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domingo, 4 de dezembro de 2016

URSA MAJOR






URSA MAJOR - As constelações circumpolares, desde a pré-história, sempre estiveram ligadas ao destino da humanidade, especialmente as duas Ursas, por sua estreita ligação, nas mais variadas tradições, com os mitos de gênese, de criação, que tratam das origens do ser humano. O urso, lembremos, é o animal das cavernas, das grutas, lugar de nascimento, de características lunares. No zodíaco, o urso e a caverna aparecem sempre relacionados com o signo de Câncer, cujo universo simbólico, na mitologia grega, alude à deusa Ártemis, nome que, numa de suas etimológicas admitidas, aponta para a palavra grega urso (arktos). Miticamente, é nas cavernas que tradicionalmente nascem os deuses e os heróis, lugar de permanência também escolhido por aqueles que buscam novas formas de renascimento, profetas, ascetas ou eremitas. Arquétipo matricial por excelência, a caverna sempre apareceu nas histórias que nos falam sobre as origens dos seres humanos em termos de nascimento, renascimento ou de iniciação.

Como tudo o que é lunar, a caverna tem ligação com a vida
   CAVERNA   
instintiva, não reflexiva. Neste sentido, ela se revela como símbolo dos aspectos perigosos da vida subconsciente. É por isso que desde a pré-história as cavernas são tidas como passagens que dão acesso ao mundo subterrâneo, ao Outro Lado, ao mundo infernal e, num outro plano, à vida subconsciente. Usadas como lugar de culto desde os mais recuados tempos da história do homem, eram ornadas com pinturas e com desenhos, já no período glacial (período em que as geleiras cobriam vastas regiões da Terra), sendo consideradas como extensões do Outro Lado na superfície da Terra. 

É neste panorama que o urso aparece como símbolo da vida instintiva, que tem relação analógica com a fase inicial da evolução do homem. Como tal, é o urso uma representação das forças elementares suscetíveis de uma evolução progressiva (a possibilidade de sua  domesticação), evolução que pode, muitas vezes, porém, oferecer riscos de perigosas regressões, quando, abandonando a sua aparente docilidade, ele se torna violento, agressivo, descontrolado, brutal, como força primitiva. 



CEPHEUS  E  CASSIOPEIA  AGRADECEM  A  PERSEU  O  SALVAMENTO  DE  ANDRÔMEDA
PIERRE   MIGNARD , 1679

Assim, no cenário circumpolar, enquanto as constelações das Ursas nos falam simbolicamente de origens, de vida instintiva, de evolução ou de regressão, Cepheus, como vimos, representa, no seu todo, os aspectos fixos do mundo masculino, nos seus vários desdobramentos, desde reis, governantes e patriarcas e todas as demais figuras da autoridade, nos seus diversos níveis, chefes, patrões, protetores etc. Já Cassiopeia nos fala tradicionalmente do mundo feminino segundo uma linhagem das grandes mães que têm dificuldade de conviver com as forças do patriarcado. A imagem de Cassiopeia, aliás, nos lembra num certo sentido a figura da deusa anatoliana Cibele como fonte primordial de vida, de fecundidade. Não é por outra razão que esta deusa da Ásia Menor tem o seu carro puxado por leões, símbolo evidente do seu poder sobre a energia vital, enquanto ela o comanda e dirige.

Constelação boreal circumpolar notada desde tempos imemoriais, a Ursa Major sempre foi revestida de uma grande aura de sacralidade, considerada como uma espécie de ponto central do universo. Simbolicamente tem a ver com a ideia de omphalos (umbigo), lugar de nascimento, origem. Essa constelação sempre foi considerada como o “umbigo do céu”, todas as demais estrelas e constelações fazendo um círculo à sua volta. Na terra, correspondiam a esse centro as montanhas sagradas, como o monte Meru, na Índia. Noutras vezes, esse centro era representado por um canal (fechado por uma pedra) que ligava a superfície da terra às
DELFOS
suas profundezas. Um exemplo deste omphalos está no Oráculo de Delphos, que, antes da conquista do deus Apolo, tinha como titulares Geia, a Mãe-Terra, e Têmis, a deusa Justiça Divina. Uma pedra semelhante ao omphalos de Delfos também era encontrada no Forum romano com o nome de umbilicus urbis Romae. O rochedo do Templo de Jerusalém era também considerado como um umbigo, lugar da criação do mundo e como o centro do círculo terrestre. No santuário de Elêusis, na Grécia, a mesma ideia: um centro, um omphalos, em homenagem à deusa Demeter. Na Índia, é a partir do umbigo do deus Vishnu, que flutuava à superfície das águas primordiais, que a cosmogonia hinduísta se faz, abrindo-se através de um lótus. 

Animal sagrado, o urso ocupa um lugar de menos destaque, se o relacionamos com o cavalo e o touro, nas pinturas rupestres encontradas nas cavernas, em várias sítios arqueológicos do mundo todo. Sabe-se, porém, que durante muitos milênios, bem antes da valorização religiosa do cavalo e do touro, o urso ocupou uma posição de destaque, sendo o seu sacrifício, provavelmente, a primeira ação cultual da humanidade. O homem Neandertal, no período paleolítico (70.000 anos aC), já oferecia a um ser superior, supremo, o crânio e os ossos de ursos.

O homem Neandertal era um estranho ser, de estatura pequena, cabeça bastante desenvolvida, maçãs do rosto salientes, sobrancelhas espessas, pernas fortíssimas, que percorria vales e florestas da Europa e outras regiões da Terra. Quase não tinha queixo; as cavidades ósseas do globo ocular eram bastante acentuadas. O seu esqueleto era pesado e grosseiro. Sua força física era descomunal. Esse homem procurou cavernas e grutas para se abrigar das intempéries e também morar. Durante milênios, dividiu com o urso a posse desses lugares. Toda a cultura europeia desse período estava ligada ao urso. Para caçá-lo, era usado o machado de pedra; para abrir seu corpo e aproveitar sua pele, desenvolveu-se uma técnica para trabalhar o sílex e o quartzo; foram criadas, nas oficinas líticas, facas, raspadores e as primeiras lanças. Para o homem Neandertal, o urso, pesado e relativamente inofensivo, era um comedor de grama que passava um terço de sua vida em sono hibernal; era uma espécie de despensa ambulante: a carne e a gordura eram petiscos, a pele protegia contra a chuva e o frio; os ossos forneciam material para a confecção de armas e utensílios.

O urso era encontrado nas Américas, na Europa e na Ásia, habitando algumas espécies as regiões polares. Variava de tamanho, chegando a medir os maiores (os marrons e os polares) cerca de
URSO
2,80 m. e a pesar 700 kg. A sua audição e o seu olfato são bem desenvolvidos, mas a visão não é boa. Os olhos, localizados na parte frontal da face, não lhe dão a mesma quantidade de informações que os obtidos por outros animais nos quais  são colocados lateralmente. Seu andar é lento e desajeitado, ondulante, mas, dentre os animais, é o único, como o homem, que coloca inteiramente a sola das patas no chão. Se treinado, pode fazer “gracinhas” como andar ereto, dar cambalhotas e andar de bicicleta. 

No inverno, o urso busca abrigos para a sua hibernação, que dura cerca de quatro meses. Durante esse período, acorda várias vezes, saindo da toca para satisfazer as suas necessidades fisiológicas. Na primavera, acorda magro e faminto. Come então com grande voracidade, desde pequenos animais, roedores, insetos, aves, peixes, musgos, frutos, folhas e raízes. Para obter o mel, que consome com grande prazer, enfrenta qualquer enxame de abelhas. A ursa é muito dedicada e paciente com os filhotes, que mamam e brincam à vontade, com grande liberdade. Se faminto, ferido, assustado ou defendendo os filhotes, a ursa ataca qualquer animal ou humanos, estes os seus principais inimigos. O urso é conhecido pelo seu temível “abraço”, que pode ser mortal.

Em numerosas tradições, a ursa aparece associada à Grande Mãe como divindade no seu duplo aspecto, doadora e receptora da vida, nesta última função presentes os aspectos destrutivos. A dedicação maternal das ursas fez com que a Psicanálise visse nelas um símbolo da vida inconsciente, lunar, de natureza ctônica, inclusive nos seus aspectos devoradores. A cultura ocidental transformou o urso num precioso símbolo. Dar ursinhos de pelúcia a crianças, a um filho, mais especialmente, é um ato através do qual a mãe lhe oferece uma representação de si mesma, que pode ser usada, como calor, proteção, segurança, aconchego. Os franceses têm no seu léxico a palavra nounours (de un ours, um urso, por aglutinação), que, na linguagem infantil, designa o urso de pelúcia. Próxima a esta palavra, encontramos nounou, palavra retirada de nourrice, do verbo nourrir (alimentar), ama de crianças, também na linguagem infantil. 

No mundo grego, participavam do culto da deusa Ártemis (de
ÁRTEMIS
arktos, urso, ursa) meninas e adolescentes, chamadas então de “ursinhas”. Durante o período de sua vida consagrada à deusa (infância e adolescência), as “ursinhas” se comportavam como meninos, eram rebeldes, não se cuidavam como se poderia esperar do mundo feminino, falavam de modo mais direto, até rispidamente. A finalidade dessa pedagogia era a de fazer com que as meninas e adolescentes aprendessem a conviver melhor com a sua agressividade, sem se precipitar numa sexualidade prematura, ajustando melhor o seu lado feminino com o seu animus.   

A projeção da ursa na abóbada celeste levou a humanidade, desde tempos imemoriais, a dar o nome de Ursa Maior e Ursa Menor a duas constelações do hemisfério norte, formada cada uma delas por sete estrelas. No oriente, na China e na Índia, a constelação da Ursa
PLÊIADES
Maior simboliza a casa dos imortais e do conhecimento arquetípico. Segundo a tradição hindu, a Ursa Maior (Saptasiksha) representa a sabedoria porque é a morada dos sete sábios (rishis), identificados com as suas sete estrelas, que receberam a tradição védica e a transmitiram para a humanidade. As esposas dos sete rishis estão nas sete estrelas das Plêiades, grupo de estrelas ligado à constelação zodiacal de Touro. Para o Taoísmo, a Grande Ursa é o trono celestial da Grande Mãe, rainha do céu. Os chineses, ao que parece, foram os primeiros a descobrir que a posição da cauda dessa constelação indicava as diferentes estações do ano. 



AURORA  ( GUIDO  RENI , 1613 )


Os celtas dão o nome de O Carro de Arthur à Grande Ursa seguindo uma outra tradição consagrada em antigas civilizações que fazem desse meio de locomoção e transporte um atributo de divindades e de heróis solarizados (Hélio, Apolo, Zeus, Thor etc.) O barulho que um carro produzia nos seus trajetos sobre superfícies irregulares lembrava o ruído de trovões, sempre um modo de falar das divindades. O percurso do Sol pela eclíptica (o trajeto do carro do deus Hélio pelas doze constelações zodiacais) e a passagem bíblica que narra como um carro solar, puxado por cavalos de fogo, levou o profeta Elias para os céus são exemplos dessas expressões simbólicas. Na visão do profeta Ezequiel, por exemplo, os movimentos circulares das rodas dos carros equivalem a revelações divinas (em hebraico, roda de carro, galgal, é palavra que designa revelação). Lembremos que Ticiano, no Renascimento italiano, pintou o carro triunfante de Cristo puxado por quatro criaturas que representam os quatro evangelistas (a águia, o touro, o leão e um homem com asas)  



REI   ARTUR  ( TAPEÇARIA  SEC. XVI )

Historicamente, a imagem de Arthur é inspirada num rei que, por volta do séc. VI, chefiou a resistência contra a conquista da Grã
Bretanha pelos anglos e saxões. Sua história, passada de geração em geração, mitificada, foi registrada no séc. XII por Geoffroi de Monmouth (Historia Regnum Britanniae). Miticamente, Arthur é soberano dos cavaleiros da Távola Redonda, filho adulterino de Uther Pendragon e da bela Ygerne, por ele seduzida com o auxílio de Merlin, o mago, como Zeus o fizera, no mito grego, para manter relações com a princesa Alcmena (nascimento de Hércules). Criado longe da corte, mas protegido por Merlin, Arthur chegou ao trono num cenário iniciático e de reconhecimento de seu poder quando arranca de um rochedo a espada Excalibur, forjada em Avalon (país das maçãs, o Outro Lado), para onde ele misteriosamente se retirou. Arthur vive em Avalon “adormecido”, não morto. A figura de Arthur cataliza todas as aspirações políticas de pequenas nações celtas que durante a Idade Média esperavam pela sua volta para libertá-las da dominação estrangeira. 

Etimologicamente, o nome Arthur é derivado de artoris, urso, na antiga língua bretã. As ligações desta história com a caverna e o urso são evidentes. Suas conotações solares são muitas, o que nos permite ver no rei celta um símbolo de um eu que virá (passagem de Câncer para Leão) pela conquista de uma luz própria, através da metamorfose do princípio animal, instintivo, em força luminosa dominada e controlada. Retornar à caverna é, em sentido oposto, voltar ao seio maternal, negação do nascimento, mergulho na obscuridade do indefinido.   



JÚPITER   E   CALISTO  ( FRANÇOIS  BOUCHER )

O mito grego que explica a origem da Grande Ursa é o de Calisto (a belíssima, em grego), uma ninfa oréada. Tendo optado pela virgindade, uniu-se ao cortejo de Ártemis, passando a viver nas montanhas. Zeus, notando a sua grande beleza, a procurou sexualmente sob falsa aparência. Certo dia, banhando-se com outras companheiras, Ártemis percebeu a sua gravidez, transformando-a imediatamente numa ursa. 

HERMES   E   MAIA
Arcas acabou nascendo da ursa, sendo recolhido por Zeus e entregue a Maia, mãe do deus Hermes. Pelo lado materno, Arcas era neto de Licaon, que reinava na região, mais tarde chamada de Arcádia. O avô, com quem o menino passara a viver, resolveu certa vez submeter as divindades a uma prova a fim de se certificar de sua tão proclamada onisciência. Arcas foi servido como uma iguaria num banquete que Licaon ofereceu aos senhores do Olimpo. Zeus, logo, tudo percebeu, evidentemente. Destruiu o palácio de Licaon e o transformou em lobo. O menino foi ressuscitado. Na adolescência, Arcas já era famoso como um grande caçador. Certo dia, em plena floresta, encontrou uma ursa enorme, a sua própria mãe, que dele fugiu, refugiando-se num templo de Zeus Lício. O jovem caçador, apesar das proibições, penetrou no recinto sagrado para matar o animal. Zeus, que do alto tudo via, transformou a ursa Calisto na constelação da Ursa Maior e Arcas na estrela Arcturus, alfa de Bootes, "o guardião da Ursa Maior”. Lembremos ainda que as constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor davam nome na antiguidade romana ao setentrião, o polo norte, formado pelas duas Ursas, com sete (septem) estrelas cada uma, numa disposição que lembrava bois de tração (trio, trionis) puxando uma carroça.

Em mitos asiáticos e americanos, o urso é considerado um ser semelhante ao humano, capaz de se unir a mulheres e dar nascimento a pequenos seres humanos, que estão na origem de
RUÍNAS  TEMPLO  DE  ÁRTEMIS
EM  BRAURON
muitas histórias sobre o “homem selvagem”, figura importante no mundo dos símbolos, considerado como encarnação das forças brutas da natureza antes do homem alcançar a vida civilizada. Fazem parte deste grupo, seres como os sátiros, os silenos, os faunos, os “hirsutos”, os licantropos e outras figuras que aparecem em muitas tradições. A própria deusa Ártemis era representada muitas vezes com um urso (Ártemis Brauronia), chamando-se suas sacerdotisas de “ursinhas”, como já se disse.

ODIN
Os nórdicos ligam a constelação da Ursa Maior a Odin, representado muitas vezes sob a forma de um urso (Bjorn). Muitos guerreiros do deus Odin vestiam-se com peles de urso e apresentavam um comportamento alucinado, entre o humano e o animal,  causado provavelmente pelo consumo de alguma droga enteógena. Entre os celtas, a deusa Artio, deusa da caça, tinha o urso como um de seus atributos.  Segundo os estudos do grande historiador francês das religiões, Georges Dumézil (1898-1988), especialista nas mitologias indo-europeias, o urso e o javali
GEORGES DUMÉZIL
formavam um par de opostos, eram complementares. O primeiro (flaith) era um emblema da realeza e da classe guerreira, enquanto o segundo (druid) representava a classe sacerdotal. É só neste sentido que poderemos compreender a grande influência do urso no mundo celta, na sua função real e militar, alinhado com as divindades femininas. Isto nos permite compreender que
SANTA   BRÍGIDA
a soberania nesse mundo dependia em grande parte da Grande-Mãe, ficando sob seus auspícios as funções bélicas. Esta Grande-Mãe era a deusa Brigit, na origem uma deusa tanto do fogo e da lareira como da poesia. A deusa Brigit acabou por se transformar, quando da cristianização do mundo celta, em Santa Brígida, entre os sécs. V e VI. Padroeira da Irlanda, é conhecida como a “Maria dos celtas”. 

O aspecto feminino do urso, sempre associado à Lua, é muito
ALQUIMIA
destacado entre os povos da Sibéria e os indígenas de muitas regiões do continente americano, ao norte. Analogicamente, quando nos voltamos para a Alquimia, podemos constatar que o urso escuro é muitas vezes usado para simbolizar os estados iniciais da Grande Obra, correspondendo à prima matéria, o que tem a ver com aquilo que a Astrologia aponta com relação ao signo de Câncer e à quarta casa. 

Outra analogia entre o urso e o ser humano encontras-se no fato de o urso ser um dos poucos animais que pode apresentar uma postura ereta, o que o faz ser considerado em muitas tradições como o “Grande Pai”, “O Velho”, “O Grande Tio” pelos povos do norte da Ásia. Além do que já se disse sobre o urso na China, lembremos que a constelação da Grande Ursa lá aparece sempre associada à estrela Polar, o eixo do timão pelo qual o Grande Carro é conduzido. Para os chineses, a estrela Polar, centro imóvel do universo por milênios, é o Um Supremo e Primordial, eixo do mundo. A Grande Ursa que gira em torno desse centro divide o espaço e o tempo segundo as suas sequências rítmicas. 


A   CASA   DO   CALENDÁRIO

Na terra, o que corresponde a este centro macrocósmico, como centro microcósmico, é o trono do imperador, em torno do qual tudo deve girar e se ordenar. Este centro microcósmico chama-se Ming Tang, a “Casa do Calendário”, orientado para a Grande Ursa, cujas doze portas correspondem  aos doze meses do ano e aos doze signos zodiacais. Doze salas do palácio que o imperador deve ocupar conforme o Sol caminhava pela eclíptica. 

Entre os hindus, além da ligação da Ursa Maior com os sete Rishis,
GANGA
temos duas outras aproximações a considerar, ambas ligadas à origem do rio Ganges. Como sabemos, este rio é o mais sagrado da Índia. Segundo uma versão, o rio, sob o nome de Ganga, representado por uma deusa, teria sido formado por sete rios enviados diretamente por Brahma, a partir das sete estrelas da Ursa Maior. A descida de Ganga à Terra teria causado uma grande catástrofe, mesmo a sua destruição, se não fosse Shiva, que suportou o choque das águas na sua cabeça, recolhendo-as na sua cabeleira, de onde, então, puderam descer e formar o seu leito. É por isso que o o rio Ganges é chamado de Khapaga, “o que flui do céu” e Mandakini, “o que flui gentilmente”.

A Idade Média cristã associa a constelação da Ursa Maior a Santa Ursulina. A história nos informa que Ursulina era filha de um rei da
SANTA  URSULINA
Bretanha, muito cristão. A jovem era bem conhecida por sua honestidade, por seus bons costumes, por sua sabedoria e, sobretudo, pela sua beleza. Um poderoso rei da Inglaterra, que subjugara muitas nações, que soubera da fama e da beleza da jovem, a escolheu para esposa de seu filho. Os emissários do rei inglês prometeram ao pai de Ursulina muitas recompensas se o casamento fosse realizado. Indignado mas muito preocupado diante da proposta (o reino inglês àquela altura era um dos mais poderosos do mundo), não queria o rei bretão dar a sua filha, cristã fervorosa, a uma família que era adoradora de ídolos, como a do rei inglês. Ursulina, compreendendo a angústia do pai, propôs que ele aceitasse o pedido que lhe era feito pelo rei inglês. A jovem embarcou acompanhada por onze virgens. 

A história da jovem a partir deste ponto é confusa. Ao que parece, ela e as suas companheiras fugiram, evitando assim Ursulina o casamento indesejado. Indo em direção de Roma, acompanhadas por religiosos, teriam sido massacradas pelos hunos em Colônia. A mais antiga referência a Ursulina foi encontrada numa inscrição em
SANTA   ÂNGELA
pedra, nessa cidade, num local onde teria sido erguida uma capela ou pequena igreja, como memorial, para marcar o local do martírio. A inscrição é datada do final do século IV. Durante vários séculos a história de Ursulina foi esquecida. No século XVI (1506) foi fundada uma ordem religiosa, que tomou o nome de Ursulina, voltada para a educação feminina. Ângela, a fundadora, e suas companheiras eram em número de 28, um número lunar fechado. Pelos rituais  praticados, pelas cerimônias noturnas e por outras  demonstrações, a ordem parecia mais seguir a tradição grega dos cultos da deusa Ártemis do que a católica. Foi por essa razão que o papa Calixtus, ao se referir à ordem das Ursulinas, a chamou de “um viveiro de feiticeiras”. A fundadora da ordem das ursulinas, Ângela de Bréscia, era italiana. Suas propostas, para o tempo, eram muito avançadas, já que o ensino das jovens era dado nas suas próprias casas. A concepção do currículo era também muito flexível e inovador, o que fez de Ângela de Bréscia uma espécie de Safo. Tudo isto retardou a sua canonização, ocorrida somente em 1807.

Na simbólica do mundo medieval, os ursinhos representam em muitas histórias o cristão ainda não formado. É somente com as lambidas da mãe, isto é, Santa Madre Igreja, que eles conseguem tomar o caminho certo, aprumando-se. Da mesma forma, a
SÃO   COLUMBANO
hibernação dos ursos, neste simbolismo, é entendida como o período da velhice que precede a ressurreição. Lembremos que muitos santos da Igreja católica têm a sua vida ligada aos ursos, dois especialmente, São Gall e São Columbano. O primeiro, monge irlandês do século VII, por ter tirado um espinho da pata de um urso, foi acompanhado fielmente pelo animal durante muito tempo. O outro, também monge irlandês, da mesma época, veio com o primeiro para o continente europeu, onde fundou três centros monásticos, na região dos Vosges. Seu símbolo era o urso, baseando-se sua  disciplina no amor e na severidade das ursas com relação aos seus filhos. Por essa razão, envolveu-se Columbano em ásperas controvérsias com os poderosos do tempo, reis e papas. Seus métodos prevaleceram até serem substituídos pelas regras mais brandas de São Bento, o patriarca dos monges ocidentais. 

Desde a época de Carlos Magno, a Igreja católica empreendeu uma dura e violenta campanha contra os cultos do mundo romano ou celta, ainda muito presentes no século VIII: erradicar os cultos a animais, sobretudo o consagrado à majestade do urso, proibindo-se inclusive o consumo da carne do animal. É nesse período também
CANDELARUM
que a perseguição aos que se entregavam aos ritos catárticos de fertilidade, como as lupercálias, ganha muita força. A Igreja incentivou com muito empenho a matança dos ursos e dos lobos em todo o mundo cristão. Mas exterminar os animais não bastava. Era preciso negá-los, rebaixá-los, humilhá-los,  sempre, no fundo, uma satanização da mulher, sem dúvida. O tradicional calendário das festas pagãs foi sendo aos poucos cristianizado. O dia do Urso se transformou na Festa Candelarum, a Festa das Candeias ou dos Círios (Purificação da Virgem Maria). Foi a partir da Idade Média que os ursos passaram a ser exibidos nas feiras e festas do campo, acorrentados e com focinheiras. Inventaram-se lendas edificantes sobre santos que passaram a se servir do animal como besta de carga, propagando-se o “milagre” da sua domesticação.

Foi também a partir desse período que o urso começou a ser usado pela Igreja católica para simbolizar o Mal. Dos sete pecados capitais, cinco eram a ele atribuídos, a luxúria, a cólera, a inveja, a preguiça e a gula. O animal deixou de ser o terror das florestas para
SANTO   AGOSTINHO
se tornar um personagem grandão, balofo, covarde, ignorante, no qual não se podia confiar. Sujo, soturno, feio, mau, cruel, o urso se tornou um ser do Mal. Lembremos que Santo Agostinho já havia expresso esse ponto de vista, afirmando que o urso era o Diabo. Aos poucos, a Europa substituiu o urso pelo leão, rei do bestiário oriental, vedete solar em todas as tradições. Exterminado, ridicularizado, transformado em símbolo da estupidez e da ingenuidade, o urso (o aspecto maternal, a ursa), acabou se “vingando” como arquétipo ao projetar sua sombra sobre o imaginário coletivo, sob a forma de anjo da guarda das crianças, o ursinho de pelúcia, que velava sobre o sono delas. Agarradas ao seu ursinho, um ersatz da figura materna, buscam nele segurança e se aquecem com ele as crianças como o homem da caverna se protegia do frio coberto por suas peles de urso.

Por fim, é bom lembrar que na Psicologia profunda, no capítulo dos sonhos, o urso representa um aspecto perigoso do inconsciente, como um símbolo que aponta tanto para a regressão como para a violência e para a vida instintiva. São as características do próprio animal que nos remetem a esse aspecto perigoso. Pela sua cor escura, o urso lembra a terra, domínio terrestre e feminino, sua cor é a das guarnições protetoras, das forrações acolchoadas, que aquecem, que protegem da chuva e do frio. Lugar fechado, seguro, morno, quase sem luz, calmo, dormitivo, onde os ruídos de fora não entram, as cavernas sempre foram vistas como um lugar feminino, maternal, lunar. Além do mais, há que lembrar, para completar o quadro, como já se mencionou antes, que a educação que as ursas costumam dar aos filhos, sempre muito atentas, ressalta sempre o aspecto feminino e materno do símbolo. Aliás, segundo o simbolismo do mundo cristão medieval, como está acima também, os ursinhos que a ursa põe no mundo não estão ainda formados e é somente pelos golpes das lambidas maternas que eles tomarão forma definitiva. 

A   REPÚBLICA  
O simbolismo da caverna, lembremos, foi usado por Platão (A República, livro VII) para nos falar que este mundo é como uma caverna, um lugar de ignorância, de sofrimento e de punição onde as almas humanas vinham viver, aprisionadas e acorrentadas pelos deuses. As analogias astrológicas são inevitáveis quando  nos aproximamos destas ideias de Platão: encerrado na caverna, o ser humano não pode perceber senão o reflexo de uma realidade maior, mais elevada, da qual só poderá se aproximar se dela sair para contemplar a verdade à luz do Sol. Na caverna, o ser humano só percebe a luz indiretamente, vinda de fora, uma luz que projeta sombras nas suas paredes, sombras que não passam de reflexos, que ele erroneamente pode aceitar como verdadeiros (a educação lunar). Este simbolismo em Platão apresenta tanto uma dimensão cósmica como ética ao ser indicado por ele o caminho que a alma deve tomar para encontrar o bem e a verdade, o Sol. Na caverna, o ser humano fica prisioneiro só de aparências, de um teatro de reflexos, aceitando como verdades aquilo que não passa de uma ilusão. Não podemos esquecer, aliás, que o disco aparente da Lua tem dimensões semelhantes às do disco solar e que ele define, de modo muito significativo, tanto quanto como o Sol na sua função, no contexto da configuração astral de um nascimento, a alma animal do ser humano, lugar onde a vida infantil domina, centro dos archai, do que nele é vegetativo, primitivo, emocional e artístico.

A Psicologia Profunda (Jung) foi buscar na Alquimia a ideia do
JUNG
urso como nigredo, ou seja, de indiferenciação, de algo anterior à manifestação, informal, algo que precede mesmo a formação do inconsciente. O negro é aqui tomado sob seu aspecto frio, negativo, associado às trevas primordiais, que o urso e a caverna simbolizam. Estes conceitos ficam certamente mais claros se os aproximamos dos significados do signo de Câncer e da quarta casa astrológica. A nigredo, neste sentido, é uma volta, uma regressão, o resultado de uma operação alquímica (calcinatio, coagulatio, sublimatio ou solutio) que faz anteceder à própria existência (o estar fora). O negro exprime assim a passividade absoluta, lembrando a obscuridade das origens. Salientemos, entretanto, que se o negro pode ser a imagem da morte, da terra, da sepultura, da famosa travessia noturna dos místicos, ele pode ser também promessa de uma vida renovada, assim como a noite traz a promessa da aurora e o inverno a da primavera.

A Igreja católica associou o urso ao Mal, com aspectos obscuros e demoníacos, com base em sua agressividade. Nas Escrituras, o urso
ELIAS
é visto como um ser violento e cruel. Segundo a Bíblia, duas ursas foram responsáveis pelo massacre de quarenta e duas crianças da aldeia de Bethel, como punição por zombar da calvície do profeta Elias. O profeta Oseias nos fala das palavras de Deus quando da sua pretensão de destruir os idólatras, rasgaria o coração deles com a ferocidade de uma ursa quando lhe tiram os filhos.

Desde a pré-história, o que fica do urso quando nos aproximamos da sua maciça figura, é que os homens do paleolítico o caçaram, o temeram e lhe renderam um culto que tanto o considerava como um animal invencível, a encarnação da força bruta, como uma espécie de “criatura intermediária” entre o mundo das bestas e dos humanos. Na Europa, onde não havia leões, era o urso o rei das florestas, ocupando um grande papel nos mitos, nas lendas e no folclore.  A partir da sua raiz indo-europeia, orks (rkshah, sânscrito; arktos, grego; ursus, latim), saíram diversos patronímicos, Orson,
BERNA
Ursula, Arthur (o rei-urso) etc. De seus apelidos, como o de “bruno” (escuro, pardo, sombrio, melancólico, infeliz), vieram nomes como Alberto e cores foram dadas a cidades como Berna (a cidade do urso) e Berlin (o radical indo-europeu bher está por trás de bruno; ursa em alemão é Bärin, nome da Ursa Maior). 

A Ursa Maior estende-se de 10º de Câncer a 27º de Virgem. Ptolomeu viu nesta constelação influências marcianas que podem se sobressair através de uma natureza paciente, controlada, suspicaz, influências que podem trazer, contudo, assomos de raiva, revanchismo, inclinação para a desforra. Evidentemente, o grande mestre fixou-se para definir estas influências na figura do urso como um símbolo da ameaça da vida instintiva, pronta a aflorar,
CLARICE   ORSINI
( TAPEÇARIA )
escondida por uma aparência e por um comportamento que tornam o animal uma espécie de ancestral do ser humano. Segundo este entendimento, aliás, muitas famílias europeias, por exemplo, se consideram descendentes de ursos. Uma delas, muito importante e famosa na Itália do séc. XIII, era a dos Orsinis, de onde saíram três papas. Possuíam no seu brasão de armas a figura de um urso, sendo seus membros designados como “os filhos do urso”. Segundo a lenda propagada, a origem da família estava ligada à união de uma mulher com um urso. 

No Tarot, esta constelação aparece associada ao sétimo arcano, A
A  CARRUAGEM
Carruagem, cuja interpretação envolve o número sete e a conquista de um eu integral, que deve transcender as fantasias egoicas. Astrologicamente, esta conquista só se dá pela entrada do Sol em Libra (sétimo signo), que pede uma “morte” consciente, o sacrifício do eu, para que seja possível, através do social, a entrada num caminho evolutivo em direção de Sagitário (conhecimento) e de Peixes (sabedoria). De outro modo: não basta a conquista de um eu. Temos, sim, que colocá-lo a serviço de algo maior que nós. O primeiro passo é dado em direção de Libra (social), que nos prepara para o ingresso no coletivo. De Libra em diante temos que ter o controle total do carro, do nosso eu. Este controle é simbolizado no arcano pela figura do rei (princípio diretivo da consciência), que conduz o carro sem segurar as rédeas. O arcano, por isso, significa vitória, domínio, realização, possibilidade de acesso a níveis superiores de existência. Se não tivermos pleno domínio do “carro”, a conquista de eu ficará limitada à valorização de aspectos externos, orgulho, vaidade, violência. A constelação da Ursa Maior cobre praticamente todo o segundo quadrante astrológico, dominado pela Lua,  quadrante onde se prepara o caminho evolutivo em direção dos outros dois, o social e o coletivo (humanidade).

As sete estrelas da Ursa Maior (latitude entre 33º-73ºN) são, por ordem de importância, Dubhe, alfa, a 14º 30´ de Leão, atualmente; Merak, Phachd, Megrez, Alioth, Mizar e Benetnasch. A única levada em consideração pela tradição astrológica é Dubhe, de natureza marcial, segundo Ptolomeu. Avaliando o que outros estudiosos disseram sobre ela, ao longo de séculos, e tendo em vista as observações ptolomaicas, podemos atribuir a Duhbe influências que concedam força, capacidade de sustentar, de resistir, menos
CIBELE
fisicamente e mais psiquicamente. Esta força tem características femininas, terrestres, lembrando Cibele, Isis, Kali, Afrodite, Ishtar e outras deusas-mães. Do ponto de vista da Psicologia Profunda como da Psicanálise, estas influências têm relação com as mães primordiais que, em todas as culturas, deram origem à vida. Arquétipos que acompanham o ser humano mesmo nas sociedades patriarcais, que tentaram sempre subjugá-las. Aparentemente “derrotadas”, submetidas, essas deusas (arquétipos), através de símbolos pelos quais aparecem ao longo dos séculos, vêm se vingando, principalmente a partir do final do século XVIII,  destruindo os modelos tradicionais do polo masculino.  




quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

MITOLOGIAS DO CÉU - O CÉU

Desde a aurora dos tempos, o homem sempre se sentiu atraído pelos fenômenos celestes e pelos seus reflexos na Terra, principalmente peIa alternância dos dias e das noites, pelas fases da Lua, pelo movimento dos astros, pela volta periódica das estações. O homem constatou no cosmos uma regularidade que não falha. Desde a pré-história, o estudo do céu provocou um movimento duplo: a busca de leis naturais, imutáveis, que em nenhum lugar como no céu aparecem de forma tão evidente, e a tendência de colocar nos céus seres sobrebaturais e todo poderosos. Entender o céu através de suas leis e de ver nele a morada de divindades e dos eleitos.



Foram constatados desde muito cedo na história do homem nexos, relações entre certos fenômenos celestes e terrestres, particularmente nas latitudes médias, entre o movimento das estações e o percurso do sol no círculo zodiacal e entre as fases da Lua e o movimento das marés. Ao lado dos fenômenos celestes que se repetiam periodicamente, ocorriam também acontecimentos excepcionais, espetaculares como eclipses do Sol e da Lua, movimento de cometas, estrelas cadentes, meteoritos. Além disso, havia também o giro circular dos planetas pela faixa zodiacal, sempre intrigante.


Os modelos terrestres de representação do espaço celeste sempre variaram muito de acordo com a visão de cada tradição; as imagens escolhidas para simbolizar o espaço celeste foram aparecendo: cúpula, cobertura, redoma, dossel, taça virada, tartaruga, uma espécie de oceano que uma forte pressão atmosférica impede de escorrer e sob a qual os astros deslizam como barcos num mar tranquilo. A tartaruga, por exemplo, é uma cosmografia viva devido à sua carapaça e à sua parte inferior, achatada, quadrada, uma imagem do ceu da terra. Por isso, em muitas culturas, principalmente no extremo-Oriente, a tartaruga é uma representação do cosmos.

A palavra céu vem do latim, “caelum”, onde tem o sentido de cobertura abobadada, arqueada. Na maior parte das línguas, é tanto região das nuvens e dos astros como morada dos deuses e repouso dos eleitos. Fisicamente, é o espaço onde se localizam as nuvens, uma espécie de envoltório limitado pelo horizonte, onde brilham os astros e luzem as estrelas, sempre um cenário de acontecimentos espantosos.

Conceitos de ordem meteorológica, teológica, astronômica, astrológica e mitológica sempre se misturaram a teorias diversas sobre a criação do mundo e o aparecimento do cosmos como ordenação. Em todas as tradições encontramos mitos sobre a unidade original entre o céu e a terra, seja na forma de confusão, caos, seja na forma de uma união entre uma entidade masculina, celeste, fecundante, e uma entidade feminina, terrestre, geradora, depois separados pela interposição do ar, tudo para lugar ao aparecimento do ser humano, os nascidos do "humus".

O espaço celeste sempre se revestiu de uma dimensão sagrada, sempre teve uma significação religiosa, lugar de hierofanias. Os antigos, quando contemplavam o céu, passavam sempre por uma experiência religiosa. A natureza, para esse homem, jamais foi considerada como simplesmente "natural". Ao contrário, sempre foi vista como um reflexo do céu. Os ritmos lunares, o ciclo das estações, o aparecimento e o desaparecimento do Sol a cada dia, por exemplo, adquiriam valores religiosos para a humanidade arcaica.

Já se disse que uma das principais diferenças que separam o homem das antigas culturas do homem moderno reside justamente na incapacidade que este último tem de viver a vida orgânica como um sacramento. Para o homem moderno, os atos de sua vida orgânica não passam de acontecimentos fisiológicos. Para os homens do mundo arcaico, ao contrário, esses atos eram sacramentos, ritos, cerimônias que lhes permitiam entrar em contacto com a força que representava a própria vida, epifanias de uma Realidade Última.

Ligado aos milagres do seu cotidiano, esse homem, ao contemplaro céu, tinha revelações, pois ele lhe falava, acima de tudo, de transcendência, de eternidade, de infinito, de elevação, de renovação, de inacessibilidade. O alto logo se torna, naturalmente, um atributo do divino. As regiões celestes, as zonas siderais, adquirem um valor de perenidade, pertencendo, por direito, às forças e aos sobrenaturais seres que nelas vivem. A dimensão religiosa do céu também explicava para o homem primitivo, de um modo muito claro, que tanto a vida como a luz, vinham sempre das alturas.


O homem primitivo sempre viu também o céu como uma cúpula fixa, o firmamento, embora cenário de inúmeras mudanças. Quando estas mudanças escapavam da normalidade, isto é, de determinados ritmos conhecidos, era costume universal que o temor se apoderasse desse homem. Até que o fenômeno dos eclipses fosse conhecido, a “morte” da Lua ou do Sol provocavam grandes manifestações, alaridos, o chamado charivari (do grego, karebaria, barulheira, que pode dar dor de cabeça). O alarido tinha a finalidade, nos eclipses, de afastar as influências nefastas, no caso o monstro cosmológico que tentava devorar um dos luminares. O eclipse na visão do homem primitivo era sempre uma sugestão de ruptura de uma ordem, falha num encadeamento regular, do dia e da noite, da luz e das trevas. Esta ruptura punha não só em perigo a ordem cósmica como a vida social e a individual, pois todas estavam interligadas. Os cometas, por seu lado, eram “perigosos” por causa da irregularidade do seu movimento, trazendo a desordem para o céu. Até recentemente (séc. XVIII) cometas eram representados em gravuras populares em forma de espadas e estrelas cadentes como vigas em chamas.


As órbitas dos astros eram traçadas pelos seus deuses tutelares para que fossem enviados aos humanos, segundo a sua conduta, a chuva benéfica, as tempestades destrutivas, a brisa amena e suave, a seca mortífera, a advertência dos trovões ou a punição dos raios. Na mitologia grega, a primeira representação do céu tem em Urano (céu, em grego) a sua expressão maior. Urano personifica o céu enquanto elemento fecundador de Géia, a grande mãe-terra. Era imaginado como uma abóbada, um hemisfério, que cobria Géia por inteiro, esta concebida sob uma forma esférica e achatada. Mutilado e destronado, uma nova dinastia, chefiada por seu filho caçula, Cronos assumirá o poder, instaurando o reino dos titãs, seres ligados à vida material. O parricídio cometido por Cronos será punido pela revolta dos seus próprios filhos. Ao fim de uma guerra de dez anos, vencidos, os titãs serão encerrados no Tártaro, nas profundezas sinistras e tetenebrosas infernais. Zeus, o filho caçula de Cronos, assumirá então o poder, cabendo-lhe a supremacia absoluta do cosmos.

O nome de Zeus jamais foi usado pelos gregos para designar o céu. Ao seu nome se juntarão, isto sim, qualificativos e atributos sempre ligados à atividade celeste, ao movimento das nuvens, aos trovões, aos relâmpagos e aos raios. A figura de Zeus era a conclusão de um longo processo que fazia, desde a pré-história, o homem identificar as divindades supremas como divindades celestes.

Platão fala no “Timeu” que Deus distribuiu os astros pela abóbada celeste para que ela fosse um cosmos, isto é, uma ordem. Numa das obras atribuidas a Platão, o “Epinomis” (na realidade escrita por um colaborador seu, Philippe Oponte), os planetas receberam, pela primeira vez, o nome dos deuses gregos. Aos poucos, uma grande concepção astrológica do mundo se estabeleceu a partir deste texto: “a contemplação do céu é uma iniciação real” e “há inteligência nos astros” são frases nele encontradas.


Desde tempos muito recuados, o ser humano sempre procurou, através de teorias baseadas em analogias e correspondências, estabelecer uma relação entre os acontecimentos macrocósmicos e o mundo humano. O ponto de partida para o entendimento destas teorias esteve sempre na explicação de que a vida terrestre dependia do céu. Assim como as plantas, os mares, os animais e o mundo mineral dependiam do céu, o homem também sofria as influências provenientes do movimento dos astros e do calendário deles decorrente. Deu-se o nome de Astrologia ao estudo dessas influências, que sempre suscitaram grande interesse, apesar das objeções que contra ele se levantam em determinados períodos da história da humanidade.

O desejo de desvendar o mistério das leis cósmicas e da harmonia da vida terrestre segundo as estruturas do céu (constelações, planetas e estrelas, principalmente, devido aos seus movimentos e ritmos) levou praticamente todas as culturas a elaborar representações celestes que lhes parecessem significativas para explicar o destino do homem e a vida na terra, de um modo geral. As imagens criadas ao longo dos séculos, para os mais informados, continuam a parecer pertinentes até hoje, o que explica, sem dúvida, que a sua carga simbólica sobreviva num mundo dominado pelo realismo cientifico e pela técnica.

Ao lado das evidências celestes “maiores” (o Sol, a Lua e os planetas), o homem, aos poucos, foi aprendendo a se abrir para o céu noturno. Assim, tanto as grandes civilizações como as menores, nas várias latitudes e longitudes, foram aprendendo a agrupar as estrelas, nascendo assim a observação e o estudo das constelações. Para os povos antigos, as estrelas no céu noturno eram fontes de luz nas trevas, morada de divindades ou de heróis metamorfoseados em astros.

Os romanos, por exemplo, atrbuiram uma influência maléfica à estrela Sirius, chamada de Canícula, a estrela da constelação do Cão Maior. A ninfa Calisto e seu filho Arcas estão nos céus como as constelação da Grande e da Pequena Ursa. Na tradição judaico-cristã, por exemplo, cada estrela é tutelada por um anjo, todas obedientes à vontade de Deus. Certos personagens históricos, como os imperadores Constantino, Carlos Magno e Frederico, o Grande, sempre afirmaram que quando do seu nascimento estava presente nos céus uma estrela que guiou os seus destinos. Esta afirmação tem muito a ver com a chamada estrela de Belém, sempre ligada a fenômenos miraculosos, algo talvez mais psicológico que físico. Ou, para outros, uma concessão da Igreja católica então nascente ao pensamento astrológico, ao tempo muito poderoso. No mundo judaico-cristão, há uma referência (Apocalipse) a um astro de fogo, chamado Absintho, que cairá dos céus para anunciar o fim do mundo e o julgamento final.

Em cada área geográfica da terra, umas constelações, suficientemente altas, acima do horizonte, aparecem noite após noite, sempre iguais. Sem jamais se porem ou nascerem, elas giram em torno de um ponto fixo no céu. Esse ponto fixo foi chamado de estrela Polar. Essa estrela, na simbólica universal, tem um papel de enorme destaque, é um ponto, um centro absoluto em torno do qual o universo gira eternamente. Todo o céu gira em torno deste ponto fixo, que lembra um motor imóvel de Aristóteles. A estrela Polar é o ponto em relação do qual se define a posição das demais estrelas e a de todos aqueles que se movimentam na terra, navegadores, viajantes, exploradores, nômades, aventureiros. Em muitas religiões primitivas é nela que tem o seu trono o Ser Divino a que são atribuídas a criação, a manutenção e a destruição universais.

A estrela Polar aponta sempre para o norte para onde caminha o nosso planeta, o sistema solar, a galáxia, o universo como um todo. Umbigo do mundo, a estrela Polar indica a morada do Ser Supremo uraniano em todas as tradições. É por essa razão que os povos da Ásia sempre levantaram os altares de seus templos em direçao do norte, como está, aliás, na própria Bíblia: "Eu me sentarei sobre a montanha onde têm assento os deuses, nas regiões longinquas do setentrião." Na índia, por exemplo, o antigo casamento védico era celebrado com referências à estrela polar.


O agrupamento das estrelas em constelações é arbitrário só aparentemente. Cada civilização, cada tradição, cada tribo faz o seu recorte, dando-lhe um nome, animando-o e dramatizando-o segundo os seus mitos. É neste particular que as semelhanças podem se revelar espantosas, indicando que por trás das aparentes dissemelhanças encontramos uma linguagem comum, através da qual a variedade das percepções pode ser expressa. A partir do ano de 1922, a União Astronômica Internacional procurou delimitar as configurações, chegando seu número a quase 90, designadas por nomes latinos.

Os nomes dos estudiosos do céu, que nos chegam da antiguidade são muitos. Até onde as investigações puderam nos levar, tudo indica que com Berose a antiga astrologia se tornou uma técnica oculta. Ele era caldeu (sinônimo de astrólogo), vinha da Mesopotâmia e era sacerdote de Marduk. Sua teoria sobre os ciclos atravessaram os séculos. A astrologia tornou-se popular no século II aC, em particular graças aos sábios egípcios. Os mais célebres astrólogos desse tempo foram Hephaistos de Tebas (380 aC), Paulo de Alexandria (378 aC). Os eruditos belgas F.Boll e F.Cumont (O Egito dos astrólogos) conseguiram reunir muitos textos gregos dessa época.

As constelações que estudaremos no transcorrer deste ciclo (Mitologias do Céu) são aquelas que na antiguidade se fixaram principalmente através das obras de Claudio Ptolomeu. Astronômo, matemático, geográfo e sobretudo astrólogo, Ptolomeu (90 -168 dC) foi um dos maiores estudiosos do céu em todos os tempos, sendo o autor de um sistema geocêntrico que prevaleceu (e que continua a prevalever para os astrólogos) até o século XVI. Suas observações foram feitas entre 127 e 141 dC em Alexandria. De todas as suas obras, a mais importante é o Almagesto, uma exposiçao completa de seu sistema astronômico.São reunidos neste trabalho todas as teorias existentes sobre o assunto até então, principalmente a de Hiparco, bem como conhecimentos trigonométricos da época. Ptolomeu descreveu os movimentos do Sol e da Lua, além dos planetários, visíveis até Saturno. Sua obra máxima para a Astrologia é o Tetrabiblos, trabalho canônico. Construiu instrumentos astronômicos, dentre eles o astrolábio, que leva o seu nome, e globos terrestres.