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terça-feira, 22 de setembro de 2015

GALAHAD II


                     
GALAHAD
    
As mais antigas civilizações, desde as primeiras etapas de sua formação, sempre glorificaram alguns seres que de certa maneira se destacaram por feitos ou deixaram algum exemplo. Reis, príncipes, fundadores de religiões, de impérios, de cidades, guerreiros etc. De um modo geral, a esses seres se deu o nome de herói, palavra que veio do grego, héros, heroos, latinizada depois, usada também, nos mitos, para designar um semideus (filho de uma divindade e de um mortal) ou um mortal divinizado. Mesmo as civilizações que não seguiram de perto os modelos asiático e europeu, como as do norte, centro e sul americanas, tiveram essas figuras nos seus mitos. A única exceção que realmente poderíamos destacar, com relação ao tema heroico, nós a encontramos na civilização egípcia, nele inexistente. 

Nas suas raízes etimológicas (gregas) mais profundas a palavra herói designava na mitologia o filho de um deus ou de uma deusa com um ser humano. Aos poucos, a palavra passou a ser utilizada para denominar um mortal divinizado após a sua morte (evemerização) e também aquele que se notabilizou por seus feitos guerreiros, sua coragem, sua abnegação. O sentido da palavra foi se ampliando, admitindo-se depois seu uso para apontar pessoas que suportaram um destino incomum ou que se dedicaram, até com o sacrifício da própria vida, a trabalhar pela humanidade. Do século XVIII em diante, com o Romantismo, uma nova dimensão foi incorporada à palavra, principalmente através da Arte, mais da Literatura. Determinados personagens que problematizavam sua relação com a sociedade começaram a ser chamados de heróis. Hoje, a palavra é aplicada a pessoas que se destacam por suas relações, dignas ou indignas, que se tornam de algum modo o centro das atenções.


CAVALEIRO  MEDIEVAL  E  SUA  DAMA

De um modo geral, os heróis, nos mitos de todas as culturas, são considerados também como um elo, um traço de união entre a terra e o céu. Podem eles, contudo, em determinados casos, adquirir a imortalidade através de feitos e conquistas excepcionais. No geral, simbolizam um esforço evolutivo, um desejo de superação, de transcendência, que é buscado em meio a impulsos muitas vezes contraditórios, desmedidos, que os levam a tentar se igualar aos deuses ou até mesmo superá-los. Os temas da vida heroica se fixam na conquista da glória, da imortalidade, procuradas através de dois caminhos principais, a via social (horizontal) e a via espiritual (vertical) que, às vezes, se interpenetram. 

Sabemos que a imagem do herói pode se associar em sonhos, em todos os estágios do desenvolvimento psíquico do ser humano, à presença de um guia, de um mestre, de um orientador. Essa figura estará sempre relacionada com o devenir, com o futuro do sonho do herói, como uma proposta de mudança indispensável de autosuperação, de evolução, de transcendência.  


LEITURA   NOS   CONVENTOS

O tema do heroísmo nas lendas (legenda, em latim, o que deve ser lido), além dos caminhos acima apontados, tomou também uma outra direção a partir dos séculos do início da era medieval. As lendas, nesses primeiros tempos, tinham por motivo a vida de santos e de mártires, cujas histórias, reproduzidas em textos, eram lidas (daí o nome legenda, o que deve ser lido) nos refeitórios dos conventos. Passaram essas histórias depois à vida profana como contos populares que tinham por base certos fatos que aos poucos foram se embelezando, se desenvolvendo, transmitidas e transformadas pela imaginação popular. Tais lendas procuraram invariavelmente descrever ações ou ideias através da crônica de certos heróis, com o objetivo de fazer com que o público participasse desse mesmo impulso. Perdeu-se, assim, o fato histórico e no seu lugar o que mais se fixou foi a ação maravilhosa. 

A palavra maravilhoso, do latim mirabilia, traduz tanto a ideia de algo que espanta com a daquilo que pode merecer também crédito, sempre causando admiração, opondo-se tais conceitos aos de realidade ou de normalidade. Há sempre, também, a ideia de transgressão de fatos empíricos. No Ocidente, na cultura medieval, o maravilhoso torna-se um motivo central na literatura cavaleiresca dos sécs. XII e XIII, uma espécie de arma cultural a serviço da aristocracia e dos meios eclesiásticos.


CANÇÃO DE GESTA


Nas lendas, a via é mais social. Ao contrário dos mitos, os personagens lendários não participam, de um modo geral, do divino. O herói da lenda é um personagem enraizado na história, notabilizado por seus feitos guerreiros, por sua coragem, tenacidade, abnegação, magnanimidade e pureza.  Alguns heróis, embora fixados no plano social, histórico, simbolizaram, entretanto, pelo seu exemplo, uma proposta de transcendência “vertical”, espiritual, religiosa. 


CARLOS   MAGNO

Com o título de canções de gesta aparecem nos séculos seguintes ao reinado de Carlos Magno (768-814), na Europa, principalmente na França, algumas produções poéticas, geralmente compostas em versos de dez sílabas, que louvavam os feitos maravilhosos e heroicos de certos cavaleiros que teriam vivido nas cortes de tempos passados, de modo especial, na época carolíngea, entre os sécs. VIII-IX. Esta literatura é considerada como um subgênero da epopeia e tem características formais específicas, usa uma linguagem estereotipada e procura desenvolver temas ao mesmo tempo religiosos e guerreiros. Gesta vem do latim, gesta, gestorum e tem aqui o sentido de façanhas, feitos heroicos, memoráveis, reais ou imaginários. 


Desde o final do séc. XI, a canção de gesta passou a ser salmodiada por um cantor profissional itinerante, diante de um público muito variado e em grande parte analfabeto que se reunia em lugares de grande concentração popular, praças públicas, feiras, mercados ou lugares de peregrinação. Os auditórios desta literatura, de forte tradição oral, eram entusiastas tanto nas cidades como nas estradas. O ritmo era um dos elementos essenciais destas produções. Os cantores (poetas) procuravam desenvolver seus temas repetidamente, uma sucessão de clichês muitas vezes, usando técnica semelhante à dos aedos (poetas-cantores) gregos dos tempos de Homero (850 aC), tudo para facilitar a sua memorização. De outro lado, valendo-se de recursos como os da variação na repetição, uma espécie de retórica muito peculiar, procuravam eles prender a atenção dos auditórios, formados em grande parte, como se disse, por um público iletrado.

TROVADOR 
Esta literatura, inicialmente voltada para a glorificação dos feitos fundadores da civilização medieval, guerreira, feudal e cristã, foi mudando, a partir do séc. XII, procurando expressões menos rudes, mais elegantes de vida, nas quais as mulheres passavam a ter um papel mais ativo. Surge então a chamada literatura cortês, praticada nas cortes. Dava-se o nome de corte à entourage de um príncipe; era essa entourage que o ajudava e aconselhava, auxiliando-o a administrar os seus domínios, a fazer justiça e a tomar decisões políticas. Nos séculos XI e XII, as cortes dos príncipes ocidentais constituíram o cenário onde começou a se desenvolver esta literatura.

Os costumes e as maneiras se suavizam nesse período. A nobreza medieval se tornou uma classe hereditária cada vez mais fechada. Sob a influência da Igreja Católica, os sentimentos de generosidade e de polidez entraram em circulação. Criou-se uma vida mundana, pontuada por festas e cerimônias. As mulheres, as damas, adquiriram um papel importante na fixação das novas regras de convivência palaciana, regras estas que aos poucos iam permeando inclusive as camadas sociais mais baixas.

 As escolas episcopais e monásticas formavam um público de leitores atraídos pelas obras em latim e em francês. Estas obras eram escritas especialmente para uma elite mais civilizada, tendo por tema aventuras sentimentais em meio a ambientes elegantes e luxuosos. Esta literatura tomou o nome, como se disse, de cortês porque se destinava, sobretudo, a um público que frequentava a corte. 

No séc. XII, a promoção da mulher é favorecida por uma iniciativa da Igreja Católica. O culto da Virgem Maria, até então apagado, passou a ser muito prestigiado nos meios católicos com o objetivo de se realçar, como altamente desejáveis sob o ponto de vista social, modelos espiritualizados de vida. Esses modelos procuravam acima de tudo valorizar o papel da mulher na construção dessa nova ordem, destacando temas como a concepção do mundo e da sociedade articulada por uma relação hierárquica entre a carne e o espírito, impondo-se este àquela de modo indiscutível; como a santidade do casamento; como a virgindade da mulher solteira; como a atenuação da natureza carnal da mulher, não mais vista fonte absoluta da luxúria e do pecado; como a desculpabilização da mulher, sempre considerada a causadora da expulsão do Paraíso; como as limitações eclesiásticas e judiciárias a que as mulheres estavam submetidas, entendidas como naturais, pois o homem (só ele) tinha sido criado à imagem de Deus (Gen 1,26) etc.


                               ANUNCIAÇÃO ( FRA ANGELICO)

Lembre-se que a Virgem Maria, que antes do século IX só tinha uma festa (1º de janeiro), no fim do século XII já contava com quatro: Anunciação (25 de março), Assunção (15 de agosto), Natividade (8 de setembro) e Purificação (2 de fevereiro). Entre os séculos XIV e XV, acrescentar-se-ão Visitação, Entrada no Templo, Dores de Maria e finalmente Concepção. Com esta promoção, a Virgem Maria se “individualizou” e adquiriu autonomia com relação às questões ligadas ao seu Filho, apesar de todas as discussões que se seguiram nos meios cristãos sobre tal “independência”, muito incômoda às vezes, sempre tivessem procurado garantir a pureza da mãe de Deus, declarada como virgem ante partum, in partu et post partum. 


VISITAÇÃO  DA  VIRGEM  MARIA  A  SANTA  ISABEL  (GIOTTO)

Uma das melhores imagens sobre o papel da mulher nessa nova ordem apareceu entre os séculos XV e XVI como a temos no conjunto das seis tapeçarias, denominadas La Dame à la Licorne, hoje no Musée de Cluny, em Paris. Em cada tapeçaria, sobre um fundo ornado de flores (mille fleurs) e animais, uma jovem mulher é representada cercada de emblemas heráldicos, notadamente um leão e um unicórnio. O conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos; na sexta tapeçaria aparece a frase À mon seul désir, ou seja Segundo o meu livre arbítrio, ou ainda Sem submissão aos sentidos. 


TAPEÇARIA  LA  DAME  À  LA  LICORNE  


Dentro da literatura cortês, muito variada, há um tópico temático que recebeu o nome de matéria bretã, de inspiração celta, mais exatamente a lenda do rei Arthur. Em 1.135, Geoffrey of Monmouth publicou a sua Historia Regnum Britanniae (História dos Reis da Bretanha), em latim. Esta obra foi traduzida livremente, em octassílabos, para a rainha Alienor, pelo poeta anglo-normando Wace. Revelava-se por ela, para os franceses, a lenda do rei Arthur, chefe dos celtas, que comandou a resistência contra a invasão dos saxões no século VI. 

A figura de Arthur se situa entre a fronteira do real e do imaginário. Sua identidade histórica é a de um chefe militar que organizou no século VI a luta da nação bretã contra o invasor saxão. A literatura vai lhe dar uma segunda existência e fazer dele um rei mítico, um soberano ideal, ao mesmo tempo modelo e representação de todas as virtudes cavaleirescas da Idade Média. 


REI    ARTHUR




A história de Arthur se insere nas tradições da mitologia dos celtas e fala de sua volta, do seu retorno maravilhoso. As lendas trataram Arthur como um rei poderoso e refinado, que mantinha uma corte luxuosa, dela fazendo parte, como mais próximos, os valentes cavaleiros da Távola Redonda. Estes cavaleiros sentavam-se à grande mesa circular para evitar disputas quanto às preferências reais. O cenário das aventuras de Arthur e de seus cavaleiros era a Armórica (nome da Bretanha antes do séc. VII) e mais a região compreendida pela Cornualha, por Gales e pela Irlanda.


TÁVOLA   REDONDA



A crônica de Arthur foi cantada por bardos galeses e por diversos outros (Nennius, Monmouth), fixando-se na França pela obra de Wace e principalmente pela de Chrétien de Troyes (1.135-1.183), o criador do romance moderno, centrada esta última no ciclo do Graal. No século XIII, todas estas obras foram colocadas em prosa sob o título de Lancelot em Prosa ou Corpus Lancelot-Graal, compreendendo cinco partes: A História do Santo Graal, A História do Mago Merlin, O Livro de Lancelot do Lago, A Demanda do Santo Graal e A Morte do Rei Arthur. 


  HISTÓRIA  DE  LANCELOT  E  O  SANTO  GRAAL


O Graal ou Santo Graal (gradalis em latim é um prato largo e cavo, uma espécie de terrina, onde se colocam alimentos de forma gradual; em grego, temos krater, que deu a forma latina cratale, cratalis) seria um cálice muito grande, de que Jesus Cristo teria se servido na última ceia com os discípulos e no qual José de Arimateia teria recolhido o sangue e a água provenientes das chagas do
GRAAL
Crucificado quando de sua Paixão. Segundo lendas bretãs medievais, o Graal teria sido levado para a Bretanha e depositado numa capela dentro de um bosque. O tema do Graal está na base de muitas lendas, de acontecimentos maravilhosos, de fatos extraordinários, inspirando os romances do rei Arthur e dos seus cavaleiros.


Como não poderia ser diferente, as versões sobre a história do Graal, produzidas ao longo dos séculos, são muitas e até, às vezes, contraditórias. Mas há algumas, pouco exploradas, que nos parecem interessantes pois, em que pese toda a carga de maravilhoso e de extraordinário presente, nos permitirão encontrar alguns veios históricos pouco explorados. 

JOSÉ  DE  ARIMATEIA
Um deles, por exemplo, tem como ponto de partida o papel de José de Arimateia na história do Graal. Explorando-o, tomamos conhecimento, numa das versões, de que foi ele, Arimateia, quem trouxe o Graal para a Europa. Senador, discípulo secreto de Jesus, rico comerciante, seus negócios estendiam-se por todo o Mediterrâneo, da Palestina à Britânia. Nas novas terras, Arimateia, liderando um grupo, foi aprisionado e libertado tempos depois por um certo Mordrain, que, como diz a lenda, devidamente inspirado por Cristo, passou não só a lhe prestar assistência como construiu um mosteiro para abrigar o Graal. Para guardião da sagrada peça, foi designado Alain, filho de um cunhado de
CASTELO  DE  COBERNIC
Arimateia. Por ter, certa vez, pescado um grande peixe, com o qual pode alimentar toda a família, Alain passou a ser chamado de Rei Pescador, título que, desde então, ligeiramente adaptado (Rico Pescador) passou a ser aplicado a todos os sucessivos guardiões do Graal. Alain levou depois o Graal para o castelo de Corbenic, onde, bem mais tarde, irão procurá-lo os cavaleiros do rei Arthur.



O apelido de pescador, como se sabe, é um título dado a São Pedro, pois, pela sua ação catequética, ao converter os homens, ele os “pescava”, salvando-os da perdição. Os apóstolos de Cristo eram, em grande parte, pescadores de profissão. Além do mais, lembremos que é de um dos títulos de Cristo, em grego, Iesus Christos Theou Uios Soter (Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador), que sai a palavra Ichtus, peixe, em grego, símbolo do Cristianismo.

As versões sobre a história do Graal apontam um número bastante variável com relação aos cavaleiros. Esse número oscila, segundo as versões, entre doze e cento cinquenta. Os cavaleiros de Arthur se empenharão na busca do precioso cálice, que tomará um sentido místico e eucarístico nos romances. Com efeito, o Graal é tanto um símbolo da vida mística como de aspiração à perfeição cristã que leva a Deus. A cavalaria, que antes estivera a serviço do rei ou da dama, de inspiração terrestre, militar, colonizadora, estava agora a serviço do céu, uma cavalaria celeste. 

Dentre os mais hábeis cavaleiros na busca do Graal destacaram-se Lancelot e Perceval. Contudo, por viverem mundanamente, não conquistarão o precioso tesouro. Foi Galahad ou Galaaz, filho de Lancelot do Lago, cavaleiro puro, livre de toda tentação terrestre, que de fato se aproximou do objeto maravilhoso, antes de deixar a terra, contemplando-o num êxtase que representava a felicidade mística. 

Para chegar ao Graal, símbolo da plenitude interior, era preciso, diz a história, ir além de Lancelot ou de Perceval. O Graal equivale ao caldeirão da mitologia celta, que tanto proporcionava de modo inesgotável alimento para o corpo como iluminava interiormente. É uma conquista que não está ligada a ações externas, mundanas, pelas armas, mas, sim, a uma radical transformação interior, do espírito e do coração.


CORNUCÓPIA
Sob o ponto de vista mundano, entretanto, o Graal, pelos poderes que confere, pode ser considerado um talismã, algo assim como a cornucópia criada por Zeus, a lâmpada de Aladin, o anel de Gyges, o capacete da invisibilidade ou as sandálias voadoras que Perseu usou. Tecnicamente, o talismã (do grego, telesma, objeto consagrado), pela sua preparação ritual e natureza mágica, tem relação com poderes, sendo, neste sentido, ativo. Difere do amuleto (do latim, amuletum, protetor, preservativo), de natureza passiva, que protege contra infortúnios e desastres, exercendo uma função apotropaica, afastando os males. Era o caso, entre os antigos gregos, de estatuetas do deus Príapo, colocadas nos pomares e jardins das casas para afastar Phtonos, a Inveja. 

O tema do Graal vem sendo utilizado desde o século XIX também por alguns estudiosos, fora dos fechados circuitos universitários, para defender a tese de que sempre existiu na Inglaterra, institucionalmente, uma Igreja, cuja origem se perdia em tempos muito remotos, anteriores mesmo à chegada do Graal. Tal defesa se baseia numa possível ligação estabelecida entre a Palestina e a Inglaterra. Cristo e o rico José de Arimateia, em segredo, diz a lenda, visitaram o local, onde se localizava a ilha de Avalon do mito celta, lugar em que, mais tarde, se formaria a pequena cidade de Glastonbury, perto de Bristol, a cerca de 150 km. de Londres.

Depois da morte de Cristo, Arimateia, conforme se disse, em companhia de um grupo, conseguiu chegar ao local por ele anteriormente visitado, ali se levantando uma igreja para guardar a preciosa peça. Esta ligação, reativada mais tarde, teria dado origem à Igreja Anglicana, por pressão de emissários que teriam vindo da Terra Santa. Estes emissários, segundo a tese sobre a qual ora discorremos, se fixaram em Glastonbury.          Estas histórias sobre
Glastonbury (onde se realiza nos tempos de hoje talvez o maior festival de música popular da Grã Bretanha) ganharam grande divulgação principalmente a partir do século XIX, tocando corações e mentes, provocando um revival sem precedentes da mitologia celta, como aconteceu, por exemplo, pioneiramente, com William Blake. 




A história do Santo Graal ganha outra dimensão, ampliando-se bastante o seu alcance simbólico, histórico e psicológico, quando estudada à luz da Astrologia (signo de Virgem). É pelas aproximações que podemos fazer entre a lenda do Graal e a Astrologia, que ampliamos o sentido dessa história. A começar por trazer à discussão o problema da sua origem. Uma variante esquecida, mas muito importante, nos coloca diante de um texto que Guyot, poeta provençal da metade do séc. XII, teria encontrado em Toledo, na Espanha, numa biblioteca. Por esse texto, de autoria de um tal de Flegitanus, astrólogo, tomamos conhecimento de que a história do Graal era, como nele está, de origem árabe. O nome Flegitanus provinha, ao que parece, do persa, formado a partir de felehedaneh, palavra que quer dizer astrologia. Não só por esta, mas por outras razões, não será estapafúrdio admitir que a história do Graal tenha sido trazida do Leste para o Ocidente pelos Cavaleiros Templários. 


CAVALEIROS   TEMPLÁRIOS

Se ao que está acima acrescentarmos outras observações de natureza astrológica não será disparatado defender a hipótese de que a história do Graal é, antes da sua cristianização, como ocorreu com relação a muitas lendas medievais, um texto de inspiração astrológica. É a partir de Virgem, signo-recipiente do ego nascido no signo anterior, Leão, que devemos fazer a opção: buscar um caminho evolutivo, indo em direção do terceiro quadrante zodiacal, que se abre com o signo de Libra, ou regredir, ficando à mercê das várias pressões instintivas, representadas pelos signos anteriores (Câncer, Gêmeos, Touro e Áries). A purificação do ego leonino em Virgem pede, para a grande aventura cavaleiresca, que, feitos os votos de Galahad, o homem ideal entre na posse de suas três virtudes: coragem, fidelidade e pureza.


GLASTONBURY  TOR
Ao que está acima, acrescente-se, para justificar a persistência da lenda e as suas ligações com a Astrologia, que recentemente descobriu-se em Glastonbury uma enorme figura zodiacal, traçada em extensa área do solo, nos arredores da cidade, entendendo-se ela até a famosa colina (Glastonbury Tor), onde está porta que dá acesso a Avalon, local de culto de antigas divindades femininas.  

Galahad é filho de Lancelot e de Elaine, filha do Rei Pescador. Seu nome vem do hebraico, galead, testemunho, de onde chega ao latim bíblico, Galaad (Gênesis XXXI, 47-48). Galahad, na história, era descrito como um cavaleiro extremamente delicado, solícito, o que menos tinha a ver com aventuras sexuais. Sua pureza e sua quase que total ingenuidade é que lhe deram fama. Lendas celtas revelam que quando a Távola Redonda foi instituída um lugar foi mantido deliberadamente vazio. Esse lugar era chamado de Siège Dangereux (Assento Perigoso), destinado ao cavaleiro que um dia encontraria o Graal. Este cavaleiro deveria possuir uma inigualável
RAINHA  GUINEVERE
pureza e, para provar seu valor, teria de retirar uma espada de uma pedra onde fôra cravada (este episódio é uma transposição do mesmo acontecimento que encontramos no mito de Teseu, famoso herói grego). Vários cavaleiros do cortejo de Arthur, incluindo Gawain (Gauvain) e Perceval, tentaram em vão retirar a espada. Lancelot, ciente de sua adúltera relação com a rainha Guinevere, para não desvalorizar a prova, declinará de tentá-la. 


Ao chegar a Camelot, Galahad, lançou-se à prova, realizando-a
CAMELOT
com sucesso. É depois deste acontecimento que os cavaleiros vão procurar o Graal, sendo Galahad o primeiro a dele se aproximar, não podendo, por isso, retornar ao mundo dos homens. Sua alma foi transportada por anjos para os céus, para onde também foi o Graal, levado da terra misteriosamente por mãos que das nuvens desceram. 


Através dos séculos, a imagem de Sir Galahad, como a de um cavaleiro cristão puro e ascético, foi suplantada pela de um cavaleiro cortês, um perfeito gentilhomme. Alguns estudiosos que especularam sobre os romances do Graal chegaram a sugerir que isto se deveria provavelmente a uma certa homofonia entre Galahad e a palavra galant em francês ou gallant, graceful em inglês, (galante, gracioso, gentil, valente, garboso). É com este sentido que Galahad “vive” na língua inglesa como um termo que descreve um modelo de cavalheirismo e de cortesia com relação ao sexo oposto, um perfeito gentleman. 

O ideal de espiritualização da cavalaria, que Galahad encarnou, mais do que qualquer outro cavaleiro, se perdeu. O que ele passou a representar no ideário anglo-saxônico está bem longe daquele cavaleiro que era, antes de tudo, o mestre da sua montaria. O cavaleiro que, ao mesmo tempo em que servia a sua religião e o seu rei, que participava das cerimônias da corte ou que poderia se devotar a uma dama, nunca deixava de interiorizar os seus combates. Talvez o que tenha contribuído bastante para esta descaracterização tenham sido as palavras do velho rei Merdrain, ao abraçar o nosso herói: Galahad, preposto divino, lídimo cavaleiro por quem tanto esperei, abraça-me e permite que eu repouse sob tua proteção, a fim de que eu possa morrer entre teus braços; pois tu és virgem e mais puro que qualquer outro cavaleiro, tanto quanto a flor de lis, signo de virgindade, é mais branca que qualquer outra flor. És um lírio de virgindade, és uma rosa ereta, uma flor de boa virtude e da cor do fogo, o fogo do Espírito-Santo que tão bem te ilumina, eis que minha carne, envelhecida e morta, já se sente toda renovada. (A Demanda do Santo Graal). 

BALDER
Galahad é também, sem dúvida, um símbolo que atualiza o grande modelo que é o deus Balder, dos povos nórdicos, num outro contexto. De uma santidade espantosa, Balder é o melhor de todas divindades escandinavo-germânicas, todos o louvam; sua aparência é tão bela que ele se torna luminoso, sendo comparado, por isso, às brancas flores dos campos, como acontece com Galahad. Balder é, dentre todos os deuses, o mais clemente, possuindo todas as virtudes: sabedoria, sensibilidade e bondade. Galahad, como Balder, ignora os vícios, seus pensamentos são sempre sublimes, suas palavras são sempre justas. 

O Cristianismo medieval, de modo especial o praticado pelos cistercienses, que tinha na mais alta conta a Ordem dos Templários, aproximou bastante a figura de Galahad da de Cristo. Chamado pelo nome de O Esperado, ele era uma espécie de Cristo Cavaleiro, pois, além de destruir os ímpios, todos os que sofriam, à sua aproximação, se viam curados, os demônios era afugentados e os encantamentos e sortilégios se desfaziam.


PRÍNCIPE VALENTE
Em 1937, com desenhos de Harold Hal Foster, apareceram nos USA as histórias em quadrinho de um cavaleiro que lembrava muito Galahad. Era o Príncipe Valente. Em 1949, o cinema se apossou de Galahad. Os estúdios da Colúmbia lançaram um seriado com o título de As Aventuras de Sir Galahad, com George Reeves, o Superman dos anos 1950, no papel-título. Em 1954, Henry Hathaway dirigiu O Príncipe Valente, com James Mason (Sir Brack), Robert Wagner (Príncipe Valente) e Janeth Leigh (Aleta), nos papéis principais. Em 1975, aparece na Inglaterra, na criação coletiva do grupo Monty Pyton, Em Busca do Santo Graal. Em 1981, John Boorman, dirigiu Excalibur. O melhor filme até hoje produzido sobre o tema (cavaleiros, matéria bretã, poesia medieval) continua sendo, sem dúvida, Lancelot du Lac,  do genial cineasta francês Robert Bresson. Para ampliar um pouco mais a compreensão do mundo medieval, recomenda-se aqui que, embora não nos falem diretamente de Arthur e de seus cavaleiros, não deixem de ser vistos, em especial, dois grandes filmes: Les Visiteurs du Soir (Os Visitantes da Noite), realizado por Marcel
ANJELICA  HUSTON
Carné, em 1952, com roteiro do grande Jacques Prévert e de Pierre Laroche, com Alain Cuny e Arletty nos papéis principais. O outro é
A Walk with Love and Death, de 1969, dirigido por John Huston, com a juvenil Anjelica Huston no seu primeiro papel no cinema, ao lado de Assi Dayan, falecido em 2014, filho do famoso militar israelense Moshe Dayan.






terça-feira, 27 de novembro de 2012

GALAHAD - I

                                        
CARLOS MAGNO

Com o título de canções de gesta aparecem nos séculos seguintes ao reinado de Carlos Magno, na Europa, mais na França, certas produções poéticas, geralmente compostas em versos de dez sílabas, que louvam os feitos maravilhosos e heroicos de certos cavaleiros que teriam vivido nas cortes de tempos passados, de modo especial na carolíngea (sécs. VIII-IX).


Esta literatura é considerada como um sub-gênero da epopeia e tem características formais específicas, usa uma linguagem estereotipada e procura desenvolver  temas ao mesmo tempo
AMOR CORTÊS
religiosos e guerreiros. Gesta vem do latim, gesta, gestorum e tem aqui o sentido de façanhas, feitos heroicos, memoráveis, reais ou imaginários.

Desde o final do séc. XI, a canção de gesta passou a ser salmodiada por um cantor profissional itinerante, diante de um público muito variado que se reunia em lugares de grande concentração popular, praças públicas, feiras, mercados ou lugares de peregrinação. Os auditórios desta literatura, de forte tradição oral, eram entusiastas tanto nas cidades como nas estradas. O ritmo era um dos elementos essenciais destas produções. Os cantores (poetas, menestréis, trovadores) procuravam desenvolver seus temas repetidamente, uma sucessão de clichês muitas vezes, usando técnica semelhante à dos aedos gregos dos tempos de Homero, tudo para facilitar a sua memorização. De outro lado, valendo-se de recursos como os da variação na repetição, uma espécie de recurso retórico muito peculiar, procuravam eles prender a atenção dos auditórios, formados em grande parte por um público iletrado.

Esta literatura, inicialmente voltada para a glorificação dos feitos fundadores da civilização medieval, guerreira, feudal e cristã, foi mudando, a partir do séc. XII, procurando expressões menos rudes, mais elegantes de vida, nas quais as mulheres passavam a ter um papel mais ativo. Surge então a chamada literatura cortês, praticada nas cortes. Dava-se o nome de corte ao entourage de um príncipe; era esse entourage que o ajudava e aconselhava, auxiliando-o a administrar os seus domínios, a fazer justiça e a tomar decisões políticas. Nos séculos XI e XII, as cortes dos príncipes ocidentais constituíram o cenário onde começou a se desenvolver esta literatura cortês.

                                                   
OS VISITANTES DA NOITE
(ARLETTY E ALAIN CUNY)

Os costumes e as maneiras se suavizam nesse período. A nobreza medieval se torna uma classe hereditária cada vez mais fechada. Sob a influência da Igreja, os sentimentos de generosidade e de polidez entram em circulação. Cria-se uma vida mundana, pontuada por festas e cerimônias. As mulheres, as damas, adquirem um papel importante na fixação das novas regras de convivência palaciana, regras que aos poucos vão permeando inclusive a vida das camadas sociais mais baixas.

 As escolas episcopais e monásticas formavam um público de leitores atraídos pelas obras em latim e em francês. Estas obras eram escritas especialmente para uma elite mais civilizada, tendo por tema aventuras sentimentais em meio a ambientes elegantes e luxuosos. Esta literatura tomou o nome, como se disse, de cortês porque se destinava, sobretudo, a um público que frequentava a corte.

No séc. XII, a promoção da mulher é favorecida por uma iniciativa da Igreja: o culto da Virgem Maria passa a ser muito prestigiado nos meios católicos com o objetivo de se realçar, como altamente desejáveis sob o ponto de vista social, modelos espiritualizados de vida. Esses modelos procuravam acima de tudo valorizar o papel da mulher na construção dessa nova ordem, destacando temas como a concepção do mundo e da sociedade articulada por uma relação hierárquica entre carne e espírito, impondo-se este àquela de modo indiscutível; a santidade do casamento; a virgindade da mulher solteira; a atenuação da natureza carnal da mulher, não mais fonte absoluta da luxúria; a desculpabilização da mulher como causadora da expulsão do Paraíso; as limitações eclesiásticas e judiciárias a que as mulheres estavam submetidas eram naturais, pois o homem tinha sido criado à “imagem de Deus” (Gen 1,26) etc.


VIRGEM MARIA

Lembre-se que a Virgem Maria, antes do século IX só tinha uma festa (1º de janeiro); no fim do século XII ela já contava com quatro: Anunciação (25 de março), Assunção (15 de agosto), Natividade (8 de setembro) e Purificação (2 de fevereiro). Entre os séculos XIV e XV, acrescentar-se-ão Visitação, Entrada no Templo, Dores de Maria e finalmente Concepção. Com essa promoção, a Virgem Maria se “individualiza” e adquire autonomia com relação às questões ligadas ao seu Filho, apesar de todas as discussões que se seguiram nos meios cristãos sobre essa “independência”, embora sempre garantida a pureza da mãe de Deus, sempre declarada como virgem ante partum, in partu et post partum.

                                           
LA DAME À LA LICORNE

Uma das melhores imagens sobre o papel da mulher nessa nova ordem apareceu entre os séculos XV e XVI. Refiro-me ao conjunto de seis tapeçarias que tem por título La Dame à la Licorne, hoje no Musée de Cluny, em Paris. Em cada tapeçaria, sobre um fundo ornado de flores (millefleurs) e animais, uma jovem mulher é representada cercada de emblemas heráldicos, notadamente um leão e um unicórnio. O conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos; na sexta tapeçaria aparece a frase À mon seul désir, ou seja Segundo o meu livre-arbítrio, ou ainda Sem submissão aos sentidos.


HISTORIA REGNUM
Dentro da literatura cortês, muito variada, há um tópico temático que recebeu o nome de "Matéria Bretã", de inspiração celta, mais exatamente a lenda do rei Arthur. Em 1.135, Geoffroi de Monmouth publicou a sua "História Regnum Britanniae" (História dos Reis da Bretanha), em latim. Esta obra foi traduzida livremente, em octassílabos, para a rainha Alienor, pelo poeta anglo-normando Wace. Revelava-se por ela, para os franceses, a lenda do rei Arthur, chefe dos celtas, que comandou a resistência contra a invasão dos saxões no séc. VI.

A figura de Arthur se situa entre a fronteira do real e do imaginário. Sua identidade histórica é a de um chefe militar que organizou no século VI a luta da nação bretã contra o invasor saxão. A literatura vai lhe dar uma segunda existência e fazer dele um rei mítico, um soberano ideal, ao mesmo tempo modelo e representação de todas as virtudes cavaleirescas da Idade Média.


TÁVOLA REDONDA

A história de Arthur se insere nas tradições da mitologia dos celtas e fala de sua volta, do seu retorno maravilhoso. As lendas trataram Arthur como um rei poderoso e refinado, que mantinha uma corte luxuosa, dela fazendo parte, como mais próximos, os valentes cavaleiros da Távola Redonda. Estes cavaleiros sentavam-se à grande mesa circular para evitar disputas quanto às preferências reais. O cenário das aventuras de Arthur e de seus cavaleiros era a Armórica (nome da Bretanha antes do séc. VII).

                                               
ARMÓRICA


A crônica de Arthur foi cantada por bardos galeses e por diversos outros (Nennius, Monmouth), fixando-se na França pela obra de Wace e principalmente pela de Chrétien de Troyes (1.135-1.183), o criador do romance moderno, centrada esta última no ciclo do Graal. No século XIII, todas estas obras foram colocadas em prosa sob o título de Lancelot em Prosa ou Corpus Lancelot-Graal, compreendendo cinco partes: A História do Santo Graal, A História do Mago Merlin, O Livro de Lancelot do Lago, A Demanda do Santo Graal e A Morte do Rei Arthur.


O Graal ou Santo Graal (gradalis em latim é um prato largo e cavo, uma espécie de terrina, onde se colocam alimentos de forma gradual; em grego, temos “krater”, que deu a forma latina cratale, cratalis) seria um cálice muito grande, de que Jesus Cristo teria se servido na última ceia com os discípulos e no qual José de Arimateia teria recolhido o sangue e a água provenientes das chagas do Crucificado quando de sua Paixão. Segundo lendas bretãs medievais, o Graal teria sido levado para a Bretanha (atual Inglaterra) no ano de 64 dC e depositado numa capela dentro de um bosque. O tema do graal está na base de muitas lendas, inspirando os romances do rei Arthur e dos seus cavaleiros.

Os cavaleiros de Arthur se empenharão na busca do precioso cálice, que tomará um sentido místico e eucarístico nos romances. Com efeito, o Graal é um símbolo da vida mística, de aspiração à perfeição cristã que leva a Deus. A cavalaria, que antes estivera a serviço do rei ou da dama, de inspiração terrestre, militar, colonizadora, estava agora a serviço do céu, uma cavalaria celeste.

Dentre os mais hábeis cavaleiros na busca do Graal destacaram-se Lancelot e Perceval. Contudo, por viverem mundanamente, não conquistarão o precioso tesouro. Foi Galahad ou Galaaz, filho de Lancelot do Lago, cavaleiro puro, livre de toda tentação terrestre, que se aproximou do objeto maravilhoso, antes de deixar a terra, contemplando-o num êxtase que representava a felicidade mística (no século XIX, a lenda do Graal foi retomada por Richard Wagner para a sua ópera Parsifal).


                                
LANCELOT

Para chegar ao Graal, à plenitude interior, era preciso, diz a história, ir além de Lancelot ou de Perceval. O Graal equivale ao caldeirão da mitologia celta, que tanto proporcionava de modo inesgotável alimento para o corpo como iluminava interiormente. Tanto o Graal como o caldeirão celta equivalem ao chifre da abundância, a cornucópia, como a encontramos na mitologia grega e em outras tradições com o mesmo sentido. É uma conquista que não está ligada a conquistas externas, mundanas, pelas armas, mas, sim, por uma radical transformação interior, do espírito e do coração. A história do Santo Graal, lembremos, ganha outra dimensão, ampliando-se bastante o seu alcance histórico e psicológico, quando estudada à luz da Astrologia (signo de Virgem).

                                       
CONSTELAÇÃO DE VIRGEM


É a partir de Virgem, signo-recipiente do ego nascido no signo anterior, Leão, que devemos fazer a opção: buscar um caminho evolutivo, indo em direção do terceiro quadrante zodiacal, que se abre
ESPADA DE GALAHA
com o signo de Libra, ou se regredimos, ficando à mercê das várias pressões instintivas, representadas pelos signos anteriores (Câncer, Gêmeos, Touro e Áries). A purificação do ego leonino em Virgem pede, para a grande aventura cavaleiresca, que, feitos os votos de Galahad, o “homem ideal” entre na posse de suas três virtudes: coragem, fidelidade e castidade.

Galahad é nome que vem do hebraico, galead, testemunho, de onde chega ao latim bíblico, Galaad (Gênesis XXXI, 47-48). Galahad, na história, era descrito como um cavaleiro extremamente delicado, solícito, o que menos tinha a ver com o sexo  feminino. Sua pureza e sua quase que total ingenuidade é que lhe deram fama.

GALAHAD
Lendas celtas revelam que, quando a Távola Redonda foi instituída, um lugar foi mantido deliberadamente vazio. Esse lugar era chamado de “Siège Dangereux” (assento perigoso), destinado ao cavaleiro que um dia encontrasse o Graal. Este cavaleiro deveria possuir uma inigualável pureza e, para provar seu valor, deveria retirar uma espada de uma pedra onde fora cravada (este episódio é uma transposição do mesmo acontecimento que encontramos no mito de Teseu, famoso herói grego). Vários cavaleiros do cortejo de Arthur, incluindo Gawain (Gauvain) e Perceval, tentaram em vão retirar a espada. Lancelot, ciente de sua adúltera relação com a rainha Guinevere, para não desvalorizar a prova, declinará de tentá-la.

                                            
CAMELOT


Ao chegar a Camelot, Galahad, filho de Lancelot e de Elaine, lançou-se à prova, realizando-a com sucesso. É depois deste acontecimento que os cavaleiros vão procurar o Graal, sendo Galahad o primeiro a dele se aproximar, não podendo, por isso, retornar mais ao mundo dos homens. Sua alma foi transportada por anjos para os céus, para onde também foi o Graal, levado da terra misteriosamente por mãos que das nuvens desceram.

Através dos séculos, a imagem de Sir Galahad, como a de um cavaleiro cristão puro e ascético, foi suplantada pela de um cavaleiro cortês, um perfeito “gentilhomme”. Alguns estudiosos que especularam sobre os romances do Graal chegaram a sugerir que isto se deveria provavelmente a uma certa homofonia entre Galahad e a palavra galant em francês ou gallant, graceful em inglês, (galante, gracioso, gentil, valente, garboso). É com este sentido que Galahad “vive” na língua inglesa como um termo que descreve um modelo de cavalheirismo e de cortesia com relação ao sexo oposto, um perfeito gentleman.

O ideal de espiritualização da cavalaria, que Galahad encarnou, mais do que qualquer outro cavaleiro,
GALAHAD - ILUMINURA
se perdeu. O que ele passou a representar no ideário anglo-saxônico está bem longe daquele cavaleiro que era, antes de tudo, o mestre da sua montaria. O cavaleiro que, ao mesmo tempo em que servia a sua religião e o seu rei, que participava das cerimônias da corte ou que poderia se devotar a uma dama, nunca deixava de interiorizar os seus combates. Talvez o que tenha contribuído bastante para esta descaracterização tenham sido as palavras do velho rei Merdrain, ao abraçar o nosso herói: “Galahad, preposto divino, lídimo cavaleiro por quem tanto esperei, abraça- me e permite que eu repouse sob tua proteção, a fim de que eu possa morrer entre teus braços; pois tu és virgem e mais puro que qualquer outro cavaleiro, tanto quanto a flor de lis, signo de virgindade, é mais branca que qualquer outra flor. És um lírio de virgindade, és uma rosa ereta, uma flor de boa virtude e da cor do fogo, o fogo do Espírito-Santo que tão bem te ilumina; eis que minha carne, envelhecida e morta, já se sente toda renovada.” (A Demanda do Santo Graal).

Galahad é também, sem dúvida, um símbolo que atualiza o grande modelo que é o deus Balder, dos povos nórdicos, num outro contexto. De uma santidade espantosa, Balder é o melhor de todas as divindades escandinavo-germânicas, todos o louvam; sua aparência é tão bela que ele se torna luminoso, sendo comparado, por isso, às brancas flores dos campos, como acontece com Galahad. Balder é, dentre todos os deuses, o mais clemente, possuindo todas as virtudes: sabedoria, sensibilidade e bondade. Galahad, como Balder, ignora os vícios, seus pensamentos são sempre sublimes, suas palavras são sempre justas.




O cinema vem, há muito, explorando a literatura cortês: Os Visitantes da Noite (Marcel Carné, 1942), Lancelot du Lac (Robert Bresson, 1974), Em busca de Santo Graal (Monty Python, 1975) e Excalibur (John Boorman, 1981) são, dentre muitos outros, filmes realizados sobre os Cavaleiros da Távola Redonda, o Graal, os menestréis etc. Os melhores deles, considerados inclusive outros que se fizeram posteriormente, continuam sendo os de Marcel Carné e de Robert Bresson, obras maiores desses grandes cineastas franceses.



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

OS CELTAS



Parece estar hoje suficientemente provado que os celtas são oriundos daquele mundo que se convencionou chamar de indo-europeu. Esse mundo ficava ao sul da Rússia, estendendo-se por entre os montes Urais, o mar Cáspio e o Mar Negro. Pesquisas de ordem linguística feitas a partir da língua sânscrita no século XIX levaram à conclusão que na referida região haveria uma língua-mãe, a que denominaram indo-europeu, da qual teriam saído 12 grupos linguísticos, sendo um deles o celta.

Por volta do ano 2000 aC, tribos provenientes desse mundo, em vagas sucessivas, se dirigiram à Europa central e ocidental, atingindo a Alemanha, os Balcãs, o norte da Itália, a Gália, a península ibérica e as ilhas britânicas. Outras migrações, na direção oriental, chegaram à Ásia Menor e ao rio Indus.
Podemos distinguir cinco grandes períodos na história da civilização celta: 1) entre 1800-1200 aC, grupos que haviam chegado à Alemanha do sul alcançam, a partir dela, uma parte da Europa central e ocidental; 2) de 1200-750 aC, sucessivas invasões caracterizam a chamada "civilização dos campos de urnas" (urnfield), na qual encontramos como traços marcantes práticas de incineração e de inumação em túmulos rasos; as influências deste período se estendem, principalmente, à Gália e à Espanha. 

É neste período que se desenvolvem as povoações fortificadas dos celtas, denominadas pela palavra latina oppida; 3) entre 750-480 aC, temos a civilização céltica da primeira idade do ferro, também chamada civilização Hallstat, que na Europa ocidental tem seus territórios na Alemanha do sul, na Boêmia, na Áustria, no leste da Gália, na Itália do norte e na Grã-Bretanha. É neste período que se organiza a sociedade gaulesa, criando-se linhas comerciais entre os celtas e os povos do Mediterrâneo; é também neste período que, por influências gregas e etruscas, a arte celta ganha uma expressão maior, desenvolvendo-se bastante; 4) entre os séculos V e II aC, temos a segunda idade do ferro ou civilização de La Tène, que compreende os Balcãs, a Grécia (tomada de Delfos em 270 aC), a Gália inteira e na direção oriental a Ásia Menor (Galácia). No período que vai de 250 a 120 aC, o da segunda civilização La Tène, a arte atinge o seu máximo esplendor, aparecendo, no sul da Gália, a grande escultura monumental celta. 5) A partir do século II aC, período da civilização La Tène III, os romanos submetem sucessivamente a Gália cisalpina e transalpina, a Espanha, a península balcânica e a Grã-Bretanha. O elemento celta só se manterá na Bretanha (Gália), na Cornualha, no País de Gales, no noroeste da Escócia e na Irlanda.

Os celtas (keltoi para os gregos) jamais chegaram a formar uma nação, misturando-se com rapidez aos povos que já estavam fixados nas regiões que invadiam. Na Espanha, tivemos os celtíberos, na Ásia os galogrecos (gálatas) etc. A união entre os povos celtas estava assentada numa mesma língua e em crenças religiosas mais ou menos comuns. De um modo geral, sua sociedade estava dividida em três grandes classes: a nobreza guerreira, o povo e os druidas. A arte se voltava mais para os aspectos utilitários da vida (uso doméstico) do que para os religiosos. Muito de sua arte se caracteriza também por uma forte tendência esquemática linear, chegando mesmo a uma abstração ornamental que alguns chamam de "surrealista". A ornamentação, em geral, extraía seus motivos do mundo vegetal e animal, expressos por desenhos geométricos, espirais, curvas e contracurvas. Grande destaque para os trabalhos em metal, especialmente em bronze e ouro, menos a prata. Quanto às pedras, trabalhos em âmbar amarelo (resina fóssil) e coral.

O período mais notável da história dos celtas está compreendido entre o século V, quando saquearam Roma no ano de 390, e o século III, quando tomaram o santuário de Delfos, na Grécia, no ano de 279 aC. Nos anos seguintes, sob pressão das tribos germânicas e dos exércitos romanos, a influência celta declina, integrando-se eles, como se colocou, nas culturas preexistentes, mas conservando muitos traços religiosos, culturais e artísticos que até hoje sobrevivem. Um exemplo disto pode ser encontrado nos famosos festivais intercélticos que se realizam em alguns centros europeus, principalmente na Bretanha (França) e na Cornualha (Inglaterra), e também no status de língua nacional que o gaélico, o córnico e o manquês ou manx têm, respectivamente, na Irlanda, na Cornualha e na ilha de Man.

FESTIVAL NA ESCÓCIA

Podemos ainda acrescentar, na Espanha, a ênfase que é dada às expressões culturais galegas de origem celta, na região Norte, habitada desde o século VI aC por um povo celta, os kallaïkoi.



CASTROS DE BAROÑA

O MUNDO RELIGIOSO

Como aconteceu em todas as civilizações, inclusive com os antigos povos da Europa, as primeiras experiências religiosas dos celtas têm relação com a magia e com certas práticas rituais. Neste sentido, as primitivas crenças dos celtas se pareciam bastante com as de camponeses do mundo todo, muito simples, como as que encontramos em várias partes do mundo. As forças que atuavam no cosmos tinham para eles um caráter mágico, invadindo todos os aspectos de sua vida e o ambiente em que viviam.

As primeiras práticas religiosas possuíam a finalidade de conjurar tais forças, controlá-las, para que pudessem de algum modo ser utilizadas em benefício próprio. Para tal, os recursos de sempre: sacrifícios, rituais, algumas histórias e lendas. Não havia um sistema religioso organizado como o tinham gregos ou romanos. O que se encontrou, isso sim, entre os povos celtas, foram traços, vestígios, tanto nos termos religiosos que usavam como em certas práticas, cujas raízes vinham de um fundo indo-europeu comum, fato que, por exemplo, os unia aos árias que haviam invadido a Índia e aos italiotas de antes da dominação romana.

Ao chegar à Europa ocidental, os celtas já encontraram, em vários lugares, numerosas representações religiosas, cuja autoria lhes chegou a ser atribuída. Provou-se depois que tais representações, estudadas sob a rubrica de mitologia pré-céltica, haviam sido erigidas por povos do neolítico. Eram os dólmens e menirs; quando dispostos circularmente, estes últimos receberam o nome de cromlecs. Os dólmens eram formados por dois (bilítico) ou mais megálitos (trilítico, tetralítico etc.). Os menirs eram formados por grandes pedras alongadas, fixadas verticalmente no solo, usados ao que parece como marcos astronômicos e apresentando traços figurativos (totens).


CARLOS MAGNO

Estes monumentos religiosos foram usados pelos celtas desde tempos muito remotos. Uma prova irrefutável disto está num édito baixado pelo imperador Carlos Magno em 789, em obediência a várias determinações conciliares, que proibia o culto de árvores, de pedras e de fontes, de tradição celta. Estes cultos ligados à natureza vinham de longe, cerca de um milênio ou mais da chegada dos celtas, que aproveitaram estes monumentos neolíticos. Na alta Idade Média europeia, proveniente da antiga Gália celta, ainda sobreviviam os famosos cultos dessas pedras enormes, denominadas "Pedras das Fadas" ou "Pedras do Diabo".

As fontes para se obter uma visão do mundo religioso celta, em que pesem os expurgos feitos pela religião católica, permitem que um panorama seja razoavelmente traçado. As pesquisas arqueológicas completam esse panorama. Parte desse material nos vem da antiga literatura, principalmente a irlandesa. Trata-se de material que contém informações mitológicas que aparecem em meio a histórias, nomes de divindades, festividades, atividades sacerdotais etc. De um modo geral, fontes gregas e romanas, estas muito mais, completam as informações. O material de natureza insular apresenta muita semelhança com aquele que encontramos nas fontes continentais.

No continente, aquilo que de mais consistente temos como exemplos das relações com o sobrenatural data do tempo em que povos celtas viveram em áreas anexadas ao império romano. São inscrições em latim, quase sempre se referindo a uma divindade romana que tivesse relação com alguma divindade celta. Outras informações sobre as crenças religiosas celtas podem ser obtidas daquilo que vários autores deixaram sobre eles, especialmente Júlio César. Outra área que pode contribuir bastante é a da Filologia comparada, além, evidentemente, de todo o material arqueológico reunido.




OS CELTAS INSULARES

Tudo indica que os celtas se estabeleceram na Grã-Bretanha no séc. VIII aC e dali chegaram à Irlanda. Temos dois grupos insulares celtas: o ramo gaélico ou goidélico, irlandês, e o ramo bretão ou britano. Nestes dois ramos encontramos muitos registros, inscrições, manuscritos (irlandeses, gaélicos, escoceses), literários (crônicas, lendas evemerizadas), hagiológicos, poéticos (bardos) etc. É de se ressaltar que o druidismo manteve-se bem mais preservado no mundo celta insular que no continental por vários séculos. Isto  se deve ao fato de os druidas, perseguidos pelos romanos, terem se refugiado na Grã-Bretanha e na Irlanda. O grande golpe contra a classe sacerdotal celta viria cerca de quatro séculos mais tarde, no final do século VI, com as pressões e perseguições do Cristianismo, o que praticamente liquidou o druidismo.


O ano celta, tanto na Irlanda como na Gália, estava dividido em quatro fases, marcadas por festas de transição. Na Irlanda, a maior festa tinha do nome de "Samain", celebrada, no calendário atual, entre 31 de outubro e 1º de novembro. Marcava o fim das atividades pastoris. De inspiração imemorial, do neolítico, esta cerimônia tinha por objetivo maior o de garantir a renovação e a prosperidade da terra e dos êxitos tribais, a boa sorte para a primavera e para o verão que viriam mais adiante. Animais eram abatidos, reuniam-se os rebanhos, poupando-se alguns que se destinariam à procriação.

O que se procurava com esta grande festa era a renovação da fecundidade da terra e dos seus habitantes, tudo representado pela união do deus tribal com a deusa da natureza, personificada por um rio ou outro acidente natural escolhido. Como exemplos, temos a união do deus Dagda (Bom Deus) com a deusa Morrigan.



                                                                       O primeiro era o  pai  da  tribo,  seu  protetor,  arquétipo  de  todas as atividades masculinas, inclusive fora da região insular. Dagda possuía um caldeirão de onde saía a comida que a todos alimentava. Dagda é apresentado como uma figura meio grotesca, de poder e apetites desmedidos, vestes curtas, uma clava, sempre com o seu caldeirão, símbolo de inesgotabilidade, rejuvenescimento e inspiração. Além disso, tinha o poder de convocar as quatro estações do ano ao tocar a sua harpa mágica. É de se observar que não havia, entre os celtas, uma "especialização" divina como a encontramos em deuses de outros panteões. As "especializações" (guerra, metalurgia, sabedoria, luz solar etc.) se concentravam na figura do deus tribal. O celta priorizava sempre as divindades tribais, locais, o que explica a grande variedade de nomes entre os vários povos celtas. O mundo sobrenatural, paralelo ao real, era evitado, observadas, contudo, datas e ritos específicos para homenagear as suas potências e divindades.



Uma deusa da natureza se unia ao "Bom Deus". Seus nomes: Morrigan, rainha dos demônios; Nemain, deusa do Pânico; Badb Catha, deusa representada pelo corvo da batalha. Outros nomes de divindades femininas se ligavam ao mundo animal, éguas, por exemplo, a indicar que elas diziam muito mais respeito à terra, à agricultura, que ao âmbito social-tribal. Havia, de qualquer modo, que aplacá-las, dominá-las, subjugá-las, um pagamento, um sacrifício, pela ocupação da terra. Seus aspectos lembravam, por isso, tanto a fertilidade como a destruição. Podiam também ser representadas por outras formas zoomórficas ou por acidentes naturais. As forças mágicas baixavam na noite de 31 de outubro, saídas de grutas, montes, enquanto monstros, pelo fogo, pelo veneno, levavam o perigo aos centros de poder, às fortificações.

Outra festa, a segunda em importância, era a de 1º de maio, começo da estação quente, e tinha o nome de Beltine ou Cétshamain, quando o gado podia voltar aos campos. Acendiam-se grandes fogueiras. A palavra Beltine lembra a palavra celta para designar o fogo. Belenus, divindade muito conhecida no norte da Itália e no sul da Gália, aparece associado, por isso, ao mundo pastoril e ao fogo. Esta data de 1º de maio está associada na Alemanha à figura de Santa Walpurgis, religiosa beneditina inglesa, convocada por São Bonifácio para ir à Alemanha, para se tornar a abadessa de Heindenheim. Morrendo a abadessa, sobre seu túmulo, numa igreja, brotava milagrosamente, um líquido (óleo de Santa Walpurgis). Na noite que precedia a festa da santa, 1º de maio, acontecia a "Noite de Walpurgis", muito semelhante ao Sabá, assembleia noturna de feiticeiros e feiticeiras que se reuniam, à meia-noite, num sábado, lua cheia, sob a direção de Satanás.

O Sabá (Schabbat, descanso, hebreu), entre os judeus, lembremos, se liga ao simbolismo da semana. É uma celebração associada ao sábado, consagrado a Yahvé. É entre os judeus um dia de repouso total, a reprodução do sétimo dia da criação. Na origem, porém, o Sabá tinha relação com os ciclos lunares, com os ritos de fertilidade e de fecundidade e com o simbolismo da noite. Essas festas, segundo os primeiros padres da Igreja católica, tinham estreita relação com a demonologia e a feitiçaria. Aliás, isto já havia acontecido com os judeus; profetas como Isaías e Oseias se levantaram contra estas celebrações e festas ligadas aos ciclos lunares, reminiscências de uma antiga cultura nômade. Com o tempo, Sabá entrou nos dicionários como sinônimo de algazarra, gritaria, de bruxas à solta, reunidas em clareiras ou no alto das montanhas, fazendo sempre um grande tumulto.


As outras duas festas são o Imbolc, a 1º de fevereiro, e Lugnasad, a 1º de agosto. A primeira tinha a ver com a lactação das ovelhas, correspondendo à festa de Santa Brígida no calendário cristão. Por trás destas representações está uma feiticeira, filha de Dagda, divindade da fertilidade, com atributos de ensinar e de curar. O nome Brígida tem relação com "Brhati" (exaltação), em sânscrito. A outra festa se liga ao deus Lug, tendo um caráter agrário. Seus objetivos: garantir o amadurecimento das searas e a colheita. Não entra aqui a ideia de agradecimento, incompatível com a magia. Executado corretamente o cerimonial, a consequência natural seria o bom resultado. Lug, o de "longa mão", era um deus tribal, senhor de todas as habilidades. Nenhum mortal podia vê-lo. Possuía uma lança mágica que sempre encontrava o meio de atingir quem o ameaçasse. Seu arco era o arco-íris, sendo a Via Láctea, na Irlanda, chamada de a "cadeia de Lug". A cidade de Lyon, na França, chamava-se, antes, Lugudunum, em homenagem ao deus. O bem-estar da tribo dependia também do êxito ritual do rei. Más colheitas, epizootias e outras calamidades eram muitas vezes debitadas a um mau desempenho ritualístico real. O rei era o esposo mortal da deusa territorial da natureza.

Lug era chamado também de “O Brilhante”, pois seu grande festival se realizava no verão. O deus aparece ligado ao corvo (lugos é corvo, em gaélico). Esta ave está presente em muitas histórias celtas, parecendo também de modo destacado na mitologia escandinavo-germânica. Odin (Wotan dos germânicos), o maior dos deuses, tinha por companheiros dois corvos que lhe traziam todas as informações do universo, chamando-se um deles Hugin (pensamento) e outro Munin (memória).


MACHAS

Outro aspecto interessante da religião dos celtas era o do chamado tripleto ou triplicidade, isto é, uma mesma deusa ou deus apresentar-se sob uma forma trina, com três nomes diferentes (Morrigan, Babd e Nemain). Três Brígidas, três Machas e assim por diante. Estas deusas triplas são associadas às Matres ou Matronae romanas, portadoras de fecundidade. Entre as divindades masculinas, a tríade toma também várias formas. O número três era o símbolo do poder extremo de toda divindade. Entre os celtas, era o número sagrado, auspicioso, apontando-se aqui muitas analogias que poderiam ser feitas com o mundo védico.

DANA

No panteão insular céltico a figura da grande mãe tinha o nome de Dana, na Irlanda e de Don, na Grã-Bretanha. Ela acompanha Bile, que representa o grande pai, o Deus Pai. Os celtas se consideravam, assim, criaturas de Dana.


GOIBNIU OU GONAVAN

Goibniu ou Gonavan é uma espécie de Vulcano ou Hefesto, arquiteto de torres e construtor. Lud, filho de Don, tem semelhança com o Júpiter romano e dará nome à cidade em que foi mais honrado, Londres, na colina de Ludgate. Consta que a catedral de S.Paulo, em Londres, foi levantada sobre as bases de um antigo templo deste deus. Amaethon, outro irmão, era a divindade da agricultura. O deus civilizador é Gwydion, propagador das artes.


ARIANROD


Ogmios ou Ogme, deus civilizador e da eloquência, é considerado o inventor de um alfabeto que leva seu nome, "ogâmico". A única filha de Don é Arianrod (roda de prata), divindade tutelar da constelação da Corona Borealis. Arianrod lembra Ariadne da mitologia grega tanto por homofonia como pela relação que ambas têm com a referida constelação. Ariadne, como se sabe, abandonada por Teseu na ilha de Naxos, foi encontrada pelo deus Dioniso, que lhe deu um diadema, como presente de núpcias. Tal diadema foi depois colocado nos céus com o nome de Corona Borealis.


OGME OU OGMIOS

Luciano, retórico grego, do séc. II, consagrou um pequeno estudo a Ogme, por ele chamado de Ogmios. Aparece representado sob os traços de um velho enrugado, quase calvo, trazendo uma pele de leão e uma clava, o que lembra muito Hércules. Mas o poder deste Hermes céltico não estava no seu corpo físico. Correntes saíam de sua língua e se ligavam às orelhas dos que o escutavam, dando-nos esta imagem uma ideia de seu poder como deus da eloquência do discurso persuasivo. Os romanos davam o nome de argute loqui à grande capacidade que os celtas tinham de discursar.

Quase todos os personagens, deuses e heróis do mundo religioso celta foram evemerizados nos romances do ciclo medieval do rei Arthur, que forma o conteúdo principal da chamada matéria Bretã. Arthur é um chefe militar dos bretões que lutou contra o invasor saxão, por volta do século VI (500). Torna-se personagem lendário, representando o rei ideal que virá restabelecer o poderio bretão e reunir as tribos divididas. Celebrado por diversos bardos e poetas, o tema foi desenvolvido na França por Chrétien de Troyes, que criou uma versão menos "espetacular" da lenda. O ciclo romanesco, a que se dá o nome de A Conquista do Graal ou Lancelot-Graal, termina com A Morte do Rei Arthur (1215-1235), contribuindo para difundir a imagem do rei e de seus cavaleiros da Távola Redonda.


REI ARTUR E LANCELOTE


OS CELTAS CONTINENTAIS

A visão religiosa dos celtas continentais se concentra no mundo gaulês. As primeiras formulações gaulesas não passaram de um certo animismo, nem houve a rigor uma religião nacional na Gália. Por outro lado, uma dificuldade maior: a literatura religiosa era eminentemente oral. Os versos e cantos em que os sacerdotes druidas (os que vêem, os muito sábios) transmitiam as crenças religiosas praticamente se perderam todos, o que já não aconteceu com a matéria insular. O que é possível depreender do que restou, considerados os documentos que chegaram até nós, além de inscrições votivas e funerárias, permitem a conclusão de que os celtas continentais (Gália) partiram de um animismo primitivo e chegaram à antropomorfização de seus deuses.

Foram os romanos que deram o nome de “Gallia” a duas regiões ocupadas pelos celtas, a Gália cisalpina, aquém dos Alpes, e a Gália transalpina, ou Gália propriamente dita, situada além dos Alpes. Esta última compreendia as regiões situadas entre os Alpes, os Pirineus, o oceano Atlântico e o rio Reno, isto é, não somente a França atual como a Bélgica, a Suíça e a margem esquerda do Reno.

De início, há que se ressaltar o politeísmo regional, divindades ligadas a territórios, como no caso insular. Neste particular, destaque para a divinização das águas e dos lugares elevados, picos. Quanto às águas, o culto se estendia aos rios, fontes e nascentes. Os rios tinham nomes como Diva, Devona, Deva.

O deus Nemausus, por exemplo, tutelar da cidade de Nîmes, era a divindade de uma nascente. Bormanus, o borbulhante, era divindade das fontes termais. Muito significativa nesse mundo era a deusa Epona, sempre acompanhada de um cavalo; tem por atributos a cornucópia, uma taça de sacrifícios (pátera), e frutos diversos. Era a deusa da abundância agrícola e também do elemento líquido, correspondendo, num outro plano, à fonte do cavalo (Hipocrene) dos gregos. Ganhando presença, seu culto alastra-se pelo mundo romano, mas na forma de deusa protetora dos cavalos, colocando-se sua imagem nas estrebarias.

O culto das árvores tem muita importância como o atestam os nomes de várias divindades: Vosges, deus tutelar dos Vosges, cadeia montanhosa no nordeste francês, onde está a vertente ocidental da Floresta Negra; Ardvina, a deusa da região montanhosa das Ardennes (carvalhos); Ardnoba, deusa da Floresta Negra etc. No mundo vegetal, a árvore que sobrepujava a todas era o carvalho, a árvore das maiores divindades. Inúmeros ritos se realizavam tendo o carvalho como centro, sendo sua folhagem obrigatória em qualquer cerimônia religiosa. Outro destaque do mundo vegetal era o chamado gui, agárico, visco, parasita , símbolo da imortalidade, da regeneração e da sabedoria, colhido solenemente. Nessa cerimônia, depois do sacrifício de touros, o sacerdote colhia o  gui com uma pequena foice de ouro. Ainda hoje na Europa essa planta é muito procurada como amuleto.


COLHEITA DO GUI

O gui, entre os celtas, era considerado como remédio universal. Eles acreditavam que essa planta era semeada junto ao carvalho por mão divina. Daí atribuírem a ela a união entre a árvore dos deuses, e as verdades eternas, simbolizadas pelo dogma e pela imortalidade. O gui era colhido no inverno, quando o vegetal se tornava mais visível. Esse era o período em que seus ramos, suas folhas e os tufos amarelos de suas flores se enlaçavam com os galhos, apresentando uma imagem de vida eterna (verde) em meio a uma natureza morta e estéril.

A planta sempre simbolizou a imortalidade porque mantém o seu verdor eternamente, ao contrário dos vegetais com os quais se liga. É uma planta parasita, que pode aparecer junto de macieiras, de álamos ou de salgueiros. Mais raramente, excepcionalmente mesmo (ocasião sempre celebrada), o gui é encontrado junto de um carvalho chamado robur, rei dos vegetais, árvore dos oráculos, da força e da sabedoria.

No reino animal, as preferências iam para o cavalo, o corvo, o touro e o javali, considerados sagrados. Moedas, medalhas, nomes de cidades e inscrições comprovam a importância desses animais entre os celtas. Lugundum, cidade do deus Lug, estava ligada ao corvo (lugos, corvo). Havia a deusa Artio (artos, urso) entre os helvécios de Berna e um monstro que na forma de um urso, sentado sobre a cabeça de um homem, devorava-o pelo braço. Há figuras híbridas como a de uma serpente com cabeça de javali ou com chifres (Ogmios). O touro parece ter sido a divindade animal mais importante, como símbolo da força e do poder gerador. Entre os celtas sua imagem era às vezes apresentada de modo extravagante: dois grous sobre o seu dorso e outro sobre sua cabeça. É o chamado Tarvos trigaranus ( touro dos três grous), uma espécie de deus tricéfalo, provavelmente ligado ao deus Cernunnos.


CERNUNNUS


Ao lado das divindades regionais, territoriais, aparecem entre os celtas, talvez devido a uma "inspiração" romana, divindades como Teutatés (touta, povo), uma espécie de "pai do povo", Esus (senhor, ferocidade), Taran, deus das tempestades, dos raios, lembrando o "Júpiter Pluvius". No fundo, muitas dessas divindades incorporam traços de Marte, Apolo, Júpiter e Mercúrio. Este último tem seu duplo celta, o Mercúrio gaulês, em Ogmios, cuja parceira chamava-se Rosmerta.

ROSMERTA

Ogmios assimilou, inclusive, como se disse, traços de Hércules (pele de leão e clava). Correntes ligam simbolicamente sua língua às orelhas dos que o escutam. É o deus da eloquência, o que se harmonizava com a divisa gaulesa nacional, argute loqui.



Belisana (semelhante à chama) era a "Minerva" gaulesa, uma espécie de vestal protetora das artes e dos ofícios, funções que a aproximavam das deusas Sirona, o lado feminino de Borvo ou Belenus (esplêndido), o Apolo celta, e de Rosmerta, ligada a Ogmios. Chamava-se Sucellus um deus cabeludo e barbudo, que tinha por atributo o martelo e sempre junto dele uma taça para beber. Pelo nome que este deus tinha em outras regiões, Silvanus, chegou-se à conclusão de se trataria de uma divindade ligada às florestas, protetor das colheitas e dos animais, uma espécie de trabalhador da agricultura.

As matres, matronae, tríplices também como entre os celtas insulares, tomavam o nome principalmente das fontes locais. Como tal, simbolizavam a fertilidade, Geralmente eram figuras femininas robustas, coroadas, com os símbolos naturais da abundância, cornucópias, frutos etc. Ao lado delas, ninfas nas suas várias "especialidades", fontes, rios, árvores etc.; gênios protetores; Junones, divindades que não perdiam de vista seus fiéis; Proxumes, espécie de anjos da guarda; Tuteles, fadas, "damas brancas" etc., provavelmente sobrevivência do período neolítico. O que se nota é que o chamado paganismo primitivo deixou marcas profundas no mundo celta, fenômeno que ocorreria com o Cristianismo ao incorporar muitos traços celtas, como se pode notar em muitos dos centros de peregrinação, santuários e fontes milagrosas cristãos.

Referências especiais merecem as chamadas “damas brancas”, aparições vestidas de branco, pertencentes à categoria das fadas, entidades benfazejas ou maliciosas, arteiras. Estas entidades ainda hoje são mencionadas por terem se mostrado em certas regiões do interior dos países que saíram do antigo mundo celta. Há muitas histórias colecionadas sobre elas, principalmente na França. Segundo uma lenda muito divulgada, uma “dama branca” aparecia durante o Natal, no momento em que soavam as doze badaladas da meia-noite, nas ruínas do castelo de la Boursilière, perto de Châtenay-Malabry (Hauts-de-Seine). Contava-se que ela guardava um tesouro e que, nesse, momento ele poderia ser conquistado. Conta-se mais que essa “dama” se mostrava para que Blanche de Castille (rainha de França, séc. XIII; neta de Alienor da Aquitânia e mãe do rei São Luis) não fosse esquecida.

É de se mencionar ainda, quanto ao tema acima, que em 1825 foi apresentada La Dame Blanche, celébre ópera de François Adrien Boieldieu (curiosamente, nome de um personagem do famoso filme La Grand Ilusion, de Jean Renoir), inspirada em texto de Walter Scott, que tem por cenário o castelo de Avenel, na Escócia, onde a história se desenrola em torno de uma jovem órfã, que sabe onde, antes de morrer, a condessa de Avenel escondeu um tesouro.

OS DRUIDAS

Eram os druidas (os videntes, os do carvalho), que exerciam as funções de sacerdotes e juízes, oficiantes da magia e do ritual. Apresentavam, como classe, algumas semelhanças com a instituição bramânica da Índia védica. Os druidas eram recrutados entre as crianças da aristocracia guerreira. Antes dos romanos, que tinham os seus flamines e pontífices, a instituição druida apresentava alguma semelhança também com a classe sacerdotal dos povos italiotas.




Ao lado da atividade dos sacerdotes, quanto às ligações com o mundo sobrenatural, é preciso mencionar a dos poetas, os bardos, poetas cantores, e os vates, palavra que lembra inspiração, êxtase, atuando estes últimos como poetas e profetas ao mesmo tempo. Havia ainda uma corporação entre os celtas, de muito relevo nos primeiros tempos do Cristianismo. Eram os chamados filid (videntes), que tinham a capacidade de ver o invisível; o vate era aquele que sabia antes, o que tinha o maior poder da magia. O conhecimento era, pois, um modo de ver, visão que se conseguia através de transes, arrebatamentos. Uma forma deste arrebatamento estava associada ao sacrifício do touro, cuja carne consumida pelo druida levava-o a vaticinar. Este ritual era conhecido como o "sonho do touro". Tudo isto aproxima, sem dúvida, o druida do xamã da região nórdica euro-asiática.

Ao que parece, os druidas não se interessavam pelo pensamento especulativo de natureza filosófica, como o entendiam os pensadores gregos e romanos, nem administravam a ética tribal, limitando-se eles a velar por um comportamento ritual correto. Algumas exceções quanto a estes pontos que mencionamos podem ser contadas na ponta dos dedos, como é o caso do ilustrado Divicíaco, o druida amigo de Júlio Cesar e de Cícero. As ideias que os druidas tinham sobre a vida pós-terrena estão bem comprovadas por inúmeras provas arqueológicas: armas, ornamentos e comida para a viagem para o Além, inclusive para a festa celebrada quando da chegada da alma. A posição do druida na ordem jurídica tribal é demonstrada pela tradição de que mesmo o rei não poderia falar numa assembleia antes de ter o seu druida se pronunciado.

Por fim, há que se ressaltar a grande importância que nesse mundo tinha o conhecimento transmitido oralmente, de geração a geração. Essa prática era muito comum entre os povos indo-europeus, distantes da urbanização. O mecanismo da tradição oral se baseia na recitação de versos ritmados ou formas aliteradas de prosa. O ritmo predispõe certamente a estados que se aproximam do êxtase, mencionando-se, além disso, que com a prática, grande volume de conhecimentos poderia ser absorvido. Ainda mais: a voz é o instrumento natural da mensagem religiosa e a memória a sua mais fiel depositária. Pela tradição oral pode-se manter o sigilo do conhecimento, sempre de natureza esotérica. Aproximações entre a transmissão oral dos brâmanes na Índia e a dos druidas celtas podem ser feitas, pois em ambas a escrita não teve aceitação ritual. Com o Cristianismo, com os copistas dos mosteiros, a tradição oral celta perdeu o seu prestígio. Os exemplos que muitas vezes acompanhavam a transmissão oral foram esquecidos, já que o suporte da escrita, o texto, acabou por substituir o mestre, perdendo-se a presença humana do emissor, a sua visão, a sua autoridade.

Dentre as informações mais precisas que temos sobre os druidas cabe destacar aquelas que nos deixou Posidônio, séc. II AC, grego, estoico, que viveu em Rodes, em Roma, na África do Norte, na Gália e na Espanha. Erudito, teve como ouvintes Pompeu e Cícero. César, com base em Posidônio e em outras fontes, completou e ampliou tais informações. É de Cesar a notícia de que os druidas procuravam proteger a tradição oral do seu ensinamento, não permitindo o seu registro por escrito. Com isto, valorizavam não só a memória como meio de transmissão privilegiado como também não favoreciam a sua difusão, evitando que pessoas despreparadas se apoderassem dele.



César, nos seus comentários sobre as campanhas da Gália, com a propriedade de grande historiador, nos informa também que a doutrina ensinada pelos druidas afastava o temor da morte ao afirmarem eles que a alma era imortal (metempsicose). É também César que nos esclarece sobre os interesses científicos dos druidas: pesquisadores atentos dos astros e dos seus movimentos, seus conhecimentos astronômicos pareciam ser muito avançados; tinham calendários muito bem elaborados. Do mesmo modo, ao lado das crenças religiosas, dos mitos, dos encantamentos e das lendas, e do interesse científico, seu grande saber jurídico, veiculado oralmente, cabendo aos druidas ministrá-lo. À sua grande compilação jurídica davam os celtas o nome de Senchas Mar, isto é, a "memória acumulada dos antigos", também transmitida oralmente.


TRISTÃO E ISOLDA

A herança da literatura celta, que ainda sobrevive em alguns centros da Irlanda, do País de Gales e da França, principalmente, é a mais velha da Europa, logo depois da grega e da latina. Ela constitui uma espécie de fundo comum dos costumes daqueles tempos, daquela vida rural da antiga Europa, onde mergulham as raízes de vários países do velho continente. Daí, pois, a sua enorme importância para uma melhor apreciação da cultura europeia como um todo e, por isso, devendo merecer uma maior atenção do que aquela que até hoje lhe tem sido prestada.