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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

SAGITTA, SERPENS, TRIANGULUM



  

SAGITTA é uma constelação que admite várias versões sobre a sua origem. Situada entre Cygnus e Aquila, os gregos a escolheram para representar as flechas que Hércules usou para exterminar as aves do lago Estinfalo, quando da realização do seu nono trabalho. Numa escura floresta, às margens deste lago, na Arcádia, viviam milhares de aves gigantescas, que tudo devoravam. Eram antropófagas,  metálicas, tendo bicos e pés de bronze. Proliferavam de modo descontrolado, transformando a região do lago num lugar imundo, cheio de dejetos, tornando impossível a vida vegetal e animal. Abrigavam-se na floresta vizinha do lago. 



HÉRCULES   E   AS   AVES   DO   LAGO   ESTINFALO
( TAPEÇARIA  DO  SÉCULO  XVI ) 

Para que Hércules desse conta deste trabalho, Palas Athena pediu a Hefesto que fabricasse para o nosso herói uma espécie de castanhola de bronze que produzia um ruído ensurdecedor. Agitado o instrumento, as aves iam levantando voo, do que se aproveitava Hércules para matá-las com certeiras flechas, envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna. Hércules usou, neste trabalho, pela primeira vez de modo eficiente o arco e a flecha que recebera de Apolo quando se dispôs a cumprir os doze trabalhos que Euristeu, rei de Argos, lhe havia determinado, para que fosse cumprida a sentença do oráculo de Delfos. 



LAGO   ESTINFALO  ( GUSTAVE  MOREAU , 1872 )  

Coberto pela sujeira que as aves criavam, o lago transformara-se num pântano, num lugar de águas estagnadas, cheio de podridão, sem nenhuma vida. A quantidade das aves era tamanha, a esvoaçar sempre à sua volta, que chegavam mesmo a impedir que a luz do Sol atingisse as águas e a sua vegetação circundante. Com suas flechas, Hércules matou as aves, trazendo de novo a vida ao lugar. 

PROMETEU
( G. MOREAU )
Outra versão sobre a origem de Sagitta é a de que ela simboliza a flecha com que Hércules matou o pavoroso abutre,  monstro que devorava diariamente o fígado de Prometeu. Um dentre os quatro filhos de Jápeto e de Clímene, Prometeu, com os seus três irmãos, Epimeteu (gêmeo), Atlas e Menécio, pertencia à raça dos titãs. Era, assim, primo de Zeus. Casado com Clímene, foi pai de Deucalião, Lico e Quimareu, ligando-se o primeiro à história do dilúvio que o Senhor do Olimpo fez desabar sobre a Terra para punir os humanos.


PROMETEU  E  O  FOGO
Tentando intermediar uma reunião entre Zeus e os humanos, a quem o primeiro queria exterminar, Prometeu agiu incorretamente, enchendo o coração de Zeus de cólera, como diz o texto poético em que se narra a história. O castigo veio logo. O Senhor do Olimpo resolveu privar a humanidade do fogo, simbolicamente da inteligência (nous), imbecilizando-a. Retirado o precioso elemento, os homens voltariam a ser animais, tendo que viver de novo amedrontados no fundo das grutas ou empoleirados no alto das árvores.

Prometeu procurou remediar a situação. Foi aos céus e roubou uma centelha do fogo celeste, administrado por Hélio, deus solar. Ocultou-a na haste oca de uma figueira e com ela, vindo para a Terra, entregou-a aos homens,  “reanimando-os”. A punição divina veio logo, contra Prometeu e os seus protegidos. Zeus imaginou uma grande e complicada trama para fazer com que os humanos se perdessem para sempre por meio de uma mulher, a irresistível Pandora. Com relação a Prometeu, foi ele aprisionado pelo deus Hefesto nas montanhas do Cáucaso, tarefa cumprida com o auxílio da equipe de segurança do próprio Zeus, formada por dois monstruosos assessores, Crato (O Poder) e Bia (A Força), que sempre o acompanhavam. Agrilhoado nas montanhas, Prometeu tinha o seu fígado diariamente devorado pelo famigerado Abutre, filho dos maiores monstros da mitologia grega, Tifon e Équidna. Para maior desespero do titã, o fígado se recompunha à noite, quando o Abutre se afastava. Na manhã seguinte, tudo recomeçava. Zeus jurara, pelas águas do rio Estige, segundo a sociedade olímpica testemunhara, que jamais libertaria seu primo daquele castigo. 


JARDIM   DAS   HESPÉRIDES
Ao voltar do oriente, quando andava à procura do Jardim das Hespérides, onde estavam os pomos de ouro (seu terceiro trabalho), Hércules ouviu os gritos do titã. Aproximou-se e, horrorizado com cena, matou o Abutre a flechadas, libertando Prometeu. Dotado de dons divinatórios, Prometeu revelou a Hércules como, através do gigante Atlas, poderia apossar-se dos pomos de ouro. Do mesmo modo, preveniu Deucalião sobre as intenções de Zeus, que desejava aniquilar a humanidade, revelando a este de que modo ele e Pirra poderiam escapar. Os gregos, em homenagem a Hércules e a Prometeu, colocaram nos céus a flecha com que Hércules libertou o titã, dando-lhe o nome de Sagitta.


EROS  ( RAFFAELLO   SANZIO - 1483 - 1520 )

Uma terceira versão nos informa que Sagitta tem a ver com as flechas que Eros,  o mais belos dos imortais segundo Hesíodo, disparava para promover a união dos deuses e dos seres humanos. Eros é a divindade que transtorna o juízo dos deuses e dos mortais, ao fazer com que se unam, independentemente da sua vontade. O mito de Eros foi se fixando ao longo dos séculos principalmente através da poesia. Passou ele a ser representado  como um adolescente mal saído da infância, aloirado, com asas. Sob essa máscara, inocente e travesso, jamais chegou Eros à idade da razão, esta sempre incompatível com o amor. Para muitos, é o mais perigoso dos deuses, sempre pronto a ferir os incautos com as suas certeiras flechas, envenenadas de paixão.

Irresponsável e inconsequente, Eros diverte-se com os deuses e com as pessoas que fere. Sua panóplia é normalmente composta de
EROS  ( PICCADILLY  CIRCUS , LONDRES )
tochas, da lira, da aljava, do arco, de flechas com pontas de ouro e de chumbo e de uma venda que usa para cobrir os olhos (o amor é cego) ao dispará-las. Carrega nas mãos um globo terrestre, emblema do seu poder universal. Eros é, como tal, pulsão fundamental do ser, força que mantém a  coesão interna do universo ao promover o complexio oppositorum, a união dos opostos. Neste sentido, se opõe a Thanatos, deus da morte, a força que desintegra.

Eros era companheiro de Hipnos (o merecido descanso depois das
POTHOS
lides amorosas), deus do sono, embora muitas vezes entrassem em conflito, não permitindo Eros que este atuasse, pois abrasados de paixão os parceiros por ele envolvidos não dormem.  Às vezes, Pothos, o deus da saudade, também lhe facilitava o trabalho, ao não permitir que Hipnos, o deus do sono, atuasse, pois saudosos também não dormimos. Quando vem com a lira nas mãos, Eros transtorna os corações e a inteligência. Simbolicamente, os gregos colocaram nos céus como Sagitta as flechas envenenadas que a atrevida divindade dispara.

Uma quarta versão, defendida por Eratosthenes, nos informa que Sagitta foi parar nos céus como lembrança de um feito de Apolo relacionado com a morte de seu filho Asclépio. Antigo discípulo do
ERATOSTHENES
centauro Kiron, Asclépio, como deus-médico, progrediu tanto na arte médica que chegava a ressuscitar os mortos. Plutão queixou-se a Zeus, alegando que a persistir Asclépio nessa prática ninguém, isto é, alma alguma, baixaria mais ao seu reino, o Hades. Zeus atendeu o irmão e fulminou Asclépio com a sua mais poderosa arma, o raio. Irritadíssimo, em represália, Apolo liquidou a flechadas os  gigantescos Cíclopes, que haviam fornecido a Zeus as armas com as quais ele se assenhoreara do universo, destruindo os seus adversários. 


A flecha é arma que fere de longe, sendo expressão, segundo a Psicanálise, de um “sadismo fálico”. Presente em todas as culturas, a flecha tanto se associa aos raios do Sol como à caça e, portanto,
KAMA
à morte. Para as flechas, não passamos de alvos. Elas nos colocam numa situação passiva. Os hindus veem na constelação de Sagitta tanto as flechas do deus Rudra como as do deus Kama. O primeiro era uma divindade ligada às tempestades, enviando flechas que traziam doenças; sob seu aspecto benevolente, com o nome de Shankara, envia doces raios. Kama, como sabemos, é o equivalente hindu do Eros, deus do prazer. Os egípcios tinham uma deusa representada com um cabeça de leoa, Sekmet, associada aos tórridos ventos do deserto, que enviava flechas que atravessam os corações.     


SÃO SEBASTIÃO
( BOTTICELLI )


No Cristianismo, dentre os santos que têm relação com flechas, encontramos são Sebastião, o mais ligado ao tema. Sabemos que ele foi transpassado por inúmeras flechas disparadas por seu antigos companheiros das legiões romanas quando descobriram que ele se convertera. A história nos conta que os arqueiros o deram como morto, mas seus ferimentos foram curados pela viúva de outro mártir, são Castulo. Sabedor do fato, o imperador Diocleciano ordenou que Sebastião fosse surrado até morrer. O emblema de são Sebastião é a flecha. 


Os astrólogos cristãos da Idade Média, todavia, não viram flechas em Sagitta, mas, sim, cravos, que lembravam para eles a crucificação de Cristo. Conforme a imagística cristã, foram usados três cravos na crucificação, um para os pés cruzados e um para cada uma das mãos (pulsos). Estes cravos, desde o fim da
ARMA   CHRISTI
baixa Idade Média, passaram a fazer parte daquilo que no período barroco tomou o nome de Arma Christi, o conjunto de objetos ligados ao sofrimento de Cristo e à sua morte na cruz. Estes instrumentos eram considerados poderosas armas para combater o pecado e extirpar da alma humana todas as raízes do mal pela sua simples contemplação. Além dos cravos, faziam parte das Arma Christi a própria cruz, o martelo, a tenaz, o chicote, a lança, um bastão guarnecido de uma esponja na sua extremidade, a coroa de espinhos e uma mão, que esbofeteara Jesus no curso de sua paixão. As Arma Christi, no século XVIII, eram presas como berloques a rosários com a finalidade de lembrar o caminho de Cristo em direção da cruz.


CRAVO
A flor do craveiro, o cravo, é um símbolo botânico das peças metálicas, grandes pregos com cabeça quadrangular, usadas na crucificação de Cristo. O nome, devido à forma que tem, se estendeu ao botão da flor do craveiro-da-Índia, seco ao Sol, mundialmente usado como condimento e do qual se extrai um óleo riquíssimo, muito usado em farmácia, perfumaria e odontologia. 




A constelação Sagitta estende-se de 17º de Capricórnio a 9º de Aquário, não se mencionando em particular nenhuma estrela que a compõe. Ptolomeu viu nela influências saturninas e venusianas, estas bem mais moderadas. A tradição astrológica praticamente a desconsidera.





SERPENS deve seu nome à mitologia grega, a única tradição que parece tê-la estudado. Esta constelação é registrada por Ptolomeu, que lhe dá o nome de “A Serpente do Portador da Serpente”, uma clara referência a Hércules e ao episódio da sua vida, na infância, quando segurou e esmigalhou as serpentes que Hera havia enviado para matá-lo. Serpens tem nos céus uma configuração linear, ereta, da metade para cima, como se alguém a estivesse agarrando e impedindo os seus naturais movimentos. 





Outra tradição, porém, entende que Serpens tem a ver com Glauco, filho de Minos e de Pasífae, reis de Creta. Ainda menino, Glauco,
CURETES
ao perseguir um rato, caiu num tonel de mel e se afogou. Minos procurou desesperadamente alguém que pudesse trazer de novo o menino à vida. Em Creta, vivia uma tribo de demônios guerreiros, os Curetes, que haviam protegido Zeus recém-nascido e que, possuindo poderes mágicos, tinham o dom da adivinhação. Eles revelaram a Minos que havia dentre todos os sábios e magos da ilha um que teria esse poder. Minos reuniu todos os indicados pelos Curetes, não só de Creta como de toda a Grécia. Disseram também os Curetes que o homem que ressuscitaria Glauco deveria saber explicar porque  uma vaca do rebanho real mudava de cor três vezes ao dia. De branca passava a vermelha e de vermelha a preta, recomeçando o ciclo no dia seguinte. 

Reunida a assembleia de sábios e magos, feita a pergunta, e depois de muitos tentarem explicar a questão lançada, quando as esperanças estavam quase perdidas, apresentou-se Poliídio (em grego, o que tem muitas características, formas). Por parte do pai, Cérano, Poliídio, nascido em Corinto, descendia de Melampo (o de pés negros), um dos maiores adivinhos (mantis) da Grécia, famoso porque era capaz de interpretar os sons produzidos pelas aves e
AMORAS
pelos animais. Além do mais, Poliídio era profundo conhecedor de ervas mágicas e medicinais e, como médico, purificava os doentes e lhes restituía a saúde. Poliídio tomou a palavra e disse que a vaca em questão era como a amoreira, cujo fruto de branco passa a vermelho e, quando maduro, fica preto. 

Minos, muito contente com a explicação, pediu-lhe então que ressuscitasse o filho. Poliídio fechou-se com o menino numa sala do palácio quando viu uma serpente se aproximar do corpo inerte do menino. Incontinente, matou-a. Logo, porém, uma outra serpente se aproximou daquela que Poliídio matara. Vendo-a, retirou-se prontamente, mas logo retornou com uma erva presa na boca. Esfregando-a com a boca, de onde saía uma secreção parecida saliva, na serpente morta, logo a viu se reanimar, retornando à vida. Poliídio apossou-se da erva mágica e esfregando-a no corpo do menino o ressuscitou. Minos ordenou a Poliídio que ensinasse ao filho a arte de ressuscitar os mortos antes de voltar à Grécia. Poliídio, sob a pressão real, assim o fez, mas no momento em que estava para embarcar de volta ao seu país, chamou o jovem discípulo e, cuspindo-lhe na boca, retirou o poder mágico que lhe havia transmitido.  

A amora, como sabemos, em muitas tradições é um fruto ligado à imortalidade. No oriente, tem relação com o equinócio da
OLIVEIRA
primavera. Por isso, nos palácios, ao lado dos portões que se abrem na direção do leste (oriente), plantam-se oliveiras para simbolizar o ciclo vital como um eterno retorno. Ovídio, o grande poeta latino, nos conta que os frutos da amoreira eram primitivamente brancos, mas se tornaram vermelhos e depois negros quando dois amantes famosos, Píramo e Thisbe, que se encontravam sempre à sombra de amoreiras, no auge da paixão, se suicidaram.



THISBE   E   PÍRAMO

Há várias versões sobre a história dos dois amantes. A mais aceitável é a de que eles encontravam forte resistência familiar para proclamar a sua paixão. Encontravam-se às escondidas. Grávida, muito infeliz, cheia de temores, Thisbe se enforcou. Encontrando-a, Píramo, diante do cadáver da amante, se suicidou com um punhal. Tudo isto aconteceu diante de amoreiras, até então brancas, que se tornaram vermelhas à vista de tanto sangue derramado. Compadecidos, os deuses transformaram Thisbe numa fonte e Píramo num rio, misturando-se assim as águas de ambos. 

No mundo cristão europeu (povos de língua inglesa), há uma tradição que faz da amora um fruto maldito, pois Satan, quando expulso do céu pelo arcanjo Miguel, teria caído na Terra sobre uma

amoreira, amaldiçoando-a. Isto teria acontecido num determinado dia, fixado depois em 11 de Outubro. Nesta data é também celebrada uma festa, Old Michaelmas Day. Segundo a lenda, amoras não devem ser colhidas nesse dia, por sua ligação com Satan e, naturalmente, com a serpente, um dos seus maiores símbolos. A referida festa é também conhecida como a Festa dos Santos Miguel, Gabriel, Uriel e Rafael ou Festa dos Arcanjos. 
                                                              
Curiosidade: BlackBerry (amora, baga negra) é o nome de uma empresa canadense que desde a década de 1990 fabrica equipamentos de telecomunicações. Os aparelhos BlackBerry, em Outubro de 2011, em todo o mundo, sofreram uma pane (a maior já registrada, talvez) que, praticamente, interrompeu as comunicações entre os mercados mundiais, afetando demais as transações de todas as Bolsas de Valores. O nome BlackBerry está ligado também a uma síndrome a que, dentre outros nomes, os norte-americanos denominam de BlackBerry Thumb Syndrome, um neologismo criado para designar males físicos (polegar) causados por gestos repetitivos (pressão de botões ou teclas) que podem afetar a mão e o pulso. 

ILUSTRAÇÃO   MEDIEVAL
Serpens estende-se de 13º Escorpião a 15º de Capricórnio, tendo suas estrelas, segundo Ptolomeu, a natureza de Saturno e de Marte. A principal estrela de Serpens é Ununkalhai (Unk al Hayya, o pescoço da serpente), a 21º de Escorpião, também conhecida como Cor Serpentis. De um modo geral, esta estrela dificulta relações, há risco de intrigas, problemas na vida doméstica, saúde física e mental afetadas. 






TRIANGULUM é uma das poucas constelações cujo desenho
PHAENOMENA
reproduz um objeto inanimado. A mais antiga referência a ela, entre os gregos, parece ser de Aratos, em sua obra Phaenomena (As Coisas que Aparecem). Poeta do período helenístico da história grega, tendo vivido em Pella, capital da Macedônia, Aratos se interessou por temas astronômicos e médicos. Ele registrou essa pequena constelação, ao sul de Andrômeda, às margens da Via Láctea, sob o nome pelo qual era então conhecida, Deltoton, tendo por base a letra 
d, delta dos gregos. 

Inicialmente representada a constelação por uma forma triangular equilátera, tomou ela depois a forma escalena. Para Hiparco e Ptolomeu, a denominação foi a de Trigonon. Os romanos deram-lhe o nome de Deltorum. Os astrólogos judeus chamaram-na Shalish, a partir da forma de um antigo instrumento musical com três cordas, de forma triangular, mencionado no Livro de Samuel. No século XVII, entretanto, alguns astrônomos, associando-a ao Egito, à foz rio Nilo, passaram a chamá-la de Nili Domum. 


SICÍLIA
No século XVIII, por sua forma triangular, semelhante à da ilha da Sicília, esta constelação recebeu também o nome grego de Trinakria (três pontas). Conforme está na Odisseia, a Trinakria era do deus Hélios, cujos rebanhos eram lá apascentados por suas filhas. Com a perda de status de Hélio, divindade não olímpica, a ilha foi dada por Zeus a Deméter, Ceres para os romanos. 

GIUSEPPE   PIAZZI
Foi na Sicília, no século XVIII, que o grande astrônomo Giuseppe Piazzi, apoiado pelo rei Ferdinando de Nápoles, da dinastia dos Bourbon, no observatório de Palermo, por ele construído, descobriu, no primeiro dia do ano do novo século (1º de janeiro de 1.801) o asteroide ao qual se deu o nome de Ceres Ferdinandea
OBSERVATÓRIO  DE  PALERMO
(este último nome, por pressão da comunidade científica europeia, foi retirado, chamando-se simplesmente, desde então, o maior asteroide até hoje descoberto de Ceres). Astrologicamente,  Ceres, como se sabe, juntamente com Vesta, o segundo maior asteroide do céu, descoberto em 1807, são corregentes do signo de Virgem.   

TRIANGULUM
A principal estrela de Triangulum tem o nome de Caput Trianguli, cuja magnitude, inferior à da estrela beta, é de 3.6, não tendo ela nenhuma importância astrológica. Essa estrela foi chamada pelos árabes pelo nome de Ras al Muthallath O renome de que gozou esta constelação se deve sobretudo a poetas, arquitetos, matemáticos, geômetras e construtores pela semelhança que sua forma apresenta com a foz do rio Nilo e com a ilha da Sicília.  











quarta-feira, 22 de julho de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (5)

                       
Para as pessoas de mentalidade literal, é preciso ressaltar que os antigos gregos nunca consideraram as histórias de sua mitologia como fantasiosas, irreverentes ou estapafúrdias. Os mitos, para os gregos, sempre traduziram sob uma forma poética, metafórica, simbólica ou alegórica, e construídos com absoluta maestria técnica sob o ponto de vista literário, os sentimentos e as emoções que eles experimentaram diante dos grandes mistérios do universo.



TITANOMAQUIA  ( CORNELIS  VAN  HAARLEN )

As várias provas pelas quais os seus heróis passaram ao longo de sua vida nunca deixaram também de ilustrar aquilo que eles chamavam de dokimasia, provas iniciáticas, preparatórias, às quais os seus jovens tinham que se submeter. Uma demonstração de que estavam aptos para enfrentar tarefas mais difíceis, os grandes embates da vida, na proporção humana, como as descritas nos episódios da Titanomaquia e da Gigantomaquia. A dokimasia, a rigor, na sociedade grega, era um exame ao qual deviam se submeter os candidatos a determinadas funções (magistratura e cavalaria) bem como os estrangeiros que pretendessem se naturalizar. Este exame era aplicado sob a supervisão dos chamados thesmotetes (arcontes) diante de uma assembleia ou tribunal. Mesmo Zeus se submeteu a provas semelhantes para assumir a posição de o maior dos deuses. 


ZEUS,  CÉRBERO  E  A  ÁGUIA

As lutas que Zeus travou contra os titãs e contra os gigantes ilustram o inconformismo das forças primordiais, constitutivas do universo, cegas e violentas, que precisam ser constantemente vigiadas e constrangidas a se manter dentro de seus limites. É dentro desse cenário que Zeus é uma espécie de reorganizador e recriador do universo. Se interpretarmos o que significa astrologicamente este papel de Zeus, podemos entender porque Júpiter, numa carta astral, não exerce uma função criadora, mas, sim, uma função disciplinadora, redistribuidora, reorganizadora, ao recolocar, se dignificado, a criação numa ordem superior.

Vencido momentaneamente Tifon e notando que os humanos tornavam-se cada vez mais perversos, Zeus alimentou o forte desejo de destruí-los. Para Zeus, os mortais, oriundos do reino de seu pai, criados, segundo Hesíodo, com o limo da terra por Prometeu, eram seres nascidos para o efêmero, pois sua força vital (aion) era precária; colados à terra, rastejavam, alimentavam-se de coisas putrescíveis, vivendo no cuidado e na preocupação. Os deuses vivem no Olimpo, nas alturas, onde as estações não existem, onde o tempo não muda. Os deuses são athanatoi, aiegennetai, imortais e nascidos para sempre. Além disso, são akedees, isentos de preocupação, e eternamente makares, felizes.

Como benfeitor da humanidade, Prometeu resolveu intervir quando Zeus começou a tramar a destruição dos humanos. Para resolver a questão, organizou-se uma reunião entre deuses e mortais na cidade de Mecone, tendo Prometeu assumido a defesa de suas criaturas. Seu desempenho nessa reunião foi, entretanto, lamentável, pois pretendeu enganar os deuses em benefício dos mortais. Para o banquete programado, dividira-se um boi enorme em duas partes; a primeira continha as carnes e as entranhas, cobertas com o couro do animal; a segunda, apenas ossos, disfarçados com a gordura. Zeus escolheria uma das partes, cabendo a outra aos humanos. Zeus optou pela segunda parte. Sentindo-se humilhado, encheu-se de cólera. A punição foi imediata: privou os humanos do fogo, o que equivalia fazê-los voltar à animalidade. A privação do fogo significava também retirar dos humanos o nous, a inteligência, a capacidade de conhecer os eide, as formas, tornando-os anoetos, imbecis.


PROMETEU   ROUBA   O   FOGO   DOS   CÉUS

Prometeu roubou uma centelha do deus Hélio, o Sol, ocultando-a no galho oco de uma figueira, e a trouxe para a Terra, distribuindo-a entre os mortais. Zeus revidou, e resolveu fazer com que os mortais se perdessem para sempre. Até esse momento andróginos, os mortais foram então separados em macho e fêmea, usando Zeus para modelo desta última uma figura por ele idealizada, Pandora (etimologicamente, presente de todos), de cuja confecção participaram todos os deuses. O fogo trazido dos céus por Prometeu ficou com os mortais, mas, desde então, implantou-se entre eles a divisão. 


PANDORA    ( JOHN   WILLIAM   WATERHOUSE )

Pelo seu crime, sob o ponto de vista divino, Prometeu foi punido. Mandou Zeus acorrentá-lo nas montanhas do Cáucaso, missão cumprida por Hefesto, devidamente assessorado por Crato, o Poder, e Bia, a Força. Durante o dia, o fígado do titã era roído por um monstruoso abutre, filho de Tifon e de Équidna, recompondo-se durante a noite, quando a gigantesca ave se afastava, recomeçando-se tudo a cada aurora. Mais tarde, séculos e séculos depois, Zeus aceitou a libertação do titã, mas o obrigou a carregar para sempre nos tornozelos uma argola confeccionada com o aço da corrente que o agrilhoou, preso a ela um fragmento da rocha no qual ela fora fixada.

Dotado de dons divinatórios, Prometeu (o previdente, etimologicamente) tornou-se para os humanos o símbolo da filantropia. Do século XVIII em diante, principalmente a partir do
PROMETEU - BEETHOVEN
Renascimento e depois no Romantismo, para a poesia (Voltaire, Schelegel, Herder, Byron), para as artes plásticas (Ticiano, Rubens, Böcklin) e para a música (Beethoven, Liszt, Orff), Prometeu passou a simbolizar a revolta do pensador criativo, do técnico, do inovador, contra as forças do destino que o querem esmagar. Do ponto de vista dos deuses, porém, o titã sempre foi considerado um criminoso. Para os humanos, um herói, chamado pelo apelido de o Filantropíssimo. Prometeu é hoje o patrono da civilização moderna que deseja desvendar todos os segredos do universo com base no seu prodigioso poder criador técnico, em cuja origem está o fogo, para o qual nenhum limite pode ser admitido.


Os tempos se passaram. O desgosto de Zeus com relação aos mortais crescia. Os vícios e os crimes dos heróis da Idade do Bronze pareciam ter chegado a limites insuportáveis. O Senhor do Olimpo desencadeou então sobre o mundo um dilúvio, chamado dilúvio de Deucalion por ter ocorrido quando este personagem, filho de Prometeu, casado com sua prima Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora, reinava na Tessália. Os homens procuraram fugir da terrível catástrofe, fugindo para lugares elevados. Mas lá também foram alcançados. Seguindo um conselho de Prometeu, Deucalião construiu uma grande embarcação, juntou nela vários animais, aos pares, e esperou que a tormenta passasse. 


DEUCALIÃO   E   PIRRA  

Ancorando a embarcação no alto do Parnaso, diminuindo a altura das águas, Deucalião e Pirra desceram e foram consultar um oráculo de Themis, milagrosamente preservado, para saber como a Terra poderia ser repovoada. O oráculo lhes deu a seguinte resposta: Saiam do templo, cubram o rosto, atem vossas cinturas e lancem para trás os ossos de vossa Mãe. Deucalião meditou por algum tempo. Entendeu que o oráculo, ao se referir à Mãe, estava falando da Mãe Terra e que seus ossos eram as pedras. Pôs-se então a lançar pedras às suas costas e notou com espanto que as lançadas por ele se transformavam em homens e que as lançadas por Pirra se transformavam em mulheres. 

Aparentemente fantasiosa, uma invenção poética, esta passagem se fundamenta entretanto em algo que parece ter sido historicamente bem real. Sabe-se que na Tessália, em remotíssimos tempos, havia um rei chamado Deucalion. Um grande terremoto atingiu a região, interferindo no curso dos  rios. No mesmo período em que ocorreu tal terremoto, a região foi assolada por chuvas torrenciais como nunca se vira antes, ficando tudo inundado. O povo da região procurou se refugiar nas montanhas. Muitos morreram, entretanto. Terminada a tormenta, os sobreviventes repovoaram a região. Tudo teve que ser reconstruído a partir do nada, das pedras. A chave da explicação da sentença do oráculo de Themis estava na palavra grega laos, que tanto designa povo como pedra. Juntando as pedras, tudo com o tempo foi reconstruído pelos homens. Perdeu-se o fato histórico, encarregando-se a tradição oral de lhe dar o viés alegórico, mítico.

O comportamento dos filhos de Deucalião e Pirra, a nova humanidade, também voltou a incomodar o Senhor do Olimpo, que resolveu fazer uma viagem à Terra para verificar pessoalmente as notícias que lhe chegavam. O que constatou foi lamentável, desapontador. Não teve outra alternativa senão a de lhes infligir duros castigos. Para isso, escolheu alguns personagens tidos como ilustres e os puniu exemplarmente, para que os demais, amedrontados, temerosos, segundo pensou, se corrigissem.


LICAON   ( HENDRIK   GOLTZIUS )

Dentre os castigados, merece destaque Licaon, rei da Ardádia. Seu grande crime: jamais prestar reverência a Zeus na sua forma de Xenios, protetor dos estrangeiros, pois matava indiscriminadamente todos aqueles que atravessassem as fronteiras do seu reino. Misturando-se entre o povo da região, um povo ingênuo que se dedicava à agricultura, Zeus, embora disfarçado de camponês, chamou a atenção pelo seu porte. Intrigado, desconfiado, Licaon mandou chamá-lo e o convidou para se hospedar no seu palácio, mas com a intenção de matá-lo, como fazia com todos os estrangeiros, conforme nos conta Ovídio. Antes, porém, Licaon tentou obter confirmação sobre a origem  do personagem (seria um deus disfarçado?) que visitava o país. Serviu-lhe, no jantar, os membros de um de seus escravos. Indignado, Zeus transformou-se numa nuvem de fogo que incendiou o palácio e transformou Licaon em lobo. 


LICANTROPIA   ( LUCAS   CRANACH  DER  ÄLTERE )

Esta história, como muitas outras, está na origem de uma antiquíssima tradição mítica de se sacrificar vítimas humanas a Zeus Lício (Lupino) na Arcádia com o objetivo de se afastar os lobos que então infestavam a região, pondo em perigo os homens e os rebanhos. A licantropia (transformação do homem em lobo), lembre-se, está atestada na antiguidade greco-romana por Heródoto, Strabon, Virgílio e outros. Sua origem sempre apareceu associada à história de Licaon, o cruel rei da Arcádia, e à magia agrícola, para se pôr termo às secas e às catástrofes naturais de toda sorte. Feito o sacrifício, Zeus então enviava as chuvas que fertilizavam os campos.  


ZEUS   ( DESENHO  DE  MAARTEN  VAN  HEEMSKERCK )

Zeus é o deus maior dos olímpicos, o organizador do universo. É dele que dependem todas as leis físicas, sociais e morais. Suas tendências negativas aparecem exatamente devido a essa irrefreável inclinação de incorporar tudo (as suas inúmeras uniões e ligações com deusas e mortais), de abranger tudo, o seu cosmocratismo, a sua natural disposição para monopolizar a autoridade e destruir tudo o que pudesse aparecer como autonomia e independência. São comuns no mito os seus rompantes de autoritarismo e a sua enorme suscetibilidade quando as reverências de que se julga merecedor não são feitas. Comuns por isso as suas explosões de cólera, as suas cenas, as cobranças quanto à vassalagem, tudo, no fundo, certamente a configurar um sentimento de inferioridade e de insegurança, que precisa das compensações do seu cerimonial, do seu culto, dos seus ritos, dos quais não abre mão.

Zeus é o grande modelo do patriarca na cultura ocidental, ainda muito poderoso apesar dos ataques que o arquétipo vem sofrendo. Na história do ser humano, quando pensamos em organizações e sociedades que se constituem para governar um país, para administrar uma empresa, mesmo para formar uma família, onde quer que haja comandante e comandados, a cultura que Zeus representa, a do grande chefe, eternamente presente e onipotente, pode e continua a aparecer arquetipicamente.  
  
É oportuno observar que muitos deuses da mitologia grega representam diferentes maneiras de comandar e de administrar, podendo servir de modelos de tipos humanos quando pensamos em administradores de empresas. Cada deus representa um determinado tipo de poder, de influência, mas nenhum como Zeus, que está acima de todos como cappo dei cappi. 

É na cultura das organizações empresariais modernas que o complexo de Zeus encontra o terreno mais propício para se desenvolver. Afora algumas das desejáveis características pessoais do Administrador-Zeus (empatia; demagogia; priorização de contactos informais, diretos, do tipo olho no olho; visitas constantes às bases etc.) o complexo só se configurará em toda a sua plenitude se  incorporar, fundamentalmente, os elementos que fazem parte da vida e do currículo do Senhor do Olimpo. 

HERMES


É preciso salientar que chefes de organizações públicas ou privadas tomados pelo completo de Zeus não podem prescindir, como temos no mito, de uma eficiente assessoria. Zeus jamais dispensou os valiosos préstimos de Hermes, deus que representa a inteligência sagaz, esperta e engenhosa. Hermes é uma peça importante, imprescindível, para que o modelo Administrador-Zeus funcione.


Deslocando-se muito rapidamente (polytropos), Hermes representa o conhecimento objetivo, recolhido de todos os cantos do universo, como também tem a ver com as múltiplas maneiras pelas quais qualquer informação pode ser recebida (subjetividade) e transformada em mensagem. Pode-se dizer que o complexo de Zeus nas suas formas mais pomposas e grandiloquentes, incorporado para ser reverenciado pelo público interno ou externo das organizações, depende sempre, do trabalho sujo (corrupção, comprar jornalistas, cronistas sociais, chantagem, suborno, apropriação de informações privilegiadas em benefício próprio, propagação de boatos desabonadores sobre inimigos ou aliados não mais úteis, eliminação de adversários etc.) do deus Hermes. É Hermes (assessoria) quem limpa a barra de Zeus para que ele ofereça sempre a sua melhor face para o mundo. Não nos esqueçamos que Zeus, divindade do espírito, da luz celeste, do reino do espírito, precisa recorrer constantemente, para firmar e consolidar as suas posições, a ações indignas, conduzidas sombriamente, mesmo criminosamente.

É Hermes, por exemplo, quem se encarrega de fazer o Administrador-Zeus usar os símbolos mais adequados à imagem a
ASSESSORIA   DE   COMUNICAÇÃO
ser projetada, é Hermes quem o faz ser sempre notícia, ser amado pelos comunicadores de jornais, TVs, revistas especializadas. Isto, como se sabe, implica o patrocínio de muitas gentilezas, almoços, jantares, ingressos para espetáculos, fins de semana em hotéis de luxo, meetings, congressos, restaurantes da moda, empréstimo de dinheiro (jamais cobrado), de apartamentos, casas de praia, fornecimento de garotas ou garotos de programa, droga etc. Uma regra de ouro da assessoria hermesiana é aquela que nos diz que, depois da cama, o melhor lugar para se conhecer uma pessoa é a mesa.



HERA  ( GUSTAV  KLIMT )
Outro elemento importante, altamente desejável, na vida do Administrador-Zeus, é que ele tenha uma esposa oficial, como Zeus tinha, apesar de todos os problemas conhecidos. A Esposa-Hera é importante para as solenidades oficiais, para as recepções, para o clube, ficando aos cuidados dela o cenário familiar, a casa ou o apartamento da cidade, a fazenda, a casa de praia,  os filhos bem educados e formados etc., etc. Deverá ser de preferência uma mulher de alta linhagem, de bela estampa, bem tratada e vestida, com sobrenome importante, bem treinada, com algum curso na Europa, que saiba se vestir bem, que não seja monoglota (falar inglês é importante), que esteja, ainda que muito superficialmente, a par do que aconteça nos circuitos artísticos oficiais.  

Faz parte do complexo de Zeus no mundo empresarial outro componente do mito. Refiro-me ao nepotismo. Zeus, no mito, sempre cultuou através de deuses mais próximos, olímpicos ou não, essa forma de criar dependências. O nepotismo é constituído por uma entourage de personagens próximos, familiares, parentes, amigos de infância, colegas de faculdade, compadres, gente conhecida e testada há muito tempo (cuidado com amizades
PAPA   ALEXANDRE   VI
recentes!). O termo nepotismo vem de nepos, nepotis, neto, em latim. O nome foi usado na Idade Média para designar os filhos ou netos dos Papas que passaram a acompanhá-los, mas evidentemente não como tal reconhecidos. Eram considerados como sobrinhos, protegidos, favoritos, "aspones" privilegiados. Um dos casos mais escandalosos de nepotismo foi protagonizado pelo Papa Alexandre VI (fa mília Bórgia, sécs. XV-XVI), que nomeou cardeais seu filho (16 anos), sobrinhos, cunhados e amigos.  



LOUIS XIV (HYACINTHE RIGAUD)
Exemplos do complexo de Zeus podem ser encontrados em muitos personagens ao longo da História. O imperador romano Otávio Augusto, Luiz XIV, o rei Sol, são bons exemplos. Nos tempos modernos, William Randolph Hearst, magnata da imprensa americana (o Cidadão Kane do filme de Orson Welles). Thomas Mann, com o seu Os Buddenbrook, e Robert Musil, com O Jovem Törless nos dão grandes exemplos. Um dos mais bem acabados modelos do complexo nós o encontramos na biografia de David Selznick, grande figura do cinema americano entre os anos 1920-1950. 

domingo, 10 de abril de 2011

OS GRANDES CRIMINOSOS*


A proposta religiosa e social na antiguidade grega era a de moderação, de comedimento, segundo os preceitos apolíneos. A mitologia grega nos apresenta muitas ilustrações sobre esse tema. Toda vez que aparecia uma desproporção, um exagero, para mais ou para menos, no desejo, no amor, na beleza, no prazer ou no sofrimento, uma divindade entrava em ação. Limites ultrapassados, os deuses atuavam, obrigando o que se excedeu a voltar de algum modo.
Hybris era o nome dado a essa tendência que o ser humano tinha de ultrapassar os seus limites, pondo em risco a ordem social, que devia ser um reflexo da ordem cósmica. Um duplo crime, portanto. Foi por essa razão que os gregos, personificando Hybris, a colocaram no Hades, no Jardim de Perséfone, como um espectro, dando-lhe como mãe Koros, o Desdém, a Indiferença. Junto de Hybris, acompanhando-a, sempre ameaçadora, “Hamartia”, a Violência, a expressão física da desmedida, com seus asseclas, Bia, a Força Física, e Crato, o Poder, muito requisitados por  Zeus  para  a  sua  guarda  pessoal  e  para     serviços diversos (submeter Prometeu para agrilhoá-lo às montanhas do Cáucaso).
No sentido contrário destas tendências atuava Ananke, uma força sagrada, providencial, que constrangia e obrigava o descomedido a retornar aos limites dos quais nunca deveria ter saído porque seu crime, como se disse, colocava não só em perigo a ordem social como a ordem cósmica. Já, há muito, no oráculo de Delfos, do deus Apolo, estavam gravados no seu pórtico as famosas advertências: “conhece-te a ti mesmo” e “nada em excesso”. Estas ideias, herdadas talvez da Índia (lei de causa e efeito, doutrina do karma), saíram da mitologia e, como se sabe, invadiram a filosofia pré-socrática.

A tragédia grega, por outro lado, lembremos, tinha, dentre os seus objetivos fundamentais, o de ilustrar as máximas apolíneas, como proposta pedagógica para o homem grego. Ou seja, fazer com que ele procurasse manter sempre a moderação, observando determinados limites. Se tivermos em mente que a palavra cosmos (kosmos) tem o sentido de universo visível e sua ordem, fica mais fácil entender o adjetivo cosmético, usado para qualificar a pessoa que sabia se posicionar adequadamente no seu contexto social. Rompidos os limites, os deuses puniam. Esta fatalidade poderosa está presente na tragédia grega, onde o trágico aparece precisamente marcado pela impotência das vontades humanas com relação ao destino.


ANANKE

                                                                  NÊMESIS


Ananke era chamada também de Necessidade ao se  valer  da  ação  de  muitas  divindades  como Nêmesis,
as Erínias, as Moiras, as Harpias e outras mais, que atuavam para fazer com que os limites rompidos fossem repostos. 
Estas divindades, a serviço da Ananke, controlavam tanto as ações humanas como os eventos do mundo, tudo para que a justa medida fosse observada. “Sofrer para compreender” é uma das boas frases sofocleanas nesse sentido.   O constrangimento da Ananke era exercido sobre os desejos e as ações humanas por um encadeamento inevitável de princípios e consequências, de causas e efeitos, muitas vezes confundidos como Fatalidade. Vez ou outra, porém, segundo critérios insondáveis, os deuses podiam estender a sua proteção a alguns mortais, mudando este quadro, estas relações de causa e efeito. A pergunta (nunca respondida satisfatoriamente) então se impõe: fatalismo ou liberdade? Será que sem nossa iniciativa o que nos acontece teria ocorrido? Poetas como Píndaro, na Pítica, sempre procuraram nos dizer alguma coisa sobre tudo isto.


                                         JOGOS PÍTICOS

As odes triunfais de Píndaro, reunidas sob o título de Píticas, constituem-se numa boa fonte para o estudo de como certos seres humanos, bafejados pelo divino, parecem ter escapado do determinismo anankeano. Pítico, como se sabe, tem relação com a pítia, sacerdotisa do santuário de Delfos, que revelava em transe as sentenças oraculares de Apolo, e também com os jogos (agones), competições que se realizavam nessa cidade, de quatro em quatro anos.Para Píndaro, sem o favorecimento divino, o ser humano não era nada, um perdido no mundo, um ser aphretor, athemistos e anestios, sem descendência, sem lei e sem lar. Eram dos deuses concessões como kydos (glória), time (honra pessoal), kleos (renome) e olbios (fortuna), todas se colocando na esfera do numinoso. “Numen” é gesto de cabeça que traduz assentimento. Numinoso quer dizer influenciado pelo alto, proteção advinda do poder divino. Na Odisseia, por exemplo, Homero nos descreve o olbios de Alcinoo, rei dos feácios, como riqueza, bem-estar, felicidade, algo concedido pelos deuses e desfrutado, que está tanto na posse como na sabedoria do possuidor.


Píndaro nos deixa claro que a vitória sempre era dada pela divindade:
                          
A vitória não depende dos homens./Somente a divindade outorga sucessos./ Ora eleva este ao céu, ora sua mão rebaixa aquele./ Saibas encontrar teu caminho, observando a moderação./ Seres efêmeros! que é cada um de nós?/ Que não é cada um de nós?/ O homem é o sonho de uma sombra!/ Mas quando os deuses pousam/ sobre ele um raio de sua luz/ então vivo fulgor o envolve/ e adoça-lhe a existência.


                                                                                                    HERÁCLITO

Não há nada de social ou jurídico quanto à intervenção dos deuses para que o homem possa conter a sua hybris. Toda questão se resume na necessidade de que os limites sejam respeitados. A frase é de Heráclito: O Sol não sairá dos seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão.

Aqueles que se entregam à hybris, como diz o mito, vão para o Tártaro, a última região do Hades, lugar jamais alcançado pela luz. Ficarão lá para sempre, presos às cadeiras do esquecimento, ou sujeitos a penas eternas. Nenhuma mudança, nenhuma transformação, coagulatio e mortificatio sem fim. Tortura, degradação e sofrimentos que nunca levarão a nenhum crescimento, nenhuma esperança de ressurreição. Uma punição constantemente renovada e sempre a mesma (apocatástase).

Sísifo (de sophos, sábio, inteligente) é considerado na mitologia grega como o mais astucioso dos mortais. Sua falta de escrúpulos era proporcional à sua prodigiosa inteligência. Descendente de Deucalião (sobrevivente do dilúvio), era filho de Éolo, deus dos ventos, atribuindo-se a ele a fundação da cidade de Corinto. Uniu-se por casamento a Mérope, uma das Plêiades, a menos importante, pois suas outras seis irmãs se ligaram sempre a divindades. Dois descendentes de Sísifo têm destaque no mito, Glauco e Belerofonte.


                                           GLAUCO

O primeiro é filho de Sísifo; teve uma vida complicada. Numa das versões que temos sobre ele, registra-se que bebeu água de uma fonte que conferia a imortalidade. Ninguém, porém, acreditou na história. Para confirmá-la, Glauco atirou-se ao mar, sendo transformado pelos deuses numa divindade marinha, obrigada a percorrer os oceanos da terra ininterruptamente até o final dos tempos. O marinheiro que o visse morreria no ato.

O nome Glauco deriva do grego glaukos, brilhante, entre o azul e o verde. Era-lhe dado também o nome de Pontios, quando aparecia associado a cavalos, símbolos das ondas e imagens de irrupções súbitas inconscientes que rompem uma inércia enganadora.

Belerefonte é um filho de Poseidon, mas seu pai putativo é Glauco, sendo, pois, neto de Sísifo. Foi o herói que, cavalgando o Pégaso, matou a Quimera, terrível monstro. Lutou contra as amazonas, massacrando-as, e venceu os descendentes do deus Ares na Lícia. Cheio de hybris, devido às suas façanhas, tentou escalar o Olimpo. Morreu fulminado por Zeus.

Sísifo tomou conhecimento de que o maior dos larápios, Autólico, filho do deus Hermes, havia roubado animais do seu rebanho. Indo visitá-lo, logo reconheceu os seus animais, recuperando-os. Sua visita coincidiu com o casamento de Anticleia, filha de Autólico, com o herói Laerte. Antes que este consumasse a sua união com a jovem, Autólico fez com que Sísifo se relacionasse sexualmente com ela, pois desejava um neto do “mais solerte dos mortais”, como dizia Homero. Assim aconteceu, nascendo Ulisses, grande herói da Odisseia.
A história da prisão de Sísifo no Tártaro tem início quando nosso herói teve a oportunidade ter visto Zeus, o Senhor do Olimpo, raptar Egina, a filha do deus-rio Asopo. Graças a informações negociadas que recebeu de Sísifo, Asopo conseguiu localizá-la. Como pagamento (fala-se em recompensa) ao informante (protótipo do chamado “insider” moderno), Asopo fez brotar na acrópole da cidade uma fonte que se tornaria muito famosa, a que se deu o nome de Pirene, ficando assim garantido para sempre o abastecimento da Acrocorinto. Muito célebre, Corinto era a cidade do amor, das festas e da alegria, da deusa Afrodite, onde viviam num famoso templo as suas hierodulas, as prostitutas sagradas, sacerdotisas da deusa. A título de curiosidade, lembremos que São Paulo, nos anos 50 dC, na sua Epístola aos Coríntios, estigmatizou a impudicícia da cidade.

Zeus, que tudo sabe, mandou que Thanatos, o deus da morte, fosse buscar o indiscreto Sísifo. Avisado das intenções do Senhor do Olimpo, Sísifo ordenou a Mérope, sua mulher, que não lhe fossem prestadas as honras fúnebres. Chegando ao Inferno sem que as referidas formalidades tivessem sido cumpridas, foi levado à presença de Hades e lhe contou o motivo de tamanho sacrilégio. Atribuiu a culpa à mulher; suplicante e choroso, pediu-lhe insistentemente para voltar ao mundo dos vivos, a fim de não só punir a impiedade da mulher como obrigá-la a cumprir devidamente os ritos de praxe.
Hades concordou. Uma vez em Corinto, Sísifo nunca mais se preocupou em cumprir o que prometera. Passados uns tempos, Hades pediu a intervenção de Zeus. Thanatos foi então buscá-lo de novo, arrastando-o para o mundo ctônico impiedosamente, indo o atrevido rei do Corinto diretamente, sem julgamento algum, para o Tártaro. Foi condenado a rolar uma pedra montanha acima, sempre com a esperança de um dia empurrá-la para a outra vertente, para se ver livre do tormento. Todavia, a cada dia, mal chegado ao cume, exausto, quase desfalecido, cheio de dores terríveis pelo corpo, não conseguia dar o último impulso. A pedra, escapando-lhe das mãos, rolava montanha abaixo. No dia seguinte, tudo recomeçava e se repetia.

Na língua inglesa, nos meios cultos, com base na história de Sísifo, aparece às vezes o adjetivo sisyphean (não dicionarizado) na expressão sisyphean labor para descrever um trabalho interminável, nenhum progresso obtendo o seu executante, a não ser cansaço e frustração.


Em 1942, Albert Camus publicou um ensaio filosófico Le Mythe de Sisyphe, que tem como subtítulo Essai sur l'absurde. A obra se abre com uma interrogação sobre o suicídio, que o autor recusa, em nome de uma ética da verdade. Prossegue, dizendo-nos que a vida é realmente um absurdo, um nonsense que precisamos aceitar, e que a nossa única saída será a de encontrar a felicidade em meio ao próprio absurdo. Sisypho, para Camus, é o grande símbolo condição humana.

Outro grande criminoso que se encontra no Tártaro é Tântalo (etimologicamente, o que suporta), filho de Zeus e de Plutó, uma titânida. Rei da Frígia, riquíssimo, amado pelos deuses, chegou a participar dos banquetes divinos. Unindo-se a Dione, uma atlântida, foi pai de filhos ilustres, Pélops e Níobe. Dele descendem os tantálidas, Atreu, Agamemnon e Menalau, figuras importantes do mito. Um de seus primeiros crimes foi o roubo de um animal, um cão que guardava um templo do Senhor do Olimpo na ilha de Creta. Depois, dando mostra do que viria mais tarde, raptou Ganimedes, príncipe troiano, futuro “amor” de Zeus.
Seu grande crime, porém, foi o de trair a confiança dos imortais, ao revelar os seus segredos aos mortais e ao roubar ambrósia da mesa divina quando participou de um banquete a fim de oferecer a amigos o precioso néctar, alardadeando uma familiaridade inadmissível com as divindades olímpicas. O arremate desta série criminosa ocorreu quando, num banquete que ofereceu aos deuses, para testar a onisciência deles, serviu-lhes o próprio filho, Pélops, como apetitoso manjar. Os deuses, evidentemente, logo perceberam o lhes estava sendo servido, com exceção de Deméter, a essa altura muito perturbada, devido ao rapto de Kore, sua amada filha. 

A deusa dos cereais, sem o notar, abocanhou uma espádua do jovem. Interferindo, os demais convivas divinos a alertaram. O festim terminou ali. Zeus manifestou a sua fúria. Os favores que prestara a Tântalo se transformaram em punições atrozes. Zeus ordenou que os pedaços do corpo de Pélops fossem recolhidos, levados para uma panela e cozidos de novo. Cloto, uma das Moiras, foi convocada; recolheu tudo da panela e costurou todos os pedaços.
O jovem Pélops, então, por ação divina, teve o seu corpo inteiramente reconstituído, voltando à vida e Tântalo foi lançado para sempre no Tártaro, condenado a sofrer eternamente fome e sede. Homero, Ovídio e Virgílio sempre o representaram vitimado por esse horrível suplício. Devorado por uma sede abrasadora, mergulhado até a altura do peito num lago, toda vez que se inclina para sorver água ela lhe escapa. O mesmo acontece com os saborosos frutos das árvores que tenta alcançar para saciar a sua fome. Ao estender as mãos, os galhos se afastam, ficando fora de seu alcance.

O suplício de Tântalo pode ser visto como uma eterna frustração. Exaltação e queda são os termos muito utilizados para explicar a desdita do favorito dos deuses. Perdendo a noção de até onde poderia ir, Tântalo invadiu a esfera do divino, tentando se igualar ou mesmo superar os deuses. Desejos atendidos e insatisfação são idéias que nos vêm diante dessa história. Quanto mais os deuses lhe davam, mais Tântalo queria.
Tântalo foi parar nos dicionários. Tantalizar alguém é tanto prometer e não cumprir como sofrer por coisas de impossível consecução ou obtenção. O maldito descendente de Zeus, juntamente com a sua filha, a orgulhosa e infeliz Níobe, fazem hoje também parte das tabelas da química. O tântalo é muito usado na construção de aviões, aços, filamentos de lâmpadas incandescentes, instrumentos cirúrgicos e dentários. A justificativa que os cientistas encontraram para dar o nome de Tântalo ao elemento químico de número atômico 73 foi o de que ele tem um comportamento não reativo; ou seja, está entre inúmeros reagentes e não é afetado por eles. O nióbio é um metal branco, muito raro, também usado em ligas, e que aparece na natureza sempre ligado ao pai, isto é, ao tântalo.

Não podemos esquecer que Tântalo serviu também de inspiração para uma invenção muito usada por amantes do vinho. Tântalo é o nome que se dá a um pequeno armário aberto onde ficam expostos decantadores cheios da preciosa bebida. Aparentemente à mercê de qualquer um naquela pequena vitrine, os recipientes com o vinho ficam, no entanto, travados por um mecanismo invisível. Só quem tiver a chave do armário poderá ter acesso a eles. Um suplício vê-los e não ter acesso a eles.
Um aspecto da associação de Tântalo com decantadores talvez tenha passado desapercebido pelos que criaram o referido armário. Decantar é palavra que vem do latim medieval, do mundo dos alquimistas (canthus em latim é bico de cântaro) e quer dizer separar por gravidade, deixar depositar. A palavra tomou o sentido de purificar, de tornar mais claro. Daí decantar idéias, dar-se um tempo de reflexão a fim de se ter uma visão mais clara, meditar, tempo que o infeliz filho de Éolo terá até o final dos tempos para refletir sobre os seus crimes.  Ao contrário dos inúmeros filhos de Zeus, no geral ligados ao mundo heroico, os de Poseidon são sempre gigantescos, descontrolados, imensos, a própria imagem da “hybris”. É o caso de Oto (demônio noturno, íncubo) e de Efialtes (o que assalta, pesadelo), filhos do deus dos oceanos e de Ifimedia, sua nora. Casada com Aloeu, filho de Poseidon, a moça devotava grande amor ao sogro (entrava nua diariamente no mar). Acabaram se unindo, nascendo os dois gigantes.

Aos nove anos, diz o mito, já alcançavam mais de vinte metros de altura. Quando adultos, descomunais, resolveram desafiar os imortais, escalando o Olimpo. Atacaram os deuses, tentando inverter a ordem cósmica, tranformando terras e mar. Cansado da prepotência dos dois irmãos, Zeus os fulminou. No Tártaro, foram amarrados com serpentes a uma coluna; ao lado deles, uma coruja, com pios agudíssimos, dia e noite, os impede de dormir.
Os gigantes, lembre-se, são seres que se caracterizam pela enormidade de seu tamanho e pela sua indigência mental e espiritual. São a imagem da desmedida, neles predominando a vida instintiva. Há vários tipos deles. Uns, por exemplo, são filhos de Géia e de Urano: os Hecatônquiros (Coto, Briaréu e Giges), monstros de cem braços, e os Cíclopes (Brontes, Estérope e Arges), gigantes de um só olho. Géia, quando sobre ela caiu o sangue proveniente da castração de Urano por Cronos, gerou também, sozinha, muitos gigantes (etimologicamente, os filhos da Terra). Outros são filhos de Poseidon, todos monstruosos, destrambelhados, como, além dos que aqui discutimos, Polifemo (cíclope siciliano), o gigante Crisaor, os colossais salteadores Cércion e Ciron, o antropófago Lamo, rei dos lestrigões, e Orion, o belíssimo e maldito caçador. Poderíamos ainda incluir na galeria gigantesca alguns titãs, filhos de Urano e de Géia, que formaram a primeira dinastia divina, e alguns de seus descendentes, como, por exemplo, o gigante Atlas, que foi condenado a sustentar eternamente a abóbada celeste sobre os seus ombros.Muitos dos gigantes nasceram com um pavoroso aspecto dracôntico, sempre colossais e com força praticamente invencível. Quando Zeus dividiu o poder com os seus irmãos, Poseidon e Hades, depois de ter vencido os titãs (Titanomaquia), Geia, a Grande-Mãe, irritada porque os vencidos haviam sido lançados no Tártaro pelos olímpicos, os senhores da nova ordem, instigou os gigantes para que os atacassem, inciando-se uma batalha (Gigantomaquia) tão cheia de perigos quanto a anterior.

Quando todos os gigantes, atendida a convocação de Geia, apareceram nos campos Flegreos (região vulcânica da Itália meridional, perto de Nápoles) as estrelas do céu empalideceram, Hélio retrocedeu, a Grande Ursa se fundiu com o mar, o próprio Zeus ficou aterrorizado ao vê-los e pediu socorro a todos os deuses. Estige, filha do deus Oceano, depois rio infernal, foi a primeira a acudir o Senhor do Olimpo, acompanhada de seus filhos, Nike (Vitória), Crato (Poder), Bia (Força) e Dzelos (Emulação). Agradecido por sua diligência, Zeus dispôs no ato que daquele momento em diante se tornassem inquebrantáveis os juramentos divinos feitos em nome da oceânida, o chamado privilégio do “horkos”.

PROMONTÓRIO SAGRAD - MONTE ATHOS, HOJE
Nessa batalha, distinguiram-se, dentre os gigantes, Athos (este, depois, transformado na montanha sagrada da religião grega ortodoxa), Efialtes e os Centimanos (Hecatônquiros). Para atingir o Olimpo, eles removeram várias montanhas, empilhando-as, e do seu cume começaram a lançar petardos contra a mansão olímpica, rochas, troncos de árvore inflamados, lavas incandescentes de vulcões etc. Os deuses fugiram apavorados e tomando a forma de diversos animais, conforme conta o mito, ficaram escondidos por longo tempo no Egito.

Ao que parece, Ares foi o primeiro a reagir, dando uma estocada mortal no gigante Peloro. Athena conseguiu atacar o gigante Pallas, petrificando-o com a cabeça da Medusa do seu escudo. Um oráculo havia previsto que os gigantes só seriam vencidos se pudessem contar com a colaboração de um mortal privilegiado, um heros-theos. Aconselhado por Athena, Zeus mandou chamar Hércules, que com as suas certeiras flechas conseguiu matar alguns gigantes.

HÉRCULES

No meio do fragor da batalha, muitos acontecimentos paralelos. O gigante Porfírio tentou violentar a deusa Hera, então uma adolescente, mas foi morto por Hércules e por Zeus. Um dos mais terríveis inimigos dos olímpicos foi Efialtes, que teve o seu olho esquerdo vazado por uma flecha de Apolo e seu olho direito por uma de Hércules. Athena conseguiu deter Encélado, lançando-o no Etna.

A maior parte dos gigantes sucumbiu pelas flechas ou pela clava de Hércules e devido aos raios lançados por Zeus, apesar da ação enérgica de outros deuses que participaram do combate. O fator decisivo da vitória dos olímpicos (até hoje não explicado convenientemente), que afastou decisivamente o perigo dos gigantes, pondo em fuga os remanescentes, foram, para muitos que narraram a Gigantomaquia, certos ruídos ensurdecedores produzidos pelo relinchar de um asno, animal sagrado de Dioniso, e pela trompa de Tritão, divindade marinha, filho de Poseidon. Vencidos assim, os gigantes foram enviados para o Tártaro. Do sangue deles, derramado sobre a terra, nasceu uma perversa raça humana, que Zeus aniquilou quando do dilúvio de Deucalião.
O episódio da Gigantomaquia tem um aspecto digno de destaque: os gigantes só poderiam ser vencidos pela ação conjunta de humanos e deuses. Historicamente, antes que o homem se civilizasse e que pudesse gozar dos benefícios da cultura, só os seres como os gigantes, que possuíssem grande vigor físico, sobreviveriam no mundo natural ainda não constituído totalmente como cosmos. Do ponto de vista das representações da vida subconsciente, gigantes e dragões estão intimamente ligados como imagens de estados mal diferenciados entre a bestialidade terrestre e o ser humano. A evolução da vida em direção do humano e deste em direção ao espiritual é, sem dúvida, um combate gigantesco. Os gigantes nada mais são, assim, do que símbolos das forças que no interior do homem se manifestam como tendências regressivas, prendendo-o à terra. Eles impedem o impulso evolutivo.

 Não é por outra razão que, quando golpeados, se tocam a terra, recuperam as suas forças. Alquimicamente, são os gigantes “filhos” da terra e da água, elementos passivos. Para vencê-los, temos que fazer como Hércules na sua luta contra a Hidra de Lerna (8º trabalho). Só a venceu quando a retirou do pântano (água e terra), elevando-a no ar e expondo-a à luz (elementos ativos, ar e fogo). Danaides, as filhas de Dânao, o Aquático, rei da Líbia, também há muito estão no Tártaro. Oriundas do Egito, instalaram-se em Argos, sendo pedidas em casamento por seus primos. O pai delas, Dânao, que estava rompido com o irmão, fingiu concordar com o casamento, oferecendo um grande banquete para celebrar o acontecimento. A cada filha, no entanto, ele deu um punhal, arrancando delas a solene promessa de que na primeira noite em que estivessem a sós com os maridos, seus primos, no sagrado tálamo, elas os matariam, cortando-lhes as cabeças.

Assim aconteceu. Por tão monstruoso crime, as Danaides foram condenadas a ir para o Tártaro e obrigadas a encher com água tonéis sem fundo, eternamente. Esta passagem mítica tem uma variante: a de que elas foram condenadas a transportar água em peneiras. Os gregos chamaram o crime das Danaides de genocídio, extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, de um grupo étnico ou religioso.
Platão interpreta esta história como uma entrega, por parte dos criminosos, às suas paixões, que jamais se satisfazem. Os órficos interpretaram o castigo das Danaides como a punição àqueles que, por não usarem a água convenientemente, ficam obrigados a transportá-la para sempre, mas inutilmente, como seu elemento purificador.

No Orfismo, quando depois da morte do corpo físico a alma iniciava a sua jornada em direção do Hades, em busca do “seio de Perséfone”, dois caminhos se apresentavam. O da direita era o dos justos, o da esquerda era o dos maus. Os justos, sedentos, bebiam a água da fonte da Memória, que ficava junto de um cipreste branco, símbolo paradisíaco da imortalidade, e sua água significava a lembrança da bem-aventurança.
Os maus, desviados para a esquerda, bebiam a água do rio Lethe, a fim de esquecer a existência terrena. Para escapar da reencarnação, os órficos evitavam a água desse rio. Se assim acontecesse, a rainha do Hades, os recebia, dizendo-lhe:”Ó feliz e bem-aventurado! Era homem e te tornaste um deus.”

Platão, na República e no Fedon, fala daqueles que mergulhados no lodaçal imundo hão de receber o suplício apropriado à sua degradação moral: esgotar-se-ão em inúteis esforços para encher barrís sem fundo ou para carregar água numa peneira. Aristófanes, através de Hércules, personagem de As Rãs, nos fala de alguns crimes que levam ao Tártaro: falta do dever de hospitalidade, violência contra os pais (parricidas e matricidas), perjúrio, sacrilégio etc. A todos esperando está Eurínomo, o monstruoso abutre infernal, devorador das carnes dos cadáveres inumados. É de se mencionar ainda Ésquilo, que numa tetralogia, As Egípcias, As Suplicantes, As Danaides e Amimone (drama satírico) se aproveitou do tema das infelizes filhas de Dânao.
Ixion, filho do deus Ares e de Perimele, era rei dos lápitas, um povo da Tessália. Para obter a mão de Dia, filha de Dioneu, prometeu ao pai que o cumularia de presentes, especialmente uns cavalos maravilhosos. Realizado o casamento, Dioneu foi reclamar do genro os presentes prometidos. Ixion, num acesso de raiva, sem nenhuma testemunha, matou-o, lançando o corpo num poço profundo cheio de carvões em brasa. Hipocritamente, passou a cultuar a memória do sogro em cerimônias que Dia realizava.

Historicamente, os lápitas eram selvagens e violentos, criadores de cavalos, guerreiros e mercenários. Viviam nos maciços montanhosos do norte da Grécia. Úmida e fria no inverno, muito quente no verão, a Tessália se integrou ao mito pelas histórias de muitos personagens, do deus-rio Peneu, da ninfa Filira, de Lápites (filho de Apolo), deCeneu, de Mopso e de outros, alguns inclusive participantes da expedição dos argonautas.
Descoberta, porém, não só a morte do sogro, mas muitos outros crimes por ele cometidos, Ixion, apesar da sua elevada posição, foi afastado do trono e expulso do seu reino, tornando-se um ser errante, por todos amaldoçoado, ninguém se dispondo a se aproximar dele.

Abandonado por todos, Ixion simulou estar arrependido, pondo-se a fazer sacrifícios às Eumênides, as Benfeitoras. Zeus que tudo via lá das alturas, apiedou-se de seu neto, chamando-o para o Olimpo. Mal instalado na mansão dos deuses, atacado por grande hybris, ousou ele cometer um crime muito maior do que todos os que cometera na sua vida terrena. Tentou violentar a deusa Hera, esposa imperial de Zeus, seu protetor.
Cientificado do fato por Hera, Zeus confeccionou com nuvens um simulacro de sua esposa, em tudo idêntico a ela, que recebeu o nome de Nephele (Nuvem). Ixion caiu no engodo, unindo-se sexualmente a este simulacro. Dessa união nasceram os centauros, seres híbridos, humanos na parte superior e cavalos na parte inferior de seu corpo.
Para castigar Ixion, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o imortal, e depois mandou amarrá-lo com serpentes a uma roda incandescente, a girar constantemente, lançando-o no Tártaro. Fixado nesse suplício até o final dos tempos, Ixion grita sem cessar: Honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão.

Os centauros são considerados símbolos da força bruta e das pulsões instintivas que se apoderam do homem, anulando o lado humano de sua personalidade, que não consegue dominar este lado animal. Concupiscentes, lúbricos, bestiais, comedores de carne crua, bastando um copo de vinho para embriagá-los, são a imagem da trracionalidade do ser humano.

Ao mito de Ixion não podemos deixar de acrescentar a história de seu filho Piritoo, um ser também vitimado pelas paixões como o pai, cujas aventuras fazem parte da crônica do grande herói Teseu. Impressionado pelo filho de Egeu e por suas façanhas, Piritoo passou a acompanhá-lo como uma espécie de escravo. Uma das maiores aventuras desta dupla foi a tentativa (fracassada) de rapto de Perséfone, a rainha do Inferno.
Salmoneu (etimologicamente, o que transborda), oriundo da Tessália, filho de Éolo, deus dos ventos, emigrando para a Élida, fundou a cidade de Salmona. Muito orgulhoso e descomedido, julgou que poderia se tornar um deus na terra. Uma espécie de Zeus. Mandou construir diante de seu palácio uma pista de bronze e num carro com rodas de ferro que arrastavam correntes desfilava por ela, pretendendo produzir ruídos como os trovões e chispas de fogo como os relâmpagos e raios, armas de Zeus, que lhes foram dadas pelos Cíclopes. Apesar de nada popular entre seus súditos, que o achavam ridículo, queria ser conhecido por dois epítetos de Zeus, Brontaios (Trovejante) e Astrapaios (Relampejante).



ZEUS ASTRAPAIOS


Não demorou muito para que a paciência de Zeus se esgotasse. Irritado com a idiotice do espetáculo (aliás muito repetido hoje com motocicletas e automóveis), o Senhor do Olimpo o fulminou e o enviou para o Tártaro, onde se encontra até hoje, obrigado a ouvir trovões e a ter que suportar em seu corpo descargas elétricas equivalentes a raios.Dentre as figuras mais sinistras que estão aprisionadas no Tártaro temos Títio (forte, grosso). Filho espúrio de Zeus, de um de seus inúmeros amores itinerantes (Elara), foi escondido, por ordem do pai, no interior da Terra para que sua ciumenta mulher não o descobrisse. Hera, contudo, o descobriu, a essa altura uma figura gigantesca, dracôntica .Inspirou-lhe Hera uma violenta paixão por um dos grandes amores de Zeus, Leto ou Latona, a mãe dos gêmeos Ártemis e Apolo.




Quando estava prestes a violentá-la Zeus o lançou no Tártaro. Seu suplício: ter o seu fígado devorado por duas serpentes, na fase da Lua nova. Na fase crescente, as serpentes lhe dão um descanso, reconstituindo-se o órgão. Vergílio nos conta a história de Títio na Eneida, substituindo, porém, as serpentes por um cruel abutre que lhe rói as entranhas, não permitindo descanso às fibras que sempre renascem.











                        *Ciclos de Mitologia - "Lita Projetos Culturais"