Mostrando postagens com marcador HERMAFRODITO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HERMAFRODITO. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (4)


AFRODITE   (VÊNUS - BRONZINO)

Sem se desligar da sua profunda relação com Adônis (mito já abordado), Afrodite, dando vazão à sua natureza de deusa do amor, nunca deixou de se aproximar de muitos deuses e mortais. De uma rápida união com Hermes, que a desejara desde que a vira presa à rede de Hefesto, teve Hermafrodito, que ela deixou sob os cuidados das náiades numa gruta do monte Ida para ser por elas educado.

HERMES   (FÍDIAS)

Jovem de extraordinária beleza, Hermafrodito, quando chegado o momento de sua dokimasia (espécie de provas a que se submetiam os jovens para ingressar na vida adulta), pôs-se a percorrer o mundo. Passou pela Lícia, pela Cária e por outros lugares.
NÁIADE  (JOIA,  INÍCIO SÉCULO XX)
Regressando à terra de origem, fixou-se em Halicarnasso, na Ásia Menor, indo viver perto da fonte Sálmacis. Uma das ninfas, uma náiade, homônima da fonte, vendo-o, apaixonou-se perdidamente por ele. Ele, como nos conta o mito, repeliu-a. Certo dia, quando, despido, se preparava para mergulhar no lago, Sálmacis, a ninfa, abraçou-se a ele, cobrindo-o de beijos, descendo ambos enlaçados à profundeza das águas, pedindo ela aos deuses que jamais os separassem. Os imortais, diante de tão grande amor, a atenderam. Os dois corpos fundiram-se num só, surgindo assim um novo ser na natureza. Sálmacis era uma ninfa que, embora fazendo parte do séquito da deusa Ártemis, como uma de suas ursinhas, ao invés de uma vida ativa nos campos, rios e nas fontes, preferia se entregar à luxúria e ao ócio.



HERMAFRODITO  E  SÁLMACIS

Metade macho, metade fêmea, a voz sem timbre viril, voz de contratenor, os membros sem vigor, Hermafrodito pediu a seus pais que fosse transformado num ser  semivir (homem pela metade) todo aquele que se banhasse nas águas da fonte Sálmacis e convertido inclusive num impotente (mollescat). Os cultos a Hermafrodito foram introduzidos na Hélade por volta do séc. V aC e a esse aspecto do mito do filho de Hermes e de Afrodite já nos referimos anteriormente (uma tentativa de se “imobilizar” o Hermes dos sofistas; o conflito das ideias platônicas com a destes filósofos).


HERMAFRODITO  ( MUSEU DO LOUVRE)

Hermafrodito foi também a princípio, isto é, na sua origem, muitas vezes considerado como um aspecto viril da deusa Afrodite. O mito provinha da Ásia Menor e chegou à Grécia através da ilha de Chipre. Afrodite, como acontece com muitas outras Grandes-Mães asiáticas, parecer ter sido representada inicialmente, devido à ascendência que tinham sobre a energia masculina, com uma espécie de órgão fálico interior, representando esta imagem uma sigízia fundamental. Seria algo assim como se seu animus passasse a ter vida independente, um aphroditus, uma divindade barbuda, com seios de mulher. Lembre-se que em tempos muito remotos havia em Chipre um culto a uma Afrodite Barbuda.


O BANQUETE DE PLATÃO  ( FEUERBACH)

Chegando a uma androgenia terminal, pela mistura dos componentes masculino e feminino, a figura de Hermafrodito vai pouco a pouco se mitificando, tornando-se filho dos mencionados
HERMAFRODITO  (ALQUIMIA)
deuses. Lembramos que depois de um longo esquecimento, o tema do Hermafrodito só foi reaparecer no Renascimento, num contexto amplamente influenciado pelo diálogo O Banquete, de Platão, com as importantes contribuições do Hermetismo e da Alquimia, contexto no qual ele é considerado como um par de opostos confundidos. O tema ganhará maior impulso quando o movimento artístico a que se deu o nome de Simbolismo o elege como uma de suas principais motivações.


Quem fixou o mito de Hermafrodito no mundo antigo foi Ovídio, nas suas Metamorfoses (Livro IV), no início da era cristã. Desde então, abordado ou usado de modo perfunctório ao longo dos séculos, o mito navegou à margem das grandes correntes artísticas e literárias. Só cerca de mil e seiscentos anos mais tarde, no início do séc. XVII (1605), ele foi retomado na França para nos ser oferecida, ainda que pouquíssimo conhecida, uma das mais curiosas obras literárias sobre o tema, intitulada L´isle des hermaphrodites nouvellement descouvert, avec les moeurs, loix, costumes et ordonnances des habitants de cette isle, também chamada tout court pelo nome de Les Hermaphrodites.




Não fixada em lugar nenhum, ilha vagabunda (no que lembra as ilhas Simplégades e a ilha de Ortígia da mitologia grega), ela abrigava uma sociedade que prestava culto a três divindades, Baco (Dioniso), Vênus (Afrodite) e Cupido (Eros). Mais da metade desta obra, escrita por Thomas Artus  (pseudônimo?),  sieur d´Embry,  se dedica ao relacionamento de todo o sistema legal da ilha e aos regulamentos que comandavam a convivência de todos os seus habitantes,  nos  seus  variados  aspectos.     Inscrito nos cânones do
barroco, com lances maneiristas, o texto é muito rico enquanto através dele podemos identificar uma descrição satírica da corte do efeminado Henri III, filho da italiana Catarina de Médicis, e do alegre séquito de jovens aristocratas que o acompanhava, chamados de mignons. Para uma melhor compreensão do que foi a corte de Henri III, muito útil (evidentemente, para os mais interessados) o filme La Reine Margot (irmã de Henri III), de Patrice Chéreau, de 1994, com Isabelle Adjani e Daniel Auteuil (fig. acima), baseado num livro de Alexandre Dumas (roteiro de D.Thompson e de P. Chéreau).

Sobre a ilha dos hermafroditas, um dos melhores textos que temos sobre ela é o de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi no seu espantoso livro Guide de Nulle Part et d`Ailleurs (a melhor edição é a francesa). Dizem os autores que a ilha vagabunda passeava ao largo do porto de Lisboa; seus habitantes falavam latim e atribuía-se ao deus solar assiro-fenício Heliogabalus a criação da república hermafrodita, uma “verdadeiro teatro ao ar livre” no qual eram
HENRI III
representadas o ano todo e por toda a parte peças inspiradas nos clássicos (O Rapto das Sabinas, Artaxerxes e sua Filha, Acteon Devorado pelo seus Cães etc.). A arquitetura era helenística, decorada com ouro e esmalte, com colunas ao longo das ruas. A divisa da república era A Tous Accords. Os autores favoritos eran, dentre outros, Ovídio, Catulo e Propércio. Estas informações foram retiradas do texto de Thomas Artus que serviu de suplemento do Journal de Henri III (Cologne, 1724).


   
Além dos simbolistas que se voltaram para o tema no séc. XIX, não podemos esquecer de Balzac e do fotógrafo Nadar, ambos sempre interessados por temas extraordinários. Referência especial a Balzac, que, com Sarrasine, nos apresenta uma leitura sobre a estética do hermafroditismo, fazendo ele com esse romance, em termos de gênero literário, uma transição para o chamado romantismo tardio, algo decadentista.  

No mundo grego, o hermafrodito, aquele que nascia com uma conformação anormal de seus órgãos sexuais, sempre era objeto de horror, de repugnância. Quando nascia uma criança com
ANDRÓGINO  (NUREMBERG)
os sinais de hermafroditismo (o que era raríssimo, mas possível), toda a comunidade se sentia ameaçada pela cólera divina. O mito do hermafrodito liga-se evidentemente à temática da integração do masculino e do feminino. Num sentido filosófico, ele repete a do andrógino, evocado por Platão: a dupla natureza humana, masculina e feminina original dos seres humanos e depois a separação dos sexos pelos deuses, invejosos diante de uma tal concentração de poder. Por isso, o andrógino era muitas vezes representado pela figura alada, simbolizando-se assim a integração da matéria e do espírito.


Lembremos, por outro lado, sob o ponto de vista astrológico, que a figura  do  andrógino  aparece  muitas  vezes  associada ao signo de
Aquário, sendo usada para representá-lo um ser angelical de natureza fluida, etérea, volátil, transparente. Essa figura sugere sempre uma ideia de desapego, de rompimento com as ligações terrestres, uma ideia de emancipação, de elevação. Não é por acaso que uma das figuras mais usadas para representar o signo de Aquário seja justamente a do anjo, um ideal da sublimação da vista instintiva, na medida em que suas asas se contrapõem simbolicamente, sob um aspecto positivo, transcendente, às de alguns seres alados ligados ao mal, como serpentes e dragões.

A Hermes sucedeu Dioniso na relação amorosa com Afrodite, nascendo então Príapo, a grande divindade da cidade asiática de Lâmpsaco. Deus fálico, protetor dos jardins, Príapo é divindade muito ligada às populações da Ásia Menor. Era também ele guardador das videiras, tendo como atributo essencial o desvio do mau-olhado (função apotropaica), protegendo as plantações dos que desejavam destruí-las.


OFERENDAS  A  PRÍAPO

Príapo sempre apareceu ligado aos ruidosos cortejos de seu pai, sendo muito grande a sua semelhança com os Sátiros e Silenos, aparecendo geralmente na companhia de um asno, seu animal de estimação. Vivia a perseguir as ninfas; teve um famoso caso com uma delas, chamada Lótis. O nome desta ninfa é derivado de lotos, aplicado a diversos vegetais da África, do Egito principalmente, e a uma planta com cujo caniço se fabricavam flautas.


PRÍAPO  E  LÓTIS  (PARMIGIANINO)

Há uma outra história sobre Príapo que aparece como variante importante sobre a sua origem. Consta que Hera agrediu Afrodite com um soco no ventre, quando a deusa do amor
HERA
estava grávida de Príapo. Isto se deveu ao fato de que o pai, segundo tal variante, seria Zeus e não Dioniso. Esta hipótese é bem defensável se considerarmos que Zeus sempre foi conhecidíssimo pelo seu tremendo furor erótico. Hera temia que a criança nascesse com a beleza da mãe e com o poder paterno, um ser que evidentemente poria em perigo a vida dos mortais como poderia desestabilizar a vida amorosa do próprio Olimpo.

   
O asno, lembremos, é uma imagem da obscuridade, um animal de tendências satânicas, como no-lo apresentam muitas tradições. Seria uma espécie de contrafação diabólica do cavalo, a razão pela qual, ao longo dos séculos, a arte o representou muitas vezes demônios e monstros com orelhas de asno. Na Índia, por exemplo, as divindades infernais e outras, de caráter sinistro, se servem dele como montaria. Sua imagem, no Egito, associa-se a Seth, personificação do mal, que toma a forma do maior dos monstros da sua mitologia, o pavoroso Apofis, o devorador do Sol. 

No mundo greco-romano, o asno, em alguns cultos, gozava, pelo contrário, de uma reputação favorável, como acontecia em Delfos, onde era sagrado, pois “conhecia tudo, ouvia tudo”, devido às suas enormes orelhas, associado sempre, por isso, à profecia. Era comum a prática da kephalomancia no mundo greco-latino, inclusive entre os germânicos: a cabeça de um asno era colocada sobre carvões em brasa, recitando-se preces e pronunciando-se o nome de criminosos suspeitos de um assassinato. Quando enunciado um nome, se os maxilares do asno se aproximassem, isto significaria um indício de culpa.

Para recompensar Poseidon, que tanto a ajudara quando do seu affaire marciano, Afrodite teve com ele uma relação amorosa, da qual nasceu Erix (etimologicamente, repelir, afastar), um herói que
ERICINA
deu nome a um monte na Sicília, em cujo pico foi levantado um templo em homenagem à deusa. Afrodite, por essa razão, era muito conhecida na Trinácria (Sicília) pelo nome de Ericina. Erix, segundo o mito, teria sido adotado, depois de nascido, pelo argonauta Butes. Dentre todos os argonautas, como se sabe, Butes foi o único seduzido pelo canto das Sereias. Os demais nem chegaram a ouvir as “cruéis” sedutoras, tão encantados que ficaram com o canto de Orfeu. Butes foi entretanto salvo por Afrodite, que o levou para a Sicília.



AFRODITE  E  ANQUISES

Não podemos deixar de mencionar também dentre os mortais favorecidos por Afrodite o pastor Anquises (etimologicamente, o curvo, o de braço torto). Certo dia, quando apascentava os seus animais, Afrodite notou o belo pastor e desejou amá-lo. Apresentando-se disfarçada, a deusa, seduzindo-o, entregou-se a ele. Logo depois, revelando a sua natureza divina, disse-lhe lhe daria lhe um filho, mas o proibiu de revelar a quem quer que fosse o fato. Informou mais a deusa a Anquises que o filho que teriam estaria destinado a fundar um império que não teria fim. Anquises, porém, certo dia, embriagado, vangloriou-se de ter feito amor com uma deusa. Imediatamente foi punido, perdendo a visão, segundo uns, ou perdendo o movimento de um lado do corpo, conforme outros. 

Até os quatro anos, Eneias (etimologicamente, temível), o filho de Anquises e de Afrodite, permaneceu nas montanhas, sendo depois entregue à família real de Troia e por  ela educado. Nas batalhas que gregos e troianos travaram, Eneias sempre demonstrou uma comedida coragem, considerado um valente, mas nunca podendo ser comparado a Heitor, o mais valente dos troianos.


AFRODITE, O MÉDICO E ENEIAS FERIDO 

Na primeira parte de sua vida (período troiano), Enias, embora tenha se comportado como um bravo, participando de grandes combates, procurou sempre manter uma atitude de respeito com relação ao seu métron. Jamais se excedeu; por outro lado, contou com decidida proteção dos deuses (Afrodite, sua mãe; Poseidon, Ártemis e outros). Pode-se mesmo dizer que na crônica troiana de Eneias não há muito a ressaltar com relação a seus feitos guerreiros. Na luta contra os aqueus, apesar da sua coragem, há sempre um milagre que o salva das situações perigosas. Este é o que chamo de “o primeiro Eneias”. Um herói que sempre se manteve afastado dos outros, um pouco deprimido, quem sabe, por não ser tão famoso quanto Heitor. Seu grande mérito, contudo, foi o de ter percebido que Troia seria arrasada pelos gregos (segundo alguns, teria recebido tal informação num sonho que os deuses lhe haviam enviado).

ENEIAS  E  ANQUISES
Quando da queda de Troia, Afrodite interveio, fazendo com que Anquises, já muito alquebrado e envelhecido, fugisse da cidade, amparado por seu filho. É neste momento que nasce o que chamo de o “segundo Eneias”. O poeta Vergílio (séc. I aC), no seu famoso poema épico Eneida, narra, ao longo dos seus doze cantos, toda a trajetória do nosso herói que, com alguns troianos, “guiados pela bússola do destino”, escapou para que se cumprisse a profecia materna. Quando os viajantes estavam perto da Sicília, Anquises morreu. Depois de passar por várias ilhas, Eneias deu com os costados na Líbia, ou melhor, no litoral de Cartago, onde reinava Dido.

Mais uma vez Afrodite interveio. Pediu a Zeus providências no sentido de que seu filho e acompanhantes fossem recebidos condignamente pela rainha. Assim aconteceu. Eneias foi acolhido por ela como um príncipe. Instalado no palácio, ele enviou alguns homens de seu grupo a Troia para que tentassem trazer seu filho, que lá ficara. Temendo os humores de Dido, Afrodite intercedeu, fazendo que os homens trouxessem, no lugar do filho, um jovem belíssimo, que outro não era senão o deus Eros incógnito, com a missão de fazer com que a rainha Dido se apaixonasse perdidamente por seu filho.

As artes de Afrodite surtiram efeito.                                   
O amor cresceu no   coração             
de Dido. Uniram-se como marido e mulher. Eneias, a essa altura, parecia ter se esquecido totalmente do destino que a mãe queria que ele cumprisse. Os deuses, entretanto, resolveram intervir. Agora foi Zeus a ordenar a Eneias que abandonasse a boa vida que Dido lhe dava e que partisse para assumir o seu glorioso destino. Dido tentou retê-lo por todos os meios. Não o conseguindo, suicidou-se, atirando-se numa fogueira. Eneias escapou com seus homens, retornando mais uma vez ao reino de Poseidon. Nascia aqui o terceiro Eneias.

Chegando a Cumas, na Itália, Eneias consultou a famosa Sibila que lá vivia. Seu destino foi confirmado por ela. Ela, inclusive, acompanhou nosso herói ao Hades, onde ele viu os gregos e troianos mortos; viu as almas que, quando encarnadas, tomariam parte na história do império que iria fundar; viu desde os primeiros reis até Augusto. Diante dessa visão, nosso herói soube que o reino de Príamo floresceria de novo na terra prometida.


ENEIAS  E  A  SIBILA

Retornando ao mundo dos vivos, Eneias estava preparado para se tornar o grande ancestral do genus latinum, da raça latina. Nesta nova condição, sem a proteção dos deuses, travou grandes combates contra os aborígenes, os rútulos. As vitórias se sucederam. Casou-se com Lavínia, noiva de Turno, rei dos rútulos, por ele vencido, consagrando-se definitivamente como o rei das novas terras.

O poema de Vergílio termina aqui. Mitógrafos e poetas, posteriormente, falam da fundação de Roma pelo próprio Eneias, que não teria terminado a sua vida como um mortal comum. Arrebatado pelo deuses, durante uma tempestade, passou a viver eternamente entre eles. 

Ao longo da sua história, o personagem Eneias, como se pode constatar, foi tomando forma, mudando. De um homem a princípio hesitante, não muito seguro, chegou ao final de sua vida à consagração heroica. A princípio, parecendo titubeante,  acomodado aos favores divinos e à boa vida que Dido lhe deu; ao final, um homem decidido, vencedor por seus próprios méritos. De uma cria de Afrodite a herói fundador do maior império que a Terra já conheceu. A história de uma autoconquista.


PIGMALEÃO  (PAUL  DELVAUX )

Outro mortal que recebeu os favores de Afrodite foi Pigmaleão, segundo o mito (Ovídio), escultor e rei de Chipre. Por não encontrar na ilha, então muito famosa por suas prostitutas, uma mulher que julgasse digna de seu amor, pediu a Afrodite que lhe pusesse no caminho uma mulher tão bela e elegante como a que esculpira. A deusa o atendeu, animando a estátua, uma belíssima mulher a quem Pigmaleão chamou de Galateia. Teve com ela um filho, Pafos, fundador da cidade cipriota de mesmo nome. 

Uma referência interessante a este mito foi o uso que dele fizeram alguns psicólogos americanos (Robert Rosenthal, Lenore Jacobson e Robert K.Merton). Trata-se do chamado “Efeito Pigmaleão” (também chamado Rosenthal) que consiste num realinhamento da realidade conforme as nossas expectativas. Esta tese (Efeito Pigmaleão) apareceu na pedagogia americana através de um estudo sobre o modo pelo qual as expectativas positivas dos professores afetavam o desempenho dos alunos. Professores que tivessem uma visão positiva dos alunos tenderiam a estimulá-los, ajudando-os a obter melhores resultados. De outro modo, o “Efeito Pigmaleão” nos diz que se tivermos expectativas negativas sobre os outros, não acreditando neles ou neles não achando nada de favorável, de positivo, é quase certo que colheremos dessas pessoas o pior. Se procurarmos trabalhar com expectativas positivas, os resultados serão sempre mais favoráveis. Para possíveis considerações astrológicas, deixo aqui o registro de como alguns psicólogos interpretaram o mito de que ora tratamos.

Na literatura, quando mencionamos Pigmaleão, torna-se obrigatória a referência ao escritor de língua inglesa George Bernard Shaw (1858-1950), irlandês, satírico, virulento, dramaturgo, crítico musical, autor, dentre outros textos teatrais, de Pygmalion (1912).
Com base nesse texto de Shaw, em 1964 foi lançado (USA) o filme My Fair Lady, sob a direção de George Cukor, com Rex Harrison e Audrey Hepburn nos principais papéis. O filme conta a história de uma mendiga (Eliza Doolittle) que vende flores nas ruas escuras de Londres. Numa noite, Eliza conhece um professor de fonética (Henry Higgins), um expert em descobrir muito sobre as pessoas apenas através de seu sotaque. Quando ele ouve a horrível pronúncia (cockney) de Eliza, aposta com um amigo que será capaz de transformar aquela simples e ignorante vendedora de flores  numa dama da alta sociedade londrina em apenas seis meses.  

O culto de Afrodite estendeu-se por todo o mundo antigo, seus templos e altares eram encontrados nas mais distantes colônias gregas. Suas principais festas foram as Adonias, as Anagogias, as Catagogias e as Afrodísias. Nas festas celebradas em sua honra  não se imolavam vítimas; seus altares jamais foram manchados pelo sangue. Grande parte do seu culto era constituído pela prostituição sagrada (hierodulia).


PROSTITUIÇÃO  SAGRADA

A palavra hierodulia é formada por duas, sagrado (hieros) e escrava (doulé). Assim, hierodula era a mulher que prestava serviços sexuais aos adoradores da deusa. Por estar esta atividade vinculada aos templos de Afrodite, as prostitutas eram sagradas. É de se lembrar, porém, que desde a antiga Mesopotâmia e em todas as civilizações que a adotaram religiosamente a prostituição sagrada ou templária era muito diferenciada da profana.

As meretrizes sagradas eram sacerdotisas cuja atividade estava relacionada com cultos da fertilidade, das deusas da procriação e do amor. Entre tantas divindades do mundo oriental não podemos esquecer de Ishthar-Inana, deusa do amor e do comportamento sexual; de seus rituais de adoração constavam o transsexualismo, o travestismo e  homossexualidade de ambos os sexos. Inscrições cuneiformes e imagens de Ishthar descrevem histórias da deusa como “Rainha do Céu e da Terra”, “Estrela da Manhã”, falando-nos dela como hierodula.

Lembremos que a prostituição secular e a sagrada aparecem mencionadas na Bíblia. Em Israel, as prostitutas se expunham em lugares públicos e se vestiam de modo peculiar (adornos, maquiagem etc.) para que fossem facilmente reconhecíveis. Embora  consideradas socialmente inferiores às outras mulheres,  eram admitidas na sociedade hebraica.

AFRODITE  PUDICA
Na Grécia, a distinção entre a Afrodite Urânia (Celeste) e a Afrodite Pandêmia (Popular, A de Todos) parece ter surgido no séc. V aC, com Platão, e depois muito usada pelos neoplatônicos para representar, a primeira, conforme o caso, o amor espiritual, lícito ou matrimonial, enquanto a outra representaria o amor físico, desregrado, prostituído. Na origem, a Afrodite Pandêmia representava a união dos povoados (demos) em um só corpo político, dando forma à polis ou à reunião destas em megalópolis. Nesta primeira representação política, associava-se muito Afrodite à deusa Peithó (Persuasão), que os latinos chamaram de Suadela. A adoração de Peithó, relacionada  a Afrodite, foi introduzida em Atenas, segundo o mito, por Teseu, no período em que ele promoveu a reunião dos vários demos e tribos da Ática. Aos poucos, já no período clássico da história grega, a deusa, como Afrodite Pandêmia, passou também a ter relação com o amor homossexual masculino. Afrodite era pouco cultuada pela elite grega ateniense, aristocrática. Era, pejorativamente, chamada de a “Oriental”, sinônimo de prostituta no caso, e de Vulgar ou Promíscua (Chidaios). Apenas nos bairros populares da cidade, perto da Ágora, era honrada, num templo edificado com dinheiro fornecido pelas próprias prostitutas.

A Afrodite Urânia era muitas vezes representada nua ou seminua envolvida por véus. Um de seus pés se apoiava numa tartaruga. Este animal era aqui uma representação da força tranquila e da resistência a todos os ataques. Emblema do silêncio e da introspecção, representava a tartaruga neste contexto a vida que se recolhia, reserva silenciosa que se interiorizava, que se voltava para dentro de si mesma, indicando que a vida matrimonial era algo a ser preservado, não exposto, lembrando-se sempre que conflitos conjugais deveriam ser tratados com a máxima discrição. Ao que parece, o primeiro a representar Afrodite desse modo foi Fídias, o genial escultor grego. Do culto da Afrodite Urânia, lembre-se, o vinho estava inteiramente excluído. A Afrodite Pandêmia aparecia às vezes associada ao carneiro. O escultor Scopas imortalizou-a nesta forma, mostrando-a montada nesse animal. As implicações astrológicas desse dois animais, tartaruga e carneiro, nas representações da deusa são evidentes.

 Em  Atenas,  só  os  poetas populares e cômicos compunham versos
sobre a deusa. Entretanto, nos momentos de grande perigo, como no caso das lutas contra os persas, o governo da cidade não teve nenhum problema em conclamar as prostitutas da cidade para que, com as suas preces, pedissem a proteção de Afrodite a fim de se afastar a invasão inimiga. Mesmo um poeta como Píndaro, extremamente religioso, celebrou a proteção da deusa em vitórias olímpicas de atletas.

AFRODITE  CALIPÍGIA
Dentre os vários apelidos de Afrodite, destacamos: Akidalia - a das fontes; Akraia - a do alto das montanhas (Acrocorinto); Ambologera - a que afasta a velhice - Antheia - a que faz brotar as flores; Apatouria - a enganadora; Apotrophia - a que satisfaz, acalmando os desejos masculinos, depois de tê-los atendido; Hetaira - a prostituta; Kalipigia, a de belas nádegas; Despoina, a déspota; Hekaerge - a que atinge à distância; Leminites - protetora dos portos; Melaina - a negra; Androphona - a destruidora de homens.
  

Afrodite chegou ao mundo grego como deusa da beleza, do amor sexual, da vida social, da sedução, da sensualidade, da harmonia e do sentido interno de equilíbrio que se manifesta como charme, calor, intimidade. Ela confere mobilidade ao espírito, leveza e agilidade às faculdades mentais, aos reflexos, savoir-faire, imaginação e capacidade de compreensão. 
                       Como tal, Afrodite   sempre representou  socialmente     um grande                   poder civilizador, o    desejo de
beleza e de cultura de uma civilização. É muito difícil para as três grandes religiões monoteístas, ainda presentes no mundo atual, que consideram o sexo como uma concessão à vida instintiva, entender o papel educador e civilizador da deusa. As três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) sempre, na realidade, excluíram o princípio feminino, associando-o ao mal ou, quando muito, o tolerando-o hipocritamente. 

Já se disse que a beleza de Afrodite ultrapassa aquilo que simplesmente agrada aos olhos. Ela é muito mais que perfeição formal, que contacto sexual ou aquilo que agrada aos sentidos. A beleza de Afrodite não é espontânea, ela pede trabalho, cultivo, pede equilíbrio entre a espontaneidade e a prática diuturna, algo semelhante ao trabalho de um jardineiro para se obter aquela beleza que se situa entre o material e o espiritual. Além do mais, Afrodite está, ao contrário de deuses como Palas Athena e Apolo, ao lado do efêmero, das artes que embelezam a vida, o cotidiano. Nada dela é produzido para passar à História, mas, sim, é feito para ser consumido aqui e agora. São de Afrodite os jardins, os perfumes e os odores agradáveis, os enfeites, as joias, os tecidos, as roupas, a estética corporal e ambiental, as boas maneiras, a arte da boa mesa e a correta escolha das bebidas. Uma das mais famosas punições impostas pela deusa consistiu em tornar malcheirosas as mulheres
de Lemnos que a haviam ofendido. Afrodite “não entende”, por exemplo, porque retirado da terra o ouro tem que ser guardado em cofres, como valor econômico. Pior ainda é o que ocorre em algumas sociedades nas quais as joias que com ele se fabricam não podem ser usadas diante do perigo de roubo que oferecem. Para Afrodite, o entesouramento do ouro é patológico. Afrodite pede que ele seja liberado, tornado visível, ostentado, como acontecia nas antigas sociedades orientais da Ásia Menor, inclusive entre os judeus (vide neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução).

Nas mais diversas religiões, os homens santos que desejaram se aproximar do divino foram obrigados a se afastar da mulher. Por isso, foram inventados os anjos, seres desprovidos de qualquer sexualidade. A ideia das religiões é a de que os homens santos devem evitar as mulheres e menosprezar o corpo. O prazer sexual e a alegria de viver conduziriam à danação. O combate do cristianismo a Afrodite foi (é) insano. No mundo cristão, homens como Francisco de Assis, por exemplo, tiveram que se realizar sexualmente fora das instituições eclesiásticas. As palavras de São Paulo (Primeira Epístola a Timóteo) são bastante esclarecedoras: Que a mulher aprenda em silêncio, com total submissão; não permito a ela que ensine (nada), nem que tenha autoridade sobre o homem, mas (sim) que permaneça em silêncio. Bendizer a morte, evitar as mulheres e menosprezar o corpo são atitudes que possibilitarão a alguém se tornar santo nas religiões monoteístas. O prazer sexual e a alegria de viver levarão ao Inferno. 

    A maior experiência que se fez no mundo grego no sentido de se
alcançar a plenitude quanto aos ensinamentos de Afrodite nós a encontramos, historicamente, na ilha de Lesbos, com Safo (aproximadamente entre 620-570 aC), poetisa, superiora de uma escola semirreligiosa na qual se preparavam mulheres para se expressar através da arte, da música, da dança, consideradas essenciais para se viver uma vida de qualidade.


AMOR HOMOSSEXUAL MASCULINO  (CRATERA  GREGA)

Aqueles (estudiosos) que insistem em qualificar Safo de lésbica, pregadora do amor homossexual feminino, deveriam fazer o mesmo com a “obra” de Sócrates, o filósofo da pederastia, e com a obra de Platão, de modo especial com o seu Simpósio, um grande ensaio sobre o amor homossexual. A proposta de Safo tem, ao contrário das de Sócrates e de Platão, estas inquestionavelmente masculinas, um caráter feminino, universal. O Eros de Safo usava as mesmas palavras para designar (a) o amor entre duas mulheres, (b) o amor entre homens e mulheres e (c) o amor entre mãe e filho. Já o Eros que inspirava os mencionados filósofos patrocinava apenas o amor homossexual masculino. Afrodite e Safo levaram a sua influência tanto ao mundo masculino como feminino. O lesbianismo de Safo parece ter sido muito mais do que uma fixação homossexual; foi, acima de tudo, uma recusa a admitir apenas uma preferência sexual.

Não se pode esquecer que a filosofia platônica procurou por todos os meios diminuir a presença de Afrodite no mundo grego. Platão introduziu uma hierarquia entre os padrões corporal e espiritual. Sua proposta era a da submissão de Dioniso a Apolo, tornando-se, por isso, o Eros dos filósofos uma forma de amor superior à de Afrodite. A partir destas colocações platônicas, as relações entre os homens e as mulheres começaram a assumir a forma que têm até hoje. O corpo da mulher deixou de ser um dos caminhos para o sagrado e o amor de uma mulher passou a ser considerado um obstáculo para se chegar à espiritualidade.


DIONISO


Muitos helenistas modernos, adotam o preconceito platônico ao considerar que Afrodite não representa uma forma de amor superior porque dele não está excluído o sexo. Muitas mulheres que estão presas hoje a um casamento “normal”, de natureza heterossexual, portanto, não exercem quase nenhuma influência sobre seus maridos. O homem, nesse tipo de casamento, se orienta normalmente para uma carreira profissional, preferindo se fixar muito mais nas exigências dessa carreira, na sua ascensão no mundo do trabalho, na competição sob as mais variadas formas, do que nas atenções que a vida amorosa exige. Grande parte das esposas, muitas vezes com surpresa, descobre cedo que seus maridos investem muito mais no trabalho profissional e em tudo o que lhe seja correlato do que na vida matrimonial.



Tudo isto nos permite afirmar que há hoje no mundo uma homossexualidade psíquica tão grande ou mesmo maior que a homossexualidade física. Grande parte dos homens afirma hoje os seus sentimentos de virilidade tão só pela competição e por uma grande relacionamento masculino. A competitividade e a ambição masculinas (e femininas) no mundo moderno atualmente vem excluindo Afrodite, cada vez mais, já que o tempo dedicado ao trabalho, de um modo geral, esgota as energias vitais totalmente, sobrando pouco ou nada restando mesmo para Afrodite.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MERCÚRIO (4)



Mercúrio, como vimos, é um corpo planetário pequeno e muito rápido; energeticamente, é mutável, bipolar, conversível, nervoso e estéril. Mercúrio absorve a polaridade e as características dos planetas que lhe enviam aspectos. Pela proximidade solar e por sua grande velocidade, sua energia está sempre sujeita a frequentes e irregulares flutuações. Aparece sempre associado à  atividade cerebral dinâmica e prática, à computação intelectual e à informação. É nesse sentido que Mercúrio tem a ver com os nossos contactos primários com o mundo, o impulso para obter informações e para trocá-las, emitindo-as e recebendo-as.
VÊNUS
LUA
 É por estas razões também que Mercúrio nada tem a ver com sentimentos e emoções, que são astrologicamente da alçada de Vênus e da Lua.

Há, em grego, uma série de palavras que nos descrevem atividades e procedimentos do deus (Hermes) que nos ajudam a entender
HERMA - HERMES
melhor o universo em que ele se movimenta e atua: herma, é todo objeto que serve de ponto de apoio, que serve para suportar alguma coisa, fundamento (de barcos ancorados numa praia, de uma cidade, de um Estado); hermaion, encontro feliz, descoberta favorável, proporcionada pelo deus (lembremo-nos de heureka, de Arquimedes); hermaios, proveitoso, vantajoso; hermeneia, expressão de um pensamento, faculdade expressiva, uma explicação; hermeneuma, significação, símbolo; hermeneutikos, aquilo que concerne à interpretação de alguma coisa, de um texto, no sentido de lhe abrir o sentido; hemetikos, onde o ar não entra, fechado, é o impenetrável ao sentido. Os
ARQUIMEDES
romanos, para fins artísticos (arte religiosa), sempre muito práticos, usarão o nome de Hermes para, associando-o ao de outras divindades ou heróis, criar imagens híbridas como Hemaracles (busto representando ao mesmo tempo Mercúrio e Hércules), Hermerotes (busto representando ao mesmo tempo Mercúrio e o Amor, Cupido), Hermathena (busto representando ao mesmo tempo Mercúrio e Minerva).   


Hermes não tem santuários grandiosos, não pertence, a rigor, a
ENCRUZILHADA
qualquer localidade; viaja pelos três mundos, não mora permanentemente em nenhum lugar, está sempre indo, caminhando. Hermes é, como vimos, honrado sobretudo nas encruzilhadas e nos ginásios, lugares de pouca dignidade se os compararmos com aqueles em que são reverenciados os seus colegas olímpicos, sempre em templos majestosos.



ZEUS TRANSFORMANDO LYCAON EM LOBO
  O mais antigo lugar de culto de Hermes ficava no monte Cilene, na Arcádia, onde ele nasceu; um pequeno templo levantado por Lycaon, filho de Pelasgo, atesta a grande antiguidade da presença do deus no Peloponeso. Os pelasgos foram os primeiros habitantes da Grécia, ali chegando bem antes dos aqueus. Dali, o culto teria passado à Ática e depois se irradiado pelo país. Uma peculiaridade: em muitos lugares (norte da África, Creta, Samos e na Magna Grécia), Hermes dividia esses primitivos lugares de culto com Afrodite, sendo comum neles se encontrar muitos ex-votos, na qualidade de Hermes como o iniciador dos jovens na vida adulta. Nestas representações, além de Afrodite (a vida social), Hermes vinha sempre acompanhado de sátiros e silenos, um indício de que dentre as iniciações que ele patrocinava estava a sexual.
 
GRÉCIA E MAGNA GRÉCIA

  Foi na qualidade de deus dos ginásios e da ginástica que a imagem de Hermes mais se fixou. Sua estátua estava entre as dos doze “grandes” em Olímpia, onde se celebravam os famosos agones. As Hermaias eram as festividades realizadas em homenagem ao deus nos ginásios. A participação nestas festividades só era permitida a jovens, aos meninos (paides) e às meninas (ageneioi).

Eram consagrados a Hermes a palmeira, a tartaruga, o galo, vários tipos de peixe e o número quatro, fazendo parte dos seus cultos, como matéria sacrificial, mel, incenso, porcos, cordeiros e bodes. A
MEDRONHEIRO
língua dos animais sacrificados lhe pertencia, pois era o deus da eloquência. Em alguns lugares onde Hermes era cultuado, uma planta ocupava lugar de destaque, o medronheiro, junto da qual ele fora criado no monte Cilene. O medronheiro é uma pequena árvore, com madeira dura, folhas coriáceas, flores brancas e pequenos frutos alaranjados, comestíveis, semelhantes ao morango.


 
SALGUEIRO
Assim que Hermes nasceu, Maia embrulhou-o num cueiro e o colocou no vão do tronco de um salgueiro, árvore-símbolo da fertilidade inconsequente. Um antigo ditado entre os povos do Mediterrâneo oriental dizia que jamais se deveria confiar um segredo ao salgueiro, pois, conhecido pela sua indiscrição, ele o espalharia aos quatro cantos.
 

O número quatro, sobretudo porque relacionado com os quatro pontos cardeais, é de Hermes, como deus dos deslocamentos e das viagens.  Sabemos  que  em   todas   as   culturas   os   sistemas   de
orientação e de representação do espaço foram baseados no número quatro, número que representa a realidade do mundo manifesto. Pitágoras, por exemplo, atribuía a estrutura fundamental do cosmos ao quatro. Na tradição religiosa, por essa razão, o quatro exprime a ideia do divino revelado por sua manifestação, por sua revelação, simbolizando assim o universo criado, formal, material, e sua relação com o mundo espiritual. 
Era por tudo isto também que as estátuas de Hermes
eram encontradas nas encruzilhadas e nas margens das estradas. Sua presença dava ânimo aos viajantes e à vida difícil dos vendedores ambulantes. Hermes ajudava-os, tanto afastando os perigos como fazendo-os evitar os encontros indesejáveis.

Hermes não é continente nem conteúdo, ele é processo, movimento, é consciente e inconsciente, é físico e não-físico, é simultaneamente input e output, emissor e receptor. Por outro lado, não encontramos outra divindade que tenha como ele relações tão amistosas com os seus pares, olímpicos ou não, com heróis e mesmo com mortais. É, saliente-se, dentre os olímpicos, o único que tem livre trânsito no Inferno (Hades), com o nome de Kthonios.

Para os mortais, Hermes, já ao tempo dos mais antigos núcleos urbanos, era um amigo no desespero da solidão humana, pois eram dele os ginásios, as ruas, as vielas e becos, as praças, os parques, os mercados, as galerias, os museus, os recintos de espetáculos de um modo geral, os teatros, as salas de música,  as bibliotecas, a  flânerie, os encontros fortuitos, os chamados encontros ombro a ombro, o bate-papo inconsequente e descompromissado, a conversa “jogada fora” na ágora. Na praça do mercado de muitas cidades gregas havia uma espécie de culto oracular ao deus. Uma estátua de Hermes, chamado de Agoraios, ficava no centro da praça; diante dela, um coração esculpido em pedra, com duas lamparinas de óleo. 


Um outro aspecto importante a destacar na biografia de Hermes é o do seu relacionamento com Apolo. Este, como sabemos, sempre tentou contê-lo, enquadrá-lo, segundo a hierarquia olímpica (Apolo era o grande operador do sistema religioso-social implantado por Zeus). Como interpretar o diálogo entre as duas divindades? Apolo é a divindade que centralizava, no mundo olímpico e na sua expressão terrestre, patriarcal, a consciência do homem. Apolo era, como tal, o símbolo maior da ascensão humana, falando-nos de comando, ordem, harmonia, vida superior, qualidades que o mesmo mundo patriarcal de que falamos traduz hoje, banalizando-as, sem ter conseguido jamais vivê-las, como beleza física estereotipada, arrivismo social, vida aristocrática caricata, conquistas materiais ridículas, poder político etc. Esse modelo apolíneo aviltado, por este enfoque, cria uma espécie de patologia que só o deus Hermes pode ajudar a resolver. Esta patologia é geralmente vivida, como se sabe, com muita prepotência, violência, inquietação, ansiedade, decepção, desilusão, depressão e somatizações perigosas. 

APOLO E AS NINFAS
  Apolo é majestático, luminoso, encaracolado, aloirado, fulgurante, grandioso como Sol. Sempre que pensamos nele somos remetidos a uma ideia de absoluto, de discurso conceitual, convencional, características que nunca estiveram presentes na vida de Hermes. Pelo hino homérico de Hermes, ficamos sabendo que o filho de Maia nada coloca em termos de absoluto nem tem ciúmes de que Apolo se aproprie de sua lira; ele é generoso e amistoso para com o irmão. Hermes, aliás, é o mais generoso e amistoso dos deuses.

 Numa passagem, Hermes diz a Apolo que não terá ciúme ou inveja do que Apolo vier a fazer com a lira que inventou. Arremata,
APOLO E A LIRA
dizendo que a inveja não faz parte de sua natureza. Apolo, como a sua biografia nos dá a entender, é, diante de Hermes, sempre paranoico e teme ser roubado por ele (lembremo-nos de que Apolo é um formidável construtor de muralhas). Traduzindo: o despotismo e a rigidez dos reis, a sua postura imponente, como Apolo representa tudo isso tão bem, são expressões de  bloqueios e de cristalizações que sempre foram ao longo da História prejudiciais às negociações.


Se trouxermos as ideias acima para a nossa vida psíquica, o que vemos é que toda vez que Hermes é reprimido em nós, os relacionamentos ficam prejudicados, há fixações, não podemos perceber a beleza da variedade e da multiplicidade do mundo. Hermes é sempre o responsável, seja histórica ou psiquicamente, pelas aproximações, pela união, ainda que momentaneamente, de princípios antagônicos. O medo do roubo, o temor de negociar, de ser enganado, leva as pessoas a se fecharem, impedindo trocas.

É pelo que aqui se expõe que podemos compreender porque Hermes, como está no seu hino, é o único dos olímpicos a poder entrar em contacto diretamente com o Hades, com as profundezas do reino dos mortos, ou, de outra forma, com o mundo ctônico, subterrâneo, com o psiquismo dos mortais, nos quais o material onírico é a expressão mais próxima desse mundo. É uma compreensão atilada de Hermes também que vai nos permitir corrigir uma grave distorção que o mundo judaico-cristão vem impondo há milênios ao homem ocidental, a rejeição do seu corpo emocional em nome de propostas ascensionais de natureza religiosas inibidoras.

Apesar de sua malícia e de sua esperteza, ou por causa delas, Hermes conquistou a simpatia de todos os olímpicos. Até a vingativa Hera, que sempre perseguiu os filhos espúrios de Zeus, demonstrava muita simpatia pelo filho de Maia, chegando inclusive, como se disse, a oferecer os seus divinos seios para o aleitamento do menino Hermes. Aos poucos, Hermes se tornou um precioso e indispensável auxiliar dos deuses, salvando-os inclusive de muitas dificuldades. Foi, por exemplo, no episódio da gigantomaquia que, usando o elmo da invisibilidade de Hades, matou o gigante Hipólito. Famosa é a passagem em que ele, em companhia de seu filho Pan, salvou Zeus, recompondo-o devidamente para o embate final pela posse do universo com o monstruoso Tifon, impedindo assim a irremediável derrocada da ordem olímpica e a consequente destruição do mundo criado.

Fiel e prestimoso auxiliar do pai, foi Hermes quem adormeceu o dragão Argos ao som de sua flauta e o matou em seguida para
MOLI - A PLANTA MÁGICA
libertar a maravilhosa Io, amante de Zeus. Quando do nascimento de Dioniso, foi ele quem o levou a Ino, irmã da falecida Sêmele. Quando Ares caiu prisioneiro dos Alóadas, foi Hermes que descobriu onde o haviam prendido e o libertou. A proteção de Hermes estendia-se também aos heróis, como aconteceu com Perseu, no caso da morte da pavorosa Medusa. Deu a Ulisses uma planta mágica que o tornava imune à sedução da maga Circe. Cansou-se de prestar auxílio a Hércules.


Benfeitor dos homens, Hermes estendida sua proteção também às manadas, aos viajantes, aos negócios, à vida diplomática, inspirando aos homens discursos eloquentes e palavras harmoniosas. Homero nos fala das almas dos pretendentes de Penélope que Ulisses matou se dirigindo para Hades, para as pradarias cheias de asfódelos, em companhia do deus. Esta a sua função de deus psicopompo. Assim como conduzia as almas ao lugar habitado por “aqueles que não são mais”, Hermes também podia trazê-las de volta à vida, como aconteceu com com a alma de Pelops, o filho de Tântalo. Foi Hermes também que entregou Eurídice a Orfeu quando este desceu ao Hades para trazê-la de volta à vida.

HERMES, ORFEU E EURÍDICE
   Hermes, como aconteceu com as demais divindades, envolveu-se em muitas ligações e aventuras amorosas. Dentre as deusas, consta que manteve relações com Hécate, Perséfone e Afrodite, esta o seu caso mais conhecido, com a qual teve um filho, Hermafrodito. Hermes, lembremos, sempre teve uma grande predileção por ligações rápidas, com parceiras sem grande evidência no Olimpo. Preferia contactos com as divindades subolímpicas, como as ninfas, mas não menos belas e qualificadas que as de nível superior. Seu comércio amoroso se realizava de preferência nos bosques profundos. Com a ninfa Phene, foi pai de Saon, colonizador da Samotrácia. Com Polymele, ninfa da Tessália, foi pai de Eudoro, companheiro de Aquiles e de Pátroclo na guerra de Tróia.

Um filho de Hermes com uma ninfa náiade, que deixou uma história muito conhecida e divulgada, foi Dáfnis (nome que lembra o loureiro (daphne, em grego). Por ele ter nascido na Sicília, junto de um bosque de loureiros, é  considerado como um semideus. Passa esse filho de Hermes por ter sido o inventor da poesia bucólica. Belíssimo, foi amado por mortais e imortais, sobretudo por um seu irmão, o deus Pan, que lhe ensinou música. Morreu muito jovem, assassinado por Nômia, a quem havia jurado fidelidade. A jovem o assassinou, cegando-o antes, quando descobriu que ele andava de amores com outra. Outra versão nos conta que Nômia apenas o cegou quando o encontrou embriagado. Desde então, desesperado, só entoando cantos fúnebres, Dáfnis se suicidou, atirando-se de um penhasco.

Públio Vergílio Marão (séc. I aC), nas suas Éclogas, transformou Dáfnis num tema poético, base de um gênero, de cantos fúnebres, mágicos, cheios de dor e saudade, através dos quais se procura
DÁPHNIS E CHLOÉ
trazer de volta à vida um amor que a morte levou. Ao que parece, o mito de Dáphnis foi aproveitado por um poeta grego do séc. II dC, Longus, que o usou para escrever uma história, Dáphnis e Chloé, sobre amores de dois adolescentes em Lesbos. Aproveitada por alguns escritores posteriormente, a história, no séc. XX, foi usada por Michel Fokine para servir de base a um bailado (um ato e três quadros), com música de Maurice Ravel, criado pelos Balês Russos de Diaghilev, em Paris, em 1912, constituindo-se, desde então, num marco da dança moderna.


O mais famoso filho de Hermes, como já se disse, é Pan (Todo,
PENÉLOPE
Tudo, em grego), nome que lhe foi dado pelos imortais; a mãe, segundo várias versões, pode ser uma ninfa, uma mortal ou até, absurdamente, Penélope, esposa de Ulisses, como se espalhou maldosamente.  O que se sabe é que o  menino chegou ao mundo sob uma forma zoomorfa, com patas ao invés de pés e chifres, com uma aparência caprina, o que escandalizou a todos. Foi levado pelo pai, envolvido na pele de lebre, ao Olimpo, sendo adotado por todos os deuses.


Turbulento, alegre, Pan logo se tornou o deus dos pastores das montanhas da Arcádia. Sua aparição, aos gritos, provocava o pânico, um terror inexplicável que se apossava dos que o encontravam. Pan vivia nos bosques e nos campos, nos territórios da deusa Ártemis, sendo, além de deus-pastor, uma espécie de guardião das passagens, das extensas áreas se situam entre as grutas (o conhecido, lugares de nascimento) e o grande Todo (o desconhecido, o grande mundo). Aos poucos, Pan acabou por representar a Natureza universal. Pan gostava de acompanhar Dioniso, fazer parte do seu cortejo como tocador de syrinx, a flauta dos pastores da Arcádia.

Como princípio da ordem universal, encarnando a energia que a percorria, Pan era muito invocado nas litanias órficas como símbolo da incorporação desta energia à matéria universal, formando assim a base para a constituição do cosmos. Fonte de todas as coisas, era Pan uma síntese dos quatro elementos, sendo os seus chifres a imagem da penetração da energia divina na matéria. É de Pan que derivam as criaturas mistas, entre o animal e o humano, também participantes do séquito dionisíaco, sátiros, silenos, faunos  etc. Um órgão sexual desproporcional ao tamanho da figura, em imagens do deus, indicava o poder criativo da energia universal. 

CAPRICÓRNIO
   Muitos astrólogos da antiguidade usaram a imagem de Pan para representar o signo de Capricórnio, entendendo (corretamente) que este signo é o que nos abre as portas para o grande Todo, como o primeiro do quarto quadrante zodiacal. Além do mais, lembre-se que como Pan sempre representou a penetração da energia universal na matéria, nos longos e obscuros períodos  outonais e hibernais, quando a luz solar desaparecia, era comum que o terror se instalasse entre os homens (fato este constatável desde a pré-história), que clamavam perdidos e desorientados, pedindo a volta da luz, isto é de Pan. Foi este terror que deu origem aos cultos solares e às religiões que nos falam do Sol agonizante e desaparecido.
  

O historiador Plutarco (46-120) narra que, à época do imperador Tibério, a tripulação de um barco que passava diante da ilha de
Naxos ouviu uma voz soturna, vinda do continente, acompanhada de um pranto que parecia sair da vegetação, dos rochedos e dos animais, que dizia: Anunciai a grande nova: o deus Pan está morto. Esta história foi interpretada como um sinal da morte das divindades do mundo antigo e o anúncio de um nova era, a da era cristã, que decretou o silêncio dos oráculos e a destruição das imagens divinas.

Registre-se ainda que é o deus Pan que dá origem ao pantáculo ou pentalfa, simbolicamente uma das formas simbólicas mais evoluídas do macrocosmo, um emissor fluídico da essência universal, usado por diversos povos. O pantáculo funciona ao mesmo tempo como amuleto, protegendo; como talismã, irradiando uma força mágica, dando poder a quem o usa. O pentáculo, construído sob orientação astrológica, conjura os terrores coletivos, afasta os maus espíritos e demônios responsáveis por epidemias e catástrofes coletivas. 

Quanto a Hermafrodito, acrescente-se que, como filho de Afrodite e de Hermes, temos, com ele, uma proposta mítica de reconciliação dos contrários. Nascido totalmente masculino, belíssimo, ao encontrar-se com a ninfa Sálmacis e com ela fundir-se num abraço que ela lhe deu, o jovem desceu ao fundo das águas da fonte onde se banhava, formando ambos um só e inseparável corpo. Quem nos conta a história de Hermafrodito é Ovídio (Metamorfoses).

A criação do mito é, obviamente, uma tentativa de se resolver o eterno jogo dos princípios masculino e feminino através de uma figura estática e simétrica. Se ficarmos ao nível de uma leitura biológica do mito, estaremos certamente diante de um absurdo, de uma aberração. Não é por acaso, aliás, que entre os antigos gregos a conformação anormal dos órgãos sexuais de uma criança era sempre uma monstruosidade, um mau presságio, que punha em risco a ordem social, chamando uma punição divina.

O que nos interessa mais, sem dúvida, é a tradução psicológica desse mito, na medida em que, neste plano, ele revela uma tentativa de se neutralizar a incessante e necessária atividade hermesiana, trazendo consequentemente um enfraquecimento do jogo alternante das polaridades masculina e feminina, muito mais da primeira (o forte componente machista da sociedade grega), se considerarmos o contexto em que o mito vicejou. Ou seja, enquanto vida houver, impossível estabilizar esse jogo. A não ser que o tiremos da terra, do concreto e do múltiplo onde vivemos, e o desloquemos para a teologia e passemos a admitir a ideia da conjunctio oppositorum (Deus).

A figura de Hermafrodito supõe ideias de impotência e de
HERMAFRODITO E SÁLMACIS
esterilidade, tem caráter regressivo. Não é por outra razão que ele e Sálmacis descem ao fundo das águas, enlaçados, uma volta à indeterminação, ao líquido amniótico. É com  base nesta colocação que entendo, sob o ponto de vista político, o mito de Hermafrodito como uma tentativa (infrutífera) de se neutralizar o grande realce que foi dado ao deus Hermes pelos sofistas na sociedade ateniense do séc. V aC. O que os sofistas propuseram foi o abandono do universal e do eterno para que a atenção do homem se concentrasse, como devia, no individual, no múltiplo e no contingente. Por isso, Platão tanto os combateu


Podemos usar a figura do Hermafrodito, isto, sim, para representar, com relação ao mundo masculino, as várias figuras de estados depressivos de que hoje é vítima grande parte de seus membros. Isto acontece quando os acomete uma sensação de enfraquecimento diante da vida, de perda do seu potencial machista, obviamente com as devidas repercussões somáticas,  alterações hormonais, desequilíbrios de temperamento etc. Quando Hermafrodito aparece na vida de um homem poderíamos talvez, em alguns casos, considerar positivamente essa manifestação, como uma presença a ser usada para um impulso em direção de uma nova dimensão da vida consciente. Uma atenuação do componente machista e de todo o culto que o envolve. O que o mito de Hermafrodito nos permite entender é que o homem e a mulher não são totalmente masculinos ou femininos. O homem comporta um elemento feminino e a mulher um masculino, papéis que devem se alternar, conforme as circunstâncias. Quem faz as passagens de um papel a outro é Hermes, divindade que governa as trocas entre as todas polaridades.
    

Entre as mortais amadas por Hermes destacamos Acacallis (nome que lembra o tamarindo), filha de Minos; ele a fez mãe de Kydon, fundador da cidade cretense de Kydonia. Amada por Hermes, Kíone (nome que lembra mau tempo, frio, gelo) tornou-se mãe de Autólico e de Filamon. O primeiro recebeu do pai o dom de tornar invisível o que tocasse; ele pode assim cometer vários furtos, até o dia em que foi confundido por Sísifo, de quem havia roubado vários animais (bois).

Filamon foi poeta e adivinho e passa também por filho de Apolo porque no mesmo dia em que se uniu a Hermes Kíone manteve relações com o deus solar. Por isso, Autólico e Filamon são gêmeos, sendo o primeiro, porém, filho de Hermes e o segundo de Apolo.  Autólico aprendeu com Hermes tudo sobre as artes do furto e do perjúrio, compondo-se este último de vários itens. Tanto pode ser falso testemunho ou falsa acusação como quebra de juramentos ou renúncia a opinião e crenças. Quanto aos furtos, seria muito longa aqui a enumeração de todos eles. Autólico, quando da permanência de Sísifo, o mais astuto dos mortais, em seu palácio, fez com que ele, antes de Laerte, o futuro marido de sua filha Anticleia, se unisse a seu ilustríssimo hóspede. Dessa união, nascerá o grande herói Ulisses, como já se disse. Há que se mencionar ainda um outro filho de Hermes, Mírtilo, assassinado por Pélops. Vingando a morte do filho, Hermes infernizou toda a descendência de Pélops, filho de Tântalo, um dos grandes criminosos do mito.

As variadas e múltiplas funções de Hermes estão fixadas, além daquelas já mencionadas, em outros numerosos epítetos a seguir relacionados: Akakesios (o que não poderá ser ferido), Kataibates (o condutor de almas para o outro mundo; equivalente a psicopompo), Agetor (o que conduz à frente, guia), Agoraios (o das praças e mercados), Ktesios (protetor das propriedades), Eriounios Dator Eaon (o que propicia a boa sorte), Nomios, Epimelios (protetor dos rebanhos), Promakos (o que luta na frente), Propylaios (protetor das entradas), Pronaos (o das entradas dos templos), Trikephalos (protetor das encruzilhadas), Enagonios (o que preside as competições esportivas), Hermeneutes (o tradutor, o que esclarece as mensagens), Diaktoros (servidor público), Aggelos (mensageiro, núncio), Pheletes (ladrão), Arkhos Pheleteon (rei dos ladroões), Klepsiphron (enganador), Mekhaniotes (cheio de astúcia), Polytropos (onipresente), Poplymetis (o de juízo avisado) Poneomenos (o muito ocupado), Dais Hetairos (companheiro de festins), Khandotes (distribuidor de alegria), Akaketa (leve, gracioso), Kydimos (glorioso), Aglaios (resplandecente, brilhante), Kratos (poderoso), Mastenos (mestre das buscas), Pompaios (guia, condutor), Enounios (o sempre últil), Psykhopompos (condutor das almas).

Deuses, quaisquer que sejam eles, como sabemos, são criados pelos humanos, à medida de suas necessidades. Hermes, neste sentido foi um modelo de comportamento de grupos humanos, ainda muito influenciados por valores matriarcais, que viveram por muitos séculos como predadores e nômades. Essa vida, em grande parte
TRICKSTER
era baseada no roubo, no banditismo, na depredação, no oportunismo, na esperteza (trickster). Aos poucos, com a crescente afirmação de valores masculinos e a consequente sedentarização e logo em seguida com o aparecimento de núcleos urbanos, Hermes mudou o seu comportamento, para ser um dos grandes operadores desse processo civilizador, como deus da comunicação, das vias públicas, das praças e mercados, dos ginásios, das artes, do comércio, como vimos. Nesse sentido, é que Hermes vai representar a passagem do neolítico para o chamado período arcaico da história da Grécia e deste para o período clássico. Ele será o responsável por todas as mudanças culturais nessa caminhada, falando-nos de flexibilidade, adaptação, articulação, trocas, criação de uma linguagem, conscientização, interpretação, uma grande passagem de um mundo primitivo, bruto, para um mundo de valores e de significados.


HERMES ALQUÍMICO
   No ocidente, com o desmoronamento da mundo greco-romano, Hermes se refugiou nos conventos e nas primeiras universidades que se formaram, sempre prestando grandes serviços, embora um pouco apagado. No Renascimento, porém, revigorado, com o estudo dos mitos e das artes greco-romanas, Hermes voltou, mas, ainda assim, para viver à sombra de Apolo, o arquétipo dominador da cultura ocidental até o século XVIII, toda baseada em propostas patriarcais, imperialistas e colonialistas. Ao final deste século, com o Iluminismo, com o rápido desenvolvimento da ciência e da tecnologia, Hermes parecia ter saído da sombra apolínea. Falou-se de democratização, de igualdade, de ideais coletivos, de ciência, mas nada disto aconteceu.   

SALA DE COMANDO
   Neste início do século XXI estamos ainda vivendo sob o modelo de três grandes arquétipos formulados pela mitologia grega, Zeus, Hefesto e Ares, os senhores da guerra e da tecnologia, esta, em grande, como instrumento de dominação e de idiotização . O que estas divindades representam vem se tornando cada vez mais insatisfatório e mesmo perigoso. Por outro lado, há uma certa movimentação hermesiana, ativada pela tecnologia, que quer algo diferente, acreditando que por esta via será possível se fazer alguma coisa. O que temos então é o seguinte: enquanto a tecnologia parece melhorar dia-a-dia, a qualidade de vida piora na mesma proporção. Os fracassos e as desilusões se acumulam.  Os valores mudam diariamente, nada é estável, a moral social se dissolve, tudo é manipulado, nada é confiável, tudo é falso. Temos um excesso de mobilidade; violência (consumismo) e velocidade são as tônicas dominantes. Nossos ritmos se descontrolam. Fala-se muito em desenvolvimento sustentável, mas essa ideia parece cada vez mais difícil de ser concretizada. Zeus, Hefesto e Ares ainda mantêm Hermes a seu serviço. Até quando?