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domingo, 17 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (5)


VERÃO
(MARC CHAGALL , 1938)
Não podemos deixar de lembrar ainda que alguns mitos gregos nos falam de  sistemas familiares em que as faltas e crimes dos pais são pagos pelos filhos. Acontecimentos dessa natureza estão registrados em muitas histórias e  descrevem a meu ver um mal-estar, ou melhor, uma espécie ferida que às vezes não fecha nunca, apresentada por grande parte dos capricornianos, ferida que lhes faz sentir que nunca obtiveram dos pais o que deles realmente necessitaram.   

Mitos gregos que melhor exemplificam o que acima aponto são os que nos falam da família dos átridas, também chamados de pelópidas, e da família dos labdácidas. Os primeiros têm como ponto de partida Tântalo, pai de Pélops, que por sua vez gerou Atreu, Tieste e Plístene, sendo o primeiro pai de  Agamêmnon e Menelau. Quanto à segunda, tudo começa com Lábdaco, passando por Laio, até chegar a Édipo e seus filhos. Nas duas famílias, uma corrente ininterrupta de traições, misérias, mazelas, crimes, incestos, mortes, onde um tipo de paternidade capricorniana
GEIA  E  URANO
apresenta claramente aspectos em que as ideias de fecundação se misturam às de dominação, de inibição e de autoridade indiscutível. O grande arquétipo deste tipo de paternidade tem naturalmente como modelo original a figura de Cronos, que, em última instância representa o mundo da autoridade em oposição ao das forças da mudança e da inovação. Cronos, como se sabe, é um titã, nascido de uma relação incestuosa entre Geia, a terra, e Urano, o céu, seu filho e amante. 

A mitologia grega, quando é posta em discussão a questão da paternidade (tema capricorniano, por excelência), deixa claro que no seu contexto (o das tradições patriarcais) a figura paterna é muito mais uma instauradora de valores, de leis e de regras que propriamente uma figura familiar, papel que elimina uma possível pretensão de igualdade da figura materna com ela. É nesse cenário
ÉDIPO E ANTÍGONA
(BRODOWISKI, 1784-1832
que, no mundo moderno, a figura paterna ainda se insere:  é o pai que estabelece o que é justo, bom e conveniente para a família e para os filhos, sendo considerado, por isso, como fonte de transcendência. Mas deixa ele também implícito, ao desempenhar desse modo o papel que lhe cabe, que o progresso passa pela sua supressão, tudo como também nos descrevem as histórias das dinastias da mitologia grega e de personagens como Édipo, Orestes, Teseu, Antígona e muitos outros.

É do mundo romano que nos vem um dos mitos que a tradição astrológica costuma associar a Capricórnio. Refiro-me à história de Janus, o deus bifronte dos povos da península itálica, por eles considerada como uma divindade indígete, isto é, autenticamente nacional, por oposição às importadas, as novênsiles. Janus, com efeito, tinha o seu culto celebrado no mês de janeiro, mês em que o Sol atravessa a constelação de Capricórnio. Uma das faces de Janus olhava o passado e a outra o futuro. Numa das mãos ele carregava uma chave e na outra uma foice. A chave, como sabemos, tem um duplo simbolismo, ela fecha, trazendo ideias de limite, de separação, de impedimento, de encerramento, e abre, sugerindo um
JANUS
meio de dar acesso a algo, de permitir, de libertar. Também símbolo de sabedoria, a chave, com o bastão, aparecem nas mãos de Janus como deus das portas solsticiais, exercendo assim uma função de guia (do qual o bastão é um símbolo) abrindo o caminho iniciático. O bastão de Janus dá ritmo à marcha do iniciado; sua dimensão, sua forma e sua flexibilidade correspondem sempre a medidas sagradas. Com a foice, na forma de um crescente lunar, Janus incorpora mais traços saturninos, simbolizando a sua figura tanto a morte como a esperança de um renascimento, falando-nos assim do inexorável progresso temporal.

Janus, como se sabe, é, entre os romanos, o guardião da porta principal, chamada janua. Por extensão, Janus acabou adquirindo poder sobre tudo aquilo a que o ser humano dava início, como está na palavra initium. A etimologia mais remota de Janus está numa raíz indo-europeia, ya, que tem o significado de passar, transitar. Entre os romanos, passagens abertas eram chamadas de iani. É por esta razão que o início do ano na Roma antiga foi colocado sob a tutela de Janus, no seu mês, janeiro, isto é, no signo de Capricórnio, pois neste mês o Sol, a 21 de dezembro, retomava o seu caminho de volta em direção do hemisfério norte. 

Lembremos, porém, que nem sempre foi unânime este entendimento entre os romanos, quanto ao mês que marcaria o início do ano. Segundo a tradição mítica, Rômulo havia fixado o início do ano no mês de março, em homenagem ao deus Marte, seu pai. Numa Pompílio, o segundo rei de Roma,  alterou essa disposição ao estabelecer o início do ano no mês de Janeiro e
JUNO
definindo o mês seguinte, fevereiro, meses inexistentes. Fevereiro vem de februa, um apelido da deusa Juno (Hera) enquanto esposa de Fébruo (O Purificador), uma divindade infernal. O mês de fevereiro (februaris mensis) era o último do antigo calendário romano, mês dedicado às expiações e purificações. Fébruo acabou sendo identificado como Pai Dite (Dis Pater), o equivalente do Plutão (Hades) grego, divindade em honra da qual se realizavam, no mundo romano, no período, as
NUMA   POMPÍLIO
cerimônias de mundificação e de expiação anuais. Esse mês foi instituído por Numa Pompílio desejoso de igualar o sistema romano de contar o tempo com o dos povos mais cultos (gregos e fenícios), com os quais os romanos começavam a entrar em contacto. Lembremos que Numa Pompílio (715-672 aC) é um personagem que não tem a sua identidade histórica claramente definida, aparecendo muitas vezes como uma figura mítica. 

A título de curiosidade, é de se lembrar também que o mês de fevereiro é o menor dos meses do ano. Isto se deve ao fato de no tempo do imperador Augusto (63 aC-14 dC) os seus aduladores terem proposto que o mês a ele consagrado, agosto, até então com 30 dias, tivesse a ele acrescentado mais um, para se igualar ao de julho, consagrado ao seu tio, o grande imperador Julio César, já falecido. Seria inadmissível, diziam tais aduladores, que o maior imperador romano, o divino Augusto, ficasse numa situação inferior à de qualquer outro imperador. Assim, o mês de fevereiro foi usado para que tal acerto fosse feito no calendário romano. 


O imperador Carlos Magno, todo poderoso sobre a Europa ocidental, no séc. VIII, fez o início do ano retornar à data fixada por Rômulo. No séc. XIII, a Igreja Católica tentou fazer coincidir o início do ano com o sábado de Aleluia, quando se procede à cerimônia do fogo novo, da bênção das pias batismais, e com a ressurreição de Cristo, que assegura ao homem uma promessa de vida nova e feliz. No séc. XVI, o rei Calos IX, fixou para a cristandade o princípio do ano no primeiro dia do mês de janeiro.  

Voltando a Janus, é de se ressaltar que o deus possuía um templo em Roma com doze portas, com um altar em cada uma delas. No dia 1º de janeiro, nesse templo, os romanos trocavam presentes, figos, maçãs, bolos de mel, peles de carneiro, taças de vinho etc., costume que está na base das festividades celebradas até hoje, entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Janus, no panteão romano, pode ser citado juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos que perseguiam os vivos como personificação de antepassados mortos, transformados depois em entidades protetoras da família e da casa. Janus é um desses deuses mais antigos entre os romanos, sendo, como se disse, representado com duas faces contrapostas numa cabeça, dominando as portas de passagem. Era uma divindade de caráter nacional. Numa das sete colinas de Roma, desde tempos muito remotos, havia uma cidade denominada Janiculum, em sua homenagem. 


LARES   E   PENATES

Segundo alguns mitólogos, Janus teria sido um herói que emigrara da Tessália (Grécia) para a Itália, recebendo do rei Câmeses parte de seu reino. Morrendo este último, conta o mito que Janus reinou sozinho no Lácio e que acolheu mais tarde o deus Cronos que emigrara para a Itália depois da vitória dos olímpicos. Janus dividiu seu reino com ele (como Câmeses o fizera), recebendo Cronos, entre os romanos, o nome de Saturno (nome que vem dos verbo
TERMAS   DE   SATÚRNIA
latino serere, semear, plantar). Unindo-se à deusa Ops Consivia (a Terra, semelhante à deusa Cibele, da Ásia Menor), a prodigalizadora da abundância, Saturno fundou uma cidade fortificada (Saturnia) na região do Capitólio, assumindo a condição de uma divindade civilizadora, instaurando a chamada aetas aurea (idade do ouro). 

As figuras de Janus e de Saturno acabaram por se fundir. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis ianuarius, o mês que marca a passagem de um ano a outro, como também a ele foi atribuída a tutela de todos os começos, sendo por isso invocado ao nascer de cada dia, antes de qualquer outra divindade. Na festa celebrada em sua honra, no dia 9 de janeiro, era feito o sacrifício (agonium) de um carneiro (guia do rebanho). O santuário principal do deus, o Janus Geminus ou Quirinus (quiris, quiritis, nome pelo qual eram designados  os cidadãos romanos) estava situado ao norte do Fórum, diante do templo de Vesta. A estátua de Janus bifronte foi
JANUS   BIFRONTE
colocada debaixo de um arco na porta principal da cidade, de modo que ele olhasse para a sua entrada e a sua saída. Esta atitude era considerada pelos romanos como um símbolo de sua solicitude, o que o transformava no patrono dos porteiros. Aliás, como porteiro (janitor), Janus usava o seu bastão (virga) para evitar as intrusões molestas e afastar animais inconvenientes. Nesta função de porteiro, Janus era chamado pelos sobrenomes de Patulcius, o que abre, e de Clusivius, o que fecha. O culto de Janus estava centralizado na colina Janiculum, onde o rei Anco Márcio havia estabelecido uma fortificação para proteger o caminho dos comerciantes que iam à Etrúria e ao porto do Tibre, razão pela qual Janus recebeu o apelido de Portunus. Com o tempo, Janus tornou-se não só protetor das entradas e das saídas como dos comerciantes e dos navegadores. Sua cabeça figurava na mais antiga moeda dos romanos. 





Deus ambivalente, deus dos deuses na Roma antiga, Janus assumiu a condição de deus das transições e das passagens, marcando inclusive a evolução do passado em direção do futuro, de um estado a outro, de um mundo a outro. Sua dupla face significava que ele supervisionava tudo, tanto as entradas e as saídas como olhava para o interior e para o exterior. Neste sentido, Janus é a encarnação do próprio princípio da vigilância que pode se constituir também na imagem de um imperialismo sem limites. Sua figura bifronte está sempre nos arcos, nas portas, nas galerias, nos lugares de passagem. Alguns mitólogos fazem referência a um Janus quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do universo. 

A cabeça de Janus passou a alguma culturas como o símbolo da ambiguidade, algo assim como uma lâmina que tem dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus é considerada como a união do positivo e do negativo, qualidades que estão em todas as situações e ações humanas. Entre os romanos antigos, a cabeça bifronte de Janus era também um símbolo da vigilância (pessoas que têm “olhos na nuca”). Aos poucos, porém, esse sentido se perdeu para dar lugar ao da falsidade, como no caso da pessoa que tem “duas caras”, pessoa não digna de confiança, a que oculta o seu verdadeiro eu.    

DESTRUIÇÃO  DO  TEMPLO  DE  JERUSALÉM
( NIKOLAI   GE , 1831 - 1894 )
Entre os judeus, Tevet é o mês de Capricórnio, relacionado com a montanha e, no corpo humano, com a raiva e o fígado. O nome Tevet indica uma carência, uma falta de influência divina. Foi durante este mês que o cerco que levaria à destruição de Jerusalém começou; durante o mês de Tamuz, brechas foram abertas nas muralhas da cidade; em Av, o templo foi destruído. Assim, Tevet (Capricórnio), Tamuz (Câncer) e Av (Leão) são considerados pelos judeus como meses de influências negativas.

CHANUKÁ  ( CHAGALL , 1887 - 1985 )
Tevet é o décimo mês lunar do calendário hebraico a contar de Nissan, mês do Êxodo, ou quarto mês a partir da festa de ano novo (Rosh ha-Shaná). Tevet começa geralmente na segunda metade de dezembro. A festa de Chanuká (festa das luzes) estende-se até os primeiros dias deste mês. Em seu oitavo mês foi completada a tradução da Bíblia para o grego pelos setenta e dois sábios. A história desta tradução está narrada numa obra grega (carta de Arísteas). Por ela ficamos sabendo que a Torá, no séc. III aC, foi traduzida e passou a fazer parte da biblioteca do imperador egípcio Ptolomeu Filadelfo, em Alexandria. O sumo sacerdote de Jerusalém enviou setenta e dois sábios (seis para cada tribo) que fizeram a tradução, que impressionou bastante o imperador. Os rabinos consideraram, entretanto, a tradução uma tragédia, pois não a viram como correta, apenas um texto para uso dos gentios. No dia dez de Tevet se realiza um jejum público para lembrar o cerco de Jerusalém pelos babilônios, cerco este que deu origem à destruição do primeiro templo. Este dia de jejum é o único no calendário judaico que pode cair numa sexta-feira. 

O elemento terra aparece associado a Tevet, simbolizando o vagaroso poder de materialização que nele predomina. Entretanto, é dentro da terra que o poder de sustentação da vida está contido, assim como é dentro do fígado que está o sangue novo, fonte de energia do corpo humano. Segundo algumas tradições, os meses de Tevet (Capricórnio) e de Shevat (Aquário) correspondem aos dois olhos. Este entendimento decorre do fato, segundo tais tradições, de serem os olhos humanos os órgãos que mais facilmente afastam o homem da espiritualidade, segundo o ditado: O olho vê, o coração deseja.

Segundo a astrologia judaica, os olhos correspondem a dois meses do verão, Tamuz e Av, e, por essa razão, por ação reflexa, se ligam a dois meses do inverno, Tevet e Shevat. O atributo natural de Tamuz é a visão, sentido dependente do olho, lugar onde o mal encontra a sua primeira base de influência. Este signo aparece associado ao caranguejo, lembrando, por isso, movimento e flutuação. 

O astro que se associa a Tevet é Shabtai, Saturno, nome que etimologicamente lembra limitação, inatividade, razão, confirmando-se as tradições, pelas quais ele dá lugar a que as influências destrutivas do mal se manifestem. No seu aspecto positivo, Saturno representa a compreensão profunda, a erudição, e a contemplação, associada ao Shabat, na medida em que refreia a atividade mundana para permitir a experiência do transcendental. A expressão negativa deste signo, segundo a astrologia judaica, está no fato de ser Tevet para os cristãos um mês festivo, pois está na base da religião cristã, religião que quanto mais se difundia maior a perseguição e o sofrimento dos judeus.

A tribo relacionada com este signo é a de Dan, que tem a ver com o poder do severo julgamento. Dan, nome que quer dizer julgamento, é o sétimo filho de Jacó e o primeiro de Bilha (escrava de Rachel), ancestral de uma pequena tribo que se instalou em Leshem, perto da nascente do rio Jordão, no extremo norte de Israel. Sansão foi o
ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( MARC  CHAGALL )
mais célebre dos descendentes desta tribo. No acampamento dos judeus, no deserto, a tribo de Dan ocupava um território onde o Sol se escondia, o norte, associado a Satã, ao mal, lugar do infortúnio, de obscuridade e morte, como o atesta Jeremias: é do setentrião que a infelicidade se espalhará  sobre todos os habitantes do país. Em muitas catedrais e igrejas cristãs, a porta do norte é conhecida como a porta do Diabo. O norte, para os judeus, é uma direção associada à acumulação de riqueza; foi dela, conforme explica a Midrash (método de interpretação bíblico), que a tribo de Dan recebeu o ouro com o qual contribuiu para a confecção do bezerro de ouro. 


Segundo os judeus, os nascidos no mês de Tevet costumam demonstrar uma forte inclinação para amealhar riqueza material. Esta tendência está expressa na letra Ayin, a letra deste mês, bem como está associada ao olho direito. Os judeus, durante a sua vida, devem prestar especial atenção neste mês à função espiritual da visão, conforme está em Isaías (cap. 40, 26): levantai vossos olhos ao alto e vede que criou esses corpos celestes: quem faz marchar em ordem o exército das estrelas e as chama a todas pelos seus nomes: pela eficácia da sua fortaleza, e força, e poder, nem uma só faltou. 

O mês de Tevet tem como atributo emocional a raiva (rogez), que tem o mesmo valor numérico da palavra Yirah, orgulho e consciência inspirada. Isto pode ajudar alguém a direcionar a energia de sua raiva orgulhosa contra a inclinação ao mal. A palavra raiva (rogez) é também numericamente equivalente à palavra poder (gevurah). O Mal usa o poder para vencer a santidade de Israel. A vitória sobre os atributos negativos do mês de Tevet pode trazer a uma pessoa um grande crescimento espiritual. A letra Ayin, acima mencionada, conforme certas tradições, representa também o poder de Esaú; sua forma, agachada e curva, simboliza a queda de Esaú.

Esaú, lembremos, em hebraico é peludo, felpudo, filho de Isaac e de Rebeca, apelidado O vermelho, considerado como o ancestral dos edomitas. Ávido de poder, trocou a sua primogenitura com seu irmão gêmeo e mais novo, Jacó, sendo depois privado da benção

SITRA   ACHRA 
paterna em razão de conflitos com o irmão. Assassino, estuprador e adúltero, Esaú morreu quando um neto de Jacó, durante os funerais deste, cortou-lhe a cabeça. Entre os judeus, Esaú simbolizou primeiramente o cruel império romano e depois, na Idade Média, o mundo cristão, pela sua postura antagônica com relação aos descendentes de Jacó. Entre os místicos, Esaú representa o Sitra Achra, o lado do Mal.

Os filisteus (povo semítico, talvez originário de Creta ou do sul da Ásia Menor; por volta de 1.200 aC), instalaram-se nos territórios sírios e palestinos e no norte do Egito; aniquilaram os hititas, fundaram várias cidades, dente elas Gaza; exerceram sempre muita pressão sobre Israel, o que contribuiu para fazer dele uma monarquia; no final do séc.VIII aC, foram submetidos pelos assírios), astrologicamente, são representados para os judeus pelo signo de Capricórnio. Desejando purificar a má influência da origem de sua mulher filisteia, lembram os judeus que Sansão, da tribo de Dan, deu-lhe de presente uma cabra.

Segundo a astrologia judaica, a influência de Capricórnio atinge negativamente Israel só se negligenciados ou esquecidos os preceitos da Torá. Particularmente importante neste mês é a influência do patriarca José, cuja história (sua estada no Egito) é sempre lida ao final do shabat, destacando-se a insegurança que ele deve ter experimentado enquanto vivendo no país dos faraós, um traço capricorniano, segundo os judeus. Durante os meses de Tevet e Shevat são lidos também trechos do livro do Êxodo. A influência de Sagitário em Tevet é representada por José e é enaltecida na festa da Luzes.


CABRA
Para os judeus, a cabra é, dentre todos os animais que vivem em rebanhos, o primeiro a avançar quando chega a um pasto. Essa afirmação está baseada no Talmud, maneira de agir que se confunde com o próprio processo da criação. Antes havia trevas, agora há luz, concluem os judeus. A natureza da cabra, no sentido de tomar a dianteira, assemelha-se à natureza dos capricornianos. Esta postura, porém, tanto pode significar, como eles a consideram, impulso em direção da espiritualidade como em direção da impureza material. Quanto ao primeiro, há que se remover todos os obstáculos quando a meta é a vida espiritual. A grande santidade de Capricórnio está no valor numérico da palavra gdee (cabra), dezessete, o mesmo valor numérico da palavra tov, divindade. 

É preciso lembrar que os judeus não vêem o bem e o mal como forças independentes, mas produzidas pelo próprio Deus. Encontramos em Isaías: Eu formo a luz e crio a escuridão. Eu faço a paz e crio o mal. Muitos rabinos recomendam que uma bênção
SAMAEL
deve ser proferida tanto na ocorrência do bem quanto do mal, pois tudo o que Deus faz é feito no sentido do bem. Na Idade Média, muitos filósofos judeus consideravam que o mal era tão somente a ausência do bem. A Cabala, entretanto, afirma que a fonte do mal está no Sitra Achra, o Outro Lado, sempre em conflito com as forças do bem. O Sitra Achra é o nome genérico das forças demoníacas, estruturadas de modo sefirótico. Esse Outro Lado não tem energia própria, sendo um parasita da luz divina, uma espécie de antimatéria. É governado por Samael, príncipe dos demônios, e por Lilith, gênio feminino do mal.   

O mal que os filisteus sempre representaram para o povo judaico sempre apareceu associado a Lilith e ao poder que ela tem sobre o reino do desejo. Dalila, que Sansão tentou subjugar, é uma manifestação desse poder. Sansão, como sabemos, é um herói bíblico nazirita que viveu no tempo dos Juízes, oriundo da tribo de Dan. Dotado de força extraordinária, realizou proezas que o
SANSÃO MATA LEÃO (CHAGA
tornaram célebre entre o povo de Israel. Matou um leão com as suas próprias mãos e pôs em fuga os seus inimigos, atacando-os com a queixada de um asno. Sua mãe foi avisada pelo anjo Uriel que teria um filho, a ser educado no caminho da religião, pois ele livraria Israel da opressão dos filisteus. Vitimado, porém, por violentas paixões sexuais, acabou sendo entregue aos filisteus por uma de suas amantes, Dalila. Aprisionado, seus olhos foram vazados, sofrimento que lhe coube como uma punição, um castigo divino, assim entendiam todos, por ter sempre cedido às tentações da luxúria que eles lhe traziam. Enquanto aprisionado em Gaza, cego, as mulheres iam visitá-lo na sua cela, para com ele ter relações sexuais, na esperança de  ter um filho tão forte quanto ele. Sabemos que Sansão fez com que o templo filisteu desmoronasse, rompendo as colunas que o sustentavam. Sua morte, para os judeus, teve sempre a característica de um martírio altruísta.


Para a astrologia judaica, o nome de cada signo ensina o processo pelo qual a alma de cada um dos tipos zodiacais pode ser aberta para o divino. A imagem de uma flecha sendo disparada (Sagitário) guarda analogia com a saída da alma do mundo infernal. Esta flecha encontra a sua estabilidade em Tevet, Capricórnio, o tempo de autodisciplina e de preparação para a iluminação. Este processo alcança o mês seguinte, Shevat, Aquário, com a ideia de retidão. 

Negativamente, Tevet pode trazer influências de caráter depressivo, que levem à solidão, ao auto-confinamento. As letras da palavra gdee (cabra) podem ser arranjadas de modo a formar geed, falo. Para os judeus, o uso inadequado deste último, no sentido de desejo, gera ocasiões em que o bem é removido de sua normal posição neste signo. O símbolo da pureza capricorniana é o tsadik (homem justo, probo, personificado como José), cuja energia possibilitou a vitória que a festa das Luzes simboliza, corrigindo-se o que de mal houver em Tevet. José, como se sabe, venceu a tentação do olhar que, dentre outras coisas, leva ao adultério. O poder para a vitória sobre esta tentação está escondido no povo de Israel, sendo ele chamado por isso de reminiscência de José pela tradição religiosa.



CONSTELAÇÃO   DE   CAPRICÓRNIO 

A constelação de Capricórnio estende-se hoje de 2º a 24º Aquário, sendo suas estrelas pouco significativas astrologicamente. Sua principal estrela (alfa) é Giedi, também chamada de Algedi, num dos chifres da cabra, de magnitude ligeiramente superior a 3, hoje a cerca de 3º10´ de Aquário. Este nome é retirado de Al Jady (A Cabra), o nome árabe da constelação. Ptolomeu viu nela influências da natureza de Vênus e de Marte. Há nela também alguns traços uranianos, que sugerem acontecimentos inesperados, às vezes violentos e agressivos, dependendo, é claro, de sua posição e aspectos. A estrela beta de Capricórnio é dupla, Dabih Major e Dabih Minor, na base do chifre. A estrela gama é Nashira, a Afortunada, na região da cauda da figura. Com exceção da primeira estrela mencionada e de Deneb Algedi, estrela delta, as estrelas de Capricórnio não têm maior expressão astrológica. A rigor, a única levada em consideração é esta última, a 22º50´ de Aquário, situada na cauda da cabra, com magnitude 3,1. Entre os árabes é Al Dhanab al Jady (a cauda da cabra). Ptolomeu a relacionou com Saturno e Júpiter, lembrando legalidade, tempo, justiça, sabedoria que protege e que auxilia, vontade de ajudar liderando. Para que estas
LE   VERRIER
características ganhem relevo e destaque é necessário que Deneb Algedi mantenha de algum modo relações positivas com o signo de Libra e com planetas que nele se encontrem. Um fato curioso com relação a Deneb Algedi é que o astrônomo Le Verrier manifestou sempre seu descontentamento com relação às efemérides de Urano, descoberto em 1.781.
GALLE, 1912-1910



Achava Le Verrier, na década de 1840, que havia um elemento perturbador da órbita uraniana, uma massa desconhecida, a 5º na direção leste de Deneb Algedi. Poucos anos depois (1846), com base nesta indicação, o astrônomo Galle descobria o planeta Netuno.









  

quinta-feira, 6 de abril de 2017

CÂNCER (1)

               
                                                

Quando o Sol, no mês de junho, ingressa na constelação de Câncer começa no hemisfério norte o verão. A essa data dá-se o nome de solstício de verão, atingindo o Sol o maior grau de afastamento angular do equador, no seu aparente movimento no céu.  Solstitium, em latim, quer dizer parada do Sol (stat, parada). Tem-se a impressão, ao se tornarem os dias cada vez mais longos, que o Sol permanecerá para sempre brilhando com tal intensidade.  Estamos no momento em que a luz se prepara para atingir a sua plenitude máxima no ciclo anual, o que ocorrerá quando do ingresso solar na constelação seguinte, de Leão, o signo do esplendor luminoso. Em dezembro, no hemisfério norte, ao ingressar o Sol na constelação de Capricórnio, teremos o início do inverno (solstício de inverno).




A estas datas solsticiais, que marcam no hemisfério norte o início do verão (junho) e do inverno (dezembro), devemos acrescentar as equinociais, que, em março e setembro, marcam, respectivamente, o início da primavera (ingresso do Sol na constelação de Áries) e do outono (ingresso do Sol na constelação de Libra). Equinócio vem de aequinotium, de nox, noctis, noite, e aequae, igualmente. Nas datas equinociais, os dias e as noites têm a mesma duração. 

Os antigos romanos consideravam o seu deus Janus como

do
no das portas solsticiais. Esta divindade, no panteão romano, fazia parte de um grupo chamado de indigetes, divindades consideradas autenticamente nacionais, por oposição ao grupo dos novensiles, divindades importadas, na maioria da Grécia. Os indigetes relacionavam-se na sua origem com os espíritos muito presentes nos cultos da natureza dos povos que ocupavam a península itálica antes do domínio romano, etruscos, sabinos, latinos e outros, povos que Vergílio homenageia nas suas Geórgicas




Os chamados indigetes, no mundo romano, pelo menos nos primeiros séculos da formação da grande urbs, conservavam uma estreita ligação de dependência com os  espíritos protetores da natureza, que encarnavam as forças  nela presentes. É desse mundo que vem Janus, um espírito que vivia em todas as portas, tanto nos grandes portões das cidades como nas portas das casas. Com o tempo, Janus acabou por adquirir poder sobre tudo o que significasse a ultrapassagem de um limiar,  inclusive sobre tudo o que viesse a ser iniciado pelos homens, uma ação, uma atividade,  um culto, uma cerimônia,  pela celebração das principais datas do calendário. É por essa razão que os romanos deram o nome de janeiro (januarius), numa homenagem a Janus, ao primeiro mês do ano. 

Por outro lado, é bom lembrar que a porta é um elemento importante como símbolo da passagem de um lugar a outro, de um estado a outro, das trevas à luz, se quisermos. São de Janus os portões das vias de acesso que permitem o ingresso nos lugares
GÁRGULAS ( NOTRE-DAME, PARIS )
santificados, sejam templos, catedrais, capelas, inclusive florestas, grutas ou cavernas. Lugares que são, desde sempre, um convite para que participemos dos mistérios que encerram. Geralmente protegidos na sua entrada e paredes laterais por animais fantásticos, dragões, leões,
O  OUTRO  LADO
( G. DE CHIRICO ) 
touros, por cenas de sexo, gárgulas etc., as entradas e os portões desses edifícios, uma vez ultrapassados, nos propõem a abstração de nossa personalidade e de nossos apegos materiais para que um novo eu possa nascer. Ultrapassar portas sempre significou em antigas tradições o abandono de velhos conceitos, ideias, esquemas, afetos. Abertas, as portas  significarão acolhida, convite a se descobrir o que existe no interior do edifício. Fechadas significarão isolamento, aprisionamento, rejeição, exclusão e também proteção. 


Com o tempo, Janus, como se disse, adquiriu poder sobre ao que os romanos deram  o nome de initium. No plural, initia, palavra que designava o princípio de uma ciência, de uma religião de mistério, os objetos nela usados, suas cerimônias, bem como os sacrifícios e os auspícios a elas referentes. A etimologia mais remota de Janus está numa raiz indo-europeia, ya, que quer dizer passar, transitar. O signo de Câncer era, nesse sentido, uma porta de passagem, de um subciclo (primavera) para outro (verão), no ciclo anual. No mundo romano, passagens abertas eram chamadas de iani, nome que, depois, virou sobrenome, como Otaviani.


LARES
Janus, no panteão romano, é citado (cultuado), via de regra, juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos dos antepassados que perseguiam os vivos, tudo fazendo parte, como fica fácil perceber para quem tem cultura astrológica, do signo de Câncer.  Os Lares, de origem etrusca, com o tempo, devidamente doutrinados através de cerimônias apropriadas, foram transformados em entidades protetoras das famílias e
PENATES
das casas, tendo muito a ver, nesse sentido, com os valores do mundo familiar e cívico e com os seus espaços fisicamente considerados. Os romanos sempre consideraram a sua vida cívica com um prolongamento da sua vida familiar. Os Lares, com o nome de Lares Compitales (comptium, encruzilhada) protegiam as encruzilhadas das principais vias públicas das cidades. Já os Lares Familiaris protegiam as residências e moradias de um modo geral. 



ESTELA  FUNERÁRIA  ( DI  MANES )
Os Manes eram, a rigor, antepassados divinizados, muito encontrados também em todas as tradições. A palavra vem do verbo manare, que significa sair em direção do mundo de cima, isto é, sair do mundo infernal e subir ao mundo dos vivos. Eram antepassados mortos que não tinham se conformado com a morte e que vinham atormentar os vivos, demonstrar a sua insatisfação, sempre queixosos. A queixa, normalmente, era a de que lhes faltara ou fora incompleto o enterro ritual, que a família não cuidara de despachá-los para o Outro Lado adequadamente, costume herdado dos gregos.  Ou, então, o que era pior, as queixas se referiam ao fato de que embora tivessem mudado de condição, consideravam-se ainda presos ao mundo dos vivos. Eram mortos-vivos, gente que havia morrido com ódio no coração, gente tomada por obsessões, ideias fixas, mágoas, remorsos, desejos de vingança. 

LES  FANTÔMES
( LOUIS BOULANGER, 1829 )
Eram pessoas que permaneciam entre a vida e a morte, não conseguindo alcançar o Outro Lado. Manifestavam-se geralmente à noite, fazendo ruídos, abrindo portas, jogando objetos no chão, abrindo ou fechando janelas. A sua doutrinação para que se conformassem com o seu "destino", indo para o mundo dos mortos, do deus Dite, o grande pai do mundo subterrâneo, incluía a oferta de presentes, geralmente mel, vinho e flores. 

Uma distinção: com o tempo, às almas "boas", conformadas, os romanos deram o nome de Lares. Já às almas "ruins" deram o nome de Lêmures, sempre maléficas e inquietas. Costumavam os Lêmures aparecer sob a forma de fantasmas e tinham o prazer perverso de assustar e incomodar os vivos. Essa tradição é encontrada em muitos países. No Brasil, por exemplo, dá-se a essas almas "ruins" o nome de aparição, assombração. São figuras que aparecem e desaparecem inesperadamente, em meio a rumores, a vozes, sons misteriosos, luzes inexplicáveis.


LÊMUR
Uma observação: os nossos zoólogos deram o nome de lêmur a um animal arborícola, muito semelhante aos símios, encontrado na ilha de Madagascar. Difere dos macacos por possuir um focinho parecido com o da raposa, grandes olhos, pelo lanoso e cauda longa e peluda. Os lêmures, que vivem em sociedades matriarcais,  são esbranquiçados, e como espíritos da noite, principalmente os de menor porte, são noctívagos, gostam de fazer diabruras e produzem sons como se estivessem a chamar por alguém. 

Janus tinha caráter nacional e era uma das mais antigas divindades do panteão romano, sempre representado de modo bifronte, uma cabeça com dupla face, voltadas para direções opostas. "Vivia" sempre fixado no alto de colunas ou na parte superior dos portões e das portas, dominando sempre a entrada e a saída dos lugares de passagem. Ainda hoje, em visitas à Itália, podemos encontrar Janus em galerias, corredores de passagem, pátios etc. Janiculum foi o nome dado a uma cidade que os romanos levantaram numa das sete colinas de Roma. Relativamente próxima, perto de Janiculum, ficava a imagem de outra importante divindade do panteão romano, chamada Saturnia, em homenagem ao deus Sator, antiga divindade das sementeiras de povos itálicos. Assimilado depois ao deus Cronos dos gregos, Sator passou a ser chamado de Saturno, inventando-se a história de que Cronos, vencido na Titanomaquia (batalha em que os futuros deuses olímpicos, comandados por Zeus, venceram os titãs), expulso da Grécia, escondeu-se na Itália, no Lácio (etimologicamente do verbo latino latere, estar escondido), onde foi acolhido por Janus.    

EIXO  CÂNCER - CAPRICÓRNIO
O eixo astrológico Câncer-Capricórnio aparece na história de Janus quando recolhemos a versão de que ele, Janus, em tempos remotíssimos havia sido um herói que, emigrado da Tessália (Grécia) para a Itália, recebeu do rei Câmeses uma parte do seu reino. Pelo processo de evemerização (mitificação de personagens históricos), este herói foi transformado no deus Janus. Morrendo o rei Câmeses, Janus passou a governar sozinho. Foi nessa condição que Janus acolheu o deus Cronos, expulso da Hélade pelos olímpicos. Essa história revela, por outro, o que chamo de imperialismo retroativo da mitologia grega, ou seja, os gregos, para marcar a sua ascendência sobre todas civilizações mediterrâneas, costumavam colocar as suas divindades nas origens de civilizações que eram anteriores à sua, como aconteceu, por exemplo, com o Egito e Creta. 


CRONOS
Cronos na Itália, como Saturno, tornou-se uma divindade civilizadora, responsável pela chamada Aetas Aurea (Idade do Ouro) no mundo romano. Esta idade (tema encontrado na mitologia de outras civilizações) é descrita historicamente como um período em que os deuses e os mortais viviam muito próximos, período em que havia respeito, honra à palavra dada,  as colheitas eram fartas, praticamente nenhuma dor, nada de doenças, catástrofes, pestes ou fome. O que diferenciava os mortais dos deuses era a morte, à qual os primeiro chegavam placidamente, sem sofrimento algum; chegada a sua hora, deitavam-se e dormiam, uma espécie de sono eterno.  

LAREIRA
Já os Penates eram divindades que guardavam o interior da casa, sendo responsáveis pela lareira doméstica, espaço cuja tutela dividiam com a deusa Vesta, a Héstia dos gregos. Eram também responsáveis os Penates pela despensa da casa, lugar onde se guardavam as provisões (penus). Os Penates gostavam muito de "brincar" com as fagulhas que escapavam da lareira ou mesmo de pequenas achas incandescentes que dela saltavam. 

Desde esses tempos áureos, entretanto, a grande contradição, quando pensamos em Cronos (Saturno), já estava instalada inexoravelmente entre os mortais. Se, de um lado, Saturno era o instaurador da aetas aurea, de outro, como Cronos, era o tempo que tudo devorava, o tempo cujo fluir não parava nunca. A lei de Saturno-Cronos, o senhor do tempo, impunha de modo irrevogável uma imagem móvel da imóvel eternidade. Foi a partir da instauração dessa lei que todo movimento tomou o sentido circular e mensurável, dele fazendo parte um começo e um fim. É neste sentido que Cronos-Saturno acabou por se tornar, com o nome Cosmocrator,  o mestre do tempo universal e de seus ritmos. 


SATURNALIA  ( ANTOINE - FRANÇOIS  CALLET )

O reino de Saturno no Lácio chamava-se Satúrnia. Na Roma antiga, celebravam-se, entre 17 e 23 de dezembro, em sua homenagem as Saturnálias, para relembrar a distante aetas aurea, uma idade de abundância, paz e liberdade. Lembre-se que nos primeiros tempos do cristianismo, aproveitando-se da forte mobilização popular que as Saturnálias provocavam, os cristãos,  para uma melhor aceitação da nova religião que pregavam,  escolheram para celebrar a festa do Natal, a data do nascimento de Cristo, o período em que as Saturnálias eram realizadas. 


JANUS
O reinado de Janus acabou se confundindo com a referida aetas aurea, instaurada por Saturno. No decorrer dos séculos, diversas e maravilhosas histórias foram incorporadas à crônica do deus bifronte. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis januarius como a ele atribuída a tutela de todos os começos, sendo ele invocado, nessa condição, como Janus matutinus, antes de qualquer outra divindade. A primeira prece do latino, ao acordar, era para ele, que abria as portas do dia. 

A festa de Janus era celebrada no dia 9 de janeiro, nele se sacrificando, numa cerimônia que tinha o nome de agonium, um carneiro-guia de rebanho. Evidente, neste cenário, de inspiração astrológica, a relação entre Janus e o carneiro, este sempre entendido como suporte simbólico de muitos mitos, onde entra sempre como representante das forças irrefreáveis e criadoras da natureza, inclusive do instinto de procriação que garante a continuidade da vida.

TEMPLO  DE  JANUS ,
EM  AUTUN , FRANÇA
O principal santuário do deus tinha o nome de Janus Germinus ou Quirinus (palavra que lembra a lança, como arma de guerra) e estava situado ao norte do Forum, diante do templo da deusa Vesta, divindade extremamente importante para a vida cívica e familiar. Vesta, como para os gregos, era a dona do interior da casa, principalmente da lareira, lugar de refeições conjuntas. O templo de Janus permanecia sempre aberto em tempos de guerra, fechando-se-o em tempos de paz.

A principal estátua de Janus estava colocada sob um arco nos grandes portões das cidades de modo a permitir que ele "olhasse" os que nelas entrassem e saíssem, posição que lhe possibilitava exercer a sua função maior, a de porteiro. Como deus dos porteiros, tinha o nome de Janitor e carregava sempre uma chave, seu atributo, levando nas mãos um bastão (virga) para afastar as intromissões molestas como cães, pedintes, bêbados etc. Nessa função, acrescentavam-se ao seu nome os sobrenomes Clusivius (o que fecha) e Patulcius (o que abre). Deus ambivalente, deus dos deuses de Roma, Janus controlava as passagens e as transições, marcando a evolução do passado em direção do futuro, permitindo que se passasse de um estado a outro, de um mundo a outro. Para o povo, era mais importante que Júpiter e, mesmo, que Marte. 


TEMPLO  JANUS  QUADRIFONS,
COLINA  DE JANÍCULA
Simbolicamente, Janus é a encarnação do princípio da vigilância. O imperialismo romano encontrou nele uma de suas melhores imagens na medida em que ele via tudo, observava  tudo, controlava tudo, o que estava atrás e o que vinha pela frente. Algumas vezes, o deus aparecia com o nome de Janus Quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do espaço, sendo, como tal, símbolo da prepotência e do totalitarismo. Este aspecto de Janus o aproxima
THOMAS  HOBBES
bastante de Cronos, na medida em que este dá e concede tudo, como grande provedor, como sua história nos conta, mas, por outro lado, como Grande Pai é ele quem impede as mudanças e afasta ou elimina possíveis sucessores. Uma tentação na qual caíram e cairão todos os que, conforme a História vem comprovando ao longo dos séculos, ignoram ou teimam em não reconhecer que a natureza do ser humano se explica muito mais por Hobbes do que por Rousseau.

A cabeça de Janus em algumas culturas passou a ser considerada como um símbolo da ambiguidade, algo assim como uma faca de dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus pode ser considerada como união de contrários, do positivo e do negativo, qualidades que estão presentes no universo tanto no ser humano e sua situação como nas suas ações. A expressão "ter olhos na nuca", ou seja, ver o que está atrás e na frente, vem da história desse deus. Aos poucos esse sentido se perdeu ou se atenuou para dar lugar ao de falsidade, como no caso da "pessoa que tem duas caras", pessoa não digna de confiança, que oculta o seu verdadeiro eu. 

SÃO  JOÃO  BAPTISTA
 ( RAFAEL  DI  SANZIO )
No cristianismo, os dois santos de nome João podem ser associados a Janus, na medida em que abrem as portas solsticiais. Um deles, ligado ao verão, é João Baptista (festa a 24 de junho), chamado de arauto de Cristo. O outro é João Evangelista (festa a 27 de dezembro), ligado ao inverno. No Evangelho de São João, encontramos referências astrológicas sobre esta questão solsticial a partir do versículo 27 do 3º capítulo quando João Baptista se "apaga" (abertura da fase descendente do Sol) numa atitude de espera de
SÃO JOÃO EVANGELISTA
( EL  GRECO )
alguém, maior que ele, que virá (Câncer, como sabemos, é o signo do "eu que virá"). No versículo 30, encontramos: Ele deve crescer e eu diminuir. Quando o Sol chega a Capricórnio, 21 dezembro (a noite mais longa do ano), ele atinge a declinação sul máxima com relação ao hemisfério norte, mas também esse é o momento em que ele começa a "subir" de novo. Ou seja, quando o Sol na sua marcha anual entra em Capricórnio começa o solstício de inverno no hemisfério norte e o solstício de verão no hemisfério sul.    

sábado, 14 de novembro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (6)





Para entender a mitologia dos romanos é preciso levar em consideração que no seu corpus estão presentes, mais do que em qualquer outra, muitas e diversas contribuições. Podemos falar numa espécie de mosaico no qual reconhecemos a participação etrusca, albana, sabina, grega, síria, persa, egípcia e obviamente a romana, em proporções variáveis. Diante da complexidade e da variedade das mitologias grega e oriental, por exemplo, a mitologia romana não faz boa figura.

CESAR
Mais práticos, menos sonhadores, menos imaginativos, os romanos sempre procuraram elaborar um sistema mitológico que atendesse às suas necessidades. Seus deuses eram, no geral, extremamente protetores e por isso eles eram “pagos” por seus serviços. Nada de muito misticismo, de reverenciar potências que pouco ou nada tinham a ver com a sua segurança, com a sua organização político-social, com o seu progresso material. Se os deuses falhassem, nada de “pagamentos”. Como máximas religiosas os romanos tinham expressões como estas: do ut des (só te dou se me deres) e Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (separação entre Estado e Religião).


DEUSES   ROMANOS

Cada povo com o qual os romanos entravam em contacto, através de conquistas ou do comércio, contribuía de algum modo para aumentar o panteão romano, embora por séculos, até o início da era cristã, a sua estrutura tivesse conservado muitos aspectos inalterados. Para melhor entender o panteão romano é preciso salientar que a religião praticada era extremamente formal, fixando-se as cerimônias e os ritos de modo bastante objetivo, pouca importância se dando a componentes espirituais. Havia uma espécie de trato entre os deuses e os romanos e tudo era feito para que essa barganha desse certo, cada parte procurando cumprir o que lhe cabia. Deuses que não cumpriam a sua parte eram sumariamente afastados do panteão romano, os cultos fechados, colocando-se, sempre sob o patrocínio do Estado, outra divindade que, supunha-se, oferecesse melhores resultados.

Outro aspecto importante: a religião romana sempre foi um assunto externo, comunitário, pouco tendo a ver com a interioridade das pessoas. Se no início a vida religiosa se centrava na família, à medida que Roma foi crescendo (e isto se deu rapidamente), este centro se deslocou para a cidade, para o Estado e, finalmente, para o Império.

Como sempre acontece, as primeiras elaborações religiosas de qualquer povo têm um caráter animista, falam de imanência. Os romanos não fugiram desse modelo. As divindades eram espíritos impessoais que animavam tudo, que moravam nos raios, nas rochas, nos rios, no mundo animal, na vegetação dos campos, nos mares, nas nuvens, nos astros. Tanto podiam ajudar como prejudicar, dependendo de como fossem tratados. Eram os numes, nem bons nem maus. As religiões foram criadas para se negociar com eles.



FAMÍLIA   ROMANA

Os negócios eram a princípio conduzidos pelo pater familias, quando Roma não passava de um aglomerado de pastores e de agricultores. Depois, quem os assumiu foi o chefe da comunidade, o rex, assessorado por por grupos que se especializaram nessa intermediação, gente entendida em rituais, cerimônias, cada vez mais complicadas.

Aos poucos esses assessores foram adquirindo um poder cada vez maior, estabelecendo a maneira “correta” de se procurar o contacto com as entidades superiores. De comum acordo, o rex e esses assessores ajustaram a sua conduta para que os negócios do Estado não fossem prejudicados. Esses assessores dividiam-se em dois grupos: os pontífices e os áugures, os primeiros especialistas em legislação religiosa e os outros mestres na decifração dos augúrios.



SANTO   AGOSTINHO


À medida que Roma crescia, o número de numes também aumentava, os colégios sacerdotais se tornavam cada vez maiores. Não é por acaso que Santo Agostinho, fazendo a defesa do cristianismo (centralização religiosa, altamente conveniente ao Império), ridicularizava o número de divindades romanas reverenciadas principalmente pela gente do campo.


A   ETRÚRIA   EM   750   AC




HEPATOCOSPIA

Com os etruscos (a Etrúria correspondia mais ou menos à Toscana de hoje), os romanos aprenderam a arte da profecia e da adivinhação, a decifrar os fenômenos atmosféricos, a observar o voo dos pássaros, as entranhas de animais sacrificados (hepatoscopia). Foram inclusive os etruscos que possibilitaram aos romanos o contacto com os deuses gregos, adotados em grande parte.

Os romanos não tinham nenhum problema com a incorporação de divindades estrangeiras ao seu panteão. Isto nunca significou, porém, o abandono da reverências aos antigos numes, sempre honrados, principalmente pelas camadas populares. Num cenário como esse não foi difícil que uma vertente importante da religião romana se fixasse no culto ao próprio imperador, o pontifex maximus, que administrava, em última instância, as relações entre o povo e as divindades.


CIBELE  -  FONTE   EM   ROMA

Não se pode esquecer também a contribuição de correntes filosóficas gregas, como o epicurismo e o estoicismo para a
MITRA
religião dos romanos, bem como a grande influência de religiões orientais, como os cultos de Cibele, Grande Mãe da Anatólia, deusa da fertilidade, de Mitra, divindade persa, que dividia o mundo entre bons e maus. A última das correntes orientais que disputou o já degradado patrimônio greco-romano foi o cristianismo. No terceiro séc. dC, o poder imperial estava minado por dentro, corrupção, lutas de poder etc, etc. Difícil segurar, por outro lado, as ondas de bárbaros que continuamente atacavam as fronteiras europeias e orientais do império.


Do terceiro para o quarto sécs. dC, o povo romano, desiludido e desgostoso com a política imperial, começou a aceitar a nova seita oriental, o cristianismo, uma nova moda, como aceitara os adivinhos etruscos, os deuses olímpicos gregos, os oráculos sibilinos, os filósofos gregos, os cultos da fertilidade da Ásia Menor e o radicalismo maniqueísta persa. Por volta do quarto século, proclamava-se abertamente em Roma que era perfeitamente possível a uma pessoa ser ao mesmo tempo um bom romano e professar o cristianismo.

Os deuses romanos eram classificados em duas grandes categorias, os itálicos e os importados, ou os indígites (endo + agere, os que agem a partir de dentro), deuses autenticamente nacionais, e os novênsiles, deuses estabelecidos recentemente, vindos do exterior, importados. Cabível ainda a distinção entre divindades protetoras do Estado e as protetoras da família. O pater familias exercia no ambiente familiar um verdadeiro sacerdócio, ao cuidar dos manes (almas dos mortos) e dos penates (divindades da casa), função tão importante como a dos sacerdotes que se dedicavam ao culto das grandes divindades como Júpiter ou Janus.


MAGNA   GRÉCIA


As maiores influências sofridas pela mitologia romana vieram da Grécia, indiscutivelmente, e depois dos etruscos. Lembremos que a fundação de Roma é do séc. VIII aC (753) e que os gregos já estavam instalados na Sicília e na Itália meridional desde essa época, dando-se o nome de Magna Grécia aos territórios ocupados pelos helenos.

ZEUS
Encontramos no nome de Júpiter raízes indo-europeias (di, div), radicais que correspondem à ideia de luz, brilho, de claridade, as mesmas que temos no  Zeus grego e no Dyaus dos indianos, no mundo védico. Para a formação do Júpiter romano não podemos esquecer a contribuição etrusca. O Júpiter etrusco chamava-se Tinia e exercia o seu poder através de advertências e castigos, possuindo para isto três raios. O primeiro ele lançava à guisa de advertência, por iniciativa própria; para lançar o segundo, também premonitório, ele devia contudo obter o consentimento dos doze deuses consentes ou cúmplices. O terceiro raio era o da punição, que só podia ser lançado com o assentimento dos deuses superiores, os dii superiores ou involuti, que agem obscuramente. Deste Júpiter etrusco podemos aproximar Summanus, outro deus etrusco do raio, que presidia o céu noturno.

O Júpiter romano é sobretudo o deus da luz (Sol e Lua) e dos fenômenos celestes, ventos, chuvas, tempestades, relâmpagos. Daí seu culto se ter também grandemente desenvolvido entre as populações do campo, camponeses, agricultores, pastores. Muitos de seus nomes correspondem a estas atribuições, Jupiter Lucetius, deus da luz; Jupiter Elicius (elicere, o que faz sair, o que retira), deus que faz a chuva sair das nuvens; Jupiter Liber, divindade das forças criadoras; Jupiter Dapalis, que governa as sementeiras (dapalis é refeição de sacrifício, suntuosa); Jupiter Terminus, que vela sobre as fronteiras dos campos (plantações).


  JÚPITER   CERCADO   POR   DEUSES  ( CÚPULA   DA  ASSEMBLEIA  -  ROMA )


Com a urbanização, Júpiter perdeu rapidamente as suas funções ligadas à agricultura para se transformar na grande divindade da cidade e do Estado. Assumiu as funções de deus guerreiro, Jupiter Stator (que prende os desertores), Feretrius (que colhe os frutos), Victor (vitorioso), de simbolo das grandes virtudes da justiça, da boa-fé da honra, de protetor das juventude. Torna-se, em suma, o grande protetor do Império: Jupiter Optimus Maximus. Ao seu nome se acrescentam títulos solenes: Conservartor Orbis, Conservator Augustorum, Propugnator (defensor, combatente), Sospitator (salvador), Tutator (protetor), Custos (guardião). Mesmo títulos menos solenes lhe são dados. Pistor (Padeiro) é nome que lhe é dado em função de um acontecimento histórico importante: Júpiter aconselhou os romanos quando, cercados pelos gauleses no Capitólio, a lançar pão por cima das muralhas para indicar aos inimigos que a fome era algo que não lhes preocupava. Tinham tanto pão (o que era mentira) que podiam até jogar fora o excesso.



PALÁCIO   DO   QUIRINAL  -  SÉCULO  XVI

O culto de Zeus era universal na Itália. Ele possuía no Quirinal um templo muito antigo. O Quirinal era nome derivado de um deus sabino, Quirinus, honrado numa colina ao norte da cidade. Ali se encontram vestígios do fórum de Trajano e das termas de Constantino. Mais tarde, no séc. XVI, ali foi construído um palácio (Quirinal) para ser a residência de verão dos papas. A partir de 1870, tornou-se a residência dos reis da Itália. É atualmente a residência do presidente da república, um edifício muito enriquecido com obras de arte. O templo de Júpiter no Quirinal chamava-se Capitolium Vetus, formando ele uma tríade com Juno e Minerva. Júpiter tomava o nome de Optimus Maximus ao formar essa tríade.


MERCADO  DE  TRAJANO  NAS  ENCOSTAS  DO  PALÁCIO  QUIRINAL - SÉCULO II DC

Era sob a tutela de Júpiter Capitolino que os senadores se reuniam quando tinham que decidir sobre as declarações de guerra. Os generais, obrigatoriamente, antes de partir para as suas campanhas militares e depois delas vinham lhe oferecer uma coroa de ouro e parte dos despojos conquistados.


TEMPLO   DE   JÚPITER   CAPITOLINO  ( GRAVURA   ANTIGA )


O templo de Júpiter Capitolino, rico e suntuoso, erguia-se, segundo
RÔMULO  E  REMO
Vergílio narra na
Eneida, no Capitólio, colina anteriormente coberta de carvalhos, lugar mítico, onde a loba teria amamentado Rômulo e Remo. Nessa região, antes do poder romano se firmar sobre os povos vizinhos, honrava-se o chamado Jupiter Latiaris, Lacial, de caráter ctônico, infernal.

Como deus da luz, eram consagrados a Júpiter os Idos de cada mês (dia que divide o mês em dois, dia 15), festas da Lua cheia, quando o céu se iluminava completamente. Nessa data, seu sacerdote, o Flamen Dialis, o sacerdote de Júpiter, oferecia-lhe uma ovelha branca.

Como deus tutelar da Justiça, do Direito, da Lealdade Jurada e Protetor do Estado, Júpiter presidia as relações internacionais de Roma através do Collegium Fetialium (Fecial: membro de um colégio de 20 sacerdotes, encarregados de declarar guerra conforme ritos muito precisos e de tutelar a redação de tratados). Os juramentos e os tratados eram, para os romanos, tão importantes que eles os gravavam em tábuas de bronze, depositado-os no templo de Júpiter Capitolino.

AUGUSTO
Os imperadores sempre procuraram se colocar dentro da aura emanada por Júpiter. Augusto, por exemplo, se vangloriava de ter sonhos enviados diretamente pelo deus. Por ter sido salvo milagrosamente de um raio, Augusto mandou erguer em homenagem ao deus um templo, o de Jupiter Tonans. Calígula exagerou: acrescentou a seu nome dois apelidos de Júpiter, Optimus e Maximus.


TARQUÍNIO
Celebrava-se em honra a Júpiter, no circo romano, os jogos anuais,os chamados Ludi Romani, cuja instituição é atribuída a Tarquínio, o Antigo. Os pontos altos destes jogos eram os concursos atléticos e as corridas de carros. Ao lado dos Ludi Romani havia os Ludi Plebeii, nos quais se realizavam corridas (pedestrianismo) e jogos cênicos.

As imagens de Júpiter são grandemente inspiradas na estatuária grega. Há um Júpiter, porém, o chamado Jupiter Volsco (volscos, um povo do Lácio), que apresenta uma peculiaridade inusitada: é representado sob uma aparência bastante jovem e imberbe.

Para entender  o Júpiter romano é preciso fazer referência à sua esposa imperial, Juno, sua irmã também. De início, diga-se que
DIANA
Juno, ligada a Júpiter, já era encontrada entre os sabinos, os oscos, os latinos, os etruscos e os umbros. Seus nomes mais antigos: Lucina, Lucetia, correspondentes às suas principais atribuições. Juno Lucetia é o princípio feminino da luz celeste, da qual Júpiter representa o princípio masculino. Como Júpiter também, ela é uma divindade lunar, aparecendo como tal sempre associada a Diana.


Deusa da luz, ela é, por extensão, deusa dos partos, relacionando-se sempre a ideia de luz aos partos. Juno Lucina, também. Nesta condição, ela ocupa um papel muito grande nas cerimônias matrimoniais (tornar a mulher mãe) e nas suas consequências. Adquire assim nomes como o de Juno Pronuba, aquela que cuida dos ritos do casamento, que acompanha o casamento; Juno Domiduca (domus + duca, conduzir à casa; Júpiter também tinha o apelido de Domiducus), aquela que conduz a esposa à casa do esposo e a auxilia a transpor a porta de entrada; Juno Nuxia (nux é todo fruto com casca dura, amêndoa; o casamento punha fim, nuces relinquere, aos jogos da infância, às brincadeiras juvenis com amêndoas etc.) é aquela que perfuma a entrada da casa do esposo.

Juno Cinxia (cinctus, cinto) é aquela que desfaz o nó do cinto da virgem esposa. Mais tarde, Juno Lucina protegerá a gravidez da esposa, fortalecerá os ossos da criança, como Juno Ossipago, fará da mãe uma boa nutriz, Juno Rumina (Ruminal era o nome da figueira ao lado da qual Remo e Rômulo receberam o alimento, o leite; por essa razão, Júpiter será também chamado de Ruminus, o que alimenta. Como deusa dos nascimentos, dos partos, Juno era muita reverenciada por mulheres estéreis. Foi Juno Lucina quem livrou as mulheres sabinas vitimadas pela esterilidade por causa de seu rapto. Juno Lucina era o grande modelo das matronas romanas.

Juno não velava só pelas mulheres romanas. Ela também incentivava a procriação nos países dominados por Roma, como Juno Populonia. Sob o nome de Martialis, mãe de Marte, ela estende sua proteção ao aspecto fecundante masculino, recebendo o apelido de Caprotina. Como protetora da cidade e do povo, Juno tomava o nome de Moneta, que tem o significado de a que avisa, a que adverte, do verbo monere, advertir, inspirar. O nome Moneta foi dado à deusa porque seus animais, os gansos, advertiram os romanos quando, de certa feita, os gauleses estavam escalando as muralhas da cidade. Noutra oportunidade foram eles que advertiram os romanos quanto a um iminente tremor de terra. Mais tarde, a administração da cidade instalou perto do templo de Juno a sua Casa da Moeda, passando a deusa também a estender sua proteção, como Moneta, à fabricação das moedas.


TRÍADE   CAPITOLINA

Dentre as grandes festas celebradas em homenagem a Juno destacamos as Matronalias, celebradas pelas matronas no mês de março, num bosque sagrado no Palatino, e transferidas depois para as casas das famílias, nelas pontificando a mãe da família, sempre honrada, recebendo presentes do marido, sendo admitidos os escravos à mesa. O título de Regina foi dado a Juno quando passou a fazer da Tríade Capitolina. Nessa condição, ela tinha nas mãos um cetro de ouro, uma patera e um raio. Ao lado do marido, seu poder se estendia assim a todo o império.