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domingo, 18 de abril de 2021

RABELAIS

RABELAIS

François Rabelais nasceu na França, perto de Chinon,  em 1.494. Em 1.521, o encontramos como monge franciscano e, depois, beneditino, frequentando um meio humanista e tolerante. Em Paris e Montpellier, cursou medicina, indo clinicar, uma vez formado, em hospitais de Lyon. Em 1.532, publicou seu Pantagruel sob o pseudônimo de Maistre Alcofibras Nasier (um anagrama de seu nome). Em 1.534, uma nova obra, Gargantua (pai de Pantagruel), na qual define melhor suas ideias sobre a educação medieval (Escolástica), o humanismo, as guerras e a vida em sociedade de um modo geral. Depois de uma viagem à Itália e da condenação pela Sorbonne do seu Terceiro Livro (1.546), obteve, graças aos favores de Henri II, um cargo eclesiástico. Publicou em 1.552 o seu Quarto Livro. Em 1.564, apareceu seu Quinto Livro, cuja autenticidade é muito discutida.

O pai de Rabelais possuía perto de Chinon uma apoteca, um misto de farmácia (botica) e, ao que parece, também depósito de gêneros alimentícios e vinhos, além de um albergue. Encaminhou-se desde cedo para os estudos, chegando logo às escolas superiores, às universidades, sendo a de Angers a primeira que frequentou.  



As informações que podemos colher sobre Rabelais de seus contemporâneos, além daquelas sobre o seu caráter e comportamento, permitiram situá-lo num mesmo nível de grandes mestres que o antecederam. Num depoimento, por exemplo, de Pierre Boulenger, estudioso, ao tempo, dos aforismos de Hipócrates, está a previsão de que Rabelais seria um enigma para a sua posteridade. Louvado pelo dom da palavra que possuía como poucos, Rabelais foi celebrado como sapiente professor, como eloquente pregador, como charmoso conversador, sendo comparado, por isso, com Erasmo, Marsílio Ficino, Aristóteles, Bocage e outros, além de precursor da filosofia e da ciência modernas, como posteriormente se reconheceu. Apesar de suas qualidades intelectuais superiores, da proteção que recebeu, foi Rabelais também, como se sabe, muito agredido pela ignorância de seus “ignaros e grosseiros” colegas de estudo.     

ESCOLÁSTICA
A Escolástica,  lembremos, resume o pensamento cristão da Idade Média, baseado na tentativa de conciliação entre um ideal de racionalidade, corporificado especialmente na tradição grega do platonismo e do aristotelismo, e a experiência de contacto direto com a verdade revelada, tal como a concebe a fé cristã. Por extensão, a Escolástica designa qualquer filosofia elaborada em função de uma doutrina religiosa. Ao tempo de Rabelais, a Escolástica acabou por tomar o sentido de um pensamento acrítico, ortodoxo e tradicionalista.

Nos principais traços que encontramos na obra de Rabelais estão bem evidentes as influências herméticas como as encontraríamos mais tarde definidas no Caibalion, texto que as sintetizará. Através das formas infinitamente variadas do gênio rabelaisiano podemos destacar duas tendências fundamentais que parecem resumir suas aspirações essenciais: o humanismo e o seu amor pela natureza.

O Humanisno, por seu lado, como sabemos, é um movimento que se caracteriza por um esforço que tem por objetivo a revelação da dignidade do espírito humano e a sua revalorização na medida em que a cultura medieval é questionada e superada para nela serem incorporadas inclusive influências da antiguidade greco-romana, principalmente. O Humanismo é, no fundo, uma doutrina que, segundo o ponto de vista moral, deve se restringir exclusivamente a tudo o que é de ordem humana. Uma concepção geral da vida (política, econômica e ética), pois, baseada no entendimento de que a salvação do homem depende dele mesmo, das forças humanas, o que muito o aproxima do Budismo original (na Índia), do Chan (na China) e do Zen (no Japão) 


V. FERREIRA
No século XX, salientemos, o Humanismo foi defendido pelos existencialistas (Sartre escreveu um magistral ensaio intitulado
O Existencialismo é um Humanismo. A melhor edição deste texto, superior mesmo à do original francês, é a portuguesa, da "Editora Presença", na tradução assinada por Vergílio Ferreira, também autor de um imprescindível ensaio introdutório, que não só ilumina a obra sartreana como a completa,  rejeitado por Heiddeger e pelos estruturalistas. 

Trabalhador infatigável, de uma curiosidade universal, Rabelais acumulou ao longo de sua vida uma soma prodigiosa de conhecimentos que ele sempre viu como interligados. Foi ele aos textos da antiguidade para descobrir a verdade moral (Platão), a verdade jurídica (Direito romano), a verdade religiosa (Evangelhos), a verdade científica (Medicina, Astronomia, Matemática, Naturalismo etc.). Conheceu a fundo os latinos e os gregos, citando-os, traduzindo-os, comentando-os. 

Tendo conhecido a regra monástica, Rabelais reagiu contra o ascetismo cristão medieval, que procurava submeter corpos e espíritos. Do Naturalismo antigo, tomou o ideal do desabrochar físico e moral do ser humano. Médico, reabilitou o corpo, injustamente desprezado na Idade Média. A vida física, a alimentação, as funções naturais do corpo ocupam um lugar importante na sua obra. Admira o mecanismo do corpo humano como admira, realçando-o, o mecanismo do universo, ambos testemunhando a unidade do Todo. Seu culto da natureza se estende à vida moral. Sua obra é uma luta a favor da Natureza (Physis) que pode gerar a Beleza e a Harmonia, contra tudo o que a deforma e mutila (Antiphysis). Uma obra que, enfim, coloca o amor à vida acima de tudo, principalmente através das suas formas sensíveis. 

  PANTAGRUEL (G. DORÉ)
O ideal de Rabelais, encarnado pelo seu herói Pantagruel, é feito de ciência e de sabedoria, uma sabedoria que consiste na busca de uma vida saudável segundo os ciclos naturais (terra-céu). O pantagruelismo de Rabelais consiste em viver em paz, de modo saudável, folgado, com uma certa alegria de espírito, utilizadas mas consideradas na sua devida precariedade as coisas fortuitas, já que na vida tudo passa. Além do mais, por trás de seu tom jocoso, as suas ideias “sérias” sobre Educação, Política, Justiça, Religião, são ideias expressas sempre através de uma linguagem divertida e pitoresca. Pacifista, sustenta a tese da guerra defensiva. Sua pedagogia se renova sempre, tendo por finalidade a saúde do homem integral (corpo e espírito).


CONSELHO DE CAPITÃES DE PIEROCHOLE

Muitos de seus personagens são símbolos que encarnam virtudes e defeitos. O espírito do Renascimento, por exemplo, está nas figuras de Gangantua e Pantagruel, a perversidade e o ardil estão em Panurge, a ambição em Pierochole etc. Mestre do riso, sua invenção verbal é única na história da literatura mundial. Ficamos confundidos muitas vezes diante da prodigiosa riqueza de seu vocabulário. Seus personagens expressam-se de modo perfeito, quer tenhamos um agricultor, um médico, um marinheiro, um militar, um comerciante, um religioso, um literato. Seu conhecimento sobre os dialetos é perfeito. Inventa palavras, deforma os termos existentes, cria onomatopeias, anagramas, transpõe palavras, recriando enfim a linguagem. Fixa figuras de sintaxe e o seu uso literário de uma vez por todas. Mestre da retórica, criou metáforas e metonímias, alegorias e símiles como nenhum outro escritor antigo ou moderno. Seus personagens têm natureza arquetípica, aparecendo nos dicionários e invadindo depois a Psicologia. O Pantagruelismo, lexicografado, ficou como o conjunto de práticas dos que colocam os prazeres, especialmente os da comida e da bebida, acima de tudo, embora o termo seja muito mais do que isso. O Pantagruelismo de Rabelais, além de ser um grande desejo de conhecimentos, é a afirmação inalienável do ser humano, o problema da sua interioridade, do significado e do fim último de sua existência, uma discussão sobre a liberdade de investigação do mundo do homem e do humano e do seu corpo físico.  

Foi Rabelais às línguas “mortas”, às línguas estrangeiras, aos dialetos. A uma palavra acrescentava, com espantosa criatividade, inúmeras outras, que ampliavam seu universo semântico. Seu estilo é infinitamente leve, ágil, plástico, flexível. Erudito e popular, refinado e grosseiro, ao mesmo tempo, sua fecundidade é extraordinária. Nele, encontramos todos os graus do cômico, as farsas mais pesadas, o jogo de palavras, os calembours (TROCADILHOS), a caricatura grotesca, a comédia de intriga, a paródia, todas as formas dramáticas e todos os tons. Escreve para o público em geral, tanto para o mal letrado como para os estudiosos ou para os eruditos mais cultos.  

ABADIA DE THÉLÈME.
Gargantua é o primeiro livro de Rabelais, inspirado em contos populares. O nome, como se pode constatar, tem relação com o radical garg, garganta. Do francês o nome passou para a língua portuguesa como gargântua, com o significado de aquele que come em excesso, glutão, comilão, homem dotado de grande apetite. O livro relata a vida do personagem, um gigante, tendo vários episódios satíricos, cheios de bouffonerie. Gargantua é filho de Grandgousier e pai de Pantagruel. O livro encerra ensinamentos preciosos (la substance moelle) sobre os ideias humanistas do autor. A Escolástica medieval é atacada, propondo Rabelais uma pedagogia moderna a ser completada, sob o ponto de vista moral, por cuidados corporais e pelo cultivo de uma vida espiritual. A ação do livro tem como cenário a abadia de Thélème, onde viveria uma comunidade mista e aristocrática, idealizada por ele, inspirada pelo lema Fay ce que vouldras. Seus membros, espiritualizados e conscientes, observavam a máxima de que Science sans conscience n´est que ruine de l´âme. 

Pantagruel ocupa na obra de Rabelais o segundo lugar embora tenha sido publicado antes. O gigante Pantagruel, filho de Gargantua, que visita as universidades da província e de Paris recebe de seu pai uma Lettre sur l`éducation na qual se exprime, com lirismo, o entusiasmo dos humanistas pela cultura e pela sabedoria antigas, o sonho de um conhecimento universal. Depois, de ter denunciado a jurisprudência medieval, Pantagruel encontra Panurge (Panurgo), que o acompanhara numa guerra. 

Pantagruel veio ao mundo num dia de grande seca. O pai, por essa razão, lhe deu o nome, assim decomposto: panta, em grego, quer dizer todo, tudo; gruel, num dialeto árabe, quer dizer alterado. Ou seja, à hora do nascimento de Pantagruel o mundo estava alterado, conturbado, revolucionado. Panurge (pan, todo, ergon, trabalho) é um personagem cujo nome significa em grego astucioso, industrioso, enganador, capaz de fazer tudo, apto para tudo. Sua engenhosidade sem escrúpulos e seu gosto pela mistificação fazem dele um tipo truculento. As etapas burlescas de sua viagem em busca da felicidade, como está nos seus três últimos livros, dão a Rabelais a oportunidade de criticar a Justiça e atacar a Igreja Romana e a Reforma. Ridicularizando a tolice humana, Panurge consulta um oráculo (Dive Bouteille) que o incita a se embriagar, simbolicamente, de ciência, de sabedoria. De Panurge, em francês, sai panurgismo, palavra que designa o ato ou o impulso de seguir cegamente um chefe ou um primeiro, que se coloque à frente. A referência aqui é feita a uma passagem do livro (os carneiros de Panurgo) que se jogaram ao mar atrás do primeiro, lançado à água pelo personagem.

NATURE  MORTE  MÉTAPHYSIQUE (GIORGIO MORANDI, 1890-1964)

Sobre o mérito e o papel que Rabelais representou na literatura francesa as referências são unânimes: foi, sem dúvida, um dos maiores de seus criadores. Sua base, de estudos greco-latinos, seus conhecimentos científicos e de várias línguas, conforme sempre demonstrou, atestam sobejamente a sua genialidade, sua imensa erudição. Profundo conhecedor das literaturas estrangeiras, com uma imaginação superlativa, valorizando a linguagem popular, animada e pitoresca, Rabelais é uma luz perene da literatura francesa que ilumina a cultura universal.   



quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

DOS PECADOS - A GULA



GULA  (HIERONYMUS  BOSCH , C.1450 - 1516)

Para suprir as nossas funções vitais, exercemos diversas atividades. Alimentarmo-nos é uma delas. Temos que nutrir, energizar, satisfazer o nosso corpo, que necessita deste e de muitos outros cuidados básicos. Estamos sempre buscando um equilíbrio entre entradas e saídas. Anabolismo, metabolismo, catabolismo. O excesso, porém, isto é, ultrapassado o limite do razoável com relação à absorção de alimentos estaremos pecando contra o nosso corpo. Mas como estabelecer este limite? Fatores hormonais ou disfunções orgânicas podem, por vezes, explicar uma eventual compulsão alimentar. Há, no entanto, outras questões muito importantes que podem elucidar, em boa parte ou mesmo totalmente, esse comportamento descontrolado. Referimo-nos aos aspectos afetivo-emocionais que tal questão envolve.

TARTE  TATIN
Quantas pessoas, depois de um cansativo dia de trabalho, de aborrecimentos, de aporrinhações e de amofinações, um dia daqueles em que nada dá certo, não procuram numa gaveta um pedaço de compensação na forma de um chocolate? Ou abrem uma geladeira para se fartar com aquele cremoso sorvete? Ou, mais drasticamente, não se põem a beber umas e outras para tentar esquecer a chatice que foi o seu dia? Ou recorrem à química, aos ansiolíticos?  Todos  os
BERTILLON 
  terapeutas 
modernos proclamam unanimemente que comer, empanturrar-se de comida, sair em busca de restaurantes estrelados, fazer incursões para encontrar a “melhor feijoada do mundo” ou, para os mais refinados, aquele sorvete de chocolate ou aquela tarte tatin iguais aos da Bertillon de Paris para compensar carências afetivo-emocionais ou problemas financeiros, para comer bem, enfim, como se diz, nada resolve. Pelo contrário, concluem, conforme o caso, pontificando ou aconselhando: comer assim só piora a situação. 

CHEF  DE  HÔTEL, PARIS
Os nossos meios de comunicação, TV, revistas, suplementos e livros, fazem-nos conviver hoje com uma farta propaganda sobre gastronomia, concursos para a escolha dos melhores chefs, viagens para conhecermos os melhores “restaurantes do mundo” etc. etc. etc. De outro lado, em menor proporção, temos um cerrado ataque, nas mesmas mídias, contra os nossos hábitos alimentares, com a recomendação de que não nos entreguemos, sem raciocinar, aos prazeres da boca. Temos hoje um crescente número de programas na TV sobre culinária em geral, desde receitas da vovó a realities de gastronomia, disputas entre chefs estrelados de fama mundial, verdadeiras celebrities, tudo com a finalidade de que nos entreguemos, à tripa forra, aos acepipes oferecidos. Muitas faculdades e escolas de nível universitário oferecem hoje cursos superiores de gastronomia. Nenhum escândalo nas “boas” famílias quando os seus rebentos anunciam que optaram pela gastronomia ao invés dos tradicionais cursos de engenharia, de medicina, de direito ou de arquitetura.

Em que pesem as informações que circulam na mídia sobre os males que a glutonaria causa, as campanhas publicitárias que se montam para elevar o status da gastronomia sabem muito bem como preencher os nossos vazios emocionais, como compensar as nossas carências afetivas com alimentos, com comida, principalmente com doces. Desde que o mundo é mundo, todos têm conhecimento que alimentos são usados para atenuar a ansiedade, o medo, as desordens e problemas da nossa vida psíquica. Só que hoje, porém, a coisa está no nível da comunicação de massas, do grande público.

Embora no mundo moderno se promovam muitas campanhas contra os excessos da boca e a favor de uma alimentação mais natural, pouco se consegue quando pensamos em termos de um mercado de consumo mais amplo, do qual uma grande parte é ocupada pela juventude nos nossos meios urbanos. Todos, muito mais eles, os jovens, é claro, continuam vítimas daquilo que chamamos de mcdonaldização da nossa alimentação, do fast food e do delivery, todos, com as raras exceções de praxe, perfeitamente submissos e adaptados ao que a globalização impõe. Nem o horror à gordura, que chamamos de lipofobia (lipos, em grego, é gordura; liparós é gordo), geradora da obesidade mórbida, funciona como freio. O máximo a que se chega hoje quanto a este tópico é o de se considerar a gordura muito mais como um problema estético do que realmente de saúde pública. Desde o séc. XIX a gordura vem sendo aceita publicamente e considerada, em muitos meios, como um sinal de prestígio e de sucesso social. Continuamos como no séc. XIX a exibir mais ostensivamente as nossas panças sem nenhum constrangimento.

Apesar das informações que circulam nos meios de comunicação, atingindo praticamente todas as classes sociais, inclusive as semi-letradas e iletradas,  sobre os perigos da gordura, a famigerada gordura trans, nada se faz realmente em termos coletivos para, não dizermos eliminar, mas para apenas minimizar o problema. Omitem-se ou falseiam-se dados sobre os males que a gordura pode causar ou contribuir para piorar o nosso quadro clínico, coisas como riscos de infarto, de AVC, isquemias causadas por ateromas, problemas nas articulações, deterioração da memória, diabetes etc. 


ARCHESTRATE
Apesar da marola lipofóbica, é inegável o sucesso da chamada cultura gastronômica. Na antiga Grécia, aliás, gastronomia era o nome que se dava ao conjunto das regras da “boa” mesa. Quem criou a palavra foi o poeta Archestrate, no séc. IV aC, com o título de um poema dedicado à arte de comer. A palavra, entre os gregos, tinha uma conotação humorística, ao associar as palavras gaster (ventre), lugar do prazer do comilão, e nomia, lei, regra.

Embora os desfiles de moda das grandes casas de costura que se promovem não deixem dúvidas quanto à lipofobia e alguns poucos setores médicos considerem “pra valer” a obesidade como um problema de saúde, a comilança nunca esteve tão em alta como hoje, pois, na verdade, somos todos gulosos. Um aspecto interessante do que aqui se levanta, por exemplo, refere-se à qualidade da comida que os nossos grandes hospitais servem em
SUQUINHOS
suas cantinas, qualidade que está bem mais para a junk food das sanduicherias espalhadas pelas cidades do que para uma alimentação saudável. Isto para não se falar, por exemplo, da qualidade da comida servida aos pacientes internados, invariavelmente acompanhada pelos intragáveis sucos industrializados de “caixinha” ou de “saquinho” ou por bebidas adoçadas, aromatizadas etc artificialmente.

Na realidade, abrindo um pouco mais o tema da gula, o fato é que raramente nos contentamos com o que temos. Insaciáveis, a nossa compulsão de “engolir” é enorme. Não só comida, mas bens, coisas e até pessoas que fazem parte do nosso ambiente, na medida em que, num mundo extremamente competitivo como o nosso, nos apropriamos física, mental e psiquicamente de tudo ou de todos. Engolir é fazer descer o bolo alimentar da boca para o estômago, deglutir. Simbolicamente, é superar alguém, sobrepujar, vencer, aniquilar.  

 SALOMÃO
Religiosamente, para muitos escritores católicos, sempre bem intencionados, comer e beber podem ser motivos de felicidade, tornando-se santificados os atos a eles referentes, praticados moderadamente, uma dádiva de Deus, enfim, para que o homem se deleite. Muitas passagens bíblicas, contudo, fazem referência ao descontrole alimentar. No Livro dos Provérbios, por exemplo, encontramos: Não estejas entre os bebedores de vinho nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência vestirá de trapos o homem.

DANTE  ALIGHIERI
Nesse sentido, para os primeiros padres da Igreja católica, a gula seria o primeiro dos pecados capitais porque, a rigor, é a porta de entrada de todos os demais. Dizem-nos eles que o primeiro pecado do homem está ligado à gula, embora saibamos que por trás dela (comer o fruto proibido) estavam a tentação e a inveja. Adão e Eva só pecaram quanto à gula, realmente, porque, depois de tentados, comeram o fruto proibido,  açulados pela inveja. Aliás, para Dante Alighieri, na sua A Divina Comédia, a gula era um pecado maior do que a luxúria. Justificava sua opinião, afirmando que enquanto a luxúria se concentrava no culto do corpo do outro, o guloso se concentrava só no seu próprio corpo, na sua sensualidade, no seu ventre.


A  SANTA  CEIA ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

Para os antigos gregos, a palavra agape, amor fraternal, afeição, por iniciativa de São Paulo, ao que parece, foi usada para designar as refeições dos primeiros cristãos  quando de suas reuniões, muitas clandestinas, evocativas da Santa Ceia. A palavra traduzia uma ideia de felicidade resultante da participação terna, amorosa, numa refeição comunitária, na qual se celebrava também o rito eucarístico. Aos poucos, incorporou-se a ágape o sentido de um almoço de confraternização, de um banquete por motivos diversos (sociais, políticos etc.). Entre os primitivos cristãos, ágape era também um nome associado à caridade,  sendo um sinônimo de esmola. 


GULA  (S. DALI, 1904 - 1989)
Dante concebeu o Purgatório em oito terraços ou patamares. Os gulosos eram castigados no sexto, onde ficavam presos sob fortes tempestades, com chuvas, neve e granizo, além de atacados constantemente por Cérbero, o cão tricéfalo infernal. Os gulosos viviam totalmente nus nesse terraço, em derradeiros e permanentes estágios de desnutrição, ainda que não morressem. Uma reprodução dantesca, devidamente adaptada ao mundo católico, da pena imposta a Tântalo, o desgraçado filho de Zeus e da ninfa Pluto da mitologia grega.

ADÃO E EVA
( TICIANO , 1490 - 1576 )
Além de gerar sempre vários problemas de saúde, a gula, para os primeiros padres da Igreja, era o pecado capital que mais induzia à prática dos outros. Assim, para eles havia, por exemplo, a avareza da gula (acumular comida e bebida, escondê-las). A gula se tornaria também soberba quando alguém passasse a esbanjar a fartura de alimentos e bebidas não como uma bênção, mas como demonstração de status social, como motivo de orgulho, de ostentação. 

Os primeiros padres da Igreja consideravam, sobretudo, que o mal da alma era o de ficar à margem da razão, não obedecê-la. Sempre haveria pecado, pois, quando o homem se afastasse da razão, que deveria regular a vida humana. Quanto maior o afastamento da razão, maior o pecado. Diziam também que os prazeres mais difíceis de ordenar eram os que chamavam de os companheiros da
TOMÁS DE AQUINO
(G.DA FABIANO, 1370-1427)
vida do homem, os ligados diretamente à sua sobrevivência, à gula e à luxúria. Sem estes prazeres a vida humana seria impossível e é por essa razão, segundo eles, Santo Tomás de Aquino principalmente, como ele expôs mais tarde no seu De Magistro, que ao gozá-los, pecando, maior a transgressão das regras da razão. Maiores as concessões que o homem fazia à sua vida instintiva, animal. 

O papa Gregório, já mencionado, citado por Tomás, disse: O vício da gula nos tenta de cinco modos, levando-nos a antecipar a hora devida de comer, a exigir alimentos caros, a reclamar requintes no preparo dos alimentos, a comer mais do que o razoável e a desejar os manjares com ímpeto de um desejo desmedido. Nesse sentido, são filhas da gula: a imundície, o embotamento da inteligência, a alegria néscia, a loquacidade desvairada, a expansividade debochada. 

EVÁGRIO
Sob o ponto de vista acima, é preciso ter em conta que há dois tipos de gula: a ocasional, a eventual, e a regular, a cometida frequentemente. As mais comuns consequências desta última são a obesidade, a embriaguez e o alcoolismo. A obesidade é chamada de mórbida quando ela pode ocasionar várias doenças e, num estágio final, risco de morte. Aliás, Evágrio e Santo Agostinho afirmaram sempre que a gula era também um pecado capital porque representava um excessivo apego a coisas materiais, mundanas, isto é, à comida e, como tal, afastava da vida celeste e era uma afronta ao ensinamento da temperança e da partilha, pois, neste último caso, aquele que come e bebe muito está tirando o acesso de alimentos a outras pessoas, agindo de forma gananciosa e egoísta.

Em 1589, o teólogo e demonologista alemão Peter Binsfeld escreveu uma lista através da qual associava cada um dos sete pecados capitais a um demônio específico, chamando-os de os príncipes dos infernos. Cada um destes demônios era o responsável pela inspiração de tentações aos humanos. No caso da gula,
BELZEBU
chamava-se esse demônio Belzebu. Na nomenclatura de Binsfeld, Belzebu aparecia sempre associado às moscas, aos vermes, às baratas, aos ratos, à pestilência e à transmissão de doenças. O cristianismo dos primeiros tempos da era cristã para formar a palavra Belzebu fundiu dois nomes fenícios, os nomes dos deuses Baal e Zebub O primeiro associava-se aos trovões e atuava na agricultura e na morte. Zebub era uma divindade da peste e, como tal, aparecia muito ligado às moscas.

GARGÂNTUA
( G. DORÉ, 1832 - 1883 )
Associado à gula, os nossos dicionários registram a palavra pantagruélico, um adjetivo, que serve para qualificar as refeições fartas, alegres e barulhentas. Falamos assim de um banquete pantagruélico. Em português, derivadas do francês, temos as palavras gargantoíce (gula), gargantuar (comer muito), gargântua gargantão, o glutão. Esta última aparece como sinônimo de comilão. Glutão é derivada do nome de Gargântua, personagem de uma extravagante e satírica pentalogia romanesca, obra-prima da literatura universal, escrita no séc. XVI por François Rabelais, que descreve as aventuras de dois gigantes, Gargântua e seu filho Pantagruel, insaciáveis comilões e beberrões. Gargântua e Pantagruel, nomes inventados por Rabelais, têm na sua etimologia radicais indo-europeus gwer ou gwel, que nos deram palavras como engolir, gula, glutão, devorar, goela, voracidade, gárgula etc.

CASANOVA
Giacomo Girolamo Casanova (1725-1798), aventureiro e escritor italiano, que sempre viveu de expedientes, de intrigas e de suas conquistas amorosas, deixou um livro, História da Minha Vida, que nos dá uma visão bastante abrangente da sociedade europeia do século XVIII. Particularmente importantes nesse livro, quanto ao tema aqui abordado, são as suas observações sobre os prazeres da boca:

Cultivar os prazeres dos meus sentidos foi em toda a minha vida a minha principal atividade; nunca fiz nada de mais importante que isso. Sentindo-me nascido para o sexo diferente do meu, sempre o amei e me fiz amar por ele o máximo que pude. Amei também a boa mesa com frenesi assim como todos os objetos feitos para excitar a curiosidade. 

Tive amigos que me favoreceram e me senti muito feliz de poder, em todas as ocasiões possíveis, lhes demonstrar o meu reconhecimento; tive detestáveis inimigos que me perseguiram e que só não exterminei porque não consegui. Jamais os teria perdoado se não tivesse esquecido o mal que me fizeram. O homem que esquece uma injúria não a perdoou, ele a esqueceu, pois o perdão é parte de um sentimento heroico de um coração nobre e de um espírito , e muitas vezes generoso, enquanto o esquecimento vem de uma fraqueza da memória ou de uma doce indolência amiga de uma alma pacífica, muitas vezes de uma necessidade de calma e paz; já que o ódio acaba por matar o infeliz que se dispõe a alimentá-lo.

Os que me consideram um sensual erram, pois a energia dos meus sentidos jamais me afastou dos deveres quando tive que cumpri-los. Pela mesma razão jamais se deveria ter chamado Homero de bêbado: laudibus arguitur vini vinosus Homerus.

Eu amei as iguarias de elevado sabor: a macarronada feita por um bom cozinheiro napolitano, l`oglio potrida, o bacalhau da Terra-Nova bem viscoso, a caça defumada para encerrar e os queijos cuja perfeição se manifesta quando os pequenos seres que neles vivem se tornam visíveis. No que diz respeito às mulheres, sempre achei que aquela que eu mais amava era a mais perfumada, e mais a sua transpiração era forte mais ela me parecia suave. 

Passagens como esta são muito comuns na mencionada obra de Casanova e resumem perfeitamente a sua arte de viver: seguir um só princípio, o dos prazeres. Para poder se refazer dos problemas que a vida lhe propunha a cada instante, Casanova buscava os prazeres de várias maneiras, neles incluindo a erudição e os jogos de espírito, mas sempre em boa companhia, sobretudo à mesa. 

BRILLAT - SAVARIN
Não é por acaso que o paladar é o mais social dos nossos sentidos. Em várias culturas, é à mesa que se realizam e concluem muitos atos sociais. Brillat-Savarin afirmou que todo ato de sociabilidade pode ser encontrado em torno de uma mesa: amor, amizade, negócios, especulação, poder, importunação, apoio, ambição, intriga. Todas as culturas usam o alimento como sinal de aprovação ou comemoração. Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826), político, advogado e gastrônomo, foi um dos mais famosos cozinheiros de todos os tempos. Escreveu uma obra maravilhosa sobre a arte de bem comer, A Fisiologia do Gosto.

O grande segredo de Casanova foi o de saber associar os prazeres da sua vida, sobretudo os da cama, à gastronomia, à sua arte de contar histórias, à sua habilidade de compor menus suculentos. Muitos que escreveram sobre ele não procuraram ir mais fundo nos seus textos gastronômicos e o viram mais como um voraz glutão. Talvez esta visão se deva ao fato de Casanova ter sabido, muitas vezes, melhorar as suas sempre oscilantes rendas, com o jogo de dados. Quando isto acontecia, ele era a imagem da magnificência, do grão senhor, assumindo inclusive o título de Cavaleiro Seingalt (por ele inventado). Nesses momentos, ele não olhava gastos para multiplicar os seus prazeres, sobretudo os da boca, tentando e experimentando tudo. Numa passagem de sua vida, certa vez o Conde Verità lhe perguntou o quanto ele estaria disposto a gastar numa refeição que oferecia a algumas senhoras na cidade de Colônia: o máximo que eu puder, para ser magnífico. Este festim por ele oferecido foi realmente suntuoso, sendo qualificado à época de barroco não só pela sua quantidade, mas, sobretudo, pela sua qualidade.


Abrindo um parêntesis, ao falar de Casanova, não posso deixar de citar aqui o maravilhoso filme de Ettore Scola, Casanova e a Revolução (La Nuit de Varennes), do qual participam, dentre outros grandes atores, dois, sempre excepcionais: Marcello Mastroianni, no papel de Casanova, e Jean-Louis Barrault, no papel do escritor Restit de La Bretonne.


Ainda dentro deste parêntesis, não podemos esquecer de citar, dentre outros, dois grandes filmes, que têm relação que o tema aqui abordado: A Comilança (La Grande Bouffe), de Marco Ferreri, e A Festa de Babette (Le Festin de Babette), de Gabriel Axel. 

Os franceses, no séc. XVIII, procuraram estabelecer uma distinção entre o glutão e aquele que sabia comer bem. A gastronomia francesa começa no final deste século, com a obra pioneira de Brillat-Savarin. Até esse século gourmand e gourmet eram sinônimos, equivaliam-se. Aos poucos, porém, gourmet passou a designar aquele que se interessava pelo que comia, que se informava sobre os alimentos que chegavam à sua mesa, sobre sua preparação, sobre os que sabiam prepará-los e apresentá-los da melhor maneira. O gourmet ritualiza as suas refeições, procura o requinte, entende da sequência dos pratos, conhece as regras do serviço, procurando fazer sempre de sua refeição, principalmente com amigos que participam do mesmo entendimento, uma ocasião especial, sendo conhecedor inclusive das bebidas, dos vinhos. Impensável, por isso, por exemplo, aproximar cervejas e gourmets. Ninguém nasce gourmet, on devient (tornamo-nos), dizem os franceses, uma arte que tem fortes ligações com os estratos superiores da cultura de uma sociedade. Já o gourmand demonstra pouco ou nenhum interesse por tudo o que acabamos de dizer, apenas quer comer, não se importando com a qualidade do que ingere.

CHOCOLATE
Em pesquisas realizadas em muitos países constatou-se que o alimento mais desejado do mundo é o chocolate. Usado pelos indígenas da América Central e do Sul, era chamado de xoacoatl pelos astecas, que o consideravam um presente enviado pelos deuses. Registros históricos nos revelam que na corte de Montezuma eram consumidos diariamente mais de duas mil jarras de chocolate e muitos quilos de sorvete, feito ao se derramar sobre a bebida a neve trazida das montanhas para esse fim por funcionários reais, excelentes corredores, que tinham livre trânsito quando nessa função. 

Cortés introduziu a bebida na Espanha no séc. XVI, de onde se espalhou pela Europa como uma espécie de droga maravilhosa, a ela se acrescentando açúcar, frutas, baunilha e várias outras especiarias. Brillat-Savarin nos informa que as grandes damas espanholas do Novo Mundo eram tão viciadas em chocolate que, não satisfeitas em bebê-lo várias vezes por dia, exigiam que os padres o servissem nas igrejas.

Aos poucos, o chocolate adquiriu a condição de ser o alimento mais ligado ao emocional das pessoas, muito consumido por mulheres no período pré-menstrual ou quando estamos tristes ou nos sentimos com carência afetiva generalizada. Pesquisas médicas orientadas por psicofarmacologistas revelaram que o chocolate é antidepressivo. Tal fato se liga à descoberta de que nas depressões, nas carências afetivas, na insegurança material, nos rompimentos de relações amorosas, o cérebro para de produzir feniletilamina (Fea). O chocolate, como se descobriu, contém Fea em elevadas quantidades. Ao comê-lo experimentamos uma sensação de bem-estar muito semelhante àquela que vivenciamos quando estamos de bem com a vida, apaixonados, por exemplo.
A feniletilamina, conhecida como o “hormônio da paixão”, é um neurotransmissor muito parecido com a anfetamina (substância estimulante do sistema nervoso, usada, por exemplo, como vasoconstritor nasal, no tratamento do mal de Parkinson etc; a benzedrina é um derivado da anfetamina). Experiências médicas vêm procurando demonstrar que o cérebro de uma pessoa apaixonada produz grandes quantidades de Fea e que esta substância é a responsável, em grande parte, pelas sensações e modificações fisiológicas de prazer que o ser humano experimenta quando apaixonado.

A estas experiências com a Fea vêm se juntando, porque semelhantes, as referentes aos feromônios (do grego, phero, transmitir, transportar, e hormona, excitar) substâncias que os animais (inclusive o ser humano) exalam continuamente pelos bilhões de poros da sua pele. Os feromônios produzem sensação de prazer através de certas reações químicas que se manifestam no interior do corpo humano. Funcionam os feromônios como mensagens bioquímicas inconscientes que os animais usam para sinalizar interesses sexuais, situações de perigo, estabelecimento de limites, de trilhas etc.

SISTEMA  OLFATIVO
Ao final, não podemos esquecer que um dos mais ativos colaboradores do paladar, da glutoneria, no caso, é o olfato, mais do que a visão. Um aroma e somos assaltados por muitas lembranças. O olfato é o mais direto dos nossos sentidos. Por isso, grande parte da gourmandise, da glutoneria é alimentada por odores, ou melhor, por um aroma, que é odor naturalmente agradável que emana de substâncias preparadas, de várias origens. O olfato contribui muito para o paladar; ambos, como sabemos, dividem o mesmo espaço, são condôminos de uma boa parte do nosso corpo. 










quinta-feira, 4 de abril de 2019

DEUSES E DOENÇAS (1)

                                       
OS   DEUSES   DO   OLIMPO

Os mitos gregos fornecem os modelos para a maior parte das condutas humanas, dando-lhes sentido e valor. São, para a cultura ocidental, aquilo que chamamos de padrões de conduta, conjunto de atitudes, posturas, modos de ser específicos, arquétipos. Conduta, lembremos, tem relação com vida interior, ou seja, acrescenta uma significação interna a um comportamento, numa dada situação. O comportamento lembra um conjunto de reações objetivas, já conduta manifesta-se com o acréscimo pessoal de uma significação interna. 

O mundo dos arquétipos é insondável. Pessoalmente, só o percebemos através de suas manifestações no nosso consciente. Os arquétipos são assim possibilidades latentes, como fatores históricos, biológicos e outros. Em função da vida que levamos, conforme as condições de tempo e lugar, as imagens arquetípicas se apresentam ao nosso consciente. Nesse sentido é que os gregos, principalmente, descreveram e deram nome a histórias e a personagens que sempre atuaram no psiquismo humano, afetando nossa vida consciente,  despojando-a de sua autonomia, gerando fenômenos de massificação, maneiras de ser, formas de alienação, doenças, patologias etc. 


Os antigos gregos já haviam percebido que muitos personagens e fatos de sua mitologia estavam, simbolicamente, por trás de suas queixas, de atitudes compulsivas, abusivas, de anormalidades e de doenças. Desde Homero (séc.IX aC), por exemplo, os antigos gregos já trabalhavam com essas ideias. No canto III da Ilíada, Príamo isenta Helena de qualquer culpa com relação à guerra entre gregos e troianos. Ela abandonara o marido,
MENELAU ( G. BROGI, 1822 - 1881 )

Menelau, rei de Esparta, para viver em Troia, com o príncipe Páris. Príamo, rei de Troia, chamando Helena, pede-lhe que se sente ao seu lado, para que, quando do cerco dos gregos à cidade, reveja o primeiro marido (Menelau), os parentes e os amigos. Diz-lhe mais que ela não é culpada de nada; só os eternos,  os deuses,  têm culpa, pois foram eles os responsáveis por gregos e troianos estarem envolvidos em tal guerra.




HELENA E PÁRIS

Este entendimento encontra a sua melhor explicação na teoria grega sobre os arquétipos, atualizada pela Psicologia nos tempos modernos. Uma frase de Jung resume o que aqui se coloca, desde
KIRON
que saibamos nos aproximar corretamente da mitologia: Os deuses gregos viraram doenças.  Não foi por acaso também que a Psicanálise redescobriu o que os antigos gregos já sabiam, conforme nos revelam, dentre muitas outras, as histórias das suas divindades médicas, de Kiron, o centauro-mestre, e das práticas utilizadas no santuário médico de Epidauro, inspiradas pelo deus Asclépio.

É neste sentido que para infernizar o nosso dia-a-dia, com uma lógica assustadora, temos o Bosque de Perséfone, que fica numa região vestibular do Hades, o Inferno da mitologia grega. É de lá que ”saem” constantemente demônios ou espectros que, invadindo o campo da consciência dos humanos, perturbam enormemente a sua vida, tipos como Phtonos (Inveja), Algos (Dor), Geras (Velhice), Lyssa (Raiva), Penia (Carência), Ponos (Fadiga), Apate (Fraude), Ate (Erro) e outros. 

O que chama igualmente a nossa atenção, na perspectiva acima, quando nos aproximamos dos mitos gregos, é o modo pelo qual podemos usá-los hoje. Ou seja, vamos a eles, diacronicamente,  recolhemo-los, lá onde se originaram, e os aproximamos sincronicamente para iluminar melhor o que estamos vivendo hoje. Mais: espanta-nos também que os deuses gregos, acentuadamente ambíguos nas suas manifestações originais preservam essa característica hoje, ou seja, conforme o caso, podem nos trazer benefícios quando devidamente “honrados” ou causar malefícios quando não “cultuados”. 

HERMES
Para que estas ideias fiquem mais claras, recorramos, por exemplo, à deusa Hécate, que vivia junto ao palácio de Hades. Para isto é preciso lembrar que na mitologia grega, as encruzilhadas são governadas por duas divindades, Hermes e Hécate. O nome do deus vem de herma, grego, pilastra, monte de pedras, uma imagem itifálica, lugar onde os viajantes paravam e o homenageavam. Hermes é o deus dos caminhos, protetor dos que neles se aventuravam.  As pedras lançadas pelos viajantes formavam o hermaion, uma forma (um montículo de pedras) de invocar a proteção do deus para que ali se fizessem descobertas felizes, se tomasse o caminho certo, se obtivesse o lucro inesperado. Hermes representava e representa hoje, de modo objetivo, todas as informações que podemos obter, provenientes não só dos quatro cantos do horizonte, dos quatro pontos cardeais, mas, também, de todos os níveis da existência. Os nomes gregos da encruzilhada, syndromos ou anfiodos,  nos remetem às ideias aqui expostas.


HÉCATE
O poder sobre as encruzilhadas era dividido por Hermes com a deusa Hécate (a que fere de longe, à distância), deusa lunar e ctônica. Ela tanto proporcionava prosperidade, favorecia a navegação, trazia a vitória nas batalhas, abundância nas colheitas e nas redes, eloquência nas assembleias, como podia, como divindade dos espectros noturnos, dos fantasmas, das aparições alarmantes, do inferno do psiquismo humano, destruir e matar aquele que ficasse parado nas encruzilhadas sem nada decidir. Ela aparecia nas encruzilhadas quando da Lua nova. Hécate simbolizava as três fases visíveis da Lua, ligadas aos três momentos da evolução vital, crescente, cheia e minguante, conceitos válidos a qualquer tempo. Era representada nas encruzilhadas por uma figura feminina de três faces, era a deusa trívia, deusa da magia, dos encantamentos, dos filtros amorosos. Na noite em que subia à Terra (vivia no Hades) postava-se nas encruzilhadas, lugar de sortilégios, de encantamentos, sempre acompanhada de animais que simbolizavam a fertilidade, lobas, cadelas, mulas, etc. Era homenageada com oferendas de alimentos, principalmente os de cor avermelhada. Será a deusa pródiga de favores para aqueles que a homenageassem mudando o seu destino, tomando novos rumos. 

AFRODITE
A encruzilhada era ainda entre os antigos gregos um lugar de muitos perigos onde Afrodite costumava também aparecer, na sua forma trívia, a Afrodite dos amores passageiros, triviais, lúbricos, amores impuros, vulgares. Por isso, na encruzilhada, em muitas tradições, encontramos símbolos que significam, conforme o caso, um desejo de esconjuração, de sacrifício expiatório, de exorcismo, de afastamento, enfim, das energias e presenças maléficas. Oratórios, imagens de santos, de entidades protetoras, ex-votos, flores, círios e velas que jamais deixavam de brilhar. Neste sentido, a encruzilhada era um lugar em que se podia encontrar também a luz, um lugar de renascimento, onde visitado por bons gênios e as fadas protetoras que muito auxiliariam na tomada da decisão mais acertada.  
  
Em Hécate, a grande deusa lunar, sintetizam-se os três aspectos da nossa vida psíquica, o infernal, o telúrico e o celeste. Cultuada e reverenciada nas encruzilhadas, ela indica para nós que as decisões humanas não se inscrevem só no plano horizontal, nas quatro direções dos pontos cardeais, as direções que recebemos quando entramos na vida, mas, acima de tudo, revela-nos a deusa que cabe a nós, pelas escolhas que fizermos, acrescentar às quatro direções mencionadas mais duas, que estão no plano vertical, a da elevação ou a da descida.  
  
Os exemplos acima nos confirmam que os deuses de um modo geral, principalmente os gregos e os romanos, como se verá, são ambíguos ao atuar como símbolos de qualidades idealizadas pelo ser humano. Zeus, por exemplo, ao mesmo tempo que pode assumir a função de fonte inspiradora de uma vida espiritual, pode, com certa facilidade, dar demonstrações explícitas de um detestável autocratismo. 


ZEUS

O arquétipo de Zeus sempre aparece associado, figuradamente, àquilo que é abundante, exuberante, exagerado, aquilo que na área médica chamam de pletórico, de pletora, que significa aumento do volume do sangue no organismo, algo que cause inturgescência vascular. Nos tipos menos avisados, menos conscientes, o arquétipo costuma levar a exageros físicos, àquilo que popularmente designamos pela expressão dar o passo maior que a perna, isto é, quando falamos de alguém que está tentando fazer tudo ao mesmo tempo, que está tentando fazer algo que vai além das suas condições ou que está assumindo muito mais responsabilidades do que realmente deveria.

Palas Athena, sempre reverenciada como deusa do elã evolutivo, aquela que garantia a equidade das leis, guia de heróis, pode, de um momento para outro, dar inexplicavelmente demonstrações de um comportamento altamente competitivo, manipulador, falso e irritadiço. Como deusa virgem, teoricamente infensa às pressões afetivas e emocionais, inimiga jurada de possessos como Ares, deus da guerra, seu irmão, inexplicável, por exemplo,  o seu comportamento ao participar com tanto afã da disputa pelo pomo de ouro que Éris lançou no salão em que se realizava a festa de casamento de Peleu e de Thetis. 


O  POMO  DE  OURO  ( JACOB  JORDANS, 1633 )  

É na mitologia greco-romana, mais do que em qualquer outra, que encontramos, principalmente com relação aos seus deuses, tantos aspectos negativos coexistindo com tantos aspectos positivos. Pode-se mesmo afirmar que esta “anormalidade” está sempre presente no “normal” comportamento dos deuses greco-romanos, ainda que o discurso religioso oficial para o grande público nada disto mencione. Embora imortais (athanatoi), imputrescíveis e isentos de preocupações e de cuidados, o que se constata na realidade é que muitos são irascíveis, trapaceiros, sexualmente desregrados, misturam-se promiscuamente com os mortais, são obscenos, cruéis e doentios. Será que podemos considerar o nosso comportamento como uma imitação do deles? Fomos feitos à imagem dos deuses ou eles foram idealizados por nós segundo o que somos?  O que fica claro disso tudo é que os gregos e romanos faziam seus deuses participar do Bem e do Mal simultaneamente, ao contrário da pregação das religiões patriarcais (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) que adotaram para lidar com o divino ideias “positivas”, monoteístas e transcendentalistas, fixando o Mal só na esfera do humano.


Os padrões de comportamento tipificados pelos deuses, entre os grego e os romanos incluíam patologias diversas, muitas delas “imitadas” pelos humanos. As nossas doenças e enfermidades, ainda hoje, têm “modelos” divinos, admitida, é claro, a prioridade arquetípica deles. Eis abaixo alguns exemplos das patologias físicas e mentais que podiam produzir   os deuses de que falamos, inclusive da farmacopeia (pharmakopoeia) e das referências à química que patrocinavam ao atuarem como curadores. 



DIONISO

Dioniso e as terapias do psiquismo  – Deus da energia vital, tanto a do mundo vegetal como a do mundo animal, energia que se renova sempre, Dioniso é a metamorfose, a transformação. É particularmente ligado à linfa vital do mundo vegetal, a seiva que no inverno se recolhe e que depois, no período estival, flui livremente para produzir frutos doces como o figo e a romã e suculentos como a uva, a melancia ou o melão.  Na sua permanente ação, Dioniso é a divindade que melhor representa o eterno fluir da energia vital que não pode ser contida ou represada. É, como tal, como se disse, o deus das metamorfoses e das transformações, o destruidor das formas que não sabem se renovar. É ele quem liberta o homem dos seus condicionamentos e atavismos pessoais para recolocá-lo, numa dimensão espiritual, em contacto com a energia universal.    

Recebeu Dioniso por essa razão o apelido de Lysios, o que liberta. No nome Lysios está embutido o radical grego lys, equivalente a lit, significando ambos separar, desfazer, dissolver, como os encontramos, por exemplo, em palavras como análise e ansiolítico, que querem dizer, respectivamente, separar em partes e afastar da ansiedade. Como Lysios, aliás, não é outra a função do deus nos Mistérios de Elêusis,  libertar os mystai (iniciados) do eu velho para fazê-los ter acesso a um outro, novo, que os faça participar espiritualmente da vida numa dimensão superior. 


MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS

Psicanalítica e terapeuticamente, os Mistérios de Elêusis podem ser vistos como uma proposta de descida à vida subconsciente a fim de serem destruídos antigos e insatisfatórios modos de ser e libertadas potencialidades lá aprisionadas. É no simbolismo da semente que desce ao interior da terra, para morrer e renascer como vegetal e frutificar, que devemos procurar certas afinidades que levam o ser humano ao autoconhecimento segundo a experiência eleusina. Morrer para renascer. Era Dioniso o guia das procissões noturnas que no outono iam em direção do santuário de Deméter, em  Elêusis (etimologicamente, chegar e encontrar), para participas dos seus Mistérios. 

É muito rica a simbologia deste mito se sabemos que a mãe de Dioniso chamava-se Sêmele, nome que lembra semente, uma personificação da Terra. Não é por acaso também que o processo iniciático dos que buscavam Elêusis começava com uma preparação (iniciação) que começava no equinócio da primavera, início do impulso vital na natureza, e que terminava no equinócio
KERAMIKÓS
de outono, com a sua queda. No fundo, uma preparação para a morte, a morte do eu velho e o seu despertar para uma nova forma de existência. Não era por acaso que o início da jornada para Elêusis tinha como ponto de partida o Keramikós, o cemitério de Atenas. A palavra cemitério (koimeterion), lembre-se, é de origem grega, significando, etimologicamente, lugar onde se dorme.  


Estas mesmas ideias nós as encontramos na Alquimia, como as temos, por exemplo, no Mutus Liber, uma coleção de gravuras publicadas na Europa em 1677, em forma de livro, que nos oferecem uma síntese da Opus alquímica. O título traduzido nos dá Livro Mudo, uma clara indicação de que o iniciado, o desperto, não precisa falar, bastando-lhe apenas viver. O título Mutus Liber faz também referência ao apelido de Dioniso entre os latinos, Liber (Lysios, em grego), como a divindade que liberta o homem das suas interdições, das suas limitações e sobretudo das suas repressões inconscientes, para pô-lo em contacto, sempre renovadamente, com a exuberância da vida e com os outros homens.  

Como deus da renovação sazonal, Dioniso sempre apareceu, por analogia, ligado à ruptura das inibições, das repressões e dos recalques Tudo que signifique bloqueio, contenção, prisão a uma forma, tem em Dioniso um inimigo natural. Neste sentido é que ele se opõe a Apolo, o deus da aristocracia grega, que, no período clássico da história do país, fixada nos seus privilégios, prerrogativas e preconceitos, “esquecera” de mudar. 


MYSTAI  ( CERÂMICA  GREGA )
Com Dioniso, o rompimento de limites é sempre perturbador, violento, tal como aconteceu com a derrocada de Atenas no séc. IV aC. Uma das expressões mais inquietantes do culto dionisíaco é a cerimônia religiosa coletiva, de caráter orgiástico, à qual se dava, em Elêusis, o nome de orgyon que tinha a finalidade de levar os mystai (iniciados) ao ekstasis (êxtase), palavra que lembra transporte, estar fora, deslocamento, esvaziamento interior, segunda fase da cerimônia, a fim de lhes dar acesso à terceira, ao entusiasmo (enthousiasmós), literalmente deus em nós, quando Dioniso os “penetrava”, estado que dava início ao nascimento de um novo eu.  

Os antigos gregos tinham no seu vocabulário muitas palavras ligadas à orgia, palavras que nos oferecem uma boa ideia do quanto os primeiros cristãos (São Paulo, especialmente) devem ter se assustado com elas. O verbo orgao, por exemplo, quer dizer, dentre outras coisas, agitação interior, sentimentos violentos e apaixonados, enquanto orgydzo significa pôr em cólera e orgyasmos aponta para a celebração de mistérios, fase em que o mystes (iniciado), tendo consumido muito kikeon (bebida enteógena à base de vinho e drogas) e dançado bastante, como orgyastes (orgiasta), recebia simbolicamente a divindade, isto é, adquiria um novo eu. Do universo semântico da palavra orgia entre os gregos fazia parte também orgas, que tanto queria dizer cheio de seiva como terra fértil porque consagrada às deusas que pontificavam com Dioniso nos Mistérios de Elêusis, Deméter e Perséfone. 


DEMÉTER   E   PERSÉFONE


SÉQUITO   DE   DIONISO
O séquito de Dioniso era barulhento. Dele faziam parte muitas mulheres, marginalizadas socialmente, chamadas mênades (de mainomenos, louco, alucinado, um dos apelidos do deus) ou bacantes (Baco é um dos nomes de Dioniso, nome grego). A histeria sempre apareceu ligada a Dioniso por causa de suas sacerdotisas. Hysterikos, etimologicamente, é aquilo que concerne à matriz, ao útero. O termo histeria já aparecia em Hipócrates, como instabilidade emocional, um movimento irregular que partia do útero (àquele tempo, só as mulheres eram histéricas) em direção do cérebro. Desde a Antiguidade até o início do século XX, certos distúrbios de comportamento (excessiva emotividade, convulsões, gritos, exaltação etc.) foram considerados como exclusivamente femininos e, como tal, devidos a reações patológicas do útero.

Esse tipo de comportamento encontra a sua melhor expressão na antiga Grécia nas mênades, chamadas também de bacantes divinas, as possuídas pelo deus, suas adoradoras,  das quais se apoderava a chamada loucura sagrada. O verbo grego que dá origem à palavra mênade, maínesthai, quer dizer ser tomado por um ardor louco, delirar. Daí, a excitação, o furor, a mania, palavra que hoje está na “nossa” psicomania depressiva. Coroadas de hera, símbolo do deus, roupas transparentes, levando um tirso nas mãos, tocando tamborins, entregavam-se a danças frenéticas. Representavam elas nessas cerimônias o espírito orgiástico da natureza, chegando algumas ao delírio, à autoflagelação e mesmo à morte. 



Rabelais, o fantástico autor de Pantagruel, sécs. XV/XVI, comparou as histéricas de seu tempo às mênades dionisíacas. Nos tempos modernos, o filósofo alemão Nietzsche voltou-se para a questão dionisíaca (As Origens da Tragédia), sendo a sua vida uma ilustração do fenômeno da possessão de alguém por um poder arquetípico (Dioniso). Possessão semelhante ocorre, por exemplo, na novela Morte em Veneza, de

Thomas Mann (1911), com o personagem Gustav Aschenbach. Luchino Visconti fará uma das maiores obras-primas do cinema, valendo-se dessa novela de Thomas Mann. Nesse filme, talvez um dos mais dionisíacos já feitos até hoje, Visconti, sem nos mostrar explicitamente o menadismo, apresenta-nos, de forma inigualável, a história de uma crise e de um conflito no qual as forças do irracional, da doença e da autodestruição acabam por se impor à tranquila e segura, mas enganosa, vida do grande músico.




Quem deu o apelido de mainomenos, o possesso, a Dioniso foi Homero. A simples presença do deus bastava para que as suas sacerdotisas chegassem ao transe, ao frenesi. Esse transe era chamado de demência divina, um comportamento do qual faziam parte a marginalização social, a vida errante e o nomadismo. Lembre-se que na Índia igual comportamento ainda é notado hoje nas sacerdotisas do deus Shiva e em práticas tântricas.


SHIVA

O frenesi, para os antigos gregos, era produzido por descontroles num lugar-sede das paixões, no interior do peito, o phrenes, junto do thymos, este, também segundo Homero, um lugar onde ocorrem intervenções misteriosas produzidas  por um daimon (assaltos do inconsciente), que desencadeava uma alteração repentina no comportamento das pessoas.  Um exemplo do que aqui se diz é Aquiles, o maior dos guerreiros da mitologia grega. Bravo e destemido como nenhum outro, ao lado de uma incomensurável ferocidade nos campos de batalha, era capaz, por outro lado, de demonstrar uma sensibilidade terna, chorosa e soluçante, feminina. Quanto isto acontecia, era inteiramente tomado pelo que lhe ditavam o phrenes e o thymos. Um ser carregado de pathos (sofrimento), um frenético dominado pelas paixões, segundo os estoicos.

A medicina de nossos dias considera a histeria um transtorno somatoforme, um distúrbio polissintomático no qual se constata a presença de vários sintomas físicos, não explicados, porém, pela condição física de quem os apresenta, sintomas que podem, contudo, apontar para doenças.