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sábado, 14 de novembro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (6)





Para entender a mitologia dos romanos é preciso levar em consideração que no seu corpus estão presentes, mais do que em qualquer outra, muitas e diversas contribuições. Podemos falar numa espécie de mosaico no qual reconhecemos a participação etrusca, albana, sabina, grega, síria, persa, egípcia e obviamente a romana, em proporções variáveis. Diante da complexidade e da variedade das mitologias grega e oriental, por exemplo, a mitologia romana não faz boa figura.

CESAR
Mais práticos, menos sonhadores, menos imaginativos, os romanos sempre procuraram elaborar um sistema mitológico que atendesse às suas necessidades. Seus deuses eram, no geral, extremamente protetores e por isso eles eram “pagos” por seus serviços. Nada de muito misticismo, de reverenciar potências que pouco ou nada tinham a ver com a sua segurança, com a sua organização político-social, com o seu progresso material. Se os deuses falhassem, nada de “pagamentos”. Como máximas religiosas os romanos tinham expressões como estas: do ut des (só te dou se me deres) e Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (separação entre Estado e Religião).


DEUSES   ROMANOS

Cada povo com o qual os romanos entravam em contacto, através de conquistas ou do comércio, contribuía de algum modo para aumentar o panteão romano, embora por séculos, até o início da era cristã, a sua estrutura tivesse conservado muitos aspectos inalterados. Para melhor entender o panteão romano é preciso salientar que a religião praticada era extremamente formal, fixando-se as cerimônias e os ritos de modo bastante objetivo, pouca importância se dando a componentes espirituais. Havia uma espécie de trato entre os deuses e os romanos e tudo era feito para que essa barganha desse certo, cada parte procurando cumprir o que lhe cabia. Deuses que não cumpriam a sua parte eram sumariamente afastados do panteão romano, os cultos fechados, colocando-se, sempre sob o patrocínio do Estado, outra divindade que, supunha-se, oferecesse melhores resultados.

Outro aspecto importante: a religião romana sempre foi um assunto externo, comunitário, pouco tendo a ver com a interioridade das pessoas. Se no início a vida religiosa se centrava na família, à medida que Roma foi crescendo (e isto se deu rapidamente), este centro se deslocou para a cidade, para o Estado e, finalmente, para o Império.

Como sempre acontece, as primeiras elaborações religiosas de qualquer povo têm um caráter animista, falam de imanência. Os romanos não fugiram desse modelo. As divindades eram espíritos impessoais que animavam tudo, que moravam nos raios, nas rochas, nos rios, no mundo animal, na vegetação dos campos, nos mares, nas nuvens, nos astros. Tanto podiam ajudar como prejudicar, dependendo de como fossem tratados. Eram os numes, nem bons nem maus. As religiões foram criadas para se negociar com eles.



FAMÍLIA   ROMANA

Os negócios eram a princípio conduzidos pelo pater familias, quando Roma não passava de um aglomerado de pastores e de agricultores. Depois, quem os assumiu foi o chefe da comunidade, o rex, assessorado por por grupos que se especializaram nessa intermediação, gente entendida em rituais, cerimônias, cada vez mais complicadas.

Aos poucos esses assessores foram adquirindo um poder cada vez maior, estabelecendo a maneira “correta” de se procurar o contacto com as entidades superiores. De comum acordo, o rex e esses assessores ajustaram a sua conduta para que os negócios do Estado não fossem prejudicados. Esses assessores dividiam-se em dois grupos: os pontífices e os áugures, os primeiros especialistas em legislação religiosa e os outros mestres na decifração dos augúrios.



SANTO   AGOSTINHO


À medida que Roma crescia, o número de numes também aumentava, os colégios sacerdotais se tornavam cada vez maiores. Não é por acaso que Santo Agostinho, fazendo a defesa do cristianismo (centralização religiosa, altamente conveniente ao Império), ridicularizava o número de divindades romanas reverenciadas principalmente pela gente do campo.


A   ETRÚRIA   EM   750   AC




HEPATOCOSPIA

Com os etruscos (a Etrúria correspondia mais ou menos à Toscana de hoje), os romanos aprenderam a arte da profecia e da adivinhação, a decifrar os fenômenos atmosféricos, a observar o voo dos pássaros, as entranhas de animais sacrificados (hepatoscopia). Foram inclusive os etruscos que possibilitaram aos romanos o contacto com os deuses gregos, adotados em grande parte.

Os romanos não tinham nenhum problema com a incorporação de divindades estrangeiras ao seu panteão. Isto nunca significou, porém, o abandono da reverências aos antigos numes, sempre honrados, principalmente pelas camadas populares. Num cenário como esse não foi difícil que uma vertente importante da religião romana se fixasse no culto ao próprio imperador, o pontifex maximus, que administrava, em última instância, as relações entre o povo e as divindades.


CIBELE  -  FONTE   EM   ROMA

Não se pode esquecer também a contribuição de correntes filosóficas gregas, como o epicurismo e o estoicismo para a
MITRA
religião dos romanos, bem como a grande influência de religiões orientais, como os cultos de Cibele, Grande Mãe da Anatólia, deusa da fertilidade, de Mitra, divindade persa, que dividia o mundo entre bons e maus. A última das correntes orientais que disputou o já degradado patrimônio greco-romano foi o cristianismo. No terceiro séc. dC, o poder imperial estava minado por dentro, corrupção, lutas de poder etc, etc. Difícil segurar, por outro lado, as ondas de bárbaros que continuamente atacavam as fronteiras europeias e orientais do império.


Do terceiro para o quarto sécs. dC, o povo romano, desiludido e desgostoso com a política imperial, começou a aceitar a nova seita oriental, o cristianismo, uma nova moda, como aceitara os adivinhos etruscos, os deuses olímpicos gregos, os oráculos sibilinos, os filósofos gregos, os cultos da fertilidade da Ásia Menor e o radicalismo maniqueísta persa. Por volta do quarto século, proclamava-se abertamente em Roma que era perfeitamente possível a uma pessoa ser ao mesmo tempo um bom romano e professar o cristianismo.

Os deuses romanos eram classificados em duas grandes categorias, os itálicos e os importados, ou os indígites (endo + agere, os que agem a partir de dentro), deuses autenticamente nacionais, e os novênsiles, deuses estabelecidos recentemente, vindos do exterior, importados. Cabível ainda a distinção entre divindades protetoras do Estado e as protetoras da família. O pater familias exercia no ambiente familiar um verdadeiro sacerdócio, ao cuidar dos manes (almas dos mortos) e dos penates (divindades da casa), função tão importante como a dos sacerdotes que se dedicavam ao culto das grandes divindades como Júpiter ou Janus.


MAGNA   GRÉCIA


As maiores influências sofridas pela mitologia romana vieram da Grécia, indiscutivelmente, e depois dos etruscos. Lembremos que a fundação de Roma é do séc. VIII aC (753) e que os gregos já estavam instalados na Sicília e na Itália meridional desde essa época, dando-se o nome de Magna Grécia aos territórios ocupados pelos helenos.

ZEUS
Encontramos no nome de Júpiter raízes indo-europeias (di, div), radicais que correspondem à ideia de luz, brilho, de claridade, as mesmas que temos no  Zeus grego e no Dyaus dos indianos, no mundo védico. Para a formação do Júpiter romano não podemos esquecer a contribuição etrusca. O Júpiter etrusco chamava-se Tinia e exercia o seu poder através de advertências e castigos, possuindo para isto três raios. O primeiro ele lançava à guisa de advertência, por iniciativa própria; para lançar o segundo, também premonitório, ele devia contudo obter o consentimento dos doze deuses consentes ou cúmplices. O terceiro raio era o da punição, que só podia ser lançado com o assentimento dos deuses superiores, os dii superiores ou involuti, que agem obscuramente. Deste Júpiter etrusco podemos aproximar Summanus, outro deus etrusco do raio, que presidia o céu noturno.

O Júpiter romano é sobretudo o deus da luz (Sol e Lua) e dos fenômenos celestes, ventos, chuvas, tempestades, relâmpagos. Daí seu culto se ter também grandemente desenvolvido entre as populações do campo, camponeses, agricultores, pastores. Muitos de seus nomes correspondem a estas atribuições, Jupiter Lucetius, deus da luz; Jupiter Elicius (elicere, o que faz sair, o que retira), deus que faz a chuva sair das nuvens; Jupiter Liber, divindade das forças criadoras; Jupiter Dapalis, que governa as sementeiras (dapalis é refeição de sacrifício, suntuosa); Jupiter Terminus, que vela sobre as fronteiras dos campos (plantações).


  JÚPITER   CERCADO   POR   DEUSES  ( CÚPULA   DA  ASSEMBLEIA  -  ROMA )


Com a urbanização, Júpiter perdeu rapidamente as suas funções ligadas à agricultura para se transformar na grande divindade da cidade e do Estado. Assumiu as funções de deus guerreiro, Jupiter Stator (que prende os desertores), Feretrius (que colhe os frutos), Victor (vitorioso), de simbolo das grandes virtudes da justiça, da boa-fé da honra, de protetor das juventude. Torna-se, em suma, o grande protetor do Império: Jupiter Optimus Maximus. Ao seu nome se acrescentam títulos solenes: Conservartor Orbis, Conservator Augustorum, Propugnator (defensor, combatente), Sospitator (salvador), Tutator (protetor), Custos (guardião). Mesmo títulos menos solenes lhe são dados. Pistor (Padeiro) é nome que lhe é dado em função de um acontecimento histórico importante: Júpiter aconselhou os romanos quando, cercados pelos gauleses no Capitólio, a lançar pão por cima das muralhas para indicar aos inimigos que a fome era algo que não lhes preocupava. Tinham tanto pão (o que era mentira) que podiam até jogar fora o excesso.



PALÁCIO   DO   QUIRINAL  -  SÉCULO  XVI

O culto de Zeus era universal na Itália. Ele possuía no Quirinal um templo muito antigo. O Quirinal era nome derivado de um deus sabino, Quirinus, honrado numa colina ao norte da cidade. Ali se encontram vestígios do fórum de Trajano e das termas de Constantino. Mais tarde, no séc. XVI, ali foi construído um palácio (Quirinal) para ser a residência de verão dos papas. A partir de 1870, tornou-se a residência dos reis da Itália. É atualmente a residência do presidente da república, um edifício muito enriquecido com obras de arte. O templo de Júpiter no Quirinal chamava-se Capitolium Vetus, formando ele uma tríade com Juno e Minerva. Júpiter tomava o nome de Optimus Maximus ao formar essa tríade.


MERCADO  DE  TRAJANO  NAS  ENCOSTAS  DO  PALÁCIO  QUIRINAL - SÉCULO II DC

Era sob a tutela de Júpiter Capitolino que os senadores se reuniam quando tinham que decidir sobre as declarações de guerra. Os generais, obrigatoriamente, antes de partir para as suas campanhas militares e depois delas vinham lhe oferecer uma coroa de ouro e parte dos despojos conquistados.


TEMPLO   DE   JÚPITER   CAPITOLINO  ( GRAVURA   ANTIGA )


O templo de Júpiter Capitolino, rico e suntuoso, erguia-se, segundo
RÔMULO  E  REMO
Vergílio narra na
Eneida, no Capitólio, colina anteriormente coberta de carvalhos, lugar mítico, onde a loba teria amamentado Rômulo e Remo. Nessa região, antes do poder romano se firmar sobre os povos vizinhos, honrava-se o chamado Jupiter Latiaris, Lacial, de caráter ctônico, infernal.

Como deus da luz, eram consagrados a Júpiter os Idos de cada mês (dia que divide o mês em dois, dia 15), festas da Lua cheia, quando o céu se iluminava completamente. Nessa data, seu sacerdote, o Flamen Dialis, o sacerdote de Júpiter, oferecia-lhe uma ovelha branca.

Como deus tutelar da Justiça, do Direito, da Lealdade Jurada e Protetor do Estado, Júpiter presidia as relações internacionais de Roma através do Collegium Fetialium (Fecial: membro de um colégio de 20 sacerdotes, encarregados de declarar guerra conforme ritos muito precisos e de tutelar a redação de tratados). Os juramentos e os tratados eram, para os romanos, tão importantes que eles os gravavam em tábuas de bronze, depositado-os no templo de Júpiter Capitolino.

AUGUSTO
Os imperadores sempre procuraram se colocar dentro da aura emanada por Júpiter. Augusto, por exemplo, se vangloriava de ter sonhos enviados diretamente pelo deus. Por ter sido salvo milagrosamente de um raio, Augusto mandou erguer em homenagem ao deus um templo, o de Jupiter Tonans. Calígula exagerou: acrescentou a seu nome dois apelidos de Júpiter, Optimus e Maximus.


TARQUÍNIO
Celebrava-se em honra a Júpiter, no circo romano, os jogos anuais,os chamados Ludi Romani, cuja instituição é atribuída a Tarquínio, o Antigo. Os pontos altos destes jogos eram os concursos atléticos e as corridas de carros. Ao lado dos Ludi Romani havia os Ludi Plebeii, nos quais se realizavam corridas (pedestrianismo) e jogos cênicos.

As imagens de Júpiter são grandemente inspiradas na estatuária grega. Há um Júpiter, porém, o chamado Jupiter Volsco (volscos, um povo do Lácio), que apresenta uma peculiaridade inusitada: é representado sob uma aparência bastante jovem e imberbe.

Para entender  o Júpiter romano é preciso fazer referência à sua esposa imperial, Juno, sua irmã também. De início, diga-se que
DIANA
Juno, ligada a Júpiter, já era encontrada entre os sabinos, os oscos, os latinos, os etruscos e os umbros. Seus nomes mais antigos: Lucina, Lucetia, correspondentes às suas principais atribuições. Juno Lucetia é o princípio feminino da luz celeste, da qual Júpiter representa o princípio masculino. Como Júpiter também, ela é uma divindade lunar, aparecendo como tal sempre associada a Diana.


Deusa da luz, ela é, por extensão, deusa dos partos, relacionando-se sempre a ideia de luz aos partos. Juno Lucina, também. Nesta condição, ela ocupa um papel muito grande nas cerimônias matrimoniais (tornar a mulher mãe) e nas suas consequências. Adquire assim nomes como o de Juno Pronuba, aquela que cuida dos ritos do casamento, que acompanha o casamento; Juno Domiduca (domus + duca, conduzir à casa; Júpiter também tinha o apelido de Domiducus), aquela que conduz a esposa à casa do esposo e a auxilia a transpor a porta de entrada; Juno Nuxia (nux é todo fruto com casca dura, amêndoa; o casamento punha fim, nuces relinquere, aos jogos da infância, às brincadeiras juvenis com amêndoas etc.) é aquela que perfuma a entrada da casa do esposo.

Juno Cinxia (cinctus, cinto) é aquela que desfaz o nó do cinto da virgem esposa. Mais tarde, Juno Lucina protegerá a gravidez da esposa, fortalecerá os ossos da criança, como Juno Ossipago, fará da mãe uma boa nutriz, Juno Rumina (Ruminal era o nome da figueira ao lado da qual Remo e Rômulo receberam o alimento, o leite; por essa razão, Júpiter será também chamado de Ruminus, o que alimenta. Como deusa dos nascimentos, dos partos, Juno era muita reverenciada por mulheres estéreis. Foi Juno Lucina quem livrou as mulheres sabinas vitimadas pela esterilidade por causa de seu rapto. Juno Lucina era o grande modelo das matronas romanas.

Juno não velava só pelas mulheres romanas. Ela também incentivava a procriação nos países dominados por Roma, como Juno Populonia. Sob o nome de Martialis, mãe de Marte, ela estende sua proteção ao aspecto fecundante masculino, recebendo o apelido de Caprotina. Como protetora da cidade e do povo, Juno tomava o nome de Moneta, que tem o significado de a que avisa, a que adverte, do verbo monere, advertir, inspirar. O nome Moneta foi dado à deusa porque seus animais, os gansos, advertiram os romanos quando, de certa feita, os gauleses estavam escalando as muralhas da cidade. Noutra oportunidade foram eles que advertiram os romanos quanto a um iminente tremor de terra. Mais tarde, a administração da cidade instalou perto do templo de Juno a sua Casa da Moeda, passando a deusa também a estender sua proteção, como Moneta, à fabricação das moedas.


TRÍADE   CAPITOLINA

Dentre as grandes festas celebradas em homenagem a Juno destacamos as Matronalias, celebradas pelas matronas no mês de março, num bosque sagrado no Palatino, e transferidas depois para as casas das famílias, nelas pontificando a mãe da família, sempre honrada, recebendo presentes do marido, sendo admitidos os escravos à mesa. O título de Regina foi dado a Juno quando passou a fazer da Tríade Capitolina. Nessa condição, ela tinha nas mãos um cetro de ouro, uma patera e um raio. Ao lado do marido, seu poder se estendia assim a todo o império.




terça-feira, 21 de abril de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (3)

                                  
Se na mitologia os conceitos solar e jupiteriano se aproximam muitas vezes, na astrologia as diferenças são grandes. Apesar do heliocentrismo da ciência moderna, o Sol, para a astrologia, continua sendo um “planeta”, válidas portanto para os astrólogos as teses ptolomaicas. Isto se deve evidentemente à sua revolução aparente em torno do Terra, determinante do ciclo anual. Há também a considerar que o Sol é  o mais “pessoal” de todos os chamados “planetas” pessoais (Lua, Mercúrio, Vênus e Marte), já que simbolicamente tem a ver com a força vital do homem, com a sua posição no mundo, com a sua vontade e individualidade mais interiorizada.




Desde tempos imemoriais, o Sol sempre foi considerado por todas as civilizações como uma divindade suprema ou como um aspecto visível da  manifestação dessa divindade, fazendo-se do  luminoso astro um símbolo do poder criador. É nesse sentido, como poder criador, que ao Sol foi atribuída a regência do signo de Leão, auge do verão, período em que no hemisfério norte o nosso planeta recebe a maior quantidade de luz solar.

O Sol  será então a força vital presente em cada um dos seres humanos, que precisam controlá-la  e lhe dar um direcionamento segundo vários objetivos. É aqui que entra Júpiter para nos propor perguntas como a de que maneira isso poderá ser feito, como nossa energia funcionará na escala social. Caberá ao Júpiter de cada um de nós, na nossa carta astral, responder a essas questões.

Como manifestação dinâmica Júpiter marca a inserção do ser humano no mundo externo através de uma ação ativa e direta. Lembra ele sempre que a afirmação individual terá que levar em consideração os aspectos éticos e morais dessa inserção. É Júpiter quem vai colocar as virtudes marcianas (atividade física, decisão, pioneirismo, sexualidade) e solares (conquista de um ego autônomo, soberania, independência) numa perspectiva social correta. As primeiras, se desviadas, podem levar à agressividade, à cólera, à violência, a guerra. As outras, sem a consideração do outro, podem levar à tirania, à egolatria, ao narcisismo, ao autoritarismo. É Júpiter, como regente do signo de Sagitário, que poderá transformar o leonino de tipo hercúleo, horizontal, realista, eficaz, num leonino verticalizado, de tipo apolíneo, idealista, espiritualmente orientado em direção do grande todo, isto é, da humanidade, da coletividade.


SAGITÁRIO

Como “rei” dos planetas, Júpiter é uma espécie de administrador do cosmos. Pessoas com um Júpiter dignificado, bem aspectado ou elevado, têm um “mental superior” que as orienta. Se o Sol é a energia do nosso eu profundo voltada para este ou aquele objetivo, conforme a casa que ocupar, devidamente assessorado pelos demais planetas pessoais, Júpiter é aquele que vai dar um sentido correto à exteriorização solar. Um Júpiter bem aspectado num tema astrológico nos diz que essa exteriorização poderá se dar de forma generosa, benevolente, amigável.

É a partir destas considerações que devemos pensar também em Saturno, outro planeta relacionado com o social, quando pensamos em Júpiter. Ambos têm uma polaridade natural. Se Júpiter significa a possibilidade (habilidade) que temos de desenvolver a nossa personalidade em direção do social, do coletivo, através de linhas espirituais, aumentando bastante o nosso campo de ação, de modo a visualizar o mundo de modo mais abrangente, Saturno é o princípio da limitação e da ordem.

Saturno representa as regras de qualquer atividade em que nos empenhemos, o jogo da vida como um todo, se quisermos, definindo o que pode e o que não pode ser feito. Se Saturno nos faz ver o mundo em termos de separação, de fronteira, de barreira, Júpiter aponta para relações onde entrem aspectos de interdependência e conexão.

Assim, se um é expansão, dilatação, crescimento, desenvolvimento, oportunidade, o outro é obstáculo, limitação, restrição, o que deve ser observado e respeitado. Quando ambos os planetas estão equilibrados no nosso mapa, quando têm um certo balanceamento, podemos planejar melhor a nossa caminhada, o nosso desenvolvimento social em direção do coletivo.


JÚPITER , SATURNO E  NETUNO  EM  ASPECTO

Exemplificando: se Júpiter e Saturno estiverem totalmente desconectados num mapa, podemos pensar em sérias dificuldades para uma pessoa se desenvolver, crescer ou se expandir de modo harmonioso, equilibrado. Se temos um Júpiter muito ativado e um Saturno fraco sob o ponto de vista astrológico, podemos pensar em indisciplina, imoderação, presunção. A arrogância é uma das características de um Júpiter muito forte (em fogo, mesmo em Sagitário, com aspectos dissonantes de Marte, Urano ou Sol, ou angular, por exemplo).

Um Saturno muito forte e um Júpiter enfraquecido poderão fazer alguém se sentir muito cobrado quanto às responsabilidades e deveres, especialmente quando criança ou jovem. Evidentemente, quando temos um Saturno muito forte em qualquer mapa temos que levar em consideração, obrigatoriamente, como a influência paterna aparece nesse contexto.

Os gregos davam o nome de Zen, Zes ou Zeus ao maior dos seus deuses. Os poetas romanos o chamaram de Jove, jovem, por ter nascido na terceira dinastia divina e ser o último dos olímpicos a nascer. Por trás de Zeus está o radical indo-europeu div, com o significado de luz, luminosidade celeste. Desse radical saíram Dyaus, Delos (brilhante), deus, Dyaus Pitar, Júpiter.

Desde sempre Zeus se ligou, não ao céu, à abóbada ou ao espaço celeste, mas, sim, às manifestações atmosféricas que atingiam a Terra a partir do céu. É neste sentido que seus apelidos vão aparecendo, Chuvoso (Ombrios), O Que Envia Ventos Favoráveis (Urios), O Trovejante (Brontaios), O Relampejante (Astrapaios) etc.


ZEUS

Zeus era filho de Cronos e de Reia, divindades titulares da segunda dinastia divina (Esquizogenia), sendo o mais novo dos seis filhos, antecedendo-o Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseidon. Para se
REIA, A PEDRA E CRONOS
transformar em Senhor do Universo, sua primeira batalha foi travada contra o pai, que engolia todos os filhos que Reia, a mãe, gerava. O único filho que Cronos não engoliu foi justamente Zeus. Grávida dele, Reia refugiou-se em Creta. Nascendo o filho, ela o escondeu numa gruta da ilha e levou para o marido, no lugar da criança, uma enorme pedra envolvida em panos para que ele, como havia acontecido com os demais filhos, o devorasse.

Quem fixou o lugar de nascimento de Zeus para nós foi Hesíodo,
MONTE  IDA
em Creta, como se disse, no monte Lictos. Outros autores apontam, porém, para o monte Dicteu ou para o monte Ida. Os beócios, por seu turno, afirmam que o Senhor dos Deuses nasceu em Tebas, os aqueus nos dizem que tal ocorreu numa de suas cidades, perto de Corinto; os Messênios, em Messena, perto de Pilos; os arcádios, no Monte Lico. Enfim, cada povo procura fazer de Zeus seu compatriota.Isto nada terá de estranho se tivermos  alguma familiaridade com o mito e soubermos que há mais de trezentos Zeus espalhados pelo mundo Mediterrâneo e Ásia Menor, o que o torna a divindade com o maior número de apelidos e, portanto, a mais cultuada. Se lembrarmos que Apolo, o grande operador do sistema religioso olímpico tinha cerca de duzentos apelidos, ficará fácil entender como Zeus era o “maior de todos”.



ZEUS  E  EUROPA
Dentre os mais notáveis Zeus, fora da Grécia, temos, por exemplo o de Amon, na Líbia, talvez um dos mais antigos; os egípcios têm o de Serapis; os persas têm um Zeus Urânio; há um, de nome Asterio, em Creta, que raptou a princesa fenícia Europa. Diodoro Sículo faz de Zeus o rei dos Atlantes. Se trouxermos os romanos para estas considerações, veremos que Cícero admite dois Zeus: um filho do Éter, nascido na Arcádia, que gerou Baco e Proserpina, e outro, também arcádio, filho de Urano e pai de Minerva. Em Creta foi encontrado um túmulo muito antigo com a inscrição: Ci git Zan.

OS   CURETES
Na gruta de Creta, Zeus, recém-nascido, foi entregue aos cuidados dos Curetes (de kouros, jovens, jovens guerreiros, no caso), seres divinos, que, armados, o protegiam e executavam continuamente em torno do seu berço   uma dança guerreira a fim de encobrir o seu choro. Os Curetes faziam parte do séquito de Zeus-menino; suas armas de bronze, escudos, lanças e espadas, produziam um ruído ensurdecedor, que, entretanto, o nunca impediu, entretanto, o sono da criança divina.


AMAMENTAÇÃO  DE  ZEUS  ( POUSSIN )

A alimentação de Zeus, além dos cuidados corporais, ficou sob a incumbência das ninfas Melissai (abelhas, em grego). O seu regime alimentar era completado pela solicitude da maravilhosa cabra Amalteia (generosa, doce; malthakos, em grego, é suave), que lhe fornecia enormes quantidades de leite. Consta do mito que Zeus, ainda criança, mas já crescido, um dia, brincando com a sua ama-de-leite na gruta, acidentalmente quebrou um de seus chifres. Prometeu a ela, e assim foi feito, que o chifre seria transformado na cornucópia, o corno da abundância.


CORNUCÓPIA

Símbolo de riquezas inesgotáveis oferecidas ao ser humano sem que ele faça qualquer esforço para merecê-las (profusão gratuita dos dons divinos), a cornucópia é um chifre do qual  saem frutos e outras delícias ininterruptamente. Uma outra versão grega, porém, nos narra que a origem da cornucópia é outra. Seria ela um chifre do rio Aqueloo, filho de Oceano e de Tétis, que Hércules dele arrancou, quando havia tomado uma forma taurina, numa disputa pela bela Djanira (etimologicamente, a matadora de homens). Para recuperar o chifre arrancado pelo herói, Aqueloo lhe propôs dar em troca o chifre de Amalteia, então sua prisioneira. A proposta foi aceita e Hércules recebeu assim o maravilhoso presente.

É de se registrar que a cornucópia foi parar na mitologia romana como atributo das deusas Flora e Fortuna. A primeira, como se sabe, representa o eterno renascer da vegetação na primavera e, neste sentido, presidia tanto a floração dos vegetais em geral (da videira, em especial), de árvores frutíferas e plantas ornamentais, protegendo-as de qualquer moléstia. Como deusa, Fortuna é a favorável, a propícia e também a adversa, ou seja, a boa ou a má fortuna. Aos poucos, no mundo romano, passou a significar só os dons da fortuna, da riqueza. De certa maneira, opõe-se ao Fado, Destino, e aproxima-se da deusa  grega Tykhe, o Acaso, passando a significar aquilo que o homem alcança  ou realiza por decisão dos deuses sem que estejam evidentes para os humanos as razões para isso. Fortuna é representada com a cornucópia (prosperidade) e empunha um remo (símbolo da reta direção que deve tomar a busca da riqueza). Aparece sentada, às vezes em pé, sempre cega em qualquer representação. Da pele da cabra Amalteia, invulnerável, Zeus fez uma égide (aigós), arma tanto ofensiva quanto defensiva, depois entregue a Palas Athena, nela se fixando a cabeça da Medusa, morta pelo herói Perseu.

HÉSTIA
Chegando à idade adulta, Zeus, sentindo-se apto, resolveu enfrentar o pai. Aconselhado pela deusa Metis, o Juízo Avisado, e por ela apoiado, dela recebeu uma droga maravilhosa, um vomitório, conseguindo fazer com que o pai inadvertidamente o engolisse. Com isto, Zeus trouxe seus irmãos de volta à vida. Embora primogênita, lembremos, Héstia, com o seu grande espírito de sacrifício, foi, sponte sua, a última sair das entranhas do pai.


Auxiliado pelos irmãos, Poseidon e Hades, Zeus iniciou então uma longa luta contra Cronos e os membros da segunda dinastia, seus tios. Este episódio será conhecido pelo nome de Titanomaquia, ou seja, a luta dos futuros olímpicos, terceira dinastia (Autogenia), contra os titãs, os filhos de Urano e Geia (1ª dinastia, Cosmogenia).


CÍCLOPES

Consta que a luta entre Zeus, um crônida (filho de Cronos), contra o pai e seus irmãos durou dez anos. Vitoriosos, Zeus e seus irmãos os expulsaram dos céus e os lançaram no Tártaro. Não se pode esquecer que a vitória dos futuros olímpicos se deve em grande parte ao poderoso auxílio que receberam dos Cíclopes e dos Hecatônquiros, filhos de Urano e Geia. Foi Geia quem sugeriu a Zeus que libertasse os seus monstruosos filhos do Tártaro, nele encerrados por Urano, que os detestava. Agradecidos, os Cíclopes cederam a Zeus o trovão, o relâmpago e o raio, atributos de cada um deles, respectivamente de Brontes, Estérope e Arges. A Hades, os Cíclopes deram o elmo da invisibilidade e a Poseidon o tridente, que abala as terras e o mar. Terminada a grande batalha contra os titãs (os que levantaram as mãos contra o pai e os do cálcio: duas etimologias admitidas para a palavra titã), num sorteio manipulado por Zeus, o grande artífice da vitória olímpica, sem dúvida, o mundo líquido (oceano, mares, lagos e rios) coube a Poseidon; o mundo ctônico coube a Hades, que desde então passou a ser chamado também de Plutão; a Zeus coube não só os céus, ou melhor, o controle e a distribuição de todos os fenômenos celestes, como a supremacia do Universo.


TEMPLO  DE  ZEUS
Por seu nome, Zeus evoca, além de uma ideia de céu luminoso, os seus fenômenos atmosféricos. Além do trovão, do relâmpago e do raio, é o senhor dos ventos, das nuvens e das chuvas, fecundantes ou destrutivas. Vive acima das nuvens, residindo  como todos os demais deuses no Éter, acima do Ar. Por essa razão, na Terra, sempre foi honrado em lugares elevados, como no Liceu, na Arcádia, no monte Apesas, na Argólida, no monte Hymeto, na Ática, no monte Helicon, na Beócia, no monte Ida em Creta etc.

GIGANTE

A Grande-Mãe Geia ficou profundamente irritada com Zeus e seus irmãos por terem lançados os titãs, seus filhos, no Tártaro. Incitou contra eles os Gigantes, seus filhos, nascidos do sangue derramado de Urano sobre ela, quando de sua castração. Este episódio é conhecido pelo nome de Gigantomaquia e nele se descreve a luta e a vitória dos olímpicos sobre os monstruosos filhos de Geia.

Os Gigantes só poderiam ser feridos mortalmente se a agressão fosse praticada por um deus e por um mortal, atuando solidariamente. Havia ainda uma famosa planta, uma erva mágica, produzida por Geia, que, se aplicada sobre o ferimento, poderia torná-los imortais. E como se tudo isto não bastasse eles haviam sido criados por Geia de modo que, se golpeados, desde que tocassem a superfície terrestre, poderiam recompor-se, recuperando as suas forças. Como se pode ver, eram praticamente invencíveis. A única forma de abatê-los era a mencionada no início deste parágrafo e, mesmo assim, sempre, com ingentíssimos esforços.

Dois dos gigantes, Alcioneu e Porfirion, eram exceções: escapavam da condição retro mencionada, tornando-se imortais, desde que nunca deixassem de manter contacto com a sua mãe através da planta dos pés. Os Gigantes (literalmente, os gerados por Geia, pela Terra) desde que nasceram sempre se insurgiram contra as divindades, em especial contra os olímpicos. Fortíssimos, enormes, barba hirsuta, cabeleira desgrenhada, viviam  afastados, isoladamente ou em pequenos grupos.


GIGANTOMAQUIA
Na Gigantomaquia, lançavam petardos contra o Olimpo, grandes blocos de pedra, troncos de árvores inflamados, lavas vulcânicas, sempre ameaçando as estruturas do palácio dos deuses. Quando apareceram nos campos Flegreos, o campo de batalha, os deuses se assustaram com a aparência deles. Horrendos, alguns tinham a forma dracôntica, algo nunca visto pela maioria dos deuses, acostumados a uma convivência harmoniosa com seres luminosos, de esplêndida beleza.

Lembre-se que numerosas antigas culturas consideravam os gigantes como símbolos da natureza primitiva e informe. Antes que os seres humanos pudessem gozar dos benefícios da civilização só os seres que possuíssem um grande vigor físico poderiam sobreviver num mundo sem lei e sem ordem, num mundo natural, de forças naturais descontroladas, povoado de monstros, cruel e impiedoso. Os gigantes e os chamados monstros pré-históricos, enormes, além de outros, eram os seres desse mundo, que “sobrevivem” em nós de algum modo como reminiscências desse tipo de vida.

Os gigantes, em todas as mitologias, como a celta, por exemplo,
O  GIGANTE  E  A  MULHER
sempre se caracterizaram por sua grande oposição ao ser humano (racional) e aos deuses (espiritual). Os gigantes desempenhavam na natureza primitiva, ainda mal separada do caos primordial, uma oposição aberta à constituição do que os gregos chamaram de cosmos, a natureza visível e a sua ordem. Na própria Bíblia, aliás, encontramos referência a gigantes, quando se diz que certas mulheres teriam se unido a eles; esta passagem é sem dúvida uma reminiscência de mitologias orientais anteriores e particularmente a mesopotâmica. Estas uniões denotam no texto bíblico a perversão (domínio da vida instintiva sobre a racional e a espiritual) crescente dos homens que irá dar causa ao dilúvio para a devida purificação do mundo criado.


Do ponto de vista das crenças populares, atribui-se aos gigantes, principalmente, a formação de montanhas, a autoria de construções megalíticas (dólmens e menhirs) e de grandes muralhas etc. Muitas
MONTE  ATHOS  ( MOSTEIRO  DE  SIMONOPETRA ) , HOJE
dessas montanhas, por exemplo, depois se tornaram sagradas, como é o caso do monte Athos, na Grécia, um antigo gigante, um dos mais ativos na Gigantomaquia. Hoje, o Monte Athos é a montanha sagrada da Igreja Ortodoxa grega. Totalmente interditado às mulheres e aos animais (fêmeas), dede o ano de 1060, o monte Athos também está fechado aos turistas. Só alguns privilegiados, que aleguem razões religiosas e culturais, muito bem fundamentadas, podem visitá-lo e, excepcionalmente, nele se hospedar.


Quanto ao mais, lembremos que o nome cíclope, que designa os
MURALHAS   CICLÓPICAS
gigantes de um só olho no meio da testa, filhos de Urano e Geia, foi parar na arquitetura. Chamam-se kyklopicas, ciclópicas, as construções, principalmente muralhas enormes, levantadas com grandes blocos de pedra, sem argamassa para fixá-las. Um dos melhores exemplos deste tipo de construção está em Micenas, onde encontramos enormes blocos de pedra superpostos, entre 3 e 8 metros de comprimento, que chegam, cada um deles, os maiores, a pesar 800 toneladas


Zeus, sem dúvida nenhuma, é o grande inimigo dos gigantes, símbolos criados pelos seres humanos para representar o seu descontrole, as suas tendências involutivas ou regressivas, a serem vencidas para que seja possível o predomínio do mental sobre o racional e ambos a serviço de uma progressiva espiritualização.

As vitórias de Zeus permitiram que ele tomasse a forma de uma divindade que atuava sobretudo nos planos moral e espiritual, reunindo para isso inúmeros atributos: era todo-poderoso, via tudo, ouvia tudo; estava presente em todos os oráculos onde se
ZEUS   GAMELIOS
procurasse obter as sentenças divinas (Dodona, Olímpia etc.), mesmo em Delfos, tutelado por seu filho Apolo. Soberano e sábio, organizava tudo, inclusive as leis do Destino (Moros) e das suas principais agentes, as Moiras, com os quais confundia a sua vontade. Bom e misericordioso, acessível à piedade, quando punia ou afastava o mal (Alexicacos) pode ser violento. Protegia os fracos, os indigentes, os que se perdiam na vida e, de um modo geral, todos os suplicantes, sendo então chamado de Meilichios. Sua solicitude se estendia também à família, como deus do interior da casa (Ephestios), do casamento (Gamelios), da amizade (Philios), da hospitalidade (Xenios), da ordem social como deus da polis (Polieus), deus das assembleias populares (Agoraios). Zeus era assim o deus protetor de toda a Grécia e de todos os territórios aos quais se estendesse o poder grego. Uma divindade pan-helênica, portanto.


ZEUS   MEILICHIOS
Alguns dos seus atributos foram conquistados, como é o caso, por exemplo, de Meilichios. Este nome designava em antiquíssimos rituais um demônio de natureza ctônica, infernal, de forma dracôntica. Impondo-se, o culto de Zeus incorporou esse lado infernal de Meilichios sob uma forma benéfica, uma espécie de protetor das almas que desciam ao mundo ctônico. Meilichios, como Plutão, era um eufemismo, e tinha o significado de furioso, sedento de sangue (o nome vem de maimakies, furioso).


SANTUÁRIO  DE  DODONA
O mais famoso e antigo santuário de Zeus era o de Dodona, no Épiro, centro religioso antiquíssimo, desde o tempo dos pelasgos, um povo pré-helênico que habitou o que seria mais tarde a Grécia e a Itália. A Dodona acorriam peregrinos de todo o mundo grego e da Ásia Menor para consultar o oráculo, representado por um carvalho sagrado, cujos ruídos e murmúrios de sua  ramagem eram  considerados como palavras do próprio Zeus.

Heródoto nos relata a história da origem deste famoso santuário. Conta ele, segundo ouviu dos seus sacerdotes, que duas pombas negras, partiram de Tebas, no Egito, indo uma em direção da Líbia e outra em direção de Dodona. Esta pousou num majestoso carvalho e se pôs a falar com voz humana, declarando que, ali, naquele local, por desígnio divino, deveria ser ser fundado um oráculo de Zeus. Assim foi feito, ficando a cargo de um colégio sacerdotal, os Sellos (nome dos antigos habitantes de Dodona), então constituído, a interpretação das manifestações do carvalho sagrado.

Os sacerdotes de Dodona praticavam o ascetismo, deitavam-se diretamente sobre o solo, jamais deixando de tocá-lo. Mais tarde, o colégio sacerdotal dos Sellos admitiu a participação feminina, três sacerdotisas que receberam o nome de Peleiades, a serviço da deusa Dione, uma divindade dos pelasgos, segundo Hesíodo uma filha de Oceano e de Tétis, e que junto de Zeus, em Dodona, assumia o papel de sua esposa, no que foi substituída mais tarde por Hera.

CARVALHO  ( ROBUR )
O carvalho, pela sua altura, copa majestosa, protetora, pelo seu destaque dentre todas as demais árvores, sempre foi considerado um símbolo de sabedoria por sua excepcional longevidade (mais de 2.000 anos, segundo a tradição local). As bolotas do carvalho sempre foram utilizadas, desde a mais remota antiguidade, como alimento. Sinônimo de força, o carvalho tinha para o homem da pré-história o mesmo valor que um templo. Os latinos darão a ele, pelo seu aspecto físico, o nome de robur, palavra que lembra dureza, firmeza, usada depois analogicamente para representar a vida moral.

Solidez, potência, longevidade e altura são características que fizeram do carvalho, para os povos mediterrâneos, um símbolo axial, isto é, um centro em torno do qual a vida social se organiza, e que servia, ao mesmo tempo, de comunicação entre a Terra e o Céu. As árvores, inclusive as florestas como um todo, lembremos, foram, além das grutas, os primeiros templos do homem pré-histórico, que atribuía a elas um valor sagrado. É por isso que encontramos, entre os gregos e os celtas, um respeito tão grande pelo carvalho. Esse respeito alcançava outros vegetais (árvores), como, por exemplo, a tília de Afrodite (Tília era o nome da mãe do centauro Kiron e símbolo de terna fidelidade), o loureiro de Apolo, a vinha de Dioniso, a oliveira de Palas Athena etc.

As florestas eram lugares privilegiados de culto, a elas se levando oferendas aos deuses, sendo de se notar que no interior de alguns países europeus e asiáticos, longe dos meios urbanos, ainda encontramos árvores ao pé das quais se depositam ex-votos, indicando-se assim a persistência dessas antigas tradições. Germanos e gauleses, por exemplo, prestavam cultos às árvores acendendo alguns lumes perto delas. O poeta Luciano, do primeiro século de nossa era, nos fala de uma floresta perto de Marselha, totalmente preservada pelos celtas franceses (gauleses), derrubada, em nome do “progresso”, pelos romanos, ainda que temerosos pelo sacrilégio que estavam cometendo.


ÁLAMO
É de se mencionar ainda que no período da revolução francesa de 1789, em memória da tradição gaulesa, o carvalho e o o álamo (peuplier, em francês, do latim populus, povo) foram escolhidos como símbolos da liberdade, da esperança e da continuidade, conquistadas pelo povo. Foram ambas as árvores consideradas como monumentos públicos, protegidos por leis. Os celtas franceses celebravam sob a sombra protetora dos carvalhos não só os seus mais importantes atos político-sociais como ali pronunciavam os seus sermões cívicos.

ARISTÓTELES
Dentre outros importantes santuários de Zeus é preciso destacar o do monte Lyceu, na Arcádia, no cume do qual havia um pequeno outeiro, precedido de duas colunas, nas quais duas águias estavam gravadas. Registre-se que o radical grego lyx (em latim, lux) está na origem da palavra Liceu, nome dado a um ginásio situado fora dos muros de Atenas, perto de um templo de Apolo Lykaios, deus da luz, solar, cuja mãe, Leto, se transformou em loba. Era no Liceu que Aristóteles ministrava os seus cursos.

Lykos, em grego, é tanto lobo quanto luz, sendo Apolo chamado de Lycogenes, o gerado pela loba. Animal que caça no escuro, antes do Sol nascer, o lobo sempre esteve presente em antigos cultos, sendo ao tempo conhecido pela sua voracidade e selvageria (o seu lado infernal) e pelo seu lado fecundo como vencedor as trevas (o seu lado solar). Uma das formas que Zeus tomou em tempos muitos remotos, tempos em que os homens do campo usavam a magia agrícola, foi exatamente a de Lykaios, a ele se fazendo sacrifícios humanos a fim de se pôr fim à seca e a outras catástrofes naturais. Honrado devidamente, Zeus enviava então dos céus as benfazejas chuvas.


ZEUS   E   ÁGUIA

Outro símbolo que tem relação direta com Zeus é a águia. Ave solar, de grande longevidade, voando mais alta que todas, ela simboliza naturalmente a luz (pode olhar o Sol sem baixar os olhos, uma das histórias que sempre se propagaram sobre ela), a conquista, a consciência e o instinto natural de poder. Por seu olhos que tudo percebem, a águia foi usada simbolizar a divindade vigilante, Zeus, o Olho que tudo vê, e a Providência. Com razão, é a ave solar por excelência em todas as civilizações.


ÁGUIA  -  ALQUIMIA
Não é por outra razão que o esoterismo alquímico vê a águia como um símbolo da desmaterialização, da sublimação, da vitória sobras as forças da gravidade. Na tradição ocidental, a águia é também um símbolo do rejuvenescimento, já que ela, segundo consta, costuma expor-se por longo tempo aos raios solares, no pico das montanhas, para depois mergulhar a sua brilhante plumagem, na água pura das nascentes intocadas pelo homem. Esse processo é visto pelos alquimistas como a imagem da iniciação, ao implicar a passagem pelo fogo e pela água. Lembremos, ainda, que pela seu tamanho e características a águia foi escolhida como emblema por poderosos impérios e nações que em  algum momento se acharam como centro da história do homem: Roma, França, Áustria, Alemanha, USA etc. A psicanálise entende que a águia nos sonhos pode simbolizar pensamentos elevados, mas também, segundo o contexto, a vontade de poder e o orgulho devorador, que podem fazer o homem se afastar das suas atividades cotidianas, destruir os seus reais valores e mesmo a sua personalidade. Os gregos, com base em antiga simbologia do mundo indo-ariano, confiaram à águia um outro atributo ígneo, o relâmpago, o que fez dela a ave das divindades supremas.

                               



quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

MITOLOGIAS DO CÉU - O CÉU

Desde a aurora dos tempos, o homem sempre se sentiu atraído pelos fenômenos celestes e pelos seus reflexos na Terra, principalmente peIa alternância dos dias e das noites, pelas fases da Lua, pelo movimento dos astros, pela volta periódica das estações. O homem constatou no cosmos uma regularidade que não falha. Desde a pré-história, o estudo do céu provocou um movimento duplo: a busca de leis naturais, imutáveis, que em nenhum lugar como no céu aparecem de forma tão evidente, e a tendência de colocar nos céus seres sobrebaturais e todo poderosos. Entender o céu através de suas leis e de ver nele a morada de divindades e dos eleitos.



Foram constatados desde muito cedo na história do homem nexos, relações entre certos fenômenos celestes e terrestres, particularmente nas latitudes médias, entre o movimento das estações e o percurso do sol no círculo zodiacal e entre as fases da Lua e o movimento das marés. Ao lado dos fenômenos celestes que se repetiam periodicamente, ocorriam também acontecimentos excepcionais, espetaculares como eclipses do Sol e da Lua, movimento de cometas, estrelas cadentes, meteoritos. Além disso, havia também o giro circular dos planetas pela faixa zodiacal, sempre intrigante.


Os modelos terrestres de representação do espaço celeste sempre variaram muito de acordo com a visão de cada tradição; as imagens escolhidas para simbolizar o espaço celeste foram aparecendo: cúpula, cobertura, redoma, dossel, taça virada, tartaruga, uma espécie de oceano que uma forte pressão atmosférica impede de escorrer e sob a qual os astros deslizam como barcos num mar tranquilo. A tartaruga, por exemplo, é uma cosmografia viva devido à sua carapaça e à sua parte inferior, achatada, quadrada, uma imagem do ceu da terra. Por isso, em muitas culturas, principalmente no extremo-Oriente, a tartaruga é uma representação do cosmos.

A palavra céu vem do latim, “caelum”, onde tem o sentido de cobertura abobadada, arqueada. Na maior parte das línguas, é tanto região das nuvens e dos astros como morada dos deuses e repouso dos eleitos. Fisicamente, é o espaço onde se localizam as nuvens, uma espécie de envoltório limitado pelo horizonte, onde brilham os astros e luzem as estrelas, sempre um cenário de acontecimentos espantosos.

Conceitos de ordem meteorológica, teológica, astronômica, astrológica e mitológica sempre se misturaram a teorias diversas sobre a criação do mundo e o aparecimento do cosmos como ordenação. Em todas as tradições encontramos mitos sobre a unidade original entre o céu e a terra, seja na forma de confusão, caos, seja na forma de uma união entre uma entidade masculina, celeste, fecundante, e uma entidade feminina, terrestre, geradora, depois separados pela interposição do ar, tudo para lugar ao aparecimento do ser humano, os nascidos do "humus".

O espaço celeste sempre se revestiu de uma dimensão sagrada, sempre teve uma significação religiosa, lugar de hierofanias. Os antigos, quando contemplavam o céu, passavam sempre por uma experiência religiosa. A natureza, para esse homem, jamais foi considerada como simplesmente "natural". Ao contrário, sempre foi vista como um reflexo do céu. Os ritmos lunares, o ciclo das estações, o aparecimento e o desaparecimento do Sol a cada dia, por exemplo, adquiriam valores religiosos para a humanidade arcaica.

Já se disse que uma das principais diferenças que separam o homem das antigas culturas do homem moderno reside justamente na incapacidade que este último tem de viver a vida orgânica como um sacramento. Para o homem moderno, os atos de sua vida orgânica não passam de acontecimentos fisiológicos. Para os homens do mundo arcaico, ao contrário, esses atos eram sacramentos, ritos, cerimônias que lhes permitiam entrar em contacto com a força que representava a própria vida, epifanias de uma Realidade Última.

Ligado aos milagres do seu cotidiano, esse homem, ao contemplaro céu, tinha revelações, pois ele lhe falava, acima de tudo, de transcendência, de eternidade, de infinito, de elevação, de renovação, de inacessibilidade. O alto logo se torna, naturalmente, um atributo do divino. As regiões celestes, as zonas siderais, adquirem um valor de perenidade, pertencendo, por direito, às forças e aos sobrenaturais seres que nelas vivem. A dimensão religiosa do céu também explicava para o homem primitivo, de um modo muito claro, que tanto a vida como a luz, vinham sempre das alturas.


O homem primitivo sempre viu também o céu como uma cúpula fixa, o firmamento, embora cenário de inúmeras mudanças. Quando estas mudanças escapavam da normalidade, isto é, de determinados ritmos conhecidos, era costume universal que o temor se apoderasse desse homem. Até que o fenômeno dos eclipses fosse conhecido, a “morte” da Lua ou do Sol provocavam grandes manifestações, alaridos, o chamado charivari (do grego, karebaria, barulheira, que pode dar dor de cabeça). O alarido tinha a finalidade, nos eclipses, de afastar as influências nefastas, no caso o monstro cosmológico que tentava devorar um dos luminares. O eclipse na visão do homem primitivo era sempre uma sugestão de ruptura de uma ordem, falha num encadeamento regular, do dia e da noite, da luz e das trevas. Esta ruptura punha não só em perigo a ordem cósmica como a vida social e a individual, pois todas estavam interligadas. Os cometas, por seu lado, eram “perigosos” por causa da irregularidade do seu movimento, trazendo a desordem para o céu. Até recentemente (séc. XVIII) cometas eram representados em gravuras populares em forma de espadas e estrelas cadentes como vigas em chamas.


As órbitas dos astros eram traçadas pelos seus deuses tutelares para que fossem enviados aos humanos, segundo a sua conduta, a chuva benéfica, as tempestades destrutivas, a brisa amena e suave, a seca mortífera, a advertência dos trovões ou a punição dos raios. Na mitologia grega, a primeira representação do céu tem em Urano (céu, em grego) a sua expressão maior. Urano personifica o céu enquanto elemento fecundador de Géia, a grande mãe-terra. Era imaginado como uma abóbada, um hemisfério, que cobria Géia por inteiro, esta concebida sob uma forma esférica e achatada. Mutilado e destronado, uma nova dinastia, chefiada por seu filho caçula, Cronos assumirá o poder, instaurando o reino dos titãs, seres ligados à vida material. O parricídio cometido por Cronos será punido pela revolta dos seus próprios filhos. Ao fim de uma guerra de dez anos, vencidos, os titãs serão encerrados no Tártaro, nas profundezas sinistras e tetenebrosas infernais. Zeus, o filho caçula de Cronos, assumirá então o poder, cabendo-lhe a supremacia absoluta do cosmos.

O nome de Zeus jamais foi usado pelos gregos para designar o céu. Ao seu nome se juntarão, isto sim, qualificativos e atributos sempre ligados à atividade celeste, ao movimento das nuvens, aos trovões, aos relâmpagos e aos raios. A figura de Zeus era a conclusão de um longo processo que fazia, desde a pré-história, o homem identificar as divindades supremas como divindades celestes.

Platão fala no “Timeu” que Deus distribuiu os astros pela abóbada celeste para que ela fosse um cosmos, isto é, uma ordem. Numa das obras atribuidas a Platão, o “Epinomis” (na realidade escrita por um colaborador seu, Philippe Oponte), os planetas receberam, pela primeira vez, o nome dos deuses gregos. Aos poucos, uma grande concepção astrológica do mundo se estabeleceu a partir deste texto: “a contemplação do céu é uma iniciação real” e “há inteligência nos astros” são frases nele encontradas.


Desde tempos muito recuados, o ser humano sempre procurou, através de teorias baseadas em analogias e correspondências, estabelecer uma relação entre os acontecimentos macrocósmicos e o mundo humano. O ponto de partida para o entendimento destas teorias esteve sempre na explicação de que a vida terrestre dependia do céu. Assim como as plantas, os mares, os animais e o mundo mineral dependiam do céu, o homem também sofria as influências provenientes do movimento dos astros e do calendário deles decorrente. Deu-se o nome de Astrologia ao estudo dessas influências, que sempre suscitaram grande interesse, apesar das objeções que contra ele se levantam em determinados períodos da história da humanidade.

O desejo de desvendar o mistério das leis cósmicas e da harmonia da vida terrestre segundo as estruturas do céu (constelações, planetas e estrelas, principalmente, devido aos seus movimentos e ritmos) levou praticamente todas as culturas a elaborar representações celestes que lhes parecessem significativas para explicar o destino do homem e a vida na terra, de um modo geral. As imagens criadas ao longo dos séculos, para os mais informados, continuam a parecer pertinentes até hoje, o que explica, sem dúvida, que a sua carga simbólica sobreviva num mundo dominado pelo realismo cientifico e pela técnica.

Ao lado das evidências celestes “maiores” (o Sol, a Lua e os planetas), o homem, aos poucos, foi aprendendo a se abrir para o céu noturno. Assim, tanto as grandes civilizações como as menores, nas várias latitudes e longitudes, foram aprendendo a agrupar as estrelas, nascendo assim a observação e o estudo das constelações. Para os povos antigos, as estrelas no céu noturno eram fontes de luz nas trevas, morada de divindades ou de heróis metamorfoseados em astros.

Os romanos, por exemplo, atrbuiram uma influência maléfica à estrela Sirius, chamada de Canícula, a estrela da constelação do Cão Maior. A ninfa Calisto e seu filho Arcas estão nos céus como as constelação da Grande e da Pequena Ursa. Na tradição judaico-cristã, por exemplo, cada estrela é tutelada por um anjo, todas obedientes à vontade de Deus. Certos personagens históricos, como os imperadores Constantino, Carlos Magno e Frederico, o Grande, sempre afirmaram que quando do seu nascimento estava presente nos céus uma estrela que guiou os seus destinos. Esta afirmação tem muito a ver com a chamada estrela de Belém, sempre ligada a fenômenos miraculosos, algo talvez mais psicológico que físico. Ou, para outros, uma concessão da Igreja católica então nascente ao pensamento astrológico, ao tempo muito poderoso. No mundo judaico-cristão, há uma referência (Apocalipse) a um astro de fogo, chamado Absintho, que cairá dos céus para anunciar o fim do mundo e o julgamento final.

Em cada área geográfica da terra, umas constelações, suficientemente altas, acima do horizonte, aparecem noite após noite, sempre iguais. Sem jamais se porem ou nascerem, elas giram em torno de um ponto fixo no céu. Esse ponto fixo foi chamado de estrela Polar. Essa estrela, na simbólica universal, tem um papel de enorme destaque, é um ponto, um centro absoluto em torno do qual o universo gira eternamente. Todo o céu gira em torno deste ponto fixo, que lembra um motor imóvel de Aristóteles. A estrela Polar é o ponto em relação do qual se define a posição das demais estrelas e a de todos aqueles que se movimentam na terra, navegadores, viajantes, exploradores, nômades, aventureiros. Em muitas religiões primitivas é nela que tem o seu trono o Ser Divino a que são atribuídas a criação, a manutenção e a destruição universais.

A estrela Polar aponta sempre para o norte para onde caminha o nosso planeta, o sistema solar, a galáxia, o universo como um todo. Umbigo do mundo, a estrela Polar indica a morada do Ser Supremo uraniano em todas as tradições. É por essa razão que os povos da Ásia sempre levantaram os altares de seus templos em direçao do norte, como está, aliás, na própria Bíblia: "Eu me sentarei sobre a montanha onde têm assento os deuses, nas regiões longinquas do setentrião." Na índia, por exemplo, o antigo casamento védico era celebrado com referências à estrela polar.


O agrupamento das estrelas em constelações é arbitrário só aparentemente. Cada civilização, cada tradição, cada tribo faz o seu recorte, dando-lhe um nome, animando-o e dramatizando-o segundo os seus mitos. É neste particular que as semelhanças podem se revelar espantosas, indicando que por trás das aparentes dissemelhanças encontramos uma linguagem comum, através da qual a variedade das percepções pode ser expressa. A partir do ano de 1922, a União Astronômica Internacional procurou delimitar as configurações, chegando seu número a quase 90, designadas por nomes latinos.

Os nomes dos estudiosos do céu, que nos chegam da antiguidade são muitos. Até onde as investigações puderam nos levar, tudo indica que com Berose a antiga astrologia se tornou uma técnica oculta. Ele era caldeu (sinônimo de astrólogo), vinha da Mesopotâmia e era sacerdote de Marduk. Sua teoria sobre os ciclos atravessaram os séculos. A astrologia tornou-se popular no século II aC, em particular graças aos sábios egípcios. Os mais célebres astrólogos desse tempo foram Hephaistos de Tebas (380 aC), Paulo de Alexandria (378 aC). Os eruditos belgas F.Boll e F.Cumont (O Egito dos astrólogos) conseguiram reunir muitos textos gregos dessa época.

As constelações que estudaremos no transcorrer deste ciclo (Mitologias do Céu) são aquelas que na antiguidade se fixaram principalmente através das obras de Claudio Ptolomeu. Astronômo, matemático, geográfo e sobretudo astrólogo, Ptolomeu (90 -168 dC) foi um dos maiores estudiosos do céu em todos os tempos, sendo o autor de um sistema geocêntrico que prevaleceu (e que continua a prevalever para os astrólogos) até o século XVI. Suas observações foram feitas entre 127 e 141 dC em Alexandria. De todas as suas obras, a mais importante é o Almagesto, uma exposiçao completa de seu sistema astronômico.São reunidos neste trabalho todas as teorias existentes sobre o assunto até então, principalmente a de Hiparco, bem como conhecimentos trigonométricos da época. Ptolomeu descreveu os movimentos do Sol e da Lua, além dos planetários, visíveis até Saturno. Sua obra máxima para a Astrologia é o Tetrabiblos, trabalho canônico. Construiu instrumentos astronômicos, dentre eles o astrolábio, que leva o seu nome, e globos terrestres.