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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (3)



O   RAPTO   DE   HELENA ( FRANCESCO PRIMATICCIO , 1504 - 1570 )
                                          
Como antecedentes do poema, o mais notável fato é o rapto de Helena, rainha de Esparta, mulher de Menelau, por Páris, príncipe troiano, filho de Príamo, rei de Troia, e de Hécuba, sua mulher. São irmãos de Páris, dentre outros, Heitor, casado com Andrômaca, e Cassandra, vidente, gêmea de Heleno. A fim de reparar essa afronta, os gregos, sob o comando de Agamemnon, rei de Micenas, casado com Clitemnestra, irmão de Menelau, organizam uma expedição para resgatar Helena, que era irmã de Clitemnestra. Os gregos têm na sua expedição, como figuras principais, famosos guerreiros, Ajax, Diomedes, Ulisses, Nestor, Pátroclo e Aquiles, este o mais destemido de todos, filho de Peleu e de Tétis, divindade marinha.


GUERRA  DE  TROIA
( J.G.TRAUTMANN, 1713 - 1769 )
O poema relata apenas um curto período da guerra de Troia, então no seu décimo ano. Os ouvintes de Homero estariam no entanto familiarizados com os acontecimentos anteriores, aos quais o poeta ia se referindo no decurso da história cantada, acompanhada pelo phorminx, ou simplesmente narrada.

Nesse sentido, a história começa em tempos muito
LAOMEDONTE
( G.TROPPA , 1637 - 1733 )
recuados, quando da construção das muralhas da cidade, protegida por Zeus, rei dos deuses. Governava-a, ao tempo da construção, Laomedonte, que tivera a ideia de cercá-la, tornando-a inexpugnável. Como a cidade prosperava rapidamente, ele não descansou enquanto não viu erguida uma grande e protetora muralha à sua volta.  

Para construir a proteção idealizada, Laomedonte invocou e obteve a ajuda divina. Poseidon, irmão de Zeus, grande divindade dos oceanos e dos mares, ofereceu-se para ajudar os troianos mediante algumas recompensas. Todavia, terminada a construção da impenetrável muralha, os troianos se recusaram a cumprir o trato feito. Poseidon retirou a sua proteção de Troia, tornando-a vulnerável a ataques, apesar das suas poderosas muralhas


PARIS
Troia, por ocasião da guerra, era governada pelo rei Príamo, filho de Laomedonte, casado com Hécuba, princesa da Frígia, que, de acordo com algumas versões, lhe deu catorze filhos, citando-se, dentre eles, que nos interessam mais de perto, o nobre Heitor, a profetisa Cassandra, o vidente Heleno e o belo Páris. Quando estava grávida de Páris, Hécuba sonhou que este filho seria a causa da destruição total da cidade, sonho confirmado por um oráculo. Para o bem de Troia, entretanto, Hécuba decidiu abandonar o filho à morte, expondo-o no monte Ida. Mas Páris foi salvo por pastores e cresceu como um deles, ignorando a sua origem real. 

Bem antes do início da guerra, Zeus decidira que Tétis, uma nereida, se casaria com Peleu, um mortal, rei de Ftia. Desta união nasceria Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos. Toda a sociedade olímpica foi convidada para a festa, com exceção, por razões óbvias, de Éris, a deusa da discórdia. Vingando-se da afronta, Éris lançou ao salão onde se realizava a festa um pomo de ouro, com  a inscrição “à mais bela”. Tanto Hera, a esposa de Zeus, como Palas Athena, deusa virgem, e Afrodite, deusa do amor, reclamaram o pomo dourado, pedindo que Zeus arbitrasse a disputa, o que ele sabiamente recusou, fazendo-se substituir, por uma escolha feita ao acaso, por Páris, que vivia como um pastor perto de Troia.  


O  JULGAMENTO  DE  PARIS  ( P.P.RUBENS , 1577 - 1640 )

As deusas, interessadíssimas na disputa, foram então a Páris e tentaram suborná-lo, prometendo-lhe, cada uma delas, o que julgaram ser o melhor para ele. A deusa Hera ofereceu-lhe o continente asiático com todas as suas riquezas; Palas Athena, a poderosa filha de Zeus, ofereceu-lhe a sabedoria e a vitória em todas as batalhas; Afrodite ofereceu-lhe o amor na pessoa da mais bela mulher do mundo, a espetacular Helena, casada com Menelau. Páris optou pela oferta de Afrodite. As duas deusas preteridas tornaram-se de imediato grandes inimigas da deusa do amor, inimigas implacáveis, e, como tal, dispostas a causar a destruição de Troia. 

HELENA   E   PARIS  , 1788  ( J. L. DAVID )

Pronto para a conquista de Helena, Páris dirigiu-se antes ao palácio real de Troia, onde foi reconhecido por Cassandra e aceito por Príamo como seu filho legítimo. Rumou em seguida para Esparta, sendo recebido na corte de Menelau, que dela se ausentara momentaneamente por questões de família. Ajudado por Afrodite, conquistou rapidamente Helena e a levou para Troia. Quando voltou a Esparta e soube do motivo da partida da mulher, Menelau convocou um grande número de chefes gregos para irem com ele, com os seus exércitos, atacar Troia e trazer Helena de volta. É de se lembrar que em tempos idos estes chefes gregos, convocados por Menelau, tinham também cortejado Helena e firmado um acordo: ajudar aquele que conseguisse o amor dela e vingar qualquer desonra que sobre o futuro marido viesse a recair por sua causa. Foi assim que Páris pôs em andamento a concretização da profecia oracular que causaria a destruição de Troia.

Muitos dos chefes gregos, além disso, desejavam há tempos saquear a rica cidade asiática. Sabiam, entretanto, por sentença oracular, do destino que os esperava se partissem sem que uma condição, muito importante, fosse observada: Aquiles deveria obrigatoriamente participar do empreendimento. Ulisses, grande chefe grego, por outro lado, fora avisado também de que a sua participação na guerra o levaria a uma ausência de vinte anos do seu reino. Simulou então o rei de Ítaca uma espécie de loucura para não participar da expedição a Troia. Desmascarado, acabou por decidir-se a ir. 

AQUILES  MERGULHADO  NO  RIO  ESTIGE ( A.BOREL , 1743 - 1810 )

Aquiles, como combatente, era praticamente invulnerável porque ao nascer a mãe o havia mergulhado nas águas do Estige, rio infernal, tornando-o imortal, excetuada esta condição por um ponto, o calcanhar, por onde a mãe o segurara. Mais tarde, como narra o poema, uma flecha, guiada pelo deus Apolo, atingirá este ponto, matando nosso herói. Aquiles também estava ciente de que, se fosse à guerra, morreria jovem. Para livrar o filho de uma morte prematura, Tétis disfarçou-o com roupas de mulher, escondendo-o. O astucioso Ulisses descobriu o ardil, o que forçou Aquiles a se envolver na luta.

AGAMEMNON
Agamemnon, irmão de Menelau, foi eleito comandante de todos os exércitos gregos. Cerca de mil navios foram preparados para levar as tropas gregas às costas troianas, através do mar Egeu. Os ventos, contudo, quando da partida dos gregos, cessaram completamente, impedindo a partida do porto de Aulis. Consultado um oráculo através de Calcas, o adivinho da expedição, descobriu-se que Agamemnon tinha morto, numa caçada, uma corça consagrada
IFIGÊNIA  , 1788  ( J.L.DAVID )
a Ártemis, a deusa lunar. Nada faria a deusa perdoar a ofensa senão o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamemnon. Em meio a grandes tormentos e angústias, Agamemnon mandou chamar a filha sob o enganoso pretexto de a casar com Aquiles. Clitemnestra, a rainha, mãe de Ifigênia, todavia, descobriu a trama mentirosa. No momento em que a jovem estava para ser sacrificada, acalmou-se a deusa, que desistiu da exigência que impusera, voltando os ventos a soprar, o que possibilitou a partida da frota grega para Troia. 

Depois de desembarcarem num lugar errado, os gregos acabaram chegando a Troia, cercando-a; numa das extremidades do território que ocuparam, ficou o valente Aquiles com os seus homens; na
ILÍADA 
outra, o famoso Ajax. Durante nove anos tentaram atravessar as invulneráveis muralhas. Enquanto não o conseguiam, assaltavam e pilhavam cidades e localidades próximas. Ao final do nono ano, um acontecimento precipitou, porém, os acontecimentos: capturaram os aqueus duas belas mulheres, Criseida, troféu destinado a Agamemnon, e Briseida, destinada a Aquiles. Assim começou realmente a Ilíada...

Aquiles é sem dúvida a figura mais importante do poema homérico. Tétis, a nereida, sua mãe, filha de Nereu e de Doris, era lindíssima, corteja por todos os deuses. Uma sentença oracular declarara que se um filho dela com uma divindade nascesse ele se tornaria mais poderoso que o pai. Os candidatos mais próximos, Zeus e Poseidon, logo desistiram da bela nereida e procuram alguém para se tornar o seu esposo. Dentre muitos candidatos, apareceu Peleu, que, orientado pelo centauro Kiron, conseguiu submeter a bela Tétis, apesar de suas sucessivas metamorfoses e disfarces. O casamento se realizou com grande pompa no monte Pelion, recebendo os noivos inúmeros presentes. Um acontecimento, todavia, perturbou a solenidade. A deusa Éris, a Discórdia, por não ter sido convidada, como se disse, jogou no salão em que se realizava a festa o famoso pomo da discórdia, de tão triste memória, causador, para muitos, da guerra de Troia...


KIRON  E  AQUILES  ( AFRESCO )
Depois de seis filhos consumidos pelo fogo, na ânsia de torná-los imortais, Tétis resolveu mergulhar o último nas águas do rio Estige, que tinham o poder de tornar invulnerável tudo o que fosse banhado por elas. Essa criança era Aquiles, cujo calcanhar, porém, não foi banhado pelas águas, pois por ali a mãe o segurara. Para os cuidados de sua educação,  Aquiles foi enviado à gruta do centauro Kiron. Consta que o centauro-mestre, ainda que não tivesse resolvido o problema da invulnerabilidade total de Aquiles, mas para aumentar o seu desempenho físico, operou o calcanhar do nosso herói, nele implantando um osso do gigante Dâmiso, o maior corredor que já existira, jamais vencido. 

O jovem foi muito bem tratado também pela mãe do centauro, Fílira, e por sua esposa, a ninfa Cáriclo. A partir dos doze anos, foi adestrado na caça, na equitação, na medicina e em outras artes; o centauro passou-lhe o respeito pelos mais velhos, e ensinamentos claros quanto à necessidade do que eram a defesa da honra pessoal (timé) e o amor à verdade. O jovem se alimentava das entranhas de leões e de javalis, da moelas de ursos, tudo para adquirir coragem, força e vigor. Do mel, recebia doçura, afabilidade. Ao chegar à gruta do centauro, o filho de Tétis chamava-se Líguiron (agudo, sibilante, gasguito).

Calcas, o adivinho, profetizou que a cidade de Troia só seria conquistada com a participação de Aquiles e que a guerra duraria cerca de dez anos. Tétis veio do fundo do mar e escondeu o filho, vestindo-o de mulher e passando a chamá-lo de Pirra. Assim, educado como uma jovem passou Aquiles muito tempo. Chegando a profecia ao conhecimento dos chefes militares aqueus, foram eles buscá-lo, sendo-lhes difícil reconhecer no meio das moças aquele que seria o maior guerreiro de todos os tempos. Acabaram por fim encontrando-o, resolvendo Ulisses o problema. Engajado, Aquiles partiu com um amigo, Pátroclo. Tétis sabia que o filho, se fosse a Troia, teria uma glória eterna, mas sua vida seria breve. Se não fosse, viveria muito, mas sem nenhuma glória. Aquiles, conhecendo o dilema, optou pelo morrer jovem.

Já no décimo ano da guerra que não se resolvia, Aquiles e Agamemnon tiveram  uma séria desavença. Este último teve que devolver, por imposição do deus Apolo,  ao pai, a sua escrava-amante. Irritado, para substituí-la, mandou buscar a escrava-amante de Aquiles, Briseida. Atingido em sua honra pessoal, Aquiles retirou-se da luta. A vitória dos aqueus ficou ameaçada. Tétis, a mãe do herói, subiu aos céus e foi pedir a Zeus que tornasse os troianos vitoriosos enquanto Aquiles não combatesse. Zeus atendeu-a; os acontecimentos começaram a favorecer os troianos, embora a guerra ainda não tivesse chegado ao seu auge. Diante da derrota iminente, porém, Agamemnon se retratou: devolveria Briseida e prometeu dar a Aquiles vinte escravas dentre as mulheres mais belas de Troia, além de, como prêmio máximo, lhe conceder,  como esposa,  uma de suas filhas. Aquiles se manteve irredutível na sua negativa.

PÁTROCLO   FERIDO
Nesse ínterim, Pátroclo, grande amigo de Aquiles, seu companheiro de tenda, numa ação individual, partiu em socorro dos gregos, desmoralizados por sucessivas derrotas. Aquiles consentiu que o amigo partisse, emprestando-lhe sua armadura. Pátroclo, numa escaramuça, acabou sucumbindo, golpeado por Heitor, herói troiano. Tomado por imensa dor, Aquiles se reconciliou com Agamemnon, voltando à luta, apesar de seu cavalo, Xanto, que tinha o dom da profecia, lhe ter anunciado sua morte próxima. Desprezando o aviso, avançou Aquiles contra os troianos. Heitor tentou atingi-lo. O deus Poseidon interveio, livrando-os do choque mortal. Depois de vários encontros, Aquiles e Heitor voltaram a se enfrentar. Zeus se decidiu pela morte do troiano. Ao morrer, Heitor falou a Aquiles sobre a hora de sua morte, que estava bem próxima. Aquiles, tomado pelo ódio, mutilou o corpo de Heitor, nunca esquecendo que ele matara Pátroclo. 



HEITOR   MORTO  ( LOUVRE )


Nesse ínterim, as Amazonas entraram na luta, em socorro de Troia. Aquiles, com requintes de selvageria, matou Pentesileia, a rainha das mulheres guerreiras. As lutas prosseguiam, o número de mortos aumentava. A cólera de Aquiles pela morte de Antíloco, filho de Nestor (depois de Pátroclo era o amigo mais estimado por Aquiles),
AQUILES   FERIDO
foi enorme. Preparava-se o filho de Tétis para o assalto final às muralhas de Troia. Teria tomado a cidade certamente se o deus Apolo não o intimasse a parar a luta. Não sendo atendido, Apolo guiou uma flecha disparada por Páris para que ela atingisse o único lugar vulnerável do corpo de Aquiles, o calcanhar. Em meio a estertores, lançando gritos de cólera e dor, Aquiles tombou finalmente morto. A disputa pelo seu corpo foi grande, conseguindo Ulisses e Ajax recuperá-lo. Os funerais foram celebrados por Tétis, pelas Ninfas e pelas Musas. Athena passou ambrosia no corpo de Aquiles para que ele não entrasse em putrefação. Todos lhe prestaram homenagens até que o fogo acabou por consumi-lo totalmente. 

Uma versão nos informa que Aquiles teve suas cinzas reunidas às de Pátroclo e levadas para o alto de um promontório para que todos, inclusive os navegantes, vissem a urna funerária do grande herói e de seu amigo. Outras versões registram que Tétis levou a urna para uma ilha deserta, chamada Leuce, a Branca. Outros ainda contam que Aquiles, depois de morto, passou a "viver" nessa ilha, que fica na foz do rio Danúbio. Os navegantes narram, desde então, que durante certas noites são ouvidos, vindos da ilha, ruídos do entrechoque de armas, cantos guerreiros e de banquetes. Por fim, outras versões narram que o herói se encaminhou depois de morto para os Campos Elíseos, no Hades, onde se uniu a Polixena, por quem sentiu grande amor, uma filha de Príamo, rei de Troia. Outros dizem que o herói no Hades se uniu a Medeia ou com Ifigênia ou com Helena. A Odisseia nos mostra Aquiles entre os mortos num diálogo com Ulisses, quando este, realizada a  cerimônia de invocação das almas (nekyia), ouviu do eídolon do herói, arrependido, uma triste confissão, vinda do fundo de seu coração,  a de que teria preferido a vida longa, mesmo que na condição de um humilde servidor de um pobre camponês.


DIÁLOGO  DE  AQUILES  E  ULISSES  

Está hoje, devidamente assentado, por estudos históricos, arqueológicos, etnográficos, etnológicos, epigráficos, linguísticos (filologia histórica) e outros, que, por trás da Ilíada temos alguns fatos históricos bem determinados, ainda que o maravilhoso mítico poético a permeie do começo ao fim. Ninguém poderá negar que os aqueus, fundando Argos e Micenas, para sobreviver nos territórios em que se instalaram, só encontraram uma alternativa, a de buscar o mar. Pode-se inclusive admitir que se os personagens que tomaram parte na Ilíada, conforme Homero nos conta, eram fictícios, figuras do mito, a destruição de Ilion, como a de Creta, foram, ao contrário, acontecimentos bem concretos, reais, historicamente comprovados. 

Abrindo um parêntesis: este mesmo entendimento terá que ser levado também para  a abordagem da Odisseia. Em que pesem as diferenças entre os dois poemas homéricos, não podemos deixar de lado os fatos históricos nos quais a história de Ulisses encontra as suas melhores explicações e justificativas. Aborde-se a Odisseia pelo viés que se quiser, literário, mítico, linguístico etc., não há como se negar: a  Odisseia tem como base histórica principal a busca do estanho, metal inexistente no território grego.

Sabe-se que desde o período minoico, bem antes de 2.000 aC, o comércio marítimo cretense dominava o Egeu oriental. A utilização industrial do bronze era um fato que levava os cretenses a buscar no ocidente o estanho, metal que, embora em proporção não muito elevada, entrava obrigatoriamente na fabricação do bronze. Dirigiram-se assim os cretenses à Sicília, ao Adriático e a outros lugares para esse fim.




Quando os micênicos conseguiram penetrar em Cnossos, muitos séculos depois, saqueando e destruindo a cidade, Micenas se converteu na herdeira do comércio cretense, estabelecendo transações comerciais mais amplas com o ocidente, alcançando não só a Itália meridional e a Sicília como a Sardenha e a Espanha. Sabe-se, por exemplo, que no princípio do segundo milênio aC os povos que viviam na península ibérica já haviam começado a utilizar o bronze por influência dos navegadores egeus que  os visitavam. 

Enquanto historicamente a discussão das datas e fatos com relação à Ilíada apresenta poucas controvérsias, a referente à Odisseia alimenta um debate que vem se estendendo até os nossos dias, firmando-se cada vez mais, com relação a esta última, a chamada tese atlântica e, por isso, ficando bastante enfraquecida a posição dos defensores da tese mediterrânea. Ou seja, Ulisses teria ultrapassado as colunas de Hércules e navegado até o Atlântico norte, tendo chegado, quem sabe, à Islândia. Por um estudo mais acurado do texto homérico e com as contribuições a que acima nos referimos, é possível estabelecer hoje que é no canto V da Odisseia que começa o relato da navegação atlântica de Ulisses, que, como tudo indica, se baseava em descrições fenícias, conforme se descobriu posteriormente. 

Acrescente-se que os gregos micênicos, tendo adquirido um profundo conhecimento das técnicas de navegação, se guiavam muito bem pelas estrelas e, como observadores argutos, sabiam também se valer de outros fenômenos celestes. Nas suas observações, iam muito além do que sabiam os sacerdotes do santuário de Delfos, organizadores do imperialismo grego, que viviam fechados nos seus templos. 





Desde os micênicos que os gregos tinham como norma autorizar empreendimentos marítimos e viagens só entre março e outubro. Registre-se que o início anual da temporada marítima era determinado pelo aparecimento das Plêiades, grupo de estrelas situado no final da constelação de Touro. A etimologia do nome, Plêiades, nos remete ao verbo plein, navegar, em grego. Pela limpidez de sua visualização, a partir de maio, esse grupo, as Plêiades, ligava-se com muito destaque aos calendários agrícola e marítimo.

Os marinheiros gregos observaram, por exemplo, que no curso de suas aventuras marítimas em direção do sul a estrela Polar ia se acercando cada vez mais do horizonte. A medida de sua altitude, medida angular, lhes permitia avaliar a distância que percorriam. Os gregos se aproveitaram tanto das descobertas babilônicas como egípcias com relação aos céus, valendo-se delas inclusive com relação à construção de seus barcos. O trirreme grego, para navegação oceânica, com cerca de 40 m. de comprimento, como se comprovou, descendente direto dos barcos egípcios, era impulsionado por remos manejados com grande firmeza, por cento e quarenta e quatro remadores, podendo atingir uma velocidade de 22 km/hora. 


TRIRREME   GREGO 

De outro lado, muito próximos de cretenses e micênicos, por sua civilização e poder marítimo, os troianos constituíam-se num sério obstáculo para a expansão dos dois primeiros citados no Mediterrâneo. Era preciso, pois, destruir a talassocracia troiana para
RUÍNAS  DE  TROIA
não só dominar o Egeu oriental como penetrar na Ásia Menor (Anatólia). A invasão de Troia pelos micênicos se deu provavelmente entre 1.193 e 1.184 aC., como as mais recentes pesquisas históricas propõem.

Uma leitura atenta da Ilíada nos faz “sentir” que estamos diante de um texto que descreve uma guerra de conquista e que seus personagens parecem ter uma existência “real”. Ao lado dos aspectos político, social e religioso que a Ilíada apresenta, não há dúvida de que o poeta nos descreve com aceitável veracidade que o mundo micênico era constituído por um conjunto de grandes e pequenos reinos, bastante entrelaçados por razões de fidelidade ou vassalagem, dominado por uma voraz aristocracia guerreira.

As principais características do mundo grego de então foram bem destacadas por Homero, evidenciando-se dentre elas a riqueza de Micenas (riquíssima em ouro), a inexistência do cobre e do ferro, a
FUNERAL   GRÉCIA   ANTIGA
arquitetura dos palácios, a figura do anax (palavra que designa o rei, o senhor, que possui um poder que o situa acima do basileu, o simplesmente rei), o fausto dos funerais (Pátroclo), o megaron (grande sala, típica dos palácios micênicos), o costume de designar os aristocratas e mesmo os inferiores por meio de muitos epítetos, associados ao seu nome de família. 



Nesse mundo, circulava uma poesia transmitida oralmente, de geração em geração, de natureza áulica (do grego, aulé, palácio, e do latim aula, corte, sala do palácio), palaciana, com muitas fórmulas religiosas e militares. Tal poesia se renovava continuamente à medida que ia sendo cantada, sabendo-se, contudo, que os poetas (aedos ou rapsodos) guardavam na sua memória a totalidade dos versos, a maior parte deles constituída de frases feitas, constantemente repetidas. É de se notar que os epítetos abundantemente encontrados nos poemas homéricos, milhares de vezes repetidos, ganham destaque maior quando nos voltamos para os personagens mais importantes e para as grandes divindades, que chegam a ter em média uma dezena de apelidos, que pouco variam.

Tudo indica que Homero fazia-se entender perfeitamente pela aristocracia micênica, gente voltada para as armas e para o mar. Deixava essa poesia claro para eles que o presente era o passado constantemente renovado por aedos e rapsodos. Nesse discurso poético, toda a ênfase se concentrava sobretudo, na vida dos heróis, na qual se projetava a vida dos deuses, em conceitos que tanto enalteciam ou não verdades do espírito e do corpo. Por isso, em Homero, na Ilíada, principalmente, o destaque vai para palavras como kalon (belo), agathon (bom), kleos (fama, renome), timé (honra), areté (virtude, excelência), kakon (mal), É do mundo homérico que nos vêm palavras como xenos e barbaros. A primeira designa o grego que vivia no exterior, vindo de uma outra cidade grega, de uma colônia. Já o bárbaro não era grego, falava uma língua incompreensível. A palavra barbaro era uma onomatopeia evocativa de uma algaravia. Quanto à projeção do divino no humano, observe-se, por exemplo, o modo como Agamemnon exerce a sua autoridade, de modo muito semelhante ao despótico comportamento de Zeus no Olimpo, com relação aos seus pares divinos.

Qualquer que seja o viés adotado para nos aproximarmos dos poemas homéricos, o que fica claro ao final é que eles difundiram o “mundo dos gregos”, democratizando-o, fazendo-nos compreender o elevado conceito que eles tinham da sua própria cultura diante dos bárbaros. Ainda que reconhecendo o que deviam aos egípcios, cretenses, mesopotâmicos e a outros povos, eles sempre tiveram consciência de que levaram a eles, inclusive através de suas aventuras imperialistas, valores novos, por esses povos  ignorados, ou apenas conservados por eles num estado embrionário. 

A história do nascimento, da infância e da juventude e da vida adulta dos personagens heroicos  de Homero costuma se revestir de traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. A Grécia clássica procurou transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses heróis. Na realidade, entretanto, não era bem assim. Os heróis gregos, como já se observou,  são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. São apresentados como invulneráveis ou quase, mas podem ser abatidos (Aquiles). Têm graça e beleza, mas podem ser monstruosos (o gigantismo de Hércules, de Aquiles, de Teseu). São, na realidade teriomorfos, andróginos, mudam de sexo, adotam o travestismo, transitam entre o masculino e o feminino (Aquiles foi chamado de Pirra, a Vermelha), têm anomalias físicas (Hércules tinha três fileiras de dentes, era também chegado ao travestismo), têm problemas nos pés (Édipo), são transformados em serpentes (Cadmo). Com muita facilidade são tomados por monstros e demônios, pela loucura (Lyssa), pelo Erro (Até), pela Discórdia (Éris), no que acompanham as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual aberrante, cometem estupros, atacam os próprios deuses,  têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam de um modo que beira a anarquia as normas de convivência e regras de civilidade. 


GIGANTOMAQUIA  ( P. P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os excessos heroicos, a rigor, não têm limites. Violentam deusas (Orion, Ixion), são sacrílegos (Ajax agride Cassandra em recinto sagrado), são hetero e homossexuais (Hércules, Aquiles), no que, aliás, imitam os próprios deuses. Certamente, o traço mais característico e específico do herói grego era a hybris, a desmedida, em escala superlativa. Embora punidos e castigados, tentarão sempre enfrentar os deuses, como se fossem iguais a eles, podendo, contudo, ajudá-los (Gigantomaquia). Ambivalentes e monstruosos, os heróis gregos, pelo seu comportamento, lembram a fluidez dos tempos primordiais, quando os elementos constitutivos do cosmos ainda não haviam se assentado. Um período onde as irregularidades e os abusos eram comuns, período do cosmos ainda em formação. Com o "mundo dos homens", onde as desmedidas, as explosões temperamentais e os excessos físicos e emocionais devem ser proibidos, ou, pelo menos, controlados, os heróis tornaram-se figuras extravagantes. Com eles, encerra-se o chamado período heroico da mitologia grega, definido por Hesíodo. 

Os heróis gregos enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos revelam também a situação de conflito do psiquismo humano, pelos combates, em última instância, que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas (monstros, malfeitores, gigantes), de tendências regressivas, uma espécie de Fatum a persegui-los. Sempre a vida como luta (agonística), como criação de novas formas de relacionamento com o mundo, a partir das lutas internas, as conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização constantes. Pressões internas, projeções imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas. De outro lado, o mundo com seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores. Ao lado dos ingredientes da vida heroica, da excepcionalidade no seu agir (areté) e da honorabilidade pessoal (timé), que estão na base das vitórias interiores, sempre, por outro lado, as ameaças de origens inconscientes, a vaidade, o renome através da consideração pública.


 HERÓIS   GREGOS   

Os heróis de Homero “viveram” entre um período histórico que vai do Heládico recente ao início do Arcaico. Na escala dos metais, faziam parte da chamada idade do bronze, um período da civilização que veio depois do chamado período calcolítico. Todo o período do bronze é conhecido pelo desenvolvimento da tecnologia desse metal, o bronze, essencial para a civilização grega desse período, período situado entre o fim do neolítico e o começo do arcaico, dominado pelo ferro.

Os guerreiros que participaram da guerra de Troia eram responsáveis pela confecção de suas próprias armas, sendo muito usados na Ilíada o substantivo khalkos  (bronze), e o adjetivo khalkeion (brônzeo) embora Homero, que viveu na idade do ferro, se traísse, usando vez ou outra o substantivo sideros (ferro), como na passagem (Ilíada, IV) em que faz a descrição da flecha de Pândaro, com ponta de ferro, que fere Menelau.

Ficamos espantados até hoje quando tomamos conhecimento das características das armas ofensivas e defensivas usadas na Ilíada, designadas indistintamente pelo vocábulo teukhos (equipamento, utensílio). Chama nossa atenção, por exemplo, quanto às armas ofensivas, as lanças, os dois tipos, um chamado dory e outro enkhos. O primeiro tipo era pontiagudo e brilhante, bem menor diante do outra. Idomeneu, porque gostava de usar essa lança,  era conhecido pelo apelido de douriklytos (o famoso pela lança dory). A outra lança chamava a atenção pelo seu tamanho, pois “projetava a sua sombra longe”. A lança de Heitor, por exemplo, tinha onze
TEXTO  DA  ILÍADA
côvados, o que equivale  a mais ou menos sete metros de comprimento. A lança de Aquiles, pelo seu peso, não podia ser manejada por ninguém a não ser ele. Quando Pátroclo, que era fortíssimo, tentou usá-la, não conseguiu, faltou-lhe braço para tanto. Esta grande lança do Pelida fora um presente de Kiron a Peleu, pai do nosso herói.  Muitos heróis da Ilíada gostavam de usar junto de sua espada (xiphos), na cintura, uma espécie de facão, de grande punhal (makhaira), que tanto servia para fazer cirurgias como sacrifícios. 

Os combates da Ilíada privilegiam a luta corpo-a-corpo. Há bem menos referências a lutas travadas a distância. Entre os aqueus, por exemplo, Teucro, irmão bastardo de Ajax Telamônio, embora sobrinho de Príamo e tendo participado ao lado do irmão junto dos gregos, era um exímio arqueiro. Na Ilíada, entre os arqueiros, sempre considerados negativamente,  indignos,  sem ardor, podemos citar Pândaro e Páris.  

Famosas na Íliada eram as couraças (thorakes) como armas defensivas, feitas de bronze (khalkeothorekon). A mais famosa era a de Aquiles, fabricada por Hefesto, “mais brilhante que os raios de fogo”. Outra couraça famosa foi a que Agamemnon ganhou de Ciniras, rei de Chipre, profusamente decorada. Os gregos davam o nome de mitra a um cinturão largo. Quando em combate, davam preferência a um tipo especial chamado zoster, que cobria a parte inferior da couraça. 


AQUILES  ,  O   HERÓI

Homero sempre usou para descrever as armas dos heróis da Ilíada uma adjetivação extremamente favorável: “armas nobres e ilustres”, “armas belas”, “armas policromadas, esplêndidas”, “armas brônzeas”. As armas do Pelida eram “extraordinárias (pelotia), admiráveis (thauma), belas (kala), nobres (aglaa)”. O escudo (aspis) do Pelida, por exemplo, era uma obra de arte: dele faziam parte cinco camadas, duas de bronze, duas de estanho e uma de ouro. 

Além da proteção da cabeça, do peito e dos braços, os heróis homéricos usavam uma proteção para as pernas, as chamadas grevas (knemides), uma armadura de metal, composta de placas, que iam do joelho até os pés. As belas grevas de Aquiles, fabricadas por Hefesto, eram feitas de estanho, com fivelas de prata. Para a proteção da cabeça, os heróis usavam o elmo (korys), um capacete feito geralmente de bronze, enfeitados com penachos de crina de cavalos. O penacho do capacete de Aquiles era dourado. 

Depois da morte de Aquiles, as suas armas  deveriam ter sido entregues ao melhor dos guerreiros aqueus depois dele. As armas seriam, então, de Ajax Telamônio, o melhor, excetuando-se Aquiles. Todavia, as armas foram entregues a Ulisses, o que provocou a ira do Telamônio. A competição entre Ulisses e Ajax pelas armas do Pelida foi vencida pelo primeiro, mais por causa da sua eloquência do que pelos seus méritos bélicos. Os chefes gregos que as destinaram ao rei do Ítaca levaram mais em consideração mais o discurso de Ulisses do que as suas virtudes (areté), as suas habilidades no campo de batalha. A prevalecer estas últimas, as armas deveriam certamente ter ido para as mãos do Telamônio. Desta areté, lembre-se, faziam parte, para o herói homérico, não só a vitória, ou seja, a morte do inimigo como o ação de despojá-lo de suas armas, belíssimas no geral, e de ultrajar o seu cadáver. 

A fim de se ter uma ideia de conjunto da Ilíada, para estudo, acho interessante fazer um resumo dos cantos, antes de se explicá-los, com a expectativa de que esta seja a primeira camada de uma leitura que ao correr dos anos vá se estratificando de modo a que novas camadas possam não só ir se depositando sobre a anterior, mas completando-a, alargando-a, consolidando-a e jogando-nos noutras direções. Acredito que já tenha sido possível perceber que a leitura (o estudo, melhor dizendo) dos poemas homéricos é algo que demanda vontade, tempo e persistência.  O estudo dos temas e sub-temas que dele fazem parte se constitui certamente num projeto que se inscreve naquilo que os antigos chamavam de erudição e que lembra também o que entendemos por esotérico. A erudição nos lembra algo que vai se formando, se construindo, e, como tal, é algo que não se realiza nunca. Já o esoterismo aponta para o que é reservado ao interior, a poucos; por isso, por oposição ao exotérico, o que, do primeiro, pode ser difundido no exterior, sempre bem menos do que naquele se contém, se aprofunda e exige. Por isso, o exotérico é acessível a um público bem maior, no geral apenas curioso e diletante. 

ODISSEIA , EDIÇÃO  DE  1815
Cabe ainda lembrar que um bom número dos antigos estudiosos gregos das duas epopeias dividiram-se em dois grupos, os unitários e os separatistas. Os primeiros sempre achando que os dois poemas haviam sido escritos por um mesmo poeta (ou por um mesmo grupo). Os outros eram partidários daqueles que atribuíam uma autoria diferente aos poemas. Para estes, A Ilíada seria efetivamente um poema histórico, épico, ou seja, homérico, enquanto a Odisseia seria mais um romance (o primeiro romance escrito), mais fantasioso, “romanesco”. Unitários ou separatistas, cada grupo, ao longo dos séculos, sempre defendeu o seu ponto de vista com muita garra, recheando-o de muitos argumentos, dados e citações. Já ao tempo dos antigos gregos, observe-se, dava-se o nome de corizontes aos defensores do ponto de vista separatista, do verbo grego chorizein (separar).  


                                                   






sábado, 3 de dezembro de 2016

DRACO, URSA MINOR

                                    


CONSTELAÇÕES   DO  DRAGÃO  E  DA  URSA  MENOR

DRACO é uma constelação conhecida desde tempos pré-históricos, ora representada por um dragão, ora por uma serpente. O visual do monstro, conforme a cultura e o período histórico, incorporava à sua forma réptil pernas, asas de morcego, escamas, garras, cauda bífida etc. Sempre agressivo, perigoso, o monstro, em países ou regiões onde há animais muito grandes (crocodilos, serpentes como a anaconda  e a sucuri), incorpora muitos dos traços desses animais, quando não os reproduz totalmente. A presença desses seres dracônticos nos mitos, lendas e contos é atribuída por muitos a vagas lembranças que o ser humano conserva de períodos muito recuados da sua história, tudo muitas vezes colorido com os exageros que ficam por conta da imaginação.

Etimologicamente, a palavra dragão (drakon, o macho, e drakaina, a fêmea, em grego) vem do verbo derkomai, que significa “olhar fixamente”, aqui no sentido de um olhar devolvido e também de um olhar penetrante. Os judeus lhe dão o nome de tannin, grande serpente, cuja origem está ligada ao chacal (tan), animal necrófago. Em qualquer tradição, o dragão aparece invariavelmente ligado a funções de vigilância devido à sua capacidade de ver tudo, de nada lhe escapar. 



APOPHIS

Os cenários dos quais os dragões fazem parte se ligam a períodos em que a ordem cósmica estava em vias de se constituir, períodos em que eles representam o comando das forças regressivas que vão se opor às forças evolutivas. Nesta perspectiva, o dragão é um agente do caos. Neste papel encontramos, por exemplo, entre os egípcios, o monstro Apophis, que simboliza a esterilidade, por oposição aos deuses Osíris e Ísis, que representam a fertilidade do rio Nilo.


ZEUS   E   TIFON

Na Grécia, as forças da destruição da ordem cósmica serão representadas por Tifon, o maior dos monstros da mitologia grega, filho de Geia e do Tártaro. Os caldeus viram estas forças simbolizadas pela figura de Tiamat, monstruosa personificação feminina do mar, que deu nascimento ao mundo, É representada como uma força cega do caos primitivo contra a qual entram em luta os deuses inteligentes e organizadores, representados por Marduk. 


TIAMAT   E   MARDUK

Os dragões encarnam sempre o mal maior que os seres humanos têm que vencer quando se dispõem a buscar o bem. Se o dragão aparece, por exemplo, em cenários que lembram, esterilidade, seca ou gelo, o tesouro será então a fertilidade, muitas vezes representada por uma princesa, por uma heroína. Se, por outro lado, o ser humano pensa na vida subconsciente e nos seus monstros, o herói que deve enfrentá-lo é a Razão que tem por missão a restauração da integridade psíquica.

Nos mitos de criação, dragões são criaturas violentas e agressivas, como dissemos, que devem ser vencidas pelos deuses, uma ilustração da eterna luta entre as forças da luz e as forças das trevas. Mais tarde, a tarefa de lutar contra os dragões foi passada para os heróis ou ancestrais de antigas linhagens, no seu papel de agentes da ordem. Nas lendas e contos, a morte do dragão é frequentemente um teste que se oferece ao herói; se ele vence, entrará na posse de
  MIGUEL  VENCENDO  LÚCIFER
GUIDO  RENI ( 1635 )
um tesouro ou libertará uma princesa. Fácil é depreender de tudo isto que o dragão é um símbolo do elemento bestial que há em todo ser humano, elemento que deve ser derrotado com firmeza e determinação. No judaísmo, o dragão personifica o elemento diabólico, o componente luciferiano que o arcanjo Miguel derrotou. Miguel (mi, quem?, ka, como, El, Elohim,  em hebraico, ou seja, aquele que é como Deus), como sabemos, é  arcanjo da mais alta hierarquia. Seu inimigo é Samael, um anjo caído que lidera as forças do mal do Sitra Achra. 

No extremo-oriente, a visão do dragão é outra, bem diferente. Ele é considerado como portador da felicidade, sendo capaz de produzir a poção que dá a imortalidade. Na China, ele representa o yang, uma das imagens da dualidade cósmica no seu aspecto masculino, positivo, ligado aos céus, à luz, ao calor, ao sul, ao imperador. Tem a ver com procriação, fertilidade, atividade, sendo seu desenho usado frequentemente na decoração para desviar ou afastar os maus espíritos. As figuras do dragão faziam parte da indumentária de aristocratas (os famosos brocados chineses), sendo regulamentado o seu uso. Os dragões trazem raios e chuvas, realizando-se para tanto os seus festivais. No Japão, encontramos a figura do dragão associada, como divindade, à produção de chuvas. 



AS   HESPÉRIDES   ( ALBERT  HERTER )

Entre os gregos, a origem desta constelação, Draco, está relacionado com três mitos. No primeiro, temos a história do dragão que guardava os pomos de ouro num jardim que ficava no extremo-ocidente. Nesse jardim viviam as ninfas do poente, as Hespérides, filhas de Nix, a deusa da Noite, Egle (a brilhante), Eritia (a vermelha) e Hesperaretusa (a do poente). Nesse jardim também vivia o titã Atlas, que, punido por Zeus, quando da vitória dos olímpicos sobre os Titãs, sustentava o céu para que ele não voltasse a constranger a terra.  Esse mito, como sabemos, está ligado ao terceiro trabalho de Hércules, dizendo respeito assim ao signo de Gêmeos.



GIGANTOMAQUIA

Para que a vitória do filho de Alcmena fosse devidamente comemorada, pois vencera o monstruoso dragão, filho de Tifon e de Équidna, e se apossara dos pomos, presente de Geia quando das núpcias de Zeus e Hera, o dragão foi para os céus como uma constelação circumpolar. Outra versão nos conta que a origem desta constelação está relacionada com a Gigantomaquia, com a luta travada entre os Gigantes, filhos de Geia, e os deuses olímpicos. Mutilado Urano por seu filho Cronos, seu sangue caiu sobre Geia. Assim fecundada, Geia gerou essas pavorosas figuras para se vingar dos olímpicos (Zeus) que haviam lançado os Titãs, seus filhos, no Tártaro. Eram figuras imensas, extremamente fortes, cabeleira desgrenhada, barba hirsuta, corpo disforme, pernas em formas de serpentes. Hércules terá decisiva participação nesta batalha. Os gigantes, como sabemos, só poderiam ser vencidos com a colaboração de um mortal (Hércules como filho de Alcmena tinha um lado mortal). A batalha foi tremenda. Os gigantes lançavam contra os senhores do Olimpo enormes troncos de árvores, rochedos, lava de vulcões e, especialmente, dragões que retiravam das entranhas da terra. O alvo predileto dos gigantes ao usar os dragões como petardos era a deusa Palas Athena, estrategista dos olímpicos na Gigantomaquia.

Imagens da desmedida, entregues à vida instintiva, brutais, corpulentos, como sáurios sobreviventes de períodos pré-históricos, os gigantes simbolizam as forças regressivas que no ser humano se opõem ao seu esforço evolutivo. No caso, segundo a lição deste mito, o ser humano que, ao assim se esforçar, não deve contar só com as forças do alto para triunfar sobre suas tendências involutivas, que lhe são imanentes. Deve também procurar despertar o herói que há dentro dele, o eu superior, responsável pela função espiritualizante para que a vitória fique assegurada. Vencidos os gigantes, seres dracônticos, depois de intensa luta, os deuses, por sugestão de Palas Athena, resolveram colocar nos céus a figura do dragão para que o episódio fosse lembrado para sempre.



APOLO   MATA   PYTHON

Outra versão sobre a origem de Draco nos conta que Apolo para tomar posse do oráculo de Delfos teve que matar a drakaina Python, que Geia designara para vigiar o santuário. Esta drakaina, gerada pela própria Geia, tinha também o nome de Delfine. O nome Delfos, como se sabe, está relacionado com a palavra grega delphys, útero. O Oráculo estava sob a tutela das divindades femininas, Geia, a Grande-Mãe, e de Themis, deusa titânida. Ao conquistar o Oráculo, Apolo sinalizava que as divindades representativas do mundo patriarcal haviam assumido o poder cósmico. Acrescenta então Apolo ao seu nome o  epíteto de Delfinio. A partir de então, sentadas sobre bancos forrados com a pele do dragão, sacerdotisas, chamadas pitonisas ou sibilas (profetisas, adivinhas), em transe, falarão em seu nome, respondendo aos que se dirigiam ao local em busca de uma
UTHER   PEDRAGON
orientação para as suas aflições. Para que esse grande feito do deus solar fosse lembrado para sempre, a imagem do dragão, na forma de uma constelação, foi colocada no polo norte celeste. Lembremos que a ligação do dragão com as profecias também aparece em outras culturas, como a celta. Uther Pedragon, pai do rei Arthur, por exemplo, quando viu um dragão voando nos céus entendeu o sinal como uma antecipação do seu futuro (guerra e conquista da Inglaterra).

O dragão é, no geral, um símbolo sempre relacionado com as divindades femininas, as Grandes-Mães. Por isso, vencer o dragão é
DRAGÃO   DA   CÓLQUIDA
conquistar as forças ctônicas da natureza, libertando-se assim a fertilidade. Sempre ligado à função de guardar templos, tesouros ou santuários, o dragão é encontrado também em lugares ermos, abandonados, no fundo de grutas, na profundeza dos mares, em palácios em ruínas.   Um exemplo é o dragão da Cólquida (mito do Velocino de Ouro) que os argonautas mataram, sob o comando de Jasão, para se apoderar do maravilhoso tesouro guardado no bosque do deus Ares. 

Os dragões, segundo a sua morfologia, indicam as áreas da vida humana em que atuam. Assim, dragões com bico e pés de águia apontam para elevação, para um potencial celeste; com corpo de serpente, para o mundo subterrâneo, para a vida subconsciente; com asas de morcego, sugerem elevação pelo intelecto; com cauda de leão, apontam para submissão ao racional.  Temos também o caso do dragão de sete cabeças que é descrito no Apocalipse, relacionado com os sete pecados mortais: a cabeça humana equivale ao orgulho; a de serpente, à inveja; a do camelo, ao ódio; a do caracol, à preguiça; a da hiena, à curiosidade; a da mulher, à luxúria.


DRAGÃO DE SETE CABEÇAS ( À ESQ. )
SÃO  MIGUEL  E  SEUS  ANJOS ,  LUTANDO  CONTRA  O  DRAGÃO  (DIR. )
ALBRECHT   DÜRER , 1496



PRIMA MATÉRIA
O dragão, como se disse, tem relação com os aspectos devoradores da Grande-Mãe. Na Alquimia, é um dos nomes da Prima Materia, caótica, o irredutível elemento do mundo natural que não pode ser espiritualizado. Na Psicanálise, por exemplo, dragões devorando crianças podem ser indicação de tendências incestuosas. Dois dragões lutando sugerem putrefação, desintegração psíquica. 

Admitindo-se a existência de dragões em períodos muito recuados
E. DACQUÉ ( 1878 - 1945 )
da história da Terra (Paleozoico? Mesozoico?), o fato é que os seres humanos jamais os viram, pois só apareceram milhões de anos depois do desaparecimento dos monstros pré-históricos. Estudiosos como Edgard Dacqué elaboraram, entretanto, uma teoria fundamentada na hipótese de uma memória original que tenha ultrapassado os limites do mundo humano e atingido as camadas profundas de sua história evolutiva onde estariam conservadas as imagens dos maiores vertebrados que já existiram, como os dinossauros. 



PSICOSTASIA

Para os egípcios, além do dragão Apophis, havia também o dragão devorador das almas que atuava na psicostasia, juntamente com Osiris, Toth e Anubis.  Este dragão era formado por três animais muito comuns no Egito, dois das águas do rio Nilo, o crocodilo e o hipopótamo, e o leão, a cabeça do monstro. Seu nome era Ammit, o devorador. Comido o coração daquele que era condenado na psicostasia, tínhamos a sua morte definitiva, seu desaparecimento no nada.  Os egípcios o viram nos céus no agrupamento de estrelas situadas entre as latitudes de 63º N e 81º N. 

A constelação do Dragão ocupou na antiguidade uma configuração bem maior do que a que tem hoje. Ela incorporava as duas Ursas, a Maior e a Menor. Esta última figurava como as asas de Draco. A principal estrela de Draco, Thuban, no ano de 2.700 anos AC, ocupava a posição de estrela polar, o que fazia do dragão o guardião do centro em torno do qual todo o universo girava. Como circumpolar, a constelação do Draco nunca se põe, o que significa dizer que ela nunca "dorme", como os dragões. Na antiguidade, alguns cartógrafos desenhavam a figura de Hércules (constelação próxima) com um pé sobre a cabeça do dragão.  


PTOLOMEU
Thuban encontra-se hoje a 6º45´ de Virgem, sendo, segundo Ptolomeu, da natureza de Marte e de Saturno a sua influência. No geral, Draco é considerada através de sua estrela alfa. Sua proposta: o tema do “tesouro” e de sua respectiva proteção e vigilância. Pode isto significar num mapa zelo muito cuidadoso por algo a que de algum modo a pessoa esteja ligada, uma ideia, uma forma de arte, uma atividade profissional etc. A influência de Draco (Thuban) também diz respeito ao ato de se dar ou de se compartilhar “tesouros”, inclusive quanto às dificuldades que desse ato decorrem. Nesta última hipótese, podemos ter indícios de personalidade de natureza soturna, sombria. A grande pirâmide de Khufu foi construída, por volta de 2.200 aC,  de modo apontar o seu pico para Thuban.


CONSTELAÇÕES   DO   DRAGÃO
E  DA  URSA  MENOR  
URSA MINOR – Esta constelação, diante da Ursa Major, ocupa uma posição de bem menor importância nos céus, tanto pela sua configuração como pela sua luminosidade. Os gregos, por muito tempo, a consideraram como uma ninfa das florestas ou como Arcas. No primeiro caso, a viram como uma dríada, ninfa das árvores, companheira de Calisto já transformada em ursa. O nome “dríada” tem, como sabemos, origem na palavra grega dryas, que nos chegou pelo latim. A dríada ou dríade é a ninfa das árvores e por extensão das florestas. Ninfa, em grego, é a jovem em idade de se casar. Lembremos que o verbo latino nubere indica a jovem que se cobre com um véu, a nubente, acompanhada de um paraninfo, de um padrinho. Na Mitologia grega, as ninfas são divindades menores, ligadas à terra e à água. São extensões da própria Mãe-Terra, Geia, em sua união com a água, úmida e geradora. Os gregos possuíam na sua mitologia os seguintes tipos de ninfa: do alto-mar, as oceânidas; dos mares internos, nereidas; dos rios, potâmidas; náiades, dos ribeiros e riachos; das fontes, creneias; das nascentes, pegeias; das nascentes; limneidas, dos lagos e lagoas; napeias, dos vales; oreadas, das colinas e montanhas; dríadas, das árvores e das florestas; hamadríadas, dos carvalhos.

NINFAS   E   SÁTIRO , 1825
WILLIAM  -  ADOLPHE  BOURGEUREAU
As ninfas são aspectos da natureza, representantes da Grande-Mãe, suas atendentes, aparecendo sempre como educadoras e preceptoras de deuses e heróis, funcionando como símbolos de seu lado feminino (anima). São, no geral, grandes cantoras e dançarinas. O grande Paracelso denominava de regio nymphidica, no processo da individuação de um ser humano, aquele estágio anterior à tomada de consciência, o que significa astrologicamente que viver nessa “região” é permanecer ligado à gruta, à quarta casa, dependente da caverna. 

A Ursa Menor, para os latinos, era a pupa, menina, adolescente,  jovem, e também boneca. Numa outra acepção, a palavra pupa era usada para designar também uma criança ainda envolta em panos.
PUPA
Mencione-se que havia em latim Pupa como nome próprio, nome de mulher. Na entomologia, pupa é um estágio intermediário entre a larva e o imago, fase em que o ser ainda não se alimenta por si mesmo. Em francês, pupe é a ninfa de certos insetos envolta por um casulo, de onde sairá a borboleta. Estas três imagens, ninfa ou pupa mais o casulo e a borboleta ou mariposa (símbolo da ressurreição) nos remetem, astrologicamente, por analogia, aos signos de Libra, Escorpião e Sagitário. A crisálida, ressaltemos, é o nome que se dá à pupa ou ninfa dos insetos lepidópteros quando em seu estado intermediário, da metamorfose entre a fase da lagarta ou larva e o imago (fase adulta de um inseto). Por extensão, crisálida (krysallis, grego, larva do inseto antes de virar borboleta). Por extensão, estado latente, embrião. Viver como crisálida é viver em recolhimento e imobilidade, em estado de preparação, em expectativa de ação ou de revelação. A palavra imago, em Psicologia, é às vezes usada para designar a representação que uma pessoa faz geralmente do pai, da mãe ou de um ente querido, formada no inconsciente durante a infância, e conservada de forma idealizada na idade adulta.


SETH
Os egípcios associaram a Ursa Menor ao chacal, um animal que acompanhava o monstro Seth, irmão gêmeo do deus Osíris, o benfeitor. Seth é uma espécie de Tifon egípcio, semelhante ao Baal, dos semitas, deus das tempestades, da destruição, símbolo das forças instintivas. Seth sempre foi identificado como um princípio do mal entre os egípcios. Seth representa as forças primitivas que se negam à cosmização. Com relação a Osiris, que simboliza as cheias do Nilo, o renascimento e a fertilidade, portanto, Seth é o deserto, a seca, a esterilidade.

O chacal é um animal que tem a ver com a morte, com os cemitérios. Considerado um animal lunar, alimenta-se de cadáveres, de restos, de matérial animal putrefata, sempre visto como um predador noturno a uivar para a Lua. É neste sentido que Anubis, com a cabeça de um chacal, é considerado como deus dos mortos no antigo Egito. Foi ele quem acompanhou a deusa Isis quando ela recolheu os restos mortais de Osiris, despedaçado pelo
CONSTELAÇÃO  DO  CÃO  MAIOR
irmão Seth, e esteve presente também na reconstituição de seu corpo. A iconografia representa Anubis pela cor negra, a cor da resina sagrada daqueles que passavam pelo embalsamamento a caminho de uma outra vida depois da morte. A estrela Sirius, Sothis para os egípcios, da constelação do Cão Maior, que une as constelações de Câncer à do Leão no Zodíaco, representava para os egípcios tanto Osiris como Seth, (re)nascimento ou morte, significados que estão implícitos na quarta casa astrológica. Lembremos que a estrela Sothis é a principal estrela da constelação do Cão Maior, que vai de 0º Câncer a 0º Leão.

Os gregos viam nesta constelação Cynosura, uma das ninfas de Creta que tomou conta de Zeus quando Reia lá o escondeu para livrá-lo da sanha devoradora de Cronos. O nome Cynosura se compõe de kyon, kynos, cão, e de ura, cauda, em grego, cauda do cão, pois. Cynosura, auxiliada por uma companheira, Hélice (a que gira, a que dá voltas, em grego, certamente uma alusão ao movimento da Ursa Menor), criou o menino Zeus, que também recebeu os cuidados de Melissa (mel, abelha, em grego), outra ninfa,  da cabra Amalteia, que o amamentou (vide Auriga), e dos demônios guerreiros, os Curetes. 

TALES   DE   MILETO
Foi Tales de Mileto, o primeiro cosmólogo grego, como astrônomo, por volta do séc. VI aC, quem discorreu sobre a existência desta constelação. Contudo, não podemos esquecer que Homero (850 aC) já registrara na Ilíada, recolhendo antiquíssimas tradições orais da Idade do Bronze, que Hefesto já havia, ao forjar o famoso escudo de Aquiles, nele representado a Terra, o Sol, a Lua, o mar, os astros, as Plêiades, as Híades, Orion e a Ursa (Maior). 

Um dos paradigmas mais constantes da mística do Islã e, em especial, da Sufi, tem relação com Polaris (Qotb), que dá título à 53ª surata do Corão (A Estrela). Os iniciados que por intensa disciplina se tornam mestres no caminho da ascese e no ensino os árabes os comparam à estrela Polaris, chamando-os de centros cósmicos. Dentre eles podemos citar, principalmente, al-Ghazali, Alghazel, (1.058-1.111) e Ibn´Arabi (1.165-1.241). 

No Tarot, esta constelação aparece associada ao arcano 21, o
ARCANO   21
Mundo ou o Universo. A figura central deste arcano, como se sabe, representa união de opostos. Trata-se do hermafrodita, que se movimenta através da dança no seu espaço, formado por uma grinalda, em forma ovalada. A par do que a tradição nos ofereceu sobre o entendimento  desta constelação, talvez o melhor que possamos dela retirar esteja nas propostas que o referido arcano nos oferece. O Hermafrodito era, na origem, o lado viril da deusa Afrodite. Originária da Ásia Menor (Astarte) e tendo chegado à Grécia através de Chipre, Afrodite parece ter sido dotada na sua primeira elaboração arquetípica, como aconteceu com outras grandes-mães, de uma espécie de “falo interior”, de um animus muito poderoso, que com a sua anima constituíam uma sizígia  fundamental. No mundo grego, este lado masculino se destaca para para dar lugar, antes de que os mitos falassem da separação dos sexos, a um ser que então se denominava Aphroditus,  um ser barbudo, com seios. Aos poucos, este ser tomará a figura de Hermafrodito, centro de um mito, no qual aparece como filho de Afrodite e do deus Hermes. 

Hermafrodito foi criado pelas ninfas do monte Ida; era um jovem
HERMAFRODITO
de extraordinária beleza. Aos quinze anos, a fim de cumprir a dokimasia, o rito de separação pelo qual todo jovem tem de passar, resolveu percorrer o mundo. Um dia, junto da fonte Sálmacis, a ninfa pegeia de mesmo nome, que lá vivia, o viu e por ele se apaixonou perdidamente. Hermafrodito, muito inexperiente nas questões de Eros, manteve-se totalmente indiferente às investidas de Sálmacis. Simulando ter desistido de seu intento, Sálmacis se afastou de Hermafrodito. De certa feita, porém, quando o jovem a julgava ausente de sua vida, banhando-se na fonte, foi por ela surpreendido. Apesar da resistência, ela o cobriu de beijos e, ao mesmo tempo em que o enlaçava fortemente (como a hera, diz o poeta), pediu aos deuses que jamais os separassem. Foi atendida. Os dois corpos se uniram num só, dando origem a um novo ser, de dupla natureza, metade macho, metade fêmea. Hermafrodito se transformou num ser de dupla natureza, mas essencialmente uno. 

O arcano 21 tem nos seus cantos quatro figuras, touro (Lucas), 
MATEUS , JOÃO, MARCOS , LUCAS

leão (Marcos), águia (João) e um homem alado (Mateus), que representam, respectivamente, os quatro elementos, terra (materialidade), fogo (criação), água (sentimentos, emoções) e ar (pensamento). A proposta do arcano, levada à Ursa Menor pode nos indicar positivamente a integração da dualidade (lembrar que Polaris está no final de Gêmeos, cujo último decanato é regido por Vênus), consciente-inconsciente, dos opostos. De outro lado, a rondar Polaris estão as dificuldades do hermafroditismo. Ressaltemos que Hermafrodito, ao descer ao fundo das águas, como o mito nos conta, percebeu que se transformara num ser cujos membros haviam perdido o seu vigor. A sua voz perdera o seu timbre viril, sexualmente se convertera num impotente, num “semivir”, “homem pela metade”. Daí, as características que podem se fazer presentes quando Polaris atua negativamente: dificuldade de síntese, dispersão, valorização exagerada do que não têm importância. 

PLATÃO
É oportuno lembrar que o tema do hermafroditismo esteve esquecido, no ocidente, por séculos, reaparecendo só na Renascença, num contexto que tem como influência principal a obra de Platão, de modo especial o Simpósio, à qual temos que juntar as imprescindíveis contribuições do Hermetismo e da Alquimia. O movimento simbolista, a partir de meados do séc. XIX, o retomará e ampliará o seu alcance literário e artístico.  

A constelação da Ursa Menor, por volta de 3.000 aC, fazia parte da constelação do Dragão (Draco), quando Thuban, alfa desta última,
era a estrela polar. A Ursa Menor estende-se de 0º de Câncer a 7º de Virgem, entre as latitudes 69º-90º N.  Sua principal estrela é Polaris, alfa, a 27º 51´ de Gêmeos, lat. 89º14`N. As demais estrelas são: Kochab, Phekard Major, Phekard Minor, Yidun e Farkadain. Para Ptolomeu, a Ursa Menor indica influências saturninas com ligeira contribuição venusiana. A tradição vê nela propostas de indiferença com relação aos acontecimentos, descompromisso, ausência de juízo previsor, atitudes e posturas sempre causadoras de problemas. 


A estrela Polaris é uma super-gigante, a mais distante da Terra, 600 anos-luz (um ano-luz é igual a 9.461 mil milhões de km., isto é, a distância percorrida pela luz, no vazio, durante um ano). Sua rotação é de 17 km/seg. É cerca de 2.000 vezes maior que o nosso Sol.  Esta estrela, na sua função de centro do polo norte celeste, será substituída por volta de 4.500 dC por Errai, estrela gama da constelação de Cepheus. A última estrela polar antes da atual foi a alfa Draconis, Thuban, por volta de 2.700 aC. As influências de Polaris acompanham as da sua constelação, presentes também possibilidades de perdas de legados e heranças. Em 7.500 dC, 11.300 dC e 13.500 dC, respectivamente, as estrelas alfa de Cepheus (Alderamin), delta de Cygnus (Azekfafage) e alfa Lyra (Wega) ocuparão a posição de estrela polar.