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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

PERSEUS

                     



PERSEUS é no mito filho de Zeus e de Danae, filha do rei de Argos, sendo, como tal, um dos ancestrais de Hércules. O Senhor do Olimpo penetrou na inexpugnável câmara da princesa por uma fenda nela existente no teto sob a forma de uma chuva de ouro. Engravidou-a, tornando-a mãe do futuro grande herói Perseu. O
DANAE   E   SEU   FILHO
menino permaneceu escondido, mas, um dia, o avô tomou conhecimento de sua existência. Encerrou mãe e filho num cofre inviolável e ordenou que fossem lançados ao mar. A pequena arca foi dar às costas de uma das ilhas Cíclades. Um dos irmãos do rei da ilha recolheu o cofre, o abriu, dele retirando Danae e o filho. Cuidou de ambos. Perseu logo se tornou um jovem esbelto, destemido, vivendo com a mãe na corte. O rei da ilha, Polidectes, que havia notado Danae e por ela se apaixonado, não conseguia conquistá-la devido à presença do jovem, sempre ao lado da mãe.



DANAE   E   A   CHUVA   DE   OURO  ( TICIANO )

Polidectes, um dia, ofereceu uma grande festa no palácio, perguntando aos convidados, como era costume, o que lhe ofereceriam como presente. Todos responderam que lhe dariam cavalos, o melhor presente para um rei como ele. Perseu, também convidado, num arroubo juvenil, disse que poderia, ao invés de cavalos, lhe dar como presente a cabeça da Medusa, pavoroso monstro que andava pelo mundo a aterrorizar os mortais. Polidectes aceitou. Deixando a mãe, muito preocupada e chorosa, nosso herói partiu então para a sua grande aventura iniciática. 



 O   PRESENTE  DE  PERSEU  ( JEAN-MARC  NATTIER )


PERSEU   E   AS   GREIAS
( EDWARD BURNE-JONES , 1892
Por intervenção de Zeus, Perseu recebeu o auxílio de duas divindades, Hermes e Palas Athena. Instruído por elas, Perseu, antes de buscar a Medusa, foi procurar as Greias (As Velhas), três monstros que viviam no extremo ocidente. O caminho era difícil, a região não era alcançada por nenhum raio de Sol, raríssimos os que se atreveram a visitá-la, dos quais, aliás, nunca mais se teve qualquer notícia. Só as Greias conheciam o caminho que levava à Górgona Medusa. As Greias também conheciam determinadas ninfas que guardavam certos objetos indispensáveis a qualquer empreitada heroica que tivesse por finalidade a morte da Górgona.


PERSEU
Perseu obteve das ninfas tudo o que lhe era necessário para a sua vitória: umas  sandálias com asas, uma espécie de alforje denominado quibisis (para guardar a cabeça da Medusa) e o capacete do deus Hades, que tornava invisível quem o usasse. Hermes, além disso, lhe deu uma afiadíssima espada (harpe ou falx), Palas Athena lhe emprestou a sua égide, polida como um espelho. Chegando à
TRÊS   GÓRGONAS
caverna da Medusa, a mais importante dos três monstros, Perseu a encontrou; junto dela, as suas duas outras irmãs, Esteno e Euríale. Na cabeça das três, à guisa de cabelo, serpentes; na boca, presas de javali; mãos e asas de bronze. Quem as olhasse ficaria petrificado. Calçando as sandálias voadoras, Perseu sobrevoou as três irmãs, concentrando-se na Medusa; refletiu o seu rosto no escudo e  lhe cortou a cabeça. Do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e o cavalo alado Pégaso; o pai era
PALAS  ATHENA  E  SEU  ESCUDO
Poseidon, a única divindade que ousara se aproximar da Medusa. Posteriormente, como sabemos, a cabeça do monstro foi colocada no escudo de Palas Athena, que com ela conseguiu assim petrificar os inimigos que bem desejasse. Pondo o elmo do deus Hades na cabeça, Perseu tornou-se invisível, escapando das duas outras irmãs,  Esteno e Euríale. 

Na volta, ao passar pela Etiópia, envolveu-se nosso herói com os reis do país, conforme já narrado anteriormente (constelação de Andrômeda). Libertou a princesa do pavoroso monstro Ceto que, enviado por Poseidon, iria devorá-la como vítima expiatória por causa da hybris materna. Voltando à sua terra de origem, com a princesa Andrômeda, soube Perseu que Polidectes tentara violentar sua mãe. Destronou-o, pondo no seu lugar o irmão que dele e da mãe cuidara. Em seguida, em companhia da mãe e de Andrômeda, foi em busca do seu passado. Tomou o caminho de Argos para conhecer o avô materno, Acrísio, rei da grande cidade. Ao saber da presença do neto, voltou à lembrança de Acrísio uma profecia que um oráculo lhe fizera quando do nascimento do menino, a de que um filho de Danae o mataria. Acrísio revolveu então, enquanto o neto estivesse na cidade, ir para Larissa e lá permanecer, cidade onde reinava um amigo. 



PERSEU   SALVA   ANDRÔMEDA  ( VERONESE )

Em Larissa realizavam-se competições esportivas, jogos fúnebres (agones), em homenagem ao pai do rei, recentemente falecido. A cidade recebera a visita de muitos atletas, vindos de várias regiões da Grécia, como era comum quando da realização destes certames. A caminho de Argos, Perseu resolveu participar dos jogos anonimamente. Na prova do lançamento de disco, da qual participava, Perseu o lançou de tal modo que, escapando do seu controle, a peça de metal atingiu violentamente a cabeça de um espectador que estava na tribuna real, matando-o. Era Acrísio, que em companhia do rei de Larissa a tudo assistia entusiasmado. Cumprira-se assim a profecia do oráculo. 





Esclarecidos os fatos, cheio de dor por ter causado a morte do avô, Perseu, depois de lhe prestar as devidas honras fúnebres, enterrou-o em Larissa. Tomou a decisão de não se dirigir a Argos para reivindicar o trono que, por direito, lhe cabia. Foi para Tirinto, onde reinava um primo, propondo-lhe que, no seu lugar, assumisse o trono de Argos, enquanto ele, Perseu, ficaria com o de Tirinto. Assim aconteceu, vivendo nosso herói até o fim de sua vida em companhia de Andrômeda e dos muitos filhos que tiveram.



PERSEU   E   ANDRÔMEDA  ( LAMBERT  SUSTIUS , 1510 - 1560 )

Perseu é o herói que vence a Medusa, símbolo da mãe terrível, responsável pela imagem excessiva da culpa que filhos podem criar quando têm que resolver o problema da construção de uma individualidade própria. Cortar a cabeça do monstro é dominar de modo permanente este sentimento desproporcional, exagerado, paralisante e mórbido que sobrevém quando há necessidade de que sejam ultrapassados os limites lunares do mundo familiar, tendo-se em vista a necessidade, como se disse da aquisição de uma individualidade autônoma.

A culpa que Perseu procurou e conseguiu (?) expiar, ao matar a Medusa, está representada no mito por aquilo que na vida do jovem grego chamava-se o momento da separação ou da iniciação, correspondente ao rito da efebia na sociedade grega. O herói, o jovem grego, por volta dos seus 18 anos, tinha que se afastar da proteção familiar, sobretudo a materna, e ir sozinho pelo mundo, viver por certo tempo nas fronteiras mais distante do país, em busca da sua afirmação, da construção de uma personalidade independente que o habilitasse a ter o direito, ao voltar, de se inscrever no seu demo como cidadão. Desta habilitação fazia parte um exame ao qual o jovem, depois de cumprida a efebia, devia se submeter, exame ao qual se dava o nome de docimasia. Dokimos, em grego, quer dizer prova. Docimasia era, pois, verificação de aptidão ou de elegibilidade. A dignidade da cidadania só era concedida àqueles que fossem aprovados quando da sua docimasia.   

Toda iniciação, e esta é uma das mais importantes, equivale no fundo a uma morte e um renascimento, fases aqui consideradas como uma saída, a transposição da  porta, para se ter acesso a um outro tipo de vida. Uma saída que significa uma entrada. A iniciação, neste sentido, operava uma metamorfose, a ultrapassagem de uma condição. Perseu abandonou o mundo materno, entrou num mundo difícil, escuro, foi ao extremo ocidente (morte da luz) onde viviam as Górgonas. Simbolicamente, no plano do psiquismo, temos aqui uma descida ao mundo subconsciente, a luta contra monstros e o retorno. A morte iniciática, a do antigo eu, prefigura a morte que deve ser considerada como a iniciação essencial para se ter acesso a uma vida nova. 


EFEBO   DOMANDO   SEU   CAVALO

O que se depreende desta história é que mesmo nas sociedades patriarcais a figura materna, embora submetida e subjugada, sempre guardou poderes que nunca deixaram de se manifestar, sub-repticiamente, de modo muitas vezes dissimulado, às ocultas.  Com efeito, quanto ao mundo grego, a experiência materna ocupava toda a infância de uma criança do sexo masculino, dominando ela toda a primeira parte da vida do jovem até a efebia. A criança grega passava esses anos iniciais de sua vida no gineceu (Esparta era exceção), o reduto feminino da casa. Para o grego, a criança e o adolescente até a efebia estavam presos de algum modo à  figura materna. Essa dependência, a rigor, nunca era rompida, mesmo que a casa materna fosse abandonada, persistindo a ligação por toda a vida como pressões inconscientes. Sempre presente a ameaça das origens, a tentação da vida regressiva. No arquétipo materno estão presentes de modo ambivalente a vida e a morte. Nascer é sair do ventre materno, morrer é voltar ao seio materno, a Mãe Terra. De um lado, segurança, abrigo, ternura, amor; de outro, risco de opressão, abafamento, castração e morte.

MEDUSA
A Medusa, no mito, é um dos aspectos da mãe que se recusa a ver rompido o cordão umbilical, a mãe devoradora que não quer perder a dependência do filho. Negativamente vivido, como se sabe, o arquétipo materno pode se projetar de variadas formas, de sentimentos inibidores, perturbadores, como saudade, nostalgia, culpa, remorso, lembranças, atavismos poderosos, hábitos, idiossincrasias,  materializando-se das mais variadas formas, como cidade natal, quintais, túmulos, jogos infantis, jazigos familiares, praias, alimentos, jardins, fontes, igrejas, salas de aula, brinquedos, objetos etc. Ou manifestando-se também sob a forma de pesadelo noturno, desde "visitas" de uma feiticeira, de uma serpente, de um monstro, a situações oníricas angustiantes geralmente ligadas a extravios, descaminhos, desorientação, impossibilidades ou limitações físicas, perda de algum sentido, surdez (falam conosco e não conseguimos ouvir), cegueira, permanência obrigatória em lugares desconhecidos etc. Na sua feição negativa, a figura materna aparece nos sonhos como uma força primitiva egoísta, exigindo sempre, não dando paz. A tarefa do herói consistirá, pois, em aprender a eliminar ou diminuir o poder dessas imagens e representações  sobre a sua personalidade. 

No seu aspecto destrutivo, quanto ao menino, ao adolescente, principalmente, a  fixação na figura materna apresenta geralmente uma tendência involutiva, uma regressão instintiva. Mesmo naqueles que conseguem se libertar fisicamente, a maioria continua a sofrer uma fascinação inconsciente que ameaça de paralisação o desenvolvimento do eu. Neste sentido, a mãe se torna para a criança um não-eu, sempre hostil, em razão do temor que inspira pela dominação inconsciente exercida. Num mapa astrológico, os bons astrólogos sabem que tudo isto pode ser explicado pela Lua, por sua posição e aspectos.

Alguns esclarecimentos adicionais, acredito, nos ajudarão a entender o papel dos homens e das mulheres na sociedade grega, papel que a mitologia, com seus heróis, nunca deixou de refletir. Evidentemente que quanto às meninas, às jovens do sexo feminino, nada do que está acima se aplica. Quanto à mulher, na sociedade grega, principalmente no período clássico de sua História, os papéis
ASPÁSIA   E   PÉRICLES  ( JOSÉ  GARNELO  Y  ALDA )
admitidos estavam assim distribuídos: em primeiro lugar, a cortesã, mulher livre, instruída, de família rica, que escolhia os seus homens e que pontificava em salões em que se discutiam filosofia e arte. Poucas, muito poucas, desempenharam este papel. A mais famosa foi Aspásia, bela e rica sofista, que viveu com Péricles, rei de Atenas. Em segundo lugar, temos as concubinas, para os prazeres da carne, pois as cortesãs eram sobretudo para os prazeres do espírito. Em terceiro lugar, a esposa, que vivia encerrada no gineceu, cuidando da administração da casa, das crianças, dos empregados domésticos e dos escravos. Fora deste cenário, que é o da aristocracia como classe social superior, a dos cidadãos, as mulheres distribuíam-se pela classe dos metecos (metoikoi), estrangeiros, e escravos (douloi), de todos os tipos. Só para se ter uma noção de números, lembremos que no século de Péricles, Atenas tinha cerca de 400.000 escravos para uma população de eupátridas ("bem nascidos", os aristocratas) situada entre 20 e 30.000 cidadãos.  

Dentro de casa, o marido, como chefe de família, tinha autoridade absoluta, dispondo inclusive do dote da esposa. A esposa, durante toda a sua vida, era, sob o ponto de vista legal, considerada como menor, já que dependia do seu senhor (kyrios) para tudo. Em qualquer circunstância, a mulher sempre dependia de uma autoridade masculina. Solteira, dependia do pai; casada, do marido; viúva, dependia do filho mais velho ou de um tutor por disposição testamentária do marido.    





A constelação de Perseu, por sua relação com a de Andrômeda, a princesa, é também conhecida como a do Príncipe. Príncipes, simbolicamente, representam a promessa de um poder autêntico, independente, qualquer que seja o domínio considerado, o contexto onde apareçam como personagens não só de mitos, mas de lendas ou histórias bem como no folclore.  O príncipe é o primus inter pares. Por isso, falamos em príncipe dos poetas, das artes, da ciência. O príncipe é também a imagem de um estado adolescente de vida, ainda não totalmente controlado. Esse estado, para ser ultrapassado, precisa de provas. O príncipe está mais para o herói que para o sábio, estado a que ele poderá ter acesso, ainda que isto seja muito difícil. A figura do príncipe sempre aponta para a metamorfose de um eu inferior num eu superior, entrando sempre a força do amor, nos mitos, como agente desta transformação. A grande vitória do príncipe é tanto a morte do monstro como a recompensa de um amor total. Outro, aliás,  não é o sentido da famosa história do Príncipe e da Bela Adormecida. Não podem ser esquecidas também todas as conotações cósmicas e sexuais embutidas neste tema. A libertação da princesa pelo príncipe pode significar a ação de deuses solares libertando ou acordando a adormecida alvorada. 

O mito de Perseu, como se disse, encerra a alegoria da passagem iniciática na qual um herói, depois de sua efebia (a vitória sobre a Medusa), une-se a uma princesa por ele libertada. Princesas são, como sabemos, simbolicamente, nos mitos, nas lendas e nos contos folclóricos aspectos do inconsciente masculino. Personificam, como anima, todas as tendências psicológicas femininas do psiquismo masculino que ele talvez não entenda bem ou mesmo que delas nada suspeite, mas que precisa resgatar, libertar, para poder dar à sua personalidade uma dimensão cósmica. Perseu é um herói que não segue o modelo mais comum de heróis da mitologia, no geral fracassados, inadaptados. Perseu se diferencia dos demais heróis porque não teve um pai mortal.


ANQUISES  E  AFRODITE
( FRANÇOIS  BOUCHER )
Todos os heróis gregos, como regra geral, são filhos de um deus e de uma mortal ou, em bem poucos casos, de uma deusa e de um mortal. Exemplo do primeiro caso, Hércules. Seu pai divino era Zeus. Sua mãe era Alcmena, princesa, mortal, casada com Anfitrião, mortal. Do segundo caso, Eneias. Mãe divina, Afrodite; pai mortal, Anquises. Por essa razão, talvez, é que Perseu seja o mais "terreno" dos heróis, tendo terminado os seus dias, ao que parece, em paz com Andrômeda, cheio de filhos. 

Perseu, como todos os heróis das várias tradições míticas gregas, é um fecundador e, como tal, saturado de machismo, sendo um dos mais bem acabados representante do princípio masculino, enquanto Andrômeda é um  símbolo do princípio gerador da vida. A libertação e a união com a princesa significa neste caso a possibilidade que é oferecida ao herói para que possa entrar em contacto com o seu lado feminino, a sua anima, algo que parece não ter acontecido, segundo os registros do mito. Todos os heróis gregos parecem ter fracassado neste ponto, sendo exemplares, dentre outros, os casos de Hércules (6º trabalho, O Cinturão da rainha Hipólita, das amazonas), de Teseu (o seu procedimento com relação a Ariadne), de Ulisses (o seu melancólico retorno a Ítaca).  

ANDRÔMEDA
 ( DANILE  CHESTER  FRENCH ) 
Lembremos que o nome Andrômeda é formado por palavras gregas, aner, andros e medein, que significam, respectivamente, homem corajoso, viril, herói, e cuidar de, comandar, ou seja, ela é a que reina sobre o homem ou a que dá limites ao homem. A anima feminina, como se sabe, pode tomar uma feição muito destrutiva na personalidade masculina, destruindo-a, desvirilizando-o totalmente. Talvez seja por essa razão que a literatura psicológica (Jung e seus seguidores) apresente muito mais material sobre a anima do que sobre o animus, aquela  sempre considerada muito perigosa para o tradicional desempenho masculino na medida em que aponta para a vida subconsciente, para o mundo dos sentimentos e das emoções. 



HOMERO   ENSINA  DANTE , SHAKESPEARE  E GOETHE
( BELA  CIKOS  SUSIJA , 1864 - 1931 ) 

Por outro lado, não é a mulher emancipada ou masculinizada, fálica, que pode oferecer ao homem uma possibilidade de transcendência, mas, sim, aquela que, longe dos estereótipos, simbolize o eterno feminino (veja Dante e Goethe),  na medida em que ela sabe manter-se aberta para um contacto com as forças geradoras do universo. O feminino não se limita só à maternidade; é dele uma variedade e uma grandeza de sentimentos que o masculino jamais poderá experimentar, inclusive se considerarmos o corpo humano sob o ponto da sua química. A mulher sempre manteve um contacto muito maior que o homem com o mundo do irracional e das emoções. É só a partir deste entendimento, talvez, que a anima, os aspectos femininos do inconsciente masculino, deixarão de ser, como sempre o foram, representados por monstros. 


A constelação de Perseu vai de 12º de Touro a 11º de Gêmeos. A sua estrela mais brilhante é Algenib ou Mirfak, alfa, a 1º 23´ de Gêmeos; depois,  Algol, beta,  hoje a 25º28´ de Touro; e Capulus, um cluster, a 23º 30´ de  Touro. Segundo Ptolomeu, as influências de Perseu apontam para uma natureza aventureira, dão inteligência, mente poderosa, mas, às vezes, eticamente questionável. As estrelas, ainda segundo Ptolomeu, têm a natureza de Júpiter e de Saturno. Mirfak, porém, pelo que me foi possível observar, tem mais uma natureza marciana, que jupiteriana ou saturnina. Ela nos fala de ação física, de juventude, de vitalidade, de destemor, com inclinação para a imprudência e para a impulsividade, características tipicamente marcianas. 





A outra estrela de Perseus é Algol, considerada tradicionalmente como uma das mais maléficas do céu, que representa a Medusa. O nome nos veio dos árabes, Ras al Ghul, a Cabeça do Demônio, Caput Medusa para os latinos. Os astrólogos judeus a chamaram de Lilith, a primeira mulher de Adão, depois transformada numa espécie de vampiro noturno. Lilith é o feminino que diz não. Segundo os judeus, é aquele feminino que transgride a lei divina para poder viver o desejo absoluto. Não podendo satisfazê-lo, fecha-se na solidão gelada do seu refúgio. Lilith tem a ver com as trevas, com a noite, de onde tira o seu nome, laylah (noite). No mundo árabe, principalmente entre os persas, no período medieval, Leila era o nome de uma mulher ideal dos poetas.



A   CRIAÇÃO   DO   MUNDO

A Bíblia, no Gênesis, nos revela que Deus criou o macho e a fêmea em condições de igualdade. Quando esta fêmea criada reivindicou essa condição em relação ao macho, ela logo constatou que não poderia obtê-la porque Deus e Adão, o macho, não o consentiram. Voou ela então em direção do deserto, indo depois para o mar Vermelho. Adão queixou-se a Deus, que enviou três anjos numa fracassada tentativa de trazê-la de volta.


LILITH
( ERNEST  BARLACH )
Juntando-se aos "anjos caídos", tornou-se Lilith (assim passaram a denominá-la os judeus) mulher de Samael, o senhor das forças do mal, o Sitra Achra. Para os judeus, Lilth é uma figura sedutora, com longos cabelos, que voa à noite para atacar os homens que dormem sozinhos, que têm filhos demônios com eles, por meio de suas poluções noturnas, roubando inclusive crianças. Na véspera do Shabat (Lua Nova) quando uma criança sorri no berço é porque Lilith está brincando com ela. Na Idade Média, havia a crença de que era perigoso beber água nos equinócios e nos solstícios porque nesses períodos o sangue menstrual de Lilith pingava, poluindo todos os líquidos expostos. 

Ignorada pela Bíblia, Lilith aparece no Zohar, o Livro dos Esplendores da Cabala hebraica. Ali se revela que ela gerou o espírito de Adão ainda inanimado, depois uniu-se a ele como mãe e mulher ao mesmo tempo. Lilith é assim a primeira  mulher que precede aquela que assumirá o papel de esposa concebida a partir de Adão, sempre inferior a ele, portanto, e inteiramente conformada à lei conjugal por ele imposta.    


SALOMÃO   E  A  RAINHA  DE  SABÁ
( FRANS  FRANCKEN , 1581 - 1642 )

Lilith tornou-se para sempre a rainha da noite, o grande demônio feminino, a rainha de Sabá (apareceu a Salomão disfarçada como a rainha de Sabá), a grande prostituta da Babilônia, a futura feiticeira que, ao longo de milênios, arderá em todas as fogueiras do desejo coletivo, a vamp fatal de todos os filmes noirs. Lilth é uma das primeiras imagens que toma o arquétipo materno que não recua diante da morte da sua própria criação (Medeia) nem diante de seus amantes. É a chamada mãe terrível e castradora, a parte maldita da anima feminina. 

Segundo a tradição judaica, Lilith não podia ter filhos, era estéril, pois Deus, como está no Zohar, colocou-lhe o sexo no lugar do cérebro. Ela, contudo, encontrou um meio de criar uma progenitura. Ela passou a criar os filhos que os homens tinham com Naamah (etimologicamente, encantadora, complacente), uma mulher-demônio que lhes aparecia em sonho, sorria para eles e os excitava, aquecendo-os. Ela se esfregava nos homens, bastando o desejo deles para fecundá-la. Se o homem acorda e mantém relações com a esposa, o filho que nascer será de Naamah, pois o desejo dele era por ela, embora a relação sexual tivesse sido mantida com a esposa. Lilith, então, velará por esta criança, visitando-a a cada Lua Nova.


CHINNAMASTA
Encarna Lilith a Lua Negra dos astrólogos, representando a recusa da afetividade e da sexualidade guiada e orientada pela lei social e divina para gozá-la livremente, sem nenhuma interdição. Simbolicamente, ao longo dos séculos, a Lua Negra aparece, por exemplo, na Índia, através de personagens como as deusas Bhairavi e Chinnamasta do Tantrismo. Na Grécia, no mito, o arquétipo funciona com relação às mênades de Dioniso, a Hécate, a Electra, a Medeia, a Fedra e outras
LETTRES   D'AMOUR ,
DE  MARIANA   ALCOFORADO
personagens. Na vida real ou na literatura mundial, são exemplos do arquétipo Safo, Anna Karenina, George Sand, Carmen, Emma Bovary, a princesa de Clèves ou a religiosa portuguesa do texto de Mariana Alcoforado. Há sempre uma ideia de rompimento dos limites oficiais. Mulheres reais que procuraram viver o amor livremente no que ele pode ter de mais profundo e intenso, válidos todos os sacrifícios para se chegar a esse absoluto, sempre fugidio ou negado, porém. Lilith pode ser vista também, segundo o entendimento judaico, rabínico, como o arquétipo da primeira feminista, onde quer que ela tenha aparecido.

Uma das imagens mais bem delineadas desse arquétipo é a da Lâmia como a mitologia grega a elaborou. O nome vem de um radical grego (lem) que traduz a ideia de sugar, tragar, devorar, denotando sempre avidez, voracidade. É filha do deus Poseidon e de Líbia, uma das filhas do deus Oceano. Dotada de grande beleza, foi amada por Zeus. Muito perseguida e amaldiçoada por Hera, todos os filhos que teve com o Senhor do Olimpo morriam. Tomada por grande desespero e dor, Lâmia refugiou-se então numa caverna, onde vivia embriagada, passando a alimentar um enorme ódio por todas as mães e por seus seus filhos, que raptava e devorava.

Incansável e vingativa, Hera foi mais fundo na sua sanha persecutória. Tirou o sono de Lâmia, não a deixando dormir, impedindo que Hipnos, o deus do sono, a visitasse. Por isso, embriagava-se ela cada vez mais. Apiedando-se do destino da jovem, Zeus lhe concedeu o privilégio de tirar e recolocar seus olhos nas suas órbitas quando bem entendesse, o que fazia cada vez mais, nunca deixando de se embriagar, porém. Costumava Lâmia vagar pelas noites em busca de crianças para aplacar o seu ódio. Com o tempo, transformou-se numa figura enorme, gorda, imunda e sexualmente insaciável. Aos poucos, sua imagem se fixou numa forma vampiresca que raptava adolescentes.

Num primeiro nível de leitura, Lâmia representou na mitologia grega a mulher que não conseguiu ter filhos, a mulher estéril, cheia de inveja, de ciúme, rancorosa. A Lâmia poder ser aproximada das
LÂMIA  ( BRONZE )
Sereias, só que vivendo em cavernas ou nos desertos. A semelhança com a Lilith dos judeus não pode deixar de ser feita, especialmente quanto ao fato desta última ser também raptora de crianças e jovens, modelos ambas da mãe terrível e castradora. A Lâmia, como símbolo anímico, aponta para um nível primário, instintivo, biológico, sexual, ou seja, para a alma aprisionada por seus apetites inferiores, entregue às tentações. Tanto Lâmia como Lilith representam a mulher abandonada, suplantada, e que, por isso, odeia os quadros familiares tradicionais porque não pode neles se integrar. Odeiam ambas a união legalizada e abençoada pela religião oficial e os frutos por elas gerados. Frutos que devoram como se devoram a si mesmas.

A partir do século XX, a Sociologia e a Psicologia tentaram em algumas culturas, para desgosto e escândalo de muitos movimentos religiosos oficiais, aliviar um pouco esta imagem demoníaca da Lâmia e da Lilith. A recusa que ambas encarnavam passou aos poucos, nas culturas onde o arquétipo mais se desenvolveu, a tipificar a mulher rebelde, que recusava o casamento tradicional, sendo uma de suas bandeiras, justamente, o movimento feminista. Personagens míticas como a Lâmia aparecem em tempos muito remotos, em várias tradições e culturas, como no épico sumério de Gilgamés. Entre os antigos chineses seu nome é Chiang-Shih. Na Índia, além do que já se disse, são as vetalas. O arquétipo pode ser

encontrado em várias civilizações, na mesopotâmica (tradição sumério-acádica), com os nomes de Lilitu, Lilu, Lulu (vide ópera de Alban Berg e filme de Pabst), na tradição egípcia, fenícia e outras mais. Segundo o modelo vivido nos tempos modernos, Algol (Lua Negra), sob um outro ângulo, representa também tudo aquilo que o homem teme no feminino no seu papel de mãe e amante, ambos devoradores. É também o lado selvagem, bruto, dionisíaco e ameaçador da mulher, demonizado ao logo da história da humanidade, principalmente por todos movimentos religiosos.

A Lua Negra, na Astrologia, é um ponto fictício no céu, mas importante na  interpretação de temas astrológicos. Ela simboliza, de um modo geral, a sensualidade. Não podemos confundir este ponto com a sexualidade que Plutão representa, esta sempre ligada a um poder de criação. A Lua Negra é um ponto focal de natureza tamásica, como dizem os hindus. Este ponto tem relação com uma energia condensada, que precisa ser liberada. Há uma ideia de algo a vencer, de uma obscuridade a dissipar, de um karma a purgar, alguma coisa que é preciso liquidar. É no mapa um lugar de temor, de recusa, e ao mesmo tempo de fascinação, de atração e  de absorção. Transmutado, o ponto permite a purificação de paixões. É sempre um lugar perigoso que pode dar passagem de um modo abrupto ao centro mais luminoso do ser. A Lua Negra avança 3º por dia lunar e dá a volta completa no Zodíaco em oito anos e oito meses.

A estrela Algol se, por um lado, pode sugerir violência, obsessões e autodestruição, um ponto onde se acumulam sentimentos poderosos (raiva, ódio, estados compulsivos, vingança), ela pode, positivamente, por outro, liberar energias muito poderososas, como temos, por exemplo, nos mapas de Albert Einstein (Algol culminando) e de Mozart, que tinha Mercúrio ascendendo com Algol. Planetas em ligação com Algol carregam-se das energias desta estrela, uma das mais poderosas do céu.

Há também em Perseu um cluster, Capulus, a 23º30´ de Touro, tradicionalmente associada a sua influência a impulsos focados na
WILLIAM   BLAKE
ação, algo brutal às vezes, de natureza masculina, uma espécie de complemento das energias represadas por Algol, de natureza mais feminina. Alguns identificam Marte e Mercúrio por trás destas influências de Capulus. Um dos exemplos para estudo das influências deste cluster é o mapa de Wiliiam Blake, místico, poeta, pintor e gravador inglês do séc. XVIII.








quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

QUARTO TRABALHO DE HÉRCULES


HÉRCULES E A CORÇA
  A Captura da Corça Cerinita - Era um animal maravilhoso, protegido por Ártemis, a deusa lunar, que vivia numa região selvagem da Arcádia, a Cerineia. Tinha as patas de bronze e os chifres de ouro, muito arredia, enorme, mas agilíssima e extremamente rápida nos seus deslocamentos. A missão de Hércules era a de capturá-la e levá-la viva a Euristeu. O animal carregava uma inscrição no seu corpo: “Dedicado a Ártemis por Taigete”. Sabemos que Zeus tentara violentar Taigete, uma das plêiades, e que Ártemis a livrara. Agradecida, a plêiade ofereceu o animal à deusa, tornando-o, pois, sagrado. Ninguém poderia, assim, caçá-lo ou capturá-lo. Se não considerada essa questão, uma tarefa aparentemente fácil para o nosso herói, acostumado a enfrentar monstros e perigosos malfeitores. Sabe-se, também, que a sugestão para que Hércules executasse este trabalho partira de Hera, para que o filho de Alcmena, ao vencer inimigo tão indefeso, sensível, tímido, sentisse mais remorsos e, por causa disto, fosse obrigado a novas expiações.  

GRÉCIA ANTIGA - ARCÁDIA
  Velocíssima, ágil, a corça sempre conseguia escapar do nosso herói. Aos poucos, Hércules percebeu que aquela missão, aparentemente tão fácil, ia se tornando dificílima. Depois de ingentes esforços, contudo, de um ano de intensa perseguição, conseguiu capturá-la na Arcádia, no momento em que o animal atravessava um rio, um lugar muito procurado pelo deus Pan para o seu descanso. 

Ferindo ligeiramente com uma flechada o animal, Hércules conseguiu aprisioná-la com seus fortes braços. Amarrou-lhe as patas e a colocou nos seus ombros. Pôs-se logo a caminho para dar cumprimento ao que lhe fora determinado, dirigindo-se a Micenas. Encontrou-se no trajeto com os irmãos Ártemis e Apolo, ambos reivindicando que o animal sagrado lhes fosse entregue. Firme no  intento de chegar ao seu destino, Hércules não deu ouvidos aos gêmeos divinos, entregando a corça finalmente a seu primo, que, posteriormente, o devolveu às montanhas da Arcádia.

Este trabalho está relacionado com o signo de Câncer, mês em que temos o início do solstício de verão, por oposição a Capricórnio,
solstício de inverno. Se Áries é a energia, Touro a matéria e Gêmeos a conexão, Câncer traz a ideia da forma. É um signo de massa, ligando-se às várias matrizes das formas, a família, a raça, a pátria, o grupo humano etc. É de Câncer que a forma emergirá (ou não) para se assumir como consciência iluminada em Leão, o signo seguinte.

A primeira ideia que o signo de Câncer nos propõe é a da vida instintiva, aqui simbolizada pela corça, animal que está sempre se movendo, rapidíssimo, hipersensível, que reage de modo totalmente indiscriminado com relação às pressões externas que recebe. Reage, não as discrimina. É a corça como tal  um animal lunar, noturno, indiferenciado, primitivo. Esta indiferenciação com relação ao ambiente explica-se astrologicamente pelo elemento água (frio e úmido) e pela regência da Lua, governante do signo de Câncer. O canceriano, como a corça, é no geral um indiferenciado com relação ao meio em que vive, seja por censura moral, por temores inexplicáveis, dúvidas, por pressões atávicas, hereditárias, por uma espécie de infantilismo psíquico. As patas de bronze do animal simbolizam aqui ao mesmo tempo pureza (isolam) e prisão (prendem). Os chifres de ouro apontam para o alto, para o signo seguinte, no caso, Leão. O chifre é símbolo da penetração do espírito que deve iluminar a matéria, no caso, a conquista de um eu racional.
 
AFRODITE

  O nome Ártemis admite várias etimologias, tanto pode vir de "sanguinária", como de "urso" ou de "protetora". É uma deusa
ÁRTEMIS
virgem, sagitariana, indomável, rebelde, sempre acompanhada por um cortejo alvoroçado de ninfas e de animais. É a Senhora das Feras (Potnia Theron), tendo por trás o modelo das Grandes Mães asiáticas. É a deusa protetora de tudo o que entra na vida e que tem de passar para outros estágios. Opõe-se a Afrodite, sendo muito cruel com os que cedem ao amor, aos que ficam "presos". Massacra impiedosamente (mães matam) os seres que simbolizam a doçura, que se "entregam", os que não "sabem" passar. A Lua (Ártemis) governa os territórios de passagem entre o conhecido (grutas) e o desconhecido (o Grande Todo). Nos seus territórios vivem seres entre o humano e o animal que testam aqueles que se aventuram nas travessias (Sátiros, Pan, Faunos, Egipans, Príapo etc.).

Câncer é assim o princípio plástico da manifestação. Seu símbolo astrológico tem forma dupla, com inversão de formas, representando os dois aspectos complementares da mesma coisa; 
a forma dupla é contida pela concha. O animal que representa o signo é o caranguejo (karkinos), ser que vive entre a água e a terra. Num outro sentido, é o signo da alma que habita o corpo físico, mas que vive predominantemente no elemento líquido, isto é, na emoção, no (hiper) sensível. A Lua é a dona do signo enquanto mãe das formas (fases lunares) e astro controlador das águas, das marés. Neste signo a forma aparece, torna-se dominante, e é, por si mesma, o seu próprio obstáculo. Na constelação de Câncer tudo isto está descrito através das suas estrelas. Lembremos que os hebreus na antiguidade chamavam esta constelação de "O Ataúde" pela falta de identidade que trazia, ao preponderar num tema natal, impondo-a a muitos dos tipos do signo, mesmo nos tipos bem logrados.

Como ser humano, cabe ao homem racionalizar, analisar, criticar
(separar) para que vá aprendendo a se diferenciar do animal. Pelo intelecto podemos escapar da vida instintiva, controlá-la e seguir em busca de algo mais transcendente, os outros, o mundo. Isto é representado astrologicamente pelo 3º quadrante, que fala da vida social, e pelo 4º quadrante, que fala do coletivo, da humanidade, que se opõem ao  1º (individual) e ao 2º (familiar). Esta, talvez a maior lição a ser retirada por Hércules do seu quarto trabalho e de suas relações com o signo de Câncer pelo nosso herói.

O problema maior quanto ao que aqui colocamos é que Hércules tem como dominante de sua personalidade o elemento fogo, como fica fácil perceber. Tudo nele é temeridade, generosidade, paixão, arrebatamento; não consegue manter a suficiente distância das pessoas para compreendê-las. É, como tal, um primário, isto é, estimulado, não pensa, reage, responde, envolve-se, arriscando tudo, acreditando estar fazendo sempre o bem.   

O signo de Câncer, como o próprio caranguejo sugere pela sua forma, pelos seus olhos, nos põe diante de uma grande importância
SÍMBOLO DE CÂNCER
dada à interioridade e a tudo o que nela se gesta, remetendo-nos a ideias de algo que está em preparação para entrar na vida; pensamos em esboço, embrião, prefiguração, germe, ovo, feto, broto, cria, erva nova, concha, couraça, revestimento, cobertura, proteção, casca. É o signo o grande arquétipo da vida maternal, falando-nos de origens, atavismos, automatismos, com a valorização de tudo o que preserva, envolve, conserva, mantém, aquece e também inibe, censura, prende, cria culpas, remorsos e que pode matar...

A corça é um símbolo do que se situa entre o informal e o formal. É por essa razão que a conquista da forma por um canceriano é tão difícil. Esta conquista terá que ser obtida pelo mental para se chegar inclusive, se possível, à intuição, que é a compreensão íntima do princípio da universalidade, uma evidência além das aparências, nada tendo de mediúnico, de sobrenatural. A lição que o nosso herói deverá retirar deste trabalho é exatamente a de entender que o instinto é atividade espontânea, não resultante da experiência, da educação, da reflexão. É uma faculdade material de sentir, congênita. Opõe-se à inteligência, que é reflexiva, e que precisa ser trabalhada pelo homem.

Uma Lua debilitada num mapa astrológico é um forte indicador de grandes dificuldades para alguém conquistar uma identidade consciente, autônoma. Por isso, a visão do signo nos aponta para ideias de massa, de rebanho, de vida gregária. Opõe-se a vida instintiva à vida consciente, à vida inteligente, que tem caráter reflexivo, como se disse. Instinto, etimologicamente, quer dizer aguilhão, ferrão, picada, algo que se manifesta dentro de nós espontaneamente. A inteligência pressupõe escolha, reunindo sensação, associação, memória, imaginação, entendimento, discriminação, comparação. Difere da intuição, que é conhecimento instantâneo, imediato, sem conceitos. A intuição capta o evidente que está por trás das aparências; é visão direta, exclui provas; percebe logo o que é falso e o que é verdadeiro. É a verdade sem reflexão. Podemos dizer que a intuição “sabe” o que desconhecemos.

Os nativos do signo de Câncer têm normalmente uma grande necessidade de repouso, de vida tranquila, de segurança. E onde lhes seria mais fácil encontrar tudo isso senão no seu próprio lar? Esta necessidade envolve os cancerianos desde a infância, impondo-lhes uma forte ligação com o ambiente familiar, a mãe,
SCHUBERT
a casa, o bairro, a cidade, a pátria. Se tal não for realizável, o canceriano tentará “adotar” uma família, embora tenha muita dificuldade para vencer a sua natural insegurança, fechando-se muitas vezes na sua carapaça. Franz Schubert e Rainer Maria Rilke, por exemplo, são tipos que devem ser estudados à luz do que aqui se expõe.

Na vida prática, como fatores favoráveis aos cancerianos, destacamos: 1) a possibilidade de realizar algo que seja últil a outras pessoas, ao público em geral; 2) trabalhar em atividades e campos inteiramente tradicionais; nada de novidades, de independência profissional; obtendo alguma segurança, o canceriano é o tipo que mais facilmente “veste a camisa” da empresa em que trabalha; dedicar-se a atividades artísticas em que possa trabalhar em grupo (orquestras, corais, grupos de teatro etc.), um grupo que lhe a sensação de, com ele, “estar em casa”. Como fatores adversos à convivência e ao trabalho de cancerianos, destacamos a hipersensibilidade, o que pode torná-lo profundamente desconfiado, fatalista, de humor muito instável (estar de Lua, de ovo virado, etc.); a tendência para se agarrar demasiadamente a “certezas” que não passam de inferências e conclusões muito afetadas pelo seu emocional; a tendência de se tornar muito dependente daqueles que lhes dão alguma forma de segurança; esta tendência é muitas vezes manipulada pelo canceriano, sendo ele um “mestre” em criar culpa e remorso no outro quando esta segurança é abalada ou negada.

     O chamado complexo maternal está na base do psiquismo deste
tipo astrológico. O canceriano costuma apresentar a tendência, mais ou menos intensa, de se demorar na infância, de retardar a sua entrada na vida, de viver dentro de uma concha, de se refugiar no passado. Costuma se identificar com a mãe, apegar-se à família e aos seus valores, à infância, às recordações (são grandes memorialistas e historiadores; na psicologia, dedicam-se às crianças, a questões de educação, como o canceriano Rousseau). É um (hiper) sensível, um sentimental-imaginativo, inclinando-se muitas vezes à esquizoidia, ao autismo, à submissão passiva e feminina (mesmo nos tipos do sexo masculino), ao lunar, ao noturno, à contemplação, ao elegíaco, ao romântico, ao fantástico e à magia. O cinema de Ingmar Bergman não deixa de ser uma grande ilustração do que estamos
HUMBERTO D
aqui a expor. Os exemplos, para onde nos voltemos com essas informações, abundam. Só um canceriano como Vittorio de Sicca poderia ter feito filmes como Umberto D ou Ladrão de Bicicletas. Foi outro grande representante do signo, Marcel Proust, que ergueu, com a sua obra como um todo, talvez o maior monumento já produzido pelo homem para homenagear a memória.   

Dentre as características cancerianas que podemos apontar na personalidade de Hércules, há uma, muito importante, que muitos dos que se aproximam de sua história para analisá-la, astrólogos ou não, esquecem. A sua grande fidelidade a padrões educacionais aos quais se ligou na infância e na juventude. Refiro-me à educação espartana. É por essa razão que Hércules sempre foi visto como o grande herói do Peloponeso, cuja cidade mais importante foi Esparta, glorificada por seu poderia militar.


 
Embora, com o tempo, devido à sua trajetória existencial Hércules tivesse se transformado num cidadão do mundo, grande viajante, não podemos esquecer de sua fidelidade aos padrões da educação espartana e de certos traços de sua personalidade, que vieram desse mundo, dos quais ele nunca abriu mão, demonstrados nos vários trabalhos que teve de cumprir e pela preferência que tinha pelo porrete como arma. Por tudo isto é que Hércules sempre foi considerado pelos espartanos como uma espécie de patrono das suas propostas educacionais.

É oportuno lembrar que decorrem também do que aqui se observa
TESEU
as grandes diferenças entre Teseu e Hércules, contemporâneos, ambos heróis nacionais, cada um a seu modo. O primeiro, Teseu, herói de Atenas, na Ática, era mais refinado, mais culto, tinha fortes pendores políticos, revelados como grande administrador quando teve que suceder ao pai. Hércules, ao contrário, herói do Peloponeso, era mais bruto, mais tosco, menos sociável, mais chegado aos meios populares, mais promíscuo, quase um herói de feira em muitos momentos de sua vida e por tudo isso bem mais próximo do homem do povo, mais aclamado. Tinham em comum muitos traços, é certo: eram filhos de grandes divindades, tinham um pai mortal, putativo; haviam nascido para representar uma ponte entre o humano e o divino. No mais, unia-os uma incontrolável tendência ao gigantismo, físico e psíquico; a inclinação às proezas; a liberdade quanto ao sexo; o gosto pelo aplauso público; por extravagâncias e muito mais. Mantiveram uma convivência que pode ser inscrita naquilo que os antigos gregos chamavam de hospitalidade, uma virtude heroica, da qual faziam parte inclusive a prestação de favores, o socorro em momentos difíceis, a hospedagem quando em viagens etc.

O objetivo da educação espartana era a formação de bons soldados. Quanto às letras, o mínimo: alguns poemas de Homero, algumas poesias de cunho moral, muitos cantos guerreiros. O mais importante sempre foram os exercícios físicos, o adestramento militar e os esportes nas suas várias modalidades, praticados intensamente. As crianças e os jovens eram submetidos à agôgé, uma forma de educação física continuada em que eram obrigados a suportar as intempéries, a fome, o cansaço e a dor. Tanto no verão
ÁRTEMIS ORTHIA
como no inverno, as mesmas roupas leves, o mesmo catre para dormir, a mesma alimentação frugal. Anualmente, eram as crianças chicoteadas diante do altar de Ártemis Orthia, divindade lunar que presidia a educação entre a infância e o ingresso do jovem na vida adulta. Fica fácil entender, por isso, porque Hércules passa por ser o instituidor dos mais importantes jogos (agones) pan-helênicos esportivos, as Olimpíadas (vide matéria neste blog).


JOGOS OLÍMPICOS
A fidelidade canceriana ao passado é em grande parte inconsciente. É por esta razão que as maiores vítimas da chamada síndrome do pânico têm em seus temas astrológicos, em grande destaque, o eixo Câncer-Capricórnio, com influências lunares muito desfavoráveis (Lua angular, geralmente muito debilitada por signo, casa e aspectos). É neste quadro astrológico, iluminado pelas contribuições da mitologia, que encontramos um conjunto de elementos, mais ou menos interligados, de forte valor emocional que constituem um grande entrave para o desenvolvimento de qualquer personalidade, criando muitas dificuldades de adaptação e, sobretudo, de mudança. A medicina moderna, como se sabe, classifica a síndrome do pânico como um transtorno de ansiedade que pode afetar percentuais elevados (grupos de risco) de até 3% da população, principalmente em grandes centros urbanos. 

A mais importante divindade a considerar, quando as dificuldades acima apontadas aparecem, é o deus Pan, filho do deus Hermes e
DIONISO E SEU SÉQUITO
de Dríope, uma ninfa. No mito, consta que foi rejeitado pela mãe por ser muito feio, peludo, teriomorfo, ter orelhas pontiagudas e patas como a de bodes no lugar dos pés. Hermes o recolheu e o levou para o Olimpo. Saltitante e alegre, desde cedo, deu demonstrações de um intenso furor erótico. Deram-lhe os deuses o nome de Pan (etimologicamente, o todo, tudo). Dioniso, o deus das metamorfoses, se encantou com o jovem deus, obtendo a permissão de Hermes para, quando possível, incorporá-lo ao seu séquito.

Pan passou a viver na Arcádia, região dos pastores e dos poetas, sendo-lhe atribuídos, de comum acordo com a deusa Ártemis, o domínio das regiões que ficavam entre  oikos (ambiente familiar, simbolizado pela gruta), o conhecido,  e o desconhecido, o grande todo. Pan passava os seus dias perambulando por seus territórios, sem ocupar um lugar fixo, ora dormindo em grutas, banhando-se nos rios, com muitos companheiros, tocando flauta (syrinx), perseguindo as ninfas e assustando os viajantes que se aventuravam pelos caminhos e pelas montanhas.
 
PAN

 O sentimento de solidão e de desamparo que costumava atacar os viajantes quando longe do oikos, principalmente em dias escuros, de mau tempo, ou em noites sem Lua, quando nenhuma voz humana era ouvida, os campos silenciosos, os animais recolhidos, esse sentimento de solidão e desamparo, dizia-se, começou a ser considerado como de inspiração de Pan. Ansiosos, aterrorizados
SÁTIRO
mesmo, os viajantes, muitas vezes, sem uma causa aparente, ficavam paralisados, transtornados por essa “presença oculta” do deus, que se anunciava por um som terrível, entre o grito humano e o uivo animal. Aos poucos, esse sentimento passou a ser chamado de “terror pânico”, um estado entre o pavor e o espanto, inexplicável, somatizado de diversos modos, tremores, taquicardia, desmaios. Pan e as divindades a ele ligadas, no mito greco-romano, Sátiros, Silenos, Faunos, Príapo, Silvanos, Paniscus, Egipãs, Centauros etc., têm origem campestre e relação com a fertilidade animal e vegetal, simbolizando sempre as permanentes ameaças da vida instintiva, não reflexiva, sobre a vida racional.

Embora não possamos falar de síndrome do pânico quando falamos de Hércules e de suas histórias, fica claro que dentre uma das mais importantes lições a retirar do seu quarto trabalho e da relação que ele tem com o signo de Câncer é a de que devemos aprender a lidar com as nossas pressões atávicas, com as nossas origens, com as nossas tendências herdadas, com os nossos instintos de sobrevivência, com a nossa memória. É claro que precisamos nos relacionar com o nosso núcleo familiar, com os costumes de nossa tribo, com as nossas raízes. Mas devemos também tentar entender até que ponto tudo isto pode oferecer dificuldades para a conquista de um eu autônomo, enchendo-nos de culpa e de remorsos quando percebemos que um eu é algo que deve ser conquistado e não herdado. Tudo isto nos ocorre ao lembrar do quanto Hércules, ao longo de sua vida, permaneceu fixado nos valores do seu mundo de origem e nos traços arrebatados de seu temperamento, sempre distinguindo mal entre o que é possível e o que é impossível.

PERSEU
Há um herói grego, do qual já falamos, e ao qual devemos recorrer quando abordamos os valores cancerianos. É Perseu, o matador da Medusa, monstro que petrificava aqueles que com ela trocassem olhares. Perseu conseguiu decapitá-la, utilizando seu escudo como espelho. Exibindo-o, tendo o seu próprio olhar devolvido, a Medusa foi petrificada por seu próprio reflexo. Como monstro, ela  simbolicamente representa todas as formas de estagnação, de fixação, de  bloqueios diversos que impedem a caminhada do homem em direção do Todo.  Um dos sentimentos mais imobilizantes que o ser humano alimenta é o da culpa, aqui expressa pela consciência mais ou menos penosa de estar descumprindo deveres afetivos familiares; tudo piora quando esse sentimento se agrava por contribuições religiosas que lhe dão um caráter de pecado moral e religioso, quando se tem que abandonar a gruta em busca de uma identidade própria. 


Perseu é, no caso considerado, o herói que venceu a Medusa, a mãe terrível, responsável pela imagem excessiva da culpa que filhos podem criar para si mesmos quando tentam conquistar um eu independente. Cortar a cabeça da Medusa é dominar de modo permanente um sentimento desproporcional, exagerado, paralisante e mórbido que sobrevém quando há necessidade de que os muros familiares sejam ultrapassados, sobretudo psiquicamente. A sensação de culpa que Perseu conseguiu superar, ao sair do palácio para matar a Medusa, está representada no mito por aquilo que se chama momento da separação (equivalente ao nosso processo de individuação), de iniciação, correspondente ao rito da eufebia na antiga sociedade grega.

O que aqui se coloca não significa obviamente repudiar ou renegar os “valores da gruta”, mas saber integrá-los a esse eu a construir, transformando-os em algo próprio. Todo ser humano tem sempre uma profunda ligação com a infância; não conhecer ou renegar o poder das origens é, como sabemos, alimentar problemas emocionais que mais tarde necessitarão sempre de algum (muitos) ajuste, nem sempre fácil.

A morte da Medusa representa tanto um momento de separação como de iniciação. Afastar-se da proteção familiar e caminhar sozinho no mundo, tentando construir um eu, é algo que pressupõe sempre a libertação dos poderes inconscientes da gruta. Fala-se aqui da transposição de uma porta, a porta solsticial representada na astrologia pelo signo Câncer, período que marca no hemisfério norte o início do verão, com o aumento da intensidade luminosa, tudo sugerindo a prefiguração de um eu, quem sabe, que virá, dando acesso a um outro tipo de vida. Perseu abandonou o seu mundo materno no qual estava protegido, embora Danae, a mãe, tivesse tentado retê-lo de todas as maneiras, inclusive chantageando-o emocionalmente. 
 
DANAE E PERSEU

 O que se depreende desta passagem referente e trazendo-a para mais perto de nós (a função diacrônica e sincrônica do mito), fica cada vez mais claro, nesta nossa modernidade tão inconsciente e inconsequente, que o poder da gruta, isto é, o princípio feminino vem abocanhando vorazmente grandes nacos do poder antes totalmente concentrado nas mãos do poder patriarcal. Está à vista de todos que as religiões patriarcais estão em acelerado processo de deterioração, de desmoralização, e que o poder patriarcal inexiste praticamente no ambiente familiar (nem mais economicamente os pais são hoje importantes). O que temos é o que chamo da vingança da Grande-Mãe. Subjugada e satanizada pelas religiões patriarcais, só hipocritamente honrada, ela está voltando com tudo, para retomar o seu lugar. Onde está então o problema? Uma das causas do cenário acima apontado está (esteve), sem dúvida, na idiota pretensão do poder masculino de que poderia construir o mundo sem a participação do princípio feminino através de religiões monoteístas, patriarcais, guerreiras e colonialistas, sempre atreladas ao poder econômico.

A Medusa, no mito, é um dos aspectos negativos, o mais negativo, da mãe que se recusa a ver rompido o cordão umbilical, a mãe que não quer perder a dependência do filho. Negativamente vivido esse arquétipo, como se sabe, pode se projetar, às vezes nostalgicamente (O Jardim dos Finzi-Contini, de De Sicca, obra-prima), em campos, jardins, árvores, fontes, casas, a cidade natal, a igreja etc. Comuns, por exemplo, os casos de pessoas que odeiam a figura materna, mas que amam a natureza, os campos, os bosques Pode também o arquétipo se manifestar, às vezes, como pesadelo noturno, uma imagem apavorante, uma serpente, um túmulo. Na sua feição negativa, a figura materna aparece nos sonhos como uma força primitiva egoísta, exigindo sempre, não dando paz. A tarefa do herói consistirá em aprender a ir diferenciando a sua personalidade da imagem materna.

No que diz respeito à criança, ao jovem ou ao adulto, a fixação na figura materna apresenta geralmente uma tendência involutiva,
A GRUTA
regressiva. Mesmo com relação àqueles que parecem ter se libertado, tendo se mandado para o mundo, a maioria continua a sofrer uma fascinação inconsciente que acaba por ameaçar de paralisação a conquista de um eu independente ou o seu desenvolvimento. Neste sentido é que a mãe se torna um não-eu, sempre hostil, em razão do temor que inspira pela dominação inconsciente exercida.

A constelação de Perseu, por sua relação com a de Andrômeda, a princesa por ele libertada, é também conhecida pelo nome de a do Príncipe. Simbolicamente, príncipes representam a promessa de um poder autêntico, independente, qualquer que seja o domínio considerado, o contexto em que apareçam como personagens em mitos, lendas, folclore etc. É ele o primus inter pares. Por isso, falamos de príncipes dos poetas, das artes, das ciências, do futebol . O príncipe é também a imagem de um estado adolescente de vida, ainda não totalmente controlado. Esse estado, para ser ultrapassado, precisa de provas. O príncipe está mais para o lado do herói que do sábio, estado a que, com o tempo, ele poderá ter acesso. 

A BELA ADORMECIDA E O PRÍNCIPE
  A figura do príncipe sempre aponta para a metamorfose de um eu inferior num eu superior, entrando sempre a força do amor (do feminino) como agente desta transformação. A grande vitória do príncipe é tanto a morte do monstro como a recompensa de um amor total. Outro, aliás, não é sentido da famosa história do Príncipe e da Bela Adormecida. Não podem ser esquecidas também todas as conotações cósmicas e sexuais embutidas neste tema. A libertação da princesa pelo príncipe pode significar a ação de deuses solares libertando ou acordando a adormecida aurora.

No mito, Perseu é o herói que encarna a alegoria da passagem iniciática na qual, depois de sua efebia (uma prova, a morte da Medusa) ele se une a uma princesa por ele libertada. Princesas são simbolicamente, nos mitos, nas lendas, nos contos, aspectos do inconsciente masculino. Personificam, como anima, todas as tendências psicológicas femininas do inconsciente masculino, que ele não entende bem ou, como é o mais comum, delas nada suspeita. Tendências que ele, o príncipe, o herói, precisa resgatar, libertar, para dar à sua personalidade uma dimensão cósmica, ou seja, para que ele possa viver coletivamente, humanitariamente, espiritualmente, se quisermos.

Perseu é um herói que não segue o modelo clássico. Ele só teve um pai divino (Zeus); nunca teve, como os demais, um pai divino e um
pai mortal, putativo) e, pelo que consta, ao contrário de todos os heróis, terminou os seus dias em paz com Andrômeda, com muitos filhos. Lembro que o nome da princesa etíope, Andrômeda, é formado por suas palavras gregas, aner, andros,  e medein, que significam, respectivamente, homem corajoso, viril, herói, e cuidar, de comandar, ou seja, Andrômeda é “a que reina sobre o homem” ou “a que dá limites ao homem”. Ou, se quisermos, o homem corajoso, viril, é aquele que sabe conscientemente integrar à sua personalidade o princípio feminino.

A constelação de Perseu vai de 12º Touro a 11º Gêmeos. A sua estrela mais brilhante é Marfak, alfa, hoje a 1º23´ Gêmeos. Depois, como beta, temos Algol, a 25º28´ Touro, e Capulus, um cluster a 23º30´ Touro. Segundo Ptolomeu, as influências de Perseu, no seu todo, apontam para uma natureza aventureira, dão inteligência,
MEDEIA E OS FILHOS (DELACROIX)
mente poderosa, mas, às vezes, ações questionáveis sob o ponto de vista ético. Sobre Algol muito se fala e escreve. É chamada de Caput Medusae, aparecendo associada a figuras femininas do mito e das religiões como Lilith entre os judeus, como Kali, Bhairavi e Chinnamasta no Tantrismo da Índia, como, dentre muitas outras, as mênades, Hécate, Electra, Medeia, Fedra e Lâmia na mitologia grega.


Afora outras relações que Algol permite estabelecer, lembro  que na literatura, no âmbito feminino, encontramos interessantes exemplos de autores e personagens que vivenciaram ou puseram em circulação o arquétipo, que sempre aponta para o rompimento do que é oficial, dos limites por ele impostos, muitas vezes 
tragicamente. São exemplares nesse sentido mulheres ou personagens que procuraram viver a vida e/ou o amor livremente no que eles podiam ter de mais profundo e intenso, válidos todos os sacrifícios para se chegar a um absoluto, no mais das vezes, sempre fugidio ou negado. Como nomes que fazem parte deste universo, cito Safo de Lesbos, a Princesa de Clèves, George Sand, Mariana Alcoforado, Florbela Espanca, Ana Karênina, Elvira Madigan...

Ainda sob o ponto de vista astrológico, é preciso esclarecer que se
MOZART
Algol, por um lado, pode trazer ideias de violência, obsessões, autodestruição; sempre um ponto onde se acumulam sentimentos intensos, ela pode, positivamente, por outro, nos pôr diante da liberação de energias muito poderosas, como temos, por exemplo, nos temas astrológicos de Mozart e de Albert Einstein.

No zodíaco, a constelação de Câncer, que os antigos egípcios associavam ao escaravelho, se estende de 22º Câncer a 17º Leão. Sua forma é a de um caranguejo, animal criado pela deusa Hera para auxiliar a Hidra de Lerna, monstro enfrentado por Hércules em seu oitavo trabalho. Esmagado pelo herói, o crustáceo foi colocados nos céus em agradecimento aos serviços prestados. Na figura celeste dele, na região da cabeça, há uma nebulosa chamada Manjedoura, Colmeia ou Presépio (hoje a 6º15´Leão), uma região que era vista pelos antigos como o “berço da vida”. Esta nebulosa está associada a tempestades e inundações. É de se ressaltar que dentre as oitenta e três estrelas da constelação de Câncer, como se disse,  nenhuma se destaca por sua magnitude. Na tradição cristã, ela recebeu o nome de O Sepulcro de Lázaro. A mais brilhante estrela de Câncer, alfa Cancri, é Acubens (hoje em Leão a 12º57). Esta estrela é a que carrega o simbolismo do escaravelho egípcio, lembrando ressurreição.

Através do mito de Dioniso, duas estrelas de Câncer receberam os nomes de Asno do Sul e Asno do Norte. Estes animais foram montados por Dioniso e por Hefesto quando da Titanomaquia, a luta dos deuses olímpicos contra os titãs. As imagens da  constelação de Câncer foram incorporadas mais tarde pela iconografia cristã não só para através delas se montar o cenário do nascimento de Cristo e para, quando adulto, fazê-lo entrar triunfalmente em Jerusalém (Domingo de Ramos). O asno tanto significa estupidez, ignorância, obscuridade, como paz, pobreza, humildade e paciência. É sob este último aspecto que ele é visto como montaria dos deuses em muitas tradições gregas. Quando selvagem, o asno representa os ascetas do deserto, os solitários.

DOMINGO DE RAMOS (GIOTTO)
 Associada também a Câncer encontramos a constelação de Argo Navis (10ºCâncer-20ºLibra), subdividida em quatro: Carina (casco), Puppis (popa), Vela (vela) e Pyxis (mastro). No Egito, era a barca do deus Osíris e de Ísis. Entre os gregos, era a nau dos argonautas; entre os judaico-cristãos, era a arca de Noé. Qualquer que seja a tradição, a ideia é sempre a mesma: é em Câncer que realmente começa a vida como viagem e com ela as proposta de buscas, de lugares distantes, mesmo os julgados inalcançáveis. 

ARGO NAVIS
 Finalmente, não podemos esquecer das constelações do Cão Maior (0ªCâncer-0º Leão) e do Cão Menor (18º-28º Câncer), interpretadas em cada cada tradição de um modo diferente, sempre ligadas a Câncer. A principal estrela desta última, Procyon, como seu nome indica, faz uma alusão ao nascimento de Sirius (Sothis para os gregos), uma das estrelas mais brilhantes do céu, símbolo do eu que virá. É a estrela da canícula, a que traz o verão e que no Egito, como estrela de Ísis, anunciava as cheias do Nilo. A melhor leitura que podemos fazer desta constelação, de Sirius e de suas ligações com a de Câncer é, sem dúvida, através da Lâmina XVIII do Tarot, que tem o nome de A Lua.