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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

DOS PECADOS - A GULA



GULA  (HIERONYMUS  BOSCH , C.1450 - 1516)

Para suprir as nossas funções vitais, exercemos diversas atividades. Alimentarmo-nos é uma delas. Temos que nutrir, energizar, satisfazer o nosso corpo, que necessita deste e de muitos outros cuidados básicos. Estamos sempre buscando um equilíbrio entre entradas e saídas. Anabolismo, metabolismo, catabolismo. O excesso, porém, isto é, ultrapassado o limite do razoável com relação à absorção de alimentos estaremos pecando contra o nosso corpo. Mas como estabelecer este limite? Fatores hormonais ou disfunções orgânicas podem, por vezes, explicar uma eventual compulsão alimentar. Há, no entanto, outras questões muito importantes que podem elucidar, em boa parte ou mesmo totalmente, esse comportamento descontrolado. Referimo-nos aos aspectos afetivo-emocionais que tal questão envolve.

TARTE  TATIN
Quantas pessoas, depois de um cansativo dia de trabalho, de aborrecimentos, de aporrinhações e de amofinações, um dia daqueles em que nada dá certo, não procuram numa gaveta um pedaço de compensação na forma de um chocolate? Ou abrem uma geladeira para se fartar com aquele cremoso sorvete? Ou, mais drasticamente, não se põem a beber umas e outras para tentar esquecer a chatice que foi o seu dia? Ou recorrem à química, aos ansiolíticos?  Todos  os
BERTILLON 
  terapeutas 
modernos proclamam unanimemente que comer, empanturrar-se de comida, sair em busca de restaurantes estrelados, fazer incursões para encontrar a “melhor feijoada do mundo” ou, para os mais refinados, aquele sorvete de chocolate ou aquela tarte tatin iguais aos da Bertillon de Paris para compensar carências afetivo-emocionais ou problemas financeiros, para comer bem, enfim, como se diz, nada resolve. Pelo contrário, concluem, conforme o caso, pontificando ou aconselhando: comer assim só piora a situação. 

CHEF  DE  HÔTEL, PARIS
Os nossos meios de comunicação, TV, revistas, suplementos e livros, fazem-nos conviver hoje com uma farta propaganda sobre gastronomia, concursos para a escolha dos melhores chefs, viagens para conhecermos os melhores “restaurantes do mundo” etc. etc. etc. De outro lado, em menor proporção, temos um cerrado ataque, nas mesmas mídias, contra os nossos hábitos alimentares, com a recomendação de que não nos entreguemos, sem raciocinar, aos prazeres da boca. Temos hoje um crescente número de programas na TV sobre culinária em geral, desde receitas da vovó a realities de gastronomia, disputas entre chefs estrelados de fama mundial, verdadeiras celebrities, tudo com a finalidade de que nos entreguemos, à tripa forra, aos acepipes oferecidos. Muitas faculdades e escolas de nível universitário oferecem hoje cursos superiores de gastronomia. Nenhum escândalo nas “boas” famílias quando os seus rebentos anunciam que optaram pela gastronomia ao invés dos tradicionais cursos de engenharia, de medicina, de direito ou de arquitetura.

Em que pesem as informações que circulam na mídia sobre os males que a glutonaria causa, as campanhas publicitárias que se montam para elevar o status da gastronomia sabem muito bem como preencher os nossos vazios emocionais, como compensar as nossas carências afetivas com alimentos, com comida, principalmente com doces. Desde que o mundo é mundo, todos têm conhecimento que alimentos são usados para atenuar a ansiedade, o medo, as desordens e problemas da nossa vida psíquica. Só que hoje, porém, a coisa está no nível da comunicação de massas, do grande público.

Embora no mundo moderno se promovam muitas campanhas contra os excessos da boca e a favor de uma alimentação mais natural, pouco se consegue quando pensamos em termos de um mercado de consumo mais amplo, do qual uma grande parte é ocupada pela juventude nos nossos meios urbanos. Todos, muito mais eles, os jovens, é claro, continuam vítimas daquilo que chamamos de mcdonaldização da nossa alimentação, do fast food e do delivery, todos, com as raras exceções de praxe, perfeitamente submissos e adaptados ao que a globalização impõe. Nem o horror à gordura, que chamamos de lipofobia (lipos, em grego, é gordura; liparós é gordo), geradora da obesidade mórbida, funciona como freio. O máximo a que se chega hoje quanto a este tópico é o de se considerar a gordura muito mais como um problema estético do que realmente de saúde pública. Desde o séc. XIX a gordura vem sendo aceita publicamente e considerada, em muitos meios, como um sinal de prestígio e de sucesso social. Continuamos como no séc. XIX a exibir mais ostensivamente as nossas panças sem nenhum constrangimento.

Apesar das informações que circulam nos meios de comunicação, atingindo praticamente todas as classes sociais, inclusive as semi-letradas e iletradas,  sobre os perigos da gordura, a famigerada gordura trans, nada se faz realmente em termos coletivos para, não dizermos eliminar, mas para apenas minimizar o problema. Omitem-se ou falseiam-se dados sobre os males que a gordura pode causar ou contribuir para piorar o nosso quadro clínico, coisas como riscos de infarto, de AVC, isquemias causadas por ateromas, problemas nas articulações, deterioração da memória, diabetes etc. 


ARCHESTRATE
Apesar da marola lipofóbica, é inegável o sucesso da chamada cultura gastronômica. Na antiga Grécia, aliás, gastronomia era o nome que se dava ao conjunto das regras da “boa” mesa. Quem criou a palavra foi o poeta Archestrate, no séc. IV aC, com o título de um poema dedicado à arte de comer. A palavra, entre os gregos, tinha uma conotação humorística, ao associar as palavras gaster (ventre), lugar do prazer do comilão, e nomia, lei, regra.

Embora os desfiles de moda das grandes casas de costura que se promovem não deixem dúvidas quanto à lipofobia e alguns poucos setores médicos considerem “pra valer” a obesidade como um problema de saúde, a comilança nunca esteve tão em alta como hoje, pois, na verdade, somos todos gulosos. Um aspecto interessante do que aqui se levanta, por exemplo, refere-se à qualidade da comida que os nossos grandes hospitais servem em
SUQUINHOS
suas cantinas, qualidade que está bem mais para a junk food das sanduicherias espalhadas pelas cidades do que para uma alimentação saudável. Isto para não se falar, por exemplo, da qualidade da comida servida aos pacientes internados, invariavelmente acompanhada pelos intragáveis sucos industrializados de “caixinha” ou de “saquinho” ou por bebidas adoçadas, aromatizadas etc artificialmente.

Na realidade, abrindo um pouco mais o tema da gula, o fato é que raramente nos contentamos com o que temos. Insaciáveis, a nossa compulsão de “engolir” é enorme. Não só comida, mas bens, coisas e até pessoas que fazem parte do nosso ambiente, na medida em que, num mundo extremamente competitivo como o nosso, nos apropriamos física, mental e psiquicamente de tudo ou de todos. Engolir é fazer descer o bolo alimentar da boca para o estômago, deglutir. Simbolicamente, é superar alguém, sobrepujar, vencer, aniquilar.  

 SALOMÃO
Religiosamente, para muitos escritores católicos, sempre bem intencionados, comer e beber podem ser motivos de felicidade, tornando-se santificados os atos a eles referentes, praticados moderadamente, uma dádiva de Deus, enfim, para que o homem se deleite. Muitas passagens bíblicas, contudo, fazem referência ao descontrole alimentar. No Livro dos Provérbios, por exemplo, encontramos: Não estejas entre os bebedores de vinho nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência vestirá de trapos o homem.

DANTE  ALIGHIERI
Nesse sentido, para os primeiros padres da Igreja católica, a gula seria o primeiro dos pecados capitais porque, a rigor, é a porta de entrada de todos os demais. Dizem-nos eles que o primeiro pecado do homem está ligado à gula, embora saibamos que por trás dela (comer o fruto proibido) estavam a tentação e a inveja. Adão e Eva só pecaram quanto à gula, realmente, porque, depois de tentados, comeram o fruto proibido,  açulados pela inveja. Aliás, para Dante Alighieri, na sua A Divina Comédia, a gula era um pecado maior do que a luxúria. Justificava sua opinião, afirmando que enquanto a luxúria se concentrava no culto do corpo do outro, o guloso se concentrava só no seu próprio corpo, na sua sensualidade, no seu ventre.


A  SANTA  CEIA ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

Para os antigos gregos, a palavra agape, amor fraternal, afeição, por iniciativa de São Paulo, ao que parece, foi usada para designar as refeições dos primeiros cristãos  quando de suas reuniões, muitas clandestinas, evocativas da Santa Ceia. A palavra traduzia uma ideia de felicidade resultante da participação terna, amorosa, numa refeição comunitária, na qual se celebrava também o rito eucarístico. Aos poucos, incorporou-se a ágape o sentido de um almoço de confraternização, de um banquete por motivos diversos (sociais, políticos etc.). Entre os primitivos cristãos, ágape era também um nome associado à caridade,  sendo um sinônimo de esmola. 


GULA  (S. DALI, 1904 - 1989)
Dante concebeu o Purgatório em oito terraços ou patamares. Os gulosos eram castigados no sexto, onde ficavam presos sob fortes tempestades, com chuvas, neve e granizo, além de atacados constantemente por Cérbero, o cão tricéfalo infernal. Os gulosos viviam totalmente nus nesse terraço, em derradeiros e permanentes estágios de desnutrição, ainda que não morressem. Uma reprodução dantesca, devidamente adaptada ao mundo católico, da pena imposta a Tântalo, o desgraçado filho de Zeus e da ninfa Pluto da mitologia grega.

ADÃO E EVA
( TICIANO , 1490 - 1576 )
Além de gerar sempre vários problemas de saúde, a gula, para os primeiros padres da Igreja, era o pecado capital que mais induzia à prática dos outros. Assim, para eles havia, por exemplo, a avareza da gula (acumular comida e bebida, escondê-las). A gula se tornaria também soberba quando alguém passasse a esbanjar a fartura de alimentos e bebidas não como uma bênção, mas como demonstração de status social, como motivo de orgulho, de ostentação. 

Os primeiros padres da Igreja consideravam, sobretudo, que o mal da alma era o de ficar à margem da razão, não obedecê-la. Sempre haveria pecado, pois, quando o homem se afastasse da razão, que deveria regular a vida humana. Quanto maior o afastamento da razão, maior o pecado. Diziam também que os prazeres mais difíceis de ordenar eram os que chamavam de os companheiros da
TOMÁS DE AQUINO
(G.DA FABIANO, 1370-1427)
vida do homem, os ligados diretamente à sua sobrevivência, à gula e à luxúria. Sem estes prazeres a vida humana seria impossível e é por essa razão, segundo eles, Santo Tomás de Aquino principalmente, como ele expôs mais tarde no seu De Magistro, que ao gozá-los, pecando, maior a transgressão das regras da razão. Maiores as concessões que o homem fazia à sua vida instintiva, animal. 

O papa Gregório, já mencionado, citado por Tomás, disse: O vício da gula nos tenta de cinco modos, levando-nos a antecipar a hora devida de comer, a exigir alimentos caros, a reclamar requintes no preparo dos alimentos, a comer mais do que o razoável e a desejar os manjares com ímpeto de um desejo desmedido. Nesse sentido, são filhas da gula: a imundície, o embotamento da inteligência, a alegria néscia, a loquacidade desvairada, a expansividade debochada. 

EVÁGRIO
Sob o ponto de vista acima, é preciso ter em conta que há dois tipos de gula: a ocasional, a eventual, e a regular, a cometida frequentemente. As mais comuns consequências desta última são a obesidade, a embriaguez e o alcoolismo. A obesidade é chamada de mórbida quando ela pode ocasionar várias doenças e, num estágio final, risco de morte. Aliás, Evágrio e Santo Agostinho afirmaram sempre que a gula era também um pecado capital porque representava um excessivo apego a coisas materiais, mundanas, isto é, à comida e, como tal, afastava da vida celeste e era uma afronta ao ensinamento da temperança e da partilha, pois, neste último caso, aquele que come e bebe muito está tirando o acesso de alimentos a outras pessoas, agindo de forma gananciosa e egoísta.

Em 1589, o teólogo e demonologista alemão Peter Binsfeld escreveu uma lista através da qual associava cada um dos sete pecados capitais a um demônio específico, chamando-os de os príncipes dos infernos. Cada um destes demônios era o responsável pela inspiração de tentações aos humanos. No caso da gula,
BELZEBU
chamava-se esse demônio Belzebu. Na nomenclatura de Binsfeld, Belzebu aparecia sempre associado às moscas, aos vermes, às baratas, aos ratos, à pestilência e à transmissão de doenças. O cristianismo dos primeiros tempos da era cristã para formar a palavra Belzebu fundiu dois nomes fenícios, os nomes dos deuses Baal e Zebub O primeiro associava-se aos trovões e atuava na agricultura e na morte. Zebub era uma divindade da peste e, como tal, aparecia muito ligado às moscas.

GARGÂNTUA
( G. DORÉ, 1832 - 1883 )
Associado à gula, os nossos dicionários registram a palavra pantagruélico, um adjetivo, que serve para qualificar as refeições fartas, alegres e barulhentas. Falamos assim de um banquete pantagruélico. Em português, derivadas do francês, temos as palavras gargantoíce (gula), gargantuar (comer muito), gargântua gargantão, o glutão. Esta última aparece como sinônimo de comilão. Glutão é derivada do nome de Gargântua, personagem de uma extravagante e satírica pentalogia romanesca, obra-prima da literatura universal, escrita no séc. XVI por François Rabelais, que descreve as aventuras de dois gigantes, Gargântua e seu filho Pantagruel, insaciáveis comilões e beberrões. Gargântua e Pantagruel, nomes inventados por Rabelais, têm na sua etimologia radicais indo-europeus gwer ou gwel, que nos deram palavras como engolir, gula, glutão, devorar, goela, voracidade, gárgula etc.

CASANOVA
Giacomo Girolamo Casanova (1725-1798), aventureiro e escritor italiano, que sempre viveu de expedientes, de intrigas e de suas conquistas amorosas, deixou um livro, História da Minha Vida, que nos dá uma visão bastante abrangente da sociedade europeia do século XVIII. Particularmente importantes nesse livro, quanto ao tema aqui abordado, são as suas observações sobre os prazeres da boca:

Cultivar os prazeres dos meus sentidos foi em toda a minha vida a minha principal atividade; nunca fiz nada de mais importante que isso. Sentindo-me nascido para o sexo diferente do meu, sempre o amei e me fiz amar por ele o máximo que pude. Amei também a boa mesa com frenesi assim como todos os objetos feitos para excitar a curiosidade. 

Tive amigos que me favoreceram e me senti muito feliz de poder, em todas as ocasiões possíveis, lhes demonstrar o meu reconhecimento; tive detestáveis inimigos que me perseguiram e que só não exterminei porque não consegui. Jamais os teria perdoado se não tivesse esquecido o mal que me fizeram. O homem que esquece uma injúria não a perdoou, ele a esqueceu, pois o perdão é parte de um sentimento heroico de um coração nobre e de um espírito , e muitas vezes generoso, enquanto o esquecimento vem de uma fraqueza da memória ou de uma doce indolência amiga de uma alma pacífica, muitas vezes de uma necessidade de calma e paz; já que o ódio acaba por matar o infeliz que se dispõe a alimentá-lo.

Os que me consideram um sensual erram, pois a energia dos meus sentidos jamais me afastou dos deveres quando tive que cumpri-los. Pela mesma razão jamais se deveria ter chamado Homero de bêbado: laudibus arguitur vini vinosus Homerus.

Eu amei as iguarias de elevado sabor: a macarronada feita por um bom cozinheiro napolitano, l`oglio potrida, o bacalhau da Terra-Nova bem viscoso, a caça defumada para encerrar e os queijos cuja perfeição se manifesta quando os pequenos seres que neles vivem se tornam visíveis. No que diz respeito às mulheres, sempre achei que aquela que eu mais amava era a mais perfumada, e mais a sua transpiração era forte mais ela me parecia suave. 

Passagens como esta são muito comuns na mencionada obra de Casanova e resumem perfeitamente a sua arte de viver: seguir um só princípio, o dos prazeres. Para poder se refazer dos problemas que a vida lhe propunha a cada instante, Casanova buscava os prazeres de várias maneiras, neles incluindo a erudição e os jogos de espírito, mas sempre em boa companhia, sobretudo à mesa. 

BRILLAT - SAVARIN
Não é por acaso que o paladar é o mais social dos nossos sentidos. Em várias culturas, é à mesa que se realizam e concluem muitos atos sociais. Brillat-Savarin afirmou que todo ato de sociabilidade pode ser encontrado em torno de uma mesa: amor, amizade, negócios, especulação, poder, importunação, apoio, ambição, intriga. Todas as culturas usam o alimento como sinal de aprovação ou comemoração. Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826), político, advogado e gastrônomo, foi um dos mais famosos cozinheiros de todos os tempos. Escreveu uma obra maravilhosa sobre a arte de bem comer, A Fisiologia do Gosto.

O grande segredo de Casanova foi o de saber associar os prazeres da sua vida, sobretudo os da cama, à gastronomia, à sua arte de contar histórias, à sua habilidade de compor menus suculentos. Muitos que escreveram sobre ele não procuraram ir mais fundo nos seus textos gastronômicos e o viram mais como um voraz glutão. Talvez esta visão se deva ao fato de Casanova ter sabido, muitas vezes, melhorar as suas sempre oscilantes rendas, com o jogo de dados. Quando isto acontecia, ele era a imagem da magnificência, do grão senhor, assumindo inclusive o título de Cavaleiro Seingalt (por ele inventado). Nesses momentos, ele não olhava gastos para multiplicar os seus prazeres, sobretudo os da boca, tentando e experimentando tudo. Numa passagem de sua vida, certa vez o Conde Verità lhe perguntou o quanto ele estaria disposto a gastar numa refeição que oferecia a algumas senhoras na cidade de Colônia: o máximo que eu puder, para ser magnífico. Este festim por ele oferecido foi realmente suntuoso, sendo qualificado à época de barroco não só pela sua quantidade, mas, sobretudo, pela sua qualidade.


Abrindo um parêntesis, ao falar de Casanova, não posso deixar de citar aqui o maravilhoso filme de Ettore Scola, Casanova e a Revolução (La Nuit de Varennes), do qual participam, dentre outros grandes atores, dois, sempre excepcionais: Marcello Mastroianni, no papel de Casanova, e Jean-Louis Barrault, no papel do escritor Restit de La Bretonne.


Ainda dentro deste parêntesis, não podemos esquecer de citar, dentre outros, dois grandes filmes, que têm relação que o tema aqui abordado: A Comilança (La Grande Bouffe), de Marco Ferreri, e A Festa de Babette (Le Festin de Babette), de Gabriel Axel. 

Os franceses, no séc. XVIII, procuraram estabelecer uma distinção entre o glutão e aquele que sabia comer bem. A gastronomia francesa começa no final deste século, com a obra pioneira de Brillat-Savarin. Até esse século gourmand e gourmet eram sinônimos, equivaliam-se. Aos poucos, porém, gourmet passou a designar aquele que se interessava pelo que comia, que se informava sobre os alimentos que chegavam à sua mesa, sobre sua preparação, sobre os que sabiam prepará-los e apresentá-los da melhor maneira. O gourmet ritualiza as suas refeições, procura o requinte, entende da sequência dos pratos, conhece as regras do serviço, procurando fazer sempre de sua refeição, principalmente com amigos que participam do mesmo entendimento, uma ocasião especial, sendo conhecedor inclusive das bebidas, dos vinhos. Impensável, por isso, por exemplo, aproximar cervejas e gourmets. Ninguém nasce gourmet, on devient (tornamo-nos), dizem os franceses, uma arte que tem fortes ligações com os estratos superiores da cultura de uma sociedade. Já o gourmand demonstra pouco ou nenhum interesse por tudo o que acabamos de dizer, apenas quer comer, não se importando com a qualidade do que ingere.

CHOCOLATE
Em pesquisas realizadas em muitos países constatou-se que o alimento mais desejado do mundo é o chocolate. Usado pelos indígenas da América Central e do Sul, era chamado de xoacoatl pelos astecas, que o consideravam um presente enviado pelos deuses. Registros históricos nos revelam que na corte de Montezuma eram consumidos diariamente mais de duas mil jarras de chocolate e muitos quilos de sorvete, feito ao se derramar sobre a bebida a neve trazida das montanhas para esse fim por funcionários reais, excelentes corredores, que tinham livre trânsito quando nessa função. 

Cortés introduziu a bebida na Espanha no séc. XVI, de onde se espalhou pela Europa como uma espécie de droga maravilhosa, a ela se acrescentando açúcar, frutas, baunilha e várias outras especiarias. Brillat-Savarin nos informa que as grandes damas espanholas do Novo Mundo eram tão viciadas em chocolate que, não satisfeitas em bebê-lo várias vezes por dia, exigiam que os padres o servissem nas igrejas.

Aos poucos, o chocolate adquiriu a condição de ser o alimento mais ligado ao emocional das pessoas, muito consumido por mulheres no período pré-menstrual ou quando estamos tristes ou nos sentimos com carência afetiva generalizada. Pesquisas médicas orientadas por psicofarmacologistas revelaram que o chocolate é antidepressivo. Tal fato se liga à descoberta de que nas depressões, nas carências afetivas, na insegurança material, nos rompimentos de relações amorosas, o cérebro para de produzir feniletilamina (Fea). O chocolate, como se descobriu, contém Fea em elevadas quantidades. Ao comê-lo experimentamos uma sensação de bem-estar muito semelhante àquela que vivenciamos quando estamos de bem com a vida, apaixonados, por exemplo.
A feniletilamina, conhecida como o “hormônio da paixão”, é um neurotransmissor muito parecido com a anfetamina (substância estimulante do sistema nervoso, usada, por exemplo, como vasoconstritor nasal, no tratamento do mal de Parkinson etc; a benzedrina é um derivado da anfetamina). Experiências médicas vêm procurando demonstrar que o cérebro de uma pessoa apaixonada produz grandes quantidades de Fea e que esta substância é a responsável, em grande parte, pelas sensações e modificações fisiológicas de prazer que o ser humano experimenta quando apaixonado.

A estas experiências com a Fea vêm se juntando, porque semelhantes, as referentes aos feromônios (do grego, phero, transmitir, transportar, e hormona, excitar) substâncias que os animais (inclusive o ser humano) exalam continuamente pelos bilhões de poros da sua pele. Os feromônios produzem sensação de prazer através de certas reações químicas que se manifestam no interior do corpo humano. Funcionam os feromônios como mensagens bioquímicas inconscientes que os animais usam para sinalizar interesses sexuais, situações de perigo, estabelecimento de limites, de trilhas etc.

SISTEMA  OLFATIVO
Ao final, não podemos esquecer que um dos mais ativos colaboradores do paladar, da glutoneria, no caso, é o olfato, mais do que a visão. Um aroma e somos assaltados por muitas lembranças. O olfato é o mais direto dos nossos sentidos. Por isso, grande parte da gourmandise, da glutoneria é alimentada por odores, ou melhor, por um aroma, que é odor naturalmente agradável que emana de substâncias preparadas, de várias origens. O olfato contribui muito para o paladar; ambos, como sabemos, dividem o mesmo espaço, são condôminos de uma boa parte do nosso corpo. 










sábado, 23 de novembro de 2019

DOS PECADOS - A SOBERBA

                             
PECADOS , CAPELA  DEGLI  SCROVEGNI , PADOVA
( GIOTTO  DI  BONDONE , 1304 - 1306 )

Orgulho, arrogância, jactância, vaidade, enfatuação, presunção, pretensão de superioridade,  o campo semântico deste substantivo é, realmente, muito vasto. Os antigos gregos usavam, por exemplo, para falar desse sentimento a palavra hyperphania (só encontrada hoje em alguns dicionários teológicos) composta de hyper, acima, elevado, abundante, muito alto ou grande, mais phania, de phaneros, visível, manifesto, público, evidente. Em português, temos ufania, que se aproxima de ufa, que significa em grande quantidade, traduzindo uma ideia de exagero, de excesso, de muito além do normal, palavra encontrada na expressão (locução adverbial) a ufo, provavelmente de origem onomatopaica.(gastou sua herança à ufo). Hyperphania, latinizada, estava na Bíblia, no Novo Testamento, em Marcos (7:22) e Lucas (1:51).

Da mitologia grega provém hybris, que significa desmedida, orgulho, descomedimento. No mito, era um daimon (um demônio, um gênio) que personificava a insolência, a arrogância, a falta de moderação, formando com Koros, o Desdém, e Asebeia, a Impiedade, uma pequena família. Para o homem comum, era um conceito que tinha relação com a falta de medida para mais ou para menos.  Ao atuar, a Hybris provocava uma desproporção, podendo levar ao bom demais como ao mau demais. Ela afastava as pessoas da justa medida, do nada excesso, divisa apolínea que estava inscrita no Oráculo de Delfos. No convívio social, a hybris era sobretudo sentida como a falta de percepção do outro, como uma invasão do seu espaço. No sentido contrário de Hybris atuava a Nemesis, divindade que punia os excessos, que atacava os orgulhosos, como aconteceu com o belíssimo Narciso.


NARCISO
( MICHELANGELO DA CARAVAGGIO , 1571 -1610 )

A soberba, superbia, em latim, é sempre citada em primeiro lugar quando enumeramos os pecados capitais. É conhecida como o pecado do Diabo, ou melhor, do Diabo na sua forma luciferiana. O Diabo é o nome que damos na tradição cristã a uma figura que encarna as forças do mal. Seu nome, etimologicamente, quer dizer aquele que divide, que causa dispersão. É, como tal, símbolo do erro, da mentira, da violência, da dispersão, das forças inconscientes que provocam a desintegração da personalidade do homem, vitimando-o física e moralmente, jogando-o em mil direções. É o inimigo natural de todas as formas de espiritualidade e da elevação psíquica. Na tradição judaico-cristã personifica as paixões e os vícios. A soberba costuma se expressar através de dois modos, individual ou coletivamente São exemplos deste segundo modo o cosmocratismo, o racismo, o corporativismo, o elitismo,  as várias formas de nacionalismo, a xenofobia, sobretudo a religiosa,  o colonialismo e outros mais. Uma forma muito peculiar de soberba, que muito mal fez ao convívio harmonioso entre os povos, foi a de nações que se auto-proclamaram como escolhidas por Deus para desempenha um papel importante de liderança, principalmente com base no monoteísmo, arvorando-se como condutoras do resto da humanidade. 


O  ORGULHO , A  VAIDADE  E  A  IRA.
( PETER  BRUEGEL , C.1525 - 1569 )

Um exemplo do que acima se expôs, nos tempos modernos, comparável com o dos judeus na antiguidade, pode ser encontrado em textos da ciência política, como num de Seymour Martin Lipset, famoso e premiado sociólogo norte-americano de origem russa, aqui resumido: afirma ele que os USA, politicamente, são a mais perfeita representação  do anti-estatismo, sendo, como tal, o apanágio do  individualismo e de sistemas como o da meritocracia e do dinamismo econômico, itens que explicariam a inexistência de
S.M. Lipset,
organizações socialistas no país. É de Lipset a definição dos cinco pilares que definem não só o credo político norte-americano, único dentre todos os demais, segundo ele,  e a sua posição como país líder: liberdade, igualitarismo, individualismo, populismo e
laissez-faire, cinco pilares que apontam para o caráter excepcional da democracia americana. Lipset deu à sua teoria no nome de Excepcionalismo Americano. Esta doutrina, ainda segundo ele, já estaria antecipada numa famosa asserção de Abraham Lincoln: os Estados Unidos são quase uma nação eleita (por Deus).

Desnecessário enfatizar o quanto estes modos coletivos de expressão de soberba vêm contribuindo para causar desde, antipatias e conflitos localizados. revoluções e guerras, inclusive mundiais, sempre ligados obviamente a problemas político-
            KU-KLUX-KLAN
econômicos de toda espécie.  Os exemplos abundam: o sistema de castas (varnas) na Índia, o apartheid na África do Sul, a Ku-Klux-Klan dos USA, xiitas x sunitas no mundo islâmico, judeus x muçulmanos, católicos e protestantes em várias partes do mundo, judeus em permanente conflito com os muçulmanos, fundamentalismo radical religioso ou étnico, o separatismo (a parte mais desenvolvida de um país que quer se separar da menos desenvolvida) etc.

Este último “pecado”, o separatismo, cuja prática vem aumentando muito nos tempos modernos, como seu próprio nome indica, tende levar os seus praticantes a se fixar naquilo que é considerado como princípios fundamentais quando da fundação de determinados grupos, os certos, como acreditam. No fundo, toda discussão fundamentalista é também, como se pode ver, uma questão semântica.  O termo fundamentalista refere-se ainda a qualquer grupo dissidente que resista a identificar-se com o grupo maior do qual diverge. A sua divergência se deve quanto à interpretação dos princípios que deram origem à fundação do grupo. Os fundamentalistas imputam ao outro grupo maior o ter-se desviado dos princípios básicos, sempre uma corrupção,pela adoção de princípios alternativos hostis ou contraditórios à identidade original. 

A soberba procura sempre se manifestar de algum modo, exibir-se, seja individualmente ou em grupos, através de coletividades, sendo evidentemente mais perigosa quando sob esta última forma. Individualmente, é comum encontrarmos a soberba de braços dados com a inveja. Se um indivíduo tomado pela soberba se depara com outro, mais poderoso que ele, na sua esfera de atuação, não há como impedir que a inveja passe a roê-lo interiormente, situação sempre vivida muito dolorosamente. Comum o caso em que o invejoso procure fazer mal ao outro e que, não o conseguindo, ele acabe se autodestruindo.   
      
A soberba produz às vezes muita satisfação naquele que a experimenta, sentimento, neste caso, ostentado como dignidade pessoal. Isto é raro, mas acontece. Esta e outras nuances envolvidas nas situações ora descritas podem nos levar a considerar a soberba, o orgulho, de duas maneiras, positivamente como brio, sentimento de honra, de amor-próprio ou, negativamente, o mais comum, como arrogância, altivez. 


ZEUS , MÁRMORE , LOUVRE
Um dos melhores exemplos da soberba nos vem da mitologia grega, do chamado complexo de Zeus. Características de amplitude e de poder absoluto nos são fornecidos por esta divindade quando estudamos as suas variadas formas de expressão através dos papéis que assume no mito como senhor inconteste do Olimpo. O complexo de Zeus, basicamente, pode ser descrito como uma forte inclinação que algumas pessoas demonstram  no sentido de assumir sempre uma posição de autoridade máxima, inibindo, inclusive à força, se necessário, quaisquer tentativas de independência  de pessoas que vivam ou estejam dentro dos seus domínios. Duas frases definem, à perfeição, este complexo como ilustração da soberba: 1) Só há dois pontos de vista: o meu e o errado; 2) fora de mim, não há salvação. 


QUANDO A ESTRELA DA MANHÃ CANTOU
( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

Quanto ao viés religioso, a soberba tem em Lúcifer o seu melhor exemplo.  O nome vem do latim, aquele que transporta a luz,  (lux mais ferre). Em hebraico,   seu nome era  heilel ben-shahar, com o sentido de o filho do negrume. O nome, em grego, foi aplicado ao planeta Vênus como a estrela da manhã, a estrela d’alva, Eosphoros. A partir da Idade Média, o nome foi também aplicado a Satã. A partir da expressão astro brilhante, numa tradução (de Antonio Pereira de Figueiredo) da Vulgata, Lúcifer é encontrado em Isaías (14:12), aqui registrado o versículo: Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante? Como caíste por terra, tu, que ferias as nações?   


LÚCIFER
(W.BLAKE ,1757 - 1827)
Ao ser exilado, Lúcifer levou consigo uma hoste de anjos, caídos como ele. A revolta de Lúcifer contra Deus começou quando ele se recusou a prestar homenagens a Adão, para ele uma simples criatura feita de pó, enquanto ele, Lúcifer, era feito de luz, da mesma matéria da qual Deus era feito. Consta que Lúcifer também ficou com ciúmes de Adão porque Deus lhe deu uma companheira, que ele cobiçou.

Desde então, foram sendo atribuídos, sobretudo pela tradição judaico-cristã, principalmente pela primeira, aos operadores do Outro Lado, desdobramentos das suas principais figuras, segundo o aspecto que se desejasse representar, nomes como Belial, Belfegor, Belzebu, Asmodeu, Bael, Astarot, Beemot, Furfur, Leviatã, Moloch, Mammon, Baphomet, Beherit, Mefistófeles e outros, todos condôminos, prepostos ou asseclas dos Senhores do reino do Mal.
ASMODEU
Asmodeu, por exemplo, é um príncipe identificado com Samael, que, como serpente, seduziu Eva. Tem três cabeças taurinas, corpo humano, deita fogo pela boca de carneiro. Seus pés são de águia e tem cauda serpente. Cavalga um dragão e comanda setenta e duas legiões infernais. Superintende as casas de jogo, semeando a miséria, o horror e a dissipação. Segundo os judeus, Salomão conseguiu submetê-lo momentaneamente, obrigando-o a ajudá-lo na construção do templo. Leviatã é um monstro que aparece no Livro de Job. A tradição rabínica metamorfoseou-o num demônio andrógino. No Inferno, tem a patente de grande almirante. Segundo a tradição judaico-cristã, a tutela dos sete pecados capitais está assim distribuída, a partir do reino do Mal: Soberba, Lúcifer; Avareza, Mammon; Luxúria, Asmodeu; Inveja, Leviatã; Gula, Belzebu; Ira, Satã; e Preguiça, Belphegor.

LÚCIFER , O ÚLTIMO JULGAMENTO ( GIOTTO )

O pecado do orgulho ficou para sempre ligado à imagem de Lúcifer, belo e sábio, um modelo de perfeição, transformado num ser diabólico, símbolo da arrogância, da jactância e da vaidade intelectual. A arrogância é ato de alguém de atribuir a si direito, poder ou privilégio devida ou indevidamente. É uma qualidade ou caráter de que, por suposta superioridade mental, alguém assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros. É por isso que o oposto da soberba é a humildade.


ADÃO E EVA,1530(LUCAS CRANACH)
Santo Tomás de Aquino considerava a soberba um pecado tão grave que, quando o discutiu, isolou-o da série, tratou dele separadamente. Foi o pecado do orgulho que levou Eva a comer do fruto proibido. No Gênesis se diz que quando Eva viu a árvore do paraíso e ouviu o que dela falou a Serpente achou-a tão atraente aos seus olhos e desejável que não resistiu. Igualar-se-iam, ela e Adão, a Deus, ao comer dos seus preciosos frutos. 


A ilustração do pecado da soberba com a pretensão como a que Eva demonstrou, a de igualar-se aos deuses no campo do conhecimento, não era nova. Esta pretensão, por exemplo, como nos revela a mitologia grega estendia-se a outras manifestações que não só a intelectual. Na mitologia grega, podemos encontrar vários exemplos de heróis ou não que procuraram se igualar aos deuses ou mesmo superá-los, no plano da beleza física, da perícia na confecção de trabalhos, da esperteza, de alcançar alturas ainda mais elevadas que o Olimpo, de se oporem ou se negarem a aderir a cultos patrocinados pelos deuses etc. A esta pretensão, como já se disse, os gregos davam o nome de hybris, incorrendo neste “pecado” personagens como Sísifo, Cassiopeia, Aracne, as Piérides, Tântalo, Minos, Pasífae, Belerofonte, Ixion, Orfeu, Sísifo, Lábdaco, Narciso e muitos outros. 



Para discutir a soberba, Santo Tomás (De Magistro) toma os conceitos de desejo, de glória e de excelência. Com base em Santo Agostinho, ele nos diz que se o desejo se volta para qualquer bem naturalmente desejado de acordo com a regra da razão, esse desejo será reto e virtuoso. Ao contrário, o desejo será pecaminoso se ultrapassa essa regra ou se não chega a alcançá-la. São Tomé nos dá um exemplo: o desejo que o homem tem de conhecer as coisas sob a orientação da reta razão é
SÃO PAULO
( EL GRECCO , 1541 - 1614 )
louvável, mas querer mais é ir na direção da
curiositas, sempre um pecado mortal. Do mesmo modo, ficar aquém do que é possível conhecer retamente é cometer o pecado da negligentia. Todo homem, continua Santo Tomás, divinamente informado, tende a buscar a excelência no que faz. Ele cita, para isso, São Paulo (Coríntios): Quanto a nós, não nos gloriemos sem medida, mas segundo a regra que Deus nos deu como medida. O pecado em relação a essa regra é o distorcido desejo de grandeza, como diz Santo Agostinho (A Cidade de Deus). 

O pecado da soberba, da vaidade ou do orgulho leva o que o comete a buscar uma evidência, um esplendor alimentado pelo desejo de notoriedade, sendo sempre ignominioso por isso. Santo Tomás nos fala que a glória pode ser vista sob três aspectos. No seu nível máximo, ela é clara notoriedade visível por todos, pelas multidões. Num segundo nível, temos o bem de um que se manifesta a poucos ou a um só. Num terceiro nível, quando a própria pessoa, a sua maneira de viver, é fonte da sua própria notoriedade.

Qualquer que seja o enfoque, segundo Santo Tomás, a finalidade da vaidade é a manifestação da própria excelência, um comportamento que gera frutos. A vaidade chama-se jactância quando ela se manifesta por palavras. Quando temos a manifestação de fatos verdadeiros que despertam uma certa admiração estamos diante da presunção da novidade (o novo sempre chama mais a atenção). Se a manifestação se dá por fatos fingidos, temos a hipocrisia, característica do que é falso, dissimulado. O hipócrita carece de sinceridade, é fingido. Em grego, hypocrites, etimologicamente,  é aquele que  dá uma breve resposta; aplicava-se a palavra, de modo especial, ao ator de teatro, aquele que dava respostas ao coro. Depois, hypocrites passou a ser usada para designar aquele que não exprimia os seus verdadeiros sentimentos. 


O   ECLESIÁSTICO
Um dos textos religiosos mais importantes sobre a vaidade é O Eclesiastes, que faz parte do Antigo Testamento. Kohelet é o seu nome em hebraico, uma coleção de provérbios e máximas que constituem um capítulo importante da chamada literatura sapiencial. O texto ensina a moderação, fala das virtudes da vida familiar e do temor de Deus. Já o texto Eclesiástico (Ben Sira) discorre sobre a necessidade que o homem goze os prazeres do mundo com moderação. O primeiro livro acima citado ten a su autoria atribuída tradicionalmente ao rei Salomão, filho de David e de Betsabá, famoso por sua sabedoria, terceiro rei de Israel. Segundo a tradição, Salomão escreveu O Cânticos dos Cânticos na juventude, Os Provérbios na maturidade e O Eclesiastes (ecclesia, em latim, quer dizer assembleia, reunião  e depois comunidade cristã. igreja) na velhice. 

Os temas principais de O Eclesiastes são a vaidade das coisas humanas, o desapego dos bens terrestres, a negação da felicidade dos ricos e a tese de que os bem-aventurados serão os pobres. As ideias do livro tiveram muita difusão por volta do séc. III aC, quando a Palestina era então uma colônia macedônica, obrigada a pagar pesados tributos. O autor procura provar que a vida e a felicidade não estão na posse dos bens terrenos, no poder, nos prazeres, na ciência ou no status social. O texto procura sobretudo provar que a vida é um dom gratuito de Deus e que deve ser partilhada por todos com justiça e fraternidade.

Uma visita ao mundo grego nos ajudará, sem dúvida, a entender um pouco melhor o pecado da vaidade, embora vivamos tão longe da antiga Grécia. Aparentemente diferentes daqueles dos gregos, nossos valores, ideias, princípios e, sobretudo, nosso universo linguístico, quando hoje falamos da soberba, se assemelham bastante, sendo muito útil aproximá-los para o fim aqui colimado.

Segundo a mitologia grega, a Fama (Pheme  ou Phama , em grego) é uma filha de Geia, a Grande-Mãe, que a gerou sozinha, depois do nascimento dos gigantes. Outros a consideravam como filha de Elpis, a Esperança, sendo muito solicitados os seus serviços pelos orgulhosos de toda a espécie. Um bom exemplo do que aqui apontamos pode ser encontrado na poesia épica da literatura de muitos países na qual a Hybris e a Fama tiveram que se defrontar.

Hoje, com sabemos, há agências de publicidade especializadas na promoção do sucesso de pessoas. Elas têm por objetivo a colocação em evidência da pessoa a que prestam serviços, da melhor maneira possível, interagindo com o público. Nessa área, atua também o chamado personal coach  que treina o seu cliente para que ele “possa ir além na vida”.Ele tira a pessoa do estado (insatisfatório) em que ela se encontra (pessoal, profissional, social etc.) e faz com ela alcance o estado desejado. 

OVÍDIO
Na antiguidade, a Fama, com múltiplos olhos e ouvidos, vivia num palácio de bronze com milhares de orifícios, através dos quais captava qualquer som que fosse produzido no universo, o mais imperceptível, e, a seu critério, o amplificava, divulgando-o pelos quatro cantos do mundo. Era dotada de asas que lhe permitiam se deslocar com extrema rapidez
VIRGÍLIO
para conferir a verdade de tudo o que lhe chegava. Era obrigada a tanto, pois cercavam o seu palácio entidades perigosas, a Credulidade, o Erro, a Falsa Alegria, o Terror, a Sedição e os Falsos Boatos. Entre os latinos, Ovídio e Virgílio falaram dela. Este último a descreveu como uma deusa temível de quem nada escapava. 

Nada mais natural que Fama, na literatura grega, personificasse aquilo que os gregos chamavam de reputação, renome (kléos, em grego) e passasse a desempenhar um importante papel no mundo heroico. Para entender como isto se deu é preciso entender que o herói, no mundo homérico, era aquele homem que ultrapassava as suas limitações históricas e geográficas em direção de uma dimensão universal. Esta dimensão, embora considerada por muitos um desejo de transcendência, provocado por um impulso interior, tinha também um forte componente, o desejo de glórias mundanas.

A hipótese acima parece se confirmar como regra quando examinamos mais de perto a vida de muitos heróis gregos. Tome-se, por exemplo, o mito dos argonautas, o da conquista do velocino de ouro e a história de Ulisses como a encontramos na Odisseia. Ao falar de Ulisses, muitos mitógrafos, filósofos, poetas, artistas, escritores, professores de literatura e outros mais sempre procuraram fazer de Ulisses um símbolo do ser humano inquieto, um ideal de transcendência, ávido de conhecimentos novos, um eterno viajante. Ora, não será preciso muito, desde os primeiros cantos do poema, para que uma leitura mais atenta e menos fantasiosa da Odisseia prove o quão inconsistentes são grande parte dos textos produzidos sobre o rei de Ítaca. Como está claro na Odisseia, Ulisses rejeitou a imortalidade que lhe foi oferecida por Calipso, preferindo voltar a Ítaca para retomar o seu lugar entre os homens, o que lhe garantiria uma consideração sem igual.


CALIPSO  E  ULISSES , C.1616 ( JAN BRUGEL O VELHO )  

Outro aspecto da personalidade do herói grego, acima mencionado, era o de que ele se considerava como detentor natural de um kléos, ou seja, de uma glória e de um renome amparados por sua posição social (era sempre um membro da elite dirigente), pela sua habilidade pessoal (areté) e pela sua honorabilidade, honra pública (timé), que deveriam ser cantadas. Poetas e aedos existiam para isso. Este foi o dilema que se apresentou a Ulisses na ilha de Calipso, quando a ninfa quis transformá-lo num imortal, desde que ele se dispusesse a ficar com ela em Ogígia. A opção então se apresentou ao nosso herói: a imortalidade anônima ou uma existência mortal, com todos os riscos que esta última pudesse oferecer, mas, no caso, um herói entre os homens. No primeiro caso, manter-se-ia vivo para sempre, honrado pelos seus pares, mas sentindo-se como Aquiles quando o encontrou (o seu eidolon) no Hades. O maior guerreiro dos aqueus transformara-se num “sem-nome”, uma sombra (skia), como eram chamados todos os que se encontravam no reino infernal, porque haviam perdido o seu corpo físico, que lhes dava uma identidade. 

Como se sabe, em todas as culturas, a história dos heróis, do nascimento à morte, é revestida de muitos traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. Os gregos sempre procuraram transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses personagens, muito ampliada e mesmo deturpada pelos que os estudaram ou usaram como temas de suas obras. 

AQUILES  E HEITOR ( PALÁCIO
NACIONAL DA AJUDA, LISBOA)
Na realidade, porém, os heróis gregos nunca foram tão "heroicos" como muitos dos que nos são apresentados como tal, principalmente nos nossos tempos pela comunicação de massas (publicidade, revistas, histórias em quadrinhos, TV, cinema, Internet etc.). Se formos conferir, notamos que no geral os heróis gregos são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. Eram apresentados como invulneráveis, mas podiam ser abatidos (Aquiles, Heitor). Tinham graça e beleza, mas eram monstruosos: o gigantismo de Hércules, de Ajax Telamônio). Eram, na realidade, teriomorfos, andróginos, mudavam de sexo, adotavam o travestismo; tinham anomalias físicas (a tripla dentição de Hércules), deformações (Édipo). Com muita facilidade eram tomados por demônios ou espectros como Lyssa (Loucura), Ate (Erro), Eris (Discórdia), no que acompanhavam as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual extravagante, são estupradores, chegados à homossexualidade, atacam os próprios deuses, tentam violentar as deusas, têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam as normas de convivência e as regras da hospitalidade. 

Os heróis gregos, entretanto, são exemplares para nós enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos e revelam também a situação de conflito do psiquismo humano pelos combates que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas, lunares (monstros, gigantes, dragões, imaginação descontrolada), que lembram as tendências regressivas, incansáveis, sempre a persegui-los. Faz parte da vida do herói, obrigatoriamente, a agonística, ou seja, a vida como luta, tanto interna como exteriormente. Sempre presente a ideia da criação de novas formas de relacionamento com o mundo a partir dos conflitos internos, as suas conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização ininterrupto. Pressões internas, reais ou imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas, idiossincrasias. De outro lado, o mundo com os seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores, malfeitores. Sempre presentes também as ameças, conscientes ou não, como a vaidade, o orgulho, a fama, o renome, a consideração pública.

Aos poucos, no correr dos tempos, o sentido da palavra herói foi se ampliando, admitindo-se o seu uso para designar pessoas que têm um destino incomum. Do séc. XVIII em diante, com o Romantismo, em especial, uma nova dimensão foi incorporada à palavra. Determinados personagens das artes que problematizavam a sua relação com a sociedade começaram a ser chamados de heróis, nada tendo de exemplares na maioria dos casos. 

A sociedade moderna, principalmente a partir do séc. XX, saturada de profundo irracionalismo, vem há muito  tornando heróis, celebrities de todo gênero, muitas pessoas que orgulhosamente se destacam do coletivo, que “brilham” por um brutal egoísmo, por excessos individualistas, pela violência. Ladrões que vivem nas altas esferas econômicas, donos de redes de comunicação, banqueiros, demagogos, estelionatários, políticos enganadores, corruptos eméritos, falsificadores de todas as espécies, ricaços, conhecidos sonegadores, esportistas dopados, artistas de TV, do cinema, do show business, fabricantes de quinquilharias eletrônicas, uma extensa galeria enfim, promovida em escala mundial pelos meios de comunicação, pela mídia eletrônica atingiu hoje o status heroico para a grande massa globalizada, idiotizada como sempre. São os soberbos.

Antes de prosseguirmos, é preciso, porém destacar que no geral as visões “celeste” e “terrestre” do herói na mitologia grega são muitas vezes antagônicas. Isto porque se ele representa num primeiro momento um ideal de força combativa, está presente sempre nele, como já vimos, concomitantemente, a tendência ao excesso, à desmedida, que o leva a querer competir, igualar-se ou mesmo superar os deuses. 


HÉRCULES
( MUSEI  CAPITOLINI )
O herói, nos combates, vive num estado de cólera guerreira, expressão mágica para caracterizar a sua hybris, a sua orgulhosa desmedida heroica; como tal, ele pode ter direito, segundo os humanos, às suas tendências passionais. A figura heroica que melhor tipifica esta oscilação entre o anthropos e o aner, entre o homem ou sub-homem e o herói, o super-homem, sem jamais conhecer o seu metron é, sem dúvida, Hércules. Se para os humanos o culto heroico pode admitir este tipo de hybris, de orgulho, sob o ponto de vista olímpico tal não acontece. Em que pese o fato de Hércules ter sido arrebatado por seu pai, Zeus, quando de seu suicídio apoteótico, para ir viver entre os deuses, do ponto de vista do Olimpo ou do Hades, as suas façanhas sempre foram tidas como gestas ignominiosas e seu destino miserável. 

Esta também seria indiscutivelmente a visão que teríamos das façanhas de Hércules e de outros heróis se as considerássemos sob o ponto de vista da doutrina dos pecados que os santos padres da Igreja estabeleceram. Ainda que condenáveis sob muitos aspectos, tais façanhas, contudo, sempre ajudaram aqueles que delas se aproximaram a se conhecer um pouco melhor, tanto a si mesmos como aos outros, além, é claro, de constituírem, na mão de artistas maravilhosos, como Homero, Hesíodo, Ovídio, Rembrandt, Mahler, Visconti, Michelangelo, James Joyce, Leonardo da Vinci e inúmeros outros um grande e exemplar patrimônio cultural. O que diríamos então se aplicássemos os mesmos pontos de vista da mesma doutrina dos pecados para falar daquilo que muitos indivíduos procuram hoje viver quando buscam, desesperadamente, através da tecnologia, o seu momento de glória instantânea, ao produzir selfies, fotografias ou o seu perfil numa linha do tempo, com as irrelevantes, nada exemplares e descartáveis histórias do seu cotidiano ilustradas com as suas lamentáveis e desinteressantes fotos?





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