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sábado, 3 de dezembro de 2016

DRACO, URSA MINOR

                                    


CONSTELAÇÕES   DO  DRAGÃO  E  DA  URSA  MENOR

DRACO é uma constelação conhecida desde tempos pré-históricos, ora representada por um dragão, ora por uma serpente. O visual do monstro, conforme a cultura e o período histórico, incorporava à sua forma réptil pernas, asas de morcego, escamas, garras, cauda bífida etc. Sempre agressivo, perigoso, o monstro, em países ou regiões onde há animais muito grandes (crocodilos, serpentes como a anaconda  e a sucuri), incorpora muitos dos traços desses animais, quando não os reproduz totalmente. A presença desses seres dracônticos nos mitos, lendas e contos é atribuída por muitos a vagas lembranças que o ser humano conserva de períodos muito recuados da sua história, tudo muitas vezes colorido com os exageros que ficam por conta da imaginação.

Etimologicamente, a palavra dragão (drakon, o macho, e drakaina, a fêmea, em grego) vem do verbo derkomai, que significa “olhar fixamente”, aqui no sentido de um olhar devolvido e também de um olhar penetrante. Os judeus lhe dão o nome de tannin, grande serpente, cuja origem está ligada ao chacal (tan), animal necrófago. Em qualquer tradição, o dragão aparece invariavelmente ligado a funções de vigilância devido à sua capacidade de ver tudo, de nada lhe escapar. 



APOPHIS

Os cenários dos quais os dragões fazem parte se ligam a períodos em que a ordem cósmica estava em vias de se constituir, períodos em que eles representam o comando das forças regressivas que vão se opor às forças evolutivas. Nesta perspectiva, o dragão é um agente do caos. Neste papel encontramos, por exemplo, entre os egípcios, o monstro Apophis, que simboliza a esterilidade, por oposição aos deuses Osíris e Ísis, que representam a fertilidade do rio Nilo.


ZEUS   E   TIFON

Na Grécia, as forças da destruição da ordem cósmica serão representadas por Tifon, o maior dos monstros da mitologia grega, filho de Geia e do Tártaro. Os caldeus viram estas forças simbolizadas pela figura de Tiamat, monstruosa personificação feminina do mar, que deu nascimento ao mundo, É representada como uma força cega do caos primitivo contra a qual entram em luta os deuses inteligentes e organizadores, representados por Marduk. 


TIAMAT   E   MARDUK

Os dragões encarnam sempre o mal maior que os seres humanos têm que vencer quando se dispõem a buscar o bem. Se o dragão aparece, por exemplo, em cenários que lembram, esterilidade, seca ou gelo, o tesouro será então a fertilidade, muitas vezes representada por uma princesa, por uma heroína. Se, por outro lado, o ser humano pensa na vida subconsciente e nos seus monstros, o herói que deve enfrentá-lo é a Razão que tem por missão a restauração da integridade psíquica.

Nos mitos de criação, dragões são criaturas violentas e agressivas, como dissemos, que devem ser vencidas pelos deuses, uma ilustração da eterna luta entre as forças da luz e as forças das trevas. Mais tarde, a tarefa de lutar contra os dragões foi passada para os heróis ou ancestrais de antigas linhagens, no seu papel de agentes da ordem. Nas lendas e contos, a morte do dragão é frequentemente um teste que se oferece ao herói; se ele vence, entrará na posse de
  MIGUEL  VENCENDO  LÚCIFER
GUIDO  RENI ( 1635 )
um tesouro ou libertará uma princesa. Fácil é depreender de tudo isto que o dragão é um símbolo do elemento bestial que há em todo ser humano, elemento que deve ser derrotado com firmeza e determinação. No judaísmo, o dragão personifica o elemento diabólico, o componente luciferiano que o arcanjo Miguel derrotou. Miguel (mi, quem?, ka, como, El, Elohim,  em hebraico, ou seja, aquele que é como Deus), como sabemos, é  arcanjo da mais alta hierarquia. Seu inimigo é Samael, um anjo caído que lidera as forças do mal do Sitra Achra. 

No extremo-oriente, a visão do dragão é outra, bem diferente. Ele é considerado como portador da felicidade, sendo capaz de produzir a poção que dá a imortalidade. Na China, ele representa o yang, uma das imagens da dualidade cósmica no seu aspecto masculino, positivo, ligado aos céus, à luz, ao calor, ao sul, ao imperador. Tem a ver com procriação, fertilidade, atividade, sendo seu desenho usado frequentemente na decoração para desviar ou afastar os maus espíritos. As figuras do dragão faziam parte da indumentária de aristocratas (os famosos brocados chineses), sendo regulamentado o seu uso. Os dragões trazem raios e chuvas, realizando-se para tanto os seus festivais. No Japão, encontramos a figura do dragão associada, como divindade, à produção de chuvas. 



AS   HESPÉRIDES   ( ALBERT  HERTER )

Entre os gregos, a origem desta constelação, Draco, está relacionado com três mitos. No primeiro, temos a história do dragão que guardava os pomos de ouro num jardim que ficava no extremo-ocidente. Nesse jardim viviam as ninfas do poente, as Hespérides, filhas de Nix, a deusa da Noite, Egle (a brilhante), Eritia (a vermelha) e Hesperaretusa (a do poente). Nesse jardim também vivia o titã Atlas, que, punido por Zeus, quando da vitória dos olímpicos sobre os Titãs, sustentava o céu para que ele não voltasse a constranger a terra.  Esse mito, como sabemos, está ligado ao terceiro trabalho de Hércules, dizendo respeito assim ao signo de Gêmeos.



GIGANTOMAQUIA

Para que a vitória do filho de Alcmena fosse devidamente comemorada, pois vencera o monstruoso dragão, filho de Tifon e de Équidna, e se apossara dos pomos, presente de Geia quando das núpcias de Zeus e Hera, o dragão foi para os céus como uma constelação circumpolar. Outra versão nos conta que a origem desta constelação está relacionada com a Gigantomaquia, com a luta travada entre os Gigantes, filhos de Geia, e os deuses olímpicos. Mutilado Urano por seu filho Cronos, seu sangue caiu sobre Geia. Assim fecundada, Geia gerou essas pavorosas figuras para se vingar dos olímpicos (Zeus) que haviam lançado os Titãs, seus filhos, no Tártaro. Eram figuras imensas, extremamente fortes, cabeleira desgrenhada, barba hirsuta, corpo disforme, pernas em formas de serpentes. Hércules terá decisiva participação nesta batalha. Os gigantes, como sabemos, só poderiam ser vencidos com a colaboração de um mortal (Hércules como filho de Alcmena tinha um lado mortal). A batalha foi tremenda. Os gigantes lançavam contra os senhores do Olimpo enormes troncos de árvores, rochedos, lava de vulcões e, especialmente, dragões que retiravam das entranhas da terra. O alvo predileto dos gigantes ao usar os dragões como petardos era a deusa Palas Athena, estrategista dos olímpicos na Gigantomaquia.

Imagens da desmedida, entregues à vida instintiva, brutais, corpulentos, como sáurios sobreviventes de períodos pré-históricos, os gigantes simbolizam as forças regressivas que no ser humano se opõem ao seu esforço evolutivo. No caso, segundo a lição deste mito, o ser humano que, ao assim se esforçar, não deve contar só com as forças do alto para triunfar sobre suas tendências involutivas, que lhe são imanentes. Deve também procurar despertar o herói que há dentro dele, o eu superior, responsável pela função espiritualizante para que a vitória fique assegurada. Vencidos os gigantes, seres dracônticos, depois de intensa luta, os deuses, por sugestão de Palas Athena, resolveram colocar nos céus a figura do dragão para que o episódio fosse lembrado para sempre.



APOLO   MATA   PYTHON

Outra versão sobre a origem de Draco nos conta que Apolo para tomar posse do oráculo de Delfos teve que matar a drakaina Python, que Geia designara para vigiar o santuário. Esta drakaina, gerada pela própria Geia, tinha também o nome de Delfine. O nome Delfos, como se sabe, está relacionado com a palavra grega delphys, útero. O Oráculo estava sob a tutela das divindades femininas, Geia, a Grande-Mãe, e de Themis, deusa titânida. Ao conquistar o Oráculo, Apolo sinalizava que as divindades representativas do mundo patriarcal haviam assumido o poder cósmico. Acrescenta então Apolo ao seu nome o  epíteto de Delfinio. A partir de então, sentadas sobre bancos forrados com a pele do dragão, sacerdotisas, chamadas pitonisas ou sibilas (profetisas, adivinhas), em transe, falarão em seu nome, respondendo aos que se dirigiam ao local em busca de uma
UTHER   PEDRAGON
orientação para as suas aflições. Para que esse grande feito do deus solar fosse lembrado para sempre, a imagem do dragão, na forma de uma constelação, foi colocada no polo norte celeste. Lembremos que a ligação do dragão com as profecias também aparece em outras culturas, como a celta. Uther Pedragon, pai do rei Arthur, por exemplo, quando viu um dragão voando nos céus entendeu o sinal como uma antecipação do seu futuro (guerra e conquista da Inglaterra).

O dragão é, no geral, um símbolo sempre relacionado com as divindades femininas, as Grandes-Mães. Por isso, vencer o dragão é
DRAGÃO   DA   CÓLQUIDA
conquistar as forças ctônicas da natureza, libertando-se assim a fertilidade. Sempre ligado à função de guardar templos, tesouros ou santuários, o dragão é encontrado também em lugares ermos, abandonados, no fundo de grutas, na profundeza dos mares, em palácios em ruínas.   Um exemplo é o dragão da Cólquida (mito do Velocino de Ouro) que os argonautas mataram, sob o comando de Jasão, para se apoderar do maravilhoso tesouro guardado no bosque do deus Ares. 

Os dragões, segundo a sua morfologia, indicam as áreas da vida humana em que atuam. Assim, dragões com bico e pés de águia apontam para elevação, para um potencial celeste; com corpo de serpente, para o mundo subterrâneo, para a vida subconsciente; com asas de morcego, sugerem elevação pelo intelecto; com cauda de leão, apontam para submissão ao racional.  Temos também o caso do dragão de sete cabeças que é descrito no Apocalipse, relacionado com os sete pecados mortais: a cabeça humana equivale ao orgulho; a de serpente, à inveja; a do camelo, ao ódio; a do caracol, à preguiça; a da hiena, à curiosidade; a da mulher, à luxúria.


DRAGÃO DE SETE CABEÇAS ( À ESQ. )
SÃO  MIGUEL  E  SEUS  ANJOS ,  LUTANDO  CONTRA  O  DRAGÃO  (DIR. )
ALBRECHT   DÜRER , 1496



PRIMA MATÉRIA
O dragão, como se disse, tem relação com os aspectos devoradores da Grande-Mãe. Na Alquimia, é um dos nomes da Prima Materia, caótica, o irredutível elemento do mundo natural que não pode ser espiritualizado. Na Psicanálise, por exemplo, dragões devorando crianças podem ser indicação de tendências incestuosas. Dois dragões lutando sugerem putrefação, desintegração psíquica. 

Admitindo-se a existência de dragões em períodos muito recuados
E. DACQUÉ ( 1878 - 1945 )
da história da Terra (Paleozoico? Mesozoico?), o fato é que os seres humanos jamais os viram, pois só apareceram milhões de anos depois do desaparecimento dos monstros pré-históricos. Estudiosos como Edgard Dacqué elaboraram, entretanto, uma teoria fundamentada na hipótese de uma memória original que tenha ultrapassado os limites do mundo humano e atingido as camadas profundas de sua história evolutiva onde estariam conservadas as imagens dos maiores vertebrados que já existiram, como os dinossauros. 



PSICOSTASIA

Para os egípcios, além do dragão Apophis, havia também o dragão devorador das almas que atuava na psicostasia, juntamente com Osiris, Toth e Anubis.  Este dragão era formado por três animais muito comuns no Egito, dois das águas do rio Nilo, o crocodilo e o hipopótamo, e o leão, a cabeça do monstro. Seu nome era Ammit, o devorador. Comido o coração daquele que era condenado na psicostasia, tínhamos a sua morte definitiva, seu desaparecimento no nada.  Os egípcios o viram nos céus no agrupamento de estrelas situadas entre as latitudes de 63º N e 81º N. 

A constelação do Dragão ocupou na antiguidade uma configuração bem maior do que a que tem hoje. Ela incorporava as duas Ursas, a Maior e a Menor. Esta última figurava como as asas de Draco. A principal estrela de Draco, Thuban, no ano de 2.700 anos AC, ocupava a posição de estrela polar, o que fazia do dragão o guardião do centro em torno do qual todo o universo girava. Como circumpolar, a constelação do Draco nunca se põe, o que significa dizer que ela nunca "dorme", como os dragões. Na antiguidade, alguns cartógrafos desenhavam a figura de Hércules (constelação próxima) com um pé sobre a cabeça do dragão.  


PTOLOMEU
Thuban encontra-se hoje a 6º45´ de Virgem, sendo, segundo Ptolomeu, da natureza de Marte e de Saturno a sua influência. No geral, Draco é considerada através de sua estrela alfa. Sua proposta: o tema do “tesouro” e de sua respectiva proteção e vigilância. Pode isto significar num mapa zelo muito cuidadoso por algo a que de algum modo a pessoa esteja ligada, uma ideia, uma forma de arte, uma atividade profissional etc. A influência de Draco (Thuban) também diz respeito ao ato de se dar ou de se compartilhar “tesouros”, inclusive quanto às dificuldades que desse ato decorrem. Nesta última hipótese, podemos ter indícios de personalidade de natureza soturna, sombria. A grande pirâmide de Khufu foi construída, por volta de 2.200 aC,  de modo apontar o seu pico para Thuban.


CONSTELAÇÕES   DO   DRAGÃO
E  DA  URSA  MENOR  
URSA MINOR – Esta constelação, diante da Ursa Major, ocupa uma posição de bem menor importância nos céus, tanto pela sua configuração como pela sua luminosidade. Os gregos, por muito tempo, a consideraram como uma ninfa das florestas ou como Arcas. No primeiro caso, a viram como uma dríada, ninfa das árvores, companheira de Calisto já transformada em ursa. O nome “dríada” tem, como sabemos, origem na palavra grega dryas, que nos chegou pelo latim. A dríada ou dríade é a ninfa das árvores e por extensão das florestas. Ninfa, em grego, é a jovem em idade de se casar. Lembremos que o verbo latino nubere indica a jovem que se cobre com um véu, a nubente, acompanhada de um paraninfo, de um padrinho. Na Mitologia grega, as ninfas são divindades menores, ligadas à terra e à água. São extensões da própria Mãe-Terra, Geia, em sua união com a água, úmida e geradora. Os gregos possuíam na sua mitologia os seguintes tipos de ninfa: do alto-mar, as oceânidas; dos mares internos, nereidas; dos rios, potâmidas; náiades, dos ribeiros e riachos; das fontes, creneias; das nascentes, pegeias; das nascentes; limneidas, dos lagos e lagoas; napeias, dos vales; oreadas, das colinas e montanhas; dríadas, das árvores e das florestas; hamadríadas, dos carvalhos.

NINFAS   E   SÁTIRO , 1825
WILLIAM  -  ADOLPHE  BOURGEUREAU
As ninfas são aspectos da natureza, representantes da Grande-Mãe, suas atendentes, aparecendo sempre como educadoras e preceptoras de deuses e heróis, funcionando como símbolos de seu lado feminino (anima). São, no geral, grandes cantoras e dançarinas. O grande Paracelso denominava de regio nymphidica, no processo da individuação de um ser humano, aquele estágio anterior à tomada de consciência, o que significa astrologicamente que viver nessa “região” é permanecer ligado à gruta, à quarta casa, dependente da caverna. 

A Ursa Menor, para os latinos, era a pupa, menina, adolescente,  jovem, e também boneca. Numa outra acepção, a palavra pupa era usada para designar também uma criança ainda envolta em panos.
PUPA
Mencione-se que havia em latim Pupa como nome próprio, nome de mulher. Na entomologia, pupa é um estágio intermediário entre a larva e o imago, fase em que o ser ainda não se alimenta por si mesmo. Em francês, pupe é a ninfa de certos insetos envolta por um casulo, de onde sairá a borboleta. Estas três imagens, ninfa ou pupa mais o casulo e a borboleta ou mariposa (símbolo da ressurreição) nos remetem, astrologicamente, por analogia, aos signos de Libra, Escorpião e Sagitário. A crisálida, ressaltemos, é o nome que se dá à pupa ou ninfa dos insetos lepidópteros quando em seu estado intermediário, da metamorfose entre a fase da lagarta ou larva e o imago (fase adulta de um inseto). Por extensão, crisálida (krysallis, grego, larva do inseto antes de virar borboleta). Por extensão, estado latente, embrião. Viver como crisálida é viver em recolhimento e imobilidade, em estado de preparação, em expectativa de ação ou de revelação. A palavra imago, em Psicologia, é às vezes usada para designar a representação que uma pessoa faz geralmente do pai, da mãe ou de um ente querido, formada no inconsciente durante a infância, e conservada de forma idealizada na idade adulta.


SETH
Os egípcios associaram a Ursa Menor ao chacal, um animal que acompanhava o monstro Seth, irmão gêmeo do deus Osíris, o benfeitor. Seth é uma espécie de Tifon egípcio, semelhante ao Baal, dos semitas, deus das tempestades, da destruição, símbolo das forças instintivas. Seth sempre foi identificado como um princípio do mal entre os egípcios. Seth representa as forças primitivas que se negam à cosmização. Com relação a Osiris, que simboliza as cheias do Nilo, o renascimento e a fertilidade, portanto, Seth é o deserto, a seca, a esterilidade.

O chacal é um animal que tem a ver com a morte, com os cemitérios. Considerado um animal lunar, alimenta-se de cadáveres, de restos, de matérial animal putrefata, sempre visto como um predador noturno a uivar para a Lua. É neste sentido que Anubis, com a cabeça de um chacal, é considerado como deus dos mortos no antigo Egito. Foi ele quem acompanhou a deusa Isis quando ela recolheu os restos mortais de Osiris, despedaçado pelo
CONSTELAÇÃO  DO  CÃO  MAIOR
irmão Seth, e esteve presente também na reconstituição de seu corpo. A iconografia representa Anubis pela cor negra, a cor da resina sagrada daqueles que passavam pelo embalsamamento a caminho de uma outra vida depois da morte. A estrela Sirius, Sothis para os egípcios, da constelação do Cão Maior, que une as constelações de Câncer à do Leão no Zodíaco, representava para os egípcios tanto Osiris como Seth, (re)nascimento ou morte, significados que estão implícitos na quarta casa astrológica. Lembremos que a estrela Sothis é a principal estrela da constelação do Cão Maior, que vai de 0º Câncer a 0º Leão.

Os gregos viam nesta constelação Cynosura, uma das ninfas de Creta que tomou conta de Zeus quando Reia lá o escondeu para livrá-lo da sanha devoradora de Cronos. O nome Cynosura se compõe de kyon, kynos, cão, e de ura, cauda, em grego, cauda do cão, pois. Cynosura, auxiliada por uma companheira, Hélice (a que gira, a que dá voltas, em grego, certamente uma alusão ao movimento da Ursa Menor), criou o menino Zeus, que também recebeu os cuidados de Melissa (mel, abelha, em grego), outra ninfa,  da cabra Amalteia, que o amamentou (vide Auriga), e dos demônios guerreiros, os Curetes. 

TALES   DE   MILETO
Foi Tales de Mileto, o primeiro cosmólogo grego, como astrônomo, por volta do séc. VI aC, quem discorreu sobre a existência desta constelação. Contudo, não podemos esquecer que Homero (850 aC) já registrara na Ilíada, recolhendo antiquíssimas tradições orais da Idade do Bronze, que Hefesto já havia, ao forjar o famoso escudo de Aquiles, nele representado a Terra, o Sol, a Lua, o mar, os astros, as Plêiades, as Híades, Orion e a Ursa (Maior). 

Um dos paradigmas mais constantes da mística do Islã e, em especial, da Sufi, tem relação com Polaris (Qotb), que dá título à 53ª surata do Corão (A Estrela). Os iniciados que por intensa disciplina se tornam mestres no caminho da ascese e no ensino os árabes os comparam à estrela Polaris, chamando-os de centros cósmicos. Dentre eles podemos citar, principalmente, al-Ghazali, Alghazel, (1.058-1.111) e Ibn´Arabi (1.165-1.241). 

No Tarot, esta constelação aparece associada ao arcano 21, o
ARCANO   21
Mundo ou o Universo. A figura central deste arcano, como se sabe, representa união de opostos. Trata-se do hermafrodita, que se movimenta através da dança no seu espaço, formado por uma grinalda, em forma ovalada. A par do que a tradição nos ofereceu sobre o entendimento  desta constelação, talvez o melhor que possamos dela retirar esteja nas propostas que o referido arcano nos oferece. O Hermafrodito era, na origem, o lado viril da deusa Afrodite. Originária da Ásia Menor (Astarte) e tendo chegado à Grécia através de Chipre, Afrodite parece ter sido dotada na sua primeira elaboração arquetípica, como aconteceu com outras grandes-mães, de uma espécie de “falo interior”, de um animus muito poderoso, que com a sua anima constituíam uma sizígia  fundamental. No mundo grego, este lado masculino se destaca para para dar lugar, antes de que os mitos falassem da separação dos sexos, a um ser que então se denominava Aphroditus,  um ser barbudo, com seios. Aos poucos, este ser tomará a figura de Hermafrodito, centro de um mito, no qual aparece como filho de Afrodite e do deus Hermes. 

Hermafrodito foi criado pelas ninfas do monte Ida; era um jovem
HERMAFRODITO
de extraordinária beleza. Aos quinze anos, a fim de cumprir a dokimasia, o rito de separação pelo qual todo jovem tem de passar, resolveu percorrer o mundo. Um dia, junto da fonte Sálmacis, a ninfa pegeia de mesmo nome, que lá vivia, o viu e por ele se apaixonou perdidamente. Hermafrodito, muito inexperiente nas questões de Eros, manteve-se totalmente indiferente às investidas de Sálmacis. Simulando ter desistido de seu intento, Sálmacis se afastou de Hermafrodito. De certa feita, porém, quando o jovem a julgava ausente de sua vida, banhando-se na fonte, foi por ela surpreendido. Apesar da resistência, ela o cobriu de beijos e, ao mesmo tempo em que o enlaçava fortemente (como a hera, diz o poeta), pediu aos deuses que jamais os separassem. Foi atendida. Os dois corpos se uniram num só, dando origem a um novo ser, de dupla natureza, metade macho, metade fêmea. Hermafrodito se transformou num ser de dupla natureza, mas essencialmente uno. 

O arcano 21 tem nos seus cantos quatro figuras, touro (Lucas), 
MATEUS , JOÃO, MARCOS , LUCAS

leão (Marcos), águia (João) e um homem alado (Mateus), que representam, respectivamente, os quatro elementos, terra (materialidade), fogo (criação), água (sentimentos, emoções) e ar (pensamento). A proposta do arcano, levada à Ursa Menor pode nos indicar positivamente a integração da dualidade (lembrar que Polaris está no final de Gêmeos, cujo último decanato é regido por Vênus), consciente-inconsciente, dos opostos. De outro lado, a rondar Polaris estão as dificuldades do hermafroditismo. Ressaltemos que Hermafrodito, ao descer ao fundo das águas, como o mito nos conta, percebeu que se transformara num ser cujos membros haviam perdido o seu vigor. A sua voz perdera o seu timbre viril, sexualmente se convertera num impotente, num “semivir”, “homem pela metade”. Daí, as características que podem se fazer presentes quando Polaris atua negativamente: dificuldade de síntese, dispersão, valorização exagerada do que não têm importância. 

PLATÃO
É oportuno lembrar que o tema do hermafroditismo esteve esquecido, no ocidente, por séculos, reaparecendo só na Renascença, num contexto que tem como influência principal a obra de Platão, de modo especial o Simpósio, à qual temos que juntar as imprescindíveis contribuições do Hermetismo e da Alquimia. O movimento simbolista, a partir de meados do séc. XIX, o retomará e ampliará o seu alcance literário e artístico.  

A constelação da Ursa Menor, por volta de 3.000 aC, fazia parte da constelação do Dragão (Draco), quando Thuban, alfa desta última,
era a estrela polar. A Ursa Menor estende-se de 0º de Câncer a 7º de Virgem, entre as latitudes 69º-90º N.  Sua principal estrela é Polaris, alfa, a 27º 51´ de Gêmeos, lat. 89º14`N. As demais estrelas são: Kochab, Phekard Major, Phekard Minor, Yidun e Farkadain. Para Ptolomeu, a Ursa Menor indica influências saturninas com ligeira contribuição venusiana. A tradição vê nela propostas de indiferença com relação aos acontecimentos, descompromisso, ausência de juízo previsor, atitudes e posturas sempre causadoras de problemas. 


A estrela Polaris é uma super-gigante, a mais distante da Terra, 600 anos-luz (um ano-luz é igual a 9.461 mil milhões de km., isto é, a distância percorrida pela luz, no vazio, durante um ano). Sua rotação é de 17 km/seg. É cerca de 2.000 vezes maior que o nosso Sol.  Esta estrela, na sua função de centro do polo norte celeste, será substituída por volta de 4.500 dC por Errai, estrela gama da constelação de Cepheus. A última estrela polar antes da atual foi a alfa Draconis, Thuban, por volta de 2.700 aC. As influências de Polaris acompanham as da sua constelação, presentes também possibilidades de perdas de legados e heranças. Em 7.500 dC, 11.300 dC e 13.500 dC, respectivamente, as estrelas alfa de Cepheus (Alderamin), delta de Cygnus (Azekfafage) e alfa Lyra (Wega) ocuparão a posição de estrela polar.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

INTRODUÇÃO



CONSTELAÇÕES
               
Constelações são agrupamentos de estrelas próximas umas das outras ligadas por linhas imaginárias, que formam diferentes desenhos, como conjuntos, servindo estes para distingui-las, conforme denominação que os homens lhes deram. Para melhor encontrá-las, quando da sua observação no céu noturno, os homens, desde a pré-história, se habituaram a reunir as estrelas em torno das mais brilhantes, em maiores ou menores conjuntos. Em todas as civilizações, nas mais variadas latitudes, estes conjuntos deram origem às constelações. 
  
Dentre esses conjuntos, há alguns que, suficientemente elevados acima do horizonte, retornam a cada noite, sempre idênticos, sem se levantar ou se pôr, sempre visíveis por isso, fazendo circunvoluções em torno de um ponto que parece fixo no céu. São as chamadas constelações circumpolares. Para os habitantes do hemisfério norte, esses grupos estelares se movimentam em torno de um centro aparentemente fixo, a chamada estrela Polar, situada atualmente na constelação da Ursa Menor. Para os habitantes do hemisfério sul, no seu céu estrelado, as constelações giram em torno de uma zona escura sem uma estrela central visível.

ESTRELAS
As outras estrelas que se elevam no oriente, fazem um curso ascendente no céu, percorrendo um grande arco, terminando-o a oeste, sob o horizonte. Estas estrelas (a maioria) só se tornam visíveis em determinadas estações do ano. Os homens logo perceberam que essas estrelas que sumiam no horizonte não se apagavam. O que acontecia é que elas passavam a percorrer o céu diurno, um céu inundado de luz solar, que fazia desaparecer a sua luminosidade, mesmo a das mais brilhantes, durante essa trajetória. 
O agrupamento das estrelas em constelações é arbitrário, sempre dependeu da acuidade dos observadores e de sua cultura.  Todas as sociedades humanas, ao longo da história do homem, desde o paleolítico, sempre voltaram os seus olhos para o céu. Cada uma destas sociedades procurou definir os limites desses agrupamentos estelares, classificá-los, projetando neles as suas tradições, os seus mitos, os seus valores religiosos, as suas lendas, as suas histórias. 

Na antiguidade, as estrelas que ficavam fora dos desenhos eram chamadas pelos gregos de amorphotoi (informes) ou sporades
HIPARCO
(espúrias). Os latinos chamavam-nas de extra (na parte de fora), sparsiles (esparsas), informes (informes) e os árabes de al harij min  al surah (as que ficam fora da imagem). Os gregos chamaram os desenhos das constelações de semata ou
PTOLOMEU
teirea (signos ou corpos), de zodia (animais), de meteora (coisas suspensas no céu). Hiparco chamou-os de asteriomoi (feitos de estrelas), Ptolomeu de morphoseis (formas semelhantes) e schemata (figuras). Os latinos os chamaram de astra sidera, signa, constellatio e stellatio (astros siderais, signos, constelação e estrelário).

O primeiro texto grego (Phaenomena) que temos sobre as
ARATOS
constelações é de Aratos, de 270 aC., nele se mencionando a existência de quarenta e cinco agrupamentos. Muitos desses desenhos, sabe-se, vieram para Grécia através dos caldeus, da Mesopotâmia, que os haviam definido por volta de 1.500 aC. Ao longo dos séculos, muitas civilizações, desde os antigos egípcios, inclusive algumas do extremo-oriente, vêm disputando a honra de ter definido por primeiro esses agrupamentos estelares. O catálogo de estrelas de Ptolomeu foi publicado na Europa, em Colônia, em 1.537, com quarenta e oito desenhos de Dürer.    



ALBRECHT   DÜRER  ( 1471 - 1528 )
   
BÓREAS
Nosso ciclo (Mitologias do Céu – As Constelações) começa pelas constelações boreais, adjetivo derivado de Bóreas, nome pelo qual os gregos designavam um vento que vinha do norte, do hemisfério setentrional, a região ártica. Esta última palavra, ártico, lembre-se, vem de arktos, urso, tendo relação direta com as constelações da Ursa Maior (Ursa Major) e da Ursa Menor (Ursa Minor), circumpolares, ambas com sete estrelas principais. A disposição das estrelas da constelação da Ursa Maior sempre lembrou grosseiramente aos povos, desde a pré-história, uma carroça puxada por sete bois (septen trionis, em grego), advindo dessa leitura o nome setentrional para designar o hemisfério norte. 

Bóreas, na mitologia grega, era o deus do vento norte. Habitava a Trácia, ao norte da Grécia, região muito fria, de gente belicosa e selvagem. Era representado como um demônio alado, barbudo, vestindo uma túnica curta, e de força descomunal. Era filho de Eos, deusa da aurora, e de Astreu, um titã, filho de Crio e de Euribia. Os ventos pertencem à raça dos titãs, sendo personificados como seres sempre ligados a descontroles e a violências, incapazes de qualquer tipo de adaptação. Bóreas participou de muitos episódios no mito. Um deles o tornou muito famoso: atacou e matou o jovem Jacinto, belíssimo, cujo amor disputava com o deus Apolo. 


MORTE   DE   JACINTO, (1769  NICOLAS  RENÉ  JOLLAIN) 



TORRE  DOS  ENTOSV
ATENAS
Austral é adjetivo que vem de Auster, nome latino de Noto, um dos quatro ventos (anemoi) que os gregos colocavam sob o comando de Éolo, deus dos ventos.  Violento e quente, Austro soprava do sul (África) em direção do mar Mediterrâneo. Na direção contrária de Noto, soprava Bóreas (Aquilon para os romanos), vento frio e cortante. Do leste soprava Euro (Vulturnus para os romanos), gerador de tempestades. Do oeste, agradável e suave, vinha Zéfiro (Favonius para os romanos). Como divindades, todos participaram de inúmeros mitos. Austral tem como sinônimos meridional, sul, antártico.
Os ventos, por sua agitação, inconstância e instabilidade, às quais se aliam ideias de cegueira e violência, são forças elementares sempre inquietas e turbulentas. De um modo geral, na mitologia, são instrumentos do poder divino, vivificando, punindo ou ensinando. São portadores de mensagens, manifestações da divindade que quer se comunicar, passar as suas "emoções" aos humanos, desde a doçura mais terna ao seu descontentamento mais tempestuoso.
Embora dotados de poderes benéficos, os ventos, no geral, são considerados como maléficos, principalmente os do norte, responsáveis por muitas doenças. Particularmente nefastos eram os
CALAIS   E   ZETES
ventos que sopravam na direção noroeste, chamados de ventos negros, pois eram oriundos do norte, o império das trevas. Famosa é a passagem mítica que nos relata o rapto de Oritia, filha de Erecteu, rei de Atenas, por Bóreas, que a tornou mãe dos boréadas, os gêmeos Calais e Zetes, gênios dos ventos. Ambos participaram da expedição dos argonautas, na qual desempenharam papel muito importante. 




BÓREAS   RAPTA   ORITIA

Dentre as oitenta e oito constelações que estudaremos, temos cinco, conhecidas desde a mais remota antiguidade, que ficam “acima” da Terra, no Polo Norte Celeste. Os egípcios, por exemplo, diziam que
JOHANN   BAYER (1577-1625 )
as estrelas das constelações circumpolares “não conheciam a fadiga”. Tecnicamente, conforme acordos internacionais celebrados já nos tempos modernos, o nome de todas as estrelas e de suas respectivas constelações deve ser grafado sempre em latim. Em 1603, Bayer propôs e foi aceito seu método segundo o qual cada estrela passou a ser conhecida não só pelo nome da constelação da qual fazia parte como por uma letra do alfabeto grego que a distinguia, segundo seu nível de importância. Assim, por exemplo, Regulus, a mais brilhante estrela da constelação do Leão, passou a ser conhecida por alfa Leonis. 





Neste ciclo, por razões astrológicas, interessar-nos-ão apenas as
CAMELOPARDUS
constelações conhecidas desde a antiguidade greco-alexandrina segundo a tradição ptolomaica, sendo quarenta e oito o seu número. Dentre estas, como se disse, cinco são circumpolares: Cassiopeia, Cepheus, Draco, Ursa Major e Ursa Minor. Faz parte desse grupo hoje, desde 1614, a constelação do Camelopardalis (conhecida como a da Girafa), às vezes denominada Camelopardus, aqui não estudada, inventada por Petrus Plancius e registrada por Bartschius, para representar o camelo que conduziu Rebeca a Isaac. O camelopardalis, girafa, em latim, é representado por uma figura híbrida, formada pelo camelo (camellus) e pelo pelo leopardo (leopardalis).

COMO AS ESTRELAS INFLUENCIAM UMA CARTA ASTRAL

Desde a antiguidade, a melhor tradição sobre as estrelas fixas, a helenística, de Anonymous 379, e poucas outras, inclusive a que nos foi transmitida pelos árabes, nos informam que a energia das chamadas estrelas fixas se expressa melhor numa carta astral através dos quadrantes em que se encontram.  No primeiro quadrante, falamos de uma influência tanto mais poderosa quanto mais próxima a estrela estiver do grau ascendente. No quarto quadrante, a estrela se dirá culminante (zênite) quanto mais próxima estiver do grau do Meio do Céu. No terceiro quadrante, a estrela estará a caminho do poente, sendo mais poderosa quanto mais próxima estiver do grau do descendente. No segundo quadrante, a estrela estará a caminho do seu nadir, sendo sua influência mais sentida no final da vida, quanto mais próxima estiver do grau da quarta casa. 

É evidente que ao interpretar a influência das estrelas num mapa natal e em que fase de uma vida elas se tornam mais poderosas, nunca podemos perder de vista a constelação da qual ela faz parte e como esta, no seu todo, afeta também o mapa. Por ser matéria muito específica, inclusive a questão das órbitas, deixamos aqui de aprofundá-la, sugerindo para aqueles que se interessarem que procurem se informar sobre astrólogos competentes que lhes possam ajudar neste particular. Ressalte-se aqui que não podemos atribuir a uma constelação e às suas estrelas as influências determinantes que levam aquele que as experimenta a agir desta ou daquela maneira, a se dedicar a isto ou aquilo, ou a ocupar esta ou aquela posição, mas sempre será possível através delas compreender melhor o sentido geral do tema onde se inscrevem as demais e mais importantes influências planetárias.

1) CONSTELAÇÕES BOREAIS.


CASSIOPEIA
CASSIOPEIA - É a Rainha, mulher de Cepheus, rei da Etiópia, e mãe de Andrômeda, a Princesa. Esta família está toda na região circumpolar, região da qual estão próximas as constelações de Perseus e a de Draco. Geograficamente, o mito de Cassiopeia se estende à Etiópia, à Arábia e ao sul do Egito. A história nos diz que, tomada pela hybris, um desmedido orgulho, ela se julgara não só mais bela que as Nereidas como mais bela que a própria Hera, a Senhora do Olimpo. Diante de tamanha ousadia, os deuses intervieram. O país todo deveria pagar por isso. Um monstro marinho foi enviado por Poseidon para destruí-lo. Consultado o oráculo de Amon, foram os reis etíopes, pais da jovem, informados que o país só se libertaria se Andrômeda fosse oferecida como vítima expiatória.  

A jovem princesa, espontaneamente, se ofereceu: entregar-se-ia ao monstro e o país seria salvo. Perseu, o grande herói, de volta de sua
CETUS
vitoriosa expedição (morte da Medusa), ao passar pelo país, tomando conhecimento da situação, prontificou-se a matar o monstro, de nome Cetus, muito parecido com uma descomunal baleia, que apenas com o seu deslocamento nos mares provocava destruidores maremotos. Um acordo foi então celebrado: o herói, como prêmio pela morte do monstro, se uniria em casamento à bela princesa. Cepheus e Cassiopeia omitiram, porém, um ponto muito importante: Andrômeda já havia sido prometida por eles ao tio paterno da moça, Fineu, que, a essa altura, já havia traçado planos para matar Perseu depois de sua vitória sobre o monstro.


PERSEU   LIBERTA   ANDRÔMEDA  
(THEODOR  VAN
 THULDEN,1606-1669)

Nosso herói, porém, não encontrou dificuldades para vencer a tenebrosa criatura do mar enviada por Poseidon; primeiro, paralisou-a, exibindo-lhe a cabeça da Medusa, transformada por ele em poderosa arma, acabando depois com ela a golpes de espada. Ao ser atacado por Fineu e seus comparsas, Perseu matou alguns, trespassando-os com a sua lança, e petrificou outros. Deixando o país, Perseu voltou à sua pátria, Tirinto, assumindo o trono real, e lá terminou os seus dias, em companhia de Andrômeda, que lhe deu muitos filhos.    
CASSIOPEIA
Cassiopeia lembra, sem dúvida, uma figura feminina de fundo matriarcal que a antiguidade colocou nos céus para representar a sobrevivência de um mundo desaparecido, o matriarcado. Cassiopeia é um símbolo do feminino ainda rebelde, mas sem condições de fazer prevalecer as suas prerrogativas de proeminência e comando. Daí, a punição que a história da rainha revela. Além de quase ter provocado a destruição do seu país, a orgulhosa rainha foi condenada a, sentada no seu trono, ficar eternamente dando voltas em torno de um ponto no polo norte celeste. Seu comportamento, por outro lado, lembra muito o da deusa Hera, que infernizou, com razão, muitas vezes, a vida conjugal que manteve com Zeus.  

A punição de Cassiopeia fica mais evidente quando lembramos o nome pelo qual o cristianismo antigo e medieval denominou esta constelação, Madalena. Maria Magdala. Maria Madalena foi a mulher a quem Jesus livrou dos “sete demônios” e que perfumou os seus pés, segundo Lucas, passando a ser considerada, depois da sua conversão, como um modelo de mulher penitente e contemplativa. Não é outro o sentido que o nome Madalena toma no nosso léxico, de mulher arrependida, chorosa e triste, que expressa o arrependimento de suas faltas, devotando-se à vida religiosa.

Os árabes chamam esta constelação de A Mão Pintada com Hena por causa de Caph (mão manchada)
HENA
, sua estrela beta. Da hena, pequeno arbusto, de suas folhas secas e pulverizadas, como se sabe, faz-se uma tintura usada na cosmética,rte que trata do embelezamento físico, principalmente das mulheres. As folhas da hena são colhidas  sempre em meio a uma grande celebração religiosa (baraka). O mesmo procedimento encontramos no Sudão, na Índia, na Tunísia, na
HENA  -  PINTURA   CORPORAL 
Argélia e no Senegal. No Egito, a hena faz parte destacada do arsenal cosmético da mulher. O produto comercial extraído da hena tem o nome de Henê, no oriente e no norte da África usado em rituais de caráter medicinal, profilático, cosmético e purificador. Assim como a hena é a rainha de todas as flores, assim deve ser a mulher que a usa, é expressão que encontra apoio no Corão. Lembremos que entre os árabes chama-se Noite do Descanso da Hena aquela em que é dada a bênção aos jovens esposos. Ou seja, como a hena, a mulher se transforma em rainha do lar.

A constelação de Cassiopeia se estende de 25º de Áries a 0º de Gêmeos. Suas estrelas, isoladamente, não são de grande importância para a Astrologia, mas, no seu conjunto, como nos deixaram Ptolomeu e outros estudiosos do céu confirmaram, elas têm características venusianas com forte ênfase saturnina.  Há, com elas, uma ideia de excessivo orgulho devido à posição social, rigor, atitudes dominadoras, o que tende a trazer problemas para as uniões de um modo geral, Não é por outra razão que esta constelação aparece ligada no Tarot ao arcano nº 2, A Sacerdotisa, que, nos aspectos desfavoráveis, pode aparecer como destruidora dos valores femininos tradicionais, dificultando sobremodo uniões de situação privilegiada, não oferecendo a mulher nenhuma colaboração nem convivendo com a ideia de compartilhar.

Os astrólogos romanos deram a esta constelação nomes como Mulier Sedis (A Mulher do Trono) ou simplesmente Sedis, ao qual juntavam os qualificativos regalis ou régia. Os árabes foram pelo mesmo caminho, denominando-a A Senhora no Trono. O poeta

John Milton, no séc. XVII, nos seus versos de Il Penseroso, um poema sobre a melancolia, fez referências a Cassiopeia. No séc. XVII, quando o céu foi redesenhado pela Astronomia, como aconteceu muitas vezes, Cassiopeia se tornou Maria Magdalena ou Deborah, na sua função de juíza, sentada sob uma palmeira, no monte Ephraim. A constelação foi também chamada nesse período pelo nome de Bathesheba, a mãe do rei Salomão. Deborah foi uma juíza,

mencionando-se seu nome no Livro dos Juízes, do Antigo Testamento. Ela, segundo consta, teria livrado seu povo dos ataques do reino de Canaã. Era mulher de Lapidote e exerceu cargo público, prestando também serviços (atendimento) como profetisa sob uma palmeira. Já a belíssima e inteligente Bathesheba (Betsabá) foi uma das mulheres do rei David.  Urias, o marido de Betsabá, foi enviado pelo rei David para a guerra. Não tendo como escapar da perseguição real, Betsabá, já viúva (Urias teria morrido na guerra) se uniu a ele, tornando-se mãe de Salomão, rei que se tornaria famoso por sua sabedoria, em grande parte herdada da mãe, conforme algumas versões.


DAVI D  E   BETSABÁ   (JAN  MASSYS,1509-1575)

Sob o ponto de vista astrológico, a estrela de Cassiopeia que mais nos interessa é Schedar (alfa), hoje a 7º07 de Touro. Ptolomeu entendeu que as estrelas de Cassiopeia tinham características saturninas e venusianas. A experiência astrológica vem demonstrando que as estrelas desta constelação parecem incorporar o arquétipo do feminino prepotente que se expressa por atitudes de comando e por exigências de reverência e respeito. O mapa astrológico da antiga ministra inglesa Margareth Thatcher pode ser um bom tema para o estudo das influências de Cassiopeia e de Schedar. Outro tema interessante para se estudar Cassiopeia e Schedar é o de Nancy Reagan, que tinha o Sol, Marte (regente da casa VII) e Mercúrio no MC.  

CEPHEUS, o Rei, move-se, como constelação, com as demais
CEPHEUS
apontadas, em torno do polo norte celeste. Rei da Etiópia, casou-se com a vaidosa Cassiopeia, nascendo dessa união a bela Andrômeda, que, por culpa da mãe, foi exposta ao monstro e salva por Perseu, como vimos. Como Cepheus não teve filhos do sexo masculino, o trono da Etiópia foi ocupado, devido à “petrificação” do casal real etíope, por Perses, um dos filhos de Perseu e de Andrômeda. 

Esta constelação, devido à sua posição de relevo no polo norte celeste, embora com estrelas de pequena magnitude, sempre apareceu associada a figuras reais, em várias tradições. Uma delas,
SALOMÃO (ÍCONE  RUSSO)
pelo Cristianismo medieval, foi a do rei Salomão, terceiro rei de Israel, filho de David e de Betsabá. Como nos revelam os textos, sabemos que Deus ofereceu a Salomão a escolha de um dom; ele optou pela sabedoria, achando que tudo dependia dela. Foi-lhe dado também por Deus o dom da profecia e a capacidade de entender a linguagem das aves e dos animais terrestres. Adquiriu grande poder material, bens e animais, amontoando riqueza e teve muitas concubinas. Ao fim da vida, porém, percebeu que nada disso o satisfazia. Escreveu o Cânticos dos Cânticos na juventude, Os Provérbios na maturidade e O Eclesiastes na velhice, obra de um homem desencantado com tudo o que a vida material lhe havia proporcionado.

Os chineses usaram esta constelação para ilustrar o seu entendimento de que o poder real não deve ser mais que a expressão de um mandato celeste. Em torno desse centro real, as
MING  TANG
diversas zonas do espaço (as provícias do império), deviam ser organizadas, imbricando-se umas nas outras, segundo as quatro direções universais. Esse centro se confunde com o eixo do Ming Tang, o espaço total, no centro do qual o imperador tem o seu trono. Evoluindo no Ming Tang, o rei, como o Sol, é responsável pela fixação, no seu império, dos ritmos diários e dos ciclos das estações. A figura real exerce, assim, uma função reguladora, fazendo a ligação entre o domínio cósmico e o domínio social.

As mesmas ideias tiveram os antigos povos védicos e celtas quando se voltaram para a observação desta constelação. O poder real tem que respeitar a ordem celeste. É por isso, exemplificando, que se proibia ao rei celta falar antes do druida (sacerdote, representante do poder religioso) nas assembleias, pois cabia a este último estabelecer as melhores diretrizes para que as relações céu-terra fossem respeitadas e bem conduzidas nas atividades e empreendimentos mais significativos ou em campanhas bélicas, de um modo geral. Os impostos, no mundo celta, deviam chegar ao rei para que ele os distribuísse convenientemente, isto é, a quem precisasse mais. Sem a observância da ordem céu-terra, a fecundidade da terra, das plantas e dos animais desaparecia, degradando-se a vida social. Não respeitando esta ordem, o rei se transformava num usurpador (usurpar é apossar-se ou tomar pela força e sem direito alguma coisa). Nesta hipótese, de desrespeito das diretrizes, o rei sempre terminava muito mal, tragicamente, afogado num tonel de vinho ou de cerveja e seu palácio incendiado. Submetido ao céu, que o druida representava, o rei devia ser sempre um intermediário, um mediador.

Cepheus se estende de 17º de Peixes a 0º de Câncer, sendo, por isso, uma das maiores constelações do céu. Por volta de 22.000 aC, a principal estrela desta constelação já ocupou a posição de estrela polar, posição que voltará a ocupar daqui a, mais ou menos, 7.500 anos. Como as estrelas de Cassiopeia, as de Cepheus também não têm isoladamente importância para a Astrologia, a não ser Alderamin (Al Deramin entre os árabes), sua estrela alfa, hoje a 12º05´ de Áries. O nome é uma referência ao braço direito (Al Dhira) da figura real que a representa. Ptolomeu nos informa que as estrelas desta constelação têm características jupiterianas e saturninas. Ou seja, inclinam à sobriedade, à ponderação, ao equilíbrio, à moderação, podendo Alderamin, porém, quando envolvida com “maléficos”, fazer a vontade claudicar, trazer dubiedade e mesmo capitulação nos aspectos mais dissonantes. 

Cepheus é um bom exemplo para se entender que as constelações, mesmo que possuam estrelas muito importantes, devem ser consideradas pelo que significam e propõe no seu todo. Cepheu é uma espécie de guardião do polo pela via do princípio masculino, que deve se submeter, contudo, a um poder superior, o celeste. Esta constelação pode sugerir também a necessidade de se procurar sempre ajustar os dois princípios, o masculino e o feminino. Cepheu, aliás, no mito, é uma figura que aparece, até certo ponto, pressionada pelo temperamento orgulhoso de Cassiopeia, uma poderosa representante do matriarcado que encontra muita dificuldade para se ajustar em termos da convivência masculino-feminino.

A soberania que Cepheus representa é masculina. Numa carta astrológica, sua melhor expressão será obtida por atitudes afirmativas que levem em consideração o “outro lado” do poder real, geralmente oculto ao olhar humano desinformado. Situado entre os deuses e os homens, o rei deve garantir a harmonia que sem ele não existiria, essa a sua função primacial. Daí as cerimônias de sua entronização da qual fazem parte obrigatoriamente a imposição de um manto, símbolo do céu, e do empunhamento de um cetro, símbolo da justiça a ser exercida na Terra. Isto lhe permitirá assumir a função de poder intermediário entre deuses e homens e de regulador da ordem social em nome da ordem cósmica. O poder real, masculino, entretanto, para se revelar completo, não pode prescindir do feminino ou só admiti-lo num plano apenas biológico. O princípio real masculino tem que admitir o princípio feminino, pois é este quem o anima. Quando estes princípios são verdadeiramente entendidos, isto é, elevados espiritualmente, eles se revelarão como doação, receptividade e reciprocidade.

Dentre várias cartas astrológicas que podem oferecer boas possibilidades de estudo  de Cepheus (a ser analisada sempre, no meu entender, com a de Cassiopeia) cito duas, em particular, as de José Saramago (Maria Pilar del Rio Sánchez) e de Nelson Mandela.