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sábado, 21 de novembro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (7)

             
         

Dá-se o nome de celtas a vários grupos humanos, organizados em tribos, de família linguística indo-europeia, que se espalharam pela Europa mais ou menos a partir de 2000 aC. Grande parte da população da Europa ocidental pode ser considerada celta, já que as diversas tribos ocuparam territórios que se estendiam do norte da Grécia (próximo ao mar Negro) à península ibérica e às atuais Inglaterra e Irlanda. Dentre essas tribos, destacavam-se os bretões, os gauleses, os escotos, os batavos, os belgas, os gálatas e outros. 

A religião dos celtas, de um modo geral, tem como base as formulações dos druidas, os sacerdotes que detinham um saber considerado como absoluto, transmitido oralmente. Perseguidos pelos romanos, boa parte deles se refugiou na Irlanda, onde encontrando o seu fim, por volta do séc. VI dC, devido às pressões do cristianismo vitorioso. 

Apesar disso, a cultura celta manteve traços originais até o séc. XVII principalmente na Irlanda, no País de Gales, na Gália (França),  no  norte  da  Itália  e  no  norte  de Portugal e na Galícia,
TRISTÃO E ISOLDA  (WATERHOUSE)
noroeste da Espanha. Nestas regiões, ainda hoje, encontramos alguma inspiração celta na toponímia, na música, no folclore, nas artes e em alguns usos e costumes das populações. A presença da tradição religiosa céltica pode ser notada também num bom número de fábulas que, no decorrer dos séculos, foram sendo absorvidas pelo mundo cristão e nele se integrando. A legenda arturiana e a história de Tristão e de Isolda são bons exemplos nesse sentido.

Quando nos voltamos para a mitologia do mundo celta, em que pese a constatação de alguns casos isolados, as suas fontes só podem ser apreendidas de modo indireto. O que se dispõe quanto a essas fontes é de um conjunto de crônicas de comentaristas romanos e de alguns documentos vernaculares, de épocas posteriores, como textos em irlandês e gaulês. Destaque-se que os comentaristas romanos que se interessaram pelo mundo mítico celta demonstraram, de um modo geral, uma atitude muito compreensiva no que diz respeito a possíveis semelhanças entre as divindades celtas e as romanas. A religião dos celtas se apoiava sobretudo numa prática animista, cada tribo localizando-a no mundo geográfico. Cada região, cada tribo, em consequência desse fato, possuía uma divindade própria, local. Não havia, digamos, uma divindade “nacional”,  um deus ou deuses superiores, que constituíssem um panteão supra-tribal.

Para efeito do nosso trabalho, dividiremos os celtas em dois grandes grupos, os insulares e os continentais. Animistas
CRUZ CELTA
e politeístas, como praticamente aconteceu com todos os povos com as suas primeiras elaborações religiosas, inclusive com relação aos que caminharam para o monoteísmo, os celtas, tanto os continentais como os insulares, veneraram sobretudo divindades tópicas, regionais, ligadas a um lugar determinado, sempre associadas ao mundo natural. Os dois grandes grupos dos celtas insulares foram os irlandeses ou goidélicos e os bretões, termo que tanto designava os habitantes do país de Gales como os da Bretanha armoricana.





Outro ponto a destacar é que os gauleses nunca tiveram uma religião nacional. Cada tribo tinha as suas divindades, embora fosse possível encontrar certas divindades com características que se assemelhavam. É preciso também acrescentar outra dificuldade às já apontadas: a tradição religiosa dos celtas sempre se fez oralmente. Os inumeráveis versos que os druidas (os daru-vid, os muito sábios, os videntes), no dizer de Júlio Cesar, transmitiam aos seus discípulos, os cantos de vitória mencionados por Tito Lívio, se perderam para sempre. O que subsiste desse mundo são apenas algumas inscrições votivas sobre pedras, em estelas, em baixo-relevo. Já se disse que a mitologia dos celtas é uma mitologia sem mitos. Poucas informações existem desse mundo anteriormente aos registros de Júlio César (Commentarii de Bello Gallico)


COMMENTARII   DE   BELLO   GALLICO

Em 390 aC, os celtas invadiram o norte da Itália (Gália Cisalpina) e saquearam Roma. Por volta de 272 aC, fizeram o mesmo em Delfos, na Grécia. Chegaram até a Ásia Menor, passando pelos Balcãs. A partir do séc. II aC, os celtas começaram a perder seus

territórios para os povos de língua germânica. Aos poucos, com muita dificuldade, os romanos conseguiram dominá-los. Em 182 aC, os romanos anexaram a Gália Cisalpina ao seu império. O golpe final veio com Julio Cesar, que conquistou toda a Gália, e com Cláudio, que dominou a Bretanha. Somente a Irlanda e o norte da Escócia, onde viviam os escotos, ficaram fora da influência direta do império romano.

Não há como se estabelecer, com o que sobrou do mundo celta, traços de uma cosmogonia, uma história sobre as origens do mundo, como a que os gregos, por exemplo, elaboraram. A rigor, só na Irlanda é possível encontrar alguma coisa e mesmo assim textos de uma tradição bem mais tardia, do séc. XVI, onde encontramos referências cosmogônicas misturadas a elementos retirados da Bíblia. 

Menciona-se nessa tradição um dilúvio depois do qual levas sucessivas invadiram a Irlanda. Ainda no terreno da mitologia, os primeiros invasores da Irlanda, chamada pelos gregos de Ierne e, depois, pelos romanos de Hibernia, foi a tribo dos Tuatha De Dannann (os Filhos de Danu), originária da união entre a deusa Danu, a grande benfeitora, e Bile, deus da Morte. Essa tribo e seus descendentes desempenharão posteriormente um papel importante na constituição dos reinos irlandeses. Foram os membros dessa tribo que venceram os monstruosos e disformes gigantes que lá viviam em terríveis batalhas.


PARTHOLONOS

A ocupação da Irlanda está relatada no chamado Livro das Invasões, sendo difícil separar o que é mítico e o que é histórico. Tal ocupação teria começado sob as ordens de um certo Partholon, de origem grega, que viera com a sua família e um  séquito do qual faziam parte sacerdotes (futuros druidas?). O ciclo das invasões só terminaria com a chegada dos gaélicos. Há registros de que Partholon e seu grupo foram vitimados por uma peste. A história deste primeiro invasor sobrevive, contudo, até hoje, no folclore irlandês, no qual ele aparece como um demônio da fertilidade. Os últimos invasores, os gaélicos ou goedélicos, que falavam uma língua de mesmo nome, eram descendentes de dos Filhos de Mil, originários, ao que parece, da Espanha.

Quando os gaélicos chegaram à Irlanda, impondo-se aos descendentes da tribo de Tuatha De Danann, foi-lhes prometido sucesso, pelas divindades locais, se eles escolhessem o nome de uma delas para a terra que estavam conquistando. Um vidente (fili), em nome dos gaélicos, assegurou que a terra conquistada passaria a se chamar Eriu. A deusa, por seu turno, através do vidente, garantiu que a terra conquistada jamais deixaria de pertencer aos gaélicos. 


DAGDA

De um modo geral, quando falamos de religião na Irlanda, menciona-se o nome da deusa Danu, uma espécie de Grande Mãe, cujo culto revelava a presença de antigas tradições matriarcais. Mas, posteriormente, quem aparece no centro de panteão dos gaélicos é Dagda, onipotente e sábio, o Pai Supremo, lembrando ele, em muitos aspectos, Zeus e Júpiter. Seu nome traduz uma ideia de bondade. Seus principais atributos são uma grande clava, arma que, na sua mão, o torna sempre no mais temível dos contendores, e um caldeirão, inexaurível, que representa a abundância e a hospitalidade. Glutão, com uma sexualidade incontida, ele tem como esposa Morrigane, deusa da guerra. Protetor dos Filhos de Danu, assumiu um papel importante na luta entre estes e os gigantes. 


TARANIS
Dagda, como o Júpiter dos gaélicos, foi chamado pelos romanos de Taranis ou Taran, nome equivalente a trovejante, ao latino tonans e ao grego brontaios, sob o qual eram conhecidos, respectivamente, Júpiter e Zeus. Taranis personifica também o Sol. Seu caldeirão (gundestrup) aparece sempre ao lado de uma roda que tanto simboliza a irradiação do astro como a força das tempestades, como Lucano (poeta latino, séc. I dC, sobrinho de Sêneca, e companheiro do imperador Nero) o descreveu, tudo com a finalidade de que o seu duplo aspecto, o temível e o benevolente, fosse devidamente representado.



GUNDESTRUP

No continente, fixemo-nos nos gauleses, as tribos mais importantes da Europa continental, que ocupavam o que é hoje, mais ou menos, o território francês. Antes, porém, é preciso salientar que o estudo da religião dessas tribos gaulesas sempre ofereceu muitas dificuldades porque eles, como todo os demais povos celtas, professavam, como dissemos, uma espécie de animismo que não se preocupava com as representações figuradas, imagens, estátuas etc.

As melhores informações sobre a religião dos celtas gauleses são encontradas nos registros de Júlio César, embora ele nunca tivesse se preocupado com informações mais exatas sobre essa tribo. Escreveu Júlio Cesar: Os gauleses reconhecem a Mercúrio, Apolo, Júpiter, Marte e Minerva, mas professam a Mercúrio uma veneração particular. Sua crença a respeito das divindades é quase a mesma que a crença dos outros povos. Consideram a Mercúrio como o inventor de todas as artes; pensam que ele preside aos caminhos e que exerce uma grande influência no comércio e sobre as riquezas; que Apolo evita as enfermidades, que se devem a Minerva os elementos da indústria e das artes mecânicas, que Júpiter governa com poder soberano o céu e que Marte é o deus da guerra.

Adoravam os celtas gauleses sobretudo as montanhas, os bosques,
BORMOS

as fontes e os rios. O rio Reno, divinizado, era considerado como o nume da fidelidade conjugal. As crianças, mergulhadas no rio, se filhos legítimos, eram salvas, devolvidas pelas águas aos seus pais. Se adulterinas, o rio as levava. Nas águas termais pontificava Bormos, gênio da saúde, auxiliar do deus médico Apolo. 




AGÁRICO
Era nos bosques sagrados, que exerciam também a função de templos, que os celtas se reuniam, junto de determinadas árvores, respeitadas mais que todas. Entre os vegetais, a verbena e o agárico eram os mais sagrados. A primeira era recolhida pelos sacerdotes, os druidas, no primeiro dia da canícula, antes da saída do Sol. Para se recolher o agárico ou visco se esperava a Lua de dezembro. 

O catálogo dos deuses dos celtas gauleses não era muito extenso. Dentre os mencionados com maior frequência pelos poetas latinos,
BELENO
destacamos: Bel ou Beleno: senhor do céu, personificação do Sol. Divindade benéfica que fomentava a germinação dos vegetais e que atuava através de plantas curativas. Belisana: deusa considerada como inventora das artes e identificada pelos romanos como a sua Minerva. Era representada com uma espécie de capacete adornado com um penacho; vestia uma túnica sem mangas, usando por cima dela um peplo. Aparecia com os pés cruzados e com a cabeça apoiada em sua mão direita, em atitude de meditação. 


Taut ou Tautates tinha poder sobre as obras ditadas pela inteligência, o comércio e as medidas. Era também o deus da guerra e adorado sob a forma de um dardo, aparecendo então como protetor nas batalhas. Sob a forma de um carvalho, era invocado para proporcionar a iluminação da inteligência. Taran ou Taranis, associado ao Júpiter romano, era o deus do fogo e das tempestades, manifestando-se através do trovão, do relâmpago e do raio. Ogmios: deus da eloquência, de cujos lábios pendiam correntes de ouro que sujeitavam seus adoradores pelas orelhas. Kirk:
TARVOS-TRIGARANOS
personificação do furacão. Tarvos-Trigaranos: deus conciliador invocado por litigantes. Sua imagem era a de um touro de bronze. Onuava: deusa que representava a terra. Esterela: deusa que proporcionava fecundidade às mulheres. Kermo: deus da caça. Dis e Pikolo: divindades infernais. Irmim ou Irminsul: terrível deus da guerra, semelhante a Marte. Goibiniu: deus da cerveja. Lug, deus cultuado pelos descendentes da tribo de Tuatha De Danann como pelos fomorianos, era uma divindade da luz. Os gauleses faziam seu nome derivar de lugos (corvo), ave solar entre os gregos, consagrada a Apolo. O antigo nome dado à cidade de Lyon, na França, Lugdunun, tem relação com os nomes do deus e da ave, sagrada entre os gauleses. Lembremos que o corvo,  entre escandinavos e germânicos, aparece sempre associado Odin-Wottan.


ODIN  -  WOTTAN

  O corpo sacerdotal dos gauleses era formado pelos druidas, divididos em três classes: os ovatos, aspirantes à dignidade sacerdotal; os bardos, cantores das louvações aos deuses; os darvidins, ministros do culto, que ademais exerciam as funções judiciais, médicas e pedagógicas (instrutores da juventude); vestiam-se de branco, adornavam-se com braceletes e amuletos de pedras na forma de serpentes. Ao que parece, eram os darvidins celibatários, viviam nos bosques, reunidos em comunidades.

DRUIDAS
É de se lembrar que os druidas, como poder religioso, implantaram no mundo celta gaulês uma verdadeira teocracia. Legisladores e juízes, exerciam uma autoridade incontestável, faziam a paz e a guerra, interferiam no poder real, estabeleciam penas e castigos. Estavam isentos do serviço militar, tinham o monopólio da realização dos sacrifícios, tanto públicos como privados, podiam excomungar os que desacatavam suas sentenças, excluindo-os das cerimônias religiosas.

Escritores gregos nos deixaram relatos de que as mulheres também atuavam no druidismo, dele participando através de três classes: na primeira ficavam as que deveriam, num santuário, guardar a virgindade por toda a vida;  na segunda, ficavam as mulheres que poderiam se casar, mas somente podendo sair do santuário uma vez por ano, quando então visitavam a família; na terceira classe ficavam mulheres como servidoras das duas primeiras classes. As druidesas das duas primeiras classes praticavam a astrologia e trabalhavam como adivinhas através da hepatoscopia em vítimas humanas.  Em Estrabão, o grande geógrafo grego, encontram-se registros de sacrifícios humanos conduzidos pelas druidesas. Os vaticínios de algumas dessas mulheres se tornaram muito conhecidos no período galo-romano, chegando mesmo alguns imperadores romanos a consultá-las. Era na ilha de Saina que se encontravam as druidesas de maior prestígio na arte do vaticínio.

Com o avanço crescente da religião cristã a partir do início da era cristã, o druidismo feminino foi perdendo o seu prestígio até desaparecer, o que deu lugar ao aparecimento de muitas lendas pelas quais tomamos conhecimento que as druidesas, perseguidas, transformaram-se em fadas, passando a viver escondidas, propagando-se desde então muitas histórias sobre elas, sempre consideradas como um inapagável vestígio do druidismo.

Como criaturas maravilhosas, senhoras da magia, as fadas e suas histórias fazem parte hoje de uma literatura, a dos contos de fadas,
REINO  DAS  FADAS  DE  BROCELIANDE , BRETANHA 
na qual elas aparecem, de um modo geral, como protetoras, embora algumas possam se dedicar ao Mal. Nesse sentido, são consideradas como feiticeiras, bruxas, agentes das forças negativas que operam no universo. No leste da França, em lugares da Bretanha, e da Normandia, bem como na Irlanda e na Escócia, o mundo das fadas sobrevive não só através de grandes festas celebradas todos os anos em datas especiais e da literatura que sobre elas continua a ser editada, mas, sobretudo, da toponímia de vários lugares.


Quanto à mitologia dos povos do norte da Europa esclareça-se desde logo que ela compreende principalmente os mitos
EDDA  DE  STURLUSON 
propagados a partir da península escandinava e Islândia. Um ramo deste tronco é a mitologia germânica, que difere da outra só em detalhes. Ambas têm um fundo comum e praticamente os mesmos deuses. O texto clássico da mitologia escandinava chama-se Edda, nome de duas obras do séc. XIII, provenientes da Islândia. A primeira, descoberta em 1643, é chamada de Edda Poética ou Edda Antiga, e teria sido composta por Semudo Gigfusson; a segunda tem o nome de Edda em Prosa ou Edda de Snorri Sturluson (seu autor).


Estas obras são uma compilação de poemas mitológicos, cosmogônicos e históricos, produto de uma longa e antiquíssima tradição oral, recitados na Idade Média, de castelo em castelo, pelos escaldos, bardos ou trovadores dos países setentrionais. Os poemas que tratam da matéria histórica chamam-se sagas. O segundo grupo de poemas, de Snorri Sturluson, é uma espécie de comentário dos primeiros poemas.

Os mais importantes poemas da Edda celebram a vitória de Odin ou Wottan. Um deles, a Voluspa (profecia da adivinha), é posto na voz de uma profetisa e oferece uma exposição bastante completa da mitologia escandinava. Em termos muito resumidos, a visão cosmogônica começa pela descrição de duas regiões, uma do fogo e da luz, Muspilheim, onde reinava um ser absoluto e eterno, Alfadir; outra, das trevas, era dominada por Sotur, o Negro, chamada Nifflheim. Entre ambas existia o caos. As chispas que saltavam da primeira região acabaram por fecundar a outra, dando origem aos rios e vapores fumegantes da outra, nascendo desta fecundação Imir, o pai da raça dos gigantes. Tão logo nascido, o gigante sentiu fome. Um raio da região luminosa fundiu o gelo de Nifflheim, aparecendo a vaca Audumbla, de cujos quatro úberes nasceram quatro rios, quatro fontes de leite que saciaram a fome do gigante, que, logo depois, pôs-se a dormir. Da transpiração de suas mãos nasceu um par de gigantes, um macho e uma fêmea. De um dos pés de Imir nasceu um monstro com seis cabeças.

A vaca sustentadora dos gigantes, para se alimentar, lambia a neve na fenda das rochas. Um dia, sob a neve, surgiu uma cabeleira; no dia seguinte, um crânio; no terceiro, um corpo. Era o deus Bure, forte e de formosas proporções. Sozinho ele gerou Bor, que, unindo-se a uma giganta, deu existência a Odin, Vili e Ve, deuses destinados a criar o mundo e a dele se assenhorear.

Estas três divindades e seus trinta e dois descendentes, chamados Ases, tiveram que sustentar um grande combate contra os gigantes, que foram vencidos. Morto Imir, o sangue que saiu de suas feridas afogou, com exceção de um, chamado Bergelmer, todos os demais gigantes de sua raça. Com o corpo de Imir os deuses vitoriosos formaram o cosmos; de sua carne foi feita a terra; de seu sangue, o mar; de seus ossos, as montanhas; de seus cabelos, as árvores. Suspenso sobre a terra, o crânio de Imir se converteu na abóbada celeste. Para iluminá-la, os poderosos Ases nela fixaram as faíscas que se desprendiam da região luminosa. Os restos não aproveitados do enorme corpo de Imir foram roídos por inumeráveis vermes (gusanos), deles nascendo a raça dos anões que passaram a se ocultar nas cavernas, pelas quais tinham acesso ao interior da terra, assumindo a condição de guardiões dos tesouros nela escondidos.

O tema dos anões na mitologia germânica é um dos mais importantes, ao lado daqueles referentes ao elfos, aos trolls  e aos gigantes, sobrevivendo mesmo depois da cristianização dos povos do norte da Europa. Snorri, por exemplo, nos revela que os anões sempre apareceram associados à arte da metalurgia, como os nomes que muitos deles ostentam sugere. Vivendo em baixo da terra, no mundo subterrâneo, foram os anões que produziram muitos tesouros, armas e joias dos deuses, como Durandal, a espada maravilhosa, ou como o martelo de Thor etc. 
  
Para completar a obra iniciada, os deuses resolveram criar um primeiro casal. De um freixo formaram o homem, Askur; de um amieiro formaram a mulher, Embla. Odin lhes deu uma alma, Vili o entendimento e Ve a beleza e os sentidos. Satisfeitos com o que haviam feito, os deuses retiraram-se para a sua mansão, Asgard, no centro do universo, rodeada de várias cidades e refulgentes palácios, moradas dos demais deuses.

YGGDRASIL
O freixo, na tradição escandinava, era um símbolo da imortalidade e de uma ligação entre os três níveis dos cosmos. Como primeira árvore criada, aparece como o Yggdrasil, que sustentava o teto do mundo e sob o qual os deuses realizavam as suas assembleias. Os freixos afastam os maus espíritos e suas folhas distribuídas pelos cômodos de uma casa são extremamente protetoras contra o mal. Consta que o freixo curava, dentre outros males a hidropisia e lepra (as suas cinzas). 

Já o amieiro é o outro vegetal e dele a humanidade também procede. Era muito usado na magia para a fabricação de varas mágicas e em sessões espíritas, já que sua fumaça era muito propícia a contactos com o “Outro Lado”. Sua essência sempre foi muito usada expulsar insetos daninhos de quaisquer espécies. 

A primeira divindade no panteão escandinavo é Odin, de nome Wottan entre os germânicos, assemelhando-se muito ao Zeus dos gregos e ao Júpiter dos romanos. Ele é o recriador e o conservador do universo, além de poderoso deus da guerra. Dispõe de três palácios em Asgard: um para receber os demais deuses, para a sua vida social: outro de onde domina todo o universo, para as suas funções executivas; e um terceiro, o Valhala, no qual instala os heróis mortos nas batalhas, para que lá passem a viver eternamente
uma vida de prazeres, cobertos de glória. Seu cavalo chama-se Sleipnir, maravilhoso, que alcança uma grande velocidade devido às suas oito patas. Ao seu lado, sempre, dois lobos, Geri e Ferki, que o seguem por todo o lado. Dois corvos, Hugin (Espírito) e Munin (Memória), vivem nos seus ombros e têm a missão de recolher todas as informações que circulam no universo, inclusive os pensamentos dos mortais. 

É preciso esclarecer que Odin-Wottan, antes de se tornar uma divindade todo-poderosa, tinha sido uma espécie de demônio das tempestades. Nos países germânicos, principalmente, era crença unânime que em noites de tormenta os espaços celestes eram atravessados pelos fantasmas de guerreiros mortos, em galope tumultuoso com os seus cavalos. Esta tropa furiosa era chefiada por um guerreiro cujo nome na antiga língua alemã era retirado de uma palavra que significava frenesi, furor. Seu nome era Wode, depois Wodan, Wottan, que muitos alemães consideram seu ancestral, Odin para os escandinavos. 

Esta divindade das tempestades noturnas foi aos poucos perdendo o seu aspecto negro para se tornar uma divindade inspiradora de coragem, dispensadora de heroísmo e de vitória e que das alturas decidia os destinos humanos. Sabe-se mais que Odin-Wottan exercia funções médicas, tendo sido encontradas pela arqueologia fórmulas para os mortais invocá-lo no caso de problemas de articulação dos membros (luxações e entorses).  

Odin entre os escandinavos é tanto divindade da guerra como da inteligência superior. Ele é belo e fala tão bem que tudo o que vem dos seus lábios se torna verdade indiscutível. Quando fala, Odin se expressa em língua poética, como os escaldos, Por outro lado, pode tomar todas formas que desejar, touro, serpente, pássaro ou monstro. Quando ele chega ao campo de batalha. Os seus inimigos se tornam subitamente surdos, cegos, impotentes. 


SLEIPNIR
Foi Odin quem fixou as leis que regem as sociedades humanas. Aparece sempre com uma brilhante couraça revestindo o seu peito, tendo na cabeça uma capacete de ouro. Leva sempre nas mãos a lança Gungnir, forjada pelos anões, e que nada pode desviar do objetivo colimado. Nenhum cavalo pode se igualar a Sleipnir, sua montaria. Não há obstáculo que ele não possa superar. 

Odin tem o seu trono numa vasta e resplandecente sala de ouro no Valhala. É lá que ele chama para que fiquem próximos a ele os que mais se distinguiram nos campos de batalha. O telhado de seu palácio, no lugar de telhas, tem escudos brilhantes. Ao invés de bancos, os convivas se sentam em couraças. À noite, o palácio de Odin-Wottan parece um imenso navio iluminado; quando os heróis sacam de suas espadas para celebrar, seu brilho faiscante, enche mais os salões de luz. O palácio tem ao todo 540 portões, podendo passar por eles, ao mesmo tempo, sem atropelo, 800 guerreiros.

ODIN, COMO ÁGUIA, SORVE O HIDROMEL
Neste palácio, os heróis passam o seu tempo se divertindo. Em jogos guerreiros e festins, algo muito semelhante ao que os gregos tinham no seu País dos Bem-Aventurados. No palácio, vivem ao lado de Odin-Wottan as Valquírias, que exercem as funções de guardiãs e de servidoras. São elas que servem o hidromel e a cerveja e que mantêm os pratos permanentemente cheios. 

As Valquírias exercem também uma função militar (têm uma aparência de guerreiras) muito importante. Quando os guerreiros
VALQUÍRIAS
participam de alguma batalha, são elas que designam os que devem morrer e são elas ainda que fazem a vitória pender para este ou para aquele chefe, desde que merecedor da sua graça. Elas percorrem constantemente os céus montadas nos seus cavalos. São invisíveis para todos, salvo para os guerreiros que elas escolheram para subir ao Valhala a fim de se tornarem companheiros de Odin-Wottan. 


Odin-Wottan costuma participar dos negócios humanos. É raro que ele o faça na sua forma divina. Comumente, aparece sob o disfarce de um viajante. Ele é inconstante nos seus favores, muitos de seus desígnios são inexplicáveis, acontecendo às vezes que ele cause a morte de um herói que protegeu por longo tempo. 

Odin-Wottan tem uma vida amorosa muito intensa e diversificada. Sabe-se de muitos casos que teve com deusas, com mortais e mesmo com gigantas. O lado guerreiro de Odin-Wottan ou a sua
RUNAS
atividade erótica nunca abafaram outras características suas como a divindade da sabedoria e da poesia, da medicina, da magia e sobretudo como mestre das runas, que, como se sabe, têm poder mágico, constituindo-se num sistema simbólico de grande riqueza. Runa vem de run, palavra que em antigas línguas nórdicas significa segredo.


A ciência das runas Odin-Wottan a conquistou (não a tinha infusa) ao interrogar todos os seres que viviam no universo. Quem o ajudou nessa conquista foi Mimir, seu tio materno, um demônio das águas, reverenciado por todos os germânicos. Foi numa fonte, onde eram guardadas a sabedoria e a inteligência, perto do Yggdrasil, que Mimir, “o que pensa”, ajudou Odin-Wottan a obter a ciência das runas. 

Um dos episódios mais curiosos da crônica de Odin-Wottan é o do seu sacrifício voluntário e da sua ressurreição. Um velho poema conta que durante nove noites, ferindo-se com a sua própria lança, ele, na forma humana, permaneceu preso aos galhos do freixo divino, seu corpo balançado aos ventos. Esse acontecimento sempre foi considerado como um rito mágico que tinha o objetivo de provocar o seu rejuvenescimento, pois, segundo a mitologia escandinavo-germânica, os deuses, como os humanos, são destinados à degeneração.

Transcorridos os nove dias, os galhos da árvore se quebraram e Odin-Wottan caiu no chão, revigorado, como se tivesse passado por um segundo nascimento. Mimir o fez beber o hidromel divino e, desde então, suas palavras se tornaram cada vez mais sábias e suas obras cada vez mais úteis para os deuses e para a humanidade.  
  
 A história de Wottan-Odin não pode deixar de ser considerada juntamente com a de uma outra divindade chamada Tiuz ou Tyr, que era bem mais antiga que Odin-Wottan e que Thor-Donar. Era também chamado de Ziu por muitas tribos do norte da Alemanha. Os escandinavos o chamavam de Tyr e o anglo-saxões de Tiw. Admite-se que tais designações têm a ver com o Dyaus sânscrito, com o Zeus grego e com o Deus dos latinos. Este nome, como sabemos, passou a designar uma divindade tanto celeste quanto da guerra. Aos poucos, porém, esta divindade passou a representar somente o espírito militar das tribos, tomando o nome latinizado de Thincsus, adotado por exércitos romanos que atuavam no mundo germânico. O nome Thincsus foi inclusive agregado ao do Marte romano.





segunda-feira, 19 de setembro de 2011

OS CELTAS



Parece estar hoje suficientemente provado que os celtas são oriundos daquele mundo que se convencionou chamar de indo-europeu. Esse mundo ficava ao sul da Rússia, estendendo-se por entre os montes Urais, o mar Cáspio e o Mar Negro. Pesquisas de ordem linguística feitas a partir da língua sânscrita no século XIX levaram à conclusão que na referida região haveria uma língua-mãe, a que denominaram indo-europeu, da qual teriam saído 12 grupos linguísticos, sendo um deles o celta.

Por volta do ano 2000 aC, tribos provenientes desse mundo, em vagas sucessivas, se dirigiram à Europa central e ocidental, atingindo a Alemanha, os Balcãs, o norte da Itália, a Gália, a península ibérica e as ilhas britânicas. Outras migrações, na direção oriental, chegaram à Ásia Menor e ao rio Indus.
Podemos distinguir cinco grandes períodos na história da civilização celta: 1) entre 1800-1200 aC, grupos que haviam chegado à Alemanha do sul alcançam, a partir dela, uma parte da Europa central e ocidental; 2) de 1200-750 aC, sucessivas invasões caracterizam a chamada "civilização dos campos de urnas" (urnfield), na qual encontramos como traços marcantes práticas de incineração e de inumação em túmulos rasos; as influências deste período se estendem, principalmente, à Gália e à Espanha. 

É neste período que se desenvolvem as povoações fortificadas dos celtas, denominadas pela palavra latina oppida; 3) entre 750-480 aC, temos a civilização céltica da primeira idade do ferro, também chamada civilização Hallstat, que na Europa ocidental tem seus territórios na Alemanha do sul, na Boêmia, na Áustria, no leste da Gália, na Itália do norte e na Grã-Bretanha. É neste período que se organiza a sociedade gaulesa, criando-se linhas comerciais entre os celtas e os povos do Mediterrâneo; é também neste período que, por influências gregas e etruscas, a arte celta ganha uma expressão maior, desenvolvendo-se bastante; 4) entre os séculos V e II aC, temos a segunda idade do ferro ou civilização de La Tène, que compreende os Balcãs, a Grécia (tomada de Delfos em 270 aC), a Gália inteira e na direção oriental a Ásia Menor (Galácia). No período que vai de 250 a 120 aC, o da segunda civilização La Tène, a arte atinge o seu máximo esplendor, aparecendo, no sul da Gália, a grande escultura monumental celta. 5) A partir do século II aC, período da civilização La Tène III, os romanos submetem sucessivamente a Gália cisalpina e transalpina, a Espanha, a península balcânica e a Grã-Bretanha. O elemento celta só se manterá na Bretanha (Gália), na Cornualha, no País de Gales, no noroeste da Escócia e na Irlanda.

Os celtas (keltoi para os gregos) jamais chegaram a formar uma nação, misturando-se com rapidez aos povos que já estavam fixados nas regiões que invadiam. Na Espanha, tivemos os celtíberos, na Ásia os galogrecos (gálatas) etc. A união entre os povos celtas estava assentada numa mesma língua e em crenças religiosas mais ou menos comuns. De um modo geral, sua sociedade estava dividida em três grandes classes: a nobreza guerreira, o povo e os druidas. A arte se voltava mais para os aspectos utilitários da vida (uso doméstico) do que para os religiosos. Muito de sua arte se caracteriza também por uma forte tendência esquemática linear, chegando mesmo a uma abstração ornamental que alguns chamam de "surrealista". A ornamentação, em geral, extraía seus motivos do mundo vegetal e animal, expressos por desenhos geométricos, espirais, curvas e contracurvas. Grande destaque para os trabalhos em metal, especialmente em bronze e ouro, menos a prata. Quanto às pedras, trabalhos em âmbar amarelo (resina fóssil) e coral.

O período mais notável da história dos celtas está compreendido entre o século V, quando saquearam Roma no ano de 390, e o século III, quando tomaram o santuário de Delfos, na Grécia, no ano de 279 aC. Nos anos seguintes, sob pressão das tribos germânicas e dos exércitos romanos, a influência celta declina, integrando-se eles, como se colocou, nas culturas preexistentes, mas conservando muitos traços religiosos, culturais e artísticos que até hoje sobrevivem. Um exemplo disto pode ser encontrado nos famosos festivais intercélticos que se realizam em alguns centros europeus, principalmente na Bretanha (França) e na Cornualha (Inglaterra), e também no status de língua nacional que o gaélico, o córnico e o manquês ou manx têm, respectivamente, na Irlanda, na Cornualha e na ilha de Man.

FESTIVAL NA ESCÓCIA

Podemos ainda acrescentar, na Espanha, a ênfase que é dada às expressões culturais galegas de origem celta, na região Norte, habitada desde o século VI aC por um povo celta, os kallaïkoi.



CASTROS DE BAROÑA

O MUNDO RELIGIOSO

Como aconteceu em todas as civilizações, inclusive com os antigos povos da Europa, as primeiras experiências religiosas dos celtas têm relação com a magia e com certas práticas rituais. Neste sentido, as primitivas crenças dos celtas se pareciam bastante com as de camponeses do mundo todo, muito simples, como as que encontramos em várias partes do mundo. As forças que atuavam no cosmos tinham para eles um caráter mágico, invadindo todos os aspectos de sua vida e o ambiente em que viviam.

As primeiras práticas religiosas possuíam a finalidade de conjurar tais forças, controlá-las, para que pudessem de algum modo ser utilizadas em benefício próprio. Para tal, os recursos de sempre: sacrifícios, rituais, algumas histórias e lendas. Não havia um sistema religioso organizado como o tinham gregos ou romanos. O que se encontrou, isso sim, entre os povos celtas, foram traços, vestígios, tanto nos termos religiosos que usavam como em certas práticas, cujas raízes vinham de um fundo indo-europeu comum, fato que, por exemplo, os unia aos árias que haviam invadido a Índia e aos italiotas de antes da dominação romana.

Ao chegar à Europa ocidental, os celtas já encontraram, em vários lugares, numerosas representações religiosas, cuja autoria lhes chegou a ser atribuída. Provou-se depois que tais representações, estudadas sob a rubrica de mitologia pré-céltica, haviam sido erigidas por povos do neolítico. Eram os dólmens e menirs; quando dispostos circularmente, estes últimos receberam o nome de cromlecs. Os dólmens eram formados por dois (bilítico) ou mais megálitos (trilítico, tetralítico etc.). Os menirs eram formados por grandes pedras alongadas, fixadas verticalmente no solo, usados ao que parece como marcos astronômicos e apresentando traços figurativos (totens).


CARLOS MAGNO

Estes monumentos religiosos foram usados pelos celtas desde tempos muito remotos. Uma prova irrefutável disto está num édito baixado pelo imperador Carlos Magno em 789, em obediência a várias determinações conciliares, que proibia o culto de árvores, de pedras e de fontes, de tradição celta. Estes cultos ligados à natureza vinham de longe, cerca de um milênio ou mais da chegada dos celtas, que aproveitaram estes monumentos neolíticos. Na alta Idade Média europeia, proveniente da antiga Gália celta, ainda sobreviviam os famosos cultos dessas pedras enormes, denominadas "Pedras das Fadas" ou "Pedras do Diabo".

As fontes para se obter uma visão do mundo religioso celta, em que pesem os expurgos feitos pela religião católica, permitem que um panorama seja razoavelmente traçado. As pesquisas arqueológicas completam esse panorama. Parte desse material nos vem da antiga literatura, principalmente a irlandesa. Trata-se de material que contém informações mitológicas que aparecem em meio a histórias, nomes de divindades, festividades, atividades sacerdotais etc. De um modo geral, fontes gregas e romanas, estas muito mais, completam as informações. O material de natureza insular apresenta muita semelhança com aquele que encontramos nas fontes continentais.

No continente, aquilo que de mais consistente temos como exemplos das relações com o sobrenatural data do tempo em que povos celtas viveram em áreas anexadas ao império romano. São inscrições em latim, quase sempre se referindo a uma divindade romana que tivesse relação com alguma divindade celta. Outras informações sobre as crenças religiosas celtas podem ser obtidas daquilo que vários autores deixaram sobre eles, especialmente Júlio César. Outra área que pode contribuir bastante é a da Filologia comparada, além, evidentemente, de todo o material arqueológico reunido.




OS CELTAS INSULARES

Tudo indica que os celtas se estabeleceram na Grã-Bretanha no séc. VIII aC e dali chegaram à Irlanda. Temos dois grupos insulares celtas: o ramo gaélico ou goidélico, irlandês, e o ramo bretão ou britano. Nestes dois ramos encontramos muitos registros, inscrições, manuscritos (irlandeses, gaélicos, escoceses), literários (crônicas, lendas evemerizadas), hagiológicos, poéticos (bardos) etc. É de se ressaltar que o druidismo manteve-se bem mais preservado no mundo celta insular que no continental por vários séculos. Isto  se deve ao fato de os druidas, perseguidos pelos romanos, terem se refugiado na Grã-Bretanha e na Irlanda. O grande golpe contra a classe sacerdotal celta viria cerca de quatro séculos mais tarde, no final do século VI, com as pressões e perseguições do Cristianismo, o que praticamente liquidou o druidismo.


O ano celta, tanto na Irlanda como na Gália, estava dividido em quatro fases, marcadas por festas de transição. Na Irlanda, a maior festa tinha do nome de "Samain", celebrada, no calendário atual, entre 31 de outubro e 1º de novembro. Marcava o fim das atividades pastoris. De inspiração imemorial, do neolítico, esta cerimônia tinha por objetivo maior o de garantir a renovação e a prosperidade da terra e dos êxitos tribais, a boa sorte para a primavera e para o verão que viriam mais adiante. Animais eram abatidos, reuniam-se os rebanhos, poupando-se alguns que se destinariam à procriação.

O que se procurava com esta grande festa era a renovação da fecundidade da terra e dos seus habitantes, tudo representado pela união do deus tribal com a deusa da natureza, personificada por um rio ou outro acidente natural escolhido. Como exemplos, temos a união do deus Dagda (Bom Deus) com a deusa Morrigan.



                                                                       O primeiro era o  pai  da  tribo,  seu  protetor,  arquétipo  de  todas as atividades masculinas, inclusive fora da região insular. Dagda possuía um caldeirão de onde saía a comida que a todos alimentava. Dagda é apresentado como uma figura meio grotesca, de poder e apetites desmedidos, vestes curtas, uma clava, sempre com o seu caldeirão, símbolo de inesgotabilidade, rejuvenescimento e inspiração. Além disso, tinha o poder de convocar as quatro estações do ano ao tocar a sua harpa mágica. É de se observar que não havia, entre os celtas, uma "especialização" divina como a encontramos em deuses de outros panteões. As "especializações" (guerra, metalurgia, sabedoria, luz solar etc.) se concentravam na figura do deus tribal. O celta priorizava sempre as divindades tribais, locais, o que explica a grande variedade de nomes entre os vários povos celtas. O mundo sobrenatural, paralelo ao real, era evitado, observadas, contudo, datas e ritos específicos para homenagear as suas potências e divindades.



Uma deusa da natureza se unia ao "Bom Deus". Seus nomes: Morrigan, rainha dos demônios; Nemain, deusa do Pânico; Badb Catha, deusa representada pelo corvo da batalha. Outros nomes de divindades femininas se ligavam ao mundo animal, éguas, por exemplo, a indicar que elas diziam muito mais respeito à terra, à agricultura, que ao âmbito social-tribal. Havia, de qualquer modo, que aplacá-las, dominá-las, subjugá-las, um pagamento, um sacrifício, pela ocupação da terra. Seus aspectos lembravam, por isso, tanto a fertilidade como a destruição. Podiam também ser representadas por outras formas zoomórficas ou por acidentes naturais. As forças mágicas baixavam na noite de 31 de outubro, saídas de grutas, montes, enquanto monstros, pelo fogo, pelo veneno, levavam o perigo aos centros de poder, às fortificações.

Outra festa, a segunda em importância, era a de 1º de maio, começo da estação quente, e tinha o nome de Beltine ou Cétshamain, quando o gado podia voltar aos campos. Acendiam-se grandes fogueiras. A palavra Beltine lembra a palavra celta para designar o fogo. Belenus, divindade muito conhecida no norte da Itália e no sul da Gália, aparece associado, por isso, ao mundo pastoril e ao fogo. Esta data de 1º de maio está associada na Alemanha à figura de Santa Walpurgis, religiosa beneditina inglesa, convocada por São Bonifácio para ir à Alemanha, para se tornar a abadessa de Heindenheim. Morrendo a abadessa, sobre seu túmulo, numa igreja, brotava milagrosamente, um líquido (óleo de Santa Walpurgis). Na noite que precedia a festa da santa, 1º de maio, acontecia a "Noite de Walpurgis", muito semelhante ao Sabá, assembleia noturna de feiticeiros e feiticeiras que se reuniam, à meia-noite, num sábado, lua cheia, sob a direção de Satanás.

O Sabá (Schabbat, descanso, hebreu), entre os judeus, lembremos, se liga ao simbolismo da semana. É uma celebração associada ao sábado, consagrado a Yahvé. É entre os judeus um dia de repouso total, a reprodução do sétimo dia da criação. Na origem, porém, o Sabá tinha relação com os ciclos lunares, com os ritos de fertilidade e de fecundidade e com o simbolismo da noite. Essas festas, segundo os primeiros padres da Igreja católica, tinham estreita relação com a demonologia e a feitiçaria. Aliás, isto já havia acontecido com os judeus; profetas como Isaías e Oseias se levantaram contra estas celebrações e festas ligadas aos ciclos lunares, reminiscências de uma antiga cultura nômade. Com o tempo, Sabá entrou nos dicionários como sinônimo de algazarra, gritaria, de bruxas à solta, reunidas em clareiras ou no alto das montanhas, fazendo sempre um grande tumulto.


As outras duas festas são o Imbolc, a 1º de fevereiro, e Lugnasad, a 1º de agosto. A primeira tinha a ver com a lactação das ovelhas, correspondendo à festa de Santa Brígida no calendário cristão. Por trás destas representações está uma feiticeira, filha de Dagda, divindade da fertilidade, com atributos de ensinar e de curar. O nome Brígida tem relação com "Brhati" (exaltação), em sânscrito. A outra festa se liga ao deus Lug, tendo um caráter agrário. Seus objetivos: garantir o amadurecimento das searas e a colheita. Não entra aqui a ideia de agradecimento, incompatível com a magia. Executado corretamente o cerimonial, a consequência natural seria o bom resultado. Lug, o de "longa mão", era um deus tribal, senhor de todas as habilidades. Nenhum mortal podia vê-lo. Possuía uma lança mágica que sempre encontrava o meio de atingir quem o ameaçasse. Seu arco era o arco-íris, sendo a Via Láctea, na Irlanda, chamada de a "cadeia de Lug". A cidade de Lyon, na França, chamava-se, antes, Lugudunum, em homenagem ao deus. O bem-estar da tribo dependia também do êxito ritual do rei. Más colheitas, epizootias e outras calamidades eram muitas vezes debitadas a um mau desempenho ritualístico real. O rei era o esposo mortal da deusa territorial da natureza.

Lug era chamado também de “O Brilhante”, pois seu grande festival se realizava no verão. O deus aparece ligado ao corvo (lugos é corvo, em gaélico). Esta ave está presente em muitas histórias celtas, parecendo também de modo destacado na mitologia escandinavo-germânica. Odin (Wotan dos germânicos), o maior dos deuses, tinha por companheiros dois corvos que lhe traziam todas as informações do universo, chamando-se um deles Hugin (pensamento) e outro Munin (memória).


MACHAS

Outro aspecto interessante da religião dos celtas era o do chamado tripleto ou triplicidade, isto é, uma mesma deusa ou deus apresentar-se sob uma forma trina, com três nomes diferentes (Morrigan, Babd e Nemain). Três Brígidas, três Machas e assim por diante. Estas deusas triplas são associadas às Matres ou Matronae romanas, portadoras de fecundidade. Entre as divindades masculinas, a tríade toma também várias formas. O número três era o símbolo do poder extremo de toda divindade. Entre os celtas, era o número sagrado, auspicioso, apontando-se aqui muitas analogias que poderiam ser feitas com o mundo védico.

DANA

No panteão insular céltico a figura da grande mãe tinha o nome de Dana, na Irlanda e de Don, na Grã-Bretanha. Ela acompanha Bile, que representa o grande pai, o Deus Pai. Os celtas se consideravam, assim, criaturas de Dana.


GOIBNIU OU GONAVAN

Goibniu ou Gonavan é uma espécie de Vulcano ou Hefesto, arquiteto de torres e construtor. Lud, filho de Don, tem semelhança com o Júpiter romano e dará nome à cidade em que foi mais honrado, Londres, na colina de Ludgate. Consta que a catedral de S.Paulo, em Londres, foi levantada sobre as bases de um antigo templo deste deus. Amaethon, outro irmão, era a divindade da agricultura. O deus civilizador é Gwydion, propagador das artes.


ARIANROD


Ogmios ou Ogme, deus civilizador e da eloquência, é considerado o inventor de um alfabeto que leva seu nome, "ogâmico". A única filha de Don é Arianrod (roda de prata), divindade tutelar da constelação da Corona Borealis. Arianrod lembra Ariadne da mitologia grega tanto por homofonia como pela relação que ambas têm com a referida constelação. Ariadne, como se sabe, abandonada por Teseu na ilha de Naxos, foi encontrada pelo deus Dioniso, que lhe deu um diadema, como presente de núpcias. Tal diadema foi depois colocado nos céus com o nome de Corona Borealis.


OGME OU OGMIOS

Luciano, retórico grego, do séc. II, consagrou um pequeno estudo a Ogme, por ele chamado de Ogmios. Aparece representado sob os traços de um velho enrugado, quase calvo, trazendo uma pele de leão e uma clava, o que lembra muito Hércules. Mas o poder deste Hermes céltico não estava no seu corpo físico. Correntes saíam de sua língua e se ligavam às orelhas dos que o escutavam, dando-nos esta imagem uma ideia de seu poder como deus da eloquência do discurso persuasivo. Os romanos davam o nome de argute loqui à grande capacidade que os celtas tinham de discursar.

Quase todos os personagens, deuses e heróis do mundo religioso celta foram evemerizados nos romances do ciclo medieval do rei Arthur, que forma o conteúdo principal da chamada matéria Bretã. Arthur é um chefe militar dos bretões que lutou contra o invasor saxão, por volta do século VI (500). Torna-se personagem lendário, representando o rei ideal que virá restabelecer o poderio bretão e reunir as tribos divididas. Celebrado por diversos bardos e poetas, o tema foi desenvolvido na França por Chrétien de Troyes, que criou uma versão menos "espetacular" da lenda. O ciclo romanesco, a que se dá o nome de A Conquista do Graal ou Lancelot-Graal, termina com A Morte do Rei Arthur (1215-1235), contribuindo para difundir a imagem do rei e de seus cavaleiros da Távola Redonda.


REI ARTUR E LANCELOTE


OS CELTAS CONTINENTAIS

A visão religiosa dos celtas continentais se concentra no mundo gaulês. As primeiras formulações gaulesas não passaram de um certo animismo, nem houve a rigor uma religião nacional na Gália. Por outro lado, uma dificuldade maior: a literatura religiosa era eminentemente oral. Os versos e cantos em que os sacerdotes druidas (os que vêem, os muito sábios) transmitiam as crenças religiosas praticamente se perderam todos, o que já não aconteceu com a matéria insular. O que é possível depreender do que restou, considerados os documentos que chegaram até nós, além de inscrições votivas e funerárias, permitem a conclusão de que os celtas continentais (Gália) partiram de um animismo primitivo e chegaram à antropomorfização de seus deuses.

Foram os romanos que deram o nome de “Gallia” a duas regiões ocupadas pelos celtas, a Gália cisalpina, aquém dos Alpes, e a Gália transalpina, ou Gália propriamente dita, situada além dos Alpes. Esta última compreendia as regiões situadas entre os Alpes, os Pirineus, o oceano Atlântico e o rio Reno, isto é, não somente a França atual como a Bélgica, a Suíça e a margem esquerda do Reno.

De início, há que se ressaltar o politeísmo regional, divindades ligadas a territórios, como no caso insular. Neste particular, destaque para a divinização das águas e dos lugares elevados, picos. Quanto às águas, o culto se estendia aos rios, fontes e nascentes. Os rios tinham nomes como Diva, Devona, Deva.

O deus Nemausus, por exemplo, tutelar da cidade de Nîmes, era a divindade de uma nascente. Bormanus, o borbulhante, era divindade das fontes termais. Muito significativa nesse mundo era a deusa Epona, sempre acompanhada de um cavalo; tem por atributos a cornucópia, uma taça de sacrifícios (pátera), e frutos diversos. Era a deusa da abundância agrícola e também do elemento líquido, correspondendo, num outro plano, à fonte do cavalo (Hipocrene) dos gregos. Ganhando presença, seu culto alastra-se pelo mundo romano, mas na forma de deusa protetora dos cavalos, colocando-se sua imagem nas estrebarias.

O culto das árvores tem muita importância como o atestam os nomes de várias divindades: Vosges, deus tutelar dos Vosges, cadeia montanhosa no nordeste francês, onde está a vertente ocidental da Floresta Negra; Ardvina, a deusa da região montanhosa das Ardennes (carvalhos); Ardnoba, deusa da Floresta Negra etc. No mundo vegetal, a árvore que sobrepujava a todas era o carvalho, a árvore das maiores divindades. Inúmeros ritos se realizavam tendo o carvalho como centro, sendo sua folhagem obrigatória em qualquer cerimônia religiosa. Outro destaque do mundo vegetal era o chamado gui, agárico, visco, parasita , símbolo da imortalidade, da regeneração e da sabedoria, colhido solenemente. Nessa cerimônia, depois do sacrifício de touros, o sacerdote colhia o  gui com uma pequena foice de ouro. Ainda hoje na Europa essa planta é muito procurada como amuleto.


COLHEITA DO GUI

O gui, entre os celtas, era considerado como remédio universal. Eles acreditavam que essa planta era semeada junto ao carvalho por mão divina. Daí atribuírem a ela a união entre a árvore dos deuses, e as verdades eternas, simbolizadas pelo dogma e pela imortalidade. O gui era colhido no inverno, quando o vegetal se tornava mais visível. Esse era o período em que seus ramos, suas folhas e os tufos amarelos de suas flores se enlaçavam com os galhos, apresentando uma imagem de vida eterna (verde) em meio a uma natureza morta e estéril.

A planta sempre simbolizou a imortalidade porque mantém o seu verdor eternamente, ao contrário dos vegetais com os quais se liga. É uma planta parasita, que pode aparecer junto de macieiras, de álamos ou de salgueiros. Mais raramente, excepcionalmente mesmo (ocasião sempre celebrada), o gui é encontrado junto de um carvalho chamado robur, rei dos vegetais, árvore dos oráculos, da força e da sabedoria.

No reino animal, as preferências iam para o cavalo, o corvo, o touro e o javali, considerados sagrados. Moedas, medalhas, nomes de cidades e inscrições comprovam a importância desses animais entre os celtas. Lugundum, cidade do deus Lug, estava ligada ao corvo (lugos, corvo). Havia a deusa Artio (artos, urso) entre os helvécios de Berna e um monstro que na forma de um urso, sentado sobre a cabeça de um homem, devorava-o pelo braço. Há figuras híbridas como a de uma serpente com cabeça de javali ou com chifres (Ogmios). O touro parece ter sido a divindade animal mais importante, como símbolo da força e do poder gerador. Entre os celtas sua imagem era às vezes apresentada de modo extravagante: dois grous sobre o seu dorso e outro sobre sua cabeça. É o chamado Tarvos trigaranus ( touro dos três grous), uma espécie de deus tricéfalo, provavelmente ligado ao deus Cernunnos.


CERNUNNUS


Ao lado das divindades regionais, territoriais, aparecem entre os celtas, talvez devido a uma "inspiração" romana, divindades como Teutatés (touta, povo), uma espécie de "pai do povo", Esus (senhor, ferocidade), Taran, deus das tempestades, dos raios, lembrando o "Júpiter Pluvius". No fundo, muitas dessas divindades incorporam traços de Marte, Apolo, Júpiter e Mercúrio. Este último tem seu duplo celta, o Mercúrio gaulês, em Ogmios, cuja parceira chamava-se Rosmerta.

ROSMERTA

Ogmios assimilou, inclusive, como se disse, traços de Hércules (pele de leão e clava). Correntes ligam simbolicamente sua língua às orelhas dos que o escutam. É o deus da eloquência, o que se harmonizava com a divisa gaulesa nacional, argute loqui.



Belisana (semelhante à chama) era a "Minerva" gaulesa, uma espécie de vestal protetora das artes e dos ofícios, funções que a aproximavam das deusas Sirona, o lado feminino de Borvo ou Belenus (esplêndido), o Apolo celta, e de Rosmerta, ligada a Ogmios. Chamava-se Sucellus um deus cabeludo e barbudo, que tinha por atributo o martelo e sempre junto dele uma taça para beber. Pelo nome que este deus tinha em outras regiões, Silvanus, chegou-se à conclusão de se trataria de uma divindade ligada às florestas, protetor das colheitas e dos animais, uma espécie de trabalhador da agricultura.

As matres, matronae, tríplices também como entre os celtas insulares, tomavam o nome principalmente das fontes locais. Como tal, simbolizavam a fertilidade, Geralmente eram figuras femininas robustas, coroadas, com os símbolos naturais da abundância, cornucópias, frutos etc. Ao lado delas, ninfas nas suas várias "especialidades", fontes, rios, árvores etc.; gênios protetores; Junones, divindades que não perdiam de vista seus fiéis; Proxumes, espécie de anjos da guarda; Tuteles, fadas, "damas brancas" etc., provavelmente sobrevivência do período neolítico. O que se nota é que o chamado paganismo primitivo deixou marcas profundas no mundo celta, fenômeno que ocorreria com o Cristianismo ao incorporar muitos traços celtas, como se pode notar em muitos dos centros de peregrinação, santuários e fontes milagrosas cristãos.

Referências especiais merecem as chamadas “damas brancas”, aparições vestidas de branco, pertencentes à categoria das fadas, entidades benfazejas ou maliciosas, arteiras. Estas entidades ainda hoje são mencionadas por terem se mostrado em certas regiões do interior dos países que saíram do antigo mundo celta. Há muitas histórias colecionadas sobre elas, principalmente na França. Segundo uma lenda muito divulgada, uma “dama branca” aparecia durante o Natal, no momento em que soavam as doze badaladas da meia-noite, nas ruínas do castelo de la Boursilière, perto de Châtenay-Malabry (Hauts-de-Seine). Contava-se que ela guardava um tesouro e que, nesse, momento ele poderia ser conquistado. Conta-se mais que essa “dama” se mostrava para que Blanche de Castille (rainha de França, séc. XIII; neta de Alienor da Aquitânia e mãe do rei São Luis) não fosse esquecida.

É de se mencionar ainda, quanto ao tema acima, que em 1825 foi apresentada La Dame Blanche, celébre ópera de François Adrien Boieldieu (curiosamente, nome de um personagem do famoso filme La Grand Ilusion, de Jean Renoir), inspirada em texto de Walter Scott, que tem por cenário o castelo de Avenel, na Escócia, onde a história se desenrola em torno de uma jovem órfã, que sabe onde, antes de morrer, a condessa de Avenel escondeu um tesouro.

OS DRUIDAS

Eram os druidas (os videntes, os do carvalho), que exerciam as funções de sacerdotes e juízes, oficiantes da magia e do ritual. Apresentavam, como classe, algumas semelhanças com a instituição bramânica da Índia védica. Os druidas eram recrutados entre as crianças da aristocracia guerreira. Antes dos romanos, que tinham os seus flamines e pontífices, a instituição druida apresentava alguma semelhança também com a classe sacerdotal dos povos italiotas.




Ao lado da atividade dos sacerdotes, quanto às ligações com o mundo sobrenatural, é preciso mencionar a dos poetas, os bardos, poetas cantores, e os vates, palavra que lembra inspiração, êxtase, atuando estes últimos como poetas e profetas ao mesmo tempo. Havia ainda uma corporação entre os celtas, de muito relevo nos primeiros tempos do Cristianismo. Eram os chamados filid (videntes), que tinham a capacidade de ver o invisível; o vate era aquele que sabia antes, o que tinha o maior poder da magia. O conhecimento era, pois, um modo de ver, visão que se conseguia através de transes, arrebatamentos. Uma forma deste arrebatamento estava associada ao sacrifício do touro, cuja carne consumida pelo druida levava-o a vaticinar. Este ritual era conhecido como o "sonho do touro". Tudo isto aproxima, sem dúvida, o druida do xamã da região nórdica euro-asiática.

Ao que parece, os druidas não se interessavam pelo pensamento especulativo de natureza filosófica, como o entendiam os pensadores gregos e romanos, nem administravam a ética tribal, limitando-se eles a velar por um comportamento ritual correto. Algumas exceções quanto a estes pontos que mencionamos podem ser contadas na ponta dos dedos, como é o caso do ilustrado Divicíaco, o druida amigo de Júlio Cesar e de Cícero. As ideias que os druidas tinham sobre a vida pós-terrena estão bem comprovadas por inúmeras provas arqueológicas: armas, ornamentos e comida para a viagem para o Além, inclusive para a festa celebrada quando da chegada da alma. A posição do druida na ordem jurídica tribal é demonstrada pela tradição de que mesmo o rei não poderia falar numa assembleia antes de ter o seu druida se pronunciado.

Por fim, há que se ressaltar a grande importância que nesse mundo tinha o conhecimento transmitido oralmente, de geração a geração. Essa prática era muito comum entre os povos indo-europeus, distantes da urbanização. O mecanismo da tradição oral se baseia na recitação de versos ritmados ou formas aliteradas de prosa. O ritmo predispõe certamente a estados que se aproximam do êxtase, mencionando-se, além disso, que com a prática, grande volume de conhecimentos poderia ser absorvido. Ainda mais: a voz é o instrumento natural da mensagem religiosa e a memória a sua mais fiel depositária. Pela tradição oral pode-se manter o sigilo do conhecimento, sempre de natureza esotérica. Aproximações entre a transmissão oral dos brâmanes na Índia e a dos druidas celtas podem ser feitas, pois em ambas a escrita não teve aceitação ritual. Com o Cristianismo, com os copistas dos mosteiros, a tradição oral celta perdeu o seu prestígio. Os exemplos que muitas vezes acompanhavam a transmissão oral foram esquecidos, já que o suporte da escrita, o texto, acabou por substituir o mestre, perdendo-se a presença humana do emissor, a sua visão, a sua autoridade.

Dentre as informações mais precisas que temos sobre os druidas cabe destacar aquelas que nos deixou Posidônio, séc. II AC, grego, estoico, que viveu em Rodes, em Roma, na África do Norte, na Gália e na Espanha. Erudito, teve como ouvintes Pompeu e Cícero. César, com base em Posidônio e em outras fontes, completou e ampliou tais informações. É de Cesar a notícia de que os druidas procuravam proteger a tradição oral do seu ensinamento, não permitindo o seu registro por escrito. Com isto, valorizavam não só a memória como meio de transmissão privilegiado como também não favoreciam a sua difusão, evitando que pessoas despreparadas se apoderassem dele.



César, nos seus comentários sobre as campanhas da Gália, com a propriedade de grande historiador, nos informa também que a doutrina ensinada pelos druidas afastava o temor da morte ao afirmarem eles que a alma era imortal (metempsicose). É também César que nos esclarece sobre os interesses científicos dos druidas: pesquisadores atentos dos astros e dos seus movimentos, seus conhecimentos astronômicos pareciam ser muito avançados; tinham calendários muito bem elaborados. Do mesmo modo, ao lado das crenças religiosas, dos mitos, dos encantamentos e das lendas, e do interesse científico, seu grande saber jurídico, veiculado oralmente, cabendo aos druidas ministrá-lo. À sua grande compilação jurídica davam os celtas o nome de Senchas Mar, isto é, a "memória acumulada dos antigos", também transmitida oralmente.


TRISTÃO E ISOLDA

A herança da literatura celta, que ainda sobrevive em alguns centros da Irlanda, do País de Gales e da França, principalmente, é a mais velha da Europa, logo depois da grega e da latina. Ela constitui uma espécie de fundo comum dos costumes daqueles tempos, daquela vida rural da antiga Europa, onde mergulham as raízes de vários países do velho continente. Daí, pois, a sua enorme importância para uma melhor apreciação da cultura europeia como um todo e, por isso, devendo merecer uma maior atenção do que aquela que até hoje lhe tem sido prestada.