domingo, 21 de julho de 2019

OS FILHOS DE HYPNOS



HIPÓCRATES

A virtude profética dos sonhos é atestada desde a mais remota antiguidade. Os antigos gregos davam o nome de oniromancia à arte da interpretação dos sonhos. Hipócrates, o pai da Medicina, e Galeno, famosos médicos da antiguidade, levavam os sonhos em consideração quando prescreviam remédios aos doentes. 


HYPNOS
Oniro era filho de Hipnos, o deus do sono. Ele personificava o sonho enganador, o sonho que precisava ser interpretado por peritos, pessoas muito bem treinadas na arte dos símbolos. Seu irmão chamava-se Hypar, o sonho profético. Hypnos, o deus do sono, usava um tridente com o qual tocava as pálpebras dos humanos e os fazia dormir. Era nesse momento, caminho aberto, que seus filhos apareciam.

LINGAM
Espécie de forcado com três pontas ou dentes, o tridente é antigo símbolo encontrado na Índia pré-védica com o nome de Trishula (três pontas) ou Trikala (três tempos). Era um emblema shivaísta na forma de um lingam (órgão fálico) entre duas serpentes eretas. O primeiro, símbolo do poder gerador, princípio ativo, e as serpentes lembrando o desenvolvimento e a reabsorção cíclicas, guardiãs do nadir, região oposta ao zênite.


No mundo grego, o tridente aparece na mão de divindades que se ligam sobretudo a conceitos de destruição, de dissolução, de eliminação de fronteiras, trazendo uma ideia de caos, de algo anterior ao cosmos, informe, não ordenado, uma proto-matéria. No fundo, uma proposta de indiferenciação de onde pode partir uma nova forma. 

NETUNO  E  SEU  TRIDENTE

SOLUTIO
Poseidon, Netuno para os latinos, usa o tridente como um dos seus grandes símbolos. Irmão de Zeus e de Hades-Plutão, domina o elemento líquido como deus dos oceanos, mares, rios, lagos, águas subterrâneas, fontes. O tridente nas mãos de Poseidon é semelhante ao raio de Zeus, com o qual ele agita ou acalma as águas, tendo o poder ativo de destruir tudo o que estiver preso a uma forma, coagulado. É com esta característica que na Alquimia representa a solutio por excelência. 


MORFEU , 1690 ( RENÉ - ANTOINE  HOUASSE )

Na mitologia grega, uma outra divindade também aparece associada ao tridente, o deus Hipnos, filho de Nix, a grande deusa da Noite. Em várias representações da arte, a encontramos  dirigindo-se ao seu palácio nos confins do poente, levando nos braços Hipnos. Este deus toca com o tridente as pálpebras dos humanos, fazendo-os dormir. A partir daí tudo pode acontecer, pois ele pode liberar a passagem para seu filho Morfeu, deus dos sonhos, “o de mil formas”, que virá como Oniro, o sono enganador, ou como Hypar, o sono profético, premonitório. Com eles, o tempo e o espaço serão abolidos, criar-se-ão visões nunca “vistas”. 


NIX  ( HENRI - FANTIN  LATOUR , 1836 - 1904 )

SATÃ ( DORÉ, 1832-1883 )
Este poder que o tridente tem de criar mundos fantásticos, realidades “irreais”, fantasias, fez certamente com que o Cristianismo o colocasse nas mãos de Satã para representar o perigo das três principais pulsões que nos afligem, sexo, comida e possessão material e da nossa derrota diante do seu poder de sedução. Encantados, fascinados pelas imagens que ele nos oferece, mordemos a isca e, em conseqüência, nos ferramos, literalmente. Sedução e castigo estão, pois, presentes no tridente como o Cristianismo o usa. 


SIGNO  DE  PEIXES
Na Astrologia, o tridente encontra talvez a sua melhor explicação. Sabemos que é usado para representar o planeta Netuno, astro regente do signo de Peixes. Último signo zodiacal, Peixes antecede o equinócio de primavera. Representa o psiquismo inconsciente (pessoal e coletivo), pelo qual podemos ter experiências sublimes ou infernais. Ligado ao elemento água, o signo aponta para uma tipologia marcada por uma natureza inconsistente, muito receptiva e impressionável. Indica também para o indistinto, para o confuso, para a ausência de limites, para o apagamento de todas as particularidades. Dissolução, integração num todo maior, fusão, plasticidade, anulação da coesão, permeabilidade, abandono...

Netuno, mestre do signo, cujo símbolo é o tridente, produz estados de recepção passiva nas suas mais variadas formas, podendo levar à inspiração, à intuição, à mediunidade, à empatia, à comunhão, à utopia, à loucura, ao descontrole, lembrando moléstias mentais, depressões, manias, anarquismo, caos. Como arquétipo, Netuno é a expressão da dissolução, a abolição do tempo (trikala) e a destruição dos limites e das fronteiras do espaço. Nos tipos superiores, é o êxtase, o samadhi, a vidência, a criatividade artística, a santidade, a anulação do eu em benefício do todo...

O mais famoso dos filhos de Hypnos é Oniro, particularmente importante nas terapias adotadas por um centro médico sediado na cidade de Epidauro, na antiga Grécia. Esse centro médico estava colocado sob a tutela do deus Asclépio (Esculápio para os romanos, mais tarde) e seu corpo clínico era constituído por sacerdotes-médicos, muitos deles especialistas em oniromancia.

TEATRO  DE  EPIDAURO

Epidauro, como centro de tratamento e cura, durou vários séculos, quase um milênio, do séc. VI aC ao séc. V dC. A ele acorriam doentes de várias regiões do mundo antigo, dos países banhados pelo mar Mediterrâneo, ou seja, da Europa, do norte da África e da Ásia Menor. Epidauro possuía grandes instalações, sendo, além de clínica médica, um centro cultural e de lazer. Lá havia um Odeon, teatro para a audição de peças musicais, de poesias, declamadas por poetas de renome, e para cursos de dança. Possuía também o centro médico um Ginásio, para práticas esportivas, com piscinas, um Teatro, uma Biblioteca, com um grande número de volumes, um grande Templo e um Museu ao ar livre com numerosas esculturas. No mais, em áreas muito ajardinadas, com pequenos bosques, com fontes e tanques para a vegetação aquática, ficavam os que lá se internavam em alojamentos (apartamentos), frequentando os refeitórios, o espaço dos consultórios, os prédios da administração.

ASCLÉPIO

Asclépio, deus-médico, era filho do deus Apolo, a principal divindade médica da antiga Grécia. Asclépio era conhecido como o Deus Toupeira, apelido que era uma alusão a este animal que tem a capacidade de ver no escuro. O deus “entrava” na escuridão do psiquismo dos doentes para curá-los.


A proposta do centro médico de Epidauro era a de que só haveria cura se todo o corpo do doente fosse curado. Para que isto acontecesse era preciso antes de tudo curar a mente. Só haveria cura se ocorresse a metanoia, ou seja, a transformação dos sentimentos, fonte de todo o mal. Os sacerdotes-médicos de Epidauro achavam que as doenças eram provocadas pelo que eles chamavam de hamartiai isto é, pelos erros, pelas faltas, por comportamentos desequilibrados, gerados por uma espécie de fixação mental (culpas, ódios, raivas, ressentimentos, mágoas, obsessões, apegos idiotas a hábitos errados, atavismos poderosos, erros de educação), que se transformavam no agente mórbido. Instalados estes sentimentos negativos, havia assim uma certa incubação que detonava, cedo ou tarde, as doenças. Os sacerdotes-médicos de Epidauro defendiam a tese de que nós não “pegamos” doenças, nós é que as causamos.

As causas das doenças para eles eram principalmente mentais, produto muitas vezes de representações errôneas que as pessoas faziam dos acontecimentos e do mundo. Tudo isto acontecia geralmente sem que o doente percebesse. Por isso, os sacerdotes davam grande importância ao que chamavam de nooterapia, um tratamento que purificava e regenerava psíquica e fisicamente o ser humano por inteiro. Estas técnicas eram, no fundo, um tratamento da alma humana, que devia estar sintonizada com os ritmos universais. Quando isto acontecesse, o físico e a mente se tornariam necessariamente equilibrados.  


ONIRO

Grande importância nessa abordagem total do ser humano era dada à interpretação dos sonhos, a oniromancia. Os pacientes internados eram induzidos ao sono pela chamada enkoimesis (deitar e dormir), sendo-lhes oferecidas certas infusões que facilitavam a visita do deus Hipnos e de seus filhos, Oniro e Hypar. Pela manhã, os sacerdotes conversavam com os pacientes sobre os seus sonhos. Já sabiam esses sacerdotes que os sonhos eram uma via privilegiada para que se pudesse “entrar” no psiquismo dos doentes e fazê-los ver o mundo de um modo diferente.


O que acontecia em Epidauro era uma verdadeira convergência de várias técnicas, de práticas culturais e físicas, de alto valor terapêutico, que aceleravam os processos de cura. Nesses processos, como dissemos, os sonhos eram muito importantes. 
A oniromancia era praticada em todo o mundo antigo, notadamente

no Egito, na Mesopotâmia e em outras tradições. O primeiro tratado escrito sobre os sonhos data do segundo século da era cristã. Quem o escreveu foi Artemidoro de Éfeso. Seu título: Onirocriticon ou O Tratado dos Sonhos. Diz-se que este tratado era do conhecimento de Freud e que ele o inspirou bastante (há uma carta do próprio Freud sobre essa questão).

Hypnos (em latim Somnus) deu origem ao conceito de hipnose. Hypnos é a personificação do sono. Ele é filho de Nyx, a Noite, grande divindade das trevas superiores, e tem como irmão gêmeo Thanatos, o deus da morte. Por essa razão falamos da morte como sono eterno e fechamos os olhos das pessoas que morrem para que possam dormir.

THANATOS COM  ASAS
Hypnos era considerado como uma divindade jovial, suave, mas em certas ocasiões podia se tornar perigoso e fazer com que alguém caísse nos braços de seu irmão Thanatos. Hipnos tem um aspecto relaxante, mas é temido, pois pode paralisar alguém, imobilizá-lo, quando isto não poderia acontecer (o vigia e o piloto que dormem, por exemplo). A diferença entre Hypnos e Thanatos é realmente mínima. Os deuses, em geral, não gostam de Hypnos, pois seu poder é imenso, sendo ele, num certo sentido, o senhor de todos os deuses. Mesmo que não queiramos, ele acaba fechando os nossos olhos.


POTOS
Uma vez instalado o sono sobre as nossas pálpebras, tudo pode acontecer, a noção de tempo desaparece (o tridente é um símbolo da anulação dos três tempos, presente, passado e futuro), temos visões, viajamos sem sair do lugar, visitamos lugares onde nunca estivemos, antecipamos um futuro que nunca será o nosso, somos amigos de pessoas que nunca conhecemos. A rigor, apenas uma divindade consegue deter Hypnos. Esta divindade chama-se Pothos, o deus da saudade, pois saudosos não dormimos.

EPIDAURO , ODEON
Os gregos antigos sabiam que os sonhos levam ao autoconhecimento. A psicologia moderna, ao que parece, procurou aprender com os sacerdotes-médicos de Epidauro que os sonhos preenchem uma função tanto compensadora quanto complementar do nosso consciente, pois eles transmitem os elementos que faltam a este último para que uma situação seja compreendida. Os sonhos têm a função de restabelecer o equilíbrio psíquico chamando a nossa atenção para os exageros ou as omissões que cometemos. É neste sentido que os sonhos revelam o estado psíquico de alguém.. É por essa razão que todos os elementos de um sonho, por mais absurdos e estapafúrdios que sejam, se referem exclusivamente ao sonhador e representam aspectos de sua personalidade.

Em que pesem as diferenças entre as várias escolas psicológicas do ocidente, atualmente, elas parecem todas concordar num ponto, que os sonhos, em geral, não nos remetem somente a uma história individual, mas nos dão pistas e chaves para a compreensão de culturas diferentes da nossa, permitindo-nos interpretar e conhecer muitas de suas características.

A psicologia moderna do sonho se ocupa principalmente com o aparecimento e a duração dos sonhos na chamada fase REM do sono (Rapid Eyes Mouvements) ou fases que comportam movimentos rápidos dos olhos sob as pálpebras cerradas e de seu efeito benéfico sobre as tensões acumuladas de quem dorme. Acredita-se, hoje, por recentes pesquisas na área da neurofisiologia do sono que, além dos seus aspectos propriamente psíquicos, o sonho desempenha um importante papel regulador e reprogramador biológico do cérebro.

Para muitos estudiosos, que repetem os sacerdotes-médicos de Epidauro muitas vezes sem o saber, os sonhos, com as suas imagens, têm relação com os conflitos interiores do sonhador, nascidos do seu desejo de se afirmar e de adquirir poder. Além dessa ideia, não há como negar que os sonhos nos remetem ao chamado inconsciente coletivo, também conhecido pelos gregos, fonte de estruturas inatas e a priori da imaginação do ser humano.

Talvez tenham sido os hindus aqueles, dentre os povos da antiguidade, que nos tenham deixado uma das mais interessantes visões da vida onírica. Reconheciam eles, resumidamente aqui, quatro estados da alma ou quatro estados de consciência: o estado de vigília; o estado onírico,  o estado instável  no qual a alma pode explorar domínios inacessíveis à consciência quando no estado de vigília; o estado de sono profundo, sem sonho; e o estado de mergulho no absoluto, no Brahman, quando o ser com este se identifica, estado que excluía a velhice, a morte e a dor. 


BRAHMAN

Talvez no mesmo nível dos hindus, possamos colocar os antigos egípcios pela curiosa interpretação que nos deixaram sobre os sonhos. Para eles, uma noite de sono era um tempo morto quanto à criação, um retorno ao caos primordial que permitia ao ser humano entrar em contacto com todos os seres e lhe proporcionar visões de um mundo ainda não criado, uma espécie de premonição, de algo do futuro que estivesse por vir. 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

LAURA


Na tradição cinematográfica norte-americana, Laura é um filme que faz parte daquele grupo que permanece, em que pesem as modas e as puxadas do box-office. Considerado tanto como uma sátira aos meios elegantes da sociedade nova-iorquina como um thriller psicológico-policial ou ainda como um exemplo de filme noir, Laura, por qualquer viés que o apreciemos, é sempre um clássico porque serve de referência principalmente por ter sido criado por um autor que dominava tecnicamente de modo excepcional a linguagem que utilizava. 

O diretor de Laura é Otto Preminger, um austríaco que, como tantos outros europeus, com a ascensão do nazismo, na virada dos anos 1930-1940, procuraram outros lugares para viver e trabalhar. Lembre-se que da geração de Preminger, discípulo do grande Max Reinhardt na Europa, faziam parte outros profissionais do cinema que se mandaram também para os USA pelos mesmos motivos. Ao nome de Preminger podem ser juntados os de Fritz Lang e de Samuel Wilder (Billy Wilder nos USA). Os três  eram judeus e haviam dirigido filmes na Europa. Lang, aliás, recebera uma proposta de Joseph Goebbels, ministro de propaganda do nazismo, para permanecer na Alemanha fazendo cinema. O que se tem de concreto é que os três acabaram emigrando para os USA e lá encontraram o seu lugar em Hollywood. 


OTTO  PREMINGER

Antes de realizar Laura, em 1944, Preminger já havia dirigido nos USA Por Enquanto Querida (1943) e Um Pequeno Erro (1944), tendo chegado a trabalhar, como outros emigrados de fala alemã o fizeram, como ator, atuando no papel de soldados ou de oficiais alemães em filmes americanos.  Reconhecidamente um profissional de grande talento, com grande domínio da técnica cinematográfica, Preminger logo se tornou muito conhecido nos círculos hollywoodianos apesar de sempre dar mostras de um temperamento esquentado,  de difícil convivência, inclusive com a censura. 

Em 1944, Preminger realizou Laura, lançado em janeiro de 1945 no Brasil, classificado  como um filme noir. O roteiro é de Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Elizabeth Reinhardt, com base no romance de mesmo nome de Vera Caspary. Elenco: Gene Tierney, Dana Andrews, Vincent Price, Clifton Webb, Judith Anderson. Música: David Raksin. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: Louis R.Loeffer. Distribuição: 20th Century Fox. 


LIVRO DE V. CASPARY
A história que deu origem ao filme é de autoria de Vera Louise Caspary (1899-1987), autora de novelas, contos, peças teatrais e roteiros. Ligada politicamente à esquerda do país, tendo se filiado inclusive ao partido comunista e visitado a União Soviética, Vera Caspary sempre centralizou os temas de suas histórias em figuras femininas que procuram buscar a sua identidade através de suas dificuldades afetivas, inclusive com risco de vida. Inicialmente estruturada para ser levada ao teatro, já conhecida por alguns produtores de Hollywood, como conto, a história (Laura), por pressão de Preminger, acabou sendo comprada pela Fox e transformada em filme.  

Para entender melhor o filme é bom lembrar que o  chamado filme noir define, muito mais que um gênero, uma corrente estética. Suas principais fontes estão no cinema mudo, no cinema expressionista alemão, nos filmes B norte-americanos dos anos 1930-1940 e no tratamento fotográfico que é dado a tudo isto. Imagens em preto e branco, deformações pelo uso de lentes especiais, atmosfera surchargée, barroquismo, inclusive nos gestos, alguma afetação (destaque, em Laura, para as interpretações de Clifton Webb e de Vincent Price, mais quanto ao primeiro, dois atores naturalmente “afetados”), excelente fotografia, uso de sombras, planos inclinados, relógios, espelhos, escadas, claraboias etc.

Os grandes temas do filme noir  são as paixões obscuras do ser humano, desde as explosões instintivas, violentas (nos filmes de gangster, choques entre classes, conflitos trabalhistas, corrupção, greves etc.) até os crimes cometidos por representantes de segmentos sociais aparentemente inatacáveis, normais, o mundo das trevas de sociedades que se apresentam como justas, ordeiras e organizadas.

Um jornalista, colunista social (Clifton Webb), homossexual enrustido, fica profundamente seduzido por uma bela jovem chamada Laura (Gene Tierney, então com 24 anos). Essa sedução acaba se transformando numa obsessão (tema de Pigmaleão-Galateia?). Um pouco antes de se casar com um playboy (Vincent Price), ela é encontrada morta, vítima de um assassinato. Através de histórias contadas por seus admiradores, um detetive (Dana Andrews), encarregado de solucionar o caso, acaba também “prisioneiro” de Laura, do seu retrato, do seu fascínio, alimentado pelas histórias que sobre ela lhe contam, sobretudo pelo que sua imaginação projeta sobre ela. Laura, aliás, por este detalhe, faz parte de um bom número de filmes em que retratos têm função importante na fixação da personalidade da figura principal ou do tema do filme, os chamados filmes de retrato (À Meia Luz, Rebeca, Um Retrato de Mulher,  O Retrato de Jennie, O Retrato de Dorian Grey, A Família etc.).

Laura foi “vendido” para o grande público como um filme de entretenimento, um filme que procurava levar esquecer a guerra (estávamos então em 1944) e a política internacional. Os ambientes eram elegantes, os diálogos ágeis, inteligentes (as falas de Clifton Webb: Eu não sou bom, sou muito mau. É o segredo do meu charme.), havia suspense. Nenhum problemas social mais evidente, nada de afrontas a códigos morais. Afinal, todos gostam sempre de ver os “podres” das elites escrachados pelos meios de comunicação. Gente de dinheiro, moda, lojas chiques, restaurantes, New York, já à época assumindo a condição de the Big Apple...


DANA  ANDREWS, VINCENT  PRICE,  GENE  TIERNEY,  CLIFTON  WEBB

O filme tem entretanto atmosfera bem noir, estilo, na medida em que  temas como obsessão, fetichismo e necrofilia estão nele embutidos. Otto Preminger fez com que a câmera passeasse o tempo todos pelos cenários, permitindo que o entendimento do espectador avançasse com a ação, mas sempre lhe subtraindo alguma coisa, impedindo que o final do filme pudesse ser antecipado. Preminger dosou tudo no tempo certo, dando a Laura um ritmo impressionante. Isto se deve sem dúvida a um script (roteiro) muitíssimo bem elaborado e ao elenco  sempre muito afinado.



A produção de Laura filme foi muito confusa. Muitas brigas ocorreram entre Darryl Zanuck, o homem dos estúdios ($$$), e Otto Preminger até que o filme fosse iniciado. Zanuck havia comprado os direitos de Laura para a Fox quando a história não passava de um conto publicado na revista Collier´s, com o título Ring Twice for Laura. A história foi adquirida para ser o veículo perfeito para uma jovem atriz que fosse capaz de usar figurinos elegantes, que não destoasse em cenas em que fosse exigido algum traquejo dramático e, sobretudo, que fosse muito bonita, “devastadoramente” bonita como se disse à época. Gene Tierney preencheu os requisitos com facilidade.

SAMUEL   HOFFENSTEIN
Antes de assumir a direção do filme (inicialmente entregue a Rouben Mamoulian), Otto Preminger mexeu no roteiro. Contratou o poeta Samuel Hoffenstein para dar maior qualidade ao diálogo e desenhar melhor o personagem Waldo Lydecker. Quanto à música, a primeira escolha recaiu sobre Smoke Get in Your Eyes, de Jerome Kern. Depois, Preminger optou por Summertime, de George Gershwin, e por Sophisticaded Lady, de Duke Ellington. 


DAVID   RAKSIN
Otto Preminger havia contratado David Raksin (1912-2004) para cuidar da música do filme. Nenhuma das canções escolhidas o satisfez. Raksin então propôs e Preminger aceitou que ele compusesse uma canção. Assim aconteceu e Raksin, inspirado numa carta que recebera de uma namorada, desenvolveu o tema musical. Caberia a Johnny Mercer (Moon River e That Old Black Magic), mais tarde, fazer a letra, depois de lançado o filme. Assim nasceu Laura, uma das mais belas canções americanas de todos tempos, gravada mais de 350 vezes.  


                                          TRILHA SONORA

A finalização do filme também foi polêmica, mas a versão (final cut) de Preminger acabou prevalecendo.  No universo do filme noir, Laura é,sem dúvida, o exemplo mais refinado e elegante do gênero. Um detalhe: o famoso retrato de Laura pelo qual McPherson se apaixona não é pintura; é uma fotografia com retoques de tinta a óleo.




Um pouco mais sobre Preminger (1906-1986): nasceu em Viena, de família judaica, estudou Direito e Filosofia, indo para os USA em 1935. Começou como ator, sem muito destaque, passando aos poucos para a direção. Fixando-se nesta carreira, optou sempre para fazer filmes sobre problemas de conduta, desvios, conflitos comportamentais. Tinha a fama de exigente, duro, desagradável. Além de Laura, seu maior sucesso de público e de crítica, temos dele importantes realizações como O Rio das Almas Perdidas, Carmen Jones, O Homem de Braço de Ouro, Bom Dia, Tristeza, Anatomia de um Crime. Seu último filme, O Fator Humano, é de 1979.

Destaque para David Raksin (1912-2004), compositor, com mais de cem créditos como responsável pela música de filmes e de trezentos para a TV. Trabalhou com Charles Chaplin no tema de Tempos Modernos (1936). Laura é conhecido como a segunda canção mais gravada na música popular norte-americana, perdendo só para Stardust, de Hoagy Carmichael. Ensinou em universidades americanas.


Gene Tierney (1920-1991), mulher belíssima, nascida em família rica, estudou nas melhores escolas da costa leste estadunidense e na Suíça. Foi casada com o estilista Oleg Cassini, com quem teve duas filhas. Em 1957, uma forte depressão (problemas matrimoniais e uma filha doente) levou-a a sanatórios, onde ficou internada por muito tempo. Além de Laura, temos dela Tobacco Road, O Fio da Navalha, O Fantasma e Mrs. Muir, O Céu Pode Esperar, A Mão Esquerda de Deus etc.


CLIFTON   WEBB
Webb Parmalee Hollenbeck (1889-1966), quando chegou a Hollywood, como Clifton Webb,  já era conhecido como ator teatral e dançarino. Estudou música e pintura. Aos 25 anos já atuava na Broadway e em Londres em musicais. No cinema, seus grandes sucessos são dos anos 40, Laura e O Fio da Navalha. A série de TV Mr.Belvedere foi baseada em sua vida. Viveu com a mãe até os seus 71 anos, quando ela morreu. Deixou filmes como Ama Seca Por Acaso, Duro na Queda, Náufragos do Titanic, A Lenda da Estátua Nua, Tudo Azul com Barba Azul, Tentação Diabólica.

Quando Laura foi concluído, Zanuck, o grosso chefão da Fox, mandou chamar Preminger e fez uma análise do filme: Dana Andrews é um amador sem “sex appeal”, Clifton Webb é bicha, Judith Anderson deveria ter permanecido no teatro e o senhor em Nova York ou Viena, onde é o seu lugar.

JUDITH  ANDERSON
Dame Judith Anderson (1897-1992) é australiana. Estudou teatro e em 1918 estava em Nova York, atuando em peças de Shakespeare. Teve um período muito difícil, voltou para a Austrália, retornando depois aos USA. Nos anos 30, 40 e 50, já era, contudo, reconhecida como uma das maiores atrizes do teatro americano. Atuou em peças de Pirandello, Eugene O´Neill e outros enquanto começou a fazer cinema. Em 1937, estava no Old Vic de Londres, interpretando Shakspeare e Tchekov. Em 1947, com produção de John Gielgud, fez uma soberba Medeia. Trabalhou com Charles Laughton e outros grandes nomes. No cinema, destaque para seu papéis em Rebecca, Lady Scarface, Gata em Teto de Zinco Quente etc. Gravou muitos discos com trechos de peças teatrais importantes. 



Dana Andrews (1909-1992), filho de um pastor da Igreja Batista, antes de fazer cinema, trabalhou em administração de empresas, como contador. Em 1931, tentou se fixar como cantor enquanto fazia um curso na escola teatral de Pasadena. Em 1940, foi contratado por Samuel Goldwyn, atuando ao lado de Gary Cooper, Henry Fonda e outros nomes famosos. Nos anos 40, fez, além de Laura, Os Melhores Anos de Nossas Vidas, um clássico. Na década de 50, sua carreira declina por problemas com o alcoolismo. Em 1963, conseguiu ser eleito para a presidência do Sindicato de Atores do Cinema. Parece ter vencido o alcoolismo, aparecendo inclusive em programas da AA. Seu último filme é de 1978 (Uma Árvore, uma Pedra e uma Nuvem).


Vincent Price (1911-1993) é de um rica família americana, muito familiarizada com o que havia de melhor na tradição cultural europeia. Começou no teatro, indo depois para o cinema, ficando mais conhecido como ator de filmes de terror e de suspense. Tem uma longa carreira, nela se destacando filmes como Museu de Cera, A Mosca da Cabeça Branca, A Casa Amaldiçoada. Participou de um criativo ciclo de adaptações da obras de Edgar Allan Poe para o cinema, sob a direção de Roger Corman (O Solar Maldito, Mansão do Terror, Muralhas do Pavor, O Castelo Assombrado).

Nos anos 70, Price aumentou o ritmo de sua carreira, com O Uivo da Bruxa, O Abominável Dr. Phibes, As Sete Máscaras da Morte e outros. Ao lado de alguns astros do terror, Peter Cushing, Christopher Lee e John Carradine, fez paródias de seus próprios filmes. Trabalhou com o astro da música pop Alice Cooper, seu fã declarado. Participou inclusive de uma famosa gravação com Michael Jackson. Além dessas atividades, apareceu como narrador de vários filmes e documentários. Seu último filme foi Edward Mãos de Tesoura (1990).


LAURA
Depois de tanto tempo, Laura continua, sem dúvida, a nos fascinar, seja pela fabulosa   direção de Preminger, pelo entrosamento perfeito do elenco, pela excepcional fotografia,  pelo inesquecível tema musical que Raksin compôs. Laura é um um dos melhores exemplos, quando pensamentos em sentimentos humanos, daquilo que podemos entender por solidão, por nostalgia (etimologicamente, algos, sofrimento, e nostos, passado, dor que sentimos por não mais poder voltar ao passado). En passant, acrescentem-se às sugestões que o tema de Raksin nos oferece, carregando-o ainda mais, as falas dos personagens, especialmente as de Waldo Lydecker (Clifton Webb), como aquela sobre o que sentira no final de semana em que Laura morrera: Jamais esquecerei o final de semana em que Laura morreu. Um Sol de prata queimava no céu como uma enorme lupa. Ao que me lembre, foi o domingo mais quente que já vivi. Em me senti como se fosse o único ser humano em New York, ali abandonado. Laura morrera e eu estava sozinho. Eu, Waldo Lydecker, fora realmente o único a conhecê-la.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

DEUSES E DOENÇAS (2)

                                                    
SERVINDO   AMBROSIA  ( CERÂMICA  GREGA )


AQUILES  E  PÁTROCLO
( ANTIKENSAMMLUNG , BERLIM A)
Ambrosia e Néctar – O primeiro alimento, na mitologia grega, como o próprio nome indica, é o alimento da imortalidade, ambrosia  (etimologicamente, não morto). Néctar (néktar) é outro alimento, o suco adocicado de certas plantas de que se nutrem insetos, borboletas etc. Depois, néctar passou a designar também uma bebida usada pelos deuses. Lembram ambos, o néctar e a ambrosia, o soma ou o amrita dos antigos brâmanes dos tempos védicos da Índia. Ambrosia e néctar são quase sempre citados juntamente. Seus usos, conforme os textos antigos, variam muito, entretanto. Na Ilíada, por exemplo, além do alimento dos deuses, a ambrosia tem poderes para purificar os corpos e para conservar cadáveres (Cantos XIV e XVI). O corpo de Pátroclo, diz o texto, receberá umas gotas de ambrosia e do vermelho néctar pelas narinas para se manter incorruptível. 

IXION  ( CERÂMICA GREGA )
É conhecido na mitologia o uso que Zeus fez da ambrosia para tornar Ixion, o ingrato rei dos lápitas, imortal, antes de enviá-lo ao Hades, com a finalidade de eternizar a sua punição no Tártaro. Deméter também tentou imortalizar o mortal Demofonte, o recém-nascido filho dos reis de Elêusis, flambando o seu corpo, untando-o e esfregando-o com ambrosia. Ao que parece, a finalidade maior da ambrosia era a de preservar os corpos do apodrecimento. Neste particular, lembre-se que do sangue dos deuses gregos fazia parte um fluido misterioso, o ichor, que não só lhes dava uma coloração dourada como tornava os corpos divinos imputrescíveis, garantindo também a imediata recomposição dos tecidos, no caso de qualquer ferimento. 


HÉLIO  E  SEUS  CAVALOS
A ambrosia e o néctar servirão também para curar feridas e para imortalizar. Teócrito, poeta grego do período alexandrino, nos fala que Afrodite deu a imortalidade a Berenice derramando ambrosia em seu seio. Afrodite imortalizou também seu filho Eneias com uma mistura dos dois produtos. Até os cavalos dos imortais se alimentavam de ambrosia. Os cavalos do carro do grande deus solar Hélio, Pirois, Eóo, Éton e Flégon, que percorriam o Zodíaco com espantosa velocidade, recebiam, por exemplo, grandes quantidades de ambrosia para dar conta da sua exaustiva tarefa.  Qual a composição da ambrosia? 

Alguns pesquisadores já na Antiguidade admitiam que tanto ela como o néctar provinham do mel. Alguns falavam que, mais exatamente,  ela provinha do hidromel, que tanto podia ser um líquido açucarado que se extraía de algumas plantas do gênero Agave ou bebida feita de água e mel, usada como agente laxativo. O hidromel era muito consumido antes do conhecimento do vinho. Muitas das agaváceas, mais de cem espécies, estão na base de algumas bebidas depurativas e estomacais; algumas sendo mais cultivadas como plantas ornamentais.

HISTÓRIA NATURAL
Segundo Plínio, O Velho, naturalista romano, 23-79 dC, autor de uma fantástica História Natural, vasta enciclopédia de conhecimentos de seu tempo, havia dois tipos de hidromel, um que se preparava para ser consumido no ato e outro para ser guardado. O primeiro, água pura e mel, era uma bebida muito saudável para os enfermos que se alimentavam pouco, sendo também útil como laxante se tomado frio; bom para a tosse se consumido quente, além de antitóxico. Nos tempos modernos, diz Plínio, desaprova-se o uso do hidromel conservado por ser menos inocente que a água e menos substancial que o vinho. Contudo, quando envelhece,  ele se transforma num vinho que, de acordo com todas as observações, é muito ruim para o estômago e para os nervos.

Eis a receita do hidromel a ser conservado, segundo Plínio: recomenda-se, para fazê-lo, conservar a água da chuva por cinco anos. Os mais experientes, contudo, sugerem que, tão logo recolhida, ela seja fervida até que reduzida a um terço do total captado.  Depois, juntar um terço de vinho velho, levar a mistura ao Sol por quarenta dias a partir do começo da canícula. Outros admitem apenas dez dias, os recipientes fechados. Com o tempo, a mistura toma o gosto do vinho. O melhor hidromel era o da Frígia.

O hidromel incorporava as virtudes de cada um de seus elementos, da água e do mel. A primeira é o líquido vital que fertiliza e liga, permitindo a comunhão; o outro, o mel, é símbolo do conhecimento, do saber, tendo propriedades purificadoras e
SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE ELÊUSIS
conservadoras. Além disso, nas tradições mediterrâneas, o mel é lembrado como fonte de inspiração e, por isso, usado, em vários ritos, como nos de Elêusis. Pelas sucessivas mutações que estão no seu processo de obtenção, o mel sempre esteve relacionado com a transformação iniciática voltada para a conquista de um eu superior ao integrar a multiplicidade de elementos dispersos e contraditórios da personalidade humana numa unidade equilibrada. As propriedades conservadoras do mel têm, no caso de Alexandre Magno, um dos mais notáveis exemplos que a História registra. Seu corpo foi depositado num sarcófago (etimologicamente, a palavra significa devorador de carnes) cheio de mel e depois encerrado num caixão de ouro maciço. O Museu Arqueológico de Istambul exibe um sarcófago descoberto perto de Sidon (Líbano) que alguns arqueólogos afirmaram ser o de Alexandre apesar de muito contestada tal afirmação.   

Afrodite (Vênus, entre os latinos) - A deusa do amor e da beleza tem relação com muitas enfermidades, distúrbios de comportamento e aberrações sexuais. Afrodite, como sabemos, nasceu da genitália de Urano lançada ao mar, quando Cronos, seu filho caçula, o castrou. Em meio a espumas e secreções, no mar, a deusa apareceu. Sua missão divina é a de controlar, universalmente, a vida afetiva de modo a enquadrar o desejo (Eros) numa perspectiva de reciprocidade. Eros, contudo, sempre inquieto, escapa inúmeras vezes do controle da deusa. 


NASCIMENTO  DE  AFRODITE , 1863  ( ALEXANDRE  CABANEL )

O castigo de Afrodite logo se faz sentir, causando, conforme o caso, ninfomania, satiríase, amores contrariados ou enfermidades venéreas. A satiríase é uma patologia sexual que consiste numa ereção constante, uma super-excitação mórbida. Nesse estado, o homem realiza o prazer sexual por si mesmo, mas com ejaculações tão fortes e constantes, que pode ser levado ao esgotamento e à morte. Já o priapismo, também patologia sexual, se caracteriza pela ereção desmesurada, persistente e dolorosa, mas não funcional, sem
PRÍAMO
desejo sexual, causando impotência e esterilidade. Príapo, como se sabe, é filho de Afrodite e de Dioniso e fazia parte, com muito destaque, do ruidoso séquito de seu pai. Era uma divindade protetora da fecundidade e sua imagem nos vinhedos, nas plantações, nos pomares e nos jardins era muito usada para proteger colheitas, a beleza e a saúde da vegetação, afastando o mau olhado e sortilégios que procurassem destruí-la (função apotropaica). 


HELENA 
( GUSTAVE  MOREAU , 1826 - 1898
A incontinência sexual de qualquer sexo era imputada a Afrodite Morpho, deusa de um templo de Esparta, levantado por Tíndaro, rei da cidade. A estátua da deusa estava coberta por um véu e tinha os pés amarrados. Tíndaro assim mandando representar a deusa tentou enquadrá-la, fazendo-a simbolizar, no seu entender, a inviolável fidelidade que as mulheres casadas deviam manter. A punição da deusa foi imediata: puniu o rei através de suas duas filhas, Helena e Clitemnestra, tornando-as vítimas de amores funestos e desgraçados, pela incontinência de sua conduta.
    
As mulheres da ilha de Lemnos foram severamente punidas pela deusa porque se esqueceram de lhe prestar culto. Fez a deusa com que elas passassem a exalar um odor tão insuportável que os maridos as abandonaram por mulheres trácias. Indignadas, pois os maridos não mais as satisfaziam, mataram-nos a todos. Na ilha, há registros de uma verdadeira epidemia de sífilis ou de blenorragia, ambas doenças venéreas. A primeira, desde as formas mais simples até as mais graves, como aquelas que atacam o sistema nervoso central, a neurossífilis tabética  (Tabes dorsalis se associa a uma paralisia progressiva (sífilis neural). Tal doença traz uma explosão de sentimentos, reações fortes em caso de contestação, perda de memória, confusão de palavras etc. A blenorragia é a inflamação da uretra e do prepúcio no homem e da uretra, da vulva e da vagina na mulher. Blenna, muco, e rhégnymi, rompo. Gonorreia é corrimento mucoso pelo canal da uretra. Gonos, esperma, rheo, escorrer. 
   
Deusa de poderes imensos, Afrodite, quando contrariada, pode se tornar uma divindade temível ao impor àqueles que quer destruir paixões incontroláveis, que nada detém. Mesmo no caso de uniões legítimas, ela pode empurrar os parceiros para o adultério,
ADÔNIS  ( LOUVRE )
favorecendo a fecundidade dos amores ilegítimos e levando muitos mortais a uma descontrolada voluptuosidade ou à prática de vícios dos quais jamais escaparão. É neste sentido que ela se torna uma deusa fatal, justificando-se um dos nomes pelo qual é muito conhecida e temida, Afrodite Andrófona, a destruidora de homens. Que o digam Hipólito, Medeia, Fedra, Helena, Ariadne, Ares, Mirra e outros personagens, mortais e imortais que de algum modo sofreram com a sua fúria. Como amante, a deusa, por outro lado, deixou-nos exemplos arquetípicos de dedicação e entrega amorosa, destacando-se, dentre todos, o  caso do belíssimo Adônis, divindade oriental da vegetação.   


CHAKRA
Afrodite tinha para os antigos gregos o controle absoluto daquilo que no corpo humano era chamado por eles de thymos, o centro da vida afetiva, dos sentimentos, onde se localiza o desejo  (epithymia), que impele à ação. A Astrologia atribui ao planeta Vênus, nome deusa do amor entre os romanos, também o domínio dessa região, onde os hindus situam o chamado chakra  anahata, para eles relacionado também com a vida afetiva. A influência positiva de Vênus, como planeta, é feminina, sensual, harmonizante, ao conceder aos que beneficia o sentido interno de equilíbrio que se manifesta como charme, calor, intimidade, capacidade de compreensão, finesse e sensibilidade.

Como regente dos princípios universais da harmonia (nome de um de seus filhos, a deusa Harmonia) e do equilíbrio, na medida em que nos fala de reciprocidade, de ajustes e de atenuações, de refinamento das sensações, a deusa exerce poderosa influência sobre a estética corporal e todas as formas artísticas e ambientais. Aquilo a que os neurocientistas deram o nome de homeostase é indiscutivelmente de Afrodite, ou seja, numa tradução livre, a capacidade que tem o ser humano, em função das respostas que obtém do meio em que vive, de se reajustar. Como arquétipo, a deusa adquire particular importância quando pensamos no processo de regulação pelo qual um organismo mantém constante o seu equilíbrio. É da noção que temos do que essa deusa significa arquetipicamente e de como a “vivemos” que depende em grande parte o equilíbrio do nosso corpo e de suas diversas funções e composições químicas (temperatura, pulso, pressão arterial, taxa de açúcar do sangue etc.). Ou seja, fazer o corpo funcionar adequadamente, equilibrado, quaisquer que sejam as circunstâncias externas. 


No corpo humano, a deusa tem a ver com a glândula timo, o sentido do tato, a circulação venosa, o conduto dos ouvidos. Quanto às mulheres, tem a ver com o sistema genital feminino, os seios, o ventre, a nuca, o colo, a cútis, o brilho dos cabelos, a harmonia das formas. É a noção que temos de Afrodite como arquétipo, padrão de conduta e/ou de comportamento, que nos permitirá entender melhor, por exemplo, porque alguns problemas de pele, algumas dermatopatias, podem ter uma estreita relação com ela, isto é, com a nossa vida afetiva, com Afrodite.

A beleza da pele, mais exatamente da película que a recobre, a epiderme, também chamada de cútis (do grego, skytos, encoberto, escondido, recoberto), conforme a mitologia e a astrologia nos ensinam, tem também muito a ver com Afrodite (Vênus) porque intimamente ligada à nossa vida afetiva. Nesta perspectiva, as injúrias causadas à pele têm muito mais a ver com complicações da nossa vida afetiva do que agressões externas. Isto fica claro quando examinamos os nomes que os antigos gregos deram a muitas doenças que “enfeiam” a nossa pele: eczema, erisipela, psoríase, vitiligo e outras.    Ao processo inflamatório (vermelhidão, exsudação, coceira) que se manifesta na pele, de modo agudo ou crônico, os gregos deram o nome eczema (eczein, em grego, quer dizer ferver, entrar em ebulição).  


AS  NINFAS  ( W.A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 ) 

A satiríase, como super-excitação, pode ser provocada também pelas ninfas, divindades menores da natureza, ligadas à terra e à água. As ninfas, no mito, são expressões de Geia, a Mãe-Terra, e sob este nome genérico se agrupam todas as divindades femininas da natureza. Elas estão no alto-mar (oceânidas), nos rios (potâmidas), nos mares internos (nereidas), nas fontes (creneias), nas montanhas (oréadas), nos riachos (náiades), nas nascentes (pegeias), nos lagos (limneidas), nos bosques e vales (napeias), nas árvores (dríades), no carvalho, a árvore de Zeus (hamadríadas). De rara beleza, nuas ou seminuas, exerciam uma ação benéfica sobre a natureza, podendo oferecer também aos mortais, em alguns casos, sua terna solicitude. Dentre os seus vários atributos destacavam-se o dom da profecia e a capacidade de inspirar bons pensamentos àqueles que, reverenciando-as, sabiam se aproximar do seu mundo. Podiam elas, contudo, inexplicavelmente, se tornar muito perigosas, como raptoras de belos jovens ou de crianças.  Nesse sentido, há inúmeras histórias sobre as relações de ninfas com imortais e mortais. Unindo-se a estes últimos, deram nascimento a muitos heróis, semideuses e ancestrais da raça humana.

No órgão genital feminino, da glande do clitóris descem duas pregas de pele até a abertura da vagina às quais os gregos deram o nome de nymphe (ninfas). São os pequenos lábios (labia minora, dos latinos) ou lábios internos. Os externos são os lábios maiores (labia majora), que têm na sua parte superior o chamado monte de Vênus (nome de Afrodite entre os latinos), ambos revestidos de pelos. Clitóris é palavra grega, kleitoris, formada a partir da raiz indoeuropeia klei, inclinar, encontrada em palavras como clímax, declive, inclinação, clivoso etc. Em latim, climax passou a significar gradação, nome de montanha e ponto mais elevado de alguma coisa, equivalendo, neste último caso, ao orgasmo, ponto culminante da cópula. Acima do clitóris fica, ligado aos labia majora, o que latinos chamam de Monte de Vênus, também chamado de monte púbico, uma formação de tecido adiposo, protetora do osso pubiano quando do sobe-desce da relação sexual.


HILAS  E  AS  NINFAS  ( J.W. WATERHOUSE , 1849 - 1917 )

Ninfolepsia é o delírio erótico que se apossava do homem desavisado ao ver uma ninfa, um furor eroticus, fascinação que levava à loucura, à abolição da personalidade. Já ninfomania será o desejo sexual anormalmente forte nas mulheres. Um dos caos citados de ninfolepsia foi o de Hilas, jovem companheiro de Hércules, raptado por ninfas na Mísia, quando do episódio da busca do Velocino de Ouro. O lindíssimo Hilas desceu da nau Argos para procurar água doce para o preparo de refeições e não mais retornou. Junto de uma fonte, foi visto por ninfas creneias que, extasiadas por sua beleza, o levaram para o fundo das águas. Hércules, desesperado, como se sabe, abandonou o grupo, não seguindo para a Ásia Menor.


CIRCE
Angícia – A maga Circe, filha de Hélio, o deus solar, e de Perseis, filha do deus Oceano, protetora de todos os magos, vivia numa região que seria mais tarde a Itália, perto do lago Fucino. Seus descendentes, os Marsos, antigo povo do Lácio, tinham uma divindade, a deusa Angícia (a que liberta da opressão da doença). Era a deusa quem indicava as ervas a serem utilizadas para as curas. 

HOMERO
Na Grécia, segundo Pitágoras, o conhecimento das plantas medicinais era atributo de Apolo e de seu filho Asclépio. Para Homero, os maiores conhecedores das ervas medicinais eram os egípcios. No canto quarto da Odisseia, temos: Helena, filha de Zeus, lhes preparou outro obséquio: verteu num vaso onde havia vinho um mágico suco, próprio para acalmar a dor e a cólera e para fazer esquecer todos os males. Aquele que o bebe, depois de feita a mistura na cratera, não derrama nenhuma lágrima durante todo o dia, mesmo que morram seus pais ou que lhe degolem o irmão ou o filho querido, na sua presença. Tal era a eficácia e a virtude da bebida que possuía a filha de Zeus. Quem lha dera fora a egípcia Polidamna, esposa de Thon; naquele país a terra fértil produz uma multidão de plantas, muitas são salutíferas, outras muito nocivas. Lá, todos os homens são bons médicos, pois descendem de Paeon”.


PLÍNIO, O VELHO
Os Marsos dominavam as serpentes com seus cantos e gestos. Segundo Plínio em sua História Natural, sabiam curar todas as suas picadas. Segundo eles, todo o corpo da serpente poderia ser usado para fins medicinais. Os Psilos, do norte da África (Líbia atual), sabiam também domesticar serpentes e conheciam poderosos antídotos contra suas picadas. Ainda conforme Plínio, os Psilos conheciam uma forma muito segura de constatar a fidelidade de suas mulheres. Expunham seus filhos, logo que nascidos, às mais temíveis serpentes. Se a criança era legítima, nada lhe aconteceria. 

APOPHIS
O Mal da Serpente – Tanto os egípcios como os gregos têm em suas mitologias a ameaça do caos simbolizada por serpentes. No Egito, é Apophis, deus-serpente representado sob uma forma gigantesca, imagem do caos sempre vencido mas sempre ameaçando o Sol, a cada noite, de interromper a sua marcha. Habita o fundo do Nilo celeste, tornando-se perigoso especialmente nos eclipses, quando chega a engolir a barca solar. É Apophis quem, durante as doze horas noturnas, sempre angustiantes, faz o deus solar correr grande perigo.


YYPHON ( CERÂMICA GREGA )
Na mitologia grega, temos o monstro Typhon, filho de Geia e do Tártaro, implacável dragão-serpente que representa as forças naturais de caráter infernal que sempre ameaçam levar a desordem ao cosmos. Sua descendência é perigosa, a Hidra de Lerna; o Leão de Nemeia, o dragão de Delfos, o cão tricéfalo Cérbero, Ortro, o cão do gigante Gerião, Fix, a Esfinge, a Quimera. Se esses monstros têm por um lado um caráter maléfico, ameaçador, destrutivo, por outro eles podem nos ajudar quando pensamos em transformações e regenerações.

Os mitógrafos gregos e egípcios, como sabemos, só atacam a serpente, Apophis ou Typhon, na medida em que eles se voltavam para a destruição da ordem cósmica, agindo como força a serviço do caos, um retorno à indiferenciação. Sabiam, entretanto, os egípcios e gregos, que a serpente era indispensável como o “outro lado” do espírito; era ela a contrapartida do luminoso, representado pelo negro, instalado no mundo subterrâneo, onde se operava a regeneração do mundo diurno, de cima. É por isso que muitas deusas (Cibele, Deméter, a Deusa das Serpentes cretense ou a própria Palas Athena) se ligam a serpentes. 


LAOCOONTE


No caso de Palas Athena, por exemplo, temos a história de Laocoonte, sacerdote troiano, punido, juntamente com seus dois filhos, sufocados por duas serpentes que, depois de matá-los, foram se aninhar no pedestal da estátua da deusa. A deusa, ainda que toda ligada aos céus (nasceu da cabeça de Zeus), conserva a serpente como atributo, símbolo da sabedoria intuitiva e da vigilância protetora. A deusa, por essa relação entre as acrópoles, as alturas, e o mundo de baixo, aponta para a solidariedade entre esses dois mundos, como a seiva que vem das raízes profundas para alimentar a beleza da copa das árvores.

O  ADVINHO  MELAMPO
E  O  REI   FÍLACO
Outro mito que nos fala do poder da serpente é o de Melampo. Tendo cremado uma serpente fêmea que encontrara morta, os filhotes dela purificaram-lhe a língua e os ouvidos, lambendo-os. Tornou-se ele um mantis, um adivinho extraordinário, capaz de traduzir os sons emitidos pelas aves e pelos animais, além de se tornar profundo conhecedor das ervas medicinais; como médico, purificava os doentes e lhes restituía a saúde. Melampo é o de pés negros, mântico ligado ao culto de Dioniso, cuja inspiração lhe vinha das “trevas da noite”. 


Peon – Para Homero, era um deus-médico, profundo conhecedor de plantas mágicas. Quando Palas Athena, dirigindo a arma de Diomedes que feriu Ares, foi o deus Peon quem o curou. Zeus, depois de repreender Ares, chamando-o de o mais odioso dos deuses olímpicos, sempre metido em lutas, de espírito soberbo como o da mãe, consente na sua cura: não permitirei que as dores te atormentem, pois és de minha linhagem e para mim foste parido por tua mãe. Se tivesses nascido de um outro deus, há muito estarias num abismo mais profundo que os filhos de Urano.  Peon o curou, dando-lhe drogas calmantes, já que em seu corpo nada de mortal havia. Depois, Hebe, a Eterna Juventude, o lavou, vestindo-o com magníficas roupas.


HOMERO ,  BAIXO  RELEVO , LOUVRE
Na Odisseia, Homero diz que os egípcios eram os melhores médicos porque descendiam de Peon. Na época clássica, Peon desapareceu, tornando-se o nome, já como Peã, um epíteto ritual de Apolo, além de designar um hino de agradecimento ao deus pela cura obtida. Depois, passou Peã a significar um canto por vitórias obtidas em combates. 

Na Ilíada, vemos que os gregos, para aplacar Apolo, que lhes enviara uma peste, ofereciam-lhe sacrifícios e cantavam peãs. Em Sófocles, na sua tragédia Édipo-Rei, vemos que em Tebas, assolada pela peste, os peãs são entoados. Plutarco, famoso historiador grego, conta que Taletas, célebre autor de peãs, foi levado à Lacedemônia para acabar com uma peste. Inúmeros exemplos são encontrados em vários textos sobre peãs cantados para pôr fim a pestes. Esse canto, conforme a tradição, era empregado tanto para curar como por razões profiláticas e depurativas. Pitágoras fazia seus discípulos se sentar em círculos para que cantassem peãs ao som da lira. Com isto, era provocada na alma uma saudável disposição, uma purgação moral.

HERA  (MÁRMORE , LOUVRE)
Hera – Filha de Cronos e de Reia, deusa dos amores legítimos, era irmã e esposa de Zeus, a única ligação oficial do senhor do Olimpo. Protegia as mulheres de todas as idades e condições de vida, sendo invocada por elas, por isso, sempre que necessário, especialmente quando grávidas (desenvolvimento do feto) e no parto. Suas funções, neste particular, se assemelhavam às de sua filha Ilícia (do verbo eleusesthai, a que faz vir à luz, a que acode). Às vezes o nome de Ilícia aparece no plural, Ilícias, fazendo-nos supor que havia mais de uma, sendo elas, no caso, gênios protetores dos partos. Em Creta, há uma gruta onde, diz-se, Hera teria dado a luz às Ilícias. Nos templos em que a deusa era invocada sob o nome de Hera-Ilícia o seu atributo mais característico era a tesoura. Pela ação deste instrumento, que separa, corta, distingue, temos a primeira operação do espírito, a divisão que leva à oposição e, desta, ao julgamento.

XENOFONTE
Conforme nos conta o historiador Xenofonte, aluno de Sócrates, o filósofo era filho de uma parteira e, por isso, gostava de fazer juramentos em nome de Hera. É de se lembrar que Sócrates é o criador da chamada maiêutica na Filosofia, a arte de fazer nascer conceitos, método socrático de perguntas e respostas. Maiêutica vem de maia, parteira, obstetra, e de tekhne, técnica.

JUNO ( MUSEU  DO  VATICANO )
Para os romanos havia uma relação entre luz e parto. Juno, a Hera dos latinos, quando nas funções obstétricas, recebia o nome de Lucina. Presidia aos partos e velava sobre os recém-nascidos, sendo também chamada de Conservatrix, a Defensora. Juno tinha direito a uma grande festa no dia 1º de março, as Matronálias, o dia das mães. 

A mulher romana, durante a gravidez, ia ao templo de Juno Sospita (Libertadora e Protetora – sospitare é proteger, conservar sadio) com a roupa solta, sem nenhum nó, cabelos soltos, com o objetivo de tornar o parto mais fácil, adotando-se este simbolismo. Tudo que fosse liame, atadura, nó, deveria ser desfeito. Desfazer um nó é libertar, pois ele é sempre um ponto de fixação, de condensação, de agregados.

MATRONÁLIAS
As mulheres nas procissões de Dioniso, especialmente as mênades, sacerdotisas do deus, viviam com os cabelos soltos. Quando nascia uma criança, acendiam-se no quarto do recém-nascido algumas tochas e a mesa de refeições permanecia sempre posta, em sinal de reconhecimento à deusa.    

Juno intervinha também regulando a menstruação das mulheres, tomando o nome de Fluonia, Fluvionia ou Mena. Como a menstruação desaparecia com a gravidez, voltando só depois da lactância, acreditava-se que Juno, com o sangue menstrual, nutria o feto e formava seu esqueleto. Era invocada então como Ossipagina. Juno tomava também o nome de Rumina, aquela que fazia o leite jorrar dos seios maternos, assegurando a alimentação da criança.

LUPERCALIA
Fecunditas e Lupercalias – As imperatrizes romanas tinham um culto que lhes era específico, próprio, Fecunditas, da fecundidade, como o nome indica. Tal culto teve origem quando do nascimento de uma filha de Popea e do imperador Nero. A criança, uma menina, recebeu o nome de Augusta. Foi durante a gravidez de Popea, a imperatriz, que se levantou um templo a Fecunditas. A criança morreu aos quatro meses, tendo recebido honras quase divinas. O culto, contudo, espalhou-se. 

O templo de Fecunditas tinha sacerdotes, os Lupercus, agrupados em confraria. Celebravam, no templo, o culto do deus Luperco Fauno, nas festas chamadas Lupercalias (15 de fevereiro). Os Lupercos, despidos, davam uma volta ao Palatino, flagelando com tiras de couro de uma cabra as mulheres que encontravam no caminho. O rito procurava torná-las férteis. Havia também o sacrifício de animais, cabras e cães. O santuário do deus Luperco Fauno ficava numa caverna do monte Palatino, lugar de fundação de Roma. Ali, a Loba Luperca amamentou os gêmeos Rômulo e Remo. Uma gigantesca figueira (Figueira Ruminal) cobria de sombras o local, onde havia também uma fonte.

O culto do deus Fauno, metade homem, metade bode, tinha como expressão máxima as Faunalias, alegre festa, no início de dezembro. Deus dos bosques e dos rebanhos, Fauno revelava o futuro pelo farfalhar dos ramos das árvores, pelo voo das aves ou através dos sonhos. À noite podia aterrorizar os humanos, com sonhos pavorosos ou aparições, fazendo o papel de um íncubo, demônio noturno que se deitava sobre as mulheres.

A Loucura – Embora os gregos antigos fizessem uma distinção entre a loucura divina e a loucura comum, acreditavam eles, no fundo, assim como os demais povos da antiguidade, que todos os tipos de loucura, de perturbação mental, eram causados por uma interferência divina, sobrenatural. Quatro são os tipos de loucura divina: 1) loucura profética (Apolo); 2) loucura ritual ou mistérica (Dioniso); 3) loucura poética (Musas); 4) loucura erótica (Eros e Afrodite). 

Já a loucura comum, causada por doenças, tinha como expressões mais comuns fenômenos de possessão devidos à intervenção de potências demoníacas que causariam, por exemplo, a epilepsia, a paranoia, o sonambulismo ou os delírios em geral. As pessoas que tinham seu comportamento alterado eram evitadas porque, admitia-se, sujeitas a uma maldição divina. Entrar em contacto com elas ou,
PLATÃO , TIMEU
pior, ser por elas tocado poderia ser muito perigoso. Muitas eram apedrejadas, xingadas, cuspidas. Isto não evitava, contudo, que esses doentes fossem considerados com um certo respeito pois haviam tido contacto com o “lado de lá” e, por isso, teriam poderes negados aos sadios. Platão, no Timeu, fala que a doença era uma das condições para o aparecimento de poderes sobrenaturais. 

Um dos exemplos do que aqui se coloca é o caso dos epilépticos (epi, de cima, lepsis, de lambano, agarro, ocupo; ou seja, os agarrados por cima), doença sagrada entre os antigos gregos e romanos. O ataque, a queda, as contorções musculares, o ranger de dentes, a boca espumando, a língua saliente e a sensação de ter sido o doente surrado por um bastão invisível. A energia do corpo era como que expelida em ondas espasmódicas. A possessão era anunciada por uma aura (vivência) que precedia a crise.

Mephitis - O nome aparece associado ao enxofre. Mefítico é o nocivo à saúde, tóxico, pestilento, fétido, desagradável. Diz-se do ar, gás ou vapor, da exalação pestilencial sulfurosa. É o aspecto satânico do enxofre; o castigo prometido aos maus como está em Job; a destruição de Sodoma por uma chuva de enxofre. Mefitismo é impregnação do ar por maus odores provenientes de gases dos charcos e dos pântanos, é tornar o ar empestado. Mephitis é nome pré-itálico surgido na região meridional, região vulcânica onde as emanações sulfurosas são muito frequentes.


TEMPLO  DE  MEPHITIS,  ESQUILINO ,  ROMA

Personificado e divinizado, o nome designa a deusa dessas emanações, a divindade que as preside e que, por isso, pode contê-las, pois sempre causam pestes e epidemias. Mephitis tornou-se, assim, a deusa da própria peste. Para invocá-la convenientemente, um templo em sua honra foi erguido no Esquilino.

ANGERONA
Angerona - Angerona é uma deusa dos latinos. Aparecia em Roma no dia em que se iniciava o solstício de inverno, a 21 de dezembro, quando Sol ingressava na constelação de Capricórnio. Celebrava-se a festa desta deusa, nesse período, fazendo os pontífices sacrifícios em sua honra no templo da deusa, numa festividade a que se dava o nome de Angenoralia.

Os pontífices, lembremos, eram os sacerdotes romanos que na Roma antiga haviam substituído o pater famílias na condução dos cultos religiosos que passaram de cultos privados (sacra privata) para cultos de Estado (sacra publica pro popolo romano). Aos sacerdotes do Estado, reunidos num colégio sacerdotal, deu-se o nome de pontífices (etimologicamente, construtores de pontes).

Parêntesis: interessante lembrar que o cristianismo, então nascente, vai usar essa palavra, pontífice, para designar o título do seu principal sacerdote, chefe da Igreja Católica, o seu Sumo Pontífice, o Papa, que é também o bispo de Roma. A palavra bispo, prelado chefe de uma diocese, vem de um verbo, bispar, que quer dizer queimar, palavra que lembra visitas pastorais. Explica-se: quando um bispo estava para visitar uma cidade, um banquete era preparado. O risco de que muita comida se perdesse, se queimasse, impregnando-se a cidade do seu cheiro era grande. Em Portugal se fala ainda hoje do arroz bispado, do arroz queimado, aquele escuro, que fica grudado ao fundo da panela. O título de Pontífice se fixou mais quando um dos antigos Papas mandou construir uma ponte sobre o rio Tibre. A palavra Pontífice foi se ajustando também ao título do Papa, aquele que construía as pontes religiosas que ligavam a Terra ao Céu.  

O solstício de inverno, como se sabe, se caracteriza no hemisfério norte pelo desaparecimento do mundo vegetal e pelo recolhimento da vida animal, pela ausência da luz solar, lembrando sempre obscuridade, morte, noite, frio, solidão. Angerona era representada por uma deusa ereta, solene, digna, com a boca fechada, fazendo um pedido de silêncio com o dedo indicador sobre os lábios. Ela pedia aos que a ela recorriam que não ficassem falando dos seus sofrimentos, que tivessem dignidade, que guardassem silêncio, eram suas palavras o stai zitto, o tenere la boca chiusa, o è meglio tacere la boca.


TÁCITA OU MUTA
Angerona era conhecida também pelo nome de Tacita ou Muta, sempre invocada como divindade do sofrimento digno, calado, contido. Nas imagens da deusa, às vezes um lenço preso atrás da nuca era passado, envolvendo o pescoço, fechando a boca, a indicar que nenhuma palavra deveria ser pronunciada. Essa apresentação era interpretada como um apelo da deusa para que os seus devotos mantivessem silêncio, a melhor maneira de conjurar sofrimentos e malefícios. Angerona também indicava que aqueles que dissimulassem suas dores físicas e morais alcançariam um prêmio pela paciência. A deusa aparecia sempre também associada a ideias de libertação das angústias. 

Alguns atribuem a origem do nome Angerona ao verbo ango, angere, fechar, cerrar estrangular, às angústias e sofrimentos do inverno. Figuradamente, fechar o coração, fazer sofrer, atormentar, angustiar. Fisicamente, esse sofrimento controlado, contido, segundo muitos, era a causa de uma moléstia, a angina, caracterizada por dores espasmódicas, na região torácica, que se irradiam para o ombro esquerdo com a sensação de sufocação respiratória, podendo dificultar inclusive a deglutição. O sufixo ona que fecha o nome tanto funciona, no feminino, como um aumentativo (grandona, mulherona) ou como um indicativo de proteção quando acoplado ao nome de deusas. Exemplos: Belona, Pomona, Latona. A primeira fazia parte do séquito de Ares, deus da guerra, e ajudava nos campos de batalha, proporcionando incolumidade. A segunda, além ter função apotropaica (afastar o malefício, a inveja) fazia com que a produção dos campos (frutos) aumentasse sempre. Pomona era a divindade dos frutos. Latona ou Leto, mãe dos luminares, a que representava todos os  aspectos protetores da noite.  

Angerona era confundida também muitas vezes com Lara, Lala ou Tacita. A primeira, ao que parece de origem etrusca, como conta Ovídio, era uma importação grega, provindo o seu nome, Lala, do verbo grego lalein, tagarelar. Indiscreta, falastrona, Lara ou Lala teve a sua língua arrancada por Júpiter, que a entregou a Mercúrio para que ele a levasse para as profundezas infernais, com a finalidade de que, seguindo a sua língua, Lala se transformasse numa ninfa das águas profundas e silenciosas.

LARES



Na condição de deus psicopompo, com o nome de Dite, Mercúrio, entretanto, ao conduzir Lala, impressionado pela sua beleza, a violentou, tornando-a mãe de dois Lares, que assumiram, sob o nome de Tacita e Muta, a guarda das encruzilhadas de Roma. Tacita ou Tácita tornou-se também uma divindade protetora contra a inveja e a malícia