Mostrando postagens com marcador JANUS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JANUS. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (5)


VERÃO
(MARC CHAGALL , 1938)
Não podemos deixar de lembrar ainda que alguns mitos gregos nos falam de  sistemas familiares em que as faltas e crimes dos pais são pagos pelos filhos. Acontecimentos dessa natureza estão registrados em muitas histórias e  descrevem a meu ver um mal-estar, ou melhor, uma espécie ferida que às vezes não fecha nunca, apresentada por grande parte dos capricornianos, ferida que lhes faz sentir que nunca obtiveram dos pais o que deles realmente necessitaram.   

Mitos gregos que melhor exemplificam o que acima aponto são os que nos falam da família dos átridas, também chamados de pelópidas, e da família dos labdácidas. Os primeiros têm como ponto de partida Tântalo, pai de Pélops, que por sua vez gerou Atreu, Tieste e Plístene, sendo o primeiro pai de  Agamêmnon e Menelau. Quanto à segunda, tudo começa com Lábdaco, passando por Laio, até chegar a Édipo e seus filhos. Nas duas famílias, uma corrente ininterrupta de traições, misérias, mazelas, crimes, incestos, mortes, onde um tipo de paternidade capricorniana
GEIA  E  URANO
apresenta claramente aspectos em que as ideias de fecundação se misturam às de dominação, de inibição e de autoridade indiscutível. O grande arquétipo deste tipo de paternidade tem naturalmente como modelo original a figura de Cronos, que, em última instância representa o mundo da autoridade em oposição ao das forças da mudança e da inovação. Cronos, como se sabe, é um titã, nascido de uma relação incestuosa entre Geia, a terra, e Urano, o céu, seu filho e amante. 

A mitologia grega, quando é posta em discussão a questão da paternidade (tema capricorniano, por excelência), deixa claro que no seu contexto (o das tradições patriarcais) a figura paterna é muito mais uma instauradora de valores, de leis e de regras que propriamente uma figura familiar, papel que elimina uma possível pretensão de igualdade da figura materna com ela. É nesse cenário
ÉDIPO E ANTÍGONA
(BRODOWISKI, 1784-1832
que, no mundo moderno, a figura paterna ainda se insere:  é o pai que estabelece o que é justo, bom e conveniente para a família e para os filhos, sendo considerado, por isso, como fonte de transcendência. Mas deixa ele também implícito, ao desempenhar desse modo o papel que lhe cabe, que o progresso passa pela sua supressão, tudo como também nos descrevem as histórias das dinastias da mitologia grega e de personagens como Édipo, Orestes, Teseu, Antígona e muitos outros.

É do mundo romano que nos vem um dos mitos que a tradição astrológica costuma associar a Capricórnio. Refiro-me à história de Janus, o deus bifronte dos povos da península itálica, por eles considerada como uma divindade indígete, isto é, autenticamente nacional, por oposição às importadas, as novênsiles. Janus, com efeito, tinha o seu culto celebrado no mês de janeiro, mês em que o Sol atravessa a constelação de Capricórnio. Uma das faces de Janus olhava o passado e a outra o futuro. Numa das mãos ele carregava uma chave e na outra uma foice. A chave, como sabemos, tem um duplo simbolismo, ela fecha, trazendo ideias de limite, de separação, de impedimento, de encerramento, e abre, sugerindo um
JANUS
meio de dar acesso a algo, de permitir, de libertar. Também símbolo de sabedoria, a chave, com o bastão, aparecem nas mãos de Janus como deus das portas solsticiais, exercendo assim uma função de guia (do qual o bastão é um símbolo) abrindo o caminho iniciático. O bastão de Janus dá ritmo à marcha do iniciado; sua dimensão, sua forma e sua flexibilidade correspondem sempre a medidas sagradas. Com a foice, na forma de um crescente lunar, Janus incorpora mais traços saturninos, simbolizando a sua figura tanto a morte como a esperança de um renascimento, falando-nos assim do inexorável progresso temporal.

Janus, como se sabe, é, entre os romanos, o guardião da porta principal, chamada janua. Por extensão, Janus acabou adquirindo poder sobre tudo aquilo a que o ser humano dava início, como está na palavra initium. A etimologia mais remota de Janus está numa raíz indo-europeia, ya, que tem o significado de passar, transitar. Entre os romanos, passagens abertas eram chamadas de iani. É por esta razão que o início do ano na Roma antiga foi colocado sob a tutela de Janus, no seu mês, janeiro, isto é, no signo de Capricórnio, pois neste mês o Sol, a 21 de dezembro, retomava o seu caminho de volta em direção do hemisfério norte. 

Lembremos, porém, que nem sempre foi unânime este entendimento entre os romanos, quanto ao mês que marcaria o início do ano. Segundo a tradição mítica, Rômulo havia fixado o início do ano no mês de março, em homenagem ao deus Marte, seu pai. Numa Pompílio, o segundo rei de Roma,  alterou essa disposição ao estabelecer o início do ano no mês de Janeiro e
JUNO
definindo o mês seguinte, fevereiro, meses inexistentes. Fevereiro vem de februa, um apelido da deusa Juno (Hera) enquanto esposa de Fébruo (O Purificador), uma divindade infernal. O mês de fevereiro (februaris mensis) era o último do antigo calendário romano, mês dedicado às expiações e purificações. Fébruo acabou sendo identificado como Pai Dite (Dis Pater), o equivalente do Plutão (Hades) grego, divindade em honra da qual se realizavam, no mundo romano, no período, as
NUMA   POMPÍLIO
cerimônias de mundificação e de expiação anuais. Esse mês foi instituído por Numa Pompílio desejoso de igualar o sistema romano de contar o tempo com o dos povos mais cultos (gregos e fenícios), com os quais os romanos começavam a entrar em contacto. Lembremos que Numa Pompílio (715-672 aC) é um personagem que não tem a sua identidade histórica claramente definida, aparecendo muitas vezes como uma figura mítica. 

A título de curiosidade, é de se lembrar também que o mês de fevereiro é o menor dos meses do ano. Isto se deve ao fato de no tempo do imperador Augusto (63 aC-14 dC) os seus aduladores terem proposto que o mês a ele consagrado, agosto, até então com 30 dias, tivesse a ele acrescentado mais um, para se igualar ao de julho, consagrado ao seu tio, o grande imperador Julio César, já falecido. Seria inadmissível, diziam tais aduladores, que o maior imperador romano, o divino Augusto, ficasse numa situação inferior à de qualquer outro imperador. Assim, o mês de fevereiro foi usado para que tal acerto fosse feito no calendário romano. 


O imperador Carlos Magno, todo poderoso sobre a Europa ocidental, no séc. VIII, fez o início do ano retornar à data fixada por Rômulo. No séc. XIII, a Igreja Católica tentou fazer coincidir o início do ano com o sábado de Aleluia, quando se procede à cerimônia do fogo novo, da bênção das pias batismais, e com a ressurreição de Cristo, que assegura ao homem uma promessa de vida nova e feliz. No séc. XVI, o rei Calos IX, fixou para a cristandade o princípio do ano no primeiro dia do mês de janeiro.  

Voltando a Janus, é de se ressaltar que o deus possuía um templo em Roma com doze portas, com um altar em cada uma delas. No dia 1º de janeiro, nesse templo, os romanos trocavam presentes, figos, maçãs, bolos de mel, peles de carneiro, taças de vinho etc., costume que está na base das festividades celebradas até hoje, entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Janus, no panteão romano, pode ser citado juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos que perseguiam os vivos como personificação de antepassados mortos, transformados depois em entidades protetoras da família e da casa. Janus é um desses deuses mais antigos entre os romanos, sendo, como se disse, representado com duas faces contrapostas numa cabeça, dominando as portas de passagem. Era uma divindade de caráter nacional. Numa das sete colinas de Roma, desde tempos muito remotos, havia uma cidade denominada Janiculum, em sua homenagem. 


LARES   E   PENATES

Segundo alguns mitólogos, Janus teria sido um herói que emigrara da Tessália (Grécia) para a Itália, recebendo do rei Câmeses parte de seu reino. Morrendo este último, conta o mito que Janus reinou sozinho no Lácio e que acolheu mais tarde o deus Cronos que emigrara para a Itália depois da vitória dos olímpicos. Janus dividiu seu reino com ele (como Câmeses o fizera), recebendo Cronos, entre os romanos, o nome de Saturno (nome que vem dos verbo
TERMAS   DE   SATÚRNIA
latino serere, semear, plantar). Unindo-se à deusa Ops Consivia (a Terra, semelhante à deusa Cibele, da Ásia Menor), a prodigalizadora da abundância, Saturno fundou uma cidade fortificada (Saturnia) na região do Capitólio, assumindo a condição de uma divindade civilizadora, instaurando a chamada aetas aurea (idade do ouro). 

As figuras de Janus e de Saturno acabaram por se fundir. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis ianuarius, o mês que marca a passagem de um ano a outro, como também a ele foi atribuída a tutela de todos os começos, sendo por isso invocado ao nascer de cada dia, antes de qualquer outra divindade. Na festa celebrada em sua honra, no dia 9 de janeiro, era feito o sacrifício (agonium) de um carneiro (guia do rebanho). O santuário principal do deus, o Janus Geminus ou Quirinus (quiris, quiritis, nome pelo qual eram designados  os cidadãos romanos) estava situado ao norte do Fórum, diante do templo de Vesta. A estátua de Janus bifronte foi
JANUS   BIFRONTE
colocada debaixo de um arco na porta principal da cidade, de modo que ele olhasse para a sua entrada e a sua saída. Esta atitude era considerada pelos romanos como um símbolo de sua solicitude, o que o transformava no patrono dos porteiros. Aliás, como porteiro (janitor), Janus usava o seu bastão (virga) para evitar as intrusões molestas e afastar animais inconvenientes. Nesta função de porteiro, Janus era chamado pelos sobrenomes de Patulcius, o que abre, e de Clusivius, o que fecha. O culto de Janus estava centralizado na colina Janiculum, onde o rei Anco Márcio havia estabelecido uma fortificação para proteger o caminho dos comerciantes que iam à Etrúria e ao porto do Tibre, razão pela qual Janus recebeu o apelido de Portunus. Com o tempo, Janus tornou-se não só protetor das entradas e das saídas como dos comerciantes e dos navegadores. Sua cabeça figurava na mais antiga moeda dos romanos. 





Deus ambivalente, deus dos deuses na Roma antiga, Janus assumiu a condição de deus das transições e das passagens, marcando inclusive a evolução do passado em direção do futuro, de um estado a outro, de um mundo a outro. Sua dupla face significava que ele supervisionava tudo, tanto as entradas e as saídas como olhava para o interior e para o exterior. Neste sentido, Janus é a encarnação do próprio princípio da vigilância que pode se constituir também na imagem de um imperialismo sem limites. Sua figura bifronte está sempre nos arcos, nas portas, nas galerias, nos lugares de passagem. Alguns mitólogos fazem referência a um Janus quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do universo. 

A cabeça de Janus passou a alguma culturas como o símbolo da ambiguidade, algo assim como uma lâmina que tem dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus é considerada como a união do positivo e do negativo, qualidades que estão em todas as situações e ações humanas. Entre os romanos antigos, a cabeça bifronte de Janus era também um símbolo da vigilância (pessoas que têm “olhos na nuca”). Aos poucos, porém, esse sentido se perdeu para dar lugar ao da falsidade, como no caso da pessoa que tem “duas caras”, pessoa não digna de confiança, a que oculta o seu verdadeiro eu.    

DESTRUIÇÃO  DO  TEMPLO  DE  JERUSALÉM
( NIKOLAI   GE , 1831 - 1894 )
Entre os judeus, Tevet é o mês de Capricórnio, relacionado com a montanha e, no corpo humano, com a raiva e o fígado. O nome Tevet indica uma carência, uma falta de influência divina. Foi durante este mês que o cerco que levaria à destruição de Jerusalém começou; durante o mês de Tamuz, brechas foram abertas nas muralhas da cidade; em Av, o templo foi destruído. Assim, Tevet (Capricórnio), Tamuz (Câncer) e Av (Leão) são considerados pelos judeus como meses de influências negativas.

CHANUKÁ  ( CHAGALL , 1887 - 1985 )
Tevet é o décimo mês lunar do calendário hebraico a contar de Nissan, mês do Êxodo, ou quarto mês a partir da festa de ano novo (Rosh ha-Shaná). Tevet começa geralmente na segunda metade de dezembro. A festa de Chanuká (festa das luzes) estende-se até os primeiros dias deste mês. Em seu oitavo mês foi completada a tradução da Bíblia para o grego pelos setenta e dois sábios. A história desta tradução está narrada numa obra grega (carta de Arísteas). Por ela ficamos sabendo que a Torá, no séc. III aC, foi traduzida e passou a fazer parte da biblioteca do imperador egípcio Ptolomeu Filadelfo, em Alexandria. O sumo sacerdote de Jerusalém enviou setenta e dois sábios (seis para cada tribo) que fizeram a tradução, que impressionou bastante o imperador. Os rabinos consideraram, entretanto, a tradução uma tragédia, pois não a viram como correta, apenas um texto para uso dos gentios. No dia dez de Tevet se realiza um jejum público para lembrar o cerco de Jerusalém pelos babilônios, cerco este que deu origem à destruição do primeiro templo. Este dia de jejum é o único no calendário judaico que pode cair numa sexta-feira. 

O elemento terra aparece associado a Tevet, simbolizando o vagaroso poder de materialização que nele predomina. Entretanto, é dentro da terra que o poder de sustentação da vida está contido, assim como é dentro do fígado que está o sangue novo, fonte de energia do corpo humano. Segundo algumas tradições, os meses de Tevet (Capricórnio) e de Shevat (Aquário) correspondem aos dois olhos. Este entendimento decorre do fato, segundo tais tradições, de serem os olhos humanos os órgãos que mais facilmente afastam o homem da espiritualidade, segundo o ditado: O olho vê, o coração deseja.

Segundo a astrologia judaica, os olhos correspondem a dois meses do verão, Tamuz e Av, e, por essa razão, por ação reflexa, se ligam a dois meses do inverno, Tevet e Shevat. O atributo natural de Tamuz é a visão, sentido dependente do olho, lugar onde o mal encontra a sua primeira base de influência. Este signo aparece associado ao caranguejo, lembrando, por isso, movimento e flutuação. 

O astro que se associa a Tevet é Shabtai, Saturno, nome que etimologicamente lembra limitação, inatividade, razão, confirmando-se as tradições, pelas quais ele dá lugar a que as influências destrutivas do mal se manifestem. No seu aspecto positivo, Saturno representa a compreensão profunda, a erudição, e a contemplação, associada ao Shabat, na medida em que refreia a atividade mundana para permitir a experiência do transcendental. A expressão negativa deste signo, segundo a astrologia judaica, está no fato de ser Tevet para os cristãos um mês festivo, pois está na base da religião cristã, religião que quanto mais se difundia maior a perseguição e o sofrimento dos judeus.

A tribo relacionada com este signo é a de Dan, que tem a ver com o poder do severo julgamento. Dan, nome que quer dizer julgamento, é o sétimo filho de Jacó e o primeiro de Bilha (escrava de Rachel), ancestral de uma pequena tribo que se instalou em Leshem, perto da nascente do rio Jordão, no extremo norte de Israel. Sansão foi o
ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( MARC  CHAGALL )
mais célebre dos descendentes desta tribo. No acampamento dos judeus, no deserto, a tribo de Dan ocupava um território onde o Sol se escondia, o norte, associado a Satã, ao mal, lugar do infortúnio, de obscuridade e morte, como o atesta Jeremias: é do setentrião que a infelicidade se espalhará  sobre todos os habitantes do país. Em muitas catedrais e igrejas cristãs, a porta do norte é conhecida como a porta do Diabo. O norte, para os judeus, é uma direção associada à acumulação de riqueza; foi dela, conforme explica a Midrash (método de interpretação bíblico), que a tribo de Dan recebeu o ouro com o qual contribuiu para a confecção do bezerro de ouro. 


Segundo os judeus, os nascidos no mês de Tevet costumam demonstrar uma forte inclinação para amealhar riqueza material. Esta tendência está expressa na letra Ayin, a letra deste mês, bem como está associada ao olho direito. Os judeus, durante a sua vida, devem prestar especial atenção neste mês à função espiritual da visão, conforme está em Isaías (cap. 40, 26): levantai vossos olhos ao alto e vede que criou esses corpos celestes: quem faz marchar em ordem o exército das estrelas e as chama a todas pelos seus nomes: pela eficácia da sua fortaleza, e força, e poder, nem uma só faltou. 

O mês de Tevet tem como atributo emocional a raiva (rogez), que tem o mesmo valor numérico da palavra Yirah, orgulho e consciência inspirada. Isto pode ajudar alguém a direcionar a energia de sua raiva orgulhosa contra a inclinação ao mal. A palavra raiva (rogez) é também numericamente equivalente à palavra poder (gevurah). O Mal usa o poder para vencer a santidade de Israel. A vitória sobre os atributos negativos do mês de Tevet pode trazer a uma pessoa um grande crescimento espiritual. A letra Ayin, acima mencionada, conforme certas tradições, representa também o poder de Esaú; sua forma, agachada e curva, simboliza a queda de Esaú.

Esaú, lembremos, em hebraico é peludo, felpudo, filho de Isaac e de Rebeca, apelidado O vermelho, considerado como o ancestral dos edomitas. Ávido de poder, trocou a sua primogenitura com seu irmão gêmeo e mais novo, Jacó, sendo depois privado da benção

SITRA   ACHRA 
paterna em razão de conflitos com o irmão. Assassino, estuprador e adúltero, Esaú morreu quando um neto de Jacó, durante os funerais deste, cortou-lhe a cabeça. Entre os judeus, Esaú simbolizou primeiramente o cruel império romano e depois, na Idade Média, o mundo cristão, pela sua postura antagônica com relação aos descendentes de Jacó. Entre os místicos, Esaú representa o Sitra Achra, o lado do Mal.

Os filisteus (povo semítico, talvez originário de Creta ou do sul da Ásia Menor; por volta de 1.200 aC), instalaram-se nos territórios sírios e palestinos e no norte do Egito; aniquilaram os hititas, fundaram várias cidades, dente elas Gaza; exerceram sempre muita pressão sobre Israel, o que contribuiu para fazer dele uma monarquia; no final do séc.VIII aC, foram submetidos pelos assírios), astrologicamente, são representados para os judeus pelo signo de Capricórnio. Desejando purificar a má influência da origem de sua mulher filisteia, lembram os judeus que Sansão, da tribo de Dan, deu-lhe de presente uma cabra.

Segundo a astrologia judaica, a influência de Capricórnio atinge negativamente Israel só se negligenciados ou esquecidos os preceitos da Torá. Particularmente importante neste mês é a influência do patriarca José, cuja história (sua estada no Egito) é sempre lida ao final do shabat, destacando-se a insegurança que ele deve ter experimentado enquanto vivendo no país dos faraós, um traço capricorniano, segundo os judeus. Durante os meses de Tevet e Shevat são lidos também trechos do livro do Êxodo. A influência de Sagitário em Tevet é representada por José e é enaltecida na festa da Luzes.


CABRA
Para os judeus, a cabra é, dentre todos os animais que vivem em rebanhos, o primeiro a avançar quando chega a um pasto. Essa afirmação está baseada no Talmud, maneira de agir que se confunde com o próprio processo da criação. Antes havia trevas, agora há luz, concluem os judeus. A natureza da cabra, no sentido de tomar a dianteira, assemelha-se à natureza dos capricornianos. Esta postura, porém, tanto pode significar, como eles a consideram, impulso em direção da espiritualidade como em direção da impureza material. Quanto ao primeiro, há que se remover todos os obstáculos quando a meta é a vida espiritual. A grande santidade de Capricórnio está no valor numérico da palavra gdee (cabra), dezessete, o mesmo valor numérico da palavra tov, divindade. 

É preciso lembrar que os judeus não vêem o bem e o mal como forças independentes, mas produzidas pelo próprio Deus. Encontramos em Isaías: Eu formo a luz e crio a escuridão. Eu faço a paz e crio o mal. Muitos rabinos recomendam que uma bênção
SAMAEL
deve ser proferida tanto na ocorrência do bem quanto do mal, pois tudo o que Deus faz é feito no sentido do bem. Na Idade Média, muitos filósofos judeus consideravam que o mal era tão somente a ausência do bem. A Cabala, entretanto, afirma que a fonte do mal está no Sitra Achra, o Outro Lado, sempre em conflito com as forças do bem. O Sitra Achra é o nome genérico das forças demoníacas, estruturadas de modo sefirótico. Esse Outro Lado não tem energia própria, sendo um parasita da luz divina, uma espécie de antimatéria. É governado por Samael, príncipe dos demônios, e por Lilith, gênio feminino do mal.   

O mal que os filisteus sempre representaram para o povo judaico sempre apareceu associado a Lilith e ao poder que ela tem sobre o reino do desejo. Dalila, que Sansão tentou subjugar, é uma manifestação desse poder. Sansão, como sabemos, é um herói bíblico nazirita que viveu no tempo dos Juízes, oriundo da tribo de Dan. Dotado de força extraordinária, realizou proezas que o
SANSÃO MATA LEÃO (CHAGA
tornaram célebre entre o povo de Israel. Matou um leão com as suas próprias mãos e pôs em fuga os seus inimigos, atacando-os com a queixada de um asno. Sua mãe foi avisada pelo anjo Uriel que teria um filho, a ser educado no caminho da religião, pois ele livraria Israel da opressão dos filisteus. Vitimado, porém, por violentas paixões sexuais, acabou sendo entregue aos filisteus por uma de suas amantes, Dalila. Aprisionado, seus olhos foram vazados, sofrimento que lhe coube como uma punição, um castigo divino, assim entendiam todos, por ter sempre cedido às tentações da luxúria que eles lhe traziam. Enquanto aprisionado em Gaza, cego, as mulheres iam visitá-lo na sua cela, para com ele ter relações sexuais, na esperança de  ter um filho tão forte quanto ele. Sabemos que Sansão fez com que o templo filisteu desmoronasse, rompendo as colunas que o sustentavam. Sua morte, para os judeus, teve sempre a característica de um martírio altruísta.


Para a astrologia judaica, o nome de cada signo ensina o processo pelo qual a alma de cada um dos tipos zodiacais pode ser aberta para o divino. A imagem de uma flecha sendo disparada (Sagitário) guarda analogia com a saída da alma do mundo infernal. Esta flecha encontra a sua estabilidade em Tevet, Capricórnio, o tempo de autodisciplina e de preparação para a iluminação. Este processo alcança o mês seguinte, Shevat, Aquário, com a ideia de retidão. 

Negativamente, Tevet pode trazer influências de caráter depressivo, que levem à solidão, ao auto-confinamento. As letras da palavra gdee (cabra) podem ser arranjadas de modo a formar geed, falo. Para os judeus, o uso inadequado deste último, no sentido de desejo, gera ocasiões em que o bem é removido de sua normal posição neste signo. O símbolo da pureza capricorniana é o tsadik (homem justo, probo, personificado como José), cuja energia possibilitou a vitória que a festa das Luzes simboliza, corrigindo-se o que de mal houver em Tevet. José, como se sabe, venceu a tentação do olhar que, dentre outras coisas, leva ao adultério. O poder para a vitória sobre esta tentação está escondido no povo de Israel, sendo ele chamado por isso de reminiscência de José pela tradição religiosa.



CONSTELAÇÃO   DE   CAPRICÓRNIO 

A constelação de Capricórnio estende-se hoje de 2º a 24º Aquário, sendo suas estrelas pouco significativas astrologicamente. Sua principal estrela (alfa) é Giedi, também chamada de Algedi, num dos chifres da cabra, de magnitude ligeiramente superior a 3, hoje a cerca de 3º10´ de Aquário. Este nome é retirado de Al Jady (A Cabra), o nome árabe da constelação. Ptolomeu viu nela influências da natureza de Vênus e de Marte. Há nela também alguns traços uranianos, que sugerem acontecimentos inesperados, às vezes violentos e agressivos, dependendo, é claro, de sua posição e aspectos. A estrela beta de Capricórnio é dupla, Dabih Major e Dabih Minor, na base do chifre. A estrela gama é Nashira, a Afortunada, na região da cauda da figura. Com exceção da primeira estrela mencionada e de Deneb Algedi, estrela delta, as estrelas de Capricórnio não têm maior expressão astrológica. A rigor, a única levada em consideração é esta última, a 22º50´ de Aquário, situada na cauda da cabra, com magnitude 3,1. Entre os árabes é Al Dhanab al Jady (a cauda da cabra). Ptolomeu a relacionou com Saturno e Júpiter, lembrando legalidade, tempo, justiça, sabedoria que protege e que auxilia, vontade de ajudar liderando. Para que estas
LE   VERRIER
características ganhem relevo e destaque é necessário que Deneb Algedi mantenha de algum modo relações positivas com o signo de Libra e com planetas que nele se encontrem. Um fato curioso com relação a Deneb Algedi é que o astrônomo Le Verrier manifestou sempre seu descontentamento com relação às efemérides de Urano, descoberto em 1.781.
GALLE, 1912-1910



Achava Le Verrier, na década de 1840, que havia um elemento perturbador da órbita uraniana, uma massa desconhecida, a 5º na direção leste de Deneb Algedi. Poucos anos depois (1846), com base nesta indicação, o astrônomo Galle descobria o planeta Netuno.









  

quinta-feira, 6 de abril de 2017

CÂNCER (1)

               
                                                

Quando o Sol, no mês de junho, ingressa na constelação de Câncer começa no hemisfério norte o verão. A essa data dá-se o nome de solstício de verão, atingindo o Sol o maior grau de afastamento angular do equador, no seu aparente movimento no céu.  Solstitium, em latim, quer dizer parada do Sol (stat, parada). Tem-se a impressão, ao se tornarem os dias cada vez mais longos, que o Sol permanecerá para sempre brilhando com tal intensidade.  Estamos no momento em que a luz se prepara para atingir a sua plenitude máxima no ciclo anual, o que ocorrerá quando do ingresso solar na constelação seguinte, de Leão, o signo do esplendor luminoso. Em dezembro, no hemisfério norte, ao ingressar o Sol na constelação de Capricórnio, teremos o início do inverno (solstício de inverno).




A estas datas solsticiais, que marcam no hemisfério norte o início do verão (junho) e do inverno (dezembro), devemos acrescentar as equinociais, que, em março e setembro, marcam, respectivamente, o início da primavera (ingresso do Sol na constelação de Áries) e do outono (ingresso do Sol na constelação de Libra). Equinócio vem de aequinotium, de nox, noctis, noite, e aequae, igualmente. Nas datas equinociais, os dias e as noites têm a mesma duração. 

Os antigos romanos consideravam o seu deus Janus como

do
no das portas solsticiais. Esta divindade, no panteão romano, fazia parte de um grupo chamado de indigetes, divindades consideradas autenticamente nacionais, por oposição ao grupo dos novensiles, divindades importadas, na maioria da Grécia. Os indigetes relacionavam-se na sua origem com os espíritos muito presentes nos cultos da natureza dos povos que ocupavam a península itálica antes do domínio romano, etruscos, sabinos, latinos e outros, povos que Vergílio homenageia nas suas Geórgicas




Os chamados indigetes, no mundo romano, pelo menos nos primeiros séculos da formação da grande urbs, conservavam uma estreita ligação de dependência com os  espíritos protetores da natureza, que encarnavam as forças  nela presentes. É desse mundo que vem Janus, um espírito que vivia em todas as portas, tanto nos grandes portões das cidades como nas portas das casas. Com o tempo, Janus acabou por adquirir poder sobre tudo o que significasse a ultrapassagem de um limiar,  inclusive sobre tudo o que viesse a ser iniciado pelos homens, uma ação, uma atividade,  um culto, uma cerimônia,  pela celebração das principais datas do calendário. É por essa razão que os romanos deram o nome de janeiro (januarius), numa homenagem a Janus, ao primeiro mês do ano. 

Por outro lado, é bom lembrar que a porta é um elemento importante como símbolo da passagem de um lugar a outro, de um estado a outro, das trevas à luz, se quisermos. São de Janus os portões das vias de acesso que permitem o ingresso nos lugares
GÁRGULAS ( NOTRE-DAME, PARIS )
santificados, sejam templos, catedrais, capelas, inclusive florestas, grutas ou cavernas. Lugares que são, desde sempre, um convite para que participemos dos mistérios que encerram. Geralmente protegidos na sua entrada e paredes laterais por animais fantásticos, dragões, leões,
O  OUTRO  LADO
( G. DE CHIRICO ) 
touros, por cenas de sexo, gárgulas etc., as entradas e os portões desses edifícios, uma vez ultrapassados, nos propõem a abstração de nossa personalidade e de nossos apegos materiais para que um novo eu possa nascer. Ultrapassar portas sempre significou em antigas tradições o abandono de velhos conceitos, ideias, esquemas, afetos. Abertas, as portas  significarão acolhida, convite a se descobrir o que existe no interior do edifício. Fechadas significarão isolamento, aprisionamento, rejeição, exclusão e também proteção. 


Com o tempo, Janus, como se disse, adquiriu poder sobre ao que os romanos deram  o nome de initium. No plural, initia, palavra que designava o princípio de uma ciência, de uma religião de mistério, os objetos nela usados, suas cerimônias, bem como os sacrifícios e os auspícios a elas referentes. A etimologia mais remota de Janus está numa raiz indo-europeia, ya, que quer dizer passar, transitar. O signo de Câncer era, nesse sentido, uma porta de passagem, de um subciclo (primavera) para outro (verão), no ciclo anual. No mundo romano, passagens abertas eram chamadas de iani, nome que, depois, virou sobrenome, como Otaviani.


LARES
Janus, no panteão romano, é citado (cultuado), via de regra, juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos dos antepassados que perseguiam os vivos, tudo fazendo parte, como fica fácil perceber para quem tem cultura astrológica, do signo de Câncer.  Os Lares, de origem etrusca, com o tempo, devidamente doutrinados através de cerimônias apropriadas, foram transformados em entidades protetoras das famílias e
PENATES
das casas, tendo muito a ver, nesse sentido, com os valores do mundo familiar e cívico e com os seus espaços fisicamente considerados. Os romanos sempre consideraram a sua vida cívica com um prolongamento da sua vida familiar. Os Lares, com o nome de Lares Compitales (comptium, encruzilhada) protegiam as encruzilhadas das principais vias públicas das cidades. Já os Lares Familiaris protegiam as residências e moradias de um modo geral. 



ESTELA  FUNERÁRIA  ( DI  MANES )
Os Manes eram, a rigor, antepassados divinizados, muito encontrados também em todas as tradições. A palavra vem do verbo manare, que significa sair em direção do mundo de cima, isto é, sair do mundo infernal e subir ao mundo dos vivos. Eram antepassados mortos que não tinham se conformado com a morte e que vinham atormentar os vivos, demonstrar a sua insatisfação, sempre queixosos. A queixa, normalmente, era a de que lhes faltara ou fora incompleto o enterro ritual, que a família não cuidara de despachá-los para o Outro Lado adequadamente, costume herdado dos gregos.  Ou, então, o que era pior, as queixas se referiam ao fato de que embora tivessem mudado de condição, consideravam-se ainda presos ao mundo dos vivos. Eram mortos-vivos, gente que havia morrido com ódio no coração, gente tomada por obsessões, ideias fixas, mágoas, remorsos, desejos de vingança. 

LES  FANTÔMES
( LOUIS BOULANGER, 1829 )
Eram pessoas que permaneciam entre a vida e a morte, não conseguindo alcançar o Outro Lado. Manifestavam-se geralmente à noite, fazendo ruídos, abrindo portas, jogando objetos no chão, abrindo ou fechando janelas. A sua doutrinação para que se conformassem com o seu "destino", indo para o mundo dos mortos, do deus Dite, o grande pai do mundo subterrâneo, incluía a oferta de presentes, geralmente mel, vinho e flores. 

Uma distinção: com o tempo, às almas "boas", conformadas, os romanos deram o nome de Lares. Já às almas "ruins" deram o nome de Lêmures, sempre maléficas e inquietas. Costumavam os Lêmures aparecer sob a forma de fantasmas e tinham o prazer perverso de assustar e incomodar os vivos. Essa tradição é encontrada em muitos países. No Brasil, por exemplo, dá-se a essas almas "ruins" o nome de aparição, assombração. São figuras que aparecem e desaparecem inesperadamente, em meio a rumores, a vozes, sons misteriosos, luzes inexplicáveis.


LÊMUR
Uma observação: os nossos zoólogos deram o nome de lêmur a um animal arborícola, muito semelhante aos símios, encontrado na ilha de Madagascar. Difere dos macacos por possuir um focinho parecido com o da raposa, grandes olhos, pelo lanoso e cauda longa e peluda. Os lêmures, que vivem em sociedades matriarcais,  são esbranquiçados, e como espíritos da noite, principalmente os de menor porte, são noctívagos, gostam de fazer diabruras e produzem sons como se estivessem a chamar por alguém. 

Janus tinha caráter nacional e era uma das mais antigas divindades do panteão romano, sempre representado de modo bifronte, uma cabeça com dupla face, voltadas para direções opostas. "Vivia" sempre fixado no alto de colunas ou na parte superior dos portões e das portas, dominando sempre a entrada e a saída dos lugares de passagem. Ainda hoje, em visitas à Itália, podemos encontrar Janus em galerias, corredores de passagem, pátios etc. Janiculum foi o nome dado a uma cidade que os romanos levantaram numa das sete colinas de Roma. Relativamente próxima, perto de Janiculum, ficava a imagem de outra importante divindade do panteão romano, chamada Saturnia, em homenagem ao deus Sator, antiga divindade das sementeiras de povos itálicos. Assimilado depois ao deus Cronos dos gregos, Sator passou a ser chamado de Saturno, inventando-se a história de que Cronos, vencido na Titanomaquia (batalha em que os futuros deuses olímpicos, comandados por Zeus, venceram os titãs), expulso da Grécia, escondeu-se na Itália, no Lácio (etimologicamente do verbo latino latere, estar escondido), onde foi acolhido por Janus.    

EIXO  CÂNCER - CAPRICÓRNIO
O eixo astrológico Câncer-Capricórnio aparece na história de Janus quando recolhemos a versão de que ele, Janus, em tempos remotíssimos havia sido um herói que, emigrado da Tessália (Grécia) para a Itália, recebeu do rei Câmeses uma parte do seu reino. Pelo processo de evemerização (mitificação de personagens históricos), este herói foi transformado no deus Janus. Morrendo o rei Câmeses, Janus passou a governar sozinho. Foi nessa condição que Janus acolheu o deus Cronos, expulso da Hélade pelos olímpicos. Essa história revela, por outro, o que chamo de imperialismo retroativo da mitologia grega, ou seja, os gregos, para marcar a sua ascendência sobre todas civilizações mediterrâneas, costumavam colocar as suas divindades nas origens de civilizações que eram anteriores à sua, como aconteceu, por exemplo, com o Egito e Creta. 


CRONOS
Cronos na Itália, como Saturno, tornou-se uma divindade civilizadora, responsável pela chamada Aetas Aurea (Idade do Ouro) no mundo romano. Esta idade (tema encontrado na mitologia de outras civilizações) é descrita historicamente como um período em que os deuses e os mortais viviam muito próximos, período em que havia respeito, honra à palavra dada,  as colheitas eram fartas, praticamente nenhuma dor, nada de doenças, catástrofes, pestes ou fome. O que diferenciava os mortais dos deuses era a morte, à qual os primeiro chegavam placidamente, sem sofrimento algum; chegada a sua hora, deitavam-se e dormiam, uma espécie de sono eterno.  

LAREIRA
Já os Penates eram divindades que guardavam o interior da casa, sendo responsáveis pela lareira doméstica, espaço cuja tutela dividiam com a deusa Vesta, a Héstia dos gregos. Eram também responsáveis os Penates pela despensa da casa, lugar onde se guardavam as provisões (penus). Os Penates gostavam muito de "brincar" com as fagulhas que escapavam da lareira ou mesmo de pequenas achas incandescentes que dela saltavam. 

Desde esses tempos áureos, entretanto, a grande contradição, quando pensamos em Cronos (Saturno), já estava instalada inexoravelmente entre os mortais. Se, de um lado, Saturno era o instaurador da aetas aurea, de outro, como Cronos, era o tempo que tudo devorava, o tempo cujo fluir não parava nunca. A lei de Saturno-Cronos, o senhor do tempo, impunha de modo irrevogável uma imagem móvel da imóvel eternidade. Foi a partir da instauração dessa lei que todo movimento tomou o sentido circular e mensurável, dele fazendo parte um começo e um fim. É neste sentido que Cronos-Saturno acabou por se tornar, com o nome Cosmocrator,  o mestre do tempo universal e de seus ritmos. 


SATURNALIA  ( ANTOINE - FRANÇOIS  CALLET )

O reino de Saturno no Lácio chamava-se Satúrnia. Na Roma antiga, celebravam-se, entre 17 e 23 de dezembro, em sua homenagem as Saturnálias, para relembrar a distante aetas aurea, uma idade de abundância, paz e liberdade. Lembre-se que nos primeiros tempos do cristianismo, aproveitando-se da forte mobilização popular que as Saturnálias provocavam, os cristãos,  para uma melhor aceitação da nova religião que pregavam,  escolheram para celebrar a festa do Natal, a data do nascimento de Cristo, o período em que as Saturnálias eram realizadas. 


JANUS
O reinado de Janus acabou se confundindo com a referida aetas aurea, instaurada por Saturno. No decorrer dos séculos, diversas e maravilhosas histórias foram incorporadas à crônica do deus bifronte. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis januarius como a ele atribuída a tutela de todos os começos, sendo ele invocado, nessa condição, como Janus matutinus, antes de qualquer outra divindade. A primeira prece do latino, ao acordar, era para ele, que abria as portas do dia. 

A festa de Janus era celebrada no dia 9 de janeiro, nele se sacrificando, numa cerimônia que tinha o nome de agonium, um carneiro-guia de rebanho. Evidente, neste cenário, de inspiração astrológica, a relação entre Janus e o carneiro, este sempre entendido como suporte simbólico de muitos mitos, onde entra sempre como representante das forças irrefreáveis e criadoras da natureza, inclusive do instinto de procriação que garante a continuidade da vida.

TEMPLO  DE  JANUS ,
EM  AUTUN , FRANÇA
O principal santuário do deus tinha o nome de Janus Germinus ou Quirinus (palavra que lembra a lança, como arma de guerra) e estava situado ao norte do Forum, diante do templo da deusa Vesta, divindade extremamente importante para a vida cívica e familiar. Vesta, como para os gregos, era a dona do interior da casa, principalmente da lareira, lugar de refeições conjuntas. O templo de Janus permanecia sempre aberto em tempos de guerra, fechando-se-o em tempos de paz.

A principal estátua de Janus estava colocada sob um arco nos grandes portões das cidades de modo a permitir que ele "olhasse" os que nelas entrassem e saíssem, posição que lhe possibilitava exercer a sua função maior, a de porteiro. Como deus dos porteiros, tinha o nome de Janitor e carregava sempre uma chave, seu atributo, levando nas mãos um bastão (virga) para afastar as intromissões molestas como cães, pedintes, bêbados etc. Nessa função, acrescentavam-se ao seu nome os sobrenomes Clusivius (o que fecha) e Patulcius (o que abre). Deus ambivalente, deus dos deuses de Roma, Janus controlava as passagens e as transições, marcando a evolução do passado em direção do futuro, permitindo que se passasse de um estado a outro, de um mundo a outro. Para o povo, era mais importante que Júpiter e, mesmo, que Marte. 


TEMPLO  JANUS  QUADRIFONS,
COLINA  DE JANÍCULA
Simbolicamente, Janus é a encarnação do princípio da vigilância. O imperialismo romano encontrou nele uma de suas melhores imagens na medida em que ele via tudo, observava  tudo, controlava tudo, o que estava atrás e o que vinha pela frente. Algumas vezes, o deus aparecia com o nome de Janus Quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do espaço, sendo, como tal, símbolo da prepotência e do totalitarismo. Este aspecto de Janus o aproxima
THOMAS  HOBBES
bastante de Cronos, na medida em que este dá e concede tudo, como grande provedor, como sua história nos conta, mas, por outro lado, como Grande Pai é ele quem impede as mudanças e afasta ou elimina possíveis sucessores. Uma tentação na qual caíram e cairão todos os que, conforme a História vem comprovando ao longo dos séculos, ignoram ou teimam em não reconhecer que a natureza do ser humano se explica muito mais por Hobbes do que por Rousseau.

A cabeça de Janus em algumas culturas passou a ser considerada como um símbolo da ambiguidade, algo assim como uma faca de dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus pode ser considerada como união de contrários, do positivo e do negativo, qualidades que estão presentes no universo tanto no ser humano e sua situação como nas suas ações. A expressão "ter olhos na nuca", ou seja, ver o que está atrás e na frente, vem da história desse deus. Aos poucos esse sentido se perdeu ou se atenuou para dar lugar ao de falsidade, como no caso da "pessoa que tem duas caras", pessoa não digna de confiança, que oculta o seu verdadeiro eu. 

SÃO  JOÃO  BAPTISTA
 ( RAFAEL  DI  SANZIO )
No cristianismo, os dois santos de nome João podem ser associados a Janus, na medida em que abrem as portas solsticiais. Um deles, ligado ao verão, é João Baptista (festa a 24 de junho), chamado de arauto de Cristo. O outro é João Evangelista (festa a 27 de dezembro), ligado ao inverno. No Evangelho de São João, encontramos referências astrológicas sobre esta questão solsticial a partir do versículo 27 do 3º capítulo quando João Baptista se "apaga" (abertura da fase descendente do Sol) numa atitude de espera de
SÃO JOÃO EVANGELISTA
( EL  GRECO )
alguém, maior que ele, que virá (Câncer, como sabemos, é o signo do "eu que virá"). No versículo 30, encontramos: Ele deve crescer e eu diminuir. Quando o Sol chega a Capricórnio, 21 dezembro (a noite mais longa do ano), ele atinge a declinação sul máxima com relação ao hemisfério norte, mas também esse é o momento em que ele começa a "subir" de novo. Ou seja, quando o Sol na sua marcha anual entra em Capricórnio começa o solstício de inverno no hemisfério norte e o solstício de verão no hemisfério sul.    

domingo, 27 de março de 2016

SATURNO (3)

                                          
Antes da chegada de Cronos à península itálica, havia uma antiga divindade chamada Consus, que atuava, na região central da Itália, como deus da vegetação, do bom conselho e das sementeiras. Seu nome parecia ter relação com o verbo condo, que significa estabelecer alguma coisa (uma cidade, por exemplo), com a palavra absconsus, que tem o sentido de esconder longe de, retirar da vista, e com o verbo consulo, deliberar, refletir, ser prudente, saber aconselhar. 



CONSUALIA

Suas festas eram as Consualia, com duas cerimônias distintas: numa primeira, celebrada a 21 de agosto, depois das colheitas, Consus aparecia associado à deusa Ops (opiconsivia), festas nas quais havia corrida de carros e de cavalos, divertimentos diversos e danças. A segunda festa se realizava no dia 15 de dezembro, depois das sementeiras, também com jogos e divertimentos. Foi durante as Consualia que ocorreu o famoso episódio do rapto das sabinas pelos romanos.  


OPICONSIVIA

Saturno tem duas faces entre os romanos. Pode ser considerado como uma antiga divindade agrícola, originária do mundo latino, e pode ser visto também como um deus novensile, isto é, importado da Grécia, o Cronos grego, derrotado na Titanomaquia, que chegou à Itália e ali teve o seu destino unido ao do deus Janus. O nome Saturno, nesse sentido, encontra as suas raízes nas palavras latinas satur, saciado, farto, ou sator (semeador), sendo sinônimo de abundância em ambos os casos. 


TITANOMAQUIA

Na Itália, Saturno é o deus dos trabalhadores do campo e dos viticultores (vitisator). Sob o nome de Stercutius ele vela pela estrumação dos campos. Sempre aparece associado à deusa Ops, uma personificação das riquezas da terra. Esta deusa sempre foi considerada como a esposa do deus. Seu nome deriva da palavra opus, obra, trabalho, atividade que produz riquezas, que gera abundância. Suas festas se realizavam nos mesmos dias das Consualia (15 de agosto e 21 de dezembro). Seu culto, de origem sabina, foi introduzido na Itália pelo rei Tito Tácio.

Saturno sempre foi considerado entre os romanos como rei da Itália durante a Aetas Aurea. Expulso por Júpiter dos céus, teria se escondido na região romana, perto do Capitólio. Suas grandes festas eram celebradas a partir do dia 17 de dezembro, ligadas desde tempos muito remotos a três festividades campestres: sementivae feriae, consualia larentalia e puganalia. As primeiras, como o nome indica, eram celebrações relacionadas com as sementeiras; as seguintes tinham a ver as mencionadas Consualia e com as Larentalia.

ACCA   LAURENTIA
As Larentalia, também chamadas Accalia, eram festas que se celebravam em hora de Acca Larentia, que, na mitologia, era a mulher do pastor Fáustulo, que encontrou Rômulo e Remo às margens do rio Tibre. Morrendo um dos doze filhos de Acca Larentia, Rômulo assumiu o seu lugar e instituiu um colégio sacerdotal com os outros onze irmãos, chamado Arvais (de aruum, campo lavrado), que não só cultuaram depois
CARMENTA


a memória da mãe quando do seu falecimento como se encarregavam de realizar sacrifícios para favorecer a fertilidade dos campos. Os cânticos dos irmãos Arvais tinham o nome de carmina (nome proveniente de Carmenta, antiga deusa das profecias); eram fórmulas mágicas rituais que tinham a finalidade de aumentar as lavouras e de garantir a sua proteção. 




FAUSTUS   E   ACCA   LAURENTIA   ENCONTRAM   RÔMULO   E   REMO 



JANUS   BIFRONTE
( BRITISH   MUSEUM )
Ovídio nos conta que Cronos foi acolhido no Latium, nome que, segundo ele, viria do verbo Latere, estar escondido. Nessa região, perto do Capitólio, fundou ele uma cidade fortificada a que deu o nome de Saturnia. Quem o acolheu foi um dos mais antigos deuses indigetes (não importados), Janus, o deus bifronte. Ao lado da cidade de Saturno, Janus tinha a sua fortaleza, chamada de Janículo.

Dividindo fraternalmente o poder, as duas divindades governaram o país, sendo conhecido, em Roma, o período em que ambos atuaram juntos pelo nome de aetas aurea, um período no qual os poetas sempre viram progresso, honestidade, liberdade, paz e abundância.

Como grande promotor da civilização que ali então se instalou, Saturno transmitiu ao povo do lugar, ampliando bastante a obra de Janus, o conhecimento do cultivo dos campos, da construção de casas e deu aos homens leis justas e sábias. Virgílio nos fala desse tempo no qual não se ouvia a trombeta bélica nem o som metálico das espadas sendo forjadas nas duras bigornas. 

Saturno era representado normalmente como um homem maduro, de barbas, empunhando uma foice. Embora com este instrumento nas mãos, sempre associado à castração, à mutilação e à ceifa de tudo o que existia, Saturno nunca apareceu, entre os romanos, com o aspecto soturno e sinistro do Cronos grego.

Historicamente, sempre permaneceu viva entre os romanos ao longo de sua história a propensão para venerar uma energia misteriosa, chamada de força vital, que comandava a vida universal, movimentando tudo, os ciclos da natureza e os seus reinos. De outro lado, havia a vontade do ser humano, uma vontade que ele deveria procurar conciliar com tal energia se ela lhe fosse propícia ou procurar desviá-la ou paralisá-la se ela lhe fosse negativa. 

Estas ideias explicam também a tendência dos romanos de venerar , como deuses ou gênios, as expressões particulares dessa energia misteriosa, nos mínimos aspectos da vida em que ela intervinha. A esses aspectos era dado o nome de numina (vontade divina, assentimento); a eles era concedido sempre um gesto de respeito, uma oferenda, alguma oração. Era o numen que fazia com que a criança pegasse o seio da mãe, o outro que a fazia beber; um numen intervinha quando a semente era enterrada ou quando se amarrava o feixe do trigo. Esta disposição mental nunca desapareceu da vida romana e acabou por levar à divinização muitas abstrações e atributos alegóricos. Sempre, pois, uma tendência dupla entre os romanos: generalização e fragmentação infinita do divino.

O homem romano dos primeiros tempos (sécs. VII e VI aC) era um camponês, sendo sua vida muito afetada por valores saturninos. Esses valores eram acrescentados ao culto doméstico; falam sempre
CATÃO , O   VELHO
de aumento do domínio territorial, do anseio de preservar e fazer prosperar os rebanhos e as plantações. Há um tratado de agronomia desse tempo, atribuído a Catão, o Velho, que nos fornece pormenores numerosos e precisos sobre as festas a celebrar, os sacrifícios a realizar, as orações a recitar etc. Cada ato da vida agrícola devia ser acompanhado sempre de um ato religioso que solicitava o seu êxito ou procurava apaziguar o descontentamento da divindade do lugar.


As preocupações agrárias penetraram profundamente a religião oficial. Os maiores deuses do panteão romano sempre se associaram à vida dos campos. Existia, por exemplo, um Júpiter Liber como deus do vinho novo. Marte era o deus protetor do trabalho agrícola e de seus produtos. O nome Saturno, para muitos, derivava-se de sata, palavra que significa “terras semeadas”. 

Saturno sempre deu sustentação, através de dois de seus principais valores, o pai de família e a vida agrícola, à vida religiosa romana dos primeiros séculos da cidade. A aetas aurea do mito explica-se: uma existência assegurada pela continuidade da família agrupada em torno do seu chefe. Isto explica também porque a religião desses primeiros tempos incorporou o pensamento jurídico (Saturno se exalta em Libra), a preocupação pelos interesses materiais, o sentido realista dos proprietários de terras e de chefes de família. 

Desde 500 aC já temos registros de um templo dedicado a Saturno em Roma e de festas celebradas em seu nome, as Saturnalia, que lembram muito as festas de ano novo no oriente em  várias culturas. Com estas festas se procurava fazer com que uma idade de ouro fosse periodicamente revivida, dela participando toda a população da cidade. Nas Saturnalia, como elementos importantes, tínhamos as “presenças” divinas entre os mortais, o chamado convivium publicum, a abundância coletiva e a eliminação da barreira entre as classes. O festim público, patrocinado pelo Estado, tinha um objetivo principal, provocar o deslumbramento das classes inferiores (escravos e trabalhadores). Por uns dias, vivia-se o otium da idade de ouro sob a tutela do saturnalicius princeps, que pontificava em desfiles de características carnavalescas. 



No período das Saturnalia, os mortais, mesmo os de nível social mais baixo, afastavam-se das fadigas e das preocupações do seu penoso dia-a-dia, para viver alegremente por duas semanas. Por volta de 220 aC as Saturnalia foram transformadas nas maiores festas de Roma, vivendo a cidade esse período dourado com grande fartura. 

Se procurarmos nos aproximar de tudo isso mais objetivamente não poderemos deixar de concluir que as Saturnalia representaram sempre uma grande jogada política que tinha o objetivo de reafirmar a unidade nacional e a glorificação do país diante de ameaças externas como o poder cartaginês e a segunda guerra púnica. O Senado romano manobrou magistralmente, apelando para o culto religioso com a finalidade de garantir a unanimidade nacional. Desde então, as Saturnalia, por uns poucos séculos mais, a Saturnia Regna, ainda se mantiveram como símbolo da esperança e do renascimento. Estas ideias foram certamente as inspiradoras dos primeiros cristãos, que se valeram das Saturnalia, que se estendiam de meados de dezembro aos primeiros dias de janeiro, para nelas fixar o Natal, o nascimento de Cristo, no dia 25 de dezembro. 


MITHRA   CRIANÇA
Outra “colaboração” para o Natal cristão foi a festa celebrada em Roma em homenagem ao deus solar persa Mithra. Esta festa foi implantada em Roma no primeiro século da era cristã e se tornou tão popular que, durante o reinado de Aureliano, em 274, o culto a Mithra foi declarado como religião oficial do Estado, fixando-se a data 25 de dezembro para as devidas celebrações, festa do Sol Invictus.

Lembre-se que para impor o Natal cristão os Padres da Igreja fizeram uma opção entre cinco datas, 25 de dezembro, 1º de janeiro, 6 de janeiro, 25 de março e 20 de maio. Nestes primeiros tempos, a festa do Natal se resumia à celebração de uma missa no dia 25 de dezembro, que “honraria não o Sol dos pagãos, mas o Criador do Sol.” Só no ano de 337 a festa de Natal cristã tomaria a sua forma definitiva, ano em que o imperador Constantino foi batizado, unindo-se desde então a Igreja e o Estado. 



O maior responsável pela consolidação de Saturno como divindade nacional foi o poeta Virgílio; na sua quarta Bucólica, em latim também chamada Eclogae, a sua primeira grande obra, o poeta põe em cena a vida pastoril e fala do futuro glorioso de Roma. Saturnus Rex não é evidentemente o fundador de Roma (Janus o antecedeu), mas na voz do poeta Saturno se transforma no grande construtor do mundo romano e ancestral de uma genealogia que, atravessando séculos, chegará até Augusto.  

Lembre-se que o solstício de inverno sempre teve uma grande importância para os povos europeus, pois era ele que abria a fase ascendente do ciclo anual, enquanto o solstício de verão abria a fase descendente. Daí o mito de Janus e das portas solsticiais, representadas pelas duas faces do deus. O solstício de inverno era o momento do ano em que o mundo dos vivos e o mundo dos mortos se comunicavam entre si. Na tradição cristã, passou a ser usada nesse período de encontro entre os dois mundos a fogueira de Natal, cujo objetivo era o de lembrar que Jesus nascera num estábulo glacial (cenário tipicamente canceriano, embora Câncer marque o início do verão) e que não tinha para aquecê-lo senão, além da fogueira, o bafo de um boi e de um asno. Acreditava-se também que do nascimento de Cristo teriam participado os anjos, que se aqueciam perto da fogueira. Dessa concepção natalina saiu a ideia muito espalhada em algumas nações cristãs de que os pais poderiam deixar as suas crianças sozinhas na noite de Natal, para irem à missa da meia-noite, pois os anjos cuidariam delas.

A fogueira de Natal que ardesse sem problemas tinha as bênçãos do céu. Quando dela escapavam muitas faíscas, os presságios de boas colheitas eram favoráveis. Além do mais, o carvão proveniente das achas que haviam queimado nessa fogueira poderia ser usado para curar várias doenças durante o ano, principalmente as de estômago; as cinzas protegiam também contra acidentes e tempestades e, depositadas nos telhados, afastavam feiticeiras.  

Na tradição cristã europeia, o período entre 25 de dezembro e 5 de janeiro (véspera da festa dos Reis) era até o início da era moderna (séc. XVIII) particularmente rico de superstições. A reputação mágica deste ciclo de doze dias, atestada desde o séc. IV dC, provém da importância do Natal e da Epifania, dia da manifestação de Cristo aos três Reis Magos e de seu batismo, que, na tradição da Igreja do Oriente, corresponde à celebração da Natividade. Do Natal à Epifania, do nascimento secreto à manifestação pública e universal simbolizada pelo testemunho dos Reis Magos, temos um tempo de maturação, de crescimento, de transformação. Epifania, epiphaneia, em grego (epi, sobre, por cima; phaneros, visível), é a primeira manifestação de Cristo como filho de Deus e também a festa religiosa em que se comemora este acontecimento. 


REIS   MAGOS

Além do caráter religioso destas datas e do período entre elas, considerados dias santificados, desde o séc. VI (Concílio de Tours), celebrava-se também a passagem do velho ao novo ano, marcada esta passagem por numerosos ritos de expulsão de influências negativas e exorcismos. Este período, como aqui se expõe, correspondia ao das Saturnalia em Roma, um período crítico e perigoso. Era o momento em que o céu e a terra se abriam para dar passagem a seres maléficos do Outro Mundo. As almas dos mortos voltavam à Terra, as feiticeiras, os demônios, os seres infernais e os lobisomens erravam a solta pelo mundo. 


SATURNALIA   ( HOWARD  DAVID  JOHNSON )

As proibições e interdições relacionadas com o Natal vêm deste período: evitar tarefas domésticas, não tecer, não costurar, não atrelar os cavalos às charruas. Uma falta cometida num destes doze dias produziria um efeito negativo a ser “colhido” num dos meses do ano. Assim, uma falta cometida no dia 25 seria “colhida” em janeiro; cometida no dia 26, seria “colhida” em fevereiro e assim sucessivamente. Esta mesmas ideias, aliás, são também encontradas na Índia védica; segundo elas, os doze dias que se sucedem ao solstício de inverno seriam a imagem do ano vindouro. Quem nos conta todas estas histórias é Pierre Saintyves, pseudônimo de Émile Nourry (1870-1935), grande antropólogo, escritor, editor e folclorista francês num de seus livros sobre Astrologia popular. 
  


PIERRE   SAINTYVES   ( ÉMILE  NOURRY )

Saturno e o Sol na Astrologia ocidental, como sabemos, sempre apareceram associados à figura paterna. Com relação ao primeiro, porém, esta associação toma sempre um caráter difícil, problemático, tirânico até, mesmo nos aspectos harmônicos que ele estabeleça com outros planetas ou com determinados ângulos de uma carta astral. Dignificado ou não numa tema astrológico, por posição ou aspectos, Saturno levará sempre, favoravelmente ou não, para uma carta astral,  sua maneira de atuar no mito. 

Não há necessidade de conhecimentos especializados da psicologia para se perceber que uma família disfuncional é uma instituição

autorreprodutora. Um Saturno “forte” num mapa tanto pode indicar um pai dominador, controlador, como uma criança que talvez venha a se tornar um pai tirânico. Este tema está, por exemplo, magistralmente desenvolvido no filme Pai Patrão, obra-prima do cinema italiano. A libertação dos padrões saturninos fixados num mapa, para transformação de Saturno em mestre interior, é sempre extremamente difícil e dolorosa. 

Do mito grego, como já se mencionou, nos vem também a passagem da prisão de Cronos no Tártaro. Saturno, num mapa, pode significar a nossa prisão, a nossa imobilidade, num lugar escuro e desolado onde ficaremos acorrentados (parece-se muito com Plutão, neste particular). Queda, banimento, humilhação e isolamento, provocados por forças externas, são conceitos relacionados com Saturno, constatáveis em muitos temas dos que atingiram, sob o ponto de vista material, as alturas, os picos, e caíram.

Na Alquimia, Saturno é estudado no capitulo da coagulatio, operação ligada ao elemento terra e, como tal, lembra forma e posição fixas, dificuldade de adaptação, concentração, condensação, quando não imobilidade. Neste sentido, Saturno tem a ver com os processos de criação de formas de um modo geral (a arte do capricorniano Cézanne é um bom exemplo). Dentre os agentes da coagulação, a Alquimia faz especial referência ao chumbo, sempre associado ao planeta Saturno e ligado, quando pensamos na prática analítica, a temas como depressão, melancolia, frieza, limitação. 



MONT   SAINTE - VICTOIRE  ( CÉZANNE ) 

O chumbo é um metal ao qual já os caldeus atribuíam uma
PARACELSO  -  OPERA   OMNIA
influência funesta, símbolo da inércia. Paracelso, o grande alquimista suíço, falecido em 1541, proclamava que o chumbo era a água de todos os metais e que se os alquimistas conhecessem o que Saturno continha eles abandonariam tudo para se fixar só nele. Não é por acaso que os antigos, desde tempos muito remotos, praticavam a adivinhação através do chumbo fundido, a chamada molibdomancia, que consistia em deixar cair algumas gotas de chumbo aquecido na água e, pelos ruídos que se produzissem ou figuras que se formassem, fazer previsões. O molibdênio é um elemento químico altamente resistente à corrosão e, por isso, usado em aviões, foguetes, mísseis etc. Em grego antigo, molibdaina era qualquer massa de chumbo. 

Segundo registros disponíveis, as primeiras notícias sobre o chumbo datam de 3000 aC, pois, por essa época, alguns povos da bacia mediterrânea já obtinham prata retirando-a dele. A natureza saturnina do chumbo é facilmente constatável quando conhecemos o seu uso como isolante acústico. É muito conhecida a eficácia do chumbo como protetor em recintos hospitalares onde se usa o Raio X e a radioterapia e em salas onde é gerada a energia nuclear. Explica-se: a extrema densidade do chumbo o torna impermeável à irradiação.

Neste sentido, o chumbo, simbolicamente, é o estágio final a que a matéria pode chegar, a matéria que não pode mais passar por
A   GRANDE   OBRA
transformações. Assim, ele tem relação com algo conclusivo, com o fim de um ciclo vital, e, consequentemente, com a velhice e com a morte. Daí o simbolismo alquímico usar a caminhada do inferior (chumbo) ao superior (ouro), a chamada Grande Obra, a Opus, para representar as experiências de transformação pelas quais o ser humano pode passar evolutivamente.


O nosso processo de individuação, a definição de um ego, a nossa autossuficiência e o nosso autocontrole têm a ver com Saturno e o chumbo. No corpo humano, o elemento chumbo, na proporção certa, está ligado a uma ossatura resistente, a cabelos, dentes e unhas fortes. Se Saturno e o chumbo aparecem em excesso os índices da “coagulatio” aumentam; temos endurecimentos, enrijecimentos, formação de cálculos, em órgãos, artérias etc. Saturno (frio e seco) trabalha por contração, endurecimentos, como câimbras, artroses. Se o endurecimento é anímico, temos as chamadas contrações saturninas da alma, medo, temores, apreensões, depressões, esquizofrenia.





O chumbo, como se sabe, é muito venenoso. Não é por acaso que a intoxicação aguda ou crônica pelo chumbo se chama saturnismo ou plumbismo. Na Homeopatia, como remédio, o chumbo entra no Plumbum metallicum, muito usado no caso de distrofia muscular, esclerose múltipla, tabes, ataxia locomotora, depressão, delírio etc. 

A velhice caracteriza o chamado “período chumbo” na vida humana, período no qual o corpo e a alma “endurecem”. Em consequência, afora as naturais limitações de ordem física, as rabugices corporais e as patologias, temos os vários casos de perda de flexibilidade, da nossa capacidade de adaptação, do que popularmente chamamos de jogo de cintura; no lugar, então, o complexo saturnino, a recusa a abandonar ou a perder  aquilo a que nos apegamos ao longo de nossa vida. Permitimos que Saturno nos canibalize como devorava os seus filhos, entregando-nos a estados de frustração, de insensibilidade, de renúncia ou de avidez. Daí os casos de conservadorismo, dogmatismo, opiniões obstinadas, tradicionalismo, teimosia e frieza. O chumbo e Saturno pertencem no ser humano à esfera da realização do eu interior. Seu valor é altamente educativo, pois não se liga àquilo que vem de fora; liga-se, sim, ao que temos de descobrir e trabalhar, no geral penosamente, dentro de nós mesmos.  

Saturno, ao mesmo tempo que nos oferece os arquétipos do parricídio e do filicídio, ele afirma os direitos absolutos do indivíduo, fixado no seu próprio  egocentrismo. A sua dolorosa experiência interior nos põe também diante dos mais variados processos de autopunição, da retirada da libido como procura instintiva do prazer e, consequentemente, de todo dionisíaco orgiástico.

Não será preciso muito esforço para se perceber, quando Saturno atua de modo negativo numa carta astrológica (por signo, casa ou aspecto), como podemos ser canibalizados, devorados. É por isso que quem tem Saturno no ascendente sempre teve muita dificuldade para se sentir jovem. Nunca, na infância, foi certamente uma criança como as demais, jamais conseguindo participar das brincadeiras como elas. Um Saturno numa quarta casa sempre fará com que a criança necessite de uma relação mais calorosa com os pais, que receba deles mais apoio, mais suporte emocional, que eles, objetiva ou subjetivamente para a criança, não sejam tão conservadores e reservados.

Quando Saturno, por exemplo, se relaciona desarmonicamente com a Lua e Júpiter, ele pode produzir um grande desequilíbrio com relação à chamada fase oral de uma criança. Esta fase, como se sabe, é a primeira da evolução libidinal, caracterizada pelo fato da criança (lactente) encontrar seu prazer na alimentação, na atividade da boca e dos lábios. O prazer de sugar (boca), ligado de início a uma necessidade fisiológica, acaba se tornando o lugar de uma atividade autoerótica, que se constitui no primeiro modo de qualquer satisfação sexual. A fase oral é “cabalística”. Esta fase se decompõe na sucção propriamente dita e no seu aspecto sádico, que corresponde ao aparecimento dos dentes e das fantasias da mordida e da devoração. A fase oral está ligada à relação entre a criança e o seio materno, constituindo-se ela simultaneamente em satisfação e frustração. 

Geralmente, os distúrbios entre Saturno e os astros que têm domicílio e exaltação em Câncer assumem, dentre outros, dois aspectos: bulimia (em grego, fome sôfrega) e anorexia (em grego, an, privativo, mais oreksis, apetite, desejo de comer). A primeira, como se sabe, é causada por episódios incontroláveis, acessos de hiperfagia, que independente da anorexia nervosa costumam ocorrer ao menos duas vezes por semana durante alguns meses ou mais. Já a anorexia é muito mais mental ou nervosa, constituindo um quadro mórbido em que alguém diminui a quantidade de alimentos ingeridos, frequentemente eliminando os ricos em calorias, por meio de uma dieta rígida, autoimposta, alternada com crises de bulimia, vômitos ou uso de purgativos.  
  
 Na bulimia, temos invariavelmente a necessidade passiva de amor materno, entrando Saturno no aspecto para produzir uma exagerada necessidade de tomar alimento, de viver sem freios, gerando egocentrismo, preguiça, ciúme, fanatismo. Na anorexia, há sempre uma necessidade concreta da figura materna; normalmente, não há ingestão de comida, a não ser que a mãe se ofereça “espontaneamente” para dar o alimento vital. Neste segundo caso, temos o quadro mais grave, sendo Saturno a fonte do desespero, da insensibilidade, do ascetismo, da separação e da indiferença. 

SATURNO   SENEX
Se nos voltarmos para os casos (aspectos harmônicos) em que Saturno aparece como Senex positivo, temos então os exemplos da sua lenta e segura ajuda no aumento da nossa força interior, da nossa disciplina e responsabilidade. Podem surgir as grandes ambições, sempre de médio para longo prazo, eis que Saturno nunca é imediatista. É nestes casos que ele se torna símbolo das grandes ascensões intelectuais ou espirituais, representado pelo Lycorne.

Saturno indica a direção que tomará na vida de alguém o princípio de autopreservação que, em sua expressão superior, deixa de ser puramente defensivo para se tornar ambicioso e aspirativo. A nossa capacidade de defesa ou de ataque diante do mundo é, mostrada, em grande parte, pela posição de Saturno no nosso mapa. Se Saturno está no mesmo signo em que nele se encontram o Sol e a Lua, a defesa predomina e há sempre o perigo de uma excessiva introversão. Quanto mais distante Saturno estiver do Sol, da Lua ou do Ascendente, melhor para a nossa objetivação e extroversão. Se Saturno se encontra no mesmo signo de Mercúrio, há sempre uma tendência de que nossas reações, diante do que nossos sentidos captam do mundo, sejam profundas, sérias, refletidas. Se Saturno acompanha Vênus, demonstraremos invariavelmente dificuldades, maiores ou menores, no plano de nossos relacionamentos; frieza nas relações afetivas, conservadorismo na nossa vida econômica; está relação costuma aparecer na vida dos que são “felizes nas cartas e infelizes no amor”. Se Saturno está relacionado com Marte, apresentamos geralmente confusão em nossa vida entre atitudes defensivas e agressivas, o que pode trazer alguma sempre indecisão.  Saturno, lembremos, não diz respeito ao que não podemos ter, mas tem relação com aquilo que merecemos ter. Ele governa os atrasos que retardam o que devemos receber ou as privações do que julgávamos que nos era devido. Saturno é tudo o que de negativo que alimentamos nesta vida: é o sentimento de falta, de carência, por mais que façamos; é a detestável tarefa que temos que cumprir. 

Onde quer que esteja Saturno num mapa, é nesse lugar em que aparecerão, cedo ou tarde, as provas, os deveres e as obrigações mais pesados; é nesse lugar (casa astrológica) em que teremos de provar algo a nós mesmos. É nesse lugar em que, com relação aos assuntos da casa, poderemos demonstrar medo, coragem e respeito próprio. Em todas as situações, a verdade de Saturno é a que nos levará a enfrentar os problemas, com determinação e constância. Saturno é tanto o que nos força a fazer uma coisa como aquilo que pode nos dar força para fazê-lo. É neste sentido que os hindus o consideram tanto como o Senhor do Karma como o do Dharma.

Ao agir no mundo deste ou daquele modo ou deixando de agir, omitindo-nos, estamos assumindo o resultado de nossas ações. Karma é a lei da causação; Sempre que há uma causa, um efeito é produzido. Sempre há uma conexão entre o que estamos fazendo hoje e o que nos acontecerá no futuro, mesmo que invoquemos a Thykhe grega ou a Fortuna, deusas dos gregos e dos romanos. 

Ao enfrentamento das consequências de nossas ações, os hindus dão o nome de Dharma, palavra que traduz uma ideia de segurar, manter, suportar. Dharma é aquilo que sustenta o universo, os seres humanos, a sociedade, a criação como um todo. De outro modo: temos que assumir o resultado de nossas ações, a responsabilidade é nossa. Nada mais saturnino, sob este ponto de vista. Só deste modo a vida poderá ser digna, dizem-nos os mestres hindus. Sem
SVADHARMA   YOGA
Dharma não há vida individual, social, coletiva, não há Estado, Nação. Particularizado, o Dharma tem o nome de Svadharma. Cada um de nós tem o seu, a ser vivido segundo o que trouxemos para esta vida e nela encontramos no nosso momento histórico. Dentro do nosso mundo de relações e de obrigações, de acordo com o nosso nível intelectual e social, temos que encontrar os preceitos dinâmicos a aplicar em cada situação. Por isso, cada um de nós tem  o seu Dharma particular, o seu Svadharma.

O símbolo de Saturno é formado por uma cruz e por um crescente. A primeira diz respeito à vida material, indicando-nos que o que
SÍMBOLO   DE   SATURNO
entrou na vida tem que morrer. Tudo que entra na existência terá que desaparecer, cedo ou tarde. Cada experiência que temos, cada coisa que conhecemos, tudo é finito, uma pedra, um vegetal, um animal, uma ideia, uma filosofia, uma civilização, um deus... A cruz se liga ao número quatro, número da simetria, símbolo da totalidade material, depreendendo-se  dele uma ideia de organização, de construção; não é por outra razão que o quaternário é a primeira das figuras sólidas. 

 O crescente, fase lunar,  entra na figura saturnina para nos falar de ritmos biológicos, do tempo que passa, de variação periódica, lembrando-nos ao mesmo tempo a semente que foi plantada. Sob a superfície da terra, um novo ciclo recomeça. A indicação é clara: por trás de todo final há sempre um recomeço. O crescente lunar diz respeito aos primeiros catorze dias do mês lunar, associado sempre ao desenvolvimento dos seres que entram na vida. Daí o antiquíssimo hábito de se ver um favorecimento para as ações humanas na fase crescente lunar e o contrário na fase decrescente.