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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (1)

                            
 
GRÉCIA    ANTIGA ( PERÍODO  HOMÉRICO )
     
Grande parte do que apresento neste artigo é um resumo das ideias que há muito, muito tempo, num projeto pessoal, venho reunindo sobre a mitologia grega, desde que,  a meu pedido, em 1.949, terminado o meu curso ginasial, ganhei de presente de minha mãe, nas festas de Natal, os dois poemas de Homero, na tradução de Carlos Alberto Nunes. Com o correr dos anos, vieram depois outras traduções, outras leituras, o estudos das línguas, as viagens, o interesse por outras tradições mitológicas (a hindu principalmente), as relações delas com a literatura, o teatro, as artes plásticas, o cinema e, sobretudo, a astrologia, eis que tudo, como venho aprendendo, se ilumina mutuamente. A cada dia uma relação nova, uma descoberta. A viagem continua...   


A primeira referência que temos sobre Homero está escondida na Teogonia, no verso 39. Neste verso, Hesíodo descreve o canto das musas. Para falar dele, cria um verbo, homereusai, homenageando o poeta. Esse verbo faz referência à harmonia que há no canto das musas, como ele soa agradavelmente. Outro que assinala a presença de Homero é o poeta Callinos de Éfeso, de meados do séc. VII aC. Por essa época, Tirteu de Esparta e Mimnemene de Collophon também se referem diretamente à Ilíada. Alceu de Lesbos, contemporâneo de Sapho (fim do séc. VII aC) retoma a cena entre Zeus e Tétis do começo da Ilíada para nos falar de Homero. Mais ou menos em 600 aC, Clístenes, tirano de Siracusa, proibiu nos agones poéticos da cidade menções a poemas homéricos, declarando-os muito favoráveis aos argivos (de Argos). Um pouco antes de 520 aC, Hiparco, filho mais velho de Psístrato, tirano de Atenas, introduziu a recitação dos poemas homéricos na grande festa das Panateneias. 

PÍNDARO
No V séc. aC, aparecem sobre Homero dados mais consistentes. Além de menções, temos já muitas transcrições sobre sua poesia, algumas discutindo seus conteúdos, estilo e linguagem. Píndaro (520-445 aC), o grande poeta lírico, fala dos homéridas como cantores de palavras, rapsodos,  isto é, de versos "costurados juntos". A palavra rapsodo já circulava bastante nos meios poéticos para designar o “costureiro de versos”. A palavra rapsodo é retirada do verbo grego rhapteinv (costurar). Já o aedo, (aoídos), cantor, era sinônimo do outro. Ambos cantavam os versos dos poemas épicos. 

HOMERO
Mas quem, na realidade, foi Homero? Um neto de Ulisses?  Um velho poeta cego e lúbrico? Um ser semi-divino? Uma mulher? Onde nasceu? Na Grécia, no Egito, na Anatólia, em Roma? Teria ele existido realmente? As hipóteses são muitas. Será que os poemas que temos como sendo de sua autoria não teriam sido produzidos coletivamente, por uma corporação de poetas?   

O que temos sobre a vida de Homero está reunido, de um modo geral, em muitos textos que podemos chamar de Vidas de Homero. Se vamos aos textos mais próximos, da época romana ou bizantina, por exemplo, percebe-se que todos eles fazem referência a textos bem mais antigos, do século VII aC. e de antes. 

Para compor os seus poemas, Homero, está hoje provado, valeu-se de um dialeto literário nunca falado na Grécia. Criou praticamente uma linguagem própria, única, na história da literatura, de grande riqueza vocabular, que sempre encantou e perturbou tanto os tradutores, os especialistas, como o leitor comum, seduzindo enfim, de um modo ou de outro,  todos aqueles que de seus poemas se aproximam.


A fim de encontrar o verdadeiro Homero, ainda na antiguidade, levantou-se a hipótese de que ele poderia ter se escondido em algum personagem de seus poemas, num aedo, o mais provável.  Adotada essa linha de busca, não será preciso fazer muito esforço para “descobri-lo” na Ilíada. Agamemnon, antes de se dirigir a Troia, como  comandante dos exércitos gregos, deixou um poeta de sua corte chamado Demódoco para proteger e ajudar sua esposa, a rainha Clitemnestra, no que ela precisasse. Sabe-se que embora o poeta a tivesse aconselhado ela não resistiu ao jogo sedutor de Egisto. Enquanto Agamemnon e Menelau, seu irmão, estavam em Troia, Egisto conseguiu conquistar Clitemnestra e, com ela, tramou um plano para assassinar o seu marido, o que de fato aconteceu. 

ODISSEIA
Na Odisseia, aparece também um poeta-cantor de mesmo nome, Demódoco, considerado um “aedo divino”. Como está no poema, os deuses fizeram dele um ser que a todos seduzia com o seu canto. Demódoco alegrou os feácios, que haviam acolhido Ulisses, na corte do seu rei Alcinoo. As musas privaram-no da visão, mas lhe haviam concedido o dom de cantar divinamente. O nome Demódoco vem de duas palavras gregas: demos (povo) e dekhesthai (o que ajuda ao cantar, o que torna as coisas melhores quando canta).

Buscando um pouco mais, é possível, seguindo a suposição acima levantada de que Homero teria se escondido em algum personagem), descobrir que,  na Odisseia, Ulisses, como rei de Ítaca, mantinha também um poeta-cantor, de nome Phemios, que aparece na Ilíada. O nome Phemios, etimologicamente, se liga a ideias de normalidade, de lei divina ou lei moral, costume, vontade dos deuses. Era Phemios um poeta lírico que alegrava os banquetes. Na Odisseia, sua audiência era formada, em grande parte, pelos pretendentes de Penélope, quase todos oriundos da aristocracia de Ítaca e de reinos próximos. 


PRETENDENTES   DE   PENÉLOPE
( JOHN  WILLIAM  WATERHOUSE  ,  1849 - 1917

No poema, quando Phemios distraía a sua plateia, Penélope o interrompeu, achando o seu canto muito triste. Telêmaco interveio, tomando a defesa do poeta, repreendendo a mãe, dizendo-lhe que os presentes não poderiam querer mal ao poeta-cantor, que a todos encantava com a sua arte, ainda que a história narrasse o triste destino dos heróis gregos.


ULISSES   ATACA   PRETENDENTES   DE   PENÉLOPE

Quando Ulisses e seu filho Telêmaco começaram a atacar os pretendentes de Penélope e os maus servidores de seu palácio, Phemios e o arauto Medon foram livrados da morte, pedindo Ulisses que o primeiro, Phemios, entoasse cantigas de noivado para dissimular os gritos dos que ele e o filho matavam. Medon, esclareça-se, era o arauto dos pretendentes de Penélope, que tentaram  armar uma cilada para matar Telêmaco. Quando do regresso do jovem à ilha, Medon revelou o plano deles a Penélope, fracassando eles assim no seu intento. 

Por causa do destaque bastante positivo recebido pelos poetas nos dois poemas, a Ilíada e a Odisseia, ainda no mundo arcaico foi montada uma versão segundo a qual  Homero seria filho de Telêmaco e de Policasta, filha do sábio Nestor, que tantos bons conselhos prodigalizou ao filho de Ulisses. É provavelmente como um desdobramento desta versão que sai a história que faz de Homero, além de aedo, um  professor. 

HESÍODO
Com base na “simpática” defesa que Homero fez dos poetas em suas obras, levantaram-se já na antiguidade outras hipóteses sobre a sua origem. O mais importante, porém, como se notou, é que Homero abriu um caminho para que os poetas falassem um pouco de si mesmos e dos acontecimentos do tempo em que viveram. Se em Homero ainda havia um certo pudor quanto a isto, de Hesíodo em diante, com ele, Safo, Píndaro e outros, as declarações pessoais tornaram-se bem mais abertas.
OS   TRABALHOS   E   OS   DIAS
Mencione-se, por exemplo, o caso de Hesíodo, tido às vezes como cronologicamente um pouco mais jovem que Homero. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, poema dedicado a seu irmão Perses, com quem teve problemas por causa da herança familiar, insta-o a observar as virtudes do trabalho, dá-lhe conselhos morais, recomendando que ele procure sempre trilhar o caminho do bem. 


HERÓDOTO
Em algumas versões, como a de Heródoto, conhecido como o Pai da História, encontramos relatos de que Homero e Hesíodo foram contemporâneos e até aparentados, tendo ambos participado, como poetas, de agones (competições) fúnebres realizados na Eubeia, em homenagem ao seu rei, morto numa batalha, por volta de 700 aC. O próprio Hesíodo, aliás, numa passagem de Os Trabalhos e os Dias, faz referência a uma viagem que fizera à Eubeia para participar dos referidos jogos. Adianta mais Hesíodo que venceu os agones com um hino que compusera em homenagem às Musas, que alguns acreditam fazer parte do proêmio da sua Teogonia. Um depoimento de Aristófanes, encontrado na sua comédia As Rãs, faz alusão ao fato de que as competições seriam muito comuns entres poetas famosos e que aquela na qual se envolveram Homero e Hesíodo seria uma dentre muitas realizadas.

No livro II da História de Heródoto, encontramos informações de que Homero e Hesíodo haviam vivido quatrocentos anos antes dele (Heródoto) e que foram os primeiros a descrever em versos a teogonia (a origem dos deuses), a registrar a aparência
SÍTIO   ARQUEOLÓGICO   DE   DODONA
dos deuses, seus sobrenomes, as funções que exerciam, os seus cultos. Informa-nos mais Heródoto nesse item que, na sua opinião, os dois poetas foram os primeiros a abordar a história dos deuses. Parte do que relatava no referido item ele colhera quando de seus contatos com as sacerdotisas de Dodona. Quanto ao que afirmava sobre os dois poetas, nada mais fazia do que emitir a sua opinião pessoal.


Em que pesem os registros acima feitos, sobre o embate poético entre Homero e Hesíodo, o que fica de mais aceitável dessas afirmações é que desde a antiguidade procuram os estudiosos da literatura grega  destacar, opondo-os, dois grandes exemplos pelos quais a tradição poética daqueles primeiros tempos procurou os seus caminhos. Uma oposição até violenta entre dois mundos. De um lado, os príncipes guerreiros, a Grécia colonialista, invasora,  e, de outro, o mundo arcaico, agrário, fixado nos valores da terra. De um lado, com Homero, a poesia épica e, de outro, com Hesíodo, a poesia didática, gnômica. 
Com a primeira, as aventuras, os valorosos reis, a vocação marítima, a colonização, de outro, os patriarcas, a economia da terra. Economia é palavra que vem do mundo de Hesíodo, de oikos, a família, a casa, as terras, os animais e os servos, e de nomos, a lei, a ordem, o respeito, a disciplina. É por essa razão que Hesíodo denuncia os governantes, notáveis, todos, no seu entender, “comedores de propina”, corruptos e prevaricadores.  Vivendo na Beócia, região agrícola, também de criadores de animais,  na Grécia central, Hesíodo, como os seus demais habitantes era um sólido e taciturno camponês. 


HORÁCIO
Os habitantes da Beócia tinham a fama de usar mais a força física do que a inteligência. Beócio, aos poucos, tornou-se sinônimo de ignorante, simplório, boçal, ingênuo e também de pessoa pouco cultivada, indiferente às letras. O poeta latino Horácio espalhou o sentido pejorativo da palavra. Do grego, ela passou para o latim (boeotius) e chegou ao português. Os franceses, por uma questão homofônica, associaram beócio a bosse (bócio) e, daí, a crétin (cretino). O cretinismo é uma patologia (rara), causada pela diminuição da atividade tireoidiana que, ao atingir certas pessoas, afeta o seu desenvolvimento físico e intelectual.     

Para participar da questão homérica não podemos ignorar a intervenção de um outro historiador, muito importante, mas pouco citado: Éforo (405-330 aC). Ele nasceu em Cime, cidade da Eólida, Ásia Menor, e escreveu uma extensa obra histórica. Num de seus livros, Epichorium Logos, declarou-se conterrâneo de Homero. Estrabão, que não gostava de Éforo, sempre reclamou por ele gostar de citar favoravelmente em seus escritos seus conterrâneos. Estrabão considerava-o, por isso, um simples logógrafo.   

Evidentemente, ninguém duvidava da existência de Homero na antiguidade grega. Suas obras faziam parte da Paideia, do sistema de educação e de formação dos estudantes gregos, do qual faziam parte a Gramática, a Retórica, a Ginástica, a Música, a Matemática, a Geografia, a História, inclusive a Natural, e a Filosofia. Esse sistema pedagógico começou a ser montado nos tempos homéricos, atingindo a sua plenitude no período clássico da história grega. Chegaram até nós, por exemplo, para confirmar a existência desse sistema muitas imagens (relevos) nos quais se vê um jovem, numa récita de poesia, acompanhado de um músico, uma das formas então utilizadas para a transmissão da cultura. 

BIBLIOTECA   DE   ALEXANDRIA
As primeiras questões levantadas com relação à existência de Homero apareceram de modo mais consistente nos círculos literários que se juntavam em torno da Biblioteca de Alexandria, por volta do século III aC. Criada durante o período helenístico da história grega, na zona portuária de Alexandria, no Egito, a Biblioteca tinha por objetivo reunir tudo o que se fazia culturalmente na época, além de patrocinar um decidido apoio para a difusão do saber clássico grego.  

Duas figuras, Zenão e Helânico, eruditos ligados à Biblioteca, começaram a pesquisar a biografia de Homero, a partir de sua obra, levantando tudo, dentro da obra do poeta ou não, como lendas ou tradições diversas, que lhes parecessem úteis para o fim pretendido. Nesse trabalho, foram reunidas inclusive muitas biografias “regionais” de Homero encontradas em muitas cidades ou lugares que disputavam a glória de ser a terra natal do poeta: Rodes, Cólofon, Salamina, Chios, Argos, Esmirna, Cime etc. Já ao tempo desses eruditos alexandrinos, por exemplo, uma tese apresentada com boa argumentação, defendia que os dois poemas haviam sido escritos por poetas diferentes e que entre ambos haveria uma distância de mais ou menos dois séculos, tendo sido a Ilíada composta antes. Os defensores desta tese foram chamados de “separatistas”.

 Nas cidades acima mencionadas, os que as visitavam em busca do “mistério” Homero, eram recebidos por membros de famílias que se autodenominavam homéridas, descendentes diretos do poeta, que monopolizavam, por direito de sucessão, segundo afirmavam, tanto a recitação de suas obras como o ensino da arte poética na forma por ele criada. As cidades que parecem reunir as melhores possibilidades de se apresentarem com a cidade natal do poeta são Chios e Esmirna. Na primeira destacava-se a ação dos homéridas
PÍNDARO
que sempre procuraram manter os poemas na sua tradição oral. Já Esmirna se destacou por ser um importante centro cultural e linguístico com condições de dar amplo suporte a uma formação tão rica como parece ter sido a de Homero.  Os defensores de Esmirna se valeram mais tarde, para defender melhor a sua posição, do fato de nela ter nascido também Píndaro, poeta que viveu em Atenas entre 518-442 aC. 

Como não poderia deixar de acontecer, versões evemeristas também foram coletadas. O evemerismo, sabe-se, é a transformação de um fato histórico, com os seus personagens, em mito. Algumas destas versões atribuíam a Homero uma natureza semi-divina, ora dando-o como filho de um deus e de uma mortal, ora dando-o como filho de uma deusa e de um mortal. Uma das versões mais “tentadoras” era aquela que o considerava como filho da mais importante das musas, Calíope (etimologicamente, a de bela voz), que tutelava a poesia, tanto a épica como a lírica. Calíope, no mito, é  mãe de Orfeu, de Iálemo, de Himeneu e de Lino. Consta que também gerou as Sereias, as “cruéis cantoras”, e que teria sido professora de canto de Aquiles. 


ULISSES  E  AS  SEREIAS , 1891 ( JOHN WILSON WATERHOUSE )

Dentre as muitas biografias de Homero, uma das mais citadas é a atribuída a um autor desconhecido, que recebeu o nome de Pseudo-Heródoto. Por ela e pelos textos que nela se mencionam, ficamos sabendo que Homero teria nascido 168 anos antes da guerra de Troia, o que permitiu fixar a data do seu nascimento em 1.102 aC. Embora considerada como pura ficção por muitos, um verdadeiro pasticcio, esta vida de Homero menciona alguns personagens importantes de Ítaca, como o poeta-cantor Phemios, Mentor e outros.

A grande notoriedade da biografia de Homero atribuída ao anônimo Pseudo-Heródoto se deve principalmente ao fato de nela se declarar que os fatos narrados sobre o poeta teriam sido compilados pelo historiador. Por contradições encontradas nos textos coletados, muitos historiadores desqualificam as afirmações nele contidas e declaram que o que conhecemos como obra desse Pseudo-Heródoto teria sido escrita entre os séculos III e IV dC, no período alexandrino, período em que havia um público para esse tipo de literatura.  

É nesses textos que encontramos referências sobre a viagem que Homero teria feito a Ítaca e que teria sido hóspede de Mentor, depois incluído como personagem na Odisseia. Registra-se também que, por informações desses textos, por essa época Homero já enfrentava problemas com os seus olhos. Ao deixar Ítaca, ao passar por Colophon, é que teria perdido totalmente a visão. Em Phocacea, depois de passar por Cime, foi acolhido por um pedagogo, Thestorides, em troca de recitais nos quais apresentou a Ilíada e a Odisseia. 

Os registros prosseguem e por eles ficamos sabendo que Thestorides foi para Chios e lá assumiu a autoria dos poemas homéricos. Tomando conhecimento desses fatos, Homero viajou para Chios e declarou  que o verdadeiro autor dos poemas era ele. Foi nessa ilha, continuando, que Homero teria composto a sua Batrachiomaquia (A Batalha entre as Rãs e Os Ratos), então considerado como um poema destinado às crianças. A seguir, nosso poeta teria viajado para Samos e dali, ao passar por Ios, falecera, a caminho de Atenas.

Lembre-se que na biografia do Pseudo-Heródoto estão os 17 epigramas atribuídos a Homero, também encontrados nos seus Hinos Homéricos
Para os mais interessados, registre-se que temos entre nós uma excelente edição bilíngue destes hinos, organizada por Wilson Alves Ribeiro Jr. (Fundação Editora da Unesp)



domingo, 24 de setembro de 2017

LIBRA (3)

                                           
AS  CÁRITES ( SANDRO BOTTICELLI , 1445 - 1510 )

Integram-se também à constelação de Libra as Cárites, as Graças, divindades inicialmente ligadas ao mundo vegetal e depois aparecendo sempre associadas à convivência harmoniosa entre os humanos. Kharis, em grego, significa graça exterior, beleza, encanto, boas maneiras, disposição para a convivência alegre, harmoniosa, divertimento saudável. Todas estas características encontradas tanto no mundo natural como no mundo dos humanos era delas. Nesta condição, eram as Cárites reverenciadas desde os primeiros momentos do dia. Em várias tradições mediterrâneas são registrados os seus cultos, destacando-se especialmente, por sua antiguidade, os de Creta, os jogos (agones) celebrados em sua honra, desde tempos do rei Minos. Seu mais antigo santuário estava em Orcômenos, antiga cidade da Beócia.


ORCÔMENOS  ,  ANTIGA  BEÓCIA

A beleza da variedade do mundo natural deve-se a elas, que, assim, agiam em comum com as Horas nesta área. Tinham responsabilidade direta pela suavidade primaveril, atenuando o que esta estação trazia de quente e áspero. Os poetas logo se apoderaram desta imagem, fazendo das Cárites as amigas e protetoras de tudo o que aparecia como suave, gracioso e belo. É o caso de Píndaro, gênio da poesia grega, que as considerou sempre como fonte do decoro, da pureza, da felicidade da vida diária e da boa vontade. Lembremos que palavras gregas eukharistia (ação de graças) e eukharistos (agradecido, obrigado) têm relação com as Cárites. O verbo é kharizomai, agradar, dar gosto, mais o prefixo eu, bem, bom.

Eram representadas por três jovens, nuas ou seminuas, sempre dançando, rodopiando, cantando, perto de fontes, usando uma decoração corporal e ambiental muito florida, com especial destaque para as rosas, as flores de Afrodite. Passavam grande parte do seu tempo com as Musas, perto do Olimpo. Na maior parte das versões, as Cárites passam por filhas de Zeus e de Eurínome, uma oceânida, que casada com Ofion administrava o cume nevoso do Olimpo.

CÁRITES
( C. VAN LOO , 1705-1765 ) 
As Cárites eram três: Aglaia (Brilhante, Esplêndida), Talia (Festa) e Eufrosina (Alegria da Alma). Em Atenas eram apenas duas, Kleta (a que causa impressão profunda, emitindo sons) e Phaenna (a que lampeja, a tremulante). Aglaia uniu-se a Hefesto, sendo a responsável, conforme atestado por muitas tradições, pelo elevado padrão estético das obras e peças que saíam das oficinas e forjas do deus. Palas Athena, muito desajeitada nas questões de beleza, recorreu várias vezes às Graças para suavizar o utilitarismo das suas ações e dos produtos que inspirava. O deus Hermes, muito pragmático, se valeu do conselho das Graças para aumentar a capacidade de penetração dos seus discursos.  No mais, as Cárites tanto influenciavam positivamente os trabalhos artísticos e as atividades intelectuais como participavam alegremente dos cortejos de Afrodite, Eros e Dioniso.

Na Grécia, numerosos templos e santuários mantinham com destaque as imagens dessas três divindades. Havia um festival anual que as honrava, chamado Charistesia, do qual faziam parte jogos teatrais, canto e dança. Eram também muito invocadas nos
SYRINX
banquetes e nos simpósios, sendo o primeiro brinde feito sempre em sua homenagem. Tinham como atributo a rosa, o mirtilo e os dados, como símbolos do alegre divertimento. Maçãs, vasos floridos, papoulas, espigas de trigo e instrumentos musicais (lira, flauta e syrinx) faziam parte da decoração dos ambientes em que pontificavam.     

AFRODITE   PANDÊMIA
( CHARLES  GLEYRE, 1806 - 1874 )
Entre os gregos, astrologicamente, o signo de Libra foi entregue à deusa Afrodite, aquela que veio para controlar o deus Eros, ou seja, para colocar as relações divinas e humanas numa perspectiva de reciprocidade, integrando numa justa proporção o amor sob a sua forma física, bem como o desejo e o prazer dos sentidos. O mundo grego enquadrou a deusa Afrodite em vários tipos, sendo os mais conhecidos
AFRODITE  URÂNIA , 1878
( CHRISTIAN GRIEPENKERL ) 
o “popular”, o da chamada Afrodite Pandêmia, e o “elevado”, “celeste”, o da chamada Afrodite Urânia, ou seja, a deusa como símbolo dos amores e das uniões onde podem prevalecer, respectivamente, o aspecto terrestre ou celeste da deusa. O cristianismo, lembremos, procurou construir a imagem da Virgem Maria sob a inspiração de influências egípcias e gregas, isto é, de Ísis, quanto às primeiras,  e da Afrodite Urânia e das Cárites quanto às outras.

Por fazer parte do eixo equinocial, marcando o início do outono, ao signo de Libra sempre foi atribuída grande importância. É nessa condição que ele é a porta de entrada do terceiro quadrante zodiacal, o da vida social, sucedendo o segundo quadrante, o da vida familiar, e preparando para o do coletivo, da humanidade, o quarto e último quadrante. Os hindus sempre associaram está área do Zodíaco, o terceiro quadrante, ao conceito de dharma, palavra que traduz ideias de lei, obrigação, dever e responsabilidade.


Os antigos gregos só muito tardiamente reconheceram o signo da Balança, dando-lhe a forma que tem hoje. Tal aconteceu ao tempo dos grandes astrônomos-astrólogos, Hiparco, Eratóstenes e Ptolomeu, quando, como se disse, as Pinças ou Garras de Escorpião ganharam autonomia. A elas se deu o nome grego de Zygon (Parelha), de onde saiu a palavra zigoto, usada na biologia para indicar o estágio do embrião em que os gametas masculino e feminino (esperma e óvulo) se encontram pela primeira vez no útero materno, ocorrendo então, verdadeiramente, a concepção.

Os romanos chamaram esta constelação de Jugum, palavra que traduz a ideia de algo que conecta, que enlaça, que junge, que atrela, designando ela  também uma espécie de cabresto com o qual desfilavam os prisioneiros. Outros nomes romanos da constelação eram, como se disse, Chelae (Pinças), Libra e muito raramente Noctipares. Este último era a palavra que os romanos usavam para designar pesos ou medidas de um modo geral. Alguns astrólogos gregos, lembremos, com formação mitológica, chegaram a ver na constelação de Libra o carro que levou Koré ao Hades, fazendo-se assim a ligação entre o signo de Virgem e o de Escorpião. Nas tabuinhas caldaicas, esta constelação era chamada de Zibanitu, palavra que parece significar algo como “chifres do escorpião”.

MARCUS   MANILIUS
Há uma tradição greco-romana que coloca a constelação de Libra sob a tutela de Hefesto (Vulcano), que passa por ter sido a divindade que a forjou. O defensor desta tradição é Marcus Manilius, poeta latino do primeiro século da nossa era, contemporâneo dos imperadores Augusto e Tibério, famoso autor de Astronomica, poema em cinco livros. Esta história de Hefesto como regente de Libra tem alguma justificativa mitológica se lembrarmos que Palas Atena chegou a ser considerada por muitos astrólogos gregos como a divindade regente do signo de Áries.

É no mito de Erictônio (o que provoca ruínas, o que despedaça) que encontramos a ligação entre as duas divindades acima referidas. Erictônio tem o seu nascimento ligado a um violento e incontrolável desejo de Hefesto por Palas Atena. Consta que a deusa certo dia procurou o deus metalúrgico para que ele fabricasse algumas armas de que necessitava. Ainda mal refeito do affaire Ares-Afrodite, Hefesto se inflamou quando viu a deusa virgem, tomado por um violento furor erótico. Tentou por todos meios possui-la e, embora coxo, a alcançou na corrida. Atena se defendeu bravamente, repelindo-o. No calor da refrega, entretanto, gotas do sêmen de Hefesto caíram sobre as coxas da deusa. Conseguindo se safar, depois, mais calma, segura de que não voltaria a ser atacada, Atena, horrorizada, com um floco de lã, limpou todo o esperma das suas belas pernas, jogando-o longe, no chão. No lugar em que a lã tocou a terra, uma criança dela brotou, um menino, recolhido de imediato pela deusa, que o chamou de Erictônio, o filho da terra.


GAIA   APRESENTA   ERICTÔNIO   A   PALAS   ATHENA

Sem que ninguém soubesse, nem os deuses, Palas Athena encerrou a criança numa arca, confiando a sua guarda às filhas de Cécrops, antigo fundador e rei mítico de Atenas. Apesar da recomendação de que jamais abrissem a arca, as jovens o fizeram; logo, porém, fugiram apavoradas diante da visão que tiveram: a criança era monstruosa, uma serpente da cintura para baixo. Punidas pela deusa com a loucura, as jovens princesas morreram ao se atirar da acrópole. Educado pela “mãe”, Erictônio, ao chegar à maioridade, recebeu o poder de Cécrops. A ele se deve, como rei de Atenas, a invenção da quadriga, a introdução do dinheiro na Ática e a organização das Panateneias em honra da mãe.   

HEFESTO
O mito de Erictônio une estreitamente Hefesto e Palas Atena na Ática, mais exatamente em Atenas. Homero, como sabemos, sempre exaltou Hefesto por causa de sua grande habilidade como construtor, criador, associando-o a Atena. Não é por outra razão que Platão (Critias) coloca as duas divindades compartilhando a tutela de Atenas, encontrando nelas uma conjugação de duas qualidades; de um lado, por Atena, a

philosophia (a razão guiando a força), e, de outro, por Hefesto, a philotekhnia (o amigo de todas as técnicas e artes). Ambos têm em comum também um grande pendor para tudo o que signifique artesanato, sendo divindades muito honradas pelos artesãos, que viviam no bairro do Cerâmico, onde anualmente se realizava uma grande festa (Khalkheia) em homenagem às duas divindades.

SURYA
Se pensarmos (astrologicamente) no fato de o fogo ariano ser atenuado ou controlado por Libra, talvez seja possível entender melhor esta relação entre Hefesto e Palas Athena e a de ser atribuída ao primeiro a regência do signo. Os mitos que cercam as origens de Hefesto têm, sem dúvida, suas raízes fixadas no mundo das tribos arianas. Lembremos que os primitivos povos árias reverenciavam o fogo através de três divindades.
AGNI
O fogo celeste era representado por Surya, o Sol; as suas emanações radiantes, ou seja, o fogo como intermediário entre o Sol e a Terra, tinha Indra por patrono; o fogo terrestre, o da vida doméstica, dos sacrifícios, das lareiras e das cremações, era de Agni; este último tipo de fogo podia ser preparado ou gerado pelos próprios seres humanos.  Era deste modo que no Rig Veda se faziam referências a Agni:
Tu que és o deus mais próximo de nós, vem nos socorrer, tu o nosso mais doce amigo.

Agni, na terra, podia tomar formas benéficas ou maléficas, como o fogo sacrificial no primeiro caso, promovendo a união terra-céu, ou como fogo dos incêndios, descontrolado, terrível, no segundo caso, quando destrutivamente rugia como um touro bravio ou como as ondas revoltas dos mares. Na língua sânscrita, Yavishtha, um superlativo de yuvan, jovem (juvenis, junior, em latim), é juveníssimo, ou seja, o eternamente jovem, aquele que sempre se renova, que não perde jamais a sua força, uma epiclese do deus Agni.

Chamado pelos gregos de Aphaistos (aph, água, e aistos, acender, produzir fogo), Hefesto, é o fogo celeste nascido das águas. O Hefesto grego adquire o status de artista dos deuses, atividade muito semelhante à de Agni na Índia védica, chamado, nesta condição, de Tvasthar, palavra que quer dizer artífice, o mais operoso dos deuses, criador não só de coisas inanimadas como de animais e homens. No mundo védico, havia um colégio sacerdotal que administrava os cultos relativos ao fogo como Agni, principalmente nos seus aspectos práticos, exercendo seu poder sobre o elemento ígneo como criador de riquezas, produtor de alimentos e gerador de bens temporais.

HEFESTO   E   TÉTIS
Hefesto, como sabemos, segundo uma versão mais aceita, nasceu da união legítima de Zeus e de Hera, mas, segundo Homero, uma união sem amor. Noutra versão, Hera teria gerado Hefesto sozinha em represália ao nascimento de Palas Atena, fruto de um famoso “parto cerebral” de Zeus, tipicamente ariano. Para o defeito físico de Hefesto há também duas versões. A primeira (Ilíada) nos diz que Hera, ao ver o filho coxo e
ZEUS   E   HERA
deformado, o lançou do alto do Olimpo em direção da terra. Caindo no mar, Hefesto foi recolhido por Tétis e Eurínome, divindades marinhas, que o protegeram, levando-o para uma gruta, onde fez a sua longa aprendizagem no trabalho do ferro, do bronze, dos metais e pedras preciosas. Numa outra versão, Hefesto teria nascido hígido. A causa estaria numa discussão entre Zeus e Hera a propósito de Hércules. Ao tomar o partido da mãe, Zeus, irritado, o lançou no espaço, caindo ele na ilha de Lemnos. Devido ao tombo, teria ficado manco, com os pés voltados para trás.   

Mais tarde, admitido no Olimpo, assumiu a condição de mestre do elemento ígneo e patrono de todos os que o utilizam para a produção de bens e utensílios. Para os deuses, fabricou maravilhas, armas terríveis. Temível, violento, atormentado e arrebatado, as indicações que temos nas antigas tabuinhas mesopotâmicas se ajustam porém a nosso ver, muito mais, a alguém nascido sob a influência das Pinças de Escorpião, que iriam mais tarde constituir o signo de Libra.

PALAS   ATHENA
( 1898  ,  KLIMT )
Quanto a Palas Atena, lembremos que Marcus Manilius, ao narrar a sua história, destaca os traços arianos que na deusa encontramos, desde o seu nascimento, da cabeça do pai. Zeus a “concebe” só. O momento do parto é anunciado por uma grande dor de cabeça. Hefesto é o “parteiro”. Abre a cabeça de Zeus e dali arranca a deusa, nascida adulta e armada, soltando gritos de guerra. Mal nascida, a jovem deusa guerreira pôs-se a lutar ao lado do pai e de outros deuses olímpicos no episódio da Gigantomaquia. Tanto as armas que usou como os seus sábios conselhos foram decisivos para a vitória dos olímpicos.

Outra característica ariana de Palas Atena estava no seu grande empenho em participar de competições e concursos. Citemos, dentre eles, a disputa pelo título de “a mais bela”, que teve por cenário o casamento de Peleu e de Tétis, e a disputa que travou com Poseidon, pela tutela da polis ateniense. Sua enorme vocação para ultrapassar a tudo e a todos, levou-a, por exemplo, a assumir a proteção dos lugares elevados, como a deusa das acrópoles. Se numa perspectiva idealizada é a deusa da inteligência, da prudência e da força guiada pela razão, na prática, na realidade, sua história está repleta de passagens em que se mostra rancorosa, impulsiva, violenta, amante das batalhas, das competições, traços que aproximam bastante do mundo ariano.

MARCUS   MANILIUS
Ainda segundo Marcus Manilius, em seu poema, as características do carneiro não devem ser perdidas de vista quando procuramos descrever os tipos do signo, pois o carneiro, cujo rico velo produz lã tão útil, espera renová-lo a cada vez que dela é despojado; situado sempre entre uma fortuna brilhante e uma ruína instantânea, não enriquecerá senão para perder tudo, sendo sua felicidade o prenúncio de sua queda. Nem a própria Palas Atena desdenhou trabalhar com a lã e considerou glorioso e digno o triunfo que obteve sobre Aracné.

Libra é o sétimo signo, oposto polar de Áries, e constitui, como sabemos, no zodíaco, o lugar mais distante do eu. Em qualquer circunstância ou momento em que, como indivíduos, tivermos que
VÊNUS
( BOTTICELLI , 1445 - 1510 )
iniciar um relacionamento  com outras pessoas o simbolismo do equinócio de outono e o de Libra é invocado. Há que se considerar, todavia, que o simbolismo de Libra deixa muito a desejar quando pensamos em amor. A Vênus libriana realmente não empolga; é bela, pode ter padrões estéticos refinados, é diplomática, socialmente agradável, companheira, mas falta-lhe aquilo que a Vênus taurina tem, o lado carnal, terreno, o prazer sensual, onde o erotismo sempre pode entrar, glorificado de algum modo.

Embora eu não seja um defensor da defenestração de Vênus da regência de Libra, julgo que a corregência do signo deva ser compartilhada de um modo mais definido entre ela, Vênus, Palas Atena e Hera, deusas-asteróides que começaram a ocupar o seu espaço no signo e nos assuntos da sétima casa pelo que ambas, com muita propriedade, têm a dizer. Hera, na mitologia grega, era a deusa das justas núpcias e da fidelidade conjugal, a legítima (legal) esposa do Senhor do Olimpo. É, como tal, a protetora das uniões oficiais, estendendo-se o seu domínio por isso aos partos e à educação dos filhos.  Por outro lado, Palas Atena é, sem dúvida, o lado lutador da sétima casa, o seu lado aguerrido  que, às vezes, aparece como a coação da lei, a  espada da justiça. É neste caso, que a balança e a espada se tornam inseparáveis. A primeira como símbolo do julgamento, da medida, da prudência e da medida. A outra, a espada, na sua dupla função, como destruidora da injustiça e restauradora da ordem. 


PALAS , VÊNUS , HERA (HANS VON AACHEN, 1552 - 1615)

Se pensarmos na questão da estética, Hera sempre foi vista como uma mulher de beleza majestosa, embora às vezes irascível e altiva, elegantemente vestida, cabelos impecáveis, classe na gesticulação, corpo rijo, uma presença que impunha respeito e, quem sabe, desejos eróticos mudos naqueles que a viam espetacularmente se movimentando nas reuniões olímpicas. Sendo esposa de Zeus, detinha Hera naturalmente certos atributos de soberania que lhe eram pessoais e intransferíveis, que a distinguiam muito das outras deusas. Exercia inclusive, para reforçar a soberania de sua posição, uma poderosa ação sobre alguns fenômenos atmosféricos. Era reverenciada sobretudo nas alturas celestes, lugar onde se amontoavam as nuvens, de onde vinham as chuvas benéficas, mas de onde também provinham violentas tempestades. As más línguas olímpicas diziam que as querelas entre Zeus e Hera, típicas da sétima casa, eram uma alegoria, representando as perturbações atmosféricas naturais das alturas celestes. Hera seria assim, também, a imagem da atmosfera tantas vezes carregada, agitada, escura, ameaçadora. Quanto a Zeus, se personificava o éter puro, a serenidade do firmamento, podia, muitas vezes, se manifestar através de seus três terríveis atributos, o trovão, o relâmpago e o raio.

ZEUS  E  HERA
O casamento entre Zeus e Hera foi um acontecimento que decorreu sobretudo de acordos e arranjos políticos, econômicos e sociais; uma história de poder e de lutas, como ocorre ainda hoje com muitas uniões no mundo das elites, algo bem distante de uma associação motivada por amor. A aproximação entre o amor e o casamento, na civilização ocidental, só foi feita muito tardiamente, como se sabe.  Nas classes superiores, os casamentos, como sabemos, ainda hoje, são arranjados. Por isso, embora associemos Vênus ao amor, não há dúvida de que ela se relaciona muito mais com o casamento-instituição, como aliás aconteceu com Afrodite, quando do seu casamento com Hefesto. Por uma questão de justiça, seria por isso muito mais apropriado talvez dar um poder maior a Hera sobre as questões de Libra e da sétima casa. Razão maior para isto a encontraremos se pensarmos o quanto as relações de Zeus e Hera tipificam mais adequadamente as relações “normais” da instituição chamada casamento, relações cheia de crises, arrufos, brigas, histórias de infidelidade, acessos de ciúme e vinganças.

A corregência de Palas Atena em Libra, como já foi possível deduzir do que sobre ela se falou acima, encontra a sua justificação principalmente no caso de librianos que tenham em suas cartas uma dominante fogo ou ar, isto é, mais ativos, “legalistas”, “justiceiros” (a espada a serviço da Justiça), ou que, devido ao componente aéreo, sejam mais frios, mais lógicos, menos propensos a se envolver nas confusões afetivas que o signo tradicionalmente costuma apresentar.

HÉCUBA  E  PRÍAMO  
Não podemos esquecer que os gregos sempre aproximaram do signo de Libra uma das figuras mais contraditórias de sua mitologia. Referimo-nos ao príncipe troiano Páris, também chamado Alexandre (o que repele), filho de Príamo e de Hécuba. Antes do seu nascimento, os adivinhos, consultados, anunciaram que a criança causaria um dia a destruição de Troia através do fogo. Por causa dessa predição, Príamo determinou que a criança fosse exposta, abandonada. Hécuba, porém, entregou o menino a uns pastores do monte Ida.

PÁRIS ( 1628 , VAN DYCK )
Se nos primeiros anos de sua juventude e vida adulta Páris demonstrou virtudes afirmativas que o levaram de volta ao palácio do pai, seu comportamento, depois, com a ninfa Enone foi lamentável. Com relação a Helena, então, Páris, outrora arrojado pastor, teve um comportamento pusilânime e só não morreu nas mãos de Menelau por causa da intervenção de Afrodite a seu favor. Ele, como sabemos, terminará a sua vida lamentavelmente na condição de um anti-herói, encarnando as expressões inferiores de Libra, apesar de ter sido o autor indireto da morte de Aquiles, o maior guerreiro dos gregos. 





sábado, 18 de janeiro de 2014

HÉRCULES E OS DOZE TRABALHOS


  
   
                 
 Hércules é um perseida, um descendente de Perseu, filho de Zeus (chuva de ouro) e de Danae (água), um dos maiores heróis gregos, famoso matador da monstruosa Medusa. Perseu e Andrômeda tiveram vários filhos. Dois deles são muito importantes para a história de Hércules, Alceu (a força) e Electrião a luz, o brilho). O primeiro tornou-se pai de Anfitrião (o que recebe) e o segundo de Alcmena (a forte), primos, que, unindo-se, geraram uma criança a que se deu o nome de Alcides (a força) como está explicado em nosso texto “As leituras do ciclo de Hércules”.

ZEUS E HERA
 Sob o ponto de vista divino, a história de Hércules  tem  um outro elemento: Zeus desejava um filho que tanto pudesse ajudar os imortais como os mortais, fazendo a ligação das forças terrestres com as forças celestes. Uma noite, sob os traços de Anfitrião, então ausente, Zeus chegou ao palácio. Voltava da guerra, que terminara, segundo narra a Alcmena. Ama a mulher com sofreguidão. Para tanto, chega a ordenar a Hélios, o Sol, que deixe de se levantar por três dias seguidos. Parte depois, a pretexto de resolver negócios.

Esta história foi utilizada, entre os romanos, por Plauto, autor
latino, como tema de uma de suas comédias: Anfitrião. Tendo notado Alcmena, Júpiter assume a aparência de seu marido, o general Anfitrião, que se encontrava comandando seu exército, longe da pátria. Júpiter, nessa empreitada, é auxiliado por Mercúrio, que toma a forma de Sósia, escravo de Anfitrião.

Uns dias depois, o verdadeiro Anfitrião aparece. Contou à mulher a história do término da guerra. Alcmena ficou muito
TIRÉSIAS
perturbada, mas nada falou. Desconfiado, Anfitrião foi a Tirésias, o cego, o maior adivinho da Grécia. Voltou com a notícia da gravidez da mulher. Tentou matá-la, arrastando-a para uma fogueira. Zeus, onisciente, mandou uma chuva providencial, salvando Alcmena. Depois de algumas tentativas infrutíferas de matá-la, percebendo que um poder divino atuava, perdoou a mulher. Uniu-se a ela e, por artifícios divinos, Alcmena passou a gerar então dois irmãos, gêmeos, um divino, filho de Zeus, e outro humano, filho de Anfitrião, que receberá o nome de Íficles (etimologicamente, o gloriosamente forte).

Nesse ínterim, um acontecimento no Olimpo quase pôs tudo a perder: Zeus, tomado pela deusa Até (o Erro, a que provoca distúrbios da razão), proclamara orgulhosamente numa reunião olímpica que um descendente seu, um perseida, nascido de uma virgem, seria o rei de Argos e, portanto, de toda a Grécia. Além disso, como herói, faria a ligação entre o mundo humano e o divino. Hera, tomando conhecimento do que seu boquirroto marido falara, tudo fez para impedir o nascimento do nosso futuro herói. Para tanto, enviou sua filha Ilícia, deusa dos 

MOIRAS
partos, juntamente com as Moiras, as donas do fio da vida à Terra. Hércules, contudo, acabou nascendo. Enquanto as enviadas de Hera retardavam o nascimento de Hércules, ela, Hera, havia se dirigido a Argos para fazer com que o nascimento de um outro descendente de Perseu ocorresse antes do de Hércules, a fim de que ele e não este herdasse o título de rei. Assim aconteceu, nascendo Euristeu, também neto de Perseu.

Hera passou desde então, por todos os meios, a perseguir Alcmena e seu filho Alcides, já aceito por Anfitrião. Numa noite, Hera enviou duas serpentes com veneno mortal a fim de que, picadas, as duas crianças morressem. Demonstrando já o que viria a ser mais tarde, Alcides, então um infante de poucos meses, as estrangulou com violência. Alcmena, para salvar Alcides, temendo a perseguição de Hera, resolveu expô-lo, abandonando-o numa montanha. O episódio das serpentes foi usado como tema literário, dentre outros poetas,  por Píndaro e Teócrito.

A obra de Píndaro parece ter por base uma profecia do vidente
PÍNDARO
Tirésias, que previu para Hércules um caminho grandioso ainda que cheio de provações, um caminho que o levaria à imortalidade. Muitas cidades gregas, quando invadidas e ocupadas por inimigos, usavam a imagem de Hércules estrangulando as duas serpentes como um emblema com o sentido de uma convocação à luta para a libertação de opressores. Pherecydes, escritor grego contemporâneo de Píndaro, entretanto, deu um sentido diferente ao episódio das serpentes: ele seria uma espécie de ordálio. Anfitrião, desejando saber qual dos dois filhos teria nascido dele, teria colocado a serpente no leito das crianças.     

Segundo antigas tradições, Hércules teria nascido num dia que corresponderia hoje à nossa quarta-feira. Para os antigos gregos, entre os do povo, quem nascesse nesse dia, consagrado a Hermes, ficaria preso a uma espécie de maldição, obrigando-se, enquanto vivesse, a trabalhar pelos outros.

 A criança abandonada por Alcmena dormia quando foi encontrada por duas divindades em visita à Terra. Eram Palas Athena e Hera; a primeira sabia de que se tratava enquanto a segunda de nada sabia. Sugere Athena que Hera a amamente, um subterfúgio para que, assim, a criança se tornasse inteiramente imortal. Acolhida por Hera, a criança, de um modo estabanado, 

RUBENS - A ORIGEM DA VIA LÁCTEA
 se atirou ao seio da deusa; o leite jorrou em esguichos, formando um risco luminoso no céu, dando origem à Via Láctea, a Galáxia. Hera, com o seio ferido, atirou a criança longe. As deusas continuaram o seu caminho. Palas, em seguida, voltou para resgatar o menino, tornado em parte imortal pelas gotas do leite de Hera que conseguira sugar, entregando-o de novo a Alcmena, com a promessa de que Zeus os protegeria. Nos céus, o rastro luminoso seria doravante o símbolo do caminho por onde os heróis iriam ao Olimpo. Em todas as tradições esta Via aparece como um lugar de passagem, criado pelos deuses, para unir os mundos divino e terrestre. Para maiores detalhes, veja neste blog matéria sobre a Via Láctea.

A educação dos primeiros anos de Hércules seguiu o modelo tradicional da criança grega da época. Anfitrião ensinou o menino a  conduzir carros de guerra, arte que ele aprendeu com rapidez espantosa, superando logo  em maestria seu pai terrestre. Para ensinar as letras e música aos irmãos, é convocado Lino, músico famoso e homem de letras, irmão de Orfeu. Enquanto Íficles aceitava docilmente o que Lino lhe
LYSSA
transmitia, Hércules mostrava um comportamento irritado, agressivo, indisciplinado. E tanto o mostrava que numa crise de fúria (tomado por Lyssa, a Raiva) esmigalhou a cabeça do professor com violenta pancada de uma lira. Indo a julgamento, soube defender-se tão bem que conseguiu absolvição. O que nos fica desse período, segundo informações de muitos biógrafos, é que Hércules, nessa fase de sua vida, sempre se mostrou muito interessado nas disciplinas militares e esportivas, nada querendo com as coisas do espírito, irritando-se muito quando lhe falam delas. Esta atitude ele a manteria até o fim da sua vida.


CHIRON
Anfitrião o enviou então para o campo, encarregando-o de cuidar dos seus rebanhos. Lá foi adestrado nas armas por Castor, um dos Dióscuros. Na gruta do centauro Kiron, recebeu
HÉRCULES E O CENTAURO
ensinamentos sobre as cinco grandes artes que todo herói deveria dominar: clínica, mântica, cinegética, agonística e hípica, nada tendo fixado quanto à dimensão espiritual delas. Consta que Hércules, a essa altura, com um ar selvagem, passava grande parte do seu tempo a caçar os centauros por todo o Peloponeso, inimigos que perseguiu por toda a sua vida e que, ao fim, seriam indiretamente os responsáveis pela sua morte, como se verá.  

Aos dezoito anos, é chegado o momento da efebia, isto é, teve que se submeter a determinadas provas (docimasia) para ser recebido no mundo adulto. Conforme revelam antigos textos, Hércules, quando da efebia, tinha  quase três metros de altura, ou, mais exatamente, 2,97 m. Para provar o seu valor, o jovem herói dispôs-se a matar o montruoso leão do monte Citerão, que tudo dizimava, animais e seres humanos. Apresentou-se ao rei Téspis e depois de muita perseguição conseguiu matar a fera. A caçada durou cinquenta dias. Segundo a crônica do herói registra, a cada noite, por vontade real, que cumpria de bom grado, se unia a uma das filhas de Téspis, fecundando-as todas, nascendo, então, mais tarde, os chamados tespíades, raça de descendentes do herói, que emigraram depois para a Sardenha. Tendo retirado a pele do corpo do leão de Citerão, Hércules passou a usá-la como seu emblema.


Retornando glorioso do monte Citerão, todos a falar de sua façanha ao longo dos caminhos, Hércules, ao passar por Tebas, tomou conhecimento de uma situação horrível que afligia os tebanos: a cidade pagava um pesadíssimo tributo (cem bois) a Ergino, rei de Orcômeno. O herói conseguiu desviar as águas de um rio que, inundando uma planície vizinha, provocou o afogamento de toda a de cavalaria de Ergino. Foi nesta luta que morreu Anfitrião, lutando ao lado do filho. Libertada Tebas, Creonte, o rei, resolve homenagear o herói, dando-lhe em casamento a filha, Mégara, nascendo dessa união três filhos. A Íficles, que já era pai de Iolau (a mãe era Automedusa), coube como prêmio a irmã mais nova de Mégara. Iolau terá um grande lugar na vida de Hércules, tornando-se o condutor de seu carro e seu companheiro mais próximo.  

Hera, todavia, mais uma vez resolveu perseguir o nosso herói. Possuído por Lyssa, a Raiva, enviada pela grande deusa, mata, segundo uma versão, os seus próprios filhos. Saindo da horrível crise, repudiou a mulher, forçando-a a se unir ao seu sobrinho Iolau. Tentou suicidar-se, Teseu interveio demovendo-o. Palas Athenas o mergulhou então num longo sono. Ao acordar,
APOLO
lançou-se no mar, numa tentativa de se livrar da culpa que o perseguia. Resolveu ir então em peregrinação ao oráculo de Delfos, a fim de obter de Apolo uma sentença que o ajudasse a reparar tão monstruosa falta. Apolo fala através da Pítia, determinando que ele deveria se apresentar a Euristeu, seu primo, rei de Argos que lhe ditaria uma sentença. Seriam doze anos de trabalhos, findos os quais, diante da enorme relevância das tarefas e do descomunal esforço exigido para cumpri-las, obteria a imortalidade, segundo Apolo e Palas Athena lhe prometeram.

OS  DOZE  TRABALHOS    

Matar monstros é função típica de heróis. Nenhum, porém, como Hércules. Tudo nele é incomum, seus ataques de loucura, sua força descomunal, seu excesso de vitalidade, seu lado animal. Sua figura: hirsuto, com uma pele de leão como símbolo sobre os ombros, uma clava, livre com relação ao vinho, ao amor, ao sexo, à comida e às regras sociais. Estas não eram para ele. Sua fúria e suas paixões o impediam de observá-las. Por outro lado, bem intencionado, justiceiro, exercendo sempre uma atividade libertadora e civilizadora no sentido de tornar a terra mais habitável, semeando os campos, fundando templos e cidades, instituindo jogos (na tradição dórica, de quem Hércules é patrono, o nosso herói teria fundado os jogos olímpicos no antigo santuário da Élis, no Peloponeso, para celebrar a sua vitória sobre Augias, quando do décimo primeiro trabalho, como lembra Píndaro. Veja neste blog o artigo sobre Hércules e os Jogos Olímpicos), criando oráculos, participando de rituais. Embora participe do divino, é o mais "terrestre" dos heróis gregos e, por isso, o mais popular. Essa dualidade, sempre presente na vida do herói, é ilustrada por Aristófanes e por outros filósofos e escritores da época através dos conceitos Aretê (Virtude) e Kakia (Vício), na figura de duas mulheres. A primeira está vestida de branco, tem ar modesto, pudico, lembra que só através do trabalho conseguimos alguma coisa, que o corpo tem que se submeter à inteligência. A outra tem roupas ricas, defende a luxúria, é gulosa, concupiscente, é contra qualquer esforço e controle interior.

ARETÉ - HÉRCULES - KAKIA
 Ao ingressar na senda que o levaria ao cumprimento dos doze trabalhos, Hércules, diz a tradição, diante da gigantesca tarefa que o esperava, recebeu vários presentes e conselhos dos deuses. De Palas Athena recebeu uma túnica, de Poseidon cavalos, de Hefesto um peitoral dourado para proteger seu nobre coração, de Hermes uma espada, de Hélios um carro (biga) e de Apolo o arco e as flechas, que, segundo palavras do próprio deus solar, só os saberia usar bem a partir do seu nono trabalho. Diz também a tradição que Hércules recebeu os presentes divinos, agradeceu, mas os deixou guardados num bosque próximo de Argos. Desse mesmo bosque retirou um tronco de oliveira selvagem do qual fez uma clava; era o presente que dava a si mesmo. Afastou os professores, com impaciência ouviu os conselhos, logo esquecidos, e renunciou ao nome de Alcides.     


Os doze trabalhos são as provas a que Euristeu, rei de Argos, submeteu Hércules. São doze provas principais dentro das quais encontramos vários outros episódios, considerados às vezes como secundários, mas não menos importantes. Ao todo um vastíssimo plano, cheio de labirintos, desvios, descidas, subidas, quedas, acessos, uma viagem em meio a muitas trevas para que, ao final, um novo ser possa surgir. Simbolicamente, os acontecimentos, no seu todo, representam o trânsito do Sol pelas doze constelações zodiacais, uma proposta de autotransformação,  o caminho da libertação, que nosso herói, não conseguiu.