo que atualiza o grande modelo que é o deus Balder, dos povos nórdicos, num outro contexto. De uma santidade espantosa, Balder é o melhor de todas divindades escandinavo-germânicas, todos o louvam; sua aparência é tão bela que ele se torna luminoso, sendo comparado, por isso, às brancas flores dos campos, como acontece com Galahad. Balder é, dentre todos os deuses, o mais clemente, possuindo todas as virtudes: sabedoria, sensibilidade e bondade. Galahad, como Balder, ignora os vícios, seus pensamentos são sempre sublimes, suas palavras são sempre justas. 

O Cristianismo medieval, de modo especial o praticado pelos cistercienses, que tinha na mais alta conta a Ordem dos Templários, aproximou bastante a figura de Galahad da de Cristo. Chamado pelo nome de O Esperado, ele era uma espécie de Cristo Cavaleiro, pois, além de destruir os ímpios, todos os que sofriam, à sua aproximação, se viam curados, os demônios era afugentados e os encantamentos e sortilégios se desfaziam.


PRÍNCIPE VALENTE
Em 1937, com desenhos de Harold Hal Foster, apareceram nos USA as histórias em quadrinho de um cavaleiro que lembrava muito Galahad. Era o Príncipe Valente. Em 1949, o cinema se apossou de Galahad. Os estúdios da Colúmbia lançaram um seriado com o título de As Aventuras de Sir Galahad, com George Reeves, o Superman dos anos 1950, no papel-título. Em 1954, Henry Hathaway dirigiu O Príncipe Valente, com James Mason (Sir Brack), Robert Wagner (Príncipe Valente) e Janeth Leigh (Aleta), nos papéis principais. Em 1975, aparece na Inglaterra, na criação coletiva do grupo Monty Pyton, Em Busca do Santo Graal. Em 1981, John Boorman, dirigiu Excalibur. O melhor filme até hoje produzido sobre o tema (cavaleiros, matéria bretã, poesia medieval) continua sendo, sem dúvida, Lancelot du Lac,  do genial cineasta francês Robert Bresson. Para ampliar um pouco mais a compreensão do mundo medieval, recomenda-se aqui que, embora não nos falem diretamente de Arthur e de seus cavaleiros, não deixem de ser vistos, em especial, dois grandes filmes: Les Visiteurs du Soir (Os Visitantes da Noite), realizado por Marcel
ANJELICA  HUSTON
Carné, em 1952, com roteiro do grande Jacques Prévert e de Pierre Laroche, com Alain Cuny e Arletty nos papéis principais. O outro é
A Walk with Love and Death, de 1969, dirigido por John Huston, com a juvenil Anjelica Huston no seu primeiro papel no cinema, ao lado de Assi Dayan, falecido em 2014, filho do famoso militar israelense Moshe Dayan.