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domingo, 27 de dezembro de 2015

ASTROLOGIA E SAÚDE - II

                                        
A Psicologia dos Elementos

Todas as correntes psicológicas conhecidas nos falam que a psique humana tem um lado consciente e outro inconsciente, opostos e complementares, em proporções muito variáveis. Nós nos identificamos só com a parte consciente do nosso psiquismo. Isto acontece sempre que usamos o pronome eu, geralmente sem a mínima noção do que o nosso lado inconsciente representa ao fazermos isso. A cada momento de nossa vida isso acontece de modo até muito inconveniente para nós. Com o nosso lado consciente experimentamos o mundo, tentamos compreendê-lo, agir sobre ele. O inconsciente fica encarregado de fazer as adaptações internas. 



Todas as nossas experiências internas e externas só podem ser percebidas através do nosso eu (ego). A consciência é a função ou atividade que mantém a relação dos conteúdos psíquicos com o ego. Este deve ser entendido como um complexo de ideias que constitui o centro do campo de nossa consciência e que parece ter um alto grau de identidade e de continuidade.

O nosso ego pode, ao longo desse processo, não querer ver o que a consciência lhe mostra, lhe passa. Estas coisas mostradas são então reprimidas, rejeitadas, desaparecendo do consciente, indo para o inconsciente. Esses conteúdos reprimidos têm lá uma vida própria, podendo invadir o campo da consciência, gerando sofrimento ao ego ou ajudando-o a corrigir a sua unilateralidade. 

A Astrologia, ao lado dos vários processos terapêuticos do psiquismo existentes, tem muito a dizer sobre tudo isto, ajudando-nos a tomar consciência de nossas motivações inconscientes. Dentre as inúmeras contribuições que nos são oferecidas para a abordagem desta questão, a astrológica é, sem dúvida, uma das mais importantes. Para começar, ela nos fala dos quatro diferentes processos elementares da nossa consciência, todos relacionados com os quatro elementos da tradição, o fogo, a terra, o ar e a água. 



O tipo fogo – O elemento fogo é formado pelo quente e pelo seco. Tem relação com os signos de Áries (S>Q), Leão (Q>S) e Sagitário (Q>S+u). Os signos de fogo têm relação com a nossa autoexpressão, com a nossa exteriorização. Ideias de liderar, conduzir e inspirar estão sempre presentes. Onde houver falta de espontaneidade, de iniciativa ou de vontade, há pouca ou nenhuma ênfase no elemento fogo.

O fogo regula o processo de combustão interna do corpo (digestão, produção de insulina, temperatura, eliminação das toxinas e eliminação das sobras). Tem a ver com o sistema imunológico (luta contra invasores). Competitivo, o elemento é facilmente ameaçado pelos demais elementos. O equilíbrio do elemento fogo no corpo deve ser verificado sobretudo pela urina (cor), pelos olhos e pela digestão.

A dominante fogo esquenta a pele; se elevado, o elemento pode gerar problemas de pele (gordura, inflamações etc.). A presbiopia (vista cansada), por exemplo, será sinal de excesso de fogo no organismo. O excesso de fogo pode aumentar bastante o apetite, decorrendo disso vários problemas digestivos, sendo ademais a causa de muitas das dores de cabeça dos arianos mais típicos. Uma dominante fogo controlada proporciona espontaneidade, jovialidade e entusiasmo. Descontrolada, gera irritação, agressividade e violência. Ausência de fogo costuma levar à depressão, dificultando sobremaneira a luta pela vida.





A dominante fogo “odeia” a doença, pois ela será sempre para ela uma rejeição da vida. Nunca pensam os de fogo que podem aprender alguma coisa com a doença. Temem-na, deixando de combatê-la logo e invariavelmente estimulando até os outros a agirem do mesmo modo. Comuns, por isso, os casos de moléstias agudas que acabam se transformando em males crônicos. 

O tipo terra – O elemento terra é formado pelo frio e pelo seco. Tem relação com os signos de Touro (F>S), Virgem (S>F) e Capricórnio (F>S+u). Onde houver ideias de eficiência, de planejamento, de estruturação, de quantificação, de regulamentação, de direção, de praticidade e de senso de dever, os signos de terra serão dominantes. Ausência de receptividade e visão demasiadamente materialista serão os aspectos negativos dessa dominação.


O  AVARENTO  QUE  PERDEU  SEU  TESOURO  
( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O elemento terra tem a ver com os fundamentos, a construção, a manutenção e os reparos da estrutura corporal e a sua sobrevivência. É anabólico, construindo mais que a água. Por isso, tem relação com a pele, os ossos, os dentes, as unhas, as cartilagens e os tendões musculares. Excesso de terra torna os tecidos do corpo mais densos. Riscos de esclerose, de sedimentações do cálcio, lentidão metabólica etc.  
Os de terra são os que costumam, no seu universo, sentir os males muito intensamente, embora para eles o apetite seja a “última coisa que morre”. No geral, são resistentes e os menos vulneráveis às sequelas.

O tipo ar – O elemento ar é formado pelo quente e pelo úmido. Tem relação com os signos de Gêmeos (Q>U+s), Libra (U>Q) e Aquário (Q>U). Quando falamos de informação, comunicação, relacionamentos, contactos, formas associativas, adaptações sociais e organizações informais, estamos nos referindo aos signos de ar. Indecisão, dispersão, excessiva abstração e alheamento são problemas com relação à falta ou ao excesso deste elemento num mapa astrológico. O ar adquire especial importância porque ele ativa o potencial de todos os elementos. Sem ele, os outros elementos não “funcionam”. Urano, por exemplo, quando transita por um mapa que tenha a dominante ar, poderá ser causa de muitos problemas. A dominante ar proporciona movimentos rápidos e muito dispêndio de energia (primariedade) tanto mental como física. 


Entenda-se: a dominante ar tem dificuldade para desligar a mente; o quadro é de nervosismo e excitação, tornando-se por isso difícil o relaxamento. Embora a dominante ar capte muitas informações, sempre terá dificuldades para processá-las e arquivá-las. No geral, há grande propensão à inquietação, à preocupação e à ansiedade. 
Os de ar são muito curiosos, leem, discutem, sabem dos tratamentos e, por isso, são os que mais entram em conflito com os médicos. Muito sujeitos a males de curta duração com recaídas frequentes.  

O tipo água – O elemento água é formado pelo frio e pelo úmido. Tem relação com os signos de Câncer (F>U+s), Escorpião (F>U) e Peixes (U>F). Os signos de água se associam ao mundo subconsciente, à subjetividade, ao que é oculto. Seus conceitos básicos são receptividade, permeação, compaixão, empatia. As debilidades do elemento estão nos excessos emocionais, na possessividade, na falta de ordem, no jogo da sedução, no vampirismo psíquico etc.

THE   KISS ,  1951   ( RENÉ  MAGRITTE )

A dominante água costuma ter um peso muito grande na infância, afetando bastante a saúde. Além do mais, inclina em demasia à coesão social (gregarismo), a variadas formas de autoproteção. O tipo água é normalmente de movimentos lentos, tende ao excesso de peso e à preguiça. Temores, insegurança e um certo medo do mundo podem levar à gula, ao apego ao ambiente em que nasceram e à passividade; tudo tende a ser valorizado subjetivamente.

Os de água sofrem, no geral, de males de natureza psicossomática. Mais imaginam a doença do que a vivem. As curas costumam ser demoradas, há lentidão, precisam muito de terapeutas que os tranquilizem e nos quais possam confiar com toda a segurança.

Cada elemento apresenta um modo peculiar de olhar o mundo, todos tendo a mesma importância para o equilíbrio do nosso corpo físico e de nossa personalidade. Eles formam uma totalidade. Cada
ASCENDENTE
NOSSA   PERSONALIDADE  VISÍVEL
um deles se refere a uma função do nosso consciente: a intuição é do fogo, a sensação é da terra, o pensamento é do ar e o sentimento-emoção é da água. Nossa consciência usa sempre uma ou duas funções (elementos) para nos pôr em relação com o mundo, operando os outros elementos a partir do nosso inconsciente. Qualquer opinião ou julgamento que emitirmos será sempre colorido pelas funções ou elementos que operam a partir do consciente. Não precisamos nos esforçar muito para perceber o quanto tudo isto afeta a nossa saúde física e a nossa vida mental. 

Os astrólogos erram sempre quando nos dizem, por exemplo, que temos tantos planetas em terra ou em água, considerando simplesmente a sua posição neste ou naquele elemento. Não levam em consideração que alguns planetas serão mais importantes para o nosso consciente que outros. Por isso, a distribuição dos planetas pelos elementos deverá levar sempre em consideração os que atuam no nosso plano consciente ou no nosso plano inconsciente.

A avaliação das proporções relativas a cada elemento num mapa não é fácil, como se pode ver na prática astrológica. Ela não depende apenas, como vimos, do número de planetas distribuídos pelos diversos signos. Um dado muito importante, pouco considerado, é que quando pensamos nessa distribuição a posição da Lua deverá merecer atenção especial. Além disso, quando levamos em consideração os trânsitos, não se deve esquecer que planetas podem alterar até bastante a ponderação dos elementos. Um Marte sempre aumentará o fogo; Netuno, a água e assim por diante. 

O Conceito de Energia
A energia universal aparece, toma uma forma, se mantém e desaparece constantemente, num eterno devenir. A Astrologia dá a esta dinâmica os nomes de cardinal, fixa e mutável. A primeira é

iniciadora, a segunda é sintetizadora e a terceira é modificadora. A primeira corresponde aos equinócios e solstícios, sendo representada pela chamada cruz cardinal, composta pelos signos de Áries, Câncer, Libra e Capricórnio. A segunda corresponde aos meses intermediários das estações, Touro, Leão, Escorpião e Aquário; é a chamada cruz fixa. A terceira corresponde aos meses que fazem a passagem de uma estação a outra, Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes; é a chamada cruz mutável. 


Os signos cardinais, que correspondem às casas angulares, denotam iniciativa, ação, causalidade, coragem, audácia, irreflexão, à maneira do seu elemento constitutivo. Os signos fixos, que correspondem às casas sucedentes, denotam concentração, constância, reflexão, lentidão, egoísmo. Os signos mutáveis indicam flexibilidade, adaptação, inconstância, sensibilidade, dispersão.
Os signos cardinais ou impulsivos ocupam os setores angulares do zodíaco-padrão; os signos fixos, ou estáveis, ocupam os setores sucedentes e os mutáveis ou comuns, ocupam os setores cadentes.
Como avaliar?

As funções ou elementos devem ser divididos em dois pares; de um lado, o pensamento e o sentimento-emoção e, de outro, a intuição e a sensação. O primeiro par é o responsável pela avaliação de uma situação existencial, por um julgamento; o segundo par atua no campo da percepção. Em termos de elementos, temos, no primeiro caso, um diálogo entre ar e água e, no segundo, um diálogo entre fogo e terra.

Se o elemento dominante num mapa for o elemento água, função superior, o elemento ar representará a função inferior. Num caso destes, se pensarmos em escolhas com relação aos outros elementos, fogo e terra, a decisão da função superior (água) se voltará naturalmente para o elemento terra que, como a água, é feminino, passivo, introvertido. Quando o ar, que se opõe à água, representar a função superior, ele sempre terá maior liberdade de escolha, porque é mais teórico, mais lógico.

Desse jogo de elementos e funções, podemos admitir, por exemplo, que conflitos entre elementos não opostos na forma acima são sempre mais fáceis de se resolver. Uma quadratura Gêmeos-Virgo (ar-terra) é sempre mais “amena”, menos tensa, do que uma quadratura Virgo-Sagitário (terra-fogo). 

A nossa visão de mundo depende sempre do elemento predominante no nosso tema (função consciente, superior). Por isso, é importante lembrar que quando duas pessoas, uma com dominante fogo e outra com dominante terra, dizem que uma coisa é bonita, elas podem estar se referindo a coisas muito diferentes. A dominante terra estará se referindo a aspectos concretos, cor, forma, volume, material, valor etc. A dominante fogo estará se referindo ao que será possível realizar com essa coisa; a dominante fogo “vê” uma invisível conexão entre o objeto e algo “mais adiante”, tudo o que se poderá fazer com ele. Tenderá, por exemplo, a instrumentalizar o objeto. Grandes confusões e desentendimentos costumam ocorrer quando não fazemos a leitura correta dos elementos. 

Planetas que estejam no elemento oposto ao que temos na nossa função superior, tendem sempre a reagir de modo “desconhecido”
PLUTÃO
para nós, invadindo o campo da função superior. É característico dos conteúdos inconscientes que eles invadam o campo da consciência de uma maneira muito inconveniente (sentimo-nos muitas vezes “traídos”), causando sempre muito mal-estar, trazendo muita perturbação. Exemplo: alguém que tenha Plutão no plano da função inferior (inconsciente) poderá ter muita dificuldade para se tornar consciente do que este planeta é essencialmente e do que representa no mapa. Lembro que Urano, quando atuando através da função inferior (inconsciente), sempre costuma fazer irrupções bruscas no plano do consciente.

A interpretação do jogo dos elementos, distribuídos como função superior (consciente) e função inferior (inconsciente), exigirá muita atenção, uma prática constante, pois servirá sempre para nos ajudar bastante quando entramos no tópico dos diagnósticos. Nem sempre a função inferior poderá ser considerada como totalmente
VÊNUS
REGENTE DO SIGNO DE TOURO
“maléfica”. Exemplo: tomemos o caso de uma pessoa fortemente orientada pelo elemento fogo (intuição) que tenha Vênus no elemento terra, em Touro. Esta pessoa procurará na vida, de um modo geral, se experimentar, buscar possibilidades, evitar quaisquer formas de limitação, de constrangimentos. O elemento terra, como se sabe, fala de segurança, estabilidade etc. Um tipo como o descrito “sentirá”, num primeiro momento, que, embora possa obter segurança no amor, este amor taurino significará restrições, limitações etc. Uma tensão se estabelecerá. Este conflito, com sérias repercussões no plano físico e mental, poderá se prolongar. A Astrologia terá certamente o que dizer aqui: ajudar a pessoa deste exemplo a se conhecer um pouco melhor, permitindo que ela aceite mais facilmente as suas imperfeições e conheça melhor as suas reais possibilidades no plano da vida afetiva.

As manifestações dos planetas que atuam na função inferior podem ser consideradas como “primitivas”. A função inferior (elemento) se mantém normalmente numa situação “subdesenvolvida”, não sabemos bem como lidar com ela. Exemplo: alguém com ar na função superior tenderá a se expressar muito mais teoricamente do que afetivamente (gestos, contactos etc.). O elemento água (planetas que lá se encontrem) sempre significará uma fonte de problemas. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

MITOLOGIAS DO CÉU - O SOL (1)


Nunca se estabilizando, nunca permanecendo numa forma fixa, o Sol é um corpo gasoso. Lança permanentemente no espaço imensos jorros flamejantes, a milhares de quilômetros. É nesse sentido, como os filósofos védicos observaram, um símbolo do sacrifício cósmico. Priva-se do seu ser para iluminar os membros do seu sistema. Cada centímetro quadrado da Terra recebe dele 1,94 calorias/minuto.


Do ponto de vista terrestre, movimenta-se o Sol em direção do oriente, girando em torno do próprio eixo. Enquanto a Terra tem uma rotação axial completa a cada 24 horas, o Sol faz esse movimento com velocidade diferente, espalhando a sua energia em várias direções. É 1.300.000 vezes maior que a Terra, distando dela, em média, 150 milhões de km, distância que serviu de base para a fixação de uma medida chamada “unidade astronômica” (ua).


Em qualquer mapa astrológico, o Sol indica sempre as nossas motivações e necessidades mais profundas; é a força vital de que podemos dispor (ou não) com um sentimento de propósito consciente e de auto-expressão. Historicamente, o Sol é, com raras exceções, a divindade central no panteão de todos os povos. Fisicamente, lembremos, é a luz do Sol que vitaliza todos os demais planetas, pois sem suas radiações eletromagnéticas não haveria movimento, vida em lugar algum. Por isso, todas as posições planetárias devem ser interpretadas num mapa astrológico com relação ao Sol, onde ele estiver e como ele estiver, sem que seja jamais esquecida a sua “irmã” mais velha, a Lua, o astro que reflete as energias solares com muito mais intensidade do que qualquer outro e muito mais ainda se estiver em aspecto com ele.

A contemplação das regiões siderais sempre provocou no homem uma experiência religiosa. Por sua inacessibilidade, pelas ideias de perenidade e de infinitude que sugerem, as regiões celestes sempre pareceram pertencer a forças que ultrapassavam os limites humanos e inacessíveis ao seu entendimento. O Sol, simbolicamente, sempre foi o grande inimigo das forças do Mal. É por essa razão, por exemplo, que na história da feitiçaria raramente encontramos um feitiço que opere nas horas diurnas. Diante do Sol só vemos atitudes de respeito, de temor, de veneração, em todas as culturas. Fonte de vida, de luz e de calor, o Sol sempre apareceu associado na história das religiões aos grandes deuses de todos os panteões, sendo seu culto invariavelmente associado ao fogo.



SOL NO LAGO KUSHARO - HOKKAIDO - JAPÃO

Este respeito pelo Sol vem dos mais recuados tempos da história do homem e é encontrado em todas as tradições. Entre os antigos japoneses, por exemplo, as forças e os fenômenos da natureza eram venerados e personificados como Kami, isto é, seres superiores. Particularmente, celebrava-se o momento em que o Sol atingia seu nível mais baixo no céu, no solstício de inverno. Tal cerimônia era oficiada por mulheres xamãs e tinha por finalidade dar um novo impulso à força declinante do astro-rei.


CALENDÁRIO ASTECA

Muitos povos, como os egípcios e os astecas, nos deram completos e gloriosos cultos solares. Os incas, uma tribo do povo quíchua, da região peruana, usavam máscaras de ouro para representar o Sol. O soberano inca era considerado como um filho dele e venerado como ele. O Sol está presente também nas festas cristãs. Na Páscoa, por exemplo, se festeja a ressurreição do Sol. Esta festa, como sabemos, é a mais antiga do mundo cristão, celebrando-se através dela a volta de Cristo. O concílio de Niceia (325) a fixou no primeiro domingo seguinte ao plenilúnio que ocorra depois do equinóxio da primavera (21 de março). O rito pascal dos cristãos tem obviamente antecedentes que encontramos em várias tradições, como, por exemplo, no mundo celta. A deusa que se ligava a este acontecimento tinha o nome de Eastre, deusa da primavera e do renascimento da natureza. A Páscoa cristã usou a data celta. A deusa Eastre tinha por atributo o coelho, animal lunar, símbolo da fertilidade, origem da tradição dessa festa entre os cristãos. Easter, como sabemos, em inglês, é Páscoa, de onde temos easter-eggs, ovos de páscoa.


EASTRE

As crendices e encantamentos ligados ao Sol aparecem em todos os quadrantes da Terra. Apontar o Sol com o dedo indicador traz infelicidade. Diante dele, nenhum ato fisiológico deve ser praticado. Essa recomendação já estava registrada entre os antigos gregos (Hesíodo). Em muitos lugares do mundo, urinar diante do Sol pode ocasionar terçol ou cálculos renais. O leste, lugar de nascimento do Sol, deve receber sempre a nossa maior veneração. Muitos remédios, de base vegetal, devem ser preparados sempre nas horas solares.

DISCO SOLAR DOS ASTECAS

O leste é o lugar de nascimento do Sol e de Vênus como a estrela da manhã, ligando-se a direção a todas as ideias de vitalidade, de renascimento e ressurreição. Sua cor é o vermelho, sentido como agressivo, dotado de energia vital, poderoso, irradiante.


QUETZALCOATL

As divindades do leste eram, entre os antigos habitantes do México, Quetzalcoatl e Tlaloc. O primeiro é um deus-serpente, divindade pré-colombiana sucessivamente venerada pelos toltecas e astecas. Deus civilizador, era representado tanto como um velho mascarado e como uma serpente emplumada. O declínio da civilização tolteca e a migração desse povo em direção do sul, causadora do renascimento Maia, são interpretados miticamente como uma partida do deus. Aliás, toda a história destes povos pode ser considerada segundo esta ótica simbólica. Os astecas, quando os espanhóis desembarcaram no México, acreditaram no retorno de Quetzacoatl, o que parece explicar, em parte, a atitude de seu rei, Montezuma, e a sua inação diante dos invasores. Tlaloc era uma divindade das montanhas, das nascentes e da chuva. Nos seus domínios, Tlalocan, lugar dos eleitos, abundavam os alimentos.


TLALOC

As primeiras ideias religiosas da humanidade, como sabemos, se fixaram num casal primitivo, a Terra (fêmea) e o Céu (macho). Os agentes celestes que se ocupavam da função masculina eram os astros e, dentre eles, o mais importante, segundo os limites da compreensão humana, era o Sol, cuja ação se caracterizava sobretudo pelo seu poder de criador cósmico e pela sua soberania diante dos demais. A palavra deus, no mundo indo-ariano, foi formada a partir do radical div, retirada desse contexto, trazendo uma ideia de manifestação celeste luminosa, de brilho, de clarão, lembrando muito a ação solar. Daí saiu a palavra dyaus, que vai nos dar no grego Zeus e no latim Júpiter (Deus Pai).

ZEUS
Dyaus, nos Vedas, é uma divindade masculina, também chamada ocasionalmente de Dyaus-pitri, Deus-pai, sendo a mãe a Terra. Ambos geraram Ushas, a Aurora. Os hinos védicos não definiram quem nasceu antes. Textos posteriores, que tinham o caráter de revelação (Sataphata Brahmana), declaram que Prithivi, a Terra, Aditi, a Ampla, muito parecida com a Geia dos gregos, nascera antes.

Oriundos de tempos pré-históricos mais recuados, os cultos solares passaram a fazer parte de todas as religiões que o homem foi criando ao longo da sua trajetória, nelas ocupando um lugar de grande importância. Há vários estudos, como sabemos, consagrados ao estudo de divindades celestes, a solar em especial. O que fica claro, porém, quando nos aproximamos dessas monografias, é que os cultos solares só ganharam maior importância e consistência na chamada era de Áries, que se estendeu de mais ou menos 1800 aC a 500 dC, período em que passaram a ocupar um papel central nas chamadas religiões monoteístas. Isto aconteceu, conforme pesquisas históricas nô-lo comprovam, em todos os continentes, mas principalmente na Ásia, na Europa, no norte da África (Egito) e em alguns países das Américas.


FESTA DO SOL NO PERU

O que esses estudos e pesquisas nos mostram é que esse papel central do culto solar se firmou mais nas culturas que haviam atingido um consistente nível de organização política, inclusive em países das Américas como o Peru e o México, os mais “civilizados” segundo os estudiosos europeus. Além do mais, foram os cultos solares grandemente responsáveis pela “marcha da História” a partir de então. A relação entre a radiação solar, as religiões monoteístas e as aventuras colonialistas na era de Áries não podem ser ignoradas.

A palavra deus, relembremos, tem forte conotação solar. Todas as tribos arianas tinham uma divindade celeste luminosa. Não é por outra razão, aliás, que o Sol, em sânscrito, tem nomes como Divakara (o que faz o dia) e que seu carro é chamado de Divaratha (Diva, o Sol, mais ratha, carruagem). Também não é por acaso que a palavra sânscrita diti, tanto usada como verbo e substantivo, brilhar, arder, esplendor, beleza, compõe um dos nomes do Sol, Ditakirana, aquele que tem raios quentes. Integrando-se no latim, diti se transformou em dite, tomando o significado de rico, abundante, opulento. Contraída, Dite, entre os romanos aparece como Dis Pater, pai da opulência, uma espécie de Sol subterrâneo, um dos nomes de uma divindade muito semelhante ao Hades-Plutão grego.

Enquanto estas ideias se firmavam, parece não ter sido difícil aos homens das sociedades patriarcais de então estabelecer uma relação entre a sua vida e o papel astronômico e biológico que o Sol desempenhava. A experiência da hierofania solar fazia o homem perceber que na sua vida interior acontecia algo de semelhante. O despertar de sua vida consciente era um processo semelhante ao do aparecimento do Sol a cada manhã. Vida racional e iluminação solar acabaram por se equivaler. Tudo isto levou o homem das civilizações arcaicas a se valer de mitos, ritos e símbolos solares para criar o chamado “regime diurno do espírito”, por oposição ao “regime noturno do espírito”, este representado pela Lua e pelas divindades que lhe são tributárias. Os campos foram se definindo; de um lado, os seres supremos, de natureza uraniana, solares, masculinos, espirituais-racionais, fecundadores, ativos, incansáveis na sua atividade. De outro lado, os centros geradores terrestres que suportavam a ação celeste, ligados à água, à vegetação, femininos, passivos, irracionais, instintivos, lunares, noturnos, representados pelas grandes-mães e por seus desdobramentos, como as ninfas de todas as espécies.

É do antigo Egito, mais do que de qualquer outra civilização, talvez, que nos vem o melhor exemplo de uma religião baseada em cultos solares. Foi a partir da quinta dinastia (2494-2345 aC) que a cidade de Heliopólis e a sua principal divindade, o deus Ra, cresceram em importância na vida religiosa do Egito. Isto aconteceu devido, principalmente, a uma progressiva solarização de várias divindades (Cnum, deus carneiro; Min, deus solar, que os gregos associavam às vezes ao Pan grego; Amon, identificado pelos gregos como Zeus), cujas prerrogativas acabaram por ser absorvidas por Ra, o grande deus solar, inclusive Shu, deus da atmosfera, seu filho, divindade uraniana. A supremacia de Ra pode ser atribuída principalmente a dois fatores. De um lado, o esforço da classe sacerdotal no sentido de implantar uma teocracia extremamente centralizadora e de outro a grande receptividade (interesse) do poder faraônico no sentido de identificar a sua soberania à imagem solar.



RA

O nome Ra significa criador e como tal o deus era honrado. O centro irradiador de seu culto, como se disse, era Heliópolis, no delta do rio Nilo. Foi nesse local que o deus se manifestou pela primeira vez sobre uma pedra em forma de obelisco. Antes de sua manifestação, ensinavam os sacerdotes heliopolitanos, o deus, com o nome de Atum, repousava no seio de Nun, o oceano primordial. Dentro de um imenso lótus, Atum se mantinha quieto, imperturbável, seus olhos fechados, para que seu esplendor se mantivesse recolhido. Um dia, desejando dar fim à sua impersonalidade, resolveu, por um esforço de sua vontade, sair do abismo onde se encontrava e aparecer luminoso e radiante com o nome de Ra, formando seus descendentes a grande enéada divina de Heliópolis.


TEMPLO DE AMON - RA


O Livro das Pirâmides nos revela minuciosamente a sua existência divina e real, informando-nos que, depois de seu banho matinal e de ter tomado a sua primeira refeição, Ra, em companhia de seu escriba, Uneg, inspeciona as doze províncias de seu reino. Enquanto se manteve forte e vigoroso, Ra não teve problemas para reinar sobre os deuses e os humanos ou administrar os seus domínios. Ao envelhecer, porém, foi se tornando cada vez mais enfraquecido, assumindo uma aparência física cada vez menos esplendorosa, um pouco trôpego, a baba lhe escapando dos lábios às vezes, como nos informam os textos. Ísis, que dele descende, aproveitando-se de sua senilidade, obteve por artimanhas, enganando-o, o seu nome secreto, adquirindo dessa maneira o seu soberano poder criador. Tudo isto aconteceu num tempo em que os humanos também, ingratamente, chegaram a desrespeitá-lo e a atacá-lo.

Irritado, Ra convocou uma assembléia divina e, reunindo suas últimas forças, conseguiu vencer os revoltosos. Diante de tanta ingratidão, contudo, resolveu abandonar definitivamente o mundo terrestre pelo mundo celeste, onde permanece, levando uma existência perfeitamente regrada, caminhando sempre da mesma maneira ano após ano. Durante doze horas do dia ele percorre de oriente a ocidente o seu império, na sua imensa barca, evitando com grandes cuidados os ataques de Apophis, seu eterno inimigo, a grande serpente que vive no fundo do rio Nilo celeste. Apophis chega, em algumas ocasiões (eclipses), a engolir a sua barca, uma vitória nunca definitiva, pois Ra, auxiliado por seus defensores, consegue sempre superar seu inimigo. Durante as doze horas noturnas, os perigos que Ra tem que enfrentar são ainda maiores, mas ele consegue sempre se sair vitorioso.

Ra sempre foi representado de diversas maneiras. Uma delas, muito comum, o faz corresponder a uma criança, a um adulto e a um velho nos três grandes momentos do dia, nascente, meio-dia e poente, para morrer à medida que a noite avança. A partir da meia-noite, ele recomeça a nascer. Outra imagem muito comum de Ra era a de apresentá-lo como uma criança real a repousar sobre um lótus. Em muitas regiões, Ra era um homem sentado ou de pé, andando, com a cabeça aureolada por um disco solar, no qual estava pousado um “uraeus”, imagem da cabeça da deusa-abutre Nekhebit e/ou da deusa-serpente Vatchit (ou Vadji, a naja), a primeira do Alto-Egito e a segunda do Baixo-Egito. As duas eram geralmente dispostas em tiaras, uma à frente da outra, para simbolizar o poder exercido sobre os dois reinos unidos. Muito difundida também era a representação de Ra com uma cabeça de carneiro, com o nome de Efu Ra, forma na qual se encarnava o Sol morto durante a sua viagem noturna. A imagem heliopolitana de Ra, que prevaleceu por todo o Egito, era a de uma figura humana com uma cabeça falcão, Ra Harakhtes. O número das representações do deus era, ao que parece, bem superior a sete dezenas. Reconhecido universalmente como o maior dos deuses, criador e mestre do mundo, Ra sempre foi particularmente reverenciado por todos os faraós, que se proclamavam como seus filhos.



RA HARAKHTES

No Livro Egípcio dos Mortos encontramos este hino (trecho) ao deus Rá, no qual se celebra o nascimento do Sol: “Que homenagens sejam rendidas a ti, que és Ra quando nasces e Temu quando te pões. Teu nascimento, teu brilho, tu és o rei coroado do ano. Tu és o Senhor dos céus, o Senhor da Terra, o Criador dos deuses estelares nos céus. Tu és o Senhor que virou ser no começo dos tempos. Tu criaste a Terra, modelaste o homem e fizeste os abismos de água do céu e deste vida a tudo o que existe.”

Evidentemente, como astro diurno, o Sol, desde sempre, foi considerado como a mais importante presença celeste. Além da egípcia, muitas outras religiões o associaram à ideia de divindade porque, além de outras funções, é o grande destruidor das trevas, da obscuridade, da ignorância. Foi por essa e outras razões que o culto solar de Amon-Ra, durante o reino do faraó Amenofi IV (1365-1348 aC), mais conhecido como Akhnaton, se transformou num sistema monoteísta.

Sabemos que com a retirada de Ra para os céus, o culto de Osíris-Isis veio para um primeiro plano na vida religiosa do Egito. Osíris (aquele que está sentado no trono) foi identificado originalmente como uma divindade que ativava as forças vegetais, associado ao regime das cheias do rio Nilo. Para entender melhor esta substituição é preciso saber que os egípcios sempre atribuíram muita importância ao nascimento heliacal de qualquer estrela, ou seja, à estrela que aparecia no céu um pouco antes do surgimento do Sol, representada, nesta condição, pelo deus-menino Hórus, conduzido por Isis nos seus braços. A estrela a que nos referimos adquiria grande importância, pois misturava a sua energia à do Sol. Ao meio-dia, o Sol não mais era visto como o deus infante, mas, sim, como Hórus adulto, isto é, um futuro Ra. Ao crepúsculo, ele se tornava Osíris, o deus do mundo subterrâneo.



OSÍRIS

A importância dos eixos equinociais e solsticiais foi estabelecida pelos egípcios mais ou menos entre 6000 e 4000 aC, período em que, como vários estudos comprovaram, a agricultura começou a se desenvolver bastante no Egito, no vale do Nilo. A estrela (constelação) que nascia com o Sol por essa época era Orion, associada por isso, por milênios, ao equinócio da primavera, nascimento ligado às enchentes do referido rio. Conforme está comprovado também, a última vez que a constelação de Orion-Osíris apareceu no equinócio da primavera foi por volta de 6700 aC. Do mesmo modo, Ísis, através da estrela Sothis (Sireius para os gregos), foi associada à constelação do Cão Maior. Os egípcios conheceram assim Osíris pela sua ligação com o Sol e Orion, o que levou todos os faraós a se considerarem como a encarnação destes astros. Entretanto, com o passar dos séculos, devido aos efeitos da precessão dos equinócios, Orion-Osíris começou a “descer” cada vez mais nos céus, perdendo assim a primeira a condição de constelação heliacal anunciadora do equinócio da primavera. Os egípcios interpretaram o progressivo desaparecimento de Orion como uma “descida” do deus ao mundo subterrâneo. Isto aconteceu, como se disse, por volta de 6000 aC. Esta “descida” de Osíris significou consequentemente para os egípcios que Hórus, seu filho, deveria assumir o trono deixado pelo pai, agora transformado em divindade suprema do mundo dos mortos. A descida de Osíris ao mundo das sombras fez com que a teologia heliopolitana o considerasse ao mesmo tempo como uma divindade solar e funerária.