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domingo, 27 de março de 2016

SATURNO (3)

                                          
Antes da chegada de Cronos à península itálica, havia uma antiga divindade chamada Consus, que atuava, na região central da Itália, como deus da vegetação, do bom conselho e das sementeiras. Seu nome parecia ter relação com o verbo condo, que significa estabelecer alguma coisa (uma cidade, por exemplo), com a palavra absconsus, que tem o sentido de esconder longe de, retirar da vista, e com o verbo consulo, deliberar, refletir, ser prudente, saber aconselhar. 



CONSUALIA

Suas festas eram as Consualia, com duas cerimônias distintas: numa primeira, celebrada a 21 de agosto, depois das colheitas, Consus aparecia associado à deusa Ops (opiconsivia), festas nas quais havia corrida de carros e de cavalos, divertimentos diversos e danças. A segunda festa se realizava no dia 15 de dezembro, depois das sementeiras, também com jogos e divertimentos. Foi durante as Consualia que ocorreu o famoso episódio do rapto das sabinas pelos romanos.  


OPICONSIVIA

Saturno tem duas faces entre os romanos. Pode ser considerado como uma antiga divindade agrícola, originária do mundo latino, e pode ser visto também como um deus novensile, isto é, importado da Grécia, o Cronos grego, derrotado na Titanomaquia, que chegou à Itália e ali teve o seu destino unido ao do deus Janus. O nome Saturno, nesse sentido, encontra as suas raízes nas palavras latinas satur, saciado, farto, ou sator (semeador), sendo sinônimo de abundância em ambos os casos. 


TITANOMAQUIA

Na Itália, Saturno é o deus dos trabalhadores do campo e dos viticultores (vitisator). Sob o nome de Stercutius ele vela pela estrumação dos campos. Sempre aparece associado à deusa Ops, uma personificação das riquezas da terra. Esta deusa sempre foi considerada como a esposa do deus. Seu nome deriva da palavra opus, obra, trabalho, atividade que produz riquezas, que gera abundância. Suas festas se realizavam nos mesmos dias das Consualia (15 de agosto e 21 de dezembro). Seu culto, de origem sabina, foi introduzido na Itália pelo rei Tito Tácio.

Saturno sempre foi considerado entre os romanos como rei da Itália durante a Aetas Aurea. Expulso por Júpiter dos céus, teria se escondido na região romana, perto do Capitólio. Suas grandes festas eram celebradas a partir do dia 17 de dezembro, ligadas desde tempos muito remotos a três festividades campestres: sementivae feriae, consualia larentalia e puganalia. As primeiras, como o nome indica, eram celebrações relacionadas com as sementeiras; as seguintes tinham a ver as mencionadas Consualia e com as Larentalia.

ACCA   LAURENTIA
As Larentalia, também chamadas Accalia, eram festas que se celebravam em hora de Acca Larentia, que, na mitologia, era a mulher do pastor Fáustulo, que encontrou Rômulo e Remo às margens do rio Tibre. Morrendo um dos doze filhos de Acca Larentia, Rômulo assumiu o seu lugar e instituiu um colégio sacerdotal com os outros onze irmãos, chamado Arvais (de aruum, campo lavrado), que não só cultuaram depois
CARMENTA


a memória da mãe quando do seu falecimento como se encarregavam de realizar sacrifícios para favorecer a fertilidade dos campos. Os cânticos dos irmãos Arvais tinham o nome de carmina (nome proveniente de Carmenta, antiga deusa das profecias); eram fórmulas mágicas rituais que tinham a finalidade de aumentar as lavouras e de garantir a sua proteção. 




FAUSTUS   E   ACCA   LAURENTIA   ENCONTRAM   RÔMULO   E   REMO 



JANUS   BIFRONTE
( BRITISH   MUSEUM )
Ovídio nos conta que Cronos foi acolhido no Latium, nome que, segundo ele, viria do verbo Latere, estar escondido. Nessa região, perto do Capitólio, fundou ele uma cidade fortificada a que deu o nome de Saturnia. Quem o acolheu foi um dos mais antigos deuses indigetes (não importados), Janus, o deus bifronte. Ao lado da cidade de Saturno, Janus tinha a sua fortaleza, chamada de Janículo.

Dividindo fraternalmente o poder, as duas divindades governaram o país, sendo conhecido, em Roma, o período em que ambos atuaram juntos pelo nome de aetas aurea, um período no qual os poetas sempre viram progresso, honestidade, liberdade, paz e abundância.

Como grande promotor da civilização que ali então se instalou, Saturno transmitiu ao povo do lugar, ampliando bastante a obra de Janus, o conhecimento do cultivo dos campos, da construção de casas e deu aos homens leis justas e sábias. Virgílio nos fala desse tempo no qual não se ouvia a trombeta bélica nem o som metálico das espadas sendo forjadas nas duras bigornas. 

Saturno era representado normalmente como um homem maduro, de barbas, empunhando uma foice. Embora com este instrumento nas mãos, sempre associado à castração, à mutilação e à ceifa de tudo o que existia, Saturno nunca apareceu, entre os romanos, com o aspecto soturno e sinistro do Cronos grego.

Historicamente, sempre permaneceu viva entre os romanos ao longo de sua história a propensão para venerar uma energia misteriosa, chamada de força vital, que comandava a vida universal, movimentando tudo, os ciclos da natureza e os seus reinos. De outro lado, havia a vontade do ser humano, uma vontade que ele deveria procurar conciliar com tal energia se ela lhe fosse propícia ou procurar desviá-la ou paralisá-la se ela lhe fosse negativa. 

Estas ideias explicam também a tendência dos romanos de venerar , como deuses ou gênios, as expressões particulares dessa energia misteriosa, nos mínimos aspectos da vida em que ela intervinha. A esses aspectos era dado o nome de numina (vontade divina, assentimento); a eles era concedido sempre um gesto de respeito, uma oferenda, alguma oração. Era o numen que fazia com que a criança pegasse o seio da mãe, o outro que a fazia beber; um numen intervinha quando a semente era enterrada ou quando se amarrava o feixe do trigo. Esta disposição mental nunca desapareceu da vida romana e acabou por levar à divinização muitas abstrações e atributos alegóricos. Sempre, pois, uma tendência dupla entre os romanos: generalização e fragmentação infinita do divino.

O homem romano dos primeiros tempos (sécs. VII e VI aC) era um camponês, sendo sua vida muito afetada por valores saturninos. Esses valores eram acrescentados ao culto doméstico; falam sempre
CATÃO , O   VELHO
de aumento do domínio territorial, do anseio de preservar e fazer prosperar os rebanhos e as plantações. Há um tratado de agronomia desse tempo, atribuído a Catão, o Velho, que nos fornece pormenores numerosos e precisos sobre as festas a celebrar, os sacrifícios a realizar, as orações a recitar etc. Cada ato da vida agrícola devia ser acompanhado sempre de um ato religioso que solicitava o seu êxito ou procurava apaziguar o descontentamento da divindade do lugar.


As preocupações agrárias penetraram profundamente a religião oficial. Os maiores deuses do panteão romano sempre se associaram à vida dos campos. Existia, por exemplo, um Júpiter Liber como deus do vinho novo. Marte era o deus protetor do trabalho agrícola e de seus produtos. O nome Saturno, para muitos, derivava-se de sata, palavra que significa “terras semeadas”. 

Saturno sempre deu sustentação, através de dois de seus principais valores, o pai de família e a vida agrícola, à vida religiosa romana dos primeiros séculos da cidade. A aetas aurea do mito explica-se: uma existência assegurada pela continuidade da família agrupada em torno do seu chefe. Isto explica também porque a religião desses primeiros tempos incorporou o pensamento jurídico (Saturno se exalta em Libra), a preocupação pelos interesses materiais, o sentido realista dos proprietários de terras e de chefes de família. 

Desde 500 aC já temos registros de um templo dedicado a Saturno em Roma e de festas celebradas em seu nome, as Saturnalia, que lembram muito as festas de ano novo no oriente em  várias culturas. Com estas festas se procurava fazer com que uma idade de ouro fosse periodicamente revivida, dela participando toda a população da cidade. Nas Saturnalia, como elementos importantes, tínhamos as “presenças” divinas entre os mortais, o chamado convivium publicum, a abundância coletiva e a eliminação da barreira entre as classes. O festim público, patrocinado pelo Estado, tinha um objetivo principal, provocar o deslumbramento das classes inferiores (escravos e trabalhadores). Por uns dias, vivia-se o otium da idade de ouro sob a tutela do saturnalicius princeps, que pontificava em desfiles de características carnavalescas. 



No período das Saturnalia, os mortais, mesmo os de nível social mais baixo, afastavam-se das fadigas e das preocupações do seu penoso dia-a-dia, para viver alegremente por duas semanas. Por volta de 220 aC as Saturnalia foram transformadas nas maiores festas de Roma, vivendo a cidade esse período dourado com grande fartura. 

Se procurarmos nos aproximar de tudo isso mais objetivamente não poderemos deixar de concluir que as Saturnalia representaram sempre uma grande jogada política que tinha o objetivo de reafirmar a unidade nacional e a glorificação do país diante de ameaças externas como o poder cartaginês e a segunda guerra púnica. O Senado romano manobrou magistralmente, apelando para o culto religioso com a finalidade de garantir a unanimidade nacional. Desde então, as Saturnalia, por uns poucos séculos mais, a Saturnia Regna, ainda se mantiveram como símbolo da esperança e do renascimento. Estas ideias foram certamente as inspiradoras dos primeiros cristãos, que se valeram das Saturnalia, que se estendiam de meados de dezembro aos primeiros dias de janeiro, para nelas fixar o Natal, o nascimento de Cristo, no dia 25 de dezembro. 


MITHRA   CRIANÇA
Outra “colaboração” para o Natal cristão foi a festa celebrada em Roma em homenagem ao deus solar persa Mithra. Esta festa foi implantada em Roma no primeiro século da era cristã e se tornou tão popular que, durante o reinado de Aureliano, em 274, o culto a Mithra foi declarado como religião oficial do Estado, fixando-se a data 25 de dezembro para as devidas celebrações, festa do Sol Invictus.

Lembre-se que para impor o Natal cristão os Padres da Igreja fizeram uma opção entre cinco datas, 25 de dezembro, 1º de janeiro, 6 de janeiro, 25 de março e 20 de maio. Nestes primeiros tempos, a festa do Natal se resumia à celebração de uma missa no dia 25 de dezembro, que “honraria não o Sol dos pagãos, mas o Criador do Sol.” Só no ano de 337 a festa de Natal cristã tomaria a sua forma definitiva, ano em que o imperador Constantino foi batizado, unindo-se desde então a Igreja e o Estado. 



O maior responsável pela consolidação de Saturno como divindade nacional foi o poeta Virgílio; na sua quarta Bucólica, em latim também chamada Eclogae, a sua primeira grande obra, o poeta põe em cena a vida pastoril e fala do futuro glorioso de Roma. Saturnus Rex não é evidentemente o fundador de Roma (Janus o antecedeu), mas na voz do poeta Saturno se transforma no grande construtor do mundo romano e ancestral de uma genealogia que, atravessando séculos, chegará até Augusto.  

Lembre-se que o solstício de inverno sempre teve uma grande importância para os povos europeus, pois era ele que abria a fase ascendente do ciclo anual, enquanto o solstício de verão abria a fase descendente. Daí o mito de Janus e das portas solsticiais, representadas pelas duas faces do deus. O solstício de inverno era o momento do ano em que o mundo dos vivos e o mundo dos mortos se comunicavam entre si. Na tradição cristã, passou a ser usada nesse período de encontro entre os dois mundos a fogueira de Natal, cujo objetivo era o de lembrar que Jesus nascera num estábulo glacial (cenário tipicamente canceriano, embora Câncer marque o início do verão) e que não tinha para aquecê-lo senão, além da fogueira, o bafo de um boi e de um asno. Acreditava-se também que do nascimento de Cristo teriam participado os anjos, que se aqueciam perto da fogueira. Dessa concepção natalina saiu a ideia muito espalhada em algumas nações cristãs de que os pais poderiam deixar as suas crianças sozinhas na noite de Natal, para irem à missa da meia-noite, pois os anjos cuidariam delas.

A fogueira de Natal que ardesse sem problemas tinha as bênçãos do céu. Quando dela escapavam muitas faíscas, os presságios de boas colheitas eram favoráveis. Além do mais, o carvão proveniente das achas que haviam queimado nessa fogueira poderia ser usado para curar várias doenças durante o ano, principalmente as de estômago; as cinzas protegiam também contra acidentes e tempestades e, depositadas nos telhados, afastavam feiticeiras.  

Na tradição cristã europeia, o período entre 25 de dezembro e 5 de janeiro (véspera da festa dos Reis) era até o início da era moderna (séc. XVIII) particularmente rico de superstições. A reputação mágica deste ciclo de doze dias, atestada desde o séc. IV dC, provém da importância do Natal e da Epifania, dia da manifestação de Cristo aos três Reis Magos e de seu batismo, que, na tradição da Igreja do Oriente, corresponde à celebração da Natividade. Do Natal à Epifania, do nascimento secreto à manifestação pública e universal simbolizada pelo testemunho dos Reis Magos, temos um tempo de maturação, de crescimento, de transformação. Epifania, epiphaneia, em grego (epi, sobre, por cima; phaneros, visível), é a primeira manifestação de Cristo como filho de Deus e também a festa religiosa em que se comemora este acontecimento. 


REIS   MAGOS

Além do caráter religioso destas datas e do período entre elas, considerados dias santificados, desde o séc. VI (Concílio de Tours), celebrava-se também a passagem do velho ao novo ano, marcada esta passagem por numerosos ritos de expulsão de influências negativas e exorcismos. Este período, como aqui se expõe, correspondia ao das Saturnalia em Roma, um período crítico e perigoso. Era o momento em que o céu e a terra se abriam para dar passagem a seres maléficos do Outro Mundo. As almas dos mortos voltavam à Terra, as feiticeiras, os demônios, os seres infernais e os lobisomens erravam a solta pelo mundo. 


SATURNALIA   ( HOWARD  DAVID  JOHNSON )

As proibições e interdições relacionadas com o Natal vêm deste período: evitar tarefas domésticas, não tecer, não costurar, não atrelar os cavalos às charruas. Uma falta cometida num destes doze dias produziria um efeito negativo a ser “colhido” num dos meses do ano. Assim, uma falta cometida no dia 25 seria “colhida” em janeiro; cometida no dia 26, seria “colhida” em fevereiro e assim sucessivamente. Esta mesmas ideias, aliás, são também encontradas na Índia védica; segundo elas, os doze dias que se sucedem ao solstício de inverno seriam a imagem do ano vindouro. Quem nos conta todas estas histórias é Pierre Saintyves, pseudônimo de Émile Nourry (1870-1935), grande antropólogo, escritor, editor e folclorista francês num de seus livros sobre Astrologia popular. 
  


PIERRE   SAINTYVES   ( ÉMILE  NOURRY )

Saturno e o Sol na Astrologia ocidental, como sabemos, sempre apareceram associados à figura paterna. Com relação ao primeiro, porém, esta associação toma sempre um caráter difícil, problemático, tirânico até, mesmo nos aspectos harmônicos que ele estabeleça com outros planetas ou com determinados ângulos de uma carta astral. Dignificado ou não numa tema astrológico, por posição ou aspectos, Saturno levará sempre, favoravelmente ou não, para uma carta astral,  sua maneira de atuar no mito. 

Não há necessidade de conhecimentos especializados da psicologia para se perceber que uma família disfuncional é uma instituição

autorreprodutora. Um Saturno “forte” num mapa tanto pode indicar um pai dominador, controlador, como uma criança que talvez venha a se tornar um pai tirânico. Este tema está, por exemplo, magistralmente desenvolvido no filme Pai Patrão, obra-prima do cinema italiano. A libertação dos padrões saturninos fixados num mapa, para transformação de Saturno em mestre interior, é sempre extremamente difícil e dolorosa. 

Do mito grego, como já se mencionou, nos vem também a passagem da prisão de Cronos no Tártaro. Saturno, num mapa, pode significar a nossa prisão, a nossa imobilidade, num lugar escuro e desolado onde ficaremos acorrentados (parece-se muito com Plutão, neste particular). Queda, banimento, humilhação e isolamento, provocados por forças externas, são conceitos relacionados com Saturno, constatáveis em muitos temas dos que atingiram, sob o ponto de vista material, as alturas, os picos, e caíram.

Na Alquimia, Saturno é estudado no capitulo da coagulatio, operação ligada ao elemento terra e, como tal, lembra forma e posição fixas, dificuldade de adaptação, concentração, condensação, quando não imobilidade. Neste sentido, Saturno tem a ver com os processos de criação de formas de um modo geral (a arte do capricorniano Cézanne é um bom exemplo). Dentre os agentes da coagulação, a Alquimia faz especial referência ao chumbo, sempre associado ao planeta Saturno e ligado, quando pensamos na prática analítica, a temas como depressão, melancolia, frieza, limitação. 



MONT   SAINTE - VICTOIRE  ( CÉZANNE ) 

O chumbo é um metal ao qual já os caldeus atribuíam uma
PARACELSO  -  OPERA   OMNIA
influência funesta, símbolo da inércia. Paracelso, o grande alquimista suíço, falecido em 1541, proclamava que o chumbo era a água de todos os metais e que se os alquimistas conhecessem o que Saturno continha eles abandonariam tudo para se fixar só nele. Não é por acaso que os antigos, desde tempos muito remotos, praticavam a adivinhação através do chumbo fundido, a chamada molibdomancia, que consistia em deixar cair algumas gotas de chumbo aquecido na água e, pelos ruídos que se produzissem ou figuras que se formassem, fazer previsões. O molibdênio é um elemento químico altamente resistente à corrosão e, por isso, usado em aviões, foguetes, mísseis etc. Em grego antigo, molibdaina era qualquer massa de chumbo. 

Segundo registros disponíveis, as primeiras notícias sobre o chumbo datam de 3000 aC, pois, por essa época, alguns povos da bacia mediterrânea já obtinham prata retirando-a dele. A natureza saturnina do chumbo é facilmente constatável quando conhecemos o seu uso como isolante acústico. É muito conhecida a eficácia do chumbo como protetor em recintos hospitalares onde se usa o Raio X e a radioterapia e em salas onde é gerada a energia nuclear. Explica-se: a extrema densidade do chumbo o torna impermeável à irradiação.

Neste sentido, o chumbo, simbolicamente, é o estágio final a que a matéria pode chegar, a matéria que não pode mais passar por
A   GRANDE   OBRA
transformações. Assim, ele tem relação com algo conclusivo, com o fim de um ciclo vital, e, consequentemente, com a velhice e com a morte. Daí o simbolismo alquímico usar a caminhada do inferior (chumbo) ao superior (ouro), a chamada Grande Obra, a Opus, para representar as experiências de transformação pelas quais o ser humano pode passar evolutivamente.


O nosso processo de individuação, a definição de um ego, a nossa autossuficiência e o nosso autocontrole têm a ver com Saturno e o chumbo. No corpo humano, o elemento chumbo, na proporção certa, está ligado a uma ossatura resistente, a cabelos, dentes e unhas fortes. Se Saturno e o chumbo aparecem em excesso os índices da “coagulatio” aumentam; temos endurecimentos, enrijecimentos, formação de cálculos, em órgãos, artérias etc. Saturno (frio e seco) trabalha por contração, endurecimentos, como câimbras, artroses. Se o endurecimento é anímico, temos as chamadas contrações saturninas da alma, medo, temores, apreensões, depressões, esquizofrenia.





O chumbo, como se sabe, é muito venenoso. Não é por acaso que a intoxicação aguda ou crônica pelo chumbo se chama saturnismo ou plumbismo. Na Homeopatia, como remédio, o chumbo entra no Plumbum metallicum, muito usado no caso de distrofia muscular, esclerose múltipla, tabes, ataxia locomotora, depressão, delírio etc. 

A velhice caracteriza o chamado “período chumbo” na vida humana, período no qual o corpo e a alma “endurecem”. Em consequência, afora as naturais limitações de ordem física, as rabugices corporais e as patologias, temos os vários casos de perda de flexibilidade, da nossa capacidade de adaptação, do que popularmente chamamos de jogo de cintura; no lugar, então, o complexo saturnino, a recusa a abandonar ou a perder  aquilo a que nos apegamos ao longo de nossa vida. Permitimos que Saturno nos canibalize como devorava os seus filhos, entregando-nos a estados de frustração, de insensibilidade, de renúncia ou de avidez. Daí os casos de conservadorismo, dogmatismo, opiniões obstinadas, tradicionalismo, teimosia e frieza. O chumbo e Saturno pertencem no ser humano à esfera da realização do eu interior. Seu valor é altamente educativo, pois não se liga àquilo que vem de fora; liga-se, sim, ao que temos de descobrir e trabalhar, no geral penosamente, dentro de nós mesmos.  

Saturno, ao mesmo tempo que nos oferece os arquétipos do parricídio e do filicídio, ele afirma os direitos absolutos do indivíduo, fixado no seu próprio  egocentrismo. A sua dolorosa experiência interior nos põe também diante dos mais variados processos de autopunição, da retirada da libido como procura instintiva do prazer e, consequentemente, de todo dionisíaco orgiástico.

Não será preciso muito esforço para se perceber, quando Saturno atua de modo negativo numa carta astrológica (por signo, casa ou aspecto), como podemos ser canibalizados, devorados. É por isso que quem tem Saturno no ascendente sempre teve muita dificuldade para se sentir jovem. Nunca, na infância, foi certamente uma criança como as demais, jamais conseguindo participar das brincadeiras como elas. Um Saturno numa quarta casa sempre fará com que a criança necessite de uma relação mais calorosa com os pais, que receba deles mais apoio, mais suporte emocional, que eles, objetiva ou subjetivamente para a criança, não sejam tão conservadores e reservados.

Quando Saturno, por exemplo, se relaciona desarmonicamente com a Lua e Júpiter, ele pode produzir um grande desequilíbrio com relação à chamada fase oral de uma criança. Esta fase, como se sabe, é a primeira da evolução libidinal, caracterizada pelo fato da criança (lactente) encontrar seu prazer na alimentação, na atividade da boca e dos lábios. O prazer de sugar (boca), ligado de início a uma necessidade fisiológica, acaba se tornando o lugar de uma atividade autoerótica, que se constitui no primeiro modo de qualquer satisfação sexual. A fase oral é “cabalística”. Esta fase se decompõe na sucção propriamente dita e no seu aspecto sádico, que corresponde ao aparecimento dos dentes e das fantasias da mordida e da devoração. A fase oral está ligada à relação entre a criança e o seio materno, constituindo-se ela simultaneamente em satisfação e frustração. 

Geralmente, os distúrbios entre Saturno e os astros que têm domicílio e exaltação em Câncer assumem, dentre outros, dois aspectos: bulimia (em grego, fome sôfrega) e anorexia (em grego, an, privativo, mais oreksis, apetite, desejo de comer). A primeira, como se sabe, é causada por episódios incontroláveis, acessos de hiperfagia, que independente da anorexia nervosa costumam ocorrer ao menos duas vezes por semana durante alguns meses ou mais. Já a anorexia é muito mais mental ou nervosa, constituindo um quadro mórbido em que alguém diminui a quantidade de alimentos ingeridos, frequentemente eliminando os ricos em calorias, por meio de uma dieta rígida, autoimposta, alternada com crises de bulimia, vômitos ou uso de purgativos.  
  
 Na bulimia, temos invariavelmente a necessidade passiva de amor materno, entrando Saturno no aspecto para produzir uma exagerada necessidade de tomar alimento, de viver sem freios, gerando egocentrismo, preguiça, ciúme, fanatismo. Na anorexia, há sempre uma necessidade concreta da figura materna; normalmente, não há ingestão de comida, a não ser que a mãe se ofereça “espontaneamente” para dar o alimento vital. Neste segundo caso, temos o quadro mais grave, sendo Saturno a fonte do desespero, da insensibilidade, do ascetismo, da separação e da indiferença. 

SATURNO   SENEX
Se nos voltarmos para os casos (aspectos harmônicos) em que Saturno aparece como Senex positivo, temos então os exemplos da sua lenta e segura ajuda no aumento da nossa força interior, da nossa disciplina e responsabilidade. Podem surgir as grandes ambições, sempre de médio para longo prazo, eis que Saturno nunca é imediatista. É nestes casos que ele se torna símbolo das grandes ascensões intelectuais ou espirituais, representado pelo Lycorne.

Saturno indica a direção que tomará na vida de alguém o princípio de autopreservação que, em sua expressão superior, deixa de ser puramente defensivo para se tornar ambicioso e aspirativo. A nossa capacidade de defesa ou de ataque diante do mundo é, mostrada, em grande parte, pela posição de Saturno no nosso mapa. Se Saturno está no mesmo signo em que nele se encontram o Sol e a Lua, a defesa predomina e há sempre o perigo de uma excessiva introversão. Quanto mais distante Saturno estiver do Sol, da Lua ou do Ascendente, melhor para a nossa objetivação e extroversão. Se Saturno se encontra no mesmo signo de Mercúrio, há sempre uma tendência de que nossas reações, diante do que nossos sentidos captam do mundo, sejam profundas, sérias, refletidas. Se Saturno acompanha Vênus, demonstraremos invariavelmente dificuldades, maiores ou menores, no plano de nossos relacionamentos; frieza nas relações afetivas, conservadorismo na nossa vida econômica; está relação costuma aparecer na vida dos que são “felizes nas cartas e infelizes no amor”. Se Saturno está relacionado com Marte, apresentamos geralmente confusão em nossa vida entre atitudes defensivas e agressivas, o que pode trazer alguma sempre indecisão.  Saturno, lembremos, não diz respeito ao que não podemos ter, mas tem relação com aquilo que merecemos ter. Ele governa os atrasos que retardam o que devemos receber ou as privações do que julgávamos que nos era devido. Saturno é tudo o que de negativo que alimentamos nesta vida: é o sentimento de falta, de carência, por mais que façamos; é a detestável tarefa que temos que cumprir. 

Onde quer que esteja Saturno num mapa, é nesse lugar em que aparecerão, cedo ou tarde, as provas, os deveres e as obrigações mais pesados; é nesse lugar (casa astrológica) em que teremos de provar algo a nós mesmos. É nesse lugar em que, com relação aos assuntos da casa, poderemos demonstrar medo, coragem e respeito próprio. Em todas as situações, a verdade de Saturno é a que nos levará a enfrentar os problemas, com determinação e constância. Saturno é tanto o que nos força a fazer uma coisa como aquilo que pode nos dar força para fazê-lo. É neste sentido que os hindus o consideram tanto como o Senhor do Karma como o do Dharma.

Ao agir no mundo deste ou daquele modo ou deixando de agir, omitindo-nos, estamos assumindo o resultado de nossas ações. Karma é a lei da causação; Sempre que há uma causa, um efeito é produzido. Sempre há uma conexão entre o que estamos fazendo hoje e o que nos acontecerá no futuro, mesmo que invoquemos a Thykhe grega ou a Fortuna, deusas dos gregos e dos romanos. 

Ao enfrentamento das consequências de nossas ações, os hindus dão o nome de Dharma, palavra que traduz uma ideia de segurar, manter, suportar. Dharma é aquilo que sustenta o universo, os seres humanos, a sociedade, a criação como um todo. De outro modo: temos que assumir o resultado de nossas ações, a responsabilidade é nossa. Nada mais saturnino, sob este ponto de vista. Só deste modo a vida poderá ser digna, dizem-nos os mestres hindus. Sem
SVADHARMA   YOGA
Dharma não há vida individual, social, coletiva, não há Estado, Nação. Particularizado, o Dharma tem o nome de Svadharma. Cada um de nós tem o seu, a ser vivido segundo o que trouxemos para esta vida e nela encontramos no nosso momento histórico. Dentro do nosso mundo de relações e de obrigações, de acordo com o nosso nível intelectual e social, temos que encontrar os preceitos dinâmicos a aplicar em cada situação. Por isso, cada um de nós tem  o seu Dharma particular, o seu Svadharma.

O símbolo de Saturno é formado por uma cruz e por um crescente. A primeira diz respeito à vida material, indicando-nos que o que
SÍMBOLO   DE   SATURNO
entrou na vida tem que morrer. Tudo que entra na existência terá que desaparecer, cedo ou tarde. Cada experiência que temos, cada coisa que conhecemos, tudo é finito, uma pedra, um vegetal, um animal, uma ideia, uma filosofia, uma civilização, um deus... A cruz se liga ao número quatro, número da simetria, símbolo da totalidade material, depreendendo-se  dele uma ideia de organização, de construção; não é por outra razão que o quaternário é a primeira das figuras sólidas. 

 O crescente, fase lunar,  entra na figura saturnina para nos falar de ritmos biológicos, do tempo que passa, de variação periódica, lembrando-nos ao mesmo tempo a semente que foi plantada. Sob a superfície da terra, um novo ciclo recomeça. A indicação é clara: por trás de todo final há sempre um recomeço. O crescente lunar diz respeito aos primeiros catorze dias do mês lunar, associado sempre ao desenvolvimento dos seres que entram na vida. Daí o antiquíssimo hábito de se ver um favorecimento para as ações humanas na fase crescente lunar e o contrário na fase decrescente.                

  



terça-feira, 4 de março de 2014

A FIGUEIRA

 
FICUS BENGHALENSIS

  
A oliveira, a vinha e a figueira são as três mais importantes expressões do mundo vegetal nas antigas sociedades mediterrâneas. As três estão ligadas ao cotidiano dessas sociedades, fazendo parte da sua economia, da sua alimentação, dos seus costumes, da sua medicina popular, dos seus mitos e lendas, das suas crenças religiosas.

 Há uma vasta literatura sobre as duas primeiras, ligadas de modo especial ao mundo greco-romano, sobejamente
BÉRBERE - MARROCOS
conhecida. Já quanto à figueira, embora  também faça ela parte da cultura ocidental, pelos motivos acima expostos, pouco se sabe dela,  como árvore-símbolo dos povos do norte da África. O que vai nos interessar mais neste trabalho é o levantamento de algumas questões que, longe de esgotar o assunto, possam nos ajudar a entender como essa árvore se tornou tão importante para muitas civilizações do mundo antigo, especialmente sob o ponto de vista religioso. 



ÁFRICA COM O NORTE EM DESTAQUE


As figueiras são conhecidas também como ficus, calculando os botânicos que no mundo todo haja cerca de oitocentas espécies dessa árvore, especialmente em regiões de clima tropical e subtropical. Os frutos da figueira, além de muito consumidos pelos seres humanos, fornecem alimento para aves, símios e peixes (frutos caídos na água). O fruto da figueira mais consumido em todo o mundo é o proveniente da Ficus Carica, assim designada porque se supõe que seja a Cária a região de sua origem. A Cária (etimologicamente, país montanhoso) estava situada no noroeste da Ásia Menor. Colônia fenícia, foi helenizada pelos dóricos e depois tomada pelos persas, passando depois para o poder romano no início de nossa era.  





Conhecida desde o período neolítico, a figueira sempre foi considerada como a árvore da generosidade e da abundância em virtude de suas virtudes protetoras, fecundantes e regeneradoras. Um dos primeiros povos a nos
revelar os segredos da figueira foi o egípcio, interessado inclusive por técnicas de seu cultivo (arboricultura), principalmente sob o ponto de vista frutífero e do aproveitamento do seu lenho,  há muito usado para a construção de sarcófagos. Conheciam os egípcios um processo chamado caprificatio através do qual as frutas fêmeas eram polinizadas por um inseto, o blastófago, que abriam nos frutos um orifício para esse fim. Os gregos e romanos também conheceram esse processo, descrito, por Teofrasto, discípulo de Platão,  e pelo naturalista romano Plínio, O Velho.

CLEÓPATRA


Um dos grandes acontecimentos da vida do povo egípcio, aliás, tem relação com os figos, muito apreciados por Cleópatra, a última rainha do país, da dinastia dos Ptolomeus. Consta da sua biografia um episódio, não confirmado historicamente, o de que a serpente (víbora) que lhe picou mortalmente o seio veio escondida num grande cesto de figos por ela pedido à sua criadagem. Uma das espécies mais conhecidas da árvore tem entre os egípcios o nome de figueira dos faraós.


A figueira dos faraós (ficus sycomorus) tem também o nome de sicômoro é árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis e também como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo inclusive muito útil na tinturaria (tingimento de tecidos). Sua madeira, além de bastante usada para a construção de sarcófagos, como se disse,  é especialmente empregada na confecção de instrumentos musicais e de móveis. 


A origem do sicômoro é explicada pelos gregos por um mito. Os gigantes eram os inimigos naturais dos deuses. Reia,
REIA
esposa de Kronos, mãe dos futuros olímpicos, ao ser ameaçada por um deles, de nome Syceu, o transformou numa árvore, o sicômoro, nome que, em grego, se decompõe: sycon, figo, e moron, vermelho escuro, também amora. Segundo uma outra versão, Syceu foi um dos titãs que salvou Geia, sua mãe, então perseguida por Zeus, quando da titanomaquia (luta entre os titãs e os futuros olímpicos). Siceu fez nascer uma gigantesca figueira para que Geia nela pudesse se esconder. 



Gaius Julius Solinus, gramático e escritor latino (séc. III dC), nos seus deliciosos textos Collectanea Rerum Memorabilium
e Polyhistor, nos informa que a figueira é a principal árvore do Egito. Sua folha, prossegue, é muito parecida com a da amoreira; seus frutos são encontrados tanto nos galhos como no tronco; a árvore nos dá seus frutos sete vezes por ano (sic); mal colhido um, outro começa a despontar no lugar do que foi colhido. A sua madeira, lançada à água, desce ao fundo; depois de um certo tempo, ela volta à superfície. Esta imagem da madeira boiando à superfície das águas foi
usada na arte mortuária (sarcófagos) para representar a dispersão dos membros do deus Osíris nas águas do rio Nilo. Por sua fecundidade excepcional, a árvore era conhecida como a nutriz por excelência dos defuntos na sua viagem para o Amenti (O Outro Lado). Por essa razão, plantavam-na diante dos túmulos para assegurar a proteção ao defunto até a sua apresentação diante de Osíris. 

OSIRIS


Muito procurada pelos amantes, que gostavam de se refugiar à sua sombra, a figueira tem lugar de destaque na poesia amorosa, desde o período pré-dinástico. Os poetas nos informam que, quando ela “fala” (o movimento de sua ramagem), suas palavras são como gotas de mel; sua textura é a da faiança, sendo sua sombra fresca sempre proteção.

NUT E GEB - CÉU E TERRA


Nos Textos das Pirâmides encontramos referências que ligam a figueira à deusa Nut. Como divindade celeste, é ela
RA
que dá nascimento aos astros, que  engole a cada entardecer e os devolve pela manhã. Assim, o lenho da figueira como sarcófago engole o defunto para transformá-lo num novo Osíris. Nos capítulos 109 e 149 do Livro dos Mortos encontramos referências a ela; no primeiro, há uma menção aos espíritos que habitam nas copas dos sicômoros de esmeralda, ornamento dos rios, que deslizam silenciosos. No segundo, se registra que, na sua viagem, Ra (Sol), com a sua barca, passa por dois sicômoros cor de turquesa. 



ÍSIS

Árvore de Ísis, sabe-se que egípcios, além do uso do figo para a fabricação de produtos farmacêuticos, faziam para
FIGOS SECOS
suas cerimônias religiosas uma bebida com eles. Informações dos tempos da dinastia dos Ramsés nos dão a conhecer que enfiadas de figos secos eram servidas em repastos depois de longas viagens. Os figos eram usados também para a engorda de gansos com fim de se preparar o
FOIE GRAS
foie gras
(fígado de ganso gordo) e na arte da panificação. Esta técnica, séculos e séculos mais tarde, muito difundida entre a elite romana, seria passada para os franceses. Luís XIV estimulou grandemente a plantação de figos na região de Versalhes, dos tipos Rouge d´Argenteuil e Dauphine.


POMAR REAL DE VERSALHES

Para uso religioso, os egípcios importaram de uma região do Mar Vermelho, do misterioso País do Punt, sinônimo de paraíso terrestre para eles, sicômoros especiais (nehat) para
FIGUEIRA DE PUNT
a produção de incenso. Estas árvores foram plantadas nos terraços do templo funerário da rainha Hatshepsut, filha de Tutmosis I, “aquela que reinou como um homem”. As figueiras eram particularmente usadas para cercar os templos, formando em torno deles um cinturão de frescor bastante agradável. As Casas de Vida, centros culturais construídos ao lado dos templos, eram também cercadas por figueiras com esse fim. As deusas Hathor e Isis tinham especial predileção pelos sicômoros para as suas manifestações.


TEMPLO FUNERÁRIO DE HATSHEPSUT


Para alguns estudiosos, o nome grego sykon (figo) teria vindo da Fenícia, lá usado para designar o fruto da Ficus Carica, muito consumido. Conhecido há mais de 10.000 anos, sua cultura já estava estabelecida por volta de 5.000 aC no Oriente Médio, espalhando-a os fenícios por todo o Mediterrâneo e propagando-a posteriormente os cartagineses, gregos e romanos. Recentemente, lembremos, arqueólogos israelenses descobriram que o figo já era cultivado na Cisjordânia desde o período neolítico e atestada a sua importância como alimento privilegiado, especialmente quando seco, para ser comido em épocas de escassez alimentar ou no inverno.


Na Grécia antiga, o figo, sempre considerado como um importante alimento (sua exportação era proibida), tinha um status privilegiado (dádiva divina). Aqueles que os contrabandeavam ou roubavam eram conhecidos pelo nome de sicofantas. O nome, inicialmente, foi aplicado aos encarregados de vigiar os frutos; depois, passou a ser usado para designar esse funcionário como  caluniador, porque,
DIONISO
aproveitando-se do cargo, ele fazia denúncias sem fundamento, só por perseguição ou antipatia. Muito apreciado pelos gregos, o figo fazia normalmente parte de sua alimentação diária. Essa importância está inclusive registrada no mito, onde encontramos a história de Syke (o figo), ninfa pela qual o deus Dioniso se apaixonou. Como símbolo da fertilidade, o fruto era muito usado como um dos alimentos consumidos na primeira fase dos Mistérios de Eleusis, a orgia, juntamente com o kykeon, bebida à base de vinho, de caráter enteógeno, que tinha entre os seus componentes certos fungos (mais tarde, usados como base do LSD), conhecidos como alimento dos deuses (broma theon),  que produziam visões fantásticas.



Em algumas passagens míticas, temos informações de que o figo era uma dádiva de Deméter, considerada “tão ou mais importante que o ouro”. Citado na Ilíada e na Odisseia, diariamente consumido, ele era especialmente recomendado aos atletas olímpicos quando concentrados para os agones, já que dava “força e agilidade”. Na medicina, como uma espécie de panaceia, eram famosos os cataplasmas de figo. Platão acreditava na sua origem divina  (dádiva de Deméter) e, como todo grego, era um philosykos, amigo dos figos. Na sua  Academia, sugeria que para melhor filosofar os seus discípulos comessem muitos figos. Para a saúde do corpo eram também recomendados os frutos;   em Esparta, faziam parte, desde cedo, da alimentação da crianças entregues à tutela do Estado. 

ACADEMIA DE PLATÃO


Entre os romanos, a figueira aparece no mito de Rômulo e Remo, encontrados ao pé de uma delas, ali sendo alimentados por uma loba. Inspirado pelos deuses, o pastor Fáustulo os encontrou e os entregou a sua esposa, Aca Larência, para que ela os criasse. À figueira foi dado o nome latino faustulus, tornando-se ela um símbolo político de
RÔMULO E REMO
proteção. Quem nos conta esta história é Plínio, o Velho: o local onde os gêmeos foram encontrados recebeu o nome de Lupercal; no cume do Palatino, berço de Roma, havia uma gruta sagrada onde a loba Luperca amamentou os meninos. O local era conhecido por uma enorme figueira, de nome Ruminal, ao lado da qual borbulhava uma fonte. Rumis era um nome carinhoso dado às mães e popularmente ao seio feminino. Plínio nos informa também que a figueira Ruminal tinha a fama de proteger contra a ação dos raios. 



Os romanos costumavam consumir os figos à mesa, frescos ou como foie gras, e, fora dela, secos. Catão recomendava  que, nessa condição, antes de colocá-los em cestos, era
CATÃO
preciso muito cuidado para que não contivessem nenhuma umidade, livrando-os assim do bolor. Depois de secos, segundo ele, os figos se transformavam num excelente alimento para os humanos e para os animais, servindo de base para muitos produtos medicinais. Plínio falava que o figo era um bom substituto do pão, podendo entrar na ração dos escravos com essa finalidade. A história registrou que Marcus Gavius Agicius, gastrônomo, séc. I dC, introduziu em Roma a técnica de engorda do fígado dos gansos. Chama-se ficatum o fígado da ave assim engordado.  



Catão, o Censor, usou a figueira, por sua resistência e facilidade de propagação, como um símbolo (metáfora) para advertir os romanos do perigo que representava a África, ou melhor, Cartago. Como a figueira, uma “verdadeira praga africana”, a cidade de Cartago resistia bravamente a Roma, afrontando o seu poder. Daí a divisa de Catão: Delenda Carthago, com a qual  encerrava todos os seus discursos diante do perigo que oferecia a cidade púnica. Na origem, punicans, tis, queria dizer vermelho, púrpura. Dela saiu punicus para designar as coisas cartaginesas; por exemplo, punica fides, a má fé, a fé púnica (mercantilismo); punica ars, estratagemas usados pelos cartagineses para enganar, tudo isto, evidentemente, sob o ponto de vista dos romanos. 

MOISÉS (MICHELANGELO)
   
O figo foi um dos tesouros que Moisés prometeu aos judeus quando chegassem à Terra Prometida. A Bíblia nos diz que Adão e Eva esconderam a sua nudez com folhas da figueira depois de terem desobedecido a ordem recebida de não comer os frutos da árvore da sabedoria. Entre os cristãos, a figueira aparece nos evangelhos de Marcos (11:12-14 e 11:20-25)) e Mateus (21:18-22). É conhecida por muitos católicos a Parábola da Figueira Estéril. Segundo muitos estudiosos, Cristo teria usado a figueira como uma metáfora a fim de descrever a aparência externa da nação judaica como algo grandioso (a sua copa, a sua ramagem), mas que deixara há muito de produzir alguma coisa útil para a glória de Deus.   


Assim a figueira, na tradição cristã, tornou-se a árvore do mal, simbolizando tanto a sinagoga, que não reconheceu o Cristo, como todas as doutrinas heréticas. A tradição medieval cristã aproximava o verbo peccare (pecar) da palavra hebraica pag, figo. Considerada árvore da abundância, da fecundidade perigosa e descontrolada, a figueira aparece na Bíblia como a árvore da ciência, sempre perigosa para as questões da fé. Árvore na qual Judas Escariotes se enforcou, sempre maldita, associada a ritos de fecundação, sempre fez parte do universo simbólico das divindades fálicas, Dioniso, Príapo e outras, satanizada por isso pelos cristãos.

EXPULSÃO DO PARAÍSO (MICHELANGELO)


Ao comer os frutos proibidos, Adão e Eva abandonaram o divino. Tentados, pressionados por forças inconscientes que não dominavam (a serpente), acharam, ao comer figos, que podiam adquirir o conhecimento que os igualasse a Deus. Ora, o divino é um mundo ao qual só se pode ter acesso pela fé, nunca pela razão. A figueira, por causa dessa carga de maldição no mundo cristão, foi condenada a dar frutos sem florir. 


A Árvore do Conhecimento, conhecida como a Árvore do
FÊNIX
Bem e do Mal, a grande figueira, estava no Jardim do Éden. Não só Adão e Eva, instigados pela Serpente, comeram os seus frutos; todos os animais da criação comeram-nos também. Só uma ave se absteve, sendo transformada por isso na Fênix, a ave que nunca morre.



 A Árvore do Conhecimento é, como se pode constatar, uma metáfora que admite leituras em várias direções: a) como símbolo da capacidade de discernimento que o homem devia demonstrar diante do Bem e do Mal; b) como uma representação da vida sexual não ligada à procriação, mas tão só ao prazer; c) como uma representação do psiquismo humano; Adão, o consciente, masculino; Eva o inconsciente, feminino. Daí, a relação entre a mulher e a serpente e a culpa atribuída a esta (s) última (s) pela perda do Paraíso; aliás, foi por esta razão que a serpente, nos meios judaico-cristãos, passou a simbolizar o Mal; a sua peçonha foi inoculada, segundo os judeus, em todos os descendentes de Eva, tendo sido, porém, removida do povo de Israel quando a Torá lhe foi transmitida; foi por esta razão também que se atribuiu a paternidade de Caim à serpente e não a Adão; d) uma Ilustração da vida humana que rejeita os valores do mundo natural ao optar pelo luxo, pela concupiscência, pela corrupção da riqueza.  


É do mundo grego que nos vem a sycomanteia (sicomancia) uma forma de adivinhação praticada com as folhas da figueira. Escreve-se um nome numa folha, nome sobre o qual se deseja alguma informação. Se a folha secar rapidamente, o sinal é de mau augúrio. Se custar a secar, o sinal é de bom augúrio. 


Ciência, fígado e fogo se equivalem no contexto semântico
PROMETEU
do mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos céus (do deus Hélio), trazendo-o escondido no galho oco de uma figueira, e o entregou aos humanos. Por isso, como punição, teve  o seu fígado destruído e recomposto alternadamente por um abutre gigantesco. Destruído durante o dia, o fígado se recompunha à noite quando a pavorosa ave se afastava. A palavra latina ficatum, como vimos, também designa o fígado de ave engordada com figos. 


O nome
SIGNO DE GÊMEOS
Prometeu, por outro lado, etimologicamente o que sabe antes, o previdente, vem de um verbo, manthanein, que tem relação com a produção do fogo pelo atrito de dois pequenos bastões, símbolo, na Astrologia, do signo de Gêmeos, do elemento ar, ligado à vida mental.




Na língua sânscrita, o substantivo manthini designa o ato de se girar bastões para a produção
AGNI
do fogo, da manteiga etc. Já se levantou a hipótese de que Prometeu seria o modelo grego dos sacerdotes que no mundo indo-europeu cultuavam o fogo. Na Índia, esses sacerdotes participavam do culto de Agni, uma das três grandes divindades do fogo no mundo védico (Surya e Indra são as outras). 



Simbolicamente, o fígado, em muitas tradições, sempre apareceu associado ao fogo como sede de paixões com o sentido de morte da alma, como privação de Deus. Esta privação toma aqui também (e em muitas outras tradições) o sentido de excesso, de orgulho mental, que neste
SÃO JOÃO DA CRUZ
sentido, por exemplo, encontramos tanto em São João da Cruz como no mito de Prometeu. Ao receber o fogo de Prometeu, os humanos, ao utilizá-lo somente para a vida mental, para a ciência e para seu subproduto, a tecnologia, para  a enorme produção de bens materiais, perderam a sua dimensão espiritual. O presente de Prometeu, o chamado filantropíssimo, se constituíu nesse sentido numa dádiva e numa maldição. Prometeu, para os humanos, um grande benfeitor, sob o ponto de vista divino, um ser perigoso, um ladrão. A rigor, o titã foi um agente duplo, como expusemos no trabalho “Prometeu, Platão e a Mitologia”,


GASTON BACHELARD
neste blog. 


Acho oportuno lembrar a esta altura que foi o mestre Gaston Bachelard quem fixou melhor para nós a ambígua figura do Filantropíssimo, ao formular o chamado complexo de Prometeu: tendência que tem o ser humano de saber mais do que aqueles que o antecederam, pais, professores, mestres. Esse complexo, como diz Bachelard, ilustra a vontade humana com relação à vida intelectual, tornando-a dependente exclusivamente do princípio da utilidade material Ou seja: o complexo representa a atitude moral que considera como superior tudo o que, sob o ponto de vista utilitário, nos dá mais felicidade. Uma espécie de “aritmética dos prazeres” que tem a finalidade de aumentar cada vez mais o bem-estar material da humanidade.  

HÉRCULES SALVA PROMETEU
     
Punido pelos deuses, Prometeu foi aprisionado nas montanhas do Cáucaso. Ali ficou por muito, tendo o seu fígado destruído e recomposto diariamente, até que Hércules, quando do terceiro trabalho (também neste blog), o libertou. Para um melhor entendimento e uma confirmação do que aqui se expõe, útil a contribuição astrológica. 


O fígado, astrologicamente, tem a ver com o planeta Júpiter, regente do signo de Sagitário. Esse planeta representa os princípios superiores que devem orientar o homem, tanto
FÍGADO
espiritual, como mental e fisicamente. Bem trabalhado, o planeta é generoso, protetor, otimista, sustentador. No corpo humano  tem muito a ver com as propriedades nutritivas e protetoras do sangue. Rege, dentre outras parte e órgãos, o fígado, o baço, a vesícula biliar, a transformação dos açúcares, a atividade química do corpo. Doenças jupiterianas produzem desordens sanguíneas, problemas no fígado, hemorragias, hiperglicemia. Tanto como órgão gerador da vida, de virtudes guerreiras e de coragem, o fígado é, por outro lado, o lugar onde o ser humano deposita sentimentos como a cólera, a dor, o ódio. 


GULA (HIERONYMUS BOSCH)

Palavras como melancolia (melanos, negro, khole, bílis)  atrabiliário (atra, negro, sombrio, mais bilis) e figadal são desse universo. Figadal é o que atinge profundamente; um inimigo figadal nos provoca rancor, faz mal às nossas víceras.
Júpiter aponta para descontroles alimentares, moléstias pulmonares (ação reflexa), impurezas do sangue, adiposidade, obesidade, flatulência etc. Muitos dos problemas de saúde causados por Júpiter estão ligados aos órgãos da nutrição, do metabolismo, da assimilação, da combustão e das reservas. O fígado, nesses casos, deve ser o primeiro a se observar: é o lugar, como se disse, onde depositamos os excessos. A gulodice é um dos pecados capitais dos sagitarianos; abundância alimentar, degustações de pratos ricos, tudo contribuindo para que o fígado receba grandes quantidades de gordura. Não metabolizada, esta gordura vai engrossar a silhueta, produzindo marcas características nos do signo que se descontrolam, ganho de peso, produzindo a chamada obesidade visceral (esteatose, degenerescência gordurosa de um tecido). Um dos males mais comuns em sagitarianos que vivem desse modo é, por isso, a diabetes. No mais, persistindo o desequilíbrio, a bulimia, acessos de hiperfagia etc. Uma das consequências mais notáveis dos excessos sagitarianos é a gota, moléstia provocada por excesso de ácido úrico no organismo, causador de dolorosas inflamações nas articulações. É uma moléstia que vem acompanha geralmente de obesidade, pressão arterial elevada e níveis altos de colesterol (khole, bilis, stereos, sólido). 


Aplicando o princípio da correspondência (Hermetismo) ao que acima se expôs, fica fácil entender porque Sagitário e Júpiter têm a ver com o distante, com as religiões, com as heresias, com a filosofia. Num nível superior, Júpiter, espiritualmente, representa a revelação e a comunicação,  a expansão pela qual a vida instintiva e a vida mental podem buscar um “além-eu” através de vários modelos de transcendência. 


O fogo que Prometeu entregou aos humanos perdeu o sentido da transcendência; veio criando, ao longos dos milênios, ao invés de modelos superiores da inquietação humana,  formas doentias de vida, hoje integradas ao quotidiano (material) das pessoa como busca desenfreada da riqueza, consumismo, nomadismo, esportes radicais, agitação sob o nome de aventuras, desejo de viajar por
BOLSA DE VALORES
nada, degustação de paisagens pitorescas, especulações ruinosas (jogo do dinheiro) sob o ponto de vista econômico, negócios internacionais questionáveis, competições esportivas motivadas pelo lucro, corrupção do espírito olímpico etc. Ao lado de tudo isto, os vícios de sempre, cada vez mais evidentes porque proclamados e divulgados hoje pelas diversas webs: a ignorância pretensiosa, o exagero, a irreflexão, a imoderação, o despudor, a autoindulgência, a falta de sinceridade, a indigência mental, o exibicionismo, o orgulho arrogante e inútil, a fanfarronice. Isto significa nenhum impulso real para se dar à vida um sentido espiritual, nenhuma vontade de se impregnar as questões práticas com alguma forma de idealismo nem de se procurar entender que as formas mais elevadas de transcendência estão nas viagens que podemos fazer para dentro de nós mesmos.  

  

No mundo islâmico, os camponeses consideravam o figo como um fruto sagrado, bendito (baraka). Sua antiguidade está longamente atestada, fazendo, por exemplo, parte do cerimonial das núpcias entre os bérberes (grupo étnico nômade de origem camita que habita o norte da África desde a pré-história) e camponeses, de um modo geral. A 95ª surata (subdivisão do Corão) começa por uma evocação da figueira e da oliveira. O simbolismo da fecundidade da figueira é, contudo, pré-islâmico. É por essa razão que na África do norte a figueira é sinônimo de testículos.


Entre os povos do norte da África, o figo seco é conhecido pelo nome araula, considerado sempre como um alimento
CARAVANA
muito importante, imprescindível para os pastores do deserto, para os trabalhadores braçais ou para qualquer pessoa que trabalhe fora de casa. São usados também os figos na composição da Fakia, (mistura de frutos secos, nozes, passas etc.), consumida nas festas de Ennair (ano novo agrário), e como acompanhamento nos ritos de inumação. O figo entra ainda como elemento básico para a produção de uma bebida alcoólica, a Mahya, uma espécie de aguardente.



É na Índia que encontramos o maior exemplar da figueira, a Ficus Bhengalensis, seculare, cuja copa chega a atingir mais
FICUS RELIGIOSA
de trezentos metros de diâmetro. Dentre as várias espécies da árvore, a mais importante é, sem dúvida, a Ficus Religiosa. Ashvata (Ashavattha, em sânscrito), conhecida desde os tempos prévédicos. Já era usada como símbolo religioso em Mohenjo Daro e Harappa (entre 5.000 e 3.000 aC), cidades do vale do rio Indus, em ruínas quando as tribos árias chegaram à região por volta de 2000 aC. 



ASWINS

Duas etimologias podem ser estabelecidas para a palavra: 1) tha, em sânscrito quer dizer permanecer, ficar; ashva é cavalo. Liga-se o nome ao signo de Mithuna (Gêmeos), na astrologia védica (Jyotish). Os Gêmeos têm o nome de Ashwins (Dióscuros, na mitologia grega); são divindades que fazem nos céus a transição das trevas noturnas para a luz, antecedendo o Sol (Surya), simbolizando como tal o princípio da vida consciente, que deve caminhar espiritualmente em direção do Brahman (O Todo). Com os Ashwins vem Ushas, a deusa da Aurora (Eos na mitologia grega). Os Ashwins são deuses cavaleiros e exercem várias funções, de modo especial a médica. São divindades curadoras na medida em que controlam os cavalos. O cavalo, como se sabe, em todas as tradições, é um dos grandes símbolos do psiquismo inconsciente; 2) a é partícula que indica em sânscrito negatividade; shwa, quer dizer amanhã; tha, quer dizer permanecer, ficar, como está acima. A palavra significaria pois “aquilo que nunca permanece o mesmo de um dia para o outro”, isto é, o transitório. Nas escolas filosóficas (darshanas) do Hinduísmo, ashvattha é o mundo fenomênico, aquilo que dura muito pouco, o mundo de Maya, mutável e perecível, “o que não permanece o mesmo de hoje para a amanhã.”


Posteriormente, na tradição Hinduísta, principalmente nos Upanishads e no poema  Bhagavad Gita, ashvattha tornou-se a árvore invertida que se identifica com o eixo do mundo (axis mundi), que une o céu, onde estão as suas raízes, à terra, por onde se espalha a sua ramagem (as escrituras sagradas, os Vedas). No Budismo a árvore tem o nome de pippal. A iluminação do príncipe Sidharta Gautama, que o transformou em Buda, ocorreu numa Lua cheia do mês de maio; sentado sob a figueira, em Boddhi Gaya, perto do Nepal, o príncipe kshatrya “aquietou os seus cavalos”.


ILUMINAÇÃO DE BUDA


“Aquietar os cavalos”  quer dizer aqui dominar o turbilhão mental e emocional interior, representado astrologicamente por Lua (emocional) e por Mercúrio (mente comum). Estes dois astros são os que mais velozmente circulam nos céus. A Lua, ligada à água, governa o emocional, de natureza inconsciente, enquanto Mercúrio, ligado ao elemento ar, simboliza o mental comum, sempre dispersivo, impregnado de interferências lunares. É por esta razão que o Budismo é um Yoga (da raíz sânscrita  yuj, atrelar, jungir), instrumento de controle dos “cavalos”,  símbolos do  psiquismo inconsciente. 

TRIMURTI

Em muitos lugares da Índia, a grande figueira é conhecida também como banian (Ficus Indica ou Ficus Benghalensis), símbolo da imortalidade, do conhecimento superior. Confunde-se ela com Vishnu, segunda pessoa da trimurti hinduísta, que tem tantos nomes quantos galhos tem a figueira sagrada. Os vishnuístas adoram esta árvore, muito encontrada na vizinhança de seus templos. Em cada cidade do interior da Índia, há um banian sagrado; seus galhos pendentes em direção da terra dão nascimento a novos troncos e é no seu cruzamento que os templos e lugares sagrados de repouso são construídos.