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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - LUXÚRIA II

                               

AGONES ( CERÂMICA)
Corinto era uma cidade portuária muito rica, esplendorosa, com milhares de habitantes na antiguidade, sede de jogos (agones) famosos, em homenagem ao deus Poseidon, com dois grandes templos, um de Afrodite e outro de Apolo. Cerca de mil sacerdotisas neles trabalhavam e nos quais algumas centenas praticavam, como um serviço sagrado, a prostituição, a chamada hierodulia, literalmente, escravidão sagrada.

ACROCORINTO
A visão que os cristãos tinham de Corinto, alimentada pelas epístolas paulíneas, era a de que na cidade se praticava a idolatria e de que nos cultos de Afrodite, sobretudo no templo da deusa que ficava no topo da cidade (Acrocorinto), se incluíam ritos sexuais condenáveis. Isto significava para eles que a cidade estava dominada pela imoralidade e pela corrupção generalizada. Os cultos pagãos, como São Paulo constatou, estavam invadindo os cultos cristãos. Paulo falou muito sobre o homem natural e sobre o homem espiritual, sendo ímpio o primeiro e controlado pelo Espírito Santo o segundo. Impossível para a Igreja então nascente, qualquer contacto entre os dois.




A luxúria de Corinto, conforme Paulo observou, desvalorizava o casamento. Embora fosse considerado como instituição divina, o casamento, para Paulo,  deveria, se possível, ser evitado, mantendo-se o católico solteiro, para melhor servir a Deus, principalmente em Corinto, onde, dizia Paulo, os cultos a Afrodite eram só orgia e depravação. O que chama atenção nas diatribes de Paulo principalmente contra as mulheres pagãs é a sua severidade. Em Corinto, como se sabe, o poder feminino era muito grande, algo muito semelhante ao que se tivera em Creta, uma espécie de ginecocracia, apesar do governo da cidade ser ocupado por reis.


O que muito incomodava Paulo em Corinto é que as mulheres da cidade, a maior parte da sua população feminina, não usava véus, andava nas ruas de cabeça descoberta. A mulher, para Paulo, deveria sempre usar véus, que simbolizassem submissão ao mundo masculino, seja a um pai, a um irmão, a um marido ou a algum parente masculino na falta destes. Além do mais, as mulheres de Corinto gostavam de usar os cabelos curtos ou mesmo optavam muitas por usar a cabeça raspada, mas sempre, em qualquer circunstância,  muito bem vestidas, maquiadas, enjoiadas e perfumadas. 

ÁGAPE .
Outro grande problema para Paulo era que nos templos pagãos as refeições eram feitas em comum, em ambientes onde se comia e bebia muito, todos se confraternizando, festas que muitas vezes levavam a excessos, a desregramentos de conduta. Paulo sempre teve receio que esse clima descontraído do ágape afetasse a vida dos cristãos. Diante disso, ele afirmava que a ceia do Senhor deveria ser feita com reverência, ordem e santidade. Quando um cristão fosse convidado para fazer uma refeição na casa de um pagão deveria comer de tudo sem perguntar. Entretanto, se o anfitrião dissesse que a carne consumida era proveniente de um sacrifício a ídolos, o cristão deveria recusá-la, porque ao comê-la tal gesto poderia ser interpretado como adesão à idolatria. 


ADORAÇÃO  AFRODITE ( TIZIANO VECELLIO, C.1516 )

Quando Paulo andou por Corinto, estava em alta, nos estudos filosóficos que se ministravam em muitas cidades gregas, as teses gnósticas, que sempre valorizaram o conhecimento sobre o mundo, a natureza, a ser buscado pelo homem, como uma forma de se obter uma vida melhor. Paulo colocava diante dessa maneira de pensar a fé no reino dos Céus, uma vida no além, sobretudo. 
O gnosticismo defendia a criação do mundo por etapas, por gradação, tese muito semelhante à dos sábios védicos, o que contrariava frontalmente a ensinada pelos cristãos. Para Paulo, o conhecimento humano nunca poderia levar à santificação do homem, pois, em muitos casos, também abonava o pecado. A filosofia (grega), concluía Paulo, nunca poderia ser usada para a edificação da Igreja católica, pois jamais lhe daria firmeza. Para ilustrar o que dizia, afirmava que embora tivesse escapado do Egito, uma poderosa manifestação de Deus, o povo de Israel se perdera pelo fato de ter se deixado levar por tentações diversas.

CORTEJO   DIONISÍACO ( BAIXO RELEVO , MÁRMORE )

Dioniso era o deus da energia universal, ligado à natureza, ao mundo vegetal e animal, energia que se encontrava num perpétuo devenir, sempre se transformando, fazendo com que as formas aparecessem e desaparecessem. Como tal, era o deus das metamorfoses, das mudanças, das renovações sazonais, e, acima de tudo, mestre da fecundidade animal e humana. Era nesta condição que adquiria o nome de Faleno, simbolizado pelos animais que representavam as espécies prolíficas, como o touro e o bode. 


MISTÉRIOS DE ELÊUSIS
Socialmente, as propostas dos cultos dionisíacos falavam de libertação, do rompimento de fronteiras, da supressão de interdições, de tabus, para que a energia universal pudesse circular, renovando-se sempre. Para que isto acontecesse, nos cultos dionisíacos, cujo melhor exemplo estava nos Mistérios de Elêusis, tínhamos os ritos orgiásticos, que levavam ao êxtase (estar fora, esvaziamento interior, literalmente) e ao entusiasmo (deus em nós, literalmente). 

DIONISO
O grande dinamizador dos ritos orgiásticos de Dioniso era o vinho, uma “invenção” sua. Dioniso libertava o homem do inferno em que ele se aprisionava, de modelos de vida cristalizados. A transcendência que ele propunha falava do rompimento de inibições, de imposições sociais e político-religiosas que Apolo representava, acenando com uma regressão a estados que poderíamos chamar de primordiais para que, a partir deles, o homem pudesse partir para outras e renovadas formas de existência. O discurso cristão era totalmente contrário a tudo isto. O centro de gravidade proposto pela Igreja católica, como disse Nietzsche, era colocado fora da vida, no além. 
São Paulo incluiu  no cristianismo uma doutrina de salvação, de imortalidade da alma, e rebaixou o exemplo que poderíamos aproveitar da história de Cristo e de seus ensinamentos como vida moral. O importante para Paulo não era tanto viver de acordo com os ensinamentos de Cristo, mas, acima de tudo, aceitá-lo como salvador a fim de se garantir uma vida eterna de recompensas no paraíso. Fácil perceber que caberia à Igreja que Paulo e outros estavam a fundar a intermediação entre a morte e a paradisíaca vida eterna. A princípio um discurso para deserdados e excluídos socialmente, o cristianismo pouco a pouco foi avançando sobre as classes mais abastadas, que viram nele um poderoso instrumento de contenção daqueles, o mesmo procedimento, aliás, que a elite grega tentou adotar com relação à chegada dos cultos dionisíacos à polis grega.


DEMÉTER
A história de Dioniso, seu nascimento, vida, morte, principalmente a sua paixão (morte pelos titãs), e renascimento foi certamente aproveitada pelos primeiros padres da Igreja para estabelecer a história de Cristo. Dos Mistérios de Elêusis, tutelados por Deméter e Dioniso, saíram os dois grandes símbolos que constituem a base da eucaristia, sacramento central da Igreja católica, segundo o qual, através das palavras pronunciadas por um sacerdote oficiante, o pão (Deméter) e o vinho (Dioniso) se transubstanciam, respectivamente, no corpo e no sangue de Cristo. 

ADÃO  E  EVA
( AFRESCO MEDIEVAL )
No cristianismo primitivo, nas palavras de São Pedro, as mulheres não deveriam ornamentar-se com cabelos trançados, braceletes de ouro e roupas finas, mas com a joia imperecível de um espírito sossegado e gentil, o que é muito precioso diante de Deus. São Paulo, por sua vez, sempre defendeu que a mulher havia sido criada para benefício do homem e deveria aceitá-lo em todas as suas coisas; e que ela não deveria também ensinar na Igreja. A mulher deveria cultivar o silêncio e submeter-se docilmente à instrução masculina, pois, do contrário, repetiria o papel de Eva, aquela que induziu Adão à transgressão. 

No século XX, quando voltou a discutir a questão feminina, como o fez algumas vezes em sua história, o Vaticano declarou que a Igreja Católica Apostólica Romana não se considerava autorizada a admitir mulheres na ordenação sacerdotal. A justificativa para assim se posicionar era a de que Cristo não convocara nenhuma mulher para o seu apostolado, nem mesmo a Virgem Maria. Os sacerdotes deveriam possuir uma semelhança natural com Cristo e, se uma mulher celebrasse a missa, seria difícil ver nela a imagem de Cristo.

TERTULIANO
Muito citada, a frase de Tertuliano (sécs. II-III), cujos escritos constituem o marco inicial da teologia cristã latina, demonstra bem como os primeiros padres da Igreja julgavam a mulher: Tu és a porta do Diabo, tu consentiste na sua árvore, foste a primeira a desertar da lei divina. Não só a consideravam um ser negativo como a viam como a representante de uma tentação constante. Como tal, os homens deveriam se afastar dela, evitá-la, se quisessem se manter puros no caminho de Deus. 

Os elementos constitutivos desta visão sobre o feminino foram herdados da antiguidade e amplificados pelo cristianismo na Idade Média quando seus principais representantes consideraram a mulher uma serva de Satã e fonte de pecados, dentre os quais sobretudo a luxúria. Esta posição da Igreja vai se refletir inclusive na arte, em esculturas, poesias etc. 
BRUXA ( GOYA , 1746 - 1828 )
A estes elementos juntavam-se as discussões que apontavam a mulher como a introdutora do mal no mundo. Este discurso misógino, como se sabe, culminará com a caça às bruxas. Chama-se Malleus Maleficiarum (literalmente, O Martelo das Feiticeiras), publicado em 1487, o manual preparado pela Igreja católica para definir uma estratégia de culpabilização e de ataque à mulher. Durante 200 anos, entre os

séculos XVI e XVII, mais de dois milhões de mulheres foram mortas acusadas de bruxaria. O texto, que gerou uma incontrolável histeria coletiva, chegou a ser tão popular que, com exceção da Bíblia, se tornou no livro mais vendido da Europa. O Malleus Maleficiarum gerou uma visão tão negativa do mundo feminino que seus deletérios efeitos perduram até hoje. 

As limitações e os preconceitos que cercam a figura feminina, através de discursos religiosos, políticos e pretensamente científicos, garantiram a sua indiscutível subordinação ao mundo masculino, cujos mais notáveis efeitos estão hoje no mercado de trabalho. Com isso, vem se perpetuando, sob a égide de um controle religioso, a submissão social e política da mulher ao mundo masculino. 

A visão que a Igreja católica tem da mulher e do pecado é, ainda hoje, fortemente inspirada pela Idade Média. Compreenda-se: no mundo medieval europeu, na alta Idade Média, o cumprimento dos preceitos da Igreja católica era razoavelmente controlado, isto é, conheciam-se os pecadores, embora, os seus sacerdotes, semiletrados, se vissem, na maior parte das vezes, principalmente em cidades um pouco maiores, diante de uma extensa gama de pecados que nem em livros eram citados. 

PENITENTES ( JUAZEIRO , BAHIA )
Para orientar-se com relação aos pecados, os sacerdotes católicos valiam-se dos chamados penitenciais, catálogos de pecados e de penas expiatórias, destinados a guiá-los no exercício de seu ministério, em especial na administração da penitência. Esses catálogos tiveram grande importância quando pensamos em pecado, culpa e penitência. Em geral, os penitenciais eram obras anônimas, formados por extensas listas, com sua valorização moral e sua pena ou castigo correspondente.
Sabe-se que o pecado mais confessado durante a alta Idade Média era o da emissão seminal involuntária, que gerava uma pena de sete dias de jejum, se fosse involuntária. Se auxiliada manualmente (masturbação), vinte dias. No caso de um sacerdote que se masturbasse num lugar sagrado, a pena atingiria cerca de trinta dias, elevando-se para cinquenta no caso de bispos. 

O maior pecado cometido era a contracepção, um pecado da luxúria, ou seja, a adoção de métodos que evitassem a fecundação da mulher. Este pecado era sumamente grave se envolvessem “venenos geradores da esterilidade”, o intercurso anal ou oral (seminem in ore, sêmen na boca) ou o coitus interruptus, pecados quase tão graves quanto o do homicídio.
O jejum, quando fixado, como penitência podia ser praticado, com exceção do pão e da água, pela abstinência de alguns alimentos, da carne, por exemplo, ou de bebidas. Uma alternativa surgiu no séc. XI, quando se estabeleceu o chicoteamento do culpado pelo sacerdote paroquial, nessa penitência se incluindo o canto de salmos penitenciais. Por exemplo, um homem que tivesse uma ejaculação noturna involuntária, deveria levantar-se e entoar sete salmos. Pela manhã, ao se levantar mais trinta salmos.

SÃO  JERÔNIMO (M. CARAVAGGIO, 1571 - 1610)

O aborto com até quarenta dias da concepção (antes que o feto houvesse adquirido alma humana) era menos pecaminoso que a contracepção. Segundo São Jerônimo, as mulheres promíscuas que tomassem poções para provocar o aborto e que morressem cometiam tríplice assassinato: eram suicidas, adúlteras com relação a Cristo (seu esposo celeste) e assassinas do próprio filho por nascer. 



SODOMA , PINTURA MURAL .

Os mais favorecidos pela Igreja, quanto às penas, sempre foram os heterossexuais. Quanto aos homossexuais, mão pesada. A sodomia, coito anal entre indivíduos do sexo masculino ou entre um homem e uma mulher, era um vício tão abominável que, como menciona a Bíblia, a cidade, Sodoma, onde a imoralidade fora perpetrada, foi destruída pelo fogo e pelo enxofre.



A homossexualidade sempre se constituiu num grande perigo para a Igreja católica, pois ela sabia que em suas fileiras havia muitos homossexuais. No século VI, medidas conciliares determinaram, com relação à regra beneditina, que monges nunca deveriam dormir aos pares numa mesma cama, mantendo-se, além do mais, acesas a iluminação dos dormitórios. Isto não impediu, contudo, que os mosteiros fervilhassem de sodomia, que sempre foi um problema menor diante da heterossexualidade do clero e da zoofilia, muito disseminada.

A atitude básica da Igreja, com relação aos pecados acima apontados, cometidos intramuros, foi de leniência, ao reconhecer que eles comportavam inúmeras gradações, num campo vastíssimo de expressão. As penalidades impostas, sempre temperadas de misericórdia, tornaram-se muito complexas. A idade do pecador, sua ocupação (se monge, maior a severidade), sua posição, se ativa ou passiva, a frequência da transgressão, sua extensão e muitos outros itens eram levados em consideração, em intermináveis discussões. 

Exemplos (para transgressores abaixo de 20 anos) – Beijo simples: oito jejuns especiais; beijo licencioso, sem ejaculação, oito jejuns especiais; beijo com ejaculação e carícias, dez jejuns especiais. Masturbação mútua para homens acima de 20 anos – Vinte a quarenta dias de penitência. Cem dias numa segunda transgressão. Se habitual, os envolvidos seriam separados e fariam penitência por um ano. Conexão inter-femural (inserção do pênis entre as coxas do parceiro passivo), penitência de dois anos. Felação (intercurso oral), quatro anos de penitência. Na reincidência, sete anos. Sodomia (intercurso anal), sete anos de penitência. 

SANTO  AGOSTINHO ( VITRAL )
Quem endureceu a atitude da Igreja com relação aos homossexuais foi Santo Tomás de Aquino, o crime que destruíra Sodoma e Gomorra pelo fogo e pelo enxofre. Tomás partira, para isso, de uma observação de Santo Agostinho, a de que os órgãos sexuais foram destinados pelo Criador especificamente para a reprodução, não podendo ser usados de outra maneira para outros fins. 




segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A LUXÚRIA I


                     
A   LUXÚRIA  ( HIERONYMUS  BOSCH , 1450 - 1516 )
              
Etimologicamente, luxúria vem de luxus, latim, palavra que significa excesso, abundância, magnificência, extravagância, exibicionismo, dela fazendo parte ideias de anormalidade, de que algo está fora do lugar. Associa-se luxus ao verbo luctari, deslocar, dele saindo, por exemplo, a palavra luxação. A palavra foi muito
ISIDORO , C.560 - 636
empregada na Roma antiga e séculos posteriores sobretudo com conotação sexual. Com o tempo, seu universo semântico foi se ampliando passando ela a designar, de um modo geral, não só abusos quanto à sexualidade, ao apego aos prazeres dos sentidos, como à corrupção dos costumes, à lascívia, à intemperança. O entendimento que os primeiros padres da Igreja, como Isidoro de Sevilha, davam à luxúria ligavam-na aos prazeres sexuais. Luxurioso era para ele o “dissolvido em prazeres”. 

S. TOMÁS (  FRA
ANGÉLICO, 1395-1455)
Para entender melhor o que a luxúria é como pecado, sob o ponto de vista religioso, católico, temos que ir a Santo Tomás. Afirmava ele que o pecado nos atos humanos é o que contraria a ordem da razão, ordem esta que requer que tudo se dirija convenientemente para um determinado fim. Acrescentava então não haver pecado se o homem guiado pela razão se valia de modo conveniente das coisas e se o fim para que elas existiam fosse bom. As consequências desta maneira de pensar ficavam então óbvias: quanto maior a necessidade que experimentasse o homem com relação a alguma coisa tanto maior a necessidade de se observar a regra da razão. Daí, seria tanto mais viciosa uma coisa, isto é, pecaminosa, quanto mais ela se afastasse da razão. 
Quanto à sexualidade, não há o que discutir: Sem os atos sexuais a humanidade não prosperaria, o universo não se povoaria. Sem os atos sexuais os seres humanos não se multiplicariam, o gênero humano desapareceria. Tudo o que, quanto à sexualidade e à sua finalidade, não observasse a ordem da razão seria, pois, pecaminoso, seria luxúria, insistiam os padres da Igreja com base em Santo Tomás. Além do mais, há que se lembrar que os chamados pecados capitais levam sempre o homem a cometer muitos outros, a eles ligados. Ao praticar atos de luxúria, o homem, com facilidade, se entregará inevitavelmente a outros pecados.

Os vícios que foram chamados de capitais têm, como é fácil perceber, grande afinidade com o prazer dos sentidos. O mais intenso prazer corporal que o homem pode experimentar é o sexual. É por essa razão que a luxúria gera muitas “filhas”, no dizer do papa Gregório Magno. Temos a cegueira da mente, a irreflexão, a inconstância, a precipitação, o amor de si, o ódio de Deus, o apego às coisas materiais e o desespero em relação ao mundo futuro.

É importante lembrar que na antiguidade, bem antes do cristianismo, já era possível encontrar uma certa gradação estabelecida quanto a atos pecaminosos praticados por alguns seres humanos contra outros seres humanos e os deuses; algo semelhante, em alguns pontos, à matéria definida mais tarde por teólogos cristãos. Pode-se mesmo admitir que estes teólogos muito se valeram do que encontram no mundo anterior ao aparecimento do cristianismo para a formulação de sua doutrina sobre os pecados. Um exemplo do que aqui se diz está no poeta latino Horácio, que viveu no século anterior ao do nascimento de Cristo.

HORÁCIO
A seguir alguma frases de Horácio que, entendo, servem para ilustrar o que acima se disse: Quem não souber viver com pouco será sempre um escravo. A pálida morte bate com pé igual nos casebres dos pobres e nos palácios dos ricos. Não é pobre aquele que se contenta com o que possui. O avarento vive sempre na pobreza. Quem deseja muito muita falta sente.

EVAGRIUS  PONTICUS
No século IV dC, o monge grego Evagrius Ponticus (345-399) definiu as oito atitudes que os cristãos poderiam assumir como pecados mais graves: gula, fornicação, avareza, descrença, ira, desencorajamento, vanglória e soberba. No ano 590, a tese do monge foi incorporada ao Direito Canônico da Igreja Católica por iniciativa do papa Gregório I (540-604), ocasião em foi  dada a designação de pecados capitais (de caput, cabeça, em latim) às oito referidas atitudes. 
Toda vez que o homem pratica um ato inferior, pecaminoso, suas faculdades superiores se debilitam, se anulam mesmo, ficando ele desorientado no seu agir. Não será preciso fazer muito esforço para se notar as muitas conexões que a luxúria pode fazer; com a prostituição, a sodomia, a pornografia, o aborto (gravidez indesejada), as doenças sexualmente transmissíveis, o incesto, o sadomasoquismo, a pedofilia, a zoofilia, o bestialismo, o voyeurismo, o fetichismo e outras mais. 


A última moda neste terreno é a do amor ("carnal", inclusive) entre humanos, robôs e máquinas, que já chegou ao cinema comercial. Blade Runner, de 1982, por exemplo, descreve, dentre outros tópicos, uma relação amorosa entre um policial caçador de androides e uma replicante. Mais delicado, outro exemplo, é o recente, 2013, filme Ela, que narra a paixão de um tecnocrata (Joachin Phoenix) por um programa informático chamado Samantha.    


VOYEURISME  ( GRAVURA  CHINESA )

O amor libidinoso tem características de primariedade, é afoito, inconsequente, precipitado, elide qualquer possibilidade de reflexão, é inconstante, esgotando-se no próprio instante. Aponta
LIBIDO
 ( PICASSO , 1881 - 1973 )
ele para uma satisfação inteiramente ególatra, que, na realidade, é uma negação da transcendência, de algo que poderia ou deveria se realizar no tempo, inclusive através de ajustes mútuos das partes envolvidas. Libido é palavra que vem do latim, onde tem o sentido de paixão, de desejo violento. É procura instintiva do prazer sexual. Na Psicanálise, é aenergia que está na base das transformações da pulsão sexual e, como tal, é a
energia vital.
A luxúria caminha ao lado da paixão, palavra que tem uma história muito antiga. Entre os gregos, pathos, paixão, era tudo o que afetava o corpo e a alma tanto de modo benéfico como maléfico. Era algo experimentado, sempre uma ideia de algo sofrido, passivo. Vitimada pela paixão, a pessoa ficava à mercê dela. 


GLÂNDULA TIMO
O filósofo Platão usava a palavra epithymia para designar os sentimentos que subjugavam o ser humano, desejos, por exemplo. Este termo que Platão usa tem por base uma outra palavra, thymos, um órgão (glândula timo), situado no centro do peito,  que, no ser humano, tem a ver com a vida afetiva, com sentimentos. Os antigos confundiam esta glândula com o coração. Por essa razão, falamos que uma pessoa quando não tem sentimentos não tem coração. Por essa razão também, na arte religiosa, a imagem de Cristo com o coração exposto no meio do peito aberto significa o amor divino pela humanidade. Ainda mais: na Índia, no Yoga, é nessa região do peito que se situa o chamado chakra cardíaco (anahata, não percutido), governado, na Astrologia, pelo planeta Vênus, que, como sabemos, é o astro da vida afetiva.

CÍCERO
(KARL STERRER, 1885-1972)
Para o escritor latino Cícero, paixões são sempre perturbações da alma. Santo Agostinho verá como sinônimos paixão e libido. Aristóteles, outro filósofo grego, dizia que paixão é tudo aquilo que nos afeta. Por isso, afetados pela paixão tornamo-nos pacientes, padecemos; agente é aquele ou aquilo que nos provoca a paixão. Qualquer que seja o entendimento, a paixão se inscreve sempre no campo dos fenômenos passivos da alma dos quais a luxúria é uma expressão. Afetados, sentimos prazer ou dor. Se prazer, tendemos a nos aproximar do estímulo, a buscá-lo. Se dor, afastamo-nos. Todavia, este dois campos nem sempre podem ser definidos deste modo. Muitas vezes, um estímulo poderá nos causar, ao mesmo tempo, prazer e dor. 
Na Psicologia, a paixão é uma tendência de maior ou menor duração, acompanhada de estados afetivos e intelectuais, imagens muito poderosas que acabam por se impor, dominando a vida de uma pessoa pela sua intensidade e permanência. Uma inclinação que, instalada, torna-se o centro de tudo, tudo a ela se subordinando. Por isso, a paixão lembra cegueira. Nada vemos senão ela. Mesmo no caso de paixões ratificadas pela razão, somos tomados por elas. A paixão pode paralisar a ação normal da razão sobre a nossa conduta, impedindo a determinação da vontade. 

O passional se define por uma oposição ao racional, ao lógico. Neste sentido, é como a loucura. A razão, o racional, liga-se à ordem, à harmonia, à clareza. A paixão lembra irracionalidade, desarmonia, desordem, doença, caos. Desde a antiguidade, a mesma recomendação, na Filosofia, na Religião, na Medicina, na Psicologia, vigiar as paixões, pois sempre ameaçam a alma e o corpo de desordem, doenças, destruição.

A  LUXÚRIA
( HIERONYMUS BOSCH, 1450-1516)
De um modo geral, o pecado da luxúria sempre foi considerado como uma perversão, um desvio, daquilo que o sexo pode proporcionar como prazer sensual. Muitas religiões afirmam não condenar o sexo se praticado com moderação, sendo sempre difícil, porém, estabelecer limites entre o que é “normal” e os seus desvios. Quando a Igreja católica condena o sexo, vendo-o como pecado capital, segundo alguns teóricos, é porque ele assume um caráter luxurioso, ou seja, quando um dos parceiros não leva em conta o outro, tornando-o um objeto, quando o parceiro que assim procede leva somente em conta a gratificação dos seus sentidos. 


É neste caso que a luxúria se torna sinônimo de fornicação, de prostituição e de outras formas condenáveis. Fornicar é ter relações sexuais fora do casamento, ir às prostitutas, cometer o chamado pecado da carne. Fornicar vem de fornice ou fornix, arco de grandes portas, sob os quais, na antiga Roma, as prostitutas se exibiam para atrair clientes. Este arco não devia ser ultrapassado por elas, pois marcava o limite da área, do bairro, onde viviam e atuavam profissionalmente, sempre sob a proteção de um homem (pai, irmão, marido ou amigo nas funções de proxeneta (etimologicamente, corretor de mercadorias), gigolô (etimologicamente, do francês, o que explora a gigolette, mulher de rua), cafetão (de cáften, no lunfardo), o que vive do dinheiro das meretrizes. 


O lunfardo é uma forma dialetal do espanhol falado nos arredores de Buenos Aires. Talvez daí, para nós, venha a palavra cafajeste. No Brasil, cafajeste é o homem que trata a mulher como objeto. Nos anos 1950, a palavra foi usada, no Rio de Janeiro, para dar nome a um clube masculino, o Clube dos Cafajestes, cujo primeiro presidente foi o milionário e industrial paulista Baby Pignatari).

Aos poucos, criou-se o verbo fornicare, frequentar determinada zona, outro nome para os redutos do meretrício. A palavra zona chegou à língua portuguesa vinda da antiga Judeia, através do latim. Zonah era o nome que os judeus davam a um matrimônio invalidado por impedimento jurídico. No tempo da dominação romana, a mulher, nessa situação, não mais pura, virgem, acabava se prostituindo, indo para um lugar chamado zonah, lá sendo chamada pelos romanos de meretriz, palavra que vem de merces, preço, e de merere, ganhar uma recompensa. 

A fornicação, como as várias tradições religiosas entendem, tradições criadas pelo mundo masculino, ressalte-se, reduz o ser humano, o homem, no caso, a uma condição puramente animal, biológica. Assim sendo, ficam esquecidos outros aspectos, até muito positivos, que deveriam fazer parte do ato sexual, como afetividade, afinidades intelectuais, psicológicas e mesmo um ideal de transcendência.

É aqui que a luxúria e o erótico se aproximam, tomando esta última palavra o sentido de provocação do desejo sexual. Quem nos explica melhor esta relação é a mitologia grega. Entidade nascida do Caos, juntamente com Geia, Tártaro, Érebo, Nix e Urano, Eros tinha a função de provocar o acasalamento, de juntar os seres que apareciam no universo criado. Nada escapava do seu poder, que se estendia aos próprios deuses, aos humanos e à natureza como um todo. Tradicionalmente, era representado por um adolescente, mal entrado na puberdade, muito jovem. Perigoso e irresistível, carregava nas mãos um globo terrestre, símbolo de sua universalidade. Era o desejo unilateral que misturava, que acasalava, uma força atrativa cega que provocava a continuidade do universo, indiferente à vontade daqueles que unia. 
TEMPLO  DE  AFRODITE , GRÉCIA
Quando Afrodite chegou ao Olimpo grego para assumir o controle da vida afetiva, de modo a colocar o desejo numa perspectiva de reciprocidade, Eros se integrou ao seu séquito. Todavia, vezes sem conta ele escapou e continua a escapar do controle da deusa, como força inquieta que é, sempre em busca de uma nova experiência. Sua perversão é a luxúria, que Afrodite procura conter; perversão que consiste em não considerar o outro como parceiro, mas, sim, como algo a ser utilizado e desprezado, não se levando em consideração o seu valor.
O cristianismo vitorioso, obviamente, nunca se esforçou para entender as religiões que o antecederam. Sumariamente, como religião vencedora, as satanizou. Quanto ao mundo grego, no âmbito da sexualidade, além de Eros, duas divindades gregas foram
EPÍSTOLAS  AOS  CORÍNTIOS
particularmente atacadas, Afrodite e Dioniso. Foi na cidade de Corinto, na qual Afrodite pontificava, onde alguns cultos cristãos já haviam sido implantados, que São Paulo, nas suas visitas missionárias se demorou um
certo tempo. Escandalizado com o que viu na cidade, deixou para os cristãos que dele se aproximaram quatro epístolas com conselhos pastorais sobre a questão, as conhecidas Epístolas aos Coríntios, duas delas integradas ao cânon bíblico.