sexta-feira, 26 de junho de 2020

O ORÁCULO DE DELFOS

   
MONTE  PARNASO
O lugar que passou a ser designado na antiga Grécia pelo nome de Delfos, uma região contígua ao monte Parnaso, era, desde tempos pré-históricos, bem antes da chegada dos aqueus por volta de 2.000 aC, conhecido como um centro sagrado. Um grande número de peregrinos era para lá atraído por causa das suas grutas e cavernas e das emanações que delas subiam. Os poetas que nos descreveram o local registraram que tais emanações pareciam transtornar mentalmente muitas pessoas, que ficavam mais loquazes, dotando-as inclusive de poderes premonitórios que lhes permitam se antecipar a acontecimentos. Os primeiros a notar que ali acontecia algo de anormal foram os pastores que há muito, por causa da boa vegetação e de algumas fontes, para lá conduziam as suas cabras e ovelhas. Ali chegados, os animais ficavam muito inquietos, com a sua marcha normal prejudicada.    
As histórias desse local, no decorrer dos séculos, acabaram tomando a forma de mitos, contando-nos os poetas gregos que tudo ali começara quando Zeus, o deus dos deuses, resolveu indicar um ponto central na Terra, então concebida pelos humanos como um imenso disco achatado, circundado por um volumoso rio-oceano. Zeus mandou instalar nesse ponto, por ele considerado como o centro do universo em que reinava, um grande santuário através do qual seu culto pudesse se propagar. 

Para determinar o exato lugar do santuário, Zeus enviou duas águias, seus símbolos, que  partindo de direções contrárias se encontraram no espaço celeste. Demarcado esse cruzamento,
OMPHALOS
projetou-se a partir dele, em direção da superfície terrestre uma linha reta que desceu à região subterrânea do maciço montanhoso de Delfos. Nesse ponto ctônico, numa gruta, colocaram os crentes, devidamente inspirados, então, uma grande pedra, à qual se deu o nome de omphalos (umbigo, em grego), sendo ele considerado daí em diante tanto como o umbigo da Terra como do universo como um todo.

Esse omphalos, também símbolo da fecundidade, ligava não só os três mundos (céu, terra e  inferno) como passou a representar os três níveis de manifestação de tudo o que entrasse na existência. É de se notar que esse omphalos dos antigos gregos encontrava a sua
VISHNU
réplica em outras civilizações, na da Índia, por exemplo, com relação ao umbigo de Vishnu (2ª pessoa da trindade hinduísta), estendido o deus sobre o oceano primordial). Desse ponto do seu corpo físico, segundo a tradição hinduísta, brotou um lótus como primeira manifestação da vida universal. No céu, o ponto que correspondia ao omphalos terrestre era a estrela polar, guia dos viajantes, definindo-se a partir desse astro as direções para todos os seres que se aventurassem  nos caminhos da terra e dos mares. 
THEMIS

Bem antes do segundo milênio aC, antes da chegada dos aqueus à Grécia, como se disse,  já se encontrava em atividade na região délfica um santuário de culto à Mãe Terra e a uma de  suas filhas, chamadas respectivamente pelos peregrinos de Geia, a primeira, e de Themis, a outra, a deusa das leis divinas imprescritíveis. 


Conforme revelaram os peregrinos e depois registraram os poetas, as deusas se manifestavam no local por estrondos que partiam do interior das cavernas e grutas e, sobretudo, pelas águas que escapavam das fendas dos rochedos, formadoras de inúmeras fontes, delas cuidando as náiades, ninfas das fontes, e as oréadas, ninfas das montanhas, grutas e cavernas. As deusas que velavam sobre o local eram protegidas por um filho de Geia, um dragão-serpente fêmea chamado Delfine, palavra que vinha do grego delphys, órgão sexual feminino, cavidade, útero, vagina.  


PITON   E   APOLO

Conforme histórias preservadas pela tradição oral, foi o deus Apolo que tomou a iniciativa de dar cumprimento à vontade de seu pai, apossando-se, em nome do mundo olímpico, patriarcal,  de Delfos, afastando dali as divindades subterrâneas, femininas, matando inclusive a flechadas o dragão Delfine, o seu guardião, também chamado de Piton. Apolo era filho de Zeus e da titânida Leto, irmão gêmeo de Ártemis, representados ambos nos céus, respectivamente, pelo Sol e pela Lua. Assim, o mundo patriarcal, masculino, assumiu o controle de Delfos, dele afastando a tutela feminina.

Ao afastar as deusas do Oráculo, Apolo instaurou um culto por ele tutelado e no lugar da chamada mântica (adivinhação) por
JOGOS   PÍTICOS
incubação, de características femininas, impôs a mântica profética, dinâmica, de características masculinas. A vitória de Apolo era celebrada em Delfos a cada quatro anos através de determinadas cerimônias (festas, danças, corais) e competições esportivas, agones em grego, os chamados Jogos Píticos.   



LOUREIRO
Segundo o mito, esfolado o dragão Piton pelo deus, sua pele foi arrancada e usada por seus sacerdotes para serem feitos com ela os assentos dos bancos em que se sentaram as sacerdotisas do deus, apelidadas por essa razão de pitonisas. Cabia a elas receber em transe, em meio às emanações que subiam das profundezas das grutas e pelas fendas das rochas, as respostas das consultas feitas ao deus, respostas por elas verbalizadas, devidamente interpretadas pelos sacerdotes sempre presentes. Esta interpretação se tornou necessária porque as respostas do deus eram não só muito ambíguas como porque, ao verbalizá-las, as pitonisas falavam com certa dificuldade, em transe, em meio às emanações, mascando sempre folhas de louro, árvore do deus. A esse modo de pronunciar as palavras entre os dentes, os gregos deram o nome de sibilar. Cabia aos sacerdotes do oráculo tornar mais claras as respostas do deus, as sentenças sibilinas, transmitidas pelas pitonisas. Por isso, também, o nome de sibilas a elas aplicado. 


PITONISA   DÉLFICA

As pitonisas ou sibilas eram escolhidas entre as virgens locais, devendo a mais  importante  delas,  a  principal  receptora  do  deus, a Pitonisa Délfica, ter mais de cinquenta anos. Esta sacerdotisa era a encarregada de receber as mensagens do deus oracularmente ao lhe serem feitas as perguntas por reis, figuras gradas e altos dignitários quando em visita a Delfos.  A Pitonisa Délfica ocupava nos subterrâneos do templo do deus uma cripta perfumada onde se encontrava também o sagrado omphalos.  O local, secreto, no seu todo chamado de ádito, era perfumado pela permanente combustão de folhas de louro (árvore do deus) com farinha de cevada e pelas emanações que se espalhavam entre as fendas das rochas e o borbulhar das fontes.

É de se ressaltar que a importante presença das pitonisas no santuário de Delfos foi tema sempre tratado pelos que o estudaram com muita reserva, estranhamento mesmo, pois não entendiam eles como numa sociedade tão machista como a grega se prestigiasse tanto o mundo feminino, fazendo-o assumir o papel de intermediário com relação à divindade. Os gregos, sim, eram machistas, mas não eram ignorantes nessas questões da esfera da mediunidade. Nessa esfera, como constatamos desde a pré-história, quem sempre “recebeu” foi o feminino e não o masculino. A lei é universal: o masculino dá, fecunda, o feminino recebe, gera. 

A propósito, os hindus, como os  antigos  gregos,  também  tinham (têm?) uma perfeita noção desse fato, como o demonstram, por exemplo, nas posturas das suas práticas de yoga. Ademais, é também pelo que aqui se expõe, como se constata facilmente, em vários cultos afro-brasileiros e no espiritismo, que a mediunidade “masculina” é, em muitos casos, exercida por homossexuais. Na Umbanda, essa questão parece cair para um segundo plano para se destacar o fato de que ali o médium costuma ser chamado de cavalo, apossando-se o espírito do seu corpo e da sua mente, enquanto no kardecismo o espírito mais contido ou tolerante se apossa só do mental.   
  
PITONISA 

As pitonisas eram recrutadas entre as jovens que moravam em Delfos e arredores, dando-se preferência àquelas que mais suscetíveis se mostrassem aos efeitos das emanações, dos gases, do pneuma.  Para essa escolha não eram levadas em consideração, como acontecia com os futuros sacerdotes e altos funcionários do corpo administrativo do santuário, relações familiares aristocráticas e outros vínculos de natureza política. O que importava mais, obviamente, era que os “aparelhos receptores” fossem competentes médiuns, inclusive sob o ponto de vista mental, já que deviam receber um treinamento bastante complexo, para entender as questões que lhes eram propostas, pois nem tudo que acontecia no ádito ficava só na alçada exclusiva dos sacerdotes. 

As informações que expomos acima e muitas outras, para os mais interessados, podem ser encontradas, desde a antiguidade em diversas fontes, merecendo destaque os textos que muitos cronistas e historiadores nos deixaram sobre Delfos, sobretudo, quanto ao que aqui nos interessa, as referências feitas às emanações provenientes das grutas e ao treinamento que as pitonisas recebiam. Escritores, filósofos e poetas, gregos e romanos, ao longo de séculos (Platão, Ésquilo, Plínio, Estrabão, Plutarco, Cícero e outros nos deixaram muitos depoimento sobre o pneuma que provocava uma espécie de transe profético nas sibilas. 

PLUTARCO
Dentre os depoimentos mais interessantes que temos sobre Delfos, referência especial deve ser feita aos registros de Plutarco (46-120 dC), escritor, ensaísta, historiador e biógrafo, que fez parte do corpo sacerdotal do santuário, lá vivendo por mais de vinte anos. Para Plutarco, Apolo, em Delfos, funcionava como uma espécie de músico, sendo a pitonisa o seu instrumento, o gás, a emanação, o seu plectro, pequena peça delgada em ouro e marfim, usada para fazer soar as cordas da lira, isto é, fazer a pitonisa verbalizar as respostas às questões que lhe eram propostas. Submetidas a um exaustivo treinamento, com jejuns e abstinência sexual (a sua “purificação”, como se dizia), as pitonisas tornavam-se extremamente sensíveis à inalação do gás, apossando-se delas, ao final de cada sessão, uma creografia que as tornava tão cansadas como se tivessem participado de uma maratona.  

Sabe-se que já na época de Plutarco, por problemas geológicos no local (deslocamento de rochas, terremotos, inundações etc.), as emanações do pneuma foram se tornando cada vez mais irregulares e enfraquecidas, o que afetou bastante a “encenação” montada no ádito. Muitos estudiosos se envolveram seriamente com o assunto, tendo se firmado e aceito a opinião de que o mundo délfico e seu prestígio não passavam talvez de um bem montado negócio político- religioso do imperialismo grego. Mais: no início do século XX, pesquisadores e outros especialistas em cultura grega, formando um grupo interdisciplinar, foram mais fundo, afirmando que as histórias referentes às emanações, à possessão das pitonisas e às sentenças oraculares do deus também nunca haviam existindo realmente. Delfos não passava de um “mito” que teria vindo da antiga história grega e que teria sido propagado principalmente por escritores gregos e latinos, “invenções” sobre as quais intelectuais e o mundo universitário gosta de discutir e apresentar teses. 


MAR  EGEU  E  ÁSIA  MENOR

A influência do oráculo de Delfos estendia-se por todo o mundo mediterrâneo, pelo norte da África, chegando, a oeste, à península ibérica e, a leste, aos países da Ásia Menor. Giges, rei da Lídia, por exemplo, procurou se aproximar dos administradores do Oráculo, oferecendo-lhes muitos presentes em ouro e prata para obter prioridade com relação às consultas que resolvesse fazer. Há registros de que ele teria sido o primeiro bárbaro (estrangeiro, não-grego) a visitar Delfos, no que foi seguido por muitos outros, principalmente no caso de reis, potentados e estrangeiros ricos. Cite-se como exemplo as visitas de Creso, sucessor de Giges, de Midas, de Kypselos (tirano de Corinto), de Alexandre Magno e de muitas outras importantes figuras que se interessaram pelo oráculo.



ALEXANDRE   MAGNO

 O Oráculo de Delfos era procurado frequentemente para a obtenção de previsões sobre qualquer assunto, desde questões individuais (futuro, saúde, uniões, sociedades etc.) como as relacionadas com coletividades, que dissessem respeito à situação de uma polis. As principais consultas, quanto a estas últimas, eram evidentemente aquelas relacionadas com disputas político-religiosas internas, com declarações de guerra, lutas entre classes, expedições colonizadoras e outras mais... 


TEMPLO  DE  APOLO ,  DELFOS

A administração do território sagrado de Delfos era atribuída a uma Sociedade formada pelas principais cidades helênicas, as poleis, doze ao todo. Era a Amphictyonie, da qual faziam parte 24 representantes, dois para cada uma das doze cidades. O santuário de Apolo e o Oráculo do deus eram administrados por doze grandes sacerdotes, um intendente, um tesoureiro, cinco sacerdotes “menores”, acólitos e assistentes das pitonisas. Fisicamente, o conjunto délfico se compunha de uma Via Sagrada, de uma grande agora (praça), de um grande templo de Apolo, de uma casa-forte, de um teatro e de um anfiteatro, das termas, do estádio, de inúmeros alojamentos, de prédios onde estavam instaladas em muitas salas de órgãos administrativos, museus com ex-votos, tesouros etc.

DELFOS
Sabe-se hoje também, por várias pesquisas, que a aristocracia grega, a elite de suas principais cidades, guardava o seu dinheiro no santuário de Apolo, onde funcionava para esse fim algo semelhante aos nossos bancos de hoje, um lugar extremamente protegido. Os gregos não viam nenhum problema quanto a essa mistura de interesses materiais e religião.  Mais significativo, porém, quanto a este aspecto, foi, sem dúvida, o papel que o Santuário de Delfos assumiu com relação à política externa das cidades gregas.  

Historicamente, sabe-se, contudo, que o prestígio incondicional de que Apolo e seu santuário gozaram no mundo mediterrâneo, a leste e a oeste (entre a península ibérica, a Ásia Menor e o norte da África), desde o séc IX aC, foi diminuindo. Sua autoridade foi muito afetada também por causa de ataques como o dos fócidos, que invadiram as terras sagradas de Apolo. As pitonisas foram perdendo inclusive o seu grande prestígio, tornando-se mesmo impopulares por causa das jogadas políticas dos dirigentes do santuário. As profecias das pitonisas, inexplicavelmente para o todo da população grega, numa ação que parecia beirar a traição da
FELIPE  DA  MACEDÔNIA
aristocracia, pareciam muitas vezes favorecer estrangeiros, inimigos, como os persas, os lacedemônios e até a Felipe da Macedônia. Os gauleses atacaram Delfos em 279 aC, depois os etólios, que chegaram a se apoderar do santuário. Os romanos, contudo, mais tarde, quando começaram a mandar na política do mundo mediterrâneo, como sempre muito práticos, ao invadir Delfos, respeitaram o santuário, muito embora o imperador Constantino tenha levado todos os seus tesouros para embelezar a sua capital.

No final do século XX, nas suas últimas décadas, e início do ano 2.000, o santuário de Delfos foi sucessivamente explorado por vários pesquisadores, geólogos, arqueólogos e químicos (toxicólogos), inclusive sob o patrocínio da ONU, do governo grego e de algumas universidades norte-americanas. Os novos pesquisadores, retomando inclusive pistas muito antigas, chegaram à conclusão de que os gases (emanações) a que se referiram Plutarco, Estrabão e outros, deviam conter dióxido de carbono, como, aliás, acontecia em outros santuários de Apolo, situados na Ásia Menor, estabelecendo-se assim uma conexão entre profecias das pitonisas, a “química” que  atuava no ádito dos santuários e os cultos proféticos apolíneos.

Os químicos que fizeram parte das pesquisas realizadas em Delfos verificaram que nas amostras lá colhidas, perto do local onde se sentava a pitonisa, havia traços de metano, etano e de etileno, este de propriedades anestésicas e de aroma bastante agradável, como o de um refinado perfume, segundo, aliás, assim a ele se referira Plutarco nos seus registros. Químicos integrados à pesquisa, que trabalhavam com drogas e tóxicos, chegaram à conclusão de que os transes experimentados pelas pitonisas e sua coreografia se aproximavam bastante daquilo que usuários de drogas sentem hoje ao inalar substâncias como a chamada cola de sapateiro, thiner (solvente para tintas) ou o produto de lança-perfumes, quer a “viagem” fosse negativa ou positiva, podendo ser mortal no primeiro caso. 


SANTUÁRIOS   GREGOS

Está hoje comprovado que o movimento colonizador das poleis foi em grande parte, talvez na sua totalidade, orientado pelos dirigentes do Santuário de Delfos. Vários documentos no-lo confirmam isso. As principais justificativas para esse expansionismo foram, dentre outras, na Grécia continental, superpopulação, pobreza do solo, dificuldades internas de comunicação (solo pedregoso, elevações etc.), agricultura deficiente, comércio marítimo mediterrâneo dominado principalmente por duas grandes potências marítimas, Creta e Troia, poderosas talassocracias, impérios marítimos..

Estas justificativas vêm sendo discutidas, rebatidas, aceitas e/ou recusadas parcial ou totalmente pelos estudiosos desde a antiguidade grega. Há, porém, segundo entendemos, uma fonte que explica o imperialismo grego de modo irrefutável. Referimo-nos aos vários mitos que “encobrem” ou “disfarçam” esta disposição colonialista desde a chegada dos aqueus e de outras tribos à Grécia e da fundação das suas primeiras cidades, Argos, Micenas, Tebas e outras. De Micenas, como se sabe, partiram as expedições gregas que destruíram Creta, em grande parte, e totalmente Troia. 

A colonização Grega foi um movimento de expansão territorial que parece ter encontrado as suas razões em muitas causas. A necessidade de terras, como se disse, talvez tenha sido o fator decisivo do movimento. A superpopulação (explosão demográfica) e a falta de recursos agrícolas na região continental são também
GEIA
duas causas muito invocadas. Não nos esqueçamos que dentre as versões míticas levantadas sobre a origem da guerra de Troia há uma, muito interessante. É a que nos aponta a insistência da Mãe-Terra, Geia, nas suas queixas a Zeus, com relação aos excessos populacionais na região do Egeu e da Ásia Menor, excessos que muito a incomodavam e maltratavam, geradores de guerras, disputas, questões religiosas etc. 

O território grego continental é bem conhecido pela pobreza de seu solo. Grande fluxo do povoamento grego aconteceu principalmente para o sul da atual Itália, que possuía um solo muito propício para a prática agrícola. É importante ressaltar também, como não poderia deixar de acontecer, que a colonização contribuiu bastante para a formação de várias cidades-estado (poleis). Este movimento expansionista incentivou o fracionamento da população, à medida que a sociedade foi se organizando em um sistema religioso-cultural em comum, nos novos territórios conquistados.


MAGNA   GRÉCIA

Dentre as motivações mais importantes para a fundação de colônias pelas poleis gregas destacavam-se também três, de modo especial: a criação de novos mercados consumidores,  de fontes de suprimentos de matérias-primas para a metrópole e de pontos intermediários seguros no caso de viagens comerciais de longa distância.

Está perfeitamente assentado, já há muito, que os coríntios e os eubeus tenham sido os mais ativos fundadores de colônias ultramarinas. Os primeiros manifestaram o seu maior interesse para a região do Mar Jônico e da Ilíria. Foram por isso, os seus primeiros colonizadores, além de estabelecerem as principais rotas marítimas para o sul da Itália, estendendo firmemente o poder grego nessa direção, fundando os seus principais empórios no ocidente do Mediterrâneo.

Os primeiros colonizadores gregos do sul da Itália (Magna Grécia) foram os eubeus, fundando eles muitas cidades na região, Pitecusas (ilha de Ísquia), Cumas, Zancle (Sicília), Régio Naxos, Leontinos. Na Sicília, a principal cidade “grega” era Siracusa, que assumiu o papel de uma metrópole com relação a outras cidades que se fundaram a partir dela. Foi por causa da acelerada helenização do
OVÍDIO
sul da Itália que escritores latinos (Ovídio) deram à região o nome de Magna Grécia (Grande Grécia). Sabe-se que até hoje um bom número de italianos do sul, no seu cotidiano, ainda usam muitas palavras provenientes de dialetos gregos. Comum também que na região, nos ritos religiosos, sejam encontradas muitas palavras gregas.  Não foi por acaso que o nome grego da Sicília era Trinácria, três
TRINÁCRIA
pontas (acros, em grego), um nome que descrevia o formato triangular da ilha. Muito importante também era a benção (uma cerimônia 
muito prestigiada) que os administradores do Santuário davam, em nome do deus Apolo, quando da partida de expedições para a fundação de novas colônias gregas.

A importância do Oráculo de Delfos, entretanto, não se limitou apenas à distribuição de presságios ou à orientação da política colonialista das poleis gregas. O Oráculo influenciou bastante os destinos do helenismo como um todo, tomando parte muito ativa nas iniciativas de guerra e de paz, em conflitos políticos e institucionais e na orientação da política religiosa nas terras conquistadas. A importância de Delfos pode ser avaliada mais objetivamente ainda se levarmos em conta que no séc. VII aC. a sede da principal amphictyonie grega, que funcionava num santuário de Deméter, na região das Thermopyles (Termópilas), foi transferida para o santuário de Apolo, em Delfos.

É de se notar que amphityonies  semelhantes a de Delfos funcionavam em algumas regiões da Grécia. A de Delfos, porém, apresentava características que as demais não possuíam. Ela era constituída não só por poleis (cidades-estado) importantes como, sobretudo, por ethné (etnias)  dos primeiros habitantes helenos, representantes das tribos ancestrais, o que não acontecia com nenhuma das outras sociedades. O Santuário de Delfos tornou-se, por isso, incontestavelmente, a sede religiosa e política do helenismo, título a que nenhum outro santuário podia pretender. O corpo do antigo helenismo era formado, dentre outros, por representantes das tribos dos aqueus,  dos dóricos, dos  tessálios, dos  jônicos e outros.


APOLO  FEBO
Foi principalmente entre os séculos VIII e VII aC que tivemos a maior expansão grega quanto à fundação de colônias em terras longínquas, todas de inspiração délfica, inclusive quanto à designação do oecista (chefe e fundador da colônia). Nomes para colônias, como apoikia e clerúquia, entraram no vocabulário dos gregos e tornaram-se conhecidos em todo o Mediterrâneo. Enquadram-se neste tópico os casos de Siracusa, de Crotona, de Cyrene, de Thasos e de muitas outras colônias, todas fundadas por “inspiração” do Apolo délfico, também chamado de Apolo Febo (do grego Phoibos, brilhante, puro). Ao nome das colônias fundadas desta maneira era comum se agregar o adjetivo Apolonia ou o substantivo Arcogeta.

O mais destacado papel representado pelo Santuário de Delfos foi certamente aquele assumido quando da reforma de Clístenes (segunda metade do séc. VI aC). Durante seu governo, Clístenes promoveu uma redistribuição social com propósitos de fortalecimento político e militar. Sua proposta principal: a divisão da sociedade em dez tribos para que, assim, se garantisse a desestruturação das antigas tradições. A proposta clisteniana era, no fundo, a de desfazer a insistente e auto-proclamada ligação dos aristocratas a uma ascendência divina. Reformar, pois, a desigual composição social vigente e, inclusive, impedir possíveis levantes. A importância do Oráculo, em tais reformas, foi a de assumir, através das pitonisas, a escolha de novos heróis epônimos de cada tribo. 

No chamado período helenístico da história grega, com o domínio dos macedônicos (Felipe e seu filho Alexandre Magno), embora em funcionamento, o santuário de Delfos começou a entrar em decadência, que se acentuou bem mais no seguinte e último período da história grega, o do domínio dos romanos. Lembremos, a propósito, para maiores informações, que Plutarco nos deixou um importante depoimento (Sobre a Decadência dos Oráculos) no qual discorre indiretamente sobre o fim do imperialismo grego.
EUSÉBIO

Ao tempo de Juliano, sobrinho de Constantino, já bem disseminada a crença cristã, ocorreu, ao que parece, uma última tentativa para se tentar revitalizar o santuário de Delfos É muito conhecida a afirmação de Eusébio, escritor cristão da época, sobre o fim do oráculo. Eusébio declarou que não mais era possível, àquela altura, restaurar a enfraquecida voz da pitonisa, mas que fosse mantido o costume de se fazerem sacrifícios a Apolo Febo. Mais: nas palavras de Eusébio, a cidade adornada pela arte estava destruída, Apolo Febo não possuía nela mais um teto, as águas sussurrantes de sua fonte estavam emudecidas, nem vestígios de sua árvore sagrada, o loureiro, eram mais encontrados. 






quinta-feira, 14 de maio de 2020

PRIMATAS, HOMENS E VÍRUS



RAYMOND DART
Há diversas teorias sobre as mudanças que, através de estágios intermediários, foram causando a transformação de primatas em seres humanos. Alimentada tanto por descobertas arqueológicas (fósseis) como pelo desenvolvimento de estudos sobre o comportamento de animais (símios), uma dessas teorias, confirmada por outras, a do antropólogo australiano Raymond Dart, 1893-1957, tornou bastante aceitável a ideia  de que o homem teria se espalhado pelo mundo a partir da África. 

Em 1924, Dart, com base em suas pesquisas e estudos, deu o nome de australopithecus africanus ao primata que, ao longo dos referidos estágios, fora assumindo a posição ereta. Outra questão levantada por Dart foi a de que essa posição, muito adotada por chipanzés, era a melhor para confrontos, tanto  entre eles como entre os seres que deles descenderam, os do gênero Homo.


STANLEY KUBRICK, 1929-1999
Em 1961, Stanley Kubrick baseou-se em afirmações de Dart, algumas postas em circulação por Robert Ardrey, em seu livro African Genesis (A Personal Investigation into the Animal Origins and Nature of Man), para nos dar uma das mais famosas

cenas do cinema no seu fantástico filme 2.001: Uma Odisseia no Espaço. Nesse livro, Ardrey partindo das afirmações de Dart, punha ao alcance do grande público informações como as de que o homem viera do continente africano e que descendia de ancestrais predadores carnívoros que usavam armas, na origem macacos (chipanzés).  

Estudos referentes ao comportamento dos chipanzés, que se fizeram depois, confirmaram o que Dart estabelecera, o que Ardrey divulgara e o que Kubrick nos mostrou em seu grande filme. Muito utilizada também por Kubrick, em entrevistas, uma frase de Dart: nascemos de macacos que se ergueram (homo erectus), fortemente armados, e não de anjos caídos. 



Em termos cronológicos, registre-se que entre, provavelmente, quatro milhões de anos e cinquenta mil anos atrás tivemos, numa sucessão de estágios, o homo erectus (ereto), a seguir, dentre outros, o homo ergaster (trabalhador), o homo habilis (hábil) e o homo sapiens (sábio), este o nosso ancestral mais direto. Como ser racional, o homo sapiens, depois homo sapiens sapiens, foi adquirindo e desenvolvendo ao longo desses milhares de anos, através de muitos confrontos, faculdades de se comunicar por gestos e por sons, de entender suas relações, o que lhe permitiu perceber, enfim, o que lhe acontecia e o que era capaz de fazer. Tudo isto lhe possibilitou que não só pensasse de modo mais complexo, captando mais informações, como pudesse se haver com ideias de reflexão e de comparação, adquirindo a capacidade de prever e de imaginar. Em termos de um número, quanto ao desenvolvimento mental, lembre-se que a transformação do primata em ser humano significou a  passagem de um cérebro de 10 bilhões de neurônios para um de 30 bilhões de neurônios. 
  
Os acontecimentos que mais de perto afetavam os primatas e seus primeiros descendentes eram, apesar da racionalidade conquistada, acontecimentos decorrentes de suas ações, o que eles produziam
 quando se relacionavam com os outros seres e com o meio ambiente, de onde retiravam a sua subsistência. Ou seja, principalmente as conseqüências de suas lutas por abrigo, segurança, comida e o seu esforço constante quanto à fabricação de instrumentos e utensílios, além, naturalmente, do domínio das artes ligadas ao fogo.


ADÃO 
A palavra homem, hominem (anthropos, em grego), veio para nós do latim e, segundo muitos estudiosos, tem dentro dela o tema humus (terra, chão, barro, limo, cobertura que reveste o solo sem elevação). No antigo hebraico, cunhou-se a palavra Adamah (Adão), para designar esse homem, como animal feito de terra, nome levado à Bíblia pelos escritores judeus. Ao lado direito, escultura de Adão, de Pierre Montreuil, 1200-1266, hoje no Musée de Cluny, Paris  

A família dos hominídeos é uma família de mamíferos que compreende hoje uma só espécie, o homem. A sub-espécie do homo sapiens, designada pelo nome de homo neandertalensis, desapareceu por volta de 30.000 aC., conforme nos informa a ciência. Outros estudiosos, por sua vez, lembre-se, por influência religiosa, admitem que a palavra homem teria dentro dela, do grego, homoios, que quer dizer semelhante, semelhante a Deus, no caso. 

Segundo estudos mais ou menos assentados hoje, o homo erectus apareceu primeiramente no continente africano, lá vivendo um longo período, até 150 mil anos atrás. Alimentava-se de vegetais (folhas, frutos e raízes) e animais, usava o fogo, ferramentas e armas, e foi considerado como o primeiro ser a emigrar de lá para outras regiões do nosso planeta, confirmadas assim as especulações de Dart.



À medida que saiu da África, o homo sapiens caminhou pelo mundo, aprendendo, desde esses tempos tão remotos, que para viver melhor, mais equilibradamente, com o ambiente e com os outros seres, precisava se manter dentro de certos limites para evitar tanto agressões de seus semelhantes ou de animais como aquelas  provenientes do meio ambiente (pestes, secas, inundações etc.), de onde retirava a sua subsistência, reações (agressões) que ele, na maior parte das vezes, provocava por suas descontroladas ações, sob pretextos diversos. 


Como a história do homem nos revela, porém, o ser humano, descendente dos macacos armados a que se refere Dart, a não ser em breves momentos, jamais conseguiu adotar um comportamento que traduzisse ideias de limites, de harmonia e de solidariedade. Ao contrário, para resolver seus problemas, sempre optou por guerras, genocídios, revoluções, crimes, pela avidez por símbolos de poder e depois pelo ouro, pela violência, em que pese (só para ficarmos com o período entre as origens da civilização ocidental aos nossos dias, isto é dos antigos gregos para cá), em que pese, dizia, o palavrório de muitas doutrinas políticas, religiosas e filosóficas, patrocinadas muitas delas por elites do poder político-religioso (depois econômicas), um palavrório no geral hipócrita e enganador, sempre voltado para a exploração da ignorância e da credulidade das massas.  
  
Particular interesse para nós hoje têm os dois tópicos que decorrem do exposto acima: crescimento descontrolado da população em determinadas áreas e pelas agressões humanas ao meio ambiente. Desde os recuados tempos do homo erectus temos notícias de que desequilíbrios populacionais já eram registrados, neles se incluindo ações conflituosas provocadas, principalmente, pela busca de alimentos, de abrigo, de recursos naturais etc. 

É sabido que o aumento populacional e a disponibilidade de recursos sempre se constituíram num sério problema para essas antigas populações. Ao interagirem com o meio ambiente, esses grupos humanos, no decorrer de séculos e séculos, principalmente os mais ativamente predadores e aguerridos, evidentemente, acabaram por produzir sérios desequilíbrios demográficos, danos e catástrofes no mundo natural, como a história do homem nos conta.
Um dos registros mais interessantes de como o homem sempre se incomodou com excessos demográficos foi conservado, por exemplo, pela mitologia grega. Refiro-me à passagem em que se narra como tais excessos incomodavam muito os gregos.  Trata-se de uma pouco conhecida versão mítica, conservada por poetas,
TROIA
sobre a origem da guerra de Troia, no fundo um conflito entre a Europa (gregos micênicos) e a Ásia Menor (troianos). Conta-nos essa versão que Geia, a Grande Mãe-Terra, muito ressentida com a baderna (conflitos, invasões, excessos populacionais, deslocamentos etc.) que as populações gregas e troianas provocavam com os seus descontroles no  Mar Egeu (Mediterrâneo oriental), pediu que Zeus, o Senhor dos deuses e dos homens, pusesse um fim a isso através de uma guerra, por ele arranjada, que a ambos dizimasse.


É preciso lembrar que foi só a partir da segunda metade do nosso século XIX, através de estudos vários, que começaram a ser abandonadas as “explicações” religiosas e as bobagens “científicas” (terra plana etc) sobre a origem do homem e sua evolução. O atual criacionismo, por exemplo, um rebento dessas “explicações”, ainda é defendido por muitas pessoas em muitos países, inclusive em posições técnicas e matéria de ensino, como no Brasil. 

CHARLES DARWIN
Para entender melhor o tema que abordamos, dentre muitos nomes a destacar, quatro devem ser retidos. Quanto à origem das espécies e sua transformação, o principal nome a registrar é o de Charles Darwin (1809-1882). Claude Bernard (1813-1878) nos deu as bases da fisiologia moderna. Louis Pasteur (1822-1895) nos
LOUIS  PASTEUR
revelou a existência dos micróbios e dos vírus, o que permitiu que se fixassem os princípios da vacinoterapia e da soroterapia. Gregor Mandel (1822-1884) criou a Genética, falando-nos da hereditariedade e do que representavam as partículas que receberam o nome de genes, bases, no ser humano, de caracteres transmissíveis.


CLAUDE  BERNARD
A estes quatro nomes temos que juntar outro, sempre lembrado, principalmente por governos de tendências fascistas, que defenderam posições estapafúrdias quanto ao que está acima. Para que nossas opiniões se fixem melhor, importante citá-lo, pois seu nome vem sendo muito lembrado. Falamos de Thomas Malthus (1766-1834). Com seu Ensaio Geral sobre a População, deixou para nós ideias,

postas em prática, até hoje, como se disse, por muitos governos de tendências fascistas, ideias de que entre os dispositivos mais eficazes para controle demográfico temos, como recurso, as pestes, a fome e as guerras, sempre “ótimos” meios para acabar com excessos demográficos. A estes dispositivos se acrescentariam, dentre outros meios, a castidade antes do casamento e/ou o seu retardamento, a adoção de métodos contraceptivos, composição familiar de acordo com as possibilidades financeiras dos casais etc. 


Se as intervenções malthusianas acima apontadas podem ser estabelecidas por políticas públicas e combatidas, já a outra face do problema nos parece mais dramática. Refiro-me às reações do mundo natural aos descontroles causados pelo próprio homem, sobretudo àqueles que são “vendidos” ao grande público como progresso, conquistas materiais etc. Um exemplo do que citamos aqui é o da deletéria presença de plásticos (plastikos em grego quer dizer flexível), cuja matéria prima é o petróleo, no mundo todo hoje. Não foi preciso muito tempo para se constatar que as vantagens que os plásticos podiam proporcionar eram muito poucas diante dos males por eles causados ao mundo natural e à saúde humana. Sabemos hoje que, pelo continuado uso do plástico pelos seres humanos (quase um século), em todo o mundo, conforme vários estudos de organismos internacionais o comprovam, micro-partículas desse produto já vêm há muito atingindo o intestino, o fígado, a corrente sanguínea e o sistema linfático do ser humano. 

Quanto às reações do mundo natural, a Mãe-Terra dos antigos gregos, não podemos esquecer que a natureza nos faz pagar caríssimo pelas agressões que lhe são feitas. Já se disse que “ela não esquece nem perdoa”, que cedo ou tarde ela revida, tanto levando-nos a guerras, revoluções, à miséria e muito mais, como espalhando violentas doenças contagiosas por agentes que cria, como a que temos hoje nestes tempos de coronavírus.

Estas reações do mundo natural, diante das nefastas e desastrosas intervenções do homem, são, no geral, incubadas às vezes ao longo de muito tempo,  provenientes de inúmeras e continuadas agressões que a ele são feitas. Herdamos da antiga medicina grega os nomes para designar essas reações. Chamamos de epidemia, do grego, epi, sobre, e demos, povo, do verbo epidemein, propagar-se entre o povo, quando temos o caso de uma doença contagiosa que contamina muita gente. Quando a doença se fixa de modo permanente num grupo humano ou numa área, no interior de um país, por exemplo, os gregos a chamavam de endemia (endo, no interior, dentro) e de pandemia (pan, tudo, todos) quando a reação abrangia todos os grupos humanos, se universalizando, como é o caso da doença que hoje está espalhada no mundo todo desde o final de 2.019.

Conforme o seu agente propagador, estas reações da natureza podem ser classificadas como virais, infecciosas ou parasitárias, segundo os “agentes” que ela usa para fazer com que o homem aprenda a não sair de determinados limites. Num sentido mais amplo, vírus é um germe patogênico que não tem condições de
COVID 19
viver muito tempo fora de um organismo, considerado por isso como um parasita de células. Como amplamente divulgado, a pandemia em que hoje estamos mergulhados se deve ao coronavírus (Covid 19), que causa problemas semelhantes aos de uma gripe, agravados seriamente por dificuldades respiratórias agudas que podem levar rapidamente à morte. A principal forma de contágio desse vírus se dá, como sabemos, por contacto com pessoas infectadas que o transmitem  geralmente por partículas de saliva (perdigotos), lançadas por tosse e espirros    


Diante do que o nosso conhecimento vem fixando e por tudo o que desde os remotos tempos de sua história o homem veio acumulando, no sentido de lidar com tais desastres, ganha cada vez mais força a ideia (jamais posta realmente em prática, porém) da necessidade de que, ele, o homem, para viver melhor, isto é, para conviver bem, se desenvolver e procriar harmoniosa e solidariamente, deveria se esforçar para manter um desejável equilíbrio com o meio natural e com os outros seres que o habitam. Quando o ser humano esquece, se descuida ou age criminosamente (o mais comum) com relação a essas obrigações as consequências de suas ações tomam um caráter catastrófico, como hoje.

Fica claro para qualquer pessoa medianamente informada que epidemias e guerras não acontecem por acaso. São produzidas, isto sim, por desequilíbrios introduzidos pelo homem na sua convivência com outros homens e no mundo natural. Nada de considerar esses desastres fruto do acaso, castigos de Deus ou falar que as epidemias ou pandemias são “predadoras gratuitas do progresso humano”, fruto do acaso. Elas aparecem entre nós para que aprendamos, no geral com muito sofrimento, muito sacrifício, a questionar e a corrigir ações humanas, mostrando-nos que não podemos tudo, ou seja, questionar todo um conjunto de sistemas políticos, econômicos e sociais desonestos e corruptos que, a título de trazer o progresso, as vêm gerando  e patrocinando continuamente.

AMAZÔNIA

A eliminação das florestas e da camada de ozônio que envolve a Terra é, como estamos cansados de saber, um crime ambiental que vem sendo cometido diariamente no mundo todo. Por trás dele temos ideias de conquistas materiais, de enriquecimento, de progresso, mas, que no fundo, não passam de omissões governamentais, de irresponsabilidades criminosas, de lucro imoral e criminoso, de avidez desenfreada etc. As intervenções humanas responsáveis por tais fatos criminosos estão provocando no mundo natural, como todos sabemos, o aquecimento do nosso planeta. Já está provado, para não falar de outras possíveis causas destruidoras, que esses acontecimentos podem provocar inclusive o fim da nossa biodiversidade.


DHARMA
O melhor entendimento, acredito, quanto ao que estamos vivendo hoje, com relação  à pandemia que nos atinge em cheio, vem de uma constatação muito simples, a de que ações geram efeitos. O que melhor explica o que estamos vivendo hoje são os conceitos de karma e dharma dos antigos hindus. Etimologicamente, karma, na língua sânscrita, quer dizer ação e, na prática, também aquilo que decorre da ação, do que é feito. É a consequência que não pode ser separada da ação. Quando agimos ou deixamos de agir, quando falamos no nosso celular, dirigimos automóveis, vemos TV, comemos, compramos coisas, jogamos fora o nosso lixo, estamos nos envolvendo com o que os hindus chamam  de karma. Ao agir deste ou daquele modo estamos assumindo o resultado de nossas ações. Se nos alimentamos mal, as consequências deste procedimento estão implícitas neste ato. Se vivemos em ambientes muito poluídos, envenenados, nos arriscamos a ter graves problemas de saúde que poderão inclusive nos levar à morte. 


Karma é, ainda, num sentido amplo, a soma total dos nossos atos.  Tanto aquilo que nos vem do passado e que, embora não o saibamos, interfere na nossa vida atual e com aquilo que estamos fazendo hoje, que afetará também o nosso futuro. Cada semente, cada pensamento, uma palavra, o silêncio, qualquer causa produz um efeito. Isto é o karma. Karma é, portanto, a lei da causação. Sempre que há uma causa um efeito é produzido. Se consideramos a semente como causa, o efeito será a planta, o fruto. Colhemos o que plantamos. 

Não há um efeito, uma conseqüência, no universo sem uma causa que o tenha provocado, antecedido. Quando não conseguimos entender a relação entre o efeito e a sua causa, usamos muito o conceito de acaso para camuflar a nossa ignorância ou a nossa má-fé. À medida, porém, que o conhecimento humano vai aumentando e noções de interdependência (no universo tudo se relaciona com tudo) se confirmam cada vez mais, a argumentação de que as coisas nos acontecem por acaso não pode prevalecer. Nestes tempos de coronavírus, por exemplo, evidentemente, só pessoas muito ignorantes e/ou de má-fé, deixam de ver a relação entre ações humanas, maneiras de se viver, e a epidemia que hoje nos aflige. Nada, pois, de acaso ou de castigo divino. Em qualquer circunstância, o homem é sempre o responsável pelo que lhe acontece, segundo aliás, a própria ideia do que seja o karma nos esclarece, conforme colocaremos mais adiante.  
  
Indo um pouco mais fundo no que estamos a expor, o ser humano, segundo os antigos mestres hindus, tem uma natureza tríplice. Ele é Iccha (sensação, modo de sentir), Gnana (conhecimento) e Kriya (querer, vontade). Estes três elementos, sempre entrelaçados, modelam o karma (ações e efeitos, consequências). Pelos sentidos, tomamos conhecimento das coisas do mundo, de tudo o que nele acontece, de pessoas, de objetos, de automóveis, de roupas, de filosofias de vida, de religiões, de alimentos... Tudo isto, captado através dos nossos sentidos, vai nos afetar de várias maneiras, causando-nos, resumidamente, desejos, promessa de lucros, prazer, vantagens ou aversões, em variados graus, ou indiferença. De um modo geral, os estímulos que nos agradam, mesmo que nos façam mal, nos levam a aproximarmo-nos deles. Outros, que nos causam dor, desprazer, sobretudo no nível físico, nós os rejeitamos. Em consequência, queremos isto ou aquilo. No geral, tendemos a fugir do que nos causa mal e a aproximarmo-nos, segundo julgamos, do que nos fará algum bem. Ou, então, uma outra possibilidade: permanecemos indiferentes, o estímulo nada provocando em nós, o que é muitíssimo difícil hoje. A maior parte da comunicação coletiva, para não dizer a sua totalidade, tem, como sabemos, por finalidade maior, a transformação de todo ser humano (animais também), de todo indivíduo-cidadão, num consumidor. 

Esse movimento que ativa os seres vivos em função de estímulos externos é chamado de tropismo (tropos, em grego, é direção). Se o ser vai em direção do estímulo, temos o chamado tropismo positivo. Se ele se afasta, temos o tropismo negativo. Mobilizados os nossos sentidos, estimulados, passamos a interpretar o resultado de um acontecimento que vai gerar o que chamamos de desejo. Por exemplo: o objeto que vi me impressionou favoravelmente, possuí-lo me fará algum bem, julgo. Mas ele é muito caro, pondero. Valerá a pena gastar tanto para obtê-lo? Avalio, tento decidir, angustiando-me até muitas vezes. Alguns objetos do mundo podem nos causar uma impressão tão forte que não tê-los é entrar em grande sofrimento, mesmo que muitas vezes não saibamos bem se esse objeto realmente nos traria algo de bom. Para escapar desta situação dolorosa, de penúria, de carência, empenhamo-nos, procurando um meio de consegui-lo. 

Por trás da ação que me leva a buscar um objeto, alguma coisa, a me aproximar de uma ideia, de uma pessoa, há sempre um desejo. Carente, penso na maneira de obtê-lo, de me relacionar com tal pessoa, ajo então tendo em vista esse fim. Esses três elementos, desejo, pensamento e ação, sempre estão juntos, ligados ao karma. O desejo, no fundo, é o produtor do karma, isto é, da ação. O karma produz os seus frutos, gerando prazer ou dor. Muito prazer? Dou-me por satisfeito? Um pouco? Decepciono-me?

ISAAC  NEWTON
A lei do karma, como lei da causalidade moral, é, no Ocidente, lembremos, também aceita por alguns grupos filosófico-religiosos, adaptada da formulação dos hindus, mas sem o alcance e a importância que eles lhe dão (deram?). A ciência ocidental, recordemos, chegou a ela através de um dos princípios formulados por Isaac Newton (a toda ação corresponde uma reação igual e contrária), entre os sécs. XVII e XVIII, mas considerando-a sempre, somente, sob o ponto de vista científico e não sob o ponto de vista moral. 

Assim como semeamos, assim colheremos, é, pois, a lei. Se praticamos uma má ação, sofreremos sempre, cedo ou tarde, de algum modo, por causa dela. Se praticamos uma boa ação, qualquer que seja o nome que lhe dermos, sentiremos um certo bem-estar, paz interior ou, vá lá!, alguma felicidade.  Não há poder algum no universo que consiga impedir que ações gerem consequências, cedo ou tarde. A lei do karma é inexorável.

As coisas não acontecem no universo por acaso, acidentalmente, de um modo desordenado. Quando não conseguimos perceber a relação entre a causa e o efeito falamos de acaso, dizemos que as coisas acontecem por acaso. O fato é que no universo as coisas se sucedem, umas depois das outras, numa ordem regular, nada de acaso ou caos. Há uma certa e definida conexão entre o que estamos fazendo agora e o que nos acontecerá no futuro. As
VEDAS
pessoas não entendem isto porque vivem, segundo os meus amigos hindus, num estado de avidya (ignorância, literalmente cegueira). Vid quer dizer ver, conhecer; o a é aqui negativo, privativo. O nome dos livros sagrados dos hindus, os Vedas, vem desse verbo. Toda ação produz, assim, um efeito. Esta ação nos dá uma recompensa, um fruto, que vai afetar o nosso caráter. Deixa uma impressão na nossa mente, que nos incitará a repetir ou não o ato.  


Se depositamos uma semente de maçã no solo e a cobrimos com um pouco de terra, depois de algum tempo ali brotará alguma coisa, virão flores e frutos depois. Uma semente de manga gerará mangueiras e assim por diante. Plantando trigo, colheremos trigo; plantando centeio, centeio, e assim por diante. Se plantamos a semente de uma má ação, colheremos dor e sofrimento. A semente de uma ação virtuosa gerará uma colheita de prazer. A lei do Karma nos diz então que semeadura e colheita são inseparáveis.

As nossas ações do passado são responsáveis pelo que somos hoje. Nossas ações de hoje estão modelando o nosso futuro. Nada caótico, pois. Nada acontece por acaso. Não só más ações, mas maus pensamentos também gerarão sofrimento, dificuldades, criando-nos situações de vida insatisfatórias, desfavoráveis, descontentamento, aflição, depressão, desespero.

Se agimos sempre do mesmo modo, colhemos um hábito. Se ficamos presos a um hábito, colhemos um caráter. Hábitos repetidos determinam um destino. O destino é produto nosso, nós o construímos. Quebrando essa cadeia, podemos alterar o nosso
JEAN -PAUL  SARTRE, 1905 - 1980.
destino. Corolário: nós não temos a liberdade de determinar o resultado das nossas ações. Temos, sim, a liberdade de determinar o curso das nossas ações. Encontrado num texto hindu: O problema está sempre na ação, não nos frutos. A propósito, compare-se tudo o que aqui se expõe com as teses existencialistas, especialmente com as de Sartre. 


Além disso, fica claro que o que somos hoje é o resultado do que pensamos e fizemos no passado. O que viermos a ser no futuro será o resultado do que pensamos e fazemos hoje. Colhemos o que semeamos. Tudo o que recai sobre nós de bom ou de mau é consequência de ações que praticamos. A lógica da lei do karma é implacável. Sempre seremos punidos ou recompensados, mesmo que não nos lembremos. 

À obrigação que temos de assumir a responsabilidade pelo resultado de nossas ações a doutrina que aqui expomos dá o nome de Dharma, palavra que etimologicamente lembra sustentar, suportar, manter, ás vezes com muita dor e sofrimento. Nesse sentido é que este conceito se entrelaça também com o de Karma. Ação, efeitos, conseqüências e responsabilidade. Num sentido mais amplo, dharma é o dever do ponto de vista ético, moral e legal, a justiça, a lei.

O Dharma tem a ver com a função social de cada indivíduo, como ele participa do todo, ao desempenhar os seus papéis. Dessa participação decorrem conceitos de hierarquia, especialização, obrigação, mérito, boa vontade, comportamento, costume. Entendido como virtude, o dharma é o que cada um de nós põe no que faz, perfeição no exercício de seu papel, de sua função. 

A  RODA  DO  DHARMA


No Ocidente essas ideias nos repugnam. Hierarquia social para nós é poder, direitos, prerrogativas, status, dinheiro. O Dharma propõe uma hierarquia de deveres. O arrivismo social, praga ocidental, não existe (existia) na Índia. Impossível a um homem querer enriquecer ou querer se distinguir de qualquer maneira, desertar de sua família, de seus companheiros de juventude, para entrar num meio social diferente. Ele é solidário ao grupo no qual nasceu, dele não pode sair, jamais elevar-se sozinho.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

DOENÇAS, NOMES, SUPERSTIÇÕES

                   
As doenças têm nomes e apelidos. Chamar uma doença pelo seu nome verdadeiro pode causar prejuízos, atraí-la, diz uma tradição popular encontrada em muitas civilizações desde a antiguidade. Aqui, entre nós, não se deve dizer, por exemplo, morfeia ou lepra, mas, sim, doença-de-são-lázaro.  Às vezes, o apelido é usado para encobrir a vergonha de se ter o mal. Os moços, outro exemplo, podem se orgulhar de ter gonorreias, umas depois das outras. Já os casados ou os mais idosos se referem à gonorreia como “doença de mulher”, “doença apanhada” ou “loucura da mocidade”. 

No geral, a esse artifício que usamos para suavizar palavras ou expressões da nossa comunicação verbal ou escrita, alguns estudiosos dão o nome de eufemismo. Esta palavra vem do grego eu (agradável, correto, bom) e pheme (palavra, expressão); juntas elas formam o verbo euphémein (dizer palavras amáveis).

LUCAS
Chamar a lepra de doença-de-são-lázaro é, contudo, um erro que a tradição popular vem mantendo, pois o Lázaro a que ela se refere nunca foi canonizado pela Igreja católica. Era ele o pobre mendigo, todo coberto de chagas, que vivia junto da porta da casa de um homem muito rico, conforme está no Novo Testamento, em Lucas. O Lázaro canonizado, santo, é o irmão das três Marias  (Maria Madalena, Maria, esposa de
LÁZARO
Cleofas, e Maria, mãe de Tiago. Este  Lázaro, a quem Jesus ressuscitou, veio no séc. I não só com as três Marias mas, também, com Marta, irmã de João, e outras pessoas, da Palestina para Marselha, cidade da qual  ele se tornou o primeiro bispo, sendo nela martirizado,  celebrando-se sua festa no dia 25 de maio. Esta história, tida  como fantasiosa por meios católicos mais sérios, nada tem a ver com a do outro Lázaro, o leproso, narrada por Lucas. 



AS  TRÊS   MARIAS ( ANTÔNIO BRILLA , 1813 - 1891 ) 

Em muitos meios sociais, um dos nomes mais evitados, quando se fala de doenças, é, por exemplo, o da sífilis, mal infeccioso transmitido principalmente por contacto sexual. Suavizando um pouco o nome e o que ele representa (possibilidade de ulcerações, cancros, erupções cutâneas, manifestações neurológicas etc.) comum chamá-la de doença francesa, porque muitos eram (são) vitimados quando de suas visitas a bordéis, que sempre gozaram de muita fama por causa de suas “profissionais” francesas.

GIROLAMO  FRACASTORO
O nome sífilis surgiu, já associado ao sexo desprotegido, quando da publicação de um poema latino, Syphilis sive morbus galicus (Sífilis ou a doença francesa), de autoria de Girolamo Fracastoro (1483-1553), médico do Concílio de Trento, poeta e astrônomo de Verona. Syphilis era o nome do principal personagem do poema, nome que desde então passou a designar a famosa doença, a ele se juntando outros, também ligados às prostitutas, como mal turco, mal polaco, mal napolitano etc.

Há que se lembrar também quando entramos nesta questão dos nomes das doenças que eles se impuseram, no geral, como eufemismos, bem antes das descobertas da microbiologia. O nome de muitas doenças infecciosas e de epidemias, durante séculos e séculos, era atribuído ao que os antigos gregos chamavam de miasmas, exalações pútridas que emanavam de animais ou de vegetais em decomposição. A palavra miasma vinha do verbo mainein, manchar, sujar. A propósito, uma curiosidade: é desse mesmo verbo que sai a palavra amianto (a, do grego, prefixo privativo), que significa puro, incorruptível. 

Eis alguns exemplos de eufemismos (apelidos) ligados ao nome de doenças, de males ou  de fluxos e secreções corporais na nossa tradição popular: desmantelo, regras menstruais;  nascida, espinha, tumor, furúnculo; passageira ou caseira, dor de barriga com diarreia; veias quebradas, varizes; sete couro, infecção que aparece no calcanhar e que precisa ser cortada (a epiderme) sete vezes para se obter a cura; ar do sol, congestão; dor de veado,  dor no baço, também chamada dor na passarinha; barriga fofa, a tem a pessoa que está obrando “água” ou obrando vermelho, diarreia com sangue; pustema, coisa ruim, ferida inflamada; constipação, problema intestinal que causa a retenção de fezes, prisão de ventre; papeira, bócio, distensão do tecido adiposo  debaixo do queixo causada geralmente por problemas tereoidianos; traseiros sujos, diarreia; gastura, indisposição estomacal, azia; sezão, maleita; gota-serena, catarata; tosse comprida, coqueluche; mal do monte, erisipela; ventosidades, gases intestinais, também chamados de flatos; empachamento, obstrução intestinal; mal-de-sete-dias, tétano umbilical, mal de recém-nascidos; nó nas tripas, vólvulo; puxamento, asma, bronquite; consumpção, mal dos peitos, hética, magrinha, a que seca, tuberculose; mal-do-monte epilepsia; sangue novo, urticária; doença de mulher-dama, blenorragia causada por meretriz; ranho, muco que se acumula nas fossas nasais e que escorre; mal de amores, doença venérea; espinhela-caída, aparece quando o doente muda de posição, de postura, com fortes dores na região torácica, inclusive vômitos. Estar de paquete, estar a mulher no seu período menstrual. 
PAQUETE
Tal expressão foi adotada popularmente no Rio de Janeiro, espalhando-se depois por outros estados brasileiros. A origem desta denominação se deve a uma comparação que o povo passou a fazer entre o tempo que os navios ingleses (Royal Mail Ship) levavam para cumprir, em meados do séc. XIX, a viagem entre Liverpool e o Rio de Janeiro, 28 dias, e o período do catamênio, (etimologicamente, descida da Lua, menstruação) da mulher, também de 28 dias.  


Muitos estudiosos consideram, entretanto, que esse costume de usar muitos eufemismos, muitos apelidos de doenças, no caso, não passa de uma forma disfarçada de hipocondria, uma espécie de patologia que leva também a pessoa a acreditar que, mesmo sem nenhuma evidência
CULTO  AOS  MORTOS
médica aparente, uma doença qualquer poderá vitimá-la. Muitas são as hipóteses, dizem os psicólogos, que tentam explicar esse comportamento, desde um histórico de doenças graves numa família, cujos nomes devem se tornar impronunciáveis, por isso, à criação de falsos sintomas para chamar a atenção de pais omissos, pouco afetivos, à mania de fazer exames médicos, medo da morte, atração por cemitérios, culto exagerado aos mortos (necrodulia) etc. 

A propósito, lembre-se que a essa tendência de se proibir que certas palavras ou expressões sejam pronunciadas ou grafadas dá-se o nome de tabuísmo, de tabu, proibido. Oriunda da Polinésia, a palavra tabu lá designava tudo a que se atribuía um caráter sagrado (objetos, lugares, seres etc.), cuja violação, desprezo ou inobservância causava punições divinas. Entrando na língua inglesa, a palavra espalhou-se pelo mundo, fazendo hoje parte do vocabulário de muitos países. Entre nós, há muito, muito tempo, usávamos também a designação de tabuísmos para palavras, locuções ou acepções consideradas vulgares, pornográficas, chulas, grosseiras ou ofensivas demais, destacando-se, dentre elas, o que chamamos de palavrões. Os tabuísmos são parentes próximos da chamada coprolalia (copro, fezes, e lalia, tagarelice, do grego), mania de falar sobre coisas nojentas.  


ABDOME
Os antigos médicos gregos da tradição hipocrática chamavam de hypocondrias, no plural, cada uma das duas partes laterais e superiores do abdome, separadas pelo epigástrio.  O hipocondríaco (hipo, abaixo e khondros, cartilagens) era o indivíduo que sofria por causa de suas vísceras, as quais lhe davam um humor triste e caprichoso; era o hipocondríaco o que se atormentava ao pensar na sua saúde. Hoje, a hipocondria é considerada como uma psicopatologia que certos indivíduos desenvolvem quando se preocupam demais com a sua  saúde, preocupação esta que os leva a apresentar inclusive sintomas de doenças sem razão médica alguma. Em suma, ainda segundo os gregos, eram tais indivíduos vítimas da nosomania (nosos, doença, e mania, obsessão, loucura, excitação, em grego), os chamados nosômanos, que só pensavam em doenças, na morte, em túmulos, nos objetos a ela ligados, nos ritos que davam fim a um cadáver...

EMBALMERS
Pelo seu caráter compulsivo, obsessivo, a hipocondria, muito estudada inclusive no século passado por Freud e Lacan, hoje considerada, somente pelos psiquiatras, é uma patologia e, como tal, tratada só por psicoterapeutas. A hipocondria costuma se manifestar, muitas vezes, com fortes traços paranoicos e com várias fobias, sendo as mais comuns a tanatofobia (Thanatos, em grego deus da morte, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, mais phobia, horror, medo) e a necrofobia (nekros, morto, cadáver), ambas gerando um medo mórbido com relação à morte e a tudo o que a ela se refira. Dentre os vários exemplos de hipocondríacos ligados a essas fobias, cite-se, por exemplo, Albert


Camus (1913-1960). Uma leitura sua, obrigatória, era a da revista americana Embalmers Monthly, destinada aos profissionais da arte de embalsamar cadáveres. Se quisermos mais, podemos ir à última peça de  Molière (1622-1673), Le Malade Imaginaire (O doente Imaginário), na qual o nosso genial autor parece ter se antecipado às teses hoje defendidas pela anti-psiquiatria (Thomas Szasz). 


PARANOIA
(JACK LARSON, 1928-2015)
Já a paranoia, para o homem comum, é delírio,
THOMAS  SZASZ
loucura. O discurso paranoico é cheio de inferências indevidas, de analogias absurdas. No grego, há a palavra
paranaos, demente. Etimologicamente, a palavra é formada por para, à margem, ao lado, e noein, pensar, do grego. Pensar, ficando à margem do normal. Causa a paranoia, como todos sabemos, muitas dificuldades nos relacionamentos, ciúmes, mania de perseguição, tendências esquizoides, mania de grandeza, exageros com relação a sentimentos amorosos. 

Se formos um pouco mais fundo nessa questão, não podemos esquecer que em muitas das antigas tradições religiosas como a hinduísta, a egípcia ou a judaico-cristã encontramos o registro de que as coisas do mundo e os seres que nele habitariam foram retirados do nada por certas palavras. Um dos exemplos mais conhecidos exemplo é a muito divulgada expressão bíblica Fiat lux. Para
PTAH
os defensores desta tese, as palavras e seus componentes, letras e sílabas, segundo as expressemos, têm vibrações, variadas frequências, podendo nos afetar de muitas maneiras e materializar coisas, doenças, inclusive, como se disse. Esse entendimento, por exemplo, já estava firmado na antiga religião egípcia, a alguns milhares de anos antes da era cristã. É neste sentido que  Ptah era considerado pelos egípcios como um  demiurgo. Foi ele quem com as suas palavras fez emergir do oceano primordial (caos), o Nun, na cosmogonia menfitana, as coisas e os seres que iriam constituir e povoar o universo. 

Alargando ainda um pouco mais o nosso enfoque, podemos recorrer a um tema muito próximo daquele acima exposto para lançar um pouco mais de luz (ou confusão) ao assunto ora abordado. Referimo-nos à superstição. Para muitas pessoas o medo da morte e de usar palavras que do seu universo façam parte não passa de uma superstição de gente ignorante. É de se lembrar ainda que essa palavra, superstição, é sempre empregada pejorativamente pela maioria das pessoas que dela se valem. Qual a razão disso? Serão as superstições rematadas besteiras? 

DE NATURA DEORUM
Em latim, temos superstitio. Cícero (De Natura Deorum) usou a palavra para designar a pessoa, o superstitiosus, que rezava sem cessar para que seus filhos vivessem mais que ele. Mais tarde, ainda na antiguidade, a palavra passou a designar aquele que ficava acima de qualquer coisa, além dos acontecimentos, por uma crença nos deuses, uma crença, porém, sempre impregnada de perplexidade e de inquietações. Dicionaristas (De Walde), bem mais tarde, afirmaram que superstitiosus  era aquele que se colocava acima dos homens e de seu tempo, como um vidente, um profeta, para perceber o futuro.  

Outra hipótese, mais moderna talvez, nos afirma que a superstição aparece muitas vezes quando os homens, depois de todos os seus esforços e recursos (experiência, ciência, análise, reflexão crítica e capacidade previsora), na tentativa de compreender alguma coisa, de elucidar algum problema, “sentem” ou têm a tentação de admitir a intervenção de forças ocultas, mágicas, que os impedem de ficar plenamente convencidos dos resultados a que chegaram.  É por essa razão que muitos supersticiosos, ao contrário do homem religioso, tentam se apropriar egoisticamente dessas inexplicáveis e intrometidas forças.  


FRANCIS   BACON
Foi um filósofo, Francis Bacon (sécs. XVI-XVII) que nos deixou este registro: evitar superstições é também uma superstição. Na Idade Média (até o século XIV), a palavra superstição designava o culto de falsos deuses. Na época no Iluminismo (Rousseau, Diderot) e mesmo antes, com Voltaire, a palavra era a antítese da razão, significando tudo o que fosse irracional, inclusive os dogmas da religião oficial, a católica. Hoje, os dicionários não mudaram o entendimento, mas evitam mencionar que dogmas religiosos sejam irracionais. Alinhando-se com a fé, o fanatismo e a intolerância, o dogma, já entre os antigos gregos,  era uma afirmação que, julgada boa, não admitia discussão. O dogma parte de uma certeza preexistente, opondo-se, por isso, a qualquer crítica.  Registram hoje os dicionários que são superstições as crenças que não têm por base a razão e o conhecimento científico, crenças que nos levam a crer em falsas obrigações, a temer certas coisas, a respeitá-las ou confiar em absurdos.

Entretanto, qualquer que seja a nossa posição com relação ao tópico central acima (pronunciar o nome de certas doenças pode “atraí-las”), entendemos que explorá-lo sempre nos trará algumas revelações sobre o nosso passado e/ou sobre a evolução dos nossos
FEUERBACH
costumes. Ao fazê-lo, temos que entrar obrigatoriamente no terreno das superstições,  da fé, do dogma e das crenças, seja num ideal, numa religião ou numa pessoa,  e também do que sejam conhecimento e saber. Será que a ciência e o seu produto, o conhecimento, podem resolver todos os problemas humanos? Foi o filósofo alemão Feuerbach quem, em 1841, nos deixou esta observação sobre o assunto: a fé não poderá se relacionar senão com o que não existe, pois o que existe é objeto de um saber real. A fé escapa do saber, do conhecimento.

Há muito, muito tempo que o ser humano se recusa a acreditar no acaso, palavra que vem do árabe, az-zahr, dado, jogo de dados. Acaso é acontecimento fortuito, de causa imprevisível, cujo desenvolvimento não se pode prever. Para o homem comum é contingência pura, embora a ciência não aceite a indeterminação pura. O que constatamos realmente quando enveredamos por esse terreno é que desde a pré-história a realidade percebida não basta ao ser humano, apesar dos avanços científicos. E que, além disso,  sempre afirmaram nossos ancestrais, há sempre em atuação no universo  forças maléficas ou benéficas, visíveis ou invisíveis. 

Pelo que as investigações histórico-arqueológicas, antropológicas e outras vêm nos fornecendo ao longo dos milênios parece estar suficientemente comprovado que o homem primitivo, ao levantar os olhos para o céu, foi tomado por um sentimento de religiosidade, isto é, de estar a ele ligado. Esse homem logo percebeu que sua vida dependia, em grande parte, do que o céu lhe enviava, e muito mais.  Faziam certamente parte desse sentimento tanto o terror como a veneração, um reverente respeito, e a necessidade de se prestar ao céu e às forças que lá atuavam algum culto, alguma adoração. Em suma, o que se tem de mais certo, é que o homem primitivo manteve sempre uma relação afetiva com o céu. Se as forças celestes atuavam favoravelmente, facilitando-lhe a existência, ele agradecia com cantos, festas e celebrações. Se, ao contrário, as forças celestes provocavam prejuízos e traziam sofrimentos, cabia-lhe fazer alguma coisa para reverter essas tendências, sacrifícios, oferendas, lamentos etc. Tudo isto se considerarmos que da vida desse homem primitivo, além da onipresença da morte, faziam parte inúmeros terrores representados pela fome, pelos ataques dos predadores, pelas secas, pelas tempestades, pelas inundações, pelas pestes, pelas doenças etc. 

Nas chamadas sociedades primitivas, o homem procurava explicar os acontecimentos do mundo natural nos quais se via envolvido através de um modo de pensar a que se deu o nome de animismo. O homem atribuía uma intenção a cada acontecimento, considerando-o animado por espíritos bons ou maus. Quanto aos espíritos bons, as forças positivas, era preciso aprender a se conciliar com eles; quanto às forças negativas, os espíritos maus, fazer tudo para afastá-los, mantê-los à distância. Este animismo deu origem primeiramente ao que se chamou de feitiçaria, magia, xamanismo etc. Aos poucos foi se integrando a estas práticas um processo de fetichismo, um culto prestado a objetos que representavam as entidades espirituais e que, conforme se acreditava, possuíam poderes mágicos. Com o tempo, ocorreu a chamada personificação, ou melhor, a antropomorfização. As forças sobrenaturais em ação no universo foram divinizadas a elas se atribuindo, além do seu poder sobrenatural, características comportamentais e modelos de pensamento dos seres humanos. Chegamos assim às diversas religiões, politeístas ou monoteístas. 

Nas sociedades primitivas nas quais o animismo ocupou uma posição importante, central, tiveram grande importância determinados atos rituais pelos quais certos “técnicos” (feiticeiros, mágicos, xamãs etc, acima mencionados) procuraram controlar as forças que nelas atuavam. Para os modernos estudiosos, antropólogos, arqueólogos, psicólogos e outros, dominava esse mundo o chamado pensamento mágico. Em algumas sociedades,
ÉDOUARD  BRASEY
certos rituais, festas, histórias, dogmas e tradições, ainda que considerados irracionais, foram se fixando, impondo-se, acabando por constituir as religiões (do verbo religare, em latim, religar), que vivem de dogmas e da fé, não da razão. Como procuram nos explicar alguns estudiosos destas questões, (Édouard Brasey, (França, 1954, escritor), quando, milhares, milhões de pessoas aceitam (?) e compartilham (?) as mesmas crenças, os mesmos dogmas, os mesmos preceitos e princípios, o que temos então são atos de fé e de comunhão e não mais superstições. A superstição passa então a se situar no plano do individual, é um investimento pessoal, que cada um faz, um ato que varia no tempo e no espaço, de acordo com  a cultura de cada sociedade. 


Nada demais, pois, que continuemos, como os nossos ancestrais, a aceitar as suas (nossas) boas superstições: nunca derrubar o saleiro, espalhando o sal pela toalha; jamais abrir um guarda-chuva dentro de casa; evitar reuniões marcadas para um dia 13, principalmente se caírem numa sexta-feira; não acompanhar nunca a passagem de cometas no céu, sempre um presságio de coisas negativas; para ter sorte, continuar com a nossa ferradura  de sete furos pendurada na parede; proteção? colocar réstias de alho atrás das portas; nunca ter falta de dinheiro? Andar sempre com um pequeno pedaço de metal no bolso, na bolsa (esta foi recomendada por Freud à sua noiva); um guizo de cascavel (não importa quantos) é amuleto que protege contra coisas ruins.

ALADIM NO JARDIM ,
1912 ( M. LIEBERT )
Lembrar que o amuleto protege, é defensivo, e que o talismã dá força, é ativo; ambos devem ser, contudo, devidamente preparados por “gente” que entenda do assunto, por “técnicos”. Um bom exemplo de talismã? Certas palavras que funcionavam como uma senha (semeion) para permitir o ingresso de iniciados (mystai, plural de mystes, iniciado) nos recintos das chamadas “religiões de mistério” da antiga Grécia, nas quais se discutiam conhecimentos esotéricos, só passados aos membros do grupo e por eles discutidos, dando-lhes mais “força”. O contrário de esotérico é exotérico, conhecimento (mínimo) que pode ser levado para o exterior, passado para pessoas que não sejam do grupo. Outro exemplo de talismã (aumento de força, convocação de entidades que auxiliem no desempenho mental e físico): a lâmpada de Aladim. Mais um: a palavra Shazam, usada nas histórias do Capitão Marvel.