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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

AQUÁRIO (5)


CONSTELAÇÃO   DE   AQUÁRIO
     
Uma das figuras mitológicas mais ligadas aos impulsos aquarianos de desafio, de rebeldia, de fraternidade, de vida comunitária é a do titã Prometeu, filho de Jápeto (lançar, arremessar) e de Clímene (a que atende, a que ouve com simpatia), oceânida, sendo ele neto, pelo lado paterno, de Geia e de Urano. É Prometeu (o que sabe antes, por antecipação), sem dúvida, entretanto, um dos personagens mais ambíguos, contraditórios e paradoxais da mitologia grega. Num momento, coloca-se em guerra aberta contra Zeus, a autoridade suprema, noutro procura se compor com ele em nome de um utópico projeto político, o da salvação da humanidade. 
O nome Prometeu, lembro, admite uma outra etimologia em grego; ele é o hábil, o que sabe fazer e se conduzir, como, aliás um dos componentes de seu nome sugere. Com efeito, o nome Prometeu
MÉTIS , CERÂMICA GREGA
admite dentro dele a palavra metis, conceito que os gregos divinizaram ao criar uma deusa, Métis, tornando-a dona do arquétipo, desse padrão de comportamento. Na palavra grega metis reúnem-se ideias de habilidade, esperteza, sutileza, juízo previsor, pensamento precavido, qualidades e virtudes que nosso herói possuía, sem dúvida, mas que, por razões “inexplicáveis”, como um bom exemplo da incongruência aquariana que era, as ignorava muitas vezes, como se não as possuísse. 

Prometeu era recriminado pelo fato de nunca se ter definido claramente por um lado na guerra entre titãs e olímpicos, ora parecendo alinhar-se com os primeiros, ora com os outros. Sua independência de espírito, seu constante esforço no sentido de buscar a objetividade, seu apego à ideia de liberdade parecem ser os responsáveis por sua espantosa “versatilidade”, por suas flutuações e vacilações, tão típicas de pessoas do elemento ar.
MOSAICO   ROMANO,
( TRÉVERIS , ALEMANHA )
Para o fim a que me proponho, aproximar o mito da astrologia, acredito ser útil ouvir duas figuras da literatura grega que sobre ele falaram, Hesíodo e Ésquilo. Para o primeiro, o titã era um amigo dos homens (Filantropíssimo, o seu apelido), um salvador, pois Zeus sempre desejara destruir a raça humana, criada durante a dinastia de seu pai, Cronos. Uma raça indigna, na qual não se podia confiar, constituída por seres ignorantes, boçais, “seres rastejantes”, como dizia Zeus, que viviam pregados ao solo, comendo poeira, alimentando-se de coisas putrescíveis. Essa destruição veio, primeiro, por uma proibição: os humanos não mais poderiam usar o fogo, elemento que controlavam muito precariamente. Com a perda do elemento ígneo, regrediriam eles à vida animal, passando certamente a viver refugiados no fundo das cavernas ou empoleirados no alto das árvores, prisioneiros dos seus terrores noturnos. 

PROMETEU ROUBA O FOGO
(JAN COSSIERS , 1600-1671)
Prometeu, como se sabe, interveio, assumindo as dores e sofrimentos do triste destino que Zeus queria impor aos humanos. Roubou um pouco do fogo solar do deus Hélio, trazendo-o dos céus para a Terra, escondido no galho oco de uma figueira, a árvore do fogo. Por esse crime, o titã, depois de muitas discussões, será punido pelo senhor do Olimpo. Agrilhoado nas montanhas do Cáucaso, seu fígado era destruído durante o dia pelas bicadas de um monstruoso abutre enviado por Zeus, recompondo-se o órgão durante a noite e assim sucessivamente. Depois de muito tempo, séculos e séculos, será Prometeu enfim libertado por Hércules e se reconciliará com os olímpicos. 
Zeus, como o mito nos dá conta, acabará permitindo que os humanos passem a usar o fogo. Pune-os, contudo, através de
PANDORA  E  EPIMETEU
Pandora, a dotada por todos os deuses, arquétipo mítico da mulher, que Zeus faz descer dos céus à terra, trazida por Hermes, para provocar a divisão entre os sexos, divisão até então inexistente. Ao descer, Pandora trazia nas mãos uma jarra, na qual os deuses haviam encerrado todos os males que doravante infernizariam a vida dos humanos. Quando Pandora chegou, Prometeu estava ausente. Quem a recebeu foi seu irmão Epimeteu (o que sabe sempre depois). Encantado e seduzido por Pandora, antecipando o que Eva faria com Adão como está no texto bíblico, ambos, de comum acordo, destamparam a jarra, liberando todos os males que desde então infelicitam o gênero humano, males representados pelas divindades que viviam na antecâmara do Hades, no Bosque de Perséfone. Assolam a Terra e a humanidade, assim, desde este fatídico dia, monstros como Algos (Dor), Geras (Velhice), Eris (Discórdia), Ftonos (Inveja), Limós (Fome), Ate (Erro), Lyssa (Fúria), Penia (Pobreza), Penthe (Luto), Apate (Fraude), Strophe (Chicana) e outros mais. 

ELPIS
Com os malefícios acima citados, veio também na jarra de Pandora uma entidade que, à primeira vista, muito benéfica, contrariamente às demais, revelou-se logo, em bem pouco tempo, como talvez a mais deletéria de todas. Refiro-me a Elpis (Esperança), espectro terrível, revestido de uma falsa aura benfeitora, que trouxe um dos grandes males que afligiriam a humanidade desde então. O mito nos conta que Epimeteu e Pandora, ao perceber que as entidades infernais escapavam da jarra aberta afoitamente, conseguiram fechá-la, retendo apenas uma, a chamada Elpis. Ao conservá-la como um “valor positivo”, os humanos, como logo se viu, “perderam” o presente, isto é, deixaram de vivê-lo, para se projetar em direção do futuro, expectantes e frustrados sempre, como a experiência e a história da humanidade sempre demonstraram. Uma das consequências mais danosas decorrente da conservação de Elpis foi a perda da dimensão física do presente por grande parte da humanidade, que passou a viver tão somente em termos de projeções mentais, construindo mapas de territórios inexistentes. Elaborações puramente mentais, sendo um de seus melhores exemplos o tema filosófico da utopia, palavra que, etimologicamente, significa não estar em lugar nenhum.


Como se sabe, Utopia foi o nome dado pelo inglês Thomas Morus  ao país imaginário que ele descreve numa obra de mesmo titulo, um país no qual vivia um povo perfeitamente sábio, poderoso e feliz, graças às suas instituições ideais. O tema, como se constata, tem forte acento aquariano, como aliás as têm produções semelhantes da literatura filosófica produzida ao longo dos anos, obras como Pantagruel e Gargantua, de  François Rabelais (1483-1553); La Città del Sole,  de Tommaso Campanella (1568-1639); La Salente, descrita em Télémaque 1651-1715), de Fénélon; Le Voyage en Icarie, de Étienne Cabet (1788-1856). Ainda dentro deste enfoque pode ser consultada, sempre com grande interesse e prazer, a obra Guide de Nulle Part & D´Ailleurs à l´usage du voyageur intrépide en maints lieux imaginaires de la littérature universelle, de autoria de Gianni Guadalupi e de Alberto Manguel, já traduzida para o português (de modo não completo).

Uma das versões do mito de Prometeu nos relata que inicialmente alinhado com os titãs ele foi por eles desprezado devido às suas atitudes simpáticas para com os humanos, criaturas criadas no reino de Cronos. Bandeando-se para o lado dos olímpicos, não demorou muito para mudar de lado novamente, assumindo a posição de grande protetor dos humanos diante das intenções de Zeus, que queria destruí-los. Uma incoerência, sem dúvida, um traço comum na personalidade de muitos aquarianos, como já disse, que não conseguem harmonizar as suas motivações afetivas com os seus mecanismos mentais. Esta a razão talvez pela qual muitos aquarianos estão "tão presentes quando tão ausentes e tão ausentes quando muito presentes".


PROMETEU ACORRENTADO 
( P.P. RUBENS, 1577 - 1640 )

HEFESTO
(G. COUSTOU, 1677-1746)
A prisão de Prometeu aos rochedos, determinada por Zeus, por Hefesto, Crato e Bia, a sua imobilização, constitui um castigo exemplar para qualquer aquariano. Com efeito, mesmo nos tipos menos conscientes do signo qualquer ameaça de cerceamento, de impedimento na liberdade de ir e vir, qualquer limitação física ou mental, qualquer ideia de contenção pode se constituir numa tortura insuportável.

Ao trazer o fogo de natureza divina dos céus para terra a fim de entregá-lo aos humanos, Prometeu, diz-nos uma versão, estava tentando fazer com que eles recuperassem um dom que haviam recebido quando criados, no reino de Cronos, o do conhecimento do futuro. Tal privilégio havia sido revogado por Zeus, que, como vimos, queria exterminá-los. Uma hipótese para a tendência que muitos aquarianos apresentam, a de “querer conhecer o futuro", a de desejar antecipá-lo, talvez, quem sabe, possa ser explicada por esse episódio
HÉRCULES  E  PROMETEU
O mito do titã Prometeu nos conta ademais que ele possuía um segredo. Ele sabia que um filho que Tétis, a mais bela de todas as nereidas, tivesse com Zeus ou Poseidon, que a cortejavam, destruiria o pai. Para uns, a libertação de Prometeu foi negociada, quando o titã se prontificou a revelar tal segredo. Uma outra versão registra que a libertação de Prometeu ocorreu por intervenção de Hércules, quando matou o abutre que o agredia, ao retornar de uma viagem ao oriente quando do seu terceiro trabalho. 

GILGAMÉS  E  ENKIDU
Uma terceira versão nos permite aproximar a história de Prometeu da epopeia de Gilgamés. Conta-se nesta versão que inicialmente não havia o sexo feminino. Os humanos, todos machos, se viravam sexualmente entre si ou, como o fazia Enkidu, no mito mesopotâmico, com gazelas e cabras. Devido à petulância de Prometeu, os deuses resolveram punir os humanos, criando Pandora, irresistivelmente bela, mas curiosa, cheia de defeitos, tipicamente femininos segundos os deuses, um ser fatal para os protegidos de Prometeu. Com isso, instalou-se a divisão, machos e fêmeas, homens e mulheres separados para sempre, aqueles eternamente em busca de uma integração perdida através destas últimas, complementares, mas vivendo como opostos.

Foi Epimeteu, que não tinha o dom da profecia, como o irmão, aquele que recebeu a mulher, acolhendo-a, embora advertido para não aceitar nenhum presente dos deuses. Ele e Pandora,  como vimos, retiveram Elpis no fundo da jarra, tão imprudentemente aberta por eles. Muitos poetas, voltando-se em particular para este acontecimento, vêem Elpis como um bem infinitamente precioso. Graças a ele, apesar de tudo, de todas os sofrimentos, desgraças e misérias a que continuamente são submetidos, os humanos jamais perderam o gosto de viver. É neste sentido que Elpis faz parte da história da humanidade já que são os aquarianos os encarregados de nos fazer acreditar em dias melhores, em invenções científicas estimulantes e utopias maravilhosas. 

Epimeteu, o que sabe depois, o seduzido, assumirá a grandiosa tarefa de pôr em andamento os sonhos aquarianos, gerando, com Pandora, Pirra, a vermelha, que se unirá a Deucalião, seu primo, filho de Prometeu e de Clímene, oceânida. Deucalião será o grande ancestral dos helenos. Juntos eles salvarão a humanidade quando do dilúvio enviado por Zeus. Achando-os dignos, Zeus os preservará. Salvar-se-ão numa arca, na qual guardaram seus bens e animais. Terminada a tormenta, ancorada a arca no topo do monte Parnaso, ambos participarão da criação de novos seres humanos. 

DEUCALIÃO   E   PIRRA
( VIRGIL SOLIS , 1514 - 1562 )

Receberam Pirra e Deucalião ordens de lançar às suas costas as pedras que encontrassem; as atiradas por Deucalião transformaram-se em homens e as atiradas por Pirra em mulheres. Os descendentes de Prometeu vêm perpetuando, apesar de tudo, a estranha vontade e para muitos a incompreensível determinação de, a todo custo, com enormes sacrifícios, preservar a humanidade das malévolas intenções divinas. 
Serão os filhos diretos de Prometeu, os aquarianos superiores, aqueles que conduzirão a humanidade para uma nova era, onde ideias tão retrógradas e incômodas como as de divindade, diabo, seres superiores, pecado e culpa etc. serão abandonadas. A humanidade, iluminada pelas propostas aquarianas, compreenderá enfim que aquilo que vem realmente em seu auxílio são as qualidades com as quais cada um de seus membros pode e deve contar. Os homens deixarão assim de representar as suas qualidades superiores por divindades, que idealizam, afastando de sua vida tanto tormento, tanta angústia, tanta impotência, tanta inibição... 

Por isso, encaminhando-se o Sol para o seu exílio na futura era de Aquário, a sua viagem noturna de 2160 anos, os deuses serão letra morta no ideário religioso da humanidade futura bem como toda a simbologia construída a partir dele. Na sequência das idades da mitologia grega (cosmogonia, esquizogenia, autogenia) chegaremos à quarta, aquela em que o homem assumirá o controle do universo. Encerrado no sistema solar há milhões de anos, o homem   já o vasculha em várias direções, preparando-se, como vem dando provas, para desbravar a galáxia, da qual o nosso sistema solar é uma ínfima parte. Depois de Urano (Céu) Cronos (Terra) e Zeus (Espírito), o Homem assumirá o comando da quarta idade, a da Autogamia. Circunscrito à botânica, este nome ganhará uma leitura nova na era que se aproxima. Seu significado se ampliará, do vegetal ao animal (humano). Através da homogamia, a maturação simultânea do androceu e do gineceu de uma mesma flor, chega-se à autogamia (autopolinização) embora não se exclua a alogamia. Transpostas estas ideias para o mundo humano, resolver-se-ão inclusive algumas contradições e confusões homo e heterossexuais presentes nestes séculos finais da era de Peixes.

AUSONIUS
É de se lembrar que os romanos e gauleses (o poeta Ausonius, séc.IV dC e Vercingetorix, inimigo de Júlio Cesar, chefe dos gauleses) registram a constelação. O primeiro lhe deu o nome de Amphora. O outro mandou cunhar moedas onde ela aparecia com o nome de Diota, uma jarra com duas alças. Em muitos zodíacos romanos, a constelação tem o nome de Pavo, ave consagrada à deusa Juno,  Junonis Astrum, nome latino o do pavão. Os romanos adotaram também uma antiga denominação da constelação entre os gregos, transliterando-a como Hydrochous.

MAHA  KUMBA - MELA

Entre os hindus, Aquário é Kumbha. A cada três anos, realiza-se na Índia uma imensa assembleia (kumbha-mela) no mês de janeiro, dela participando milhares de sannyasins pertencentes a todas as ordens religiosas e vindos de várias regiões do país. Alternativamente, a assembleia se realiza em Hardwar, Allahabad, Nasik e Ujjain. A ideia é a de reunir, congraçar, participar de uma grande festa na qual as energias superiores são distribuídas.
SANGAM
Khumba significa pote, e mela, festival. Cada ciclo de doze anos é encerrado por um grande festival (
Maha Kumbha-Mela), onde milhões de devotos se reúnem para se banhar no Sangam, nome do local do encontro de três rios sagrados, o Ganges, o Yamuna e o Saraswati, para se purificar, participando assim daquele que é considerado o maior festival religioso do mundo. Em 2007, ocorreu em Allahabad o chamado Ardh Kumbha-Mela, que fechou um ciclo de doze festivais (144 anos), evento que reuniu cerca de 70 milhões de pessoas. 

O Kumbha-Mela é uma cerimônia que tem por base uma passagem da mitologia hinduísta, a luta entre deuses e demônios pelo pote que contém o néctar da imortalidade, chamado amrita (não-morto). Diz o mito que durante a disputa quatro gotas caíram dos céus nas quatro cidades acima referidas. O amrita foi produzido pelos deuses e pelos demônios quando da agitação dos oceanos, nos momentos iniciais da criação do universo. Lutando pela posse do néctar maravilhoso, os deuses conseguiram a duras penas vencer os demônios. A cada três anos, esse acontecimento é celebrado no grande festival do signo de Aquário. 

Entre os judeus, Aquário é Shevat, o décimo primeiro mês do calendário hebraico, governado por Saturno. Em hebraico, Aquário é Dli, palavra que quer dizer jarra, balde, recipiente para líquidos, sendo o signo representado por um aguadeiro, uma figura humana que transporta água. A água na perspectiva astrológica judaica é símbolo da misericórdia e da purificação, razão pela qual as energias de Shevat devem ser esparramadas, distribuídas indiscriminadamente, beneficiando a todos. 

Embora uma respeitável tradição afirme que o signo de Israel é Capricórnio, outra, também muito relevante, estabelece que é Shevat. Ambas acabam se reconciliando, porém, na medida em que o período solar de Tevet (Capricórnio) se estende por Shevat, correspondendo ambos os signos aos dois órgãos da visão. Mais ainda: no Livro da Criação (Sefer Yetsirá), obra mística do início da tradição, que alguns atribuem a Abraão, nos seus capítulos iniciais, afirma-se que o estômago também se relaciona com Shevat porque este signo traz a ideia de retificação do ato de comer. Esta retificação fala que devemos buscar com os olhos o melhor para que a nossa “digestão” mental não sofra, para que não a prejudiquemos. Esta preocupação encontra apoio nas letras que se

associam ao mês. Primeiro Bet, que criou Saturno, e depois Tzadi, que criou o próprio signo, que tem o significado de justiça, de equilíbrio. É no mês de Shevat que temos a oportunidade de nos redimir pela revelação da verdade e da luz, sendo por isso Shevat considerado com o mês da redenção. O Livro da Formação e o Zohar, lembremos,são considerados como a base do conhecimento cabalístico. 
A justificativa para se considerar Shevat como o signo de Israel está no fato de o conteúdo da jarra ser a água, que é símbolo da Torá, como está escrito em Isaías. A Torá significa ensinamento e é um dos conceitos fundamentais do judaísmo, compreendendo tanto o Pentateuco (Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) como a Bíblia hebraica e, num sentido mais amplo, toda a tradição judaica. A proposta que está em Shevat é a de se ver a criação através do serviço divino através da Torá. 
Ainda que Saturno governe Capricórnio e Aquário, a astrologia judaica entende que os dois signos devem ser considerados a partir de um Saturno que se volta para o Sol, isto é, para o interior do sistema solar, e de outro Saturno, que “olha” para o infinito do espaço sideral. Enquanto o primeiro diz respeito a Capricórnio, significando o limite físico das construções e dos sistemas, o outro aponta para a superação destes limites, inclusive para a sua destruição.


MOISÉS
( MICHELANGELO, 1475-1564 )

Uma das principais figuras do judaísmo, Moisés, “o salvo das águas”, personagem principal do Êxodo, associa-se a Shevat na medida em que a Torá é chamada também de lei mosaica. Moisés é, assim, aquele que presta serviços, como um aguadeiro através da distribuição das águas da Torá. Shevat é um mês de bênçãos abundantes, o que tem a ver com a tribo que o representa, a tribo de Asher (felicidade, em hebreu), filho de Jacó e de uma empregada de sua esposa, Léa, que se instalou no norte do país de Canaã. Com base no Gênese (cap. 49, v.20), o óleo é um usado como um símbolo da Torá porque assim como ele se separa de outros líquidos e mantém a sua pureza, assim acontece com a sabedoria da Torá. Por isso, água e óleo são usados como símbolos da sabedoria da lei mosaica. O óleo (shemen) é um equivalente da tradição oral da Torá que começou com Moisés, tradição chamada de Mishná, que contém letras de shemen

MOISÉS  RECEBE  AS  TÁBUAS  DA  LEI
(MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )
O elemento de Shevat é o ar, elemento da tradição oral, essencial para a manutenção do corpo físico, já que é com ele fazemos trocas com o meio exterior. Os demais signos relacionados com o ar, Sivan e Tishrei, Gêmeos e Libra, tem a ver, respectivamente, com a entrega da Torá no monte Sinai e o segundo com as tábuas da lei, dos dez mandamentos. A tarefa do povo judaico é a de dar de beber os ensinamentos da Torá ao resto do mundo. 

O planeta que tem relação com Shevat é Saturno (Shabtai), que rege também Capricórnio, indicando ele a necessidade de se buscar a contemplação e o aprofundamento das virtudes do coração. Os que nascem sob a influência de Shevat costumam revelar uma tendência para a originalidade, possuindo também uma mente curiosa, inquisitiva. O pensamento original do signo é indicado pelas letras da palavra Dli, que contém as mesmas que significam “dar nascimento”. Uma implicação etimológica liga o nome Shevat à palavra Shevatim, que lembra aflição, pois foi durante este mês que Deus começou a afligir os egípcios com as pragas, causadoras do início da sua decadência. 

Ainda no terreno das associações, os astrólogos judeus notaram que enquanto em Israel a celebração do Shabat (descanso, do anoitecer de sexta-feira à noite de sábado) se liga tanto ao nome de Saturno (Shabtai) como à Lua (shabater, é um verbo que indica o descanso da Lua, dia em que ela para de crescer, tendo a ver pois com o plenilúnio) em outras tradições o dia do repouso semanal foi deslocado para um outro dia, para o dia do Sol, o primeiro dia da semana. Segundo eles, a nação de Israel, que se situa acima da influência das constelações, sempre conservou a cerimônia no dia de Saturno, uma prova de sua profunda compreensão, pois nesse dia os judeus recebem uma alma extra e os fogos do inferno são arrefecidos. Diz a tradição que se todos os judeus pudessem guardar respeitosamente, completamente, o dia do Shabat, o Messias viria. Os antigos astrólogos místicos judaicos achavam que os aspectos feminino e masculino de Deus se unirão no Shabat, um dia de harmonia cósmica, quando as forças do reino do mal (Sitra Achra) perderão sua força. As ressonâncias dessas ideias no mundo aquariano são, como se vê, muito evidentes, se lembrarmos da androgenia natural do signo.

Segundo muitos cabalistas, a chamada era de Aquário, também conhecida como era da Revelação ou da Redenção, já começou. Isto se deve ao fato de já estar a humanidade, por influência de Shevat, procurando se unificar de algum modo, impulso básico para uma futura redenção. Esse impulso, no mundo todo, como sabemos, vem buscando a unificação através do que há de mais negativo em Aquário, a tecnologia. Ou seja, enquanto a tecnologia de Shevat une o mundo (aldeia global), as nações vêm contraditoriamente levantando barreiras de todo tipo, físicas, militares, econômicas, religiosas, que só reforçam as suas fronteiras, criando verdadeiros guetos, obstáculos à livre circulação das pessoas. 

Na tradição judaica, o ano-novo do reino vegetal é celebrado a 15 de Shevat. Isto pode ser entendido pelo fato de ser o mundo vegetal a única força do mundo físico capaz de vencer a força da gravidade, um dos mais poderosos anseios dos representantes do signo. Para controlar estes anseios de rompimento das limitações do mundo físico e de distribuição de energias das alturas para o todo, derramando-as sobre a humanidade, os astrólogos judaicos pedem que sejam levadas em consideração as energias do signo oposto, Leão (Av). Dois aspectos a salientar aqui: a) muitos aquarianos escondem fortes traços leoninos nos seus discursos e propostas humanitários. b) outros aquarianos se descuidam completamente do seu eu pessoal, desintegrando-o promiscuamente numa vida grupal. 

Os astrólogos judeus nos dizem que estas tendências negativas de um signo podem ser atenuadas ou mesmo revertidas se aplicado o conceito cabalístico do tikum, palavra que, em hebraico, quer dizer correção. Este conceito, no seu sentido mais abrangente, é o aplicado trabalho de correção que a alma pode fazer através de suas
CABEÇA E CAUDA DO DRAGÃO
encarnações. O tikum é representado no mapa pelo eixo dos nós lunares, descrevendo o nó sul, a chamada cauda do dragão, tudo aquilo que alguém traz de vidas passadas. Já o nó norte, a chamada cabeça do dragão, descreve o caminho corretivo a ser tomado segundo as energias do signo em que se encontre, desenvolvidas superiormente. Temos sempre que considerar ambos os nós para obter algum sucesso na encarnação em que nos encontramos. Esse eixo, na astrologia cabalística, é muito importante porque ele afeta todo o mapa astrológico. Se alguém, por exemplo, tem o tikum em Aquário, a proposta para esta pessoa será a de desenvolver as anergias superiores deste signo procurando conciliá-las, inclusive, com o que o Sol, a Lua ou o Ascendente representem no seu mapa, estejam onde estiverem.
A constelação de Aquário estende-se de 9º de Aquário a 26º de Peixes, sendo suas principais estrelas, em magnitude decrescente, Sadalmelek, no ombro direito do aguadeiro, Sadalsuud, no ombro esquerdo, Sadachbia, na jarra, Skat, na perna e Ancha no quadril. Ptolomeu afirmava que os ombros do aguadeiro tinham características saturninas e mercurianas.  

CONSTELAÇÃO  DE  AQUÁRIO
Sadalmelik (A Favorecida do Rei), alfa de Aquário, é uma estrela de 3ª magnitude, hoje em Peixes, a 3º04´. Sadalsuud (A Favorecida do Reino), beta, também de 3ª magnitude, está hoje nos 22º 42´ de Aquário. Ambas são consideradas como favoráveis, fertilizam como a água, não no sentido material (dinheiro, bens etc.), mas fazendo com que (principalmente se relacionadas com o Asc. Os luminares, Júpiter e Vênus) o bem-estar seja “vivido” muito mais interiormente. Esta “felicidade” interior, contudo, costuma ser traduzida muitas vezes por um otimismo ingênuo, por expectativas sem fundamento, mas que podem bastar para aquele que os experimenta. Mapas como os de Jules Verne, do Brasil e dos USA podem ser úteis para estudos sobre ambas as estrelas. Os astrólogos latinos davam o nome de Sidus Faustum Regis à primeira e Fortuna Fortunarum à segunda. Os nomes, respectivamente, têm origem árabe, Al Sad al Malik e Al Saad al Suud.








sexta-feira, 3 de agosto de 2018

AQUÁRIO (2)


HAPI
No Egito, o signo de Aquário aparecia associado ao rio Nilo, o “rio azul”. Lembremos que o nome Nilo vem dos gregos (neilos) e é encontrado no sânscrito como adjetivo, nila, azul. Do latim, nilus, passou para o árabe e para o português, como o temos,por exemplo, na palavra anil. O rio era divinizado pelos egípcios quando de suas enchentes, sendo chamado então de Hapi. Representavam-no por uma figura antropomorfizada, obesa, com grande ventre, com seios pendentes, desenvolvidos como os de uma mulher, o que lhe dava um aspecto andrógino. Vestido como um barqueiro, às vezes como um pescador, usava Hapi uma coroa de plantas aquáticas na cabeça (lótus se representado no Alto Egito, papiro, no Baixo Egito). O deus Hapi era aquele que nutria, que alimentava o país e os próprios deuses; morava na primeira catarata do rio, numa ilha, de onde derramava de suas ânforas a água que iria abastecer o céu e depois a terra.

Autogerado, Hapi era chamado de Único, acreditando os egípcios
NUN
que ele saía do Oceano primordial, o Nun, que envolvia a Terra, do qual Hapi era uma forma secundária. Nun guardava todas as formas possíveis, as positivas e as negativas, e dentro dele se manifestou o demiurgo. Nun era considerado o deus das origens na cosmogonia heliopolitana. Em Hermópolis, era um dos quatro princípios masculinos, representando o infinito líquido, associado à sua contrapartida feminina, Nenet. Rodeando o mundo visível, ele esta na origem das enchentes. É da profundeza de suas águas que no final dos tempos sairá um demiurgo para nos proporcionar um novo ciclo de vida.  


HERMÓPOLIS  ,  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO

Já os devotos da deusa Ísis davam outra interpretação às cheias do Nilo, que começavam em meados de junho. Afirmavam eles que tal acontecimento se devia às lágrimas da deusa, chorosa pela morte de
OSÍRIS
Osíris, assassinado por seu irmão gêmeo Seth. Qualquer que seja, porém, o aspecto religioso privilegiado, o que se sabe é que, além de muitas oferendas, cânticos e poemas sempre haviam sido entoados e recitados às margens do rio desde tempos muitos remotos para que as águas atingissem um ponto ideal quando das enchentes de modo a proporcionar a máxima fertilidade paras terras vizinhas, mais ou menos a 20 km. de ambas as margens do rio,  Deste ponto ideal dependia anualmente a prosperidade ou a infelicidade do povo egípcio. Quando gregos e romanos ocuparam o país, a referida altura, para que a almejada fartura das colheitas fosse obtida, estava fixada em mais ou menos dezesseis côvados, quase onze metros.  

Lembremos que o deus Hapi, apesar de muito reverenciado,  nunca chegou a fazer parte de qualquer sistema teológico no Egito. Nos templos, ele exercia uma função doadora, para outros subalterna, sendo uma espécie de auxiliar dos grandes deuses, oferecendo-lhes o produto de suas águas. Neste sentido, a função de Hapi lembra muito a de Ganimedes como escanção dos deuses do Olimpo grego. Muito representado na escultura religiosa do país, Hapi atuava juntamente com as divindades do mar, dos grãos, do florescimento do mundo vegetal, das oferendas e, de um modo geral, dos que de algum modo proporcionavam bem-estar e felicidade.  

Na mitologia egípcia, os deuses sempre mantiveram uma relação muito difícil com o mar, com as suas enormes extensões de água salgada que muitas vezes se tornavam perigosas quando ventos e tempestades vindos da massa líquida marinha se abatiam sobre a costa. Na verdade, o alto-mar para os egípcios sempre representou uma região de acesso muito difícil, pois era preciso atravessar, para atingi-lo, as zonas instáveis do delta do rio, zonas pantanosas, perigosas, que lembravam sempre a sofrida peregrinação de Ísis em busca de seu amado Osíris. Contudo, se os extensos pântanos significavam por um lado proteção contra ataques externos, por outro desestimulavam tentativas de atravessá-los, uma alternância com a qual os egípcios tiveram que conviver por milênios.


ÍSIS

Desde tempos imemoriais se falava no país de uma força poderosa, desconhecida, que aterrorizava os pescadores que iam além do delta do Nilo, uma força que atacava e destruía barcos e homens, ninguém sobrevivendo. Era o deus dos mares, que, às vezes, avançava sobre as terras da região do delta; ora era o gado, criado nessas regiões, levado pelas águas; noutras ocasiões, pequenos vilarejos eram destruídos e cadáveres apareciam presos às raízes das plantas dos pântanos. Os rumores se multiplicavam, o temor tomava conta de todos que viviam na região. 

A afirmação dos antigos ganhou corpo com o tempo: falava-se que um monstro de nome Yam, vindo das profundezas marinhas, andava à noite pelo delta, acompanhado de crocodilos e hipopótamos. Uma boa parte da mitologia egípcia registra com ênfase a luta entre o deus Hapi e os agentes monstruosos do deus marinho, todos relacionados, sob o ponto de vista astrológico, com os dois últimos signos zodíaco.


PROTEU
Quanto aos gregos, lembremos, desde Homero, atribuíram eles inicialmente a um deus chamado Proteu (o primeiro gerado, o que vem antes, etimologicamente), cujo apelido era O Velho do Mar, a tutela dos mares gregos e egípcios. Sua residência ficava numa ilha arenosa, Pharos, situada na costa do delta do rio Nilo. Proteu era uma divindade dotada de poderes oraculares, exercendo também a função de pastor de
PTOLOMEU FILADELFO
rebanhos de animais marinhos (focas e outros). Não gostava de ser incomodado nem consultado, evitando sempre os inoportunos. Fugia deles, tomando a forma de qualquer animal marinho ou simplesmente se transformando em água ou fogo. No ano de 300 aC, Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito, mandou construir na ilha de Pharos, diante de Alexandria, uma torre de mármore branco de 180 m. de altura. Esta notável edificação, uma das sete maravilhas do mundo, guiava os navegantes à noite, graças a fogueiras que eram mantidas permanentemente acesas no seu topo.



GEIA  E  FILHOS
Proteu era também chamado pelos gregos de Nereu (o que vive mergulhado, etimologicamente), pai das nereidas, ninfas do mar, tendo sido gerado pela união de Pontos e de Geia, esta última a Grande-Mãe Terra. O primeiro mencionado, cujo nome lembra caminho, lugar por onde se transita, representa no mito grego, como sabemos, a primeira concepção do mundo marinho, ou melhor, da energia que há no elemento líquido oceânico e passa por ter sido o pai também de, além de Nereu, de Taumas (O Maravilhoso), Fórcis (O Branco, no sentido de encanecido), Ceto (A Baleia) e Euríbia (A de Grande Força Vital), entidades marinhas. 

Os gregos, através de seus primeiros escritores, poetas ou não, como Homero, Hesíodo e Heródoto, sempre consideram o oceano
OCEANO , MOSAICO  ROMANO
como um imenso rio que fluía em torno da Terra. Na sucessão das divindades que o tutelaram, depois das  entidades primordiais acima mencionadas, aquele que melhor representou a massa circular líquida que envolvia a Terra, como um rio-serpente, foi o deus Oceano, o filho mais velho de Urano e de Geia, um titão, portanto. Sempre considerado como extremamente cordato e acessível ao se relacionar, Oceano, unindo-se a Tétis, símbolo do poder gerador das massas oceânicas, tornou-se pai das Oceânidas, as ninfas dos oceanos e mares, e de inúmeros rios que atravessa a Terra. Dentre os mais importantes filhos de Oceano, destacamos, segundo os gregos (Hesíodo), os rios Nilo, Aqueloo,  Alfeu, Erídano, Peneu... 

DEUCALIÃO  E  PIRRA
Antigos povos da Mesopotâmia, como os babilônicos, principalmente, associavam o signo de Aquário ao décimo-primeiro mês do seu zodíaco, Shabatu, palavra que tem o significado de Curso das Águas da Chuva. Na Grécia, é de se notar, o signo antes de ser associado a Ganimedes, aparecia ligado a  Deucalião, filho de Prometeu e de Clímene, herói que se salvou do dilúvio enviado por Zeus. Etimologicamente, o nome Deucalião lembra mergulho, imersão no elemento líquido. Casou-se com Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora. 

OVÍDIO
Desgostoso com o comportamento dos heróis da Idade do Bronze, descontrolados, que viviam atolados no vício e no crime, Zeus resolveu, como diz o poeta Ovídio, castigar todos os homens, afogando-os nas águas de um dilúvio. Salvou-se o casal Deucalião e Pirra, que fundou um reino e, com os seus filhos e descendentes, repovoou a terra, criando uma nova humanidade.
  
Entre os latinos, certamente por influência grega, quando Ganimedes já havia substituído Deucalião como representante mítico do signo, surgiram, para designar Aquário, além de Ganimedes, naturalmente, nomes como Amphora, Junonis Astrum (Astro de Juno, esposa de Júpiter), Jovis Cynoedus ou Cinaedus  (Favorito de Júpiter), Puer Iliacus (Garoto de Ilion, Troia), Puer Aquilae (Garoto da Águia).  


AQUÁRIO
Na tradição ocidental, pela via latina, fixou-se o nome Aquarius, para o décimo primeiro signo zodiacal. Aquarius, em latim, lembre-se é tudo o que concerna à água, servindo a palavra para designar também tanto aquele que tem a função de transportar água como o que trabalha como inspetor encarregado da supervisão das águas. Note-se ainda que os franceses adotaram para designar o signo a palavra Verseau, hydrokhoeus, em grego. vertedouro, o que derrama  água.

Diante do exposto, acredito que fique fácil entender porque os antigos associaram essa região do zodíaco à água, região conhecida em antigas astronomias pelo nome de Mar. Para representar essa região nos céus, os antigos utilizaram uma onda, que era o hieróglifo egípcio da água, elemento que põe tudo em comum, que apaga as fronteiras, ligado alquimicamente à solutio. É por esta razão que o signo que ocupou esta região do céu sempre foi considerado com aquele em que o ser humano transcende a sua individualidade e a sua vida social para se integrar a humanidade.

O acesso a esta transcendência, entretanto, terá que ser feita atrvés do elemento ar. Ou seja, é pelo despertar de sua consciência coletiva que o homem compreende que ele é também a humanidade. É por isso que este signo faz quadratura (conflito) com os signos de Touro (a matéria) e com o signo de Escorpião (a metamorfose) e faz oposição ao signo de Leão (o ego). 

Fixando-nos mais na tradição que nos vem da Grécia, não podemos deixar de considerar inicialmente que as relações entre o signo de Aquário e Urano, estabelecidas desde a descoberta desse astro em fins do séc. XVIII, confirmaram todas as aproximações anteriormente feitas entre mitologia e astrologia. Melhor, não só confirmaram como permitiram que o homem entrasse em contacto com dimensões desconhecidas da sua interioridade e do universo, ampliadas mais tarde com a descoberta de Netuno (meados do séc. XIX) e Plutão (década de 1930).


SISTEMA   SOLAR

Se os  planetas visíveis a olho nu até Saturno dizem respeito mais diretamente à evolução física e moral do ser humano individualmente considerado, os três  planetas invisíveis ao olhar humano (Urano, Netuno e Plutão), situados além de Saturno, dizem mais respeito à sua sua interioridade, à sua vida subconsciente, e afetam sobremodo a humanidade como um todo. 

Foi, aliás, por essa razão que os planetas transaturninos foram considerados como a oitava maior de Mercúrio (Urano), Vênus (Netuno) e Marte (Plutão). Quando, na música, dizemos que uma nota está uma oitava acima da outra isto significa que a nota é a mesma, situada porém numa região mais aguda do instrumento. Tome-se o caso de Mercúrio, planeta que numa carta astral descreve como funciona a mente de uma pessoa. Urano, como sua oitava maior, nos descreverá outros tipos de vibração mental, de natureza mais evoluída, que vão além de Mercúrio. É neste sentido, por exemplo, que Urano é considerado como o planeta da intuição, um conhecimento imediato, instantâneo, ao qual se pode chegar sem necessidade das demonstrações que a mente normal precisa para a ele chegar, se é que consegue. É a intuição uma apreensão que se parece muito com o conceito filosófico do Zen, o satori, que se pode traduzir como compreensão profunda e imediata, iluminação.

HESÍDIO
Conforme nos conta Hesíodo em seu poema A Teogonia, Urano era o nome que os gregos davam ao céu estrelado. Nascido de Geia por partenogênese, sem o concurso de qualquer divindade masculina, gerado por ela em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cobrisse, como está no poema, Urano passou a fecundá-la e ela pôs no mundo vários filhos, divindades e monstros, os titãs, os Cíclopes e os Hecatônquiros.

O relacionamento entre Urano e seus filhos, como se sabe, sempre foi difícil; os filhos produzidos por ele e Geia formavam no seu todo uma prole anárquica, revoltada, perigosa, desmesurada; seu comportamento era espasmódico, imprevisível, oscilando todos entre entre estados de grande exaltação e de profunda depressão. Urano tinha tanto horror dos seus filhos, tão pouco gratificantes para o seu amor-próprio, que não hesitava em lançar uns no Tártaro, encerrando-s na camada mais profunda do inferno, ou obrigar Geia a reabsorver outros.

Levando a um paroximismo incontrolável a sua função procriadora, sempre debruçado sobre Geia, fecundando-a incessantemente, Urano jamais deu ouvidos às suas queixas. Inconformada, ela chamou seus filhos à revolta com a finalidade de dar fim à prepotência de seu filho-amante. O único que a atendeu foi Kronos, o caçula; Geia lhe forneceu-lhe então uma foice de silex com a qual ele investiu contra o pai e o castrou. Dessa castração, do contacto da genitália de Urano lançada ao mar com a sua espuma (aphros, em grego), tudo em meio a sangue e secreções, nascerá Afrodite, deusa do amor.

Parece não haver dúvidas de que o papel representado por Geia na castração de Urano foi inspirado por aquele que Cibele, deusa frígia, como Grande-Mãe, desempenhava  na mitologia dos povos do oriente-próximo. Até onde se sabe, foi no culto de Cibele que se encontrou o primeiro ritual de castração masculina devidamente registrado.


CASTRAÇÃO   DE   URANO


CIBELE
Esta história apresenta algumas versões, parecendo-nos a mais aceitável a mais antiga, a greco-oriental, que nos apresenta Atis, deus anatólio da vegetação, servidor a amante de Cibele, mãe dos deuses, dos humanos, dos animais e da vegetação selvagem. Grande-Mãe, Cibele se situa entre as maiores divindades da fertilidade do mundo antigo. Montada num carro puxado por leões,  símbolo de seu poder, ela possui uma chave com a qual abre as portas da Terra onde estão encerradas todas as suas riquezas. Seu culto se espalhou pelo Mediterrâneo, alcançando Roma, onde era apresentada majestosamente com pequenas torres numa coroa  que ostentava na sua cabeça, emblemas das várias cidades que protegia. 

CIBELE   E   ATIS ( ANGELO MONTICELLI , 1778 - 1837 )

Seus cultos, no oriente, eram de natureza orgiástica, neles se encaixando a história de Atis. Amado pelo hermafrodito Agdistis e não podendo a ele se unir, por sua dependência de Cibele, Atis enlouqueceu, e se mutilou, castrando-se (emasculação), numa das festas da Grande-Mãe, realizadas anualmente. Ovídio, muito mais tarde, retomou a história de Atis, da sua castração, eliminando, porém, a sua ligação com Agdistis.  Atis passou,  a partir dessa versão, a ser considerado  como um deus da vegetação que morria e renascia anualmente, um representante da chamada fecundidade pela morte.

Considerando o que até agora foi expôsto com relação a Urano não será preciso muito esforço para se perceber, mesmo para os que não se aventuraram na caminhada astro-mitológica, o quanto o filho amante de Geia pode se insinuar, como poderoso arquétipo na personalidade de muitos daqueles que a astrologia chama de aquarianos. Realmente, Urano, como deus do céu, além de outros excessos, parace apresentar, quando analisado mais de perto, como característica principal, uma incontrolável e anárquica criatividade, a personificação de uma fecundidade que não conhece limites.

O mito nos revela que Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, que a fazia reabsorver os filhos que gerava, resolveu libertar a sua prole. Pediu que os filhos a auxiliassem. Todos se recusaram, com exceção do caçula, Kronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Kronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava para mais uma vez se deitar sobre Geia, Kronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe, com a sua foice, a sua genitália.

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e ele um espaço que nunca mais voltaria a desaparecer. Essa façanha de Kronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. Desde então, a foice, como símbolo, associou-se às colheitas e à morte, aparecendo como um atributo das divindades agrícolas, cujo melhor exemplo pode ser encontrado no deus Saturno, dos povos latinos.


NUT 

Astrologicamente, foi atribuída a Urano, o planeta mais excêntrico do sistema solar até então conhecido (excentricidade até hoje não contestada), a tutela da constelação de Aquário, pelas seguintes razões, em função das influências que exerce sobre o nosso planeta e a vida humana: essencialmente, Urano é variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, excitante (mania, no sentido grego), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista (utópico), original, inédito e estéril.

Através dos adiante nomeados traços de personalidade, que destacamos, a influência uraniana costuma ser traduzida pelos seguintes comportamentos:  desmesurado impulso criador; peculiaríssima originalidade, caracterizada pela autossuficiência; excessos individualistas;  forte inclinação à independência (ação reflexa do singno oposto, Leão), alimentada muitas vezes por uma absoluta falta de compromisso ou de concessões com relação ao meio em que vive; obstinada cosmovisão; lógica e ética únicas, base de um comportamento que leva invariavelmente o tipo aquariano mais comum a não querer pertencer a “nenhum rebanho”. 

Lembro que a união de uma Deusa-Mãe com um Filho Amante é um modelo muito repetido nas primeiras fases de várias mitologias, uma forma incestuosa de relacionamento que nesses tempos primordiais terminava via de regra tragicamente, encontrando-se um de seus melhores exemplos, atualizado, na história do infortunado Édipo. 

EVA
( L.L.DHURMER, 1865 - 1953 ) 
O ímpeto criativo de Urano, talvez a sua característica mais marcante, costuma gerar, em muitos casos, o melhor e o prior através de inventos e formas, individual ou coletivamente.  É neste sentido que Aquário é o signo do demiurgo, do inventor, daquele que vai também rejeitar muitas vezes (sempre?) a sua própria criação, como Urano o fez com seus próprios filhos e como, entre os judeus, Javé, valendo-se da sua criatura masculina, fez com a mulher, Eva. 

Dentro deste contexto é que podemos estabelecer a analogia entre a inesgotável capacidade criadora do Céu Estrelado e a ação aquariana superior de caráter científico, tecnológico ou artístico, uma fantástica capacidade criadora nem sempre coerente e muitas vezes inconsciente, quanto aos efeitos maléficos daquilo que foi criado, poderia produzir. São estas considerações, a meu ver, que atualmente, diante do surto inventivo que tomou conta da humanidade a partir de fins do séc. XVIII, se nota nos países mais influenciados pelas características aquarianas, características que precisam ser trazidas à discussão para se questionar a responsabilidade dos inventores, forçando tais países a que se conscientizem e interroguem sobre os efeitos deletérios de sua  própria criação. 





quarta-feira, 22 de julho de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (5)

                       
Para as pessoas de mentalidade literal, é preciso ressaltar que os antigos gregos nunca consideraram as histórias de sua mitologia como fantasiosas, irreverentes ou estapafúrdias. Os mitos, para os gregos, sempre traduziram sob uma forma poética, metafórica, simbólica ou alegórica, e construídos com absoluta maestria técnica sob o ponto de vista literário, os sentimentos e as emoções que eles experimentaram diante dos grandes mistérios do universo.



TITANOMAQUIA  ( CORNELIS  VAN  HAARLEN )

As várias provas pelas quais os seus heróis passaram ao longo de sua vida nunca deixaram também de ilustrar aquilo que eles chamavam de dokimasia, provas iniciáticas, preparatórias, às quais os seus jovens tinham que se submeter. Uma demonstração de que estavam aptos para enfrentar tarefas mais difíceis, os grandes embates da vida, na proporção humana, como as descritas nos episódios da Titanomaquia e da Gigantomaquia. A dokimasia, a rigor, na sociedade grega, era um exame ao qual deviam se submeter os candidatos a determinadas funções (magistratura e cavalaria) bem como os estrangeiros que pretendessem se naturalizar. Este exame era aplicado sob a supervisão dos chamados thesmotetes (arcontes) diante de uma assembleia ou tribunal. Mesmo Zeus se submeteu a provas semelhantes para assumir a posição de o maior dos deuses. 


ZEUS,  CÉRBERO  E  A  ÁGUIA

As lutas que Zeus travou contra os titãs e contra os gigantes ilustram o inconformismo das forças primordiais, constitutivas do universo, cegas e violentas, que precisam ser constantemente vigiadas e constrangidas a se manter dentro de seus limites. É dentro desse cenário que Zeus é uma espécie de reorganizador e recriador do universo. Se interpretarmos o que significa astrologicamente este papel de Zeus, podemos entender porque Júpiter, numa carta astral, não exerce uma função criadora, mas, sim, uma função disciplinadora, redistribuidora, reorganizadora, ao recolocar, se dignificado, a criação numa ordem superior.

Vencido momentaneamente Tifon e notando que os humanos tornavam-se cada vez mais perversos, Zeus alimentou o forte desejo de destruí-los. Para Zeus, os mortais, oriundos do reino de seu pai, criados, segundo Hesíodo, com o limo da terra por Prometeu, eram seres nascidos para o efêmero, pois sua força vital (aion) era precária; colados à terra, rastejavam, alimentavam-se de coisas putrescíveis, vivendo no cuidado e na preocupação. Os deuses vivem no Olimpo, nas alturas, onde as estações não existem, onde o tempo não muda. Os deuses são athanatoi, aiegennetai, imortais e nascidos para sempre. Além disso, são akedees, isentos de preocupação, e eternamente makares, felizes.

Como benfeitor da humanidade, Prometeu resolveu intervir quando Zeus começou a tramar a destruição dos humanos. Para resolver a questão, organizou-se uma reunião entre deuses e mortais na cidade de Mecone, tendo Prometeu assumido a defesa de suas criaturas. Seu desempenho nessa reunião foi, entretanto, lamentável, pois pretendeu enganar os deuses em benefício dos mortais. Para o banquete programado, dividira-se um boi enorme em duas partes; a primeira continha as carnes e as entranhas, cobertas com o couro do animal; a segunda, apenas ossos, disfarçados com a gordura. Zeus escolheria uma das partes, cabendo a outra aos humanos. Zeus optou pela segunda parte. Sentindo-se humilhado, encheu-se de cólera. A punição foi imediata: privou os humanos do fogo, o que equivalia fazê-los voltar à animalidade. A privação do fogo significava também retirar dos humanos o nous, a inteligência, a capacidade de conhecer os eide, as formas, tornando-os anoetos, imbecis.


PROMETEU   ROUBA   O   FOGO   DOS   CÉUS

Prometeu roubou uma centelha do deus Hélio, o Sol, ocultando-a no galho oco de uma figueira, e a trouxe para a Terra, distribuindo-a entre os mortais. Zeus revidou, e resolveu fazer com que os mortais se perdessem para sempre. Até esse momento andróginos, os mortais foram então separados em macho e fêmea, usando Zeus para modelo desta última uma figura por ele idealizada, Pandora (etimologicamente, presente de todos), de cuja confecção participaram todos os deuses. O fogo trazido dos céus por Prometeu ficou com os mortais, mas, desde então, implantou-se entre eles a divisão. 


PANDORA    ( JOHN   WILLIAM   WATERHOUSE )

Pelo seu crime, sob o ponto de vista divino, Prometeu foi punido. Mandou Zeus acorrentá-lo nas montanhas do Cáucaso, missão cumprida por Hefesto, devidamente assessorado por Crato, o Poder, e Bia, a Força. Durante o dia, o fígado do titã era roído por um monstruoso abutre, filho de Tifon e de Équidna, recompondo-se durante a noite, quando a gigantesca ave se afastava, recomeçando-se tudo a cada aurora. Mais tarde, séculos e séculos depois, Zeus aceitou a libertação do titã, mas o obrigou a carregar para sempre nos tornozelos uma argola confeccionada com o aço da corrente que o agrilhoou, preso a ela um fragmento da rocha no qual ela fora fixada.

Dotado de dons divinatórios, Prometeu (o previdente, etimologicamente) tornou-se para os humanos o símbolo da filantropia. Do século XVIII em diante, principalmente a partir do
PROMETEU - BEETHOVEN
Renascimento e depois no Romantismo, para a poesia (Voltaire, Schelegel, Herder, Byron), para as artes plásticas (Ticiano, Rubens, Böcklin) e para a música (Beethoven, Liszt, Orff), Prometeu passou a simbolizar a revolta do pensador criativo, do técnico, do inovador, contra as forças do destino que o querem esmagar. Do ponto de vista dos deuses, porém, o titã sempre foi considerado um criminoso. Para os humanos, um herói, chamado pelo apelido de o Filantropíssimo. Prometeu é hoje o patrono da civilização moderna que deseja desvendar todos os segredos do universo com base no seu prodigioso poder criador técnico, em cuja origem está o fogo, para o qual nenhum limite pode ser admitido.


Os tempos se passaram. O desgosto de Zeus com relação aos mortais crescia. Os vícios e os crimes dos heróis da Idade do Bronze pareciam ter chegado a limites insuportáveis. O Senhor do Olimpo desencadeou então sobre o mundo um dilúvio, chamado dilúvio de Deucalion por ter ocorrido quando este personagem, filho de Prometeu, casado com sua prima Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora, reinava na Tessália. Os homens procuraram fugir da terrível catástrofe, fugindo para lugares elevados. Mas lá também foram alcançados. Seguindo um conselho de Prometeu, Deucalião construiu uma grande embarcação, juntou nela vários animais, aos pares, e esperou que a tormenta passasse. 


DEUCALIÃO   E   PIRRA  

Ancorando a embarcação no alto do Parnaso, diminuindo a altura das águas, Deucalião e Pirra desceram e foram consultar um oráculo de Themis, milagrosamente preservado, para saber como a Terra poderia ser repovoada. O oráculo lhes deu a seguinte resposta: Saiam do templo, cubram o rosto, atem vossas cinturas e lancem para trás os ossos de vossa Mãe. Deucalião meditou por algum tempo. Entendeu que o oráculo, ao se referir à Mãe, estava falando da Mãe Terra e que seus ossos eram as pedras. Pôs-se então a lançar pedras às suas costas e notou com espanto que as lançadas por ele se transformavam em homens e que as lançadas por Pirra se transformavam em mulheres. 

Aparentemente fantasiosa, uma invenção poética, esta passagem se fundamenta entretanto em algo que parece ter sido historicamente bem real. Sabe-se que na Tessália, em remotíssimos tempos, havia um rei chamado Deucalion. Um grande terremoto atingiu a região, interferindo no curso dos  rios. No mesmo período em que ocorreu tal terremoto, a região foi assolada por chuvas torrenciais como nunca se vira antes, ficando tudo inundado. O povo da região procurou se refugiar nas montanhas. Muitos morreram, entretanto. Terminada a tormenta, os sobreviventes repovoaram a região. Tudo teve que ser reconstruído a partir do nada, das pedras. A chave da explicação da sentença do oráculo de Themis estava na palavra grega laos, que tanto designa povo como pedra. Juntando as pedras, tudo com o tempo foi reconstruído pelos homens. Perdeu-se o fato histórico, encarregando-se a tradição oral de lhe dar o viés alegórico, mítico.

O comportamento dos filhos de Deucalião e Pirra, a nova humanidade, também voltou a incomodar o Senhor do Olimpo, que resolveu fazer uma viagem à Terra para verificar pessoalmente as notícias que lhe chegavam. O que constatou foi lamentável, desapontador. Não teve outra alternativa senão a de lhes infligir duros castigos. Para isso, escolheu alguns personagens tidos como ilustres e os puniu exemplarmente, para que os demais, amedrontados, temerosos, segundo pensou, se corrigissem.


LICAON   ( HENDRIK   GOLTZIUS )

Dentre os castigados, merece destaque Licaon, rei da Ardádia. Seu grande crime: jamais prestar reverência a Zeus na sua forma de Xenios, protetor dos estrangeiros, pois matava indiscriminadamente todos aqueles que atravessassem as fronteiras do seu reino. Misturando-se entre o povo da região, um povo ingênuo que se dedicava à agricultura, Zeus, embora disfarçado de camponês, chamou a atenção pelo seu porte. Intrigado, desconfiado, Licaon mandou chamá-lo e o convidou para se hospedar no seu palácio, mas com a intenção de matá-lo, como fazia com todos os estrangeiros, conforme nos conta Ovídio. Antes, porém, Licaon tentou obter confirmação sobre a origem  do personagem (seria um deus disfarçado?) que visitava o país. Serviu-lhe, no jantar, os membros de um de seus escravos. Indignado, Zeus transformou-se numa nuvem de fogo que incendiou o palácio e transformou Licaon em lobo. 


LICANTROPIA   ( LUCAS   CRANACH  DER  ÄLTERE )

Esta história, como muitas outras, está na origem de uma antiquíssima tradição mítica de se sacrificar vítimas humanas a Zeus Lício (Lupino) na Arcádia com o objetivo de se afastar os lobos que então infestavam a região, pondo em perigo os homens e os rebanhos. A licantropia (transformação do homem em lobo), lembre-se, está atestada na antiguidade greco-romana por Heródoto, Strabon, Virgílio e outros. Sua origem sempre apareceu associada à história de Licaon, o cruel rei da Arcádia, e à magia agrícola, para se pôr termo às secas e às catástrofes naturais de toda sorte. Feito o sacrifício, Zeus então enviava as chuvas que fertilizavam os campos.  


ZEUS   ( DESENHO  DE  MAARTEN  VAN  HEEMSKERCK )

Zeus é o deus maior dos olímpicos, o organizador do universo. É dele que dependem todas as leis físicas, sociais e morais. Suas tendências negativas aparecem exatamente devido a essa irrefreável inclinação de incorporar tudo (as suas inúmeras uniões e ligações com deusas e mortais), de abranger tudo, o seu cosmocratismo, a sua natural disposição para monopolizar a autoridade e destruir tudo o que pudesse aparecer como autonomia e independência. São comuns no mito os seus rompantes de autoritarismo e a sua enorme suscetibilidade quando as reverências de que se julga merecedor não são feitas. Comuns por isso as suas explosões de cólera, as suas cenas, as cobranças quanto à vassalagem, tudo, no fundo, certamente a configurar um sentimento de inferioridade e de insegurança, que precisa das compensações do seu cerimonial, do seu culto, dos seus ritos, dos quais não abre mão.

Zeus é o grande modelo do patriarca na cultura ocidental, ainda muito poderoso apesar dos ataques que o arquétipo vem sofrendo. Na história do ser humano, quando pensamos em organizações e sociedades que se constituem para governar um país, para administrar uma empresa, mesmo para formar uma família, onde quer que haja comandante e comandados, a cultura que Zeus representa, a do grande chefe, eternamente presente e onipotente, pode e continua a aparecer arquetipicamente.  
  
É oportuno observar que muitos deuses da mitologia grega representam diferentes maneiras de comandar e de administrar, podendo servir de modelos de tipos humanos quando pensamos em administradores de empresas. Cada deus representa um determinado tipo de poder, de influência, mas nenhum como Zeus, que está acima de todos como cappo dei cappi. 

É na cultura das organizações empresariais modernas que o complexo de Zeus encontra o terreno mais propício para se desenvolver. Afora algumas das desejáveis características pessoais do Administrador-Zeus (empatia; demagogia; priorização de contactos informais, diretos, do tipo olho no olho; visitas constantes às bases etc.) o complexo só se configurará em toda a sua plenitude se  incorporar, fundamentalmente, os elementos que fazem parte da vida e do currículo do Senhor do Olimpo. 

HERMES


É preciso salientar que chefes de organizações públicas ou privadas tomados pelo completo de Zeus não podem prescindir, como temos no mito, de uma eficiente assessoria. Zeus jamais dispensou os valiosos préstimos de Hermes, deus que representa a inteligência sagaz, esperta e engenhosa. Hermes é uma peça importante, imprescindível, para que o modelo Administrador-Zeus funcione.


Deslocando-se muito rapidamente (polytropos), Hermes representa o conhecimento objetivo, recolhido de todos os cantos do universo, como também tem a ver com as múltiplas maneiras pelas quais qualquer informação pode ser recebida (subjetividade) e transformada em mensagem. Pode-se dizer que o complexo de Zeus nas suas formas mais pomposas e grandiloquentes, incorporado para ser reverenciado pelo público interno ou externo das organizações, depende sempre, do trabalho sujo (corrupção, comprar jornalistas, cronistas sociais, chantagem, suborno, apropriação de informações privilegiadas em benefício próprio, propagação de boatos desabonadores sobre inimigos ou aliados não mais úteis, eliminação de adversários etc.) do deus Hermes. É Hermes (assessoria) quem limpa a barra de Zeus para que ele ofereça sempre a sua melhor face para o mundo. Não nos esqueçamos que Zeus, divindade do espírito, da luz celeste, do reino do espírito, precisa recorrer constantemente, para firmar e consolidar as suas posições, a ações indignas, conduzidas sombriamente, mesmo criminosamente.

É Hermes, por exemplo, quem se encarrega de fazer o Administrador-Zeus usar os símbolos mais adequados à imagem a
ASSESSORIA   DE   COMUNICAÇÃO
ser projetada, é Hermes quem o faz ser sempre notícia, ser amado pelos comunicadores de jornais, TVs, revistas especializadas. Isto, como se sabe, implica o patrocínio de muitas gentilezas, almoços, jantares, ingressos para espetáculos, fins de semana em hotéis de luxo, meetings, congressos, restaurantes da moda, empréstimo de dinheiro (jamais cobrado), de apartamentos, casas de praia, fornecimento de garotas ou garotos de programa, droga etc. Uma regra de ouro da assessoria hermesiana é aquela que nos diz que, depois da cama, o melhor lugar para se conhecer uma pessoa é a mesa.



HERA  ( GUSTAV  KLIMT )
Outro elemento importante, altamente desejável, na vida do Administrador-Zeus, é que ele tenha uma esposa oficial, como Zeus tinha, apesar de todos os problemas conhecidos. A Esposa-Hera é importante para as solenidades oficiais, para as recepções, para o clube, ficando aos cuidados dela o cenário familiar, a casa ou o apartamento da cidade, a fazenda, a casa de praia,  os filhos bem educados e formados etc., etc. Deverá ser de preferência uma mulher de alta linhagem, de bela estampa, bem tratada e vestida, com sobrenome importante, bem treinada, com algum curso na Europa, que saiba se vestir bem, que não seja monoglota (falar inglês é importante), que esteja, ainda que muito superficialmente, a par do que aconteça nos circuitos artísticos oficiais.  

Faz parte do complexo de Zeus no mundo empresarial outro componente do mito. Refiro-me ao nepotismo. Zeus, no mito, sempre cultuou através de deuses mais próximos, olímpicos ou não, essa forma de criar dependências. O nepotismo é constituído por uma entourage de personagens próximos, familiares, parentes, amigos de infância, colegas de faculdade, compadres, gente conhecida e testada há muito tempo (cuidado com amizades
PAPA   ALEXANDRE   VI
recentes!). O termo nepotismo vem de nepos, nepotis, neto, em latim. O nome foi usado na Idade Média para designar os filhos ou netos dos Papas que passaram a acompanhá-los, mas evidentemente não como tal reconhecidos. Eram considerados como sobrinhos, protegidos, favoritos, "aspones" privilegiados. Um dos casos mais escandalosos de nepotismo foi protagonizado pelo Papa Alexandre VI (fa mília Bórgia, sécs. XV-XVI), que nomeou cardeais seu filho (16 anos), sobrinhos, cunhados e amigos.  



LOUIS XIV (HYACINTHE RIGAUD)
Exemplos do complexo de Zeus podem ser encontrados em muitos personagens ao longo da História. O imperador romano Otávio Augusto, Luiz XIV, o rei Sol, são bons exemplos. Nos tempos modernos, William Randolph Hearst, magnata da imprensa americana (o Cidadão Kane do filme de Orson Welles). Thomas Mann, com o seu Os Buddenbrook, e Robert Musil, com O Jovem Törless nos dão grandes exemplos. Um dos mais bem acabados modelos do complexo nós o encontramos na biografia de David Selznick, grande figura do cinema americano entre os anos 1920-1950.