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domingo, 17 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (5)


VERÃO
(MARC CHAGALL , 1938)
Não podemos deixar de lembrar ainda que alguns mitos gregos nos falam de  sistemas familiares em que as faltas e crimes dos pais são pagos pelos filhos. Acontecimentos dessa natureza estão registrados em muitas histórias e  descrevem a meu ver um mal-estar, ou melhor, uma espécie ferida que às vezes não fecha nunca, apresentada por grande parte dos capricornianos, ferida que lhes faz sentir que nunca obtiveram dos pais o que deles realmente necessitaram.   

Mitos gregos que melhor exemplificam o que acima aponto são os que nos falam da família dos átridas, também chamados de pelópidas, e da família dos labdácidas. Os primeiros têm como ponto de partida Tântalo, pai de Pélops, que por sua vez gerou Atreu, Tieste e Plístene, sendo o primeiro pai de  Agamêmnon e Menelau. Quanto à segunda, tudo começa com Lábdaco, passando por Laio, até chegar a Édipo e seus filhos. Nas duas famílias, uma corrente ininterrupta de traições, misérias, mazelas, crimes, incestos, mortes, onde um tipo de paternidade capricorniana
GEIA  E  URANO
apresenta claramente aspectos em que as ideias de fecundação se misturam às de dominação, de inibição e de autoridade indiscutível. O grande arquétipo deste tipo de paternidade tem naturalmente como modelo original a figura de Cronos, que, em última instância representa o mundo da autoridade em oposição ao das forças da mudança e da inovação. Cronos, como se sabe, é um titã, nascido de uma relação incestuosa entre Geia, a terra, e Urano, o céu, seu filho e amante. 

A mitologia grega, quando é posta em discussão a questão da paternidade (tema capricorniano, por excelência), deixa claro que no seu contexto (o das tradições patriarcais) a figura paterna é muito mais uma instauradora de valores, de leis e de regras que propriamente uma figura familiar, papel que elimina uma possível pretensão de igualdade da figura materna com ela. É nesse cenário
ÉDIPO E ANTÍGONA
(BRODOWISKI, 1784-1832
que, no mundo moderno, a figura paterna ainda se insere:  é o pai que estabelece o que é justo, bom e conveniente para a família e para os filhos, sendo considerado, por isso, como fonte de transcendência. Mas deixa ele também implícito, ao desempenhar desse modo o papel que lhe cabe, que o progresso passa pela sua supressão, tudo como também nos descrevem as histórias das dinastias da mitologia grega e de personagens como Édipo, Orestes, Teseu, Antígona e muitos outros.

É do mundo romano que nos vem um dos mitos que a tradição astrológica costuma associar a Capricórnio. Refiro-me à história de Janus, o deus bifronte dos povos da península itálica, por eles considerada como uma divindade indígete, isto é, autenticamente nacional, por oposição às importadas, as novênsiles. Janus, com efeito, tinha o seu culto celebrado no mês de janeiro, mês em que o Sol atravessa a constelação de Capricórnio. Uma das faces de Janus olhava o passado e a outra o futuro. Numa das mãos ele carregava uma chave e na outra uma foice. A chave, como sabemos, tem um duplo simbolismo, ela fecha, trazendo ideias de limite, de separação, de impedimento, de encerramento, e abre, sugerindo um
JANUS
meio de dar acesso a algo, de permitir, de libertar. Também símbolo de sabedoria, a chave, com o bastão, aparecem nas mãos de Janus como deus das portas solsticiais, exercendo assim uma função de guia (do qual o bastão é um símbolo) abrindo o caminho iniciático. O bastão de Janus dá ritmo à marcha do iniciado; sua dimensão, sua forma e sua flexibilidade correspondem sempre a medidas sagradas. Com a foice, na forma de um crescente lunar, Janus incorpora mais traços saturninos, simbolizando a sua figura tanto a morte como a esperança de um renascimento, falando-nos assim do inexorável progresso temporal.

Janus, como se sabe, é, entre os romanos, o guardião da porta principal, chamada janua. Por extensão, Janus acabou adquirindo poder sobre tudo aquilo a que o ser humano dava início, como está na palavra initium. A etimologia mais remota de Janus está numa raíz indo-europeia, ya, que tem o significado de passar, transitar. Entre os romanos, passagens abertas eram chamadas de iani. É por esta razão que o início do ano na Roma antiga foi colocado sob a tutela de Janus, no seu mês, janeiro, isto é, no signo de Capricórnio, pois neste mês o Sol, a 21 de dezembro, retomava o seu caminho de volta em direção do hemisfério norte. 

Lembremos, porém, que nem sempre foi unânime este entendimento entre os romanos, quanto ao mês que marcaria o início do ano. Segundo a tradição mítica, Rômulo havia fixado o início do ano no mês de março, em homenagem ao deus Marte, seu pai. Numa Pompílio, o segundo rei de Roma,  alterou essa disposição ao estabelecer o início do ano no mês de Janeiro e
JUNO
definindo o mês seguinte, fevereiro, meses inexistentes. Fevereiro vem de februa, um apelido da deusa Juno (Hera) enquanto esposa de Fébruo (O Purificador), uma divindade infernal. O mês de fevereiro (februaris mensis) era o último do antigo calendário romano, mês dedicado às expiações e purificações. Fébruo acabou sendo identificado como Pai Dite (Dis Pater), o equivalente do Plutão (Hades) grego, divindade em honra da qual se realizavam, no mundo romano, no período, as
NUMA   POMPÍLIO
cerimônias de mundificação e de expiação anuais. Esse mês foi instituído por Numa Pompílio desejoso de igualar o sistema romano de contar o tempo com o dos povos mais cultos (gregos e fenícios), com os quais os romanos começavam a entrar em contacto. Lembremos que Numa Pompílio (715-672 aC) é um personagem que não tem a sua identidade histórica claramente definida, aparecendo muitas vezes como uma figura mítica. 

A título de curiosidade, é de se lembrar também que o mês de fevereiro é o menor dos meses do ano. Isto se deve ao fato de no tempo do imperador Augusto (63 aC-14 dC) os seus aduladores terem proposto que o mês a ele consagrado, agosto, até então com 30 dias, tivesse a ele acrescentado mais um, para se igualar ao de julho, consagrado ao seu tio, o grande imperador Julio César, já falecido. Seria inadmissível, diziam tais aduladores, que o maior imperador romano, o divino Augusto, ficasse numa situação inferior à de qualquer outro imperador. Assim, o mês de fevereiro foi usado para que tal acerto fosse feito no calendário romano. 


O imperador Carlos Magno, todo poderoso sobre a Europa ocidental, no séc. VIII, fez o início do ano retornar à data fixada por Rômulo. No séc. XIII, a Igreja Católica tentou fazer coincidir o início do ano com o sábado de Aleluia, quando se procede à cerimônia do fogo novo, da bênção das pias batismais, e com a ressurreição de Cristo, que assegura ao homem uma promessa de vida nova e feliz. No séc. XVI, o rei Calos IX, fixou para a cristandade o princípio do ano no primeiro dia do mês de janeiro.  

Voltando a Janus, é de se ressaltar que o deus possuía um templo em Roma com doze portas, com um altar em cada uma delas. No dia 1º de janeiro, nesse templo, os romanos trocavam presentes, figos, maçãs, bolos de mel, peles de carneiro, taças de vinho etc., costume que está na base das festividades celebradas até hoje, entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Janus, no panteão romano, pode ser citado juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos que perseguiam os vivos como personificação de antepassados mortos, transformados depois em entidades protetoras da família e da casa. Janus é um desses deuses mais antigos entre os romanos, sendo, como se disse, representado com duas faces contrapostas numa cabeça, dominando as portas de passagem. Era uma divindade de caráter nacional. Numa das sete colinas de Roma, desde tempos muito remotos, havia uma cidade denominada Janiculum, em sua homenagem. 


LARES   E   PENATES

Segundo alguns mitólogos, Janus teria sido um herói que emigrara da Tessália (Grécia) para a Itália, recebendo do rei Câmeses parte de seu reino. Morrendo este último, conta o mito que Janus reinou sozinho no Lácio e que acolheu mais tarde o deus Cronos que emigrara para a Itália depois da vitória dos olímpicos. Janus dividiu seu reino com ele (como Câmeses o fizera), recebendo Cronos, entre os romanos, o nome de Saturno (nome que vem dos verbo
TERMAS   DE   SATÚRNIA
latino serere, semear, plantar). Unindo-se à deusa Ops Consivia (a Terra, semelhante à deusa Cibele, da Ásia Menor), a prodigalizadora da abundância, Saturno fundou uma cidade fortificada (Saturnia) na região do Capitólio, assumindo a condição de uma divindade civilizadora, instaurando a chamada aetas aurea (idade do ouro). 

As figuras de Janus e de Saturno acabaram por se fundir. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis ianuarius, o mês que marca a passagem de um ano a outro, como também a ele foi atribuída a tutela de todos os começos, sendo por isso invocado ao nascer de cada dia, antes de qualquer outra divindade. Na festa celebrada em sua honra, no dia 9 de janeiro, era feito o sacrifício (agonium) de um carneiro (guia do rebanho). O santuário principal do deus, o Janus Geminus ou Quirinus (quiris, quiritis, nome pelo qual eram designados  os cidadãos romanos) estava situado ao norte do Fórum, diante do templo de Vesta. A estátua de Janus bifronte foi
JANUS   BIFRONTE
colocada debaixo de um arco na porta principal da cidade, de modo que ele olhasse para a sua entrada e a sua saída. Esta atitude era considerada pelos romanos como um símbolo de sua solicitude, o que o transformava no patrono dos porteiros. Aliás, como porteiro (janitor), Janus usava o seu bastão (virga) para evitar as intrusões molestas e afastar animais inconvenientes. Nesta função de porteiro, Janus era chamado pelos sobrenomes de Patulcius, o que abre, e de Clusivius, o que fecha. O culto de Janus estava centralizado na colina Janiculum, onde o rei Anco Márcio havia estabelecido uma fortificação para proteger o caminho dos comerciantes que iam à Etrúria e ao porto do Tibre, razão pela qual Janus recebeu o apelido de Portunus. Com o tempo, Janus tornou-se não só protetor das entradas e das saídas como dos comerciantes e dos navegadores. Sua cabeça figurava na mais antiga moeda dos romanos. 





Deus ambivalente, deus dos deuses na Roma antiga, Janus assumiu a condição de deus das transições e das passagens, marcando inclusive a evolução do passado em direção do futuro, de um estado a outro, de um mundo a outro. Sua dupla face significava que ele supervisionava tudo, tanto as entradas e as saídas como olhava para o interior e para o exterior. Neste sentido, Janus é a encarnação do próprio princípio da vigilância que pode se constituir também na imagem de um imperialismo sem limites. Sua figura bifronte está sempre nos arcos, nas portas, nas galerias, nos lugares de passagem. Alguns mitólogos fazem referência a um Janus quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do universo. 

A cabeça de Janus passou a alguma culturas como o símbolo da ambiguidade, algo assim como uma lâmina que tem dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus é considerada como a união do positivo e do negativo, qualidades que estão em todas as situações e ações humanas. Entre os romanos antigos, a cabeça bifronte de Janus era também um símbolo da vigilância (pessoas que têm “olhos na nuca”). Aos poucos, porém, esse sentido se perdeu para dar lugar ao da falsidade, como no caso da pessoa que tem “duas caras”, pessoa não digna de confiança, a que oculta o seu verdadeiro eu.    

DESTRUIÇÃO  DO  TEMPLO  DE  JERUSALÉM
( NIKOLAI   GE , 1831 - 1894 )
Entre os judeus, Tevet é o mês de Capricórnio, relacionado com a montanha e, no corpo humano, com a raiva e o fígado. O nome Tevet indica uma carência, uma falta de influência divina. Foi durante este mês que o cerco que levaria à destruição de Jerusalém começou; durante o mês de Tamuz, brechas foram abertas nas muralhas da cidade; em Av, o templo foi destruído. Assim, Tevet (Capricórnio), Tamuz (Câncer) e Av (Leão) são considerados pelos judeus como meses de influências negativas.

CHANUKÁ  ( CHAGALL , 1887 - 1985 )
Tevet é o décimo mês lunar do calendário hebraico a contar de Nissan, mês do Êxodo, ou quarto mês a partir da festa de ano novo (Rosh ha-Shaná). Tevet começa geralmente na segunda metade de dezembro. A festa de Chanuká (festa das luzes) estende-se até os primeiros dias deste mês. Em seu oitavo mês foi completada a tradução da Bíblia para o grego pelos setenta e dois sábios. A história desta tradução está narrada numa obra grega (carta de Arísteas). Por ela ficamos sabendo que a Torá, no séc. III aC, foi traduzida e passou a fazer parte da biblioteca do imperador egípcio Ptolomeu Filadelfo, em Alexandria. O sumo sacerdote de Jerusalém enviou setenta e dois sábios (seis para cada tribo) que fizeram a tradução, que impressionou bastante o imperador. Os rabinos consideraram, entretanto, a tradução uma tragédia, pois não a viram como correta, apenas um texto para uso dos gentios. No dia dez de Tevet se realiza um jejum público para lembrar o cerco de Jerusalém pelos babilônios, cerco este que deu origem à destruição do primeiro templo. Este dia de jejum é o único no calendário judaico que pode cair numa sexta-feira. 

O elemento terra aparece associado a Tevet, simbolizando o vagaroso poder de materialização que nele predomina. Entretanto, é dentro da terra que o poder de sustentação da vida está contido, assim como é dentro do fígado que está o sangue novo, fonte de energia do corpo humano. Segundo algumas tradições, os meses de Tevet (Capricórnio) e de Shevat (Aquário) correspondem aos dois olhos. Este entendimento decorre do fato, segundo tais tradições, de serem os olhos humanos os órgãos que mais facilmente afastam o homem da espiritualidade, segundo o ditado: O olho vê, o coração deseja.

Segundo a astrologia judaica, os olhos correspondem a dois meses do verão, Tamuz e Av, e, por essa razão, por ação reflexa, se ligam a dois meses do inverno, Tevet e Shevat. O atributo natural de Tamuz é a visão, sentido dependente do olho, lugar onde o mal encontra a sua primeira base de influência. Este signo aparece associado ao caranguejo, lembrando, por isso, movimento e flutuação. 

O astro que se associa a Tevet é Shabtai, Saturno, nome que etimologicamente lembra limitação, inatividade, razão, confirmando-se as tradições, pelas quais ele dá lugar a que as influências destrutivas do mal se manifestem. No seu aspecto positivo, Saturno representa a compreensão profunda, a erudição, e a contemplação, associada ao Shabat, na medida em que refreia a atividade mundana para permitir a experiência do transcendental. A expressão negativa deste signo, segundo a astrologia judaica, está no fato de ser Tevet para os cristãos um mês festivo, pois está na base da religião cristã, religião que quanto mais se difundia maior a perseguição e o sofrimento dos judeus.

A tribo relacionada com este signo é a de Dan, que tem a ver com o poder do severo julgamento. Dan, nome que quer dizer julgamento, é o sétimo filho de Jacó e o primeiro de Bilha (escrava de Rachel), ancestral de uma pequena tribo que se instalou em Leshem, perto da nascente do rio Jordão, no extremo norte de Israel. Sansão foi o
ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( MARC  CHAGALL )
mais célebre dos descendentes desta tribo. No acampamento dos judeus, no deserto, a tribo de Dan ocupava um território onde o Sol se escondia, o norte, associado a Satã, ao mal, lugar do infortúnio, de obscuridade e morte, como o atesta Jeremias: é do setentrião que a infelicidade se espalhará  sobre todos os habitantes do país. Em muitas catedrais e igrejas cristãs, a porta do norte é conhecida como a porta do Diabo. O norte, para os judeus, é uma direção associada à acumulação de riqueza; foi dela, conforme explica a Midrash (método de interpretação bíblico), que a tribo de Dan recebeu o ouro com o qual contribuiu para a confecção do bezerro de ouro. 


Segundo os judeus, os nascidos no mês de Tevet costumam demonstrar uma forte inclinação para amealhar riqueza material. Esta tendência está expressa na letra Ayin, a letra deste mês, bem como está associada ao olho direito. Os judeus, durante a sua vida, devem prestar especial atenção neste mês à função espiritual da visão, conforme está em Isaías (cap. 40, 26): levantai vossos olhos ao alto e vede que criou esses corpos celestes: quem faz marchar em ordem o exército das estrelas e as chama a todas pelos seus nomes: pela eficácia da sua fortaleza, e força, e poder, nem uma só faltou. 

O mês de Tevet tem como atributo emocional a raiva (rogez), que tem o mesmo valor numérico da palavra Yirah, orgulho e consciência inspirada. Isto pode ajudar alguém a direcionar a energia de sua raiva orgulhosa contra a inclinação ao mal. A palavra raiva (rogez) é também numericamente equivalente à palavra poder (gevurah). O Mal usa o poder para vencer a santidade de Israel. A vitória sobre os atributos negativos do mês de Tevet pode trazer a uma pessoa um grande crescimento espiritual. A letra Ayin, acima mencionada, conforme certas tradições, representa também o poder de Esaú; sua forma, agachada e curva, simboliza a queda de Esaú.

Esaú, lembremos, em hebraico é peludo, felpudo, filho de Isaac e de Rebeca, apelidado O vermelho, considerado como o ancestral dos edomitas. Ávido de poder, trocou a sua primogenitura com seu irmão gêmeo e mais novo, Jacó, sendo depois privado da benção

SITRA   ACHRA 
paterna em razão de conflitos com o irmão. Assassino, estuprador e adúltero, Esaú morreu quando um neto de Jacó, durante os funerais deste, cortou-lhe a cabeça. Entre os judeus, Esaú simbolizou primeiramente o cruel império romano e depois, na Idade Média, o mundo cristão, pela sua postura antagônica com relação aos descendentes de Jacó. Entre os místicos, Esaú representa o Sitra Achra, o lado do Mal.

Os filisteus (povo semítico, talvez originário de Creta ou do sul da Ásia Menor; por volta de 1.200 aC), instalaram-se nos territórios sírios e palestinos e no norte do Egito; aniquilaram os hititas, fundaram várias cidades, dente elas Gaza; exerceram sempre muita pressão sobre Israel, o que contribuiu para fazer dele uma monarquia; no final do séc.VIII aC, foram submetidos pelos assírios), astrologicamente, são representados para os judeus pelo signo de Capricórnio. Desejando purificar a má influência da origem de sua mulher filisteia, lembram os judeus que Sansão, da tribo de Dan, deu-lhe de presente uma cabra.

Segundo a astrologia judaica, a influência de Capricórnio atinge negativamente Israel só se negligenciados ou esquecidos os preceitos da Torá. Particularmente importante neste mês é a influência do patriarca José, cuja história (sua estada no Egito) é sempre lida ao final do shabat, destacando-se a insegurança que ele deve ter experimentado enquanto vivendo no país dos faraós, um traço capricorniano, segundo os judeus. Durante os meses de Tevet e Shevat são lidos também trechos do livro do Êxodo. A influência de Sagitário em Tevet é representada por José e é enaltecida na festa da Luzes.


CABRA
Para os judeus, a cabra é, dentre todos os animais que vivem em rebanhos, o primeiro a avançar quando chega a um pasto. Essa afirmação está baseada no Talmud, maneira de agir que se confunde com o próprio processo da criação. Antes havia trevas, agora há luz, concluem os judeus. A natureza da cabra, no sentido de tomar a dianteira, assemelha-se à natureza dos capricornianos. Esta postura, porém, tanto pode significar, como eles a consideram, impulso em direção da espiritualidade como em direção da impureza material. Quanto ao primeiro, há que se remover todos os obstáculos quando a meta é a vida espiritual. A grande santidade de Capricórnio está no valor numérico da palavra gdee (cabra), dezessete, o mesmo valor numérico da palavra tov, divindade. 

É preciso lembrar que os judeus não vêem o bem e o mal como forças independentes, mas produzidas pelo próprio Deus. Encontramos em Isaías: Eu formo a luz e crio a escuridão. Eu faço a paz e crio o mal. Muitos rabinos recomendam que uma bênção
SAMAEL
deve ser proferida tanto na ocorrência do bem quanto do mal, pois tudo o que Deus faz é feito no sentido do bem. Na Idade Média, muitos filósofos judeus consideravam que o mal era tão somente a ausência do bem. A Cabala, entretanto, afirma que a fonte do mal está no Sitra Achra, o Outro Lado, sempre em conflito com as forças do bem. O Sitra Achra é o nome genérico das forças demoníacas, estruturadas de modo sefirótico. Esse Outro Lado não tem energia própria, sendo um parasita da luz divina, uma espécie de antimatéria. É governado por Samael, príncipe dos demônios, e por Lilith, gênio feminino do mal.   

O mal que os filisteus sempre representaram para o povo judaico sempre apareceu associado a Lilith e ao poder que ela tem sobre o reino do desejo. Dalila, que Sansão tentou subjugar, é uma manifestação desse poder. Sansão, como sabemos, é um herói bíblico nazirita que viveu no tempo dos Juízes, oriundo da tribo de Dan. Dotado de força extraordinária, realizou proezas que o
SANSÃO MATA LEÃO (CHAGA
tornaram célebre entre o povo de Israel. Matou um leão com as suas próprias mãos e pôs em fuga os seus inimigos, atacando-os com a queixada de um asno. Sua mãe foi avisada pelo anjo Uriel que teria um filho, a ser educado no caminho da religião, pois ele livraria Israel da opressão dos filisteus. Vitimado, porém, por violentas paixões sexuais, acabou sendo entregue aos filisteus por uma de suas amantes, Dalila. Aprisionado, seus olhos foram vazados, sofrimento que lhe coube como uma punição, um castigo divino, assim entendiam todos, por ter sempre cedido às tentações da luxúria que eles lhe traziam. Enquanto aprisionado em Gaza, cego, as mulheres iam visitá-lo na sua cela, para com ele ter relações sexuais, na esperança de  ter um filho tão forte quanto ele. Sabemos que Sansão fez com que o templo filisteu desmoronasse, rompendo as colunas que o sustentavam. Sua morte, para os judeus, teve sempre a característica de um martírio altruísta.


Para a astrologia judaica, o nome de cada signo ensina o processo pelo qual a alma de cada um dos tipos zodiacais pode ser aberta para o divino. A imagem de uma flecha sendo disparada (Sagitário) guarda analogia com a saída da alma do mundo infernal. Esta flecha encontra a sua estabilidade em Tevet, Capricórnio, o tempo de autodisciplina e de preparação para a iluminação. Este processo alcança o mês seguinte, Shevat, Aquário, com a ideia de retidão. 

Negativamente, Tevet pode trazer influências de caráter depressivo, que levem à solidão, ao auto-confinamento. As letras da palavra gdee (cabra) podem ser arranjadas de modo a formar geed, falo. Para os judeus, o uso inadequado deste último, no sentido de desejo, gera ocasiões em que o bem é removido de sua normal posição neste signo. O símbolo da pureza capricorniana é o tsadik (homem justo, probo, personificado como José), cuja energia possibilitou a vitória que a festa das Luzes simboliza, corrigindo-se o que de mal houver em Tevet. José, como se sabe, venceu a tentação do olhar que, dentre outras coisas, leva ao adultério. O poder para a vitória sobre esta tentação está escondido no povo de Israel, sendo ele chamado por isso de reminiscência de José pela tradição religiosa.



CONSTELAÇÃO   DE   CAPRICÓRNIO 

A constelação de Capricórnio estende-se hoje de 2º a 24º Aquário, sendo suas estrelas pouco significativas astrologicamente. Sua principal estrela (alfa) é Giedi, também chamada de Algedi, num dos chifres da cabra, de magnitude ligeiramente superior a 3, hoje a cerca de 3º10´ de Aquário. Este nome é retirado de Al Jady (A Cabra), o nome árabe da constelação. Ptolomeu viu nela influências da natureza de Vênus e de Marte. Há nela também alguns traços uranianos, que sugerem acontecimentos inesperados, às vezes violentos e agressivos, dependendo, é claro, de sua posição e aspectos. A estrela beta de Capricórnio é dupla, Dabih Major e Dabih Minor, na base do chifre. A estrela gama é Nashira, a Afortunada, na região da cauda da figura. Com exceção da primeira estrela mencionada e de Deneb Algedi, estrela delta, as estrelas de Capricórnio não têm maior expressão astrológica. A rigor, a única levada em consideração é esta última, a 22º50´ de Aquário, situada na cauda da cabra, com magnitude 3,1. Entre os árabes é Al Dhanab al Jady (a cauda da cabra). Ptolomeu a relacionou com Saturno e Júpiter, lembrando legalidade, tempo, justiça, sabedoria que protege e que auxilia, vontade de ajudar liderando. Para que estas
LE   VERRIER
características ganhem relevo e destaque é necessário que Deneb Algedi mantenha de algum modo relações positivas com o signo de Libra e com planetas que nele se encontrem. Um fato curioso com relação a Deneb Algedi é que o astrônomo Le Verrier manifestou sempre seu descontentamento com relação às efemérides de Urano, descoberto em 1.781.
GALLE, 1912-1910



Achava Le Verrier, na década de 1840, que havia um elemento perturbador da órbita uraniana, uma massa desconhecida, a 5º na direção leste de Deneb Algedi. Poucos anos depois (1846), com base nesta indicação, o astrônomo Galle descobria o planeta Netuno.









  

quinta-feira, 6 de abril de 2017

CÂNCER (1)

               
                                                

Quando o Sol, no mês de junho, ingressa na constelação de Câncer começa no hemisfério norte o verão. A essa data dá-se o nome de solstício de verão, atingindo o Sol o maior grau de afastamento angular do equador, no seu aparente movimento no céu.  Solstitium, em latim, quer dizer parada do Sol (stat, parada). Tem-se a impressão, ao se tornarem os dias cada vez mais longos, que o Sol permanecerá para sempre brilhando com tal intensidade.  Estamos no momento em que a luz se prepara para atingir a sua plenitude máxima no ciclo anual, o que ocorrerá quando do ingresso solar na constelação seguinte, de Leão, o signo do esplendor luminoso. Em dezembro, no hemisfério norte, ao ingressar o Sol na constelação de Capricórnio, teremos o início do inverno (solstício de inverno).




A estas datas solsticiais, que marcam no hemisfério norte o início do verão (junho) e do inverno (dezembro), devemos acrescentar as equinociais, que, em março e setembro, marcam, respectivamente, o início da primavera (ingresso do Sol na constelação de Áries) e do outono (ingresso do Sol na constelação de Libra). Equinócio vem de aequinotium, de nox, noctis, noite, e aequae, igualmente. Nas datas equinociais, os dias e as noites têm a mesma duração. 

Os antigos romanos consideravam o seu deus Janus como

do
no das portas solsticiais. Esta divindade, no panteão romano, fazia parte de um grupo chamado de indigetes, divindades consideradas autenticamente nacionais, por oposição ao grupo dos novensiles, divindades importadas, na maioria da Grécia. Os indigetes relacionavam-se na sua origem com os espíritos muito presentes nos cultos da natureza dos povos que ocupavam a península itálica antes do domínio romano, etruscos, sabinos, latinos e outros, povos que Vergílio homenageia nas suas Geórgicas. 




Os chamados indigetes, no mundo romano, pelo menos nos primeiros séculos da formação da grande urbs, conservavam uma estreita ligação de dependência com os  espíritos protetores da natureza, que encarnavam as forças  nela presentes. É desse mundo que vem Janus, um espírito que vivia em todas as portas, tanto nos grandes portões das cidades como nas portas das casas. Com o tempo, Janus acabou por adquirir poder sobre tudo o que significasse a ultrapassagem de um limiar,  inclusive sobre tudo o que viesse a ser iniciado pelos homens, uma ação, uma atividade,  um culto, uma cerimônia,  pela celebração das principais datas do calendário. É por essa razão que os romanos deram o nome de janeiro (januarius), numa homenagem a Janus, ao primeiro mês do ano. 

Por outro lado, é bom lembrar que a porta é um elemento importante como símbolo da passagem de um lugar a outro, de um estado a outro, das trevas à luz, se quisermos. São de Janus os portões das vias de acesso que permitem o ingresso nos lugares
GÁRGULAS ( NOTRE-DAME, PARIS )
santificados, sejam templos, catedrais, capelas, inclusive florestas, grutas ou cavernas. Lugares que são, desde sempre, um convite para que participemos dos mistérios que encerram. Geralmente protegidos na sua entrada e paredes laterais por animais fantásticos, dragões, leões,
O  OUTRO  LADO
( G. DE CHIRICO ) 
touros, por cenas de sexo, gárgulas etc., as entradas e os portões desses edifícios, uma vez ultrapassados, nos propõem a abstração de nossa personalidade e de nossos apegos materiais para que um novo eu possa nascer. Ultrapassar portas sempre significou em antigas tradições o abandono de velhos conceitos, ideias, esquemas, afetos. Abertas, as portas  significarão acolhida, convite a se descobrir o que existe no interior do edifício. Fechadas significarão isolamento, aprisionamento, rejeição, exclusão e também proteção. 


Com o tempo, Janus, como se disse, adquiriu poder sobre ao que os romanos deram  o nome de initium. No plural, initia, palavra que designava o princípio de uma ciência, de uma religião de mistério, os objetos nela usados, suas cerimônias, bem como os sacrifícios e os auspícios a elas referentes. A etimologia mais remota de Janus está numa raiz indo-europeia, ya, que quer dizer passar, transitar. O signo de Câncer era, nesse sentido, uma porta de passagem, de um subciclo (primavera) para outro (verão), no ciclo anual. No mundo romano, passagens abertas eram chamadas de iani, nome que, depois, virou sobrenome, como Otaviani.


LARES
Janus, no panteão romano, é citado (cultuado), via de regra, juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos dos antepassados que perseguiam os vivos, tudo fazendo parte, como fica fácil perceber para quem tem cultura astrológica, do signo de Câncer.  Os Lares, de origem etrusca, com o tempo, devidamente doutrinados através de cerimônias apropriadas, foram transformados em entidades protetoras das famílias e
PENATES
das casas, tendo muito a ver, nesse sentido, com os valores do mundo familiar e cívico e com os seus espaços fisicamente considerados. Os romanos sempre consideraram a sua vida cívica com um prolongamento da sua vida familiar. Os Lares, com o nome de Lares Compitales (comptium, encruzilhada) protegiam as encruzilhadas das principais vias públicas das cidades. Já os Lares Familiaris protegiam as residências e moradias de um modo geral. 



ESTELA  FUNERÁRIA  ( DI  MANES )
Os Manes eram, a rigor, antepassados divinizados, muito encontrados também em todas as tradições. A palavra vem do verbo manare, que significa sair em direção do mundo de cima, isto é, sair do mundo infernal e subir ao mundo dos vivos. Eram antepassados mortos que não tinham se conformado com a morte e que vinham atormentar os vivos, demonstrar a sua insatisfação, sempre queixosos. A queixa, normalmente, era a de que lhes faltara ou fora incompleto o enterro ritual, que a família não cuidara de despachá-los para o Outro Lado adequadamente, costume herdado dos gregos.  Ou, então, o que era pior, as queixas se referiam ao fato de que embora tivessem mudado de condição, consideravam-se ainda presos ao mundo dos vivos. Eram mortos-vivos, gente que havia morrido com ódio no coração, gente tomada por obsessões, ideias fixas, mágoas, remorsos, desejos de vingança. 

LES  FANTÔMES
( LOUIS BOULANGER, 1829 )
Eram pessoas que permaneciam entre a vida e a morte, não conseguindo alcançar o Outro Lado. Manifestavam-se geralmente à noite, fazendo ruídos, abrindo portas, jogando objetos no chão, abrindo ou fechando janelas. A sua doutrinação para que se conformassem com o seu "destino", indo para o mundo dos mortos, do deus Dite, o grande pai do mundo subterrâneo, incluía a oferta de presentes, geralmente mel, vinho e flores. 

Uma distinção: com o tempo, às almas "boas", conformadas, os romanos deram o nome de Lares. Já às almas "ruins" deram o nome de Lêmures, sempre maléficas e inquietas. Costumavam os Lêmures aparecer sob a forma de fantasmas e tinham o prazer perverso de assustar e incomodar os vivos. Essa tradição é encontrada em muitos países. No Brasil, por exemplo, dá-se a essas almas "ruins" o nome de aparição, assombração. São figuras que aparecem e desaparecem inesperadamente, em meio a rumores, a vozes, sons misteriosos, luzes inexplicáveis.


LÊMUR
Uma observação: os nossos zoólogos deram o nome de lêmur a um animal arborícola, muito semelhante aos símios, encontrado na ilha de Madagascar. Difere dos macacos por possuir um focinho parecido com o da raposa, grandes olhos, pelo lanoso e cauda longa e peluda. Os lêmures, que vivem em sociedades matriarcais,  são esbranquiçados, e como espíritos da noite, principalmente os de menor porte, são noctívagos, gostam de fazer diabruras e produzem sons como se estivessem a chamar por alguém. 

Janus tinha caráter nacional e era uma das mais antigas divindades do panteão romano, sempre representado de modo bifronte, uma cabeça com dupla face, voltadas para direções opostas. "Vivia" sempre fixado no alto de colunas ou na parte superior dos portões e das portas, dominando sempre a entrada e a saída dos lugares de passagem. Ainda hoje, em visitas à Itália, podemos encontrar Janus em galerias, corredores de passagem, pátios etc. Janiculum foi o nome dado a uma cidade que os romanos levantaram numa das sete colinas de Roma. Relativamente próxima, perto de Janiculum, ficava a imagem de outra importante divindade do panteão romano, chamada Saturnia, em homenagem ao deus Sator, antiga divindade das sementeiras de povos itálicos. Assimilado depois ao deus Cronos dos gregos, Sator passou a ser chamado de Saturno, inventando-se a história de que Cronos, vencido na Titanomaquia (batalha em que os futuros deuses olímpicos, comandados por Zeus, venceram os titãs), expulso da Grécia, escondeu-se na Itália, no Lácio (etimologicamente do verbo latino latere, estar escondido), onde foi acolhido por Janus.    

EIXO  CÂNCER - CAPRICÓRNIO
O eixo astrológico Câncer-Capricórnio aparece na história de Janus quando recolhemos a versão de que ele, Janus, em tempos remotíssimos havia sido um herói que, emigrado da Tessália (Grécia) para a Itália, recebeu do rei Câmeses uma parte do seu reino. Pelo processo de evemerização (mitificação de personagens históricos), este herói foi transformado no deus Janus. Morrendo o rei Câmeses, Janus passou a governar sozinho. Foi nessa condição que Janus acolheu o deus Cronos, expulso da Hélade pelos olímpicos. Essa história revela, por outro, o que chamo de imperialismo retroativo da mitologia grega, ou seja, os gregos, para marcar a sua ascendência sobre todas civilizações mediterrâneas, costumavam colocar as suas divindades nas origens de civilizações que eram anteriores à sua, como aconteceu, por exemplo, com o Egito e Creta. 


CRONOS
Cronos na Itália, como Saturno, tornou-se uma divindade civilizadora, responsável pela chamada Aetas Aurea (Idade do Ouro) no mundo romano. Esta idade (tema encontrado na mitologia de outras civilizações) é descrita historicamente como um período em que os deuses e os mortais viviam muito próximos, período em que havia respeito, honra à palavra dada,  as colheitas eram fartas, praticamente nenhuma dor, nada de doenças, catástrofes, pestes ou fome. O que diferenciava os mortais dos deuses era a morte, à qual os primeiro chegavam placidamente, sem sofrimento algum; chegada a sua hora, deitavam-se e dormiam, uma espécie de sono eterno.  

LAREIRA
Já os Penates eram divindades que guardavam o interior da casa, sendo responsáveis pela lareira doméstica, espaço cuja tutela dividiam com a deusa Vesta, a Héstia dos gregos. Eram também responsáveis os Penates pela despensa da casa, lugar onde se guardavam as provisões (penus). Os Penates gostavam muito de "brincar" com as fagulhas que escapavam da lareira ou mesmo de pequenas achas incandescentes que dela saltavam. 

Desde esses tempos áureos, entretanto, a grande contradição, quando pensamos em Cronos (Saturno), já estava instalada inexoravelmente entre os mortais. Se, de um lado, Saturno era o instaurador da aetas aurea, de outro, como Cronos, era o tempo que tudo devorava, o tempo cujo fluir não parava nunca. A lei de Saturno-Cronos, o senhor do tempo, impunha de modo irrevogável uma imagem móvel da imóvel eternidade. Foi a partir da instauração dessa lei que todo movimento tomou o sentido circular e mensurável, dele fazendo parte um começo e um fim. É neste sentido que Cronos-Saturno acabou por se tornar, com o nome Cosmocrator,  o mestre do tempo universal e de seus ritmos. 


SATURNALIA  ( ANTOINE - FRANÇOIS  CALLET )

O reino de Saturno no Lácio chamava-se Satúrnia. Na Roma antiga, celebravam-se, entre 17 e 23 de dezembro, em sua homenagem as Saturnálias, para relembrar a distante aetas aurea, uma idade de abundância, paz e liberdade. Lembre-se que nos primeiros tempos do cristianismo, aproveitando-se da forte mobilização popular que as Saturnálias provocavam, os cristãos,  para uma melhor aceitação da nova religião que pregavam,  escolheram para celebrar a festa do Natal, a data do nascimento de Cristo, o período em que as Saturnálias eram realizadas. 


JANUS
O reinado de Janus acabou se confundindo com a referida aetas aurea, instaurada por Saturno. No decorrer dos séculos, diversas e maravilhosas histórias foram incorporadas à crônica do deus bifronte. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis januarius como a ele atribuída a tutela de todos os começos, sendo ele invocado, nessa condição, como Janus matutinus, antes de qualquer outra divindade. A primeira prece do latino, ao acordar, era para ele, que abria as portas do dia. 

A festa de Janus era celebrada no dia 9 de janeiro, nele se sacrificando, numa cerimônia que tinha o nome de agonium, um carneiro-guia de rebanho. Evidente, neste cenário, de inspiração astrológica, a relação entre Janus e o carneiro, este sempre entendido como suporte simbólico de muitos mitos, onde entra sempre como representante das forças irrefreáveis e criadoras da natureza, inclusive do instinto de procriação que garante a continuidade da vida.

TEMPLO  DE  JANUS ,
EM  AUTUN , FRANÇA
O principal santuário do deus tinha o nome de Janus Germinus ou Quirinus (palavra que lembra a lança, como arma de guerra) e estava situado ao norte do Forum, diante do templo da deusa Vesta, divindade extremamente importante para a vida cívica e familiar. Vesta, como para os gregos, era a dona do interior da casa, principalmente da lareira, lugar de refeições conjuntas. O templo de Janus permanecia sempre aberto em tempos de guerra, fechando-se-o em tempos de paz.

A principal estátua de Janus estava colocada sob um arco nos grandes portões das cidades de modo a permitir que ele "olhasse" os que nelas entrassem e saíssem, posição que lhe possibilitava exercer a sua função maior, a de porteiro. Como deus dos porteiros, tinha o nome de Janitor e carregava sempre uma chave, seu atributo, levando nas mãos um bastão (virga) para afastar as intromissões molestas como cães, pedintes, bêbados etc. Nessa função, acrescentavam-se ao seu nome os sobrenomes Clusivius (o que fecha) e Patulcius (o que abre). Deus ambivalente, deus dos deuses de Roma, Janus controlava as passagens e as transições, marcando a evolução do passado em direção do futuro, permitindo que se passasse de um estado a outro, de um mundo a outro. Para o povo, era mais importante que Júpiter e, mesmo, que Marte. 


TEMPLO  JANUS  QUADRIFONS,
COLINA  DE JANÍCULA
Simbolicamente, Janus é a encarnação do princípio da vigilância. O imperialismo romano encontrou nele uma de suas melhores imagens na medida em que ele via tudo, observava  tudo, controlava tudo, o que estava atrás e o que vinha pela frente. Algumas vezes, o deus aparecia com o nome de Janus Quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do espaço, sendo, como tal, símbolo da prepotência e do totalitarismo. Este aspecto de Janus o aproxima
THOMAS  HOBBES
bastante de Cronos, na medida em que este dá e concede tudo, como grande provedor, como sua história nos conta, mas, por outro lado, como Grande Pai é ele quem impede as mudanças e afasta ou elimina possíveis sucessores. Uma tentação na qual caíram e cairão todos os que, conforme a História vem comprovando ao longo dos séculos, ignoram ou teimam em não reconhecer que a natureza do ser humano se explica muito mais por Hobbes do que por Rousseau.

A cabeça de Janus em algumas culturas passou a ser considerada como um símbolo da ambiguidade, algo assim como uma faca de dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus pode ser considerada como união de contrários, do positivo e do negativo, qualidades que estão presentes no universo tanto no ser humano e sua situação como nas suas ações. A expressão "ter olhos na nuca", ou seja, ver o que está atrás e na frente, vem da história desse deus. Aos poucos esse sentido se perdeu ou se atenuou para dar lugar ao de falsidade, como no caso da "pessoa que tem duas caras", pessoa não digna de confiança, que oculta o seu verdadeiro eu. 

SÃO  JOÃO  BAPTISTA
 ( RAFAEL  DI  SANZIO )
No cristianismo, os dois santos de nome João podem ser associados a Janus, na medida em que abrem as portas solsticiais. Um deles, ligado ao verão, é João Baptista (festa a 24 de junho), chamado de arauto de Cristo. O outro é João Evangelista (festa a 27 de dezembro), ligado ao inverno. No Evangelho de São João, encontramos referências astrológicas sobre esta questão solsticial a partir do versículo 27 do 3º capítulo quando João Baptista se "apaga" (abertura da fase descendente do Sol) numa atitude de espera de
SÃO JOÃO EVANGELISTA
( EL  GRECO )
alguém, maior que ele, que virá (Câncer, como sabemos, é o signo do "eu que virá"). No versículo 30, encontramos: Ele deve crescer e eu diminuir. Quando o Sol chega a Capricórnio, 21 dezembro (a noite mais longa do ano), ele atinge a declinação sul máxima com relação ao hemisfério norte, mas também esse é o momento em que ele começa a "subir" de novo. Ou seja, quando o Sol na sua marcha anual entra em Capricórnio começa o solstício de inverno no hemisfério norte e o solstício de verão no hemisfério sul.    

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (8)

               


Foi dos etruscos primitivos que os romanos herdaram os traços mais característicos de sua concepção do Inferno. Mas, com o correr do tempo, tanto a concepção etrusca como a romana acabaram por incorporar muitas influências gregas, o que acabou por conferir, ao final, à concepção romana de inferno um caráter nacional, bastante peculiar. 

CHARUN
 ( SEGUNDO A PARTIR DA ESQUERDA )
O Inferno etrusco era governado por Eita ou Ade juntamente com sua esposa, Persipnei. As outras principais figuras desse mundo eram Charun e Tuchulpa, o primeiro uma figura soturna e o outro um demônio de olhos ferozes, orelhas de asno, um bico em lugar da boca, duas serpentes enroladas na cabeça e uma terceira num dos braços. 

No momento da morte, a alma era agarrada por dois grupos de gênios. Um deles ligado ao mal; seu condutor era Charun, que levava numa das mãos um porrete com duas cabeças ou, às vezes, uma tocha. O segundo grupo, ligado ao bem, era comandado por Vanth. Um conflito, pois, entre os dois princípios universais que disputavam a alma. O defunto ia para o Inferno, às vezes montado numa biga e noutras vezes a pé. Outros gênios que o acompanhavam levam nas mãos folhas enroladas onde estavam registradas todas as ações praticadas pelo defunto.

Os gênios a que acima nos referimos, semelhantes aos daimons dos
CÍCERO
gregos, eram entidades que faziam uma intermediação entre os deuses e os mortais. Vários autores, como Marco Túlio Cícero e Aufúscio, "atestam" a sua existência. Na mitologia romana, cada ser humano nascia com o seu gênio, que o tutelava, sendo muitas vezes considerado com uma espécie de pai. O gênio nascia com o ser humano e desaparecia quando da sua morte. No cristianismo, a figura do anjo custódio parece ter sido inspirada pelos gênios romanos.

Além dos seres humanos, famílias, cidades, lugares, bosques, rios, fontes etc. tinham também os seus gênios, que podiam inclusive tomar a forma de animais, serpentes ou seres ctônicos. A função principal destes gênios era a de proteger o lugar em que apareciam, identificando-se com a "energia" nele presente, algo assim como espíritos da natureza. 
 
TUMBA   DE   RUVO  ,  ITÁLIA


Um julgamento desfavorável, presidido pelos reis do mundo infernal, significava tormentos eternos, horríveis. Uma decisão
PINGENTE   ( LOUVRE )
favorável levava o defunto (alma) a uma eternidade glorificada num paraíso celestial, de caráter muito realista, revestido de esplendor e magnificência no  que lembrava muito a riqueza e o luxo terrenos. Nas necrópoles etruscas, foi encontrada uma imensa variedade de objetos que acompanhavam o morto na sua viagem: utensílios diversos, espelhos, vasos, imagens, pentes, objetos de toalete pequenos móveis etc. Numa antecipação da vida celestial, eram gravadas nos sarcófagos cenas de pessoas sentadas à mesa de um banquete, serviços de mesa, jarras, taças para vinho, representações artísticas com cenas de caça, baile, cenas amorosas e mitológicas etc.


NECRÓPOLE   ETRUSCA   ( ORVIETO,  ITÁLIA )

Antes de Roma começar a se firmar na península itálica como único centro de poder, os verdadeiros deuses infernais desse mundo ainda em formação eram os Manes, os antepassados. Eles eram também chamados de Di Parentes. Manes é palavra que deriva de um antigo adjetivo, manus (bom) e se opõe a immanis (mal). Os Manes eram então os Bons e, como tal, recebiam cultos tanto públicos como privados. 



TÚMULO  -   ETRÚRIA

Quando da fundação de uma cidade, era costume se abrir um grande buraco arredondado a que se dava o nome de mundus, imagem do céu às avessas. No fundo desse buraco era colocada uma enorme pedra, que chamavam de lapis manalis, sendo ela considerada como a porta de entrada do reino infernal. Nos dias 24 de agosto, 5 de outubro e 8 de novembro, a pedra era afastada para se dar passagem aos Manes, que vinham visitar os vivos.



PARENTALIA

Era nesses dias que se prestava culto aos antepassados, sempre com a finalidade de apaziguá-los, de aplacar a sua cólera (inveja). No início, eram oferecidos aos Manes sacrifícios sangrentos. Acredita-se que os primeiros combates entre gladiadores tenham sido instituídos para honrá-los. No mês de fevereiro, entre os dias 13 e 26, celebravam-se grandes festas para homenageá-los, as chamadas Parentalia e Feralia. Durante esse período não se trabalhava e os templos não funcionavam. Os túmulos eram decorados com violetas, rosas, lírios e mirto, depositando-se sobre eles oferendas (alimentos).



FERALIA


VIOLETA   DI   PARMA
A violeta sempre foi considerada uma flor funerária. Cora (Kore entre os gregos), a filha de Ceres (Deméter entre os gregos), a futura Prosérpina (Perséfone entre os gregos), colhia violetas quando de sua descida ao mundo infernal, raptada por Dite  (Plutão entre os romanos). As rosas, por sua vez, também tinham um caráter funerário, sendo plantadas ao lado dos ciprestes, ao redor dos túmulos. Atribuía-se às rosas o poder de proteger os mortos dos maus espíritos. Já os lírios sempre tiveram no mundo greco-romano uma ligação com a imortalidade.
MIRTO
Segundo o mito grego, quando, por sugestão de Palas Athena, Hera ofereceu o seu augusto seio a Hércules para que ele o sugasse, a fim de aceder à imortalidade, uma gotas do leite caíram sobre a terra, imediatamente brotando, no lugar, alvíssimos lírios. Quanto ao mirto ou murta, seu caráter funerário é explicado por uma história associada a Dioniso. O deus, ao resgatar sua mãe, Sêmele, do mundo infernal, foi obrigado a deixar no lugar por ela ocupado um arbusto, o mirto.        

LAGO   DE   AVERNO
Como se expôs acima, os romanos colocavam o Inferno no mundo subterrâneo, no centro da Terra. A ele davam acesso aberturas na superfície terrestre, cavernas, fendas profundas, lagos, pântanos e grutas. Uma das mais célebres entradas era o lago Averno, na Campânia, numa região desolada, perto de Nápoles. Lembro que o poeta Virgílio o descreveu no seu poema A Eneida, assim fazendo também com relação ao antro da Sibila de Cumas, centro oracular
ENTRADA   DO  ANTRO
DA   SIBILA  DE  CUMAS  ( IT.)
feminino que ficava na sua vizinhança. As colinas que cercavam o Averno, cheias de bosques, eram em tempos remotos consagradas à deusa Trivia (Hécate entre os gregos). As aparições da deusa eram conhecidas pelo nome luci averni; nos locais dessas aparições, em muitos orifícios neles encontrados, segundo Cícero, eram feitas invocações das almas dos mortos, algo muito parecido com a nekyia dos gregos. 

Os Manes tinham um culto rigorosamente organizado e observado. A eles eram oferecidos mel, vinho, leite e flores. Eram tantos os cuidados que as festas acabaram se fixando mais nas oferendas do que propriamente na evocação. Daí, festas com nomes como Rosaria (rosas) e Violaria (violetas), em homenagem aos mortos. O que se procurava sempre era acalmá-los e fazê-los retornar aos Infernos. Conta-se que certa vez a população de Roma não honrou devidamente os Manes. Eles então, indignados, invadiram a cidade promovendo enormes confusões. Só a muito custo e com muitos sacrifícios os romanos conseguiam fazê-los retornar. 

Com a crescente helenização da cultura e da religião, Roma adotou Dis Pater como principal divindade ctônica. O nome Dis quer dizer rico, opulento. Temos então Pai Rico (algo semelhante ao Plutão dos gregos) nome do deus do mundo subterrâneo e que era também o pai da abundância e das riquezas que se escondiam no interior de suas profundezas.  Sua ação última era fazer com que tudo o que tomasse forma se decompusesse e retornasse ao interior da terra, para dela renascesse novamente, sob outra forma.


ORCUS   ( PARQUE  DOS  MONSTROS ,  JARDIM  DE  BOMARZO

Os romanos representavam a morte através de Orcus, nome que acabou por designar também o Inferno como um todo. Orcus era uma entidade que conduzia e submetia os vivos à força, levando-os para o reino de Dis Pater. Orcus etimologicamente significa esconder, fechar, ocultar. Popularmente, Orcus era um gênio da morte, sendo apresentado nas imagens funerárias como um tipo gigantesco, escuro, hirsuto. 

FEBRUS
Os romanos tinham também um deus chamado Februs, de origem etrusca, uma espécie de sósia de Dis Pater. Era-lhe consagrado o mês de fevereiro, o mês dos mortos. Foi ele quem deu nome ao segundo mês do ano, februarius, o último do antigo calendário romano, dedicado às purificações e expiações. 


Libitina era uma antiga divindade romana, a princípio, talvez, de natureza agrária. Foi identificada como divindade dos funerais, sendo às vezes associada a Prosérpina. A cada falecimento uma moeda era levada ao seu templo. As pessoas que participavam das
LIBITINA
exéquias fúnebres eram chamadas de libitinarii. Essa deusa era uma herança etrusca, derivando seu nome do verbo agradar, proporcionar prazer. Os romanos chamavam de Vênus Libitina a divindade que ajudava os acompanhantes de um morto a conduzi-lo ao túmulo “amorosamente”. Libitina foi adotada pelos poetas e passou a designar poeticamente a própria morte. Presidia os funerais e era responsável pelas honras prestadas aos mortos. Seu templo se localizava num lugar sagrado do Aventino. Nesse lugar viviam também os agentes funerários, que eram apelidados de libitinarii. 

POÇO   DE   JUTURNA

Ligada ao mundo infernal, temos a história de Lara (espectro, fantasma assustador de crianças), que começa com a de outro personagem, Juturna, ninfa creneia, lindíssima, que incendiou o coração de Júpiter. Esta jovem tentou escapar da sanha erótica do grande deus. Ele, então, convocou as demais ninfas e as convenceu que todas seriam beneficiadas se o ajudassem a conquistar Juturna. Todas concordaram. Uma delas, porém, Lara, muito indiscreta, preveniu a jovem e contou tudo a Juno, esposa de Júpiter. 

Irritadíssimo, Júpiter arrancou a língua de Lara e ordenou que Mercúrio a levasse para o mundo infernal, onde passaria a viver como ninfa das águas silenciosas. Ao chegar a jovem ao reino
LARES
subterrâneo, Dis Pater se impressionou com a sua singular e tentou seduzi-la. A ninfa, não podendo falar, se defendeu com gestos. Foi violentada, tornando-se mãe de dois Lares, divindades que passaram a guardar as encruzilhadas de Roma, onde Lara era também cultuada com os nomes de Tacita ou Muta, como divindade do silêncio e de perigosos encantamentos. Ao que parece, um outro nome de Lara era Mania, honrada em festas como as Compitalia e Feralia, ambas tendo a ver com encruzilhadas. Nessas festas, em tempos muito remotos, honravam-se os mortos nas encruzilhadas. Com o tempo, essa tradição se perdeu, e só as classes mais humildes, que viviam na periferia da cidade, dela participavam, mantendo-a.

Os romanos davam o nome de Larvas (origem etrusca) a fantasmas e espectros que perseguiam os vivos.Aos poucos, o nome passou a designar de modo especial as almas de criminosos e de pessoas que haviam tido um fim trágico. As Larvas eram responsáveis por distúrbios psíquicos e mentais que muitas pessoas experimentavam, como a epilepsia, ataques de raiva, estados catatônicos etc. Às pessoas assim vitimadas dava-se o nome de larvati, enfeitiçados, perturbados.

As Larvas eram representadas por esqueletos e a elas era a atribuída a tarefa de torturar os condenados ao Inferno. Na alquimia greco-alexandrina, lembre-se, os esqueletos eram símbolo da nigredo, da putrefação, e, provavelmente, com esse sentido, vieram para a iconografia romana. Em Roma, com o tempo, os esqueletos que apareciam nos lampadários sepulcrais e nas lápides, como símbolos dos mortos, passaram a ser pintados, desenhados ou esculpidos em movimento, dançando, tocando inclusive instrumentos musicais, animando os grupos de que faziam parte. Muitas vezes, nessas representações aparecia uma borboleta, muito usada como símbolo reencarnacionista. As Larvas, assim representadas, esquecida a sua função infernal, em meio a jarras de vinho, guirlandas de flores, soprando cornetas e tocando tambores, passaram a ilustrar um tema de muito agrado dos romanos nos períodos de decadência política e social, o de que, se a morte é certa, temos que aproveitar ao máximo o que a vida nos oferece. Era o famoso carpe diem dos filósofos hedonistas popularizado.  Na Idade Média, como podemos constatar, as Larvas voltaram a assumir a sua antiga função de figuras sinistras do mundo infernal.

A expressão carpe diem é encontrada originalmente nas Odes do
HORÁCIO
poeta latino Horácio (65-8 aC), com o sentido ascético de uma disciplina de vida (corpo e espírito) que lhe davam os filósofos epicuristas e hedonistas. Em nossos tempos, a expressão foi banalizada pelo cinema e por muitas bandas de rock, que a apresentaram como um convite a se aproveitar tudo da vida, a "faturar" todas.

Como agentes do mundo infernal, os romanos tinham também as
OVÍDIO
famosas Lêmures, fantasmas femininos que, à noite, aterrorizavam as pessoas. Eram almas de pessoas que haviam morrido “mal”, insatisfeitas, rancorosas, com ódio no coração. Segundo o poeta Ovídio, em sua obra Os Fastos, Lêmures era o nome que os romanos davam a todas as almas dos mortos que voltavam como fantasmas para atormentar os vivos. Para conjurá-las e evitar que ficassem a perturbar os vivos, celebrava-se anualmente, nos dias 9, 11 e 13 de maio, a festa das Lemuralias. 

Nessas noites, o pater famílias, o chefe de família romano, descalço, saía de casa e se dirigia a uma fonte próxima para lavar as suas mãos e lançava no ar, atrás de suas costas, sem se voltar, favas; pronunciava ao mesmo tempo, por nove vezes, uma fórmula ritual: “Com estas favas, eu me resgato, eu e a minha família.” Ele voltava em seguida à fonte para lavar de novo as mãos e, depois, batendo num objeto de bronze, dizia:”Sombras de meus ancestrais, ide embora". Ditas estas palavras, ele poderia se voltar. Por um ano, ele e a família ficariam livres das Lêmures. As favas ligavam-se entre os romanos ao culto dos mortos porque elas, provenientes do interior da terra, tinham tido, de certa maneira, contacto com as Lêmures, sendo por isso muito apreciadas por eles. Cumprido o ritual pelo pater famílias, as Lêmures transformavam-se, pelo menos por um ano, em Manes, antepassados benevolentes, protetores da casa e da família.

HELENA   P.  BLAVATSKY
A palavra lêmure foi usada mais tarde para dar nome a uma espécie de macaco que vive na ilha de Madagascar e na Malásia, de aspecto fantasmagórico. No séc. XX, surgiu uma lenda sobre a existência de um continente, a Lemúria, onde teria vivido uma raça diferente, os lemurianos. Ocultistas de várias partes do mundo afirmaram que nesse continente viveria a terceira raça da humanidade, ou seja, aquele que teria precedido a dos atlantes (Atlântida) e a atual, que seria a quinta. No livro A Doutrina Secreta, de Helena P.Blavatsky, se afirma que os lemurianos teriam vivido numa consciência de sonho, que eram gigantescos e que teriam sido criados pelo processo de fusão. Tudo isto teria acontecido 70.000 anos antes do período eoceno, do terciário.

       REFLEXÕES MITO-ASTROLÓGICAS SOBRE PLUTÃO

1) Para chegar ao reino de Hades-Plutão, temos que perder a “carne”, o corpo físico, destruir a forma à qual estamos presos; 

2) Plutão destrói, aniquila, desintegra, muitas vezes dolorosamente, o que não é útil (lembrar que Virgo e Escorpião, através de seus regentes, têm a ver com a função intestinal. O que Mercúrio Virgo rejeita, Plutão transforma em dejeto); 

3) Plutão pode, ao detonar um processo transformador, nos pôr em contacto com uma nova realidade, realidade que muitas vezes não entendemos, que talvez levemos muito tempo para compreender;

4) Numa vida em que só predomina a orientação material, as transformações plutonianas serão vividas de um modo geral dolorosamente, catastroficamente (o olhar de terror do que vai morrer diante de Thanatos); 

5) Quando transita por uma casa, Plutão traz à superfície (consciência) os assuntos da casa oposta (Dioniso retirando Sêmele do Hades);

6) Plutão é raptor, sequestrador; o nosso lado “virgem” (Kore), ingênuo, pode ser estuprado; 

7) Plutão foi descoberto quando transitava pelo signo de Câncer, entre as estrelas Castor (mortal) e Pólux (imortal); procure conhecer o que aconteceu historicamente nesse período (vida econômica, política, social, cultural etc.); quando Plutão transitou por Câncer (1912-1939) tivemos o início da terceira fase da era de Peixes; duas guerras mundiais explodiram nesse período; a conjunção Plutão-Cabeça do Dragão coincidiu com a Grande Depressão em 1929; tivemos a ascensão das forças nazi-fascistas (Alemanha, Itália etc.) e socialistas (comunistas, URSS);  

8) Com a descoberta de Plutão, a noção tradicional de família foi destruída;

9) Plutão foi descoberto quando a psicanálise freudiana se revelou para o mundo; com Plutão temos que "descer" para conhecer, ir além do Bosque de Perséfone (inconsciente pessoal), recorrendo a Hermes psicopompo;

10) Plutão é destruição e renascimento, a revelação de que ambos são fases do mesmo processo; 

11) Planetas transaturninos (Urano, Netuno e Plutão): é preferível entendê-los antes como provocadores de grandes movimentos, etapas e direções que a humanidade toma como um todo;

12) Plutão, atuando sobre diferentes países, produz diferentes manifestações coletivas;

13) Ao transitar por um signo, Plutão determina para a humanidade o tom de morbidade do tempo; quando transitou pelo signo de Virgem, a parir do final de década de 1950, os agrotóxicos começaram a revelar todo o seu poder destrutivo e perigoso para o ser humano; quando Plutão se aproximou de Escorpião, início da década de 1980, a humanidade tomou conhecimento da Aids. É de se lembrar que Plutão entre os antigos gregos era também chamado de Aides ou Aidoneus; 

14) Plutão, num mapa astrológico, poderá ser “vivido” como Érebo, Campos Elíseos, Tártaro, Aqueronte, Estige, Cocito, Piriflegetonte, Lethe, Cérbero etc. Ou através das Erínias, de Hécate, das Keres, dos Manes, das Lêmures etc.

15) Plutão está relacionado com o âmago, o núcleo, o mais íntimo de qualquer coisa; 

16) Plutão, como os demais planetas transaturninos, é sempre geracional e individual;

17) Plutão não “liga” para o fato de o indivíduo estar consciente ou não de sua vibração geracional; se estiver, melhor, pois poderá cooperar com a sua posição ou passagem;

18) Exemplo do item 17: Plutão esteve em Leão entre 1937 e 1958. Milhões e milhões de pessoas nasceram com ele nesse signo. Essa geração apresenta, de um modo geral, desejos naturais de uma auto-realização criativa; alimenta um propósito singular de viver. Pessoas que nasceram neste período tendem a se voltar mais para si mesmas e têm, para mais ou para menos, uma orientação narcísica com relação à vida. Compreenderão as lições aquarianas? A casa oposta àquela onde estiver Plutão sempre será sempre um fonte de aprendizado;

19) A posição de Plutão (signo e casa) num mapa astrológico indica uma área de nossa vida não ou mal conhecida pelo eu consciente; nessa área encontram-se antigos padrões de conduta, desejos passados, questões de nossa ancestralidade, coisas de um passado desconhecido, algo que não entendemos bem ou  que ignoramos totalmente;

20) É na área em que temos Plutão no mapa que podemos entrar em contacto a fonte (inconsciente) de energia que há em nós; o signo em que Plutão se encontra indica como essa energia poderá se manifestar em nós, passiva ou ativamente, segundo a natureza do signo;

21) Para entender um aspecto formado por Plutão, precisamos nos esforçar para conhecer em que nível ele está agindo (físico, emocional, sentimental, mental, espiritual);

22) Plutão pode provocar a emersão do inconsciente coletivo, trazendo-o à luz, favorecendo, neste caso, uma orientação em direção do futuro;

23) Plutão retrógrado: Hades-Plutão acolhe no seu reino as almas.
A posição de Plutão retrógrado num mapa indica os vários sacrifícios e lições que nos cabem numa encarnação para que possamos evoluir animicamente. Plutão tem sempre a ver, pois, com conquistas obtidas através de nossa autodisciplina. Plutão retrógrado é uma espécie de elemento de ligação entre uma existência e outra. Ou se quisermos, Plutão retrógrado é uma relação entre o karma acumulado, a disposição que adotarmos numa encarnação com relação a ele e aquilo que estivermos fazendo nesta encarnação com relação ao nosso futuro. É neste sentido que a área onde temos Plutão poderá significar uma oportunidade para o nosso desenvolvimento ou, ao contrário, um lugar onde só teremos atraso e regressão quanto a esse a desenvolvimento pessoal. O signo, a casa e os aspectos de Plutão significam sempre um acerto de contas. Se retrógrado o planeta, esse acerto será sempre mais difícil, severo, exigindo mais de nós; 

24) Na perspectiva do que está acima, aspectos de Plutão com o eixo dos nós lunares será sempre muito importante. Os nós lunares , segundo a astrologia hindu, de onde vieram para nós, nos colocam sempre simultaneamente numa situação evolutiva e kármica;

25) Antes de “pensar Plutão”, será preciso que respondamos a perguntas como as seguintes: 1) Será que eu realmente nasci sob o ponto de vista astrológico? Por que estou aqui? Até onde sou influenciado ou afetado nas minhas decisões pelos meus corpos físico, afetivo-emocional e mental (inferior)? Tenho noção daquilo que criei a partir de ações do meu passado? Como as encaro hoje? Será que tenho noção do que significa uma realização solar? Até onde em meu mapa astrológico entendo a Lua como meu "outro" ascendente? Além destas perguntas, há, claro, outras, muitas outras...