sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

PEIXES (5)

                          

CONSTELAÇÃO   DE   PEIXES

No cristianismo, lembre-se, o ritual da lavagem dos pés dos apóstolos acontece na última ceia. Os teólogos, desconhecendo a correta interpretação desse ritual, sempre o consideraram como um sinal de humildade. Todavia, se recorrermos à astrologia, fica evidente que esse ritual se inscreve no eixo zodiacal Virgem-Peixes, isto é, plexo solar e pés. O plexo solar, como se sabe, é o maior dos plexos (redes ou interconexões de nervos, vasos sanguíneos ou linfáticos) autônomos, situado na frente da artéria aorta e por trás do estômago, enviando ramos a todas as vísceras abdominais. O estômago, situado entre o diafragma e o duodeno, é o órgão onde se depositam os alimentos que ingerimos, sendo ali pré-digeridos e esterilizados, antes de serem enviados aos intestinos. 


CHAKRAS

A analogia salta fácil: a forma do estômago lembra a Lua; o intestino (delgado) é parte do sistema (tubo) digestivo que se estende do estômago ao ânus (parte do intestino grosso). No estômago, região lunar, temos ideias de acolhimento, de preparação (quimificação).O intestino delgado tem relação com Mercúrio, separando-se nele o útil, que o corpo absorverá, do inútil, que o corpo expelirá (quilificação). O intestino grosso tem a ver com Plutão, sugerindo ideias de transformação, de eliminação. No estômago, encontramos também ideias de disposição de ânimo, de energia disponível (“ter estômago para alguma coisa”), de capacidade para enfrentar algum problema, situações difíceis etc. Ter um “estômago de avestruz” é comer muito e de tudo, engolir indiscriminadamente. Já arrotar é emitir gases estomacais pela boca com sonoridade. Eructar no jargão médico. Simbolicamente, arrotar é vangloriar-se, alardear, blasonar. É também a eructação, conforme o caso, um sinal que revela sempre grande dificuldade para a digestão do que foi engolido, metabolismo deficiente, pessoas que não “trocam” bem com o mundo. Um dos focos deste problema é astrologicamente a Lua, que pode imobilizar pela memória. Ácidas ou azedas são designações que usamos, no capítulo  Astrologia & Saúde, para qualificar pessoas que eructam muito. 

É de se salientar que o processo de quimificação, conduzido astrologicamente pela Lua, acima referido, é o de produzir o quimo, produto parcial da digestão do bolo alimentar, que passa do estômago para o duodeno. Já a quilificação, conduzida astrologicamente por Mercúrio, tem a finalidade de preparar a última fase da digestão, quando o alimento se transforma numa massa líquida para ser absorvido em parte pelo organismo. Faz-se então a “separação” entre o útil e o inútil, enviando-se este último para Libra, o signo das águas residuais a eliminar, e Escorpião, o signo dos resíduos imprestáveis, da matéria não digerível.

Toda esta minha peroração, acredito, ganhará maior compreensão se recorrermos ao que os hindus têm a nos dizer sobre o plexo solar, para eles um dos chakras, centros de energia do corpo humano, na sua fisiologia (Yoga). O plexo solar entre os hindus tem o nome de manipura (cidade da joia), localizado na região lombar da coluna vertebral, ao nível do umbigo. Sua sílaba (mantra) é Ram (carneiro), sua divindade é Rudra, seu elemento o fogo, sua cor o vermelho, seu lótus o de dez pétalas, seu mandala o triângulo.
MANIPURACHAKRA
Assemelha-se o manipurachakra a um forno onde se preparo retorno da matéria ingerida a um estado embrionário tendo em vista um renascimento. A substância morre para renascer numa forma sublimada. Juntando-se estas observações ao que a astrologia nos oferece, que pés e plexo solar estão interligados, podemos notar, segundo os princípios da ação reflexa, que ativados os pés, massageados, mergulhados em água morna, fazemos o plexo solar funcionar melhor, energizando-se assim bem mais o nosso corpo. 


PINTURA  EM  PAREDE,  IGREJA  DE  SANTA  MARIA  DEL  MAR, BARCELONA

Quando Cristo lavou os pés dos apóstolos na última ceia estava, antes de nos dar uma lição de humildade, preparando-os para a grande tarefa que teriam à frente, a de propagar, em longas caminhadas, a doutrina cristã pelo mundo. Sob um  outro enfoque, o que temos aqui é uma aplicação daquilo que as terapias corporais orientais usam, englobadas, no ocidente, sob a designação de reflexoterapia, uma terapêutica que consiste em provocar, por excitação, picada ou cauterização, reflexos em uma parte do corpo afastada do ponto ativado.


ÉDIPO E ANTÍGONA
(A.BRODOWSKI, 1784-1832)
A tragédia de Édipo, narrada pelos trágicos gregos, é, por exemplo, um nó pisciano de mal-entendidos, de incertezas, de coisas que deveriam ter sido ditas e que não foram, um mundo de mentiras protetoras, de mistérios, de subterfúgios e de segredos, uma atmosfera tão a gosto de grande parte dos piscianos. Além do mais, Édipo sempre se contentou com vitórias externas, entrou no papel de salvador da humanidade, um papel no qual os piscianos se sentem muito bem. Édipo jamais se questionou interiormente. Viveu o seu “teatro” até o fim, mesmo já pressentindo que “alguma coisa” não estava certa. Mesmo quando Tirésias e o soldado fujão estavam prestes a pôr tudo à mostra, Édipo afirmou, como se fosse “dono da verdade”, cheio de bazófia, que o responsável por todas aquelas calamidades que estavam sendo narradas merecia bem mais que a morte. A constatação final é a de que o destino, o Fatum, não permitiu que nenhuma consolação lhe fosse oferecida. Uma talvez: Antígone o acompanhou até o fim de seus dias. Mas o que Édipo gerou foi muito além dele, como acontece, aliás, com qualquer ato humano. 


MORTE DE ANTÍGONA
(MICHAEL DAVIS, 1948)
Antígone conhecerá um fim trágico; será condenada pelas leis da cidade (Creonte) por ter dado sepultura a seu irmão Polinice. Creonte, que voltara a assumir a regência de Tebas, será vitimado também pela engrenagem: Antígone se enforca na prisão, como acontecera com sua mãe; seu primo e noivo, Hemon, filho de Creonte, vendo o cadáver da noiva, se mata; a mulher de Creonte, Eurídice, desesperada diante do corpo inerte do filho, suicida-se também. O que podemos dizer, a esta altura, é que os gregos sempre souberam que as desgraças nunca vêm só. Quanto a Creonte, cheio de dor e sofrimento, jamais recomposto das suas tragédias familiares, morrerá mais tarde nas mãos de Teseu, quando de uma batalha travada entre Tebas e Atenas. 


Édipo nunca procurou tomar consciência das forças destrutivas que faziam parte de sua personalidade. Sua inocência, porém, não pode ser contestada. Foi violento como o mar pode ser violento, jamais cruel ou pérfido. Suas intenções nunca foram más. As reações de Édipo, como está na sua crônica, são quase sempre emocionais, como são as dos nativos de Peixes. Édipo sempre foi muito tolerante para consigo mesmo, auto-indulgente. Desde a sua origem, foi um homem de “boa vontade”; afastou-se dos seus “pais” de Corinto, acreditando agir assim da melhor maneira. Não viu nenhuma razão para recusar a mão de Jocasta, cuja identidade ignorava. Tornou-se herói aclamado. Mas tudo isto não bastou...

A casa XII tem analogia com o signo de Peixes, sendo considerada na astrologia ocidental como um lugar de provas, de sacrifícios e também de redenção. Esta casa, como as demais mutáveis, aliás, nos fala sempre de ritos de passagem a serem observados com base em fortes acentos de sacrifícios pessoais. Édipo, mais do que qualquer outro herói grego, tem a sua vida profundamente marcada por este setor do zodíaco; ninguém no mito parece ter acumulado como ele tantas provações. Na sua história, o peso da culpa é imenso, como o é também o de sua irresponsabilidade. A sua cegueira não deixa de ser uma tradução de sua inconsciência, ligando-se o conceito de sacrifício à natureza oblativa dos nativos de Peixes. Para muitos piscianos, o tom maior de sua vida é dado por uma das operações mais radicais da alquimia, a mortificatio, a mais negativa das operações alquímicas, uma variante da solutio.

Em termos alquímicos, o signo de Peixes associa-se à operação que conhecemos pelo nome de solutio, basicamente a transformação de um sólido num líquido. O sólido desaparece no solvente, integrando-se de tal maneira que não mais será possível distinguir um do outro. É, como se depreende, um retorno à indiferenciação. Os hindus costumam representar esta solutio pela dissolução de uma pedra de sal à água.


SOLUTIO
Embora o deus Dioniso seja estudado normalmente por suas ligações com o signo astrológico de Escorpião, não podemos ignorar que a sua atuação tem muito a ver com a solutio pisciana. Para que fique mais clara esta associação de Dioniso com Peixes, precisamos lembrar que uma das principais características, nesta sua área de atuação, é a sua relação com a totalidade. Quando o Sol chega a esta constelação, o último mês do inverno, a totalidade criada chega ao fim. Nada mais ficará preso a uma forma. O signo de Peixes se situa no limite entre dois universos, um que está deixando ser e outro que ainda não é.  Por isso, o símbolo do signo, dois peixes nadando em sentido contrário expressam tão bem esse setor do zodíaco. 

JOHAN SEBASTIAN BACH
É por essa razão que aos nativos do signo é impossível aplicar a lógica do signo oposto, a análise, já que vivem mergulhados na sua interioridade, intimamente relacionados com o êxtase e a compaixão. Eis porque o signo acolhe gente como Johan Sebastian Bach, com as suas catedrais musicais, Michelangelo, o pintor do juízo final, e Einstein, com a sua formulação do infinito cósmico diante da finitude terrestre.


NETUNO E SEU TRIDENTE
É neste período do ano, fevereiro-março,em que o úmido reina soberano, que temos, com toda a sua evidência, sinais de difusão, de diluição, de fusão das partes na totalidade, de imensidão fluida. A água é o elemento em que os mais profundos mistérios da vida se radicam. Nascimento e morte, passado, presente e futuro, tudo se interliga com a água. É por essa razão que os espíritos da água profetizam; para eles, não há fronteiras entre o passado, o presente e o futuro. O tridente de Netuno põe tudo em comum.

Como sabemos, duas divindades atuam nos mistérios de Eleusis, Deméter (signo de Virgem, o pão) e Dioniso (signo de Peixes, o vinho). No santuário de Deméter em Eleusis tinha lugar anualmente um rito iniciático denominado mysteria, no qual os iniciados eram chamados de mystai. Esse nome deriva de myo, calar. Os mystai, nesse ritual, adotavam um comportamento religioso denominado orgiástico, palavra que aproximamos do grego orgas, pleno de seiva; terra fértil; porção de terra muito rica, consagrada a Deméter e a Perséfone; de orge, agitação interior que subjuga a alma; sentimentos violentos e apaixonados; ceder à cólera; frenesi.


CULTO  DIONISÍACO ( WILLIAM A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )

Este comportamento era muito parecido com o das sacerdotisas do deus Dioniso, comportamento ao qual era dado o nome de mania, uma espécie de delírio das bacantes do deus, uma alteração de personalidade, que levava a movimentos convulsivos e espasmódicos, trazendo, ao final do ritual, uma sensação de despersonalização e de invasão do vazio criado (êxtase) por uma entidade divina (entusiasmo).

MISTÉRIO ELEUSINO
A orgia envolvia toda a comunidade (os mystai), tinha um caráter de unanimidade, isto é, ninguém podia deixar de participar. Se tal acontecesse, se alguém deixasse de participar, um que fosse, o objetivo do rito não era alcançado, renascimento para um outro tipo de  vida, a “morte” do eu profano. Os métodos usados para se chegar a este envolvimento total dos participantes consistia em levá-los a um elevado grau de excitação, um paroxismo provocado pela repetição muitas vezes prolongadas de determinas palavras de natureza encantatória, tudo em meio a muita música, com a ingestão de uma bebida enteógena chamada kykeon, uma mistura de vinho e de determinadas ervas. A finalidade era a de provocar uma modificação na personalidade dos participantes que destruísse totalmente o antigo ego, oferecendo um terreno propício para o desenvolvimento de um espírito de seita, inclusive sob o ponto de vista institucional.

Este rito eleuisino tinha claramente uma tendência cultural que pretendia suprimir socialmente a desigualdade, tendência que estava implícita e explícita no “discurso” do deus Dioniso, isto é, a abolição de fronteiras sociais. Não é por outra razão que as pregações nos cultos de Dioniso procuraram atingir, desde os primeiros momentos de sua difusão pelo território grego, os deserdados, as classes menos favorecidas, os marginalizados socialmente, as mulheres, os escravos, os estrangeiros, as crianças. 

RUÍNAS   DE   ERIDU
Dentre os mitos mesopotâmicos que podemos aproximar do signo de Peixes, destacamos o de Adapa. Este personagem faz parte da mitologia da Babilônia. Sua história é conhecida desde o séc.XVI aC. Adapa foi uma espécie de herói, de linhagem divina, mas mortal, que rejeitou a imortalidade que os deuses lhe concederam. Era filho de Ea (Casa da Água), deus da sabedoria, da cidade de Eridu (a primeira cidade a emergir do mar), uma espécie de Poseidon mesopotâmico. 

Ea era deus dos oráculos, sendo representado muitas vezes como um cabrito montês com cauda de peixe. Adapa foi talvez o primeiro rei de Eridu; era pescador. Seu barco, um dia, foi atacado por Ninlil, deus do vento sul. Vingando-se, quebrou as asas do deus. Chamado a se explicar perante Anu, o maior dos deuses, foi aconselhado pelo pai a nada ingerir (bebida ou comida) enquanto estivesse no céu, pois morreria. Com sinceridade, narrou o que lhe aconteceu; Anu ficou impressionado, oferecendo-lhe, ao invés de comida, a imortalidade, por ele rejeitada. Depois, tornou-se Adapa religioso e exorcista. Quando de sua morte, os deuses lhe deram um lugar entre os sete sábios, tendo recebido o nome de Apkalu (Grande Homem da Água). Além de representado numa forma capricorniana, Ea assumia às vezes uma forma humana, de cujos ombros fluíam correntes de água; noutras representações, vinha como um aguadeiro, trazendo nas mãos um enorme vaso cheio de água, que despejava sobre a terra em determinadas épocas do ano. Ea, como se pode perceber, “dominava” o quarto quadrante zodiacal, reunindo as representações dos seus três últimos signos, uma indicação, talvez, de que as fronteiras das referidas três constelações, àquele tempo, ainda não haviam sido definidas.

ADAPA
Outra figura mítica que nos vem da Babilônia, ligada a Peixes, é a de Oannes. Quem nos dá notícias sobre esse personagem é Beroso, séc. III aC., considerado como o primeiro nome da astrologia grega. Beroso era mesopotâmio, caldeu (sinônimo de astrólogo), sacerdote dos cultos de Marduk. Trouxe para o mundo grego a ideia de que a astrologia era uma ciência esotérica. Foi ele que divulgou no mundo mediterrâneo a história de um ser mítico, Oannes, um educador da humanidade. Descreve-o como sendo um homem-peixe que um dia, saindo das águas do golfo pérsico, alcançou a terra para transmitir aos humanos a escrita, a
OANNES
ciência e as artes em geral, uma espécie de divindade civilizadora. Para muitos, Oannes seria uma personificação do deus Ea. As ligações entre Adapa e, principalmente, Oannes com Matsya, o primeiro avatar do deus Vishnu, na forma de peixe, são possíveis, se lembrarmos que nas histórias o caráter soteriológico é o que mais se destaca. 

MATSYA
A história de Matsya, entre os hindus, se liga ao tema do dilúvio. Vishnu, como Matsya, apareceu na forma de um pequenino peixe para salvar Manu, homem mítico, fundador da atual humanidade. Manu encontrou na água que usava para as suas abluções um pequenino peixe que, escorregando das suas mãos, lhe pediu proteção. Disse-lhe também Matsya que o salvaria quando viesse o dilúvio que destruiria a humanidade. Matsya foi crescendo tanto que Manu foi obrigado a levá-lo para o oceano. Foi nesse momento que o avatar se manifestou. Recomendou a Manu que construísse um grande barco e que para ele levasse os sábios, os animais e as plantas que pudesse. Manu prendeu a embarcação a Matsya com o corpo da serpente Shesha ou Ananta conseguindo se salvar. No mito, quando Vishnu, o aspecto mantenedor da trimurti hinduísta, dorme, o universo se transforma então num grande oceano. O deus repousa então sobre o corpo da grande serpente.


PHILON
A presença da mitologia mesopotâmica na religião judaica é marcante. Os judeus parecem ter herdado dos mesopotâmicos um personagem que usaram para dar nome ao signo de Peixes. No antigo testamento há algumas referências (em José e Samuel) a
DAGON
Dagon, deus semita da fertilidade e da pesca abundante. Quem nos dá também informações sobre Dagon é Philon (fim do séc. I dC), filósofo grego de origem judaica, que, com base num misterioso escritor fenício, se propôs a demonstrar que toda a mitologia grega tinha por base a mitologia fenícia, que explicaria inclusive as primeiras gerações dos seres humanos na terra.


DAGIM
Os judeus dão o nome de Dagim, ao signo de Peixes (dag, em hebraico, é peixe), sendo o mês chamado de Adar. No corpo, a correspondência é com o baço, órgão associado às emoções, ao riso e a paixões sexuais (gargalhadas podem ser sinal de mau funcionamento, de dilatação do baço). A festa mais importante do período é a do Purim, nome persa, que, em hebraico, quer dizer lançar a sorte. O clima é de festa, há representações teatrais, pratica-se a caridade. 

O mês de Adar marca o fim do inverno, opondo-se a Elul, fim do verão. Segundo a astrologia judaica, os piscianos têm uma personalidade muito flexível, adaptam-se facilmente às mudanças, tendo algo neles de teatral. Isto se deve, dizem os judeus, ao fato de ser Peixes o último signo, o que representa a possibilidade, nos do signo, de ser atingido o mais alto nível de desenvolvimento de sua personalidade. Isto se deve ao fato de não se sentirem eles constrangidos por nada materialmente, o que os leva a se adaptar ou mudar com facilidade. 

O mês de Adar simboliza tanto a nação de Israel como a própria Torá. Esta, a Torá, e a nação israelita formam uma analogia: o peixe está em casa na água. O judeu só poderá se sentir bem, como o peixe na água, se observar a Torá. Os dois peixes do símbolo, aliás, correspondem aos dois aspectos da Torá, a escrita e a oral, associando-se ela, neste aspecto, a Gêmeos (Sivan), cuja duplicidade tem o mesmo significado. A água, elemento do signo, é símbolo da Torá, que flui como a água corrente.

Uma das principais características dos nascidos neste mês é a da imitação, uma facilidade para o teatro, para a pantomima, sendo esta uma das razões pelas quais os que participam do Purim usam fantasias e máscaras. Alegria e risadas, proibidas em outras cerimônias são excepcionalmente permitidas neste período. 


ESTER   E   MORDECHAI  ,  1685  ( ARENT DE GELDER )

De acordo com a astrologia judaica, os piscianos são muito flexíveis, adaptáveis. É isto que os leva, com facilidade, a se associar a outras pessoas, transformando-se muitas vezes em atores. No judaísmo, o grande poder do signo se manifesta, como se disse, na festa do Purim. Duas figuras se destacam dentro deste signo, Esther e Mordechai. A primeira era uma jovem viúva, “bela de se olhar”, com está na Bíblia, que desposou o rei persa Xerxes, salvando os judeus do extermínio, juntamente com seu tutor Mordechai. A festa do Purim foi instituída, nos dias 14 e 15 de Adar, para comemorar essa vitória. O período marca também a aceitação, pelos judeus, da Torá em toda a sua plenitude, fato que proporcionou, desde então, nesse mês, o crescimento do poder espiritual e da santidade do povo judaico.   

É neste mês, dizem os astrólogos judeus, que o homem, através dos poderes de sua alma, pode transcender o seu nível corpóreo, escapar do plano material. Negativamente, esta tendência pode levar ao alcoolismo e às drogas. A tendência à despersonalização pode, por isso, levar o pisciano à mentira e à ignorância das suas responsabilidades materiais. 

ASTROLOGIA  HEBRAICA
Os astrólogos judeus nos explicam também que enquanto um dos peixes do signo olha para Aquário o outro se volta para Áries. O primeiro representa a totalidade do plano físico, o segundo diz respeito à eternidade da energia (alma). Representam também os dois peixes, como se disse, Esther e Mordechai que, através de sua retidão e pureza, muito contribuíram para manter a unidade do povo judeu. Os judeus relacionam ainda os signos de Adar e Sivan, Peixes e Gêmeos, duplos, através, respectivamente, de Esther e  Mordechai o primeiro, e de Moisés e Aaron, o segundo, que libertaram os judeus dos egípcios.


MIRRA
O membro do corpo associado ao signo de Peixes é o pé no que ele tem de mais extremo, de último, a parte que assenta no chão, a mais sensível, lugar das cócegas, de gargalhadas, na sua expressão mais frívola. Outro órgão regido por Peixes, segundo os judeus, é o nariz, onde está sediado o olfato.
MIRTO
Esta relação é estabelecida através de Esther e de Mordechai na medida em que eles se associam a especiariam doces. O último tem relação com a mirra (
mordror, em hebreu) e Esther, por seu turno, é chamada de Hadassa, o mirto. A primeira é uma planta da qual se extrai uma resina aromática usada desde a antiguidade como incenso e na medicina, considerada então como muito valiosa. O mirto é planta que dá flores e pequenos frutos aromáticos, usados em geleias. Entre os gregos era usado como símbolo de Afrodite. O olfato é tido como o mais espiritual dos sentidos, pois dá prazer à alma. 

A tribo associada a Adar é a de Neftali., o Combatente, sexto filho de Jacó, nascido da serva Bilha; a tribo vivia a oeste do rio Jordão e do lago de Genesareth. Os judeus fazem uma outra associação, relacionando duas outras tribos com o signo, a de Efraim com um dos peixes e a de Menaseh com o outro. O primeiro é o segundo filho de José, que o patriarca Jacó adotou no momento de morrer, colocando-o, embora mais novo que Menaseh, na situação de primogênito. 


CHANUKAH
Entre os judeus,  planeta que rege Peixes é Júpiter (Tsadik, o probo, o justo), que governa também Sagitário (Kislev). Os sábios judeus instituíram duas festas nestes meses, Chanukah e Purim, períodos em que os poderes do engano e do mal, que caracterizavam os persas e os amalecitas, foram derrotados. O planeta Júpiter associa-se tanto à probidade quanto com a caridade. Segundo a tradição astrológica, no simbolismo do corpo humano, as influências das pernas, que começaram em Kislev, se completam em Adar. Se a letra Kuf “criou” Peixes, Júpiter foi “criado” por Guimel, letra que significa compartilhar. A letra Kuf é a única no alfabeto hebraico que se estende abaixo da linha da escrita, significando isso que ela é dupla, tendo ligações com o mundo das ilusões, da vida subconsciente. Se o fator de correção (tikum, eixo dos nós lunares) de um mapa estiver em Peixes isso pode significar apego demasiado à lógica, a racionalizações em vidas anteriores. O tikum em Peixes sugere que, além da razão, há outro modo, talvez mais importante, de apreender a vida. Há que se deixar de lado, um pouco ou muito, só as explicações racionais.   

A constelação de Peixes estende-se hoje de 15º de Peixes a 26º de Áries. Não há estrelas brilhantes nesta constelação. A única a considerar astrologicamente é Al Rescha, que marca o nó dos cordões que unem os peixes, uma estrela de quarta magnitude, a 28º41´ deÁries. Ptolomeu atribuía-lhe influências marcianas e mercurianas, estas bem moderadas O simbolismo do nó ajuda-nos a interpretar Al Rescha. Onde a tivermos, ali procuraremos unir conceitos, trabalhar com a ideia de aproximar para ampliar a nossa compreensão, para buscar uma visão mais abrangente. Quadrantes em que estiver e planetas em aspecto com ela influenciarão também dessa maneira. Negativamente, o nó é maléfico quando funciona como obstáculo, perturbação da ordem natural das coisas, lugar em que algo pára, um ponto de coagulação. Positivamente, o nó é
CARL  GUSTAV  JUNG
proteção, meio de defesa contra inimigos, grau de iniciação. Um mapa que poderá ser estudado para uma maior compreensão do que Al Rescha  pode significar é o de Carl Gustav Jung, que procurou integrar várias formas de conhecimento na sua psicologia profunda. 

PEIXES (4)


AFRODITE  E  EROS  ( DAVID  TENIERS, 1610 - 1690 )

Em algumas versões gregas, a origem do signo de Peixes é explicada por uma história que tem como personagens Eros e Afrodite, perseguidos por Tifon, o maior dos monstros e pai de tantos outros. Não vendo saída diante da tenaz perseguição que
Tifon movia contra ambos, Eros e Afrodite se lançaram ao mar. Poseidon, a grande divindade dos oceanos, resolveu intervir, salvando-os. Para tanto, enviou dois maravilhosos golfinhos que os levaram para bem longe de Tifon. Em sinal de agradecimento, Afrodite colocou os dois delfins no céu, no zodíaco, entre Aquário e Áries. 

Contrariamente à aventura de Derceto, o mergulho de Eros e de Afrodite no mar constitui um ato de fé, uma manifestação de confiança na providência divina. Confiaram em algo que ignoravam e foram salvos. Ou, se quisermos, acreditaram e sobreviveram. Derceto não tinha fé em sua natureza de mulher nem na providência, ao contrário de Eros e de Afrodite, que se abandonaram a ela. Este duplo movimento é central no signo, cujos nativos, excedendo-se mesmo algumas vezes, se entregam ao Céu, à Providência, sem procurar conhecer melhor a realidade em que vivem. Complexo de fuga, escapismo? Procuram, por isso, muitas vezes, por todos os meios, subterfúgios e táticas, escapar do mundo real, contra toda lógica, toda evidência, razão pela qual acredito que fazem parte do signo de Peixes, nele coexistindo, toda a sabedoria e toda a inconsciência do mundo.



Na antiguidade, como sabemos, o cristianismo adotou o peixe como símbolo, associando seu nome em grego, ikhthus, a um acróstico formado com as iniciais das palavras que formam a locução Iesos Christos Theou Uios Soter (Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador). O peixe como símbolo cristão está relacionado com as primeiras pias batismais, chamadas à época de piscinas, literalmente recipientes para peixes. É de se notar também que os peixes aparecem como alimento no milagre da multiplicação
MULTIPLICAÇÃO DOS PEIXES
E DOS PÃES ( ÍCONE )

dos pães (evangelho de Lucas), depreendendo-se deste acontecimento que, nele, Cristo aparece sob duas referidas formas, o peixe e o pão. Lucas relata que, tendo ressuscitado, Cristo comeu um pedaço de peixe assado, tendo-lhe oferecido também os apóstolos um favo de mel. O peixe, desde então tornou-se um símbolo da refeição eucarística, aparecendo amiúde ao lado do pão, alimento sagrado em muitas tradições, como a mitraísta, dos persas. 

TERTULIANO
Escritores cristãos como Tertuliano (150-230) chamavam os primeiros convertidos ao cristianismo de pisciulli (peixinhos). Lembravam esses mesmos escritores que quando do dilúvio original, o peixe foi preservado com relação à cólera divina, já se prenunciando o papel simbólico que ele viria a desempenhar no cristianismo. Não é por outra razão que muitos santos da igreja católica têm relação com peixes, santos como André, Antonio de Pádua e outros. André, como se sabe, natural da Galileia, foi pescador em Betsaida, tendo sido o primeiro a ser chamado por Cristo, a quem apresentou seu irmão Simão, depois chamado de Pedro. Antonio de Pádua, nascido em Lisboa, em 1195, possuidor do dom da oratória, fez pregações aos peixes.

Se nos voltarmos para o novo testamento, veremos que os milagres de Cristo têm, na sua maioria, uma estreita ligação com os símbolos que encontramos no signo de Peixes. Comecemos pela água, elemento do signo, como já se explicou. Simbolicamente, a água é regeneração e, como tal, é um poder cósmico. Ela purifica e regenera: imergir na água é retornar às fontes, entrar em contacto com o seu imenso potencial renovador. Não é outra a finalidade do batismo: a água batismal apaga (lava) o pecado original e leva a um novo nascimento. 


BATISMO  DE  CRISTO (ANDREA DEL VERROCHIO , 1435-1488)

Nas escrituras cristãs, com o batismo de Cristo por João Batista começam os três anos do seu ministério. João Batista era um típico representante do signo de Aquário já que é através dele que é feita a ligação do homem com a consciência universal (Peixes). O rito do batismo não só purifica como simboliza a mudança que vai significar o abandono do ego pessoalmente orientado para a realização de um destino universal. Esta passagem é representada no evangelho de João por Cristo: Em verdade, em verdade, vos digo: quem não nascer de novo não poderá ver o reino de Deus.

NICODEMOS
(BOM JESUS DE BRAGA
Nicodemos, no evangelho de João, fariseu que mais tarde se tornaria discípulo de Jesus e ajudaria José de Arimateia a sepultá-lo, perguntou então: Como pode um homem nascer, sendo já velho? Poderá entrar uma segunda vez no ventre de sua mãe e nascer?” Respondeu-lhe então Jesus: Em verdade, em verdade, vos digo: quem não nascer da água e do espírito não poderá entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do espírito é espírito.

O que temos aqui é uma ilustração da ideia da morte do ego. Morte que, libertando a alma, permite que ela retorne ao todo, que renasça em espírito. Morrer, nestes termos, implicaria assim a libertação do ego da prisão corpórea para que alma voltasse ao todo. Estas ideias, lembremos, expostas desta maneira, já estavam presentes, por exemplo, no mundo védico e na doutrina dos órficos. 

Origem e veículo da vida, a água nas tradições orientais sempre significou sabedoria, graça e virtude, além de, como já se viu, símbolo de fertilidade e de fecundidade. Estes mesmos temas são encontrados no Corão e na tradição judaico-cristã, nas quais, perto de fontes e poços, é que se dão os “encontros essenciais”. No Gênese, “o sopro de Deus de Deus cobria a superfície das águas.” Se as águas calmas, na Bíblia, significam paz e ordem, a água que fecunda as terras, mas que alaga e afoga, é “fonte de morte”. As “grandes águas”, como está na Bíblia são sempre sinônimo de grandes provações; o descontrole das águas é anúncio de calamidades. 


PESCA  MILAGROSA ( PETER PAUL RUBENS , 1557 - 1640 )

Depois de ser batizado por João Batista, Jesus passou a procurar homens que pudessem ajudá-lo a propagar a sua doutrina. Escolheu doze discípulos entres os pescadores e lhes disse: Não tenhais medo! Doravante sereis pescadores de homens, com está em Lucas. Na tradição cristã, o pescador é aquele que captura as almas, o prosélito. No judaísmo, prosélito era o indivíduo recém-convertido. O pescador era o catequista (catequese: ação de instruir oralmente), o apóstolo (o enviado). Os peixes eram os infiéis a converter. Na psicanálise, lembro, a “pescaria” é usada na técnica da livre-associação, método privilegiado de investigação do inconsciente. O paciente deve exprimir todos os seus pensamentos, ideias, imagens e emoções, tais como se apresentam a ele, sem seleção e restrição, mesmo que tal material lhe pareça incoerente, impudico, impertinente ou desprovido de interesse. Tais associações podem
TRIDENTE
ser induzidas por uma palavra, um elemento de sonho ou qualquer outro objeto de pensamento espontâneo. O terapeuta, bem treinado, mestre na sua arte, “pescará” então nesse mar de palavras aquilo que lhe parecer mais interessante. Para isso, simbolicamente, estará usando o tridente de Poseidon, instrumento de pesca juntamente com a rede, símbolo astrológico do planeta Netuno, regente do signo de Peixes.


JESUS ANDANDO SOBRE O MAR
( GUSTAVO  DORÉ , 1832 - 1883 )
Ainda com relação ao cristianismo, podemos citar a questão dos “milagres”. Cristo seduziu os seus discípulos com um “milagre” que temos que analisar no contexto pisciano: João relata em seu evangelho (capítulo VI) que os discípulos viram Jesus andando sobre o mar. Como interpretar este “milagre”? A água, como venho colocando, está relacionada com o mundo das emoções, do movimento. Emocionar é ato de deslocar, impressionar, comover. É algo que nos põe em movimento, um fenômeno afetivo que tem origem fora de nós (ação do exterior) ou interna (memórias, lembranças), que nos inclina em várias direções (tendência, sentimento, simpatia, antipatia, paixão etc.). A emoção tem um caráter espontâneo, não a comandamos, é reativa, um modo de reagir. Impondo-se, as emoções, dependendo da sua intensidade sobre nós, podem (sempre) nos tornar vítimas. 

Ora, parece-me que esta passagem bíblica, escoimada do maravilhoso, que é comum neste tipo de literatura, tinha (tem) uma mensagem clara: o homem deve se situar acima das suas emoções, das suas superstições, das suas fobias, dos seus medos. Isto é, deve “andar sobre a água” para se tornar um mestre de si mesmo, um discurso muito semelhante ao que encontramos em Buda, no Taoísmo, no Budismo Zen e em outras tradições. O corpo emocional mais o corpo físico e o corpo do mental inferior, como nos revelaram os mestres védicos há muito tempo, são responsáveis pela nossa perda de liberdade. Podem nos escravizar, impedindo-nos de agir livremente. 

SIGMUND  FREUD
Dentre alguns mitos que podemos associar ao signo de Peixes (signo que tem, no corpo físico do homem, relação com os pés) há um que, parece-me, se destaca bastante, o de infeliz herói tebano Édipo, “o de pés inchados”. Valho-me de Freud para entrar nessa história. Segundo o mestre austríaco, Édipo é o exemplo de alguém que vive a sua vida sempre fora do tempo, defasado. O nosso herói toma consciência da realidade sempre um pouco tarde, incapaz de dominar os acontecimentos de sua vida, que sempre parecem lhe escapar. Aliás, a etimologia do seu nome, “o de pés inchados” parece sugerir esse descompasso com a vida. 


LAIO  E  CRISIPO
( CERÂMICA  ANTIGA  GREGA )
Édipo é um descendente da família dos labdácidas, família real de Tebas. Com a morte de Lábdaco, despedaçado pelas mênades por ter se oposto à entrada do culto de Dioniso na pólis tebana, Laio, seu filho, assumiu o trono, com a regência do tio, Lico. Este foi assassinado e Laio, temendo destino igual, fugiu, refugiando-se na corte de Pélops. Bem recebido, trai, contudo, as regras da hospitalidade; sentindo forte atração sexual por Crisipo, jovem filho de Pélops, que o acolhera, raptou-o.

JOCASTA
(LILLAH MAC CARTHY,1875-1960 
Morrendo os usurpadores, Laio reassumiu o trono de Tebas, levando consigo Crisipo. Pélops amaldiçoou publicamente a Laio e a deusa Hera, a protetora dos amores legítimos, anatematizou a ambos. Crisipo,que correspondera à paixão de Laio, envergonhado, suicidou-se. Tempos depois, Laio se casou com Jocasta (a que brilha sombriamente), também chamada de Epicasta. Dessa união nasceria Édipo, marcado por terrível maldição. Tebas só seria salva se Laio morresse sem descendência, dizia uma antiga sentença oracular. Ainda no ventre materno, foi reafirmada a sentença, com a previsão que o filho de Laio o mataria e causaria a ruína completa da orgulhosa família real dos labdácidas. Laio, apesar dessa reafirmação, resolveu correr o risco.

Dentre as várias versões que temos sobre o que aconteceu depois do nascimento da criança, ficamos com a da sua exposição. Com os pés fortemente atados e, segundo outros, também com os calcanhares perfurados, por onde se passou um fio para pendurá-la numa árvore, a criança, com poucos dias de vida, foi abandonada, exposta, no alto do monte Citeron. Pastores que andavam pela montanha ouviram o choro da criança; recolhem-na e a entregam aos reis de Corinto, que não tinham filhos, recebendo ela o nome de Édipo e sendo educada na corte como um jovem príncipe, forte, belo, orgulhoso, de temperamento colérico, apesar dos seus pés “problemáticos”, sem ter a mínima noção de sua origem, dele escondida. 


ÉDIPO  MATA  LAIO 
Um dia, num banquete, um convidado, embriagado, chamou-o insultuosamente de plastós, postiço, filho falso. Interpelados, os reis de Corinto negaram veementemente o que Édipo ouvira do bêbado conviva, afirmando que ele um era filho legítimo e muito amado.  A pretexto de procurar uns cavalos que haviam sido roubados dos estábulos reais, Édipo, sem nada comentar, saiu do palácio resolvido a investigar a sua origem. Foi a Delfos. A sibila, consultada, em transe, escandalizou os sacerdotes pela sentença que proferira: o jovem príncipe mataria o pai e se uniria sexualmente à própria mãe. O resto da história é bem conhecido: Édipo, com medo de que a sentença se cumprisse, tomou o sentido contrário de Corinto. No caminho, numa disputa de passagem com um estrangeiro, que vinha numa carruagem, acompanhado de dois soldados e de um arauto que o escoltavam além do cocheiro, matou a todos, com exceção de um dos soldados que fugiu, com certeiros golpes de seu bastão. Diz uma versão do mito que a viagem de Laio fora motivada pelo seu desejo de ir a Delfos com a finalidade de obter maiores informações sobre a sua descendência. Tirésias, o vidente cego, o advertira: que fizesse antes de partir um sacrifício à deusa Hera, a deusa das justas núpcias. 

ÉDIPO  E  A  ESFINGE
( G. MOREAU, 1826 - 1898 )
Édipo escondeu-se por uns tempos nas montanhas. Jocasta assumiu o provisoriamente o reino de Tebas, depois da morte do marido, morto por “assaltantes” segundo a notícia que lhe foi transmitida mentirosamente pelo soldado fujão. Os deuses, contudo, precisavam fazer a engrenagem do destino se movimentar. Uma parte do oráculo já se cumprira, sem que ninguém soubesse. Um dia, Édipo resolveu abandonar as montanhas, afastando-se de Corinto, indo em direção de Tebas. No caminho, tomou conhecimento da existência de um monstro, Fix, a Esfinge, que devorava todos os que se dirigissem ou saíssem da cidade. Só não o faria se alguém decifrasse um enigma que propunha, o que nunca acontecera. 

Édipo resolve enfrentar o terrível monstro. Não só decifrou o enigma como o matou. O prêmio para quem matasse o monstro era a mão da rainha Jocasta, ainda muito jovem e bela. Assim aconteceu, o grande herói uniu-se à rainha e viveram felizes por uns tempos, nascendo quatro filhos dessa união, Etéocles, Polinice, Antígone e Ismene, segundo os trágicos gregos. 


TIRÉSIAS
(J.H.FÜSSLI,1741-1825)
Tempos depois, uma nova catástrofe se abate sobre a cidade, a peste. Creonte, irmão de Laio, regente do trono, vai a Delfos e ouve da sibila que a peste era um castigo porque a morte de Laio ainda não havia sido reparada. Tirésias, o vidente cego, é convocado. As Erínias, grandes figuras da Anankê, voltavam a acionar a terrível engrenagem para restabelecer os limites que haviam sido rompidos. O soldado fujão, que não era outro
IRÍNIAS
(GUSTAVE DORÉ, 1832-1883)
senão o que levara a criança para a montanha, reconheceu Édipo como o assassino de Laio. Com medo, escondera-se, mas agora revelava a verdade. O final é sabido: diante da tragédia, Jocasta, que pressentira tudo, se suicida; Édipo, que também há tempos já desconfiava de que “algo muito ruim” ocultava-se dentro da sua glória de rei e de matador da Esfinge, ao constatar a evidência dos fatos, que conscientemente se recusara sempre a aceitar (morte do pai e casamento com a própria mãe e irmão de seus filhos), privou-se da sua própria visão; mutilou-se, vazando os seus olhos com o broche da mãe e esposa; perdeu a visão externa para, quem sabe, chegar à sua verdade interna, que sempre ignorara. 


FILME DE PASOLINI
Dois de seus filhos, como se sabe, Polinice e Etéocles, haviam morrido numa luta fratricida. Largando tudo, amargurado, cego e alquebrado, conduzido por Antígone, Édipo desapareceu da vista dos tebanos; foi mantido numa masmorra pelas filhas e por Creonte um longo período. Depois, como um fantasma, guiado por Antígone, a mais velha e a mais forte dos filhos, perambulou pelas estradas até chegar a Atenas, onde recebido por Teseu, entregou-se finalmente em segredo à morte. Tal aconteceu em Colona, um lugar afastado da cidade, um bosque inviolável, junto de um monte rochoso do deus Poseidon; sem que ninguém visse, nem Antígone, Édipo, trôpego, claudicante, guiado por Hermes, o deus psicopompo, foi descendo em direção do interior da terra, que se abriu para acolhê-lo.

Na astrologia, como se disse, os pés constituem a zona pisciana do corpo humano. Numa analogia evolucionista, os pés, não se pode esquecer, foram um dia barbatanas. É bom lembrar, quanto a este particular, que ainda não aprendemos a fazer essa relação, barbatanas-pés, algo que nos permitiria entender bem melhor a nossa origem marinha. 

Os pés, já em antigas tradições, estavam simbolicamente ligados à alma, ou melhor, ao destino que a alma devia suportar. Os pés, com seu movimento ambivalente, alternativamente movimentados, impostos ao chão e dele nos retirando, são, ao mesmo tempo, um símbolo de poder, de partida e de chegada, de comando, como também de apoio, de suporte e de humildade, pois são eles que afinal sustentam tudo que está acima deles, mantendo contacto com a terra, com o chão, de onde o homem sempre procurou se afastar orgulhosamente. Assim como a terra simbolicamente se opõe ao céu, os pés de opõem à cabeça. 

É neste sentido que os pés representam um princípio passivo, pois entram contacto direto com a Grande-Mãe, o aspecto feminino, oposto ao princípio masculino da manifestação. Ao deixar marcas nos caminhos trilhados, marcas boas ou más, lembranças de uma passagem, os pés significam também livre-arbítrio. É por isto que a cabeça nada pode sem os pés; ambos precisam trabalhar juntos, o que nunca aconteceu com Édipo. Estas ideias explicam em parte
CERIMÔNIA  DE  LAVA  -  PÉS
alguns ritos de purificação associados aos pés, lavá-los para lembrar que eles devem sempre nos conduzir para longe dos caminhos do erro. Além do mais, como sabemos, a lavagem dos pés, como a encontramos em muitas tradições religiosas, vai muito além de um ritual que simboliza gentileza para com os hóspedes ou a submissão humilde e recíproca entre os apóstolos e ministros de Cristo. 

Com efeito, no primeiro livro de Samuel (cap. XXV) se relata que Abigail (personagem bíblica, a bela viúva do rico Nabal) se dispôs a lavar os pés dos emissários do rei David. Eles a procuraram para lhe dizer do grande desejo de David, que ele a queria como sua segunda esposa (o que de fato aconteceu). No evangelho de João (cap. XIII) encontramos: Jesus lançou água numa bacia e começou
ENTRADA   DE   MESQUITA
a lavar os pés de seus discípulos e a limpá-los com a toalha com que os estava cingindo. Entre os muçulmanos encontramos, no capítulo das abluções, a descrição do ato de purificação elo qual o crente deixa o universo profano para entrar no sagrado. Esse ato consiste numa série de lavagens ritualizadas que compreendem as mãos, os braços, os cotovelos (antebraços), o rosto e os pés.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (3)



O   RAPTO   DE   HELENA ( FRANCESCO PRIMATICCIO , 1504 - 1570 )
                                          
Como antecedentes do poema, o mais notável fato é o rapto de Helena, rainha de Esparta, mulher de Menelau, por Páris, príncipe troiano, filho de Príamo, rei de Troia, e de Hécuba, sua mulher. São irmãos de Páris, dentre outros, Heitor, casado com Andrômaca, e Cassandra, vidente, gêmea de Heleno. A fim de reparar essa afronta, os gregos, sob o comando de Agamemnon, rei de Micenas, casado com Clitemnestra, irmão de Menelau, organizam uma expedição para resgatar Helena, que era irmã de Clitemnestra. Os gregos têm na sua expedição, como figuras principais, famosos guerreiros, Ajax, Diomedes, Ulisses, Nestor, Pátroclo e Aquiles, este o mais destemido de todos, filho de Peleu e de Tétis, divindade marinha.


GUERRA  DE  TROIA
( J.G.TRAUTMANN, 1713 - 1769 )
O poema relata apenas um curto período da guerra de Troia, então no seu décimo ano. Os ouvintes de Homero estariam no entanto familiarizados com os acontecimentos anteriores, aos quais o poeta ia se referindo no decurso da história cantada, acompanhada pelo phorminx, ou simplesmente narrada.

Nesse sentido, a história começa em tempos muito
LAOMEDONTE
( G.TROPPA , 1637 - 1733 )
recuados, quando da construção das muralhas da cidade, protegida por Zeus, rei dos deuses. Governava-a, ao tempo da construção, Laomedonte, que tivera a ideia de cercá-la, tornando-a inexpugnável. Como a cidade prosperava rapidamente, ele não descansou enquanto não viu erguida uma grande e protetora muralha à sua volta.  

Para construir a proteção idealizada, Laomedonte invocou e obteve a ajuda divina. Poseidon, irmão de Zeus, grande divindade dos oceanos e dos mares, ofereceu-se para ajudar os troianos mediante algumas recompensas. Todavia, terminada a construção da impenetrável muralha, os troianos se recusaram a cumprir o trato feito. Poseidon retirou a sua proteção de Troia, tornando-a vulnerável a ataques, apesar das suas poderosas muralhas


PARIS
Troia, por ocasião da guerra, era governada pelo rei Príamo, filho de Laomedonte, casado com Hécuba, princesa da Frígia, que, de acordo com algumas versões, lhe deu catorze filhos, citando-se, dentre eles, que nos interessam mais de perto, o nobre Heitor, a profetisa Cassandra, o vidente Heleno e o belo Páris. Quando estava grávida de Páris, Hécuba sonhou que este filho seria a causa da destruição total da cidade, sonho confirmado por um oráculo. Para o bem de Troia, entretanto, Hécuba decidiu abandonar o filho à morte, expondo-o no monte Ida. Mas Páris foi salvo por pastores e cresceu como um deles, ignorando a sua origem real. 

Bem antes do início da guerra, Zeus decidira que Tétis, uma nereida, se casaria com Peleu, um mortal, rei de Ftia. Desta união nasceria Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos. Toda a sociedade olímpica foi convidada para a festa, com exceção, por razões óbvias, de Éris, a deusa da discórdia. Vingando-se da afronta, Éris lançou ao salão onde se realizava a festa um pomo de ouro, com  a inscrição “à mais bela”. Tanto Hera, a esposa de Zeus, como Palas Athena, deusa virgem, e Afrodite, deusa do amor, reclamaram o pomo dourado, pedindo que Zeus arbitrasse a disputa, o que ele sabiamente recusou, fazendo-se substituir, por uma escolha feita ao acaso, por Páris, que vivia como um pastor perto de Troia.  


O  JULGAMENTO  DE  PARIS  ( P.P.RUBENS , 1577 - 1640 )

As deusas, interessadíssimas na disputa, foram então a Páris e tentaram suborná-lo, prometendo-lhe, cada uma delas, o que julgaram ser o melhor para ele. A deusa Hera ofereceu-lhe o continente asiático com todas as suas riquezas; Palas Athena, a poderosa filha de Zeus, ofereceu-lhe a sabedoria e a vitória em todas as batalhas; Afrodite ofereceu-lhe o amor na pessoa da mais bela mulher do mundo, a espetacular Helena, casada com Menelau. Páris optou pela oferta de Afrodite. As duas deusas preteridas tornaram-se de imediato grandes inimigas da deusa do amor, inimigas implacáveis, e, como tal, dispostas a causar a destruição de Troia. 

HELENA   E   PARIS  , 1788  ( J. L. DAVID )

Pronto para a conquista de Helena, Páris dirigiu-se antes ao palácio real de Troia, onde foi reconhecido por Cassandra e aceito por Príamo como seu filho legítimo. Rumou em seguida para Esparta, sendo recebido na corte de Menelau, que dela se ausentara momentaneamente por questões de família. Ajudado por Afrodite, conquistou rapidamente Helena e a levou para Troia. Quando voltou a Esparta e soube do motivo da partida da mulher, Menelau convocou um grande número de chefes gregos para irem com ele, com os seus exércitos, atacar Troia e trazer Helena de volta. É de se lembrar que em tempos idos estes chefes gregos, convocados por Menelau, tinham também cortejado Helena e firmado um acordo: ajudar aquele que conseguisse o amor dela e vingar qualquer desonra que sobre o futuro marido viesse a recair por sua causa. Foi assim que Páris pôs em andamento a concretização da profecia oracular que causaria a destruição de Troia.

Muitos dos chefes gregos, além disso, desejavam há tempos saquear a rica cidade asiática. Sabiam, entretanto, por sentença oracular, do destino que os esperava se partissem sem que uma condição, muito importante, fosse observada: Aquiles deveria obrigatoriamente participar do empreendimento. Ulisses, grande chefe grego, por outro lado, fora avisado também de que a sua participação na guerra o levaria a uma ausência de vinte anos do seu reino. Simulou então o rei de Ítaca uma espécie de loucura para não participar da expedição a Troia. Desmascarado, acabou por decidir-se a ir. 

AQUILES  MERGULHADO  NO  RIO  ESTIGE ( A.BOREL , 1743 - 1810 )

Aquiles, como combatente, era praticamente invulnerável porque ao nascer a mãe o havia mergulhado nas águas do Estige, rio infernal, tornando-o imortal, excetuada esta condição por um ponto, o calcanhar, por onde a mãe o segurara. Mais tarde, como narra o poema, uma flecha, guiada pelo deus Apolo, atingirá este ponto, matando nosso herói. Aquiles também estava ciente de que, se fosse à guerra, morreria jovem. Para livrar o filho de uma morte prematura, Tétis disfarçou-o com roupas de mulher, escondendo-o. O astucioso Ulisses descobriu o ardil, o que forçou Aquiles a se envolver na luta.

AGAMEMNON
Agamemnon, irmão de Menelau, foi eleito comandante de todos os exércitos gregos. Cerca de mil navios foram preparados para levar as tropas gregas às costas troianas, através do mar Egeu. Os ventos, contudo, quando da partida dos gregos, cessaram completamente, impedindo a partida do porto de Aulis. Consultado um oráculo através de Calcas, o adivinho da expedição, descobriu-se que Agamemnon tinha morto, numa caçada, uma corça consagrada
IFIGÊNIA  , 1788  ( J.L.DAVID )
a Ártemis, a deusa lunar. Nada faria a deusa perdoar a ofensa senão o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamemnon. Em meio a grandes tormentos e angústias, Agamemnon mandou chamar a filha sob o enganoso pretexto de a casar com Aquiles. Clitemnestra, a rainha, mãe de Ifigênia, todavia, descobriu a trama mentirosa. No momento em que a jovem estava para ser sacrificada, acalmou-se a deusa, que desistiu da exigência que impusera, voltando os ventos a soprar, o que possibilitou a partida da frota grega para Troia. 

Depois de desembarcarem num lugar errado, os gregos acabaram chegando a Troia, cercando-a; numa das extremidades do território que ocuparam, ficou o valente Aquiles com os seus homens; na
ILÍADA 
outra, o famoso Ajax. Durante nove anos tentaram atravessar as invulneráveis muralhas. Enquanto não o conseguiam, assaltavam e pilhavam cidades e localidades próximas. Ao final do nono ano, um acontecimento precipitou, porém, os acontecimentos: capturaram os aqueus duas belas mulheres, Criseida, troféu destinado a Agamemnon, e Briseida, destinada a Aquiles. Assim começou realmente a Ilíada...

Aquiles é sem dúvida a figura mais importante do poema homérico. Tétis, a nereida, sua mãe, filha de Nereu e de Doris, era lindíssima, corteja por todos os deuses. Uma sentença oracular declarara que se um filho dela com uma divindade nascesse ele se tornaria mais poderoso que o pai. Os candidatos mais próximos, Zeus e Poseidon, logo desistiram da bela nereida e procuram alguém para se tornar o seu esposo. Dentre muitos candidatos, apareceu Peleu, que, orientado pelo centauro Kiron, conseguiu submeter a bela Tétis, apesar de suas sucessivas metamorfoses e disfarces. O casamento se realizou com grande pompa no monte Pelion, recebendo os noivos inúmeros presentes. Um acontecimento, todavia, perturbou a solenidade. A deusa Éris, a Discórdia, por não ter sido convidada, como se disse, jogou no salão em que se realizava a festa o famoso pomo da discórdia, de tão triste memória, causador, para muitos, da guerra de Troia...


KIRON  E  AQUILES  ( AFRESCO )
Depois de seis filhos consumidos pelo fogo, na ânsia de torná-los imortais, Tétis resolveu mergulhar o último nas águas do rio Estige, que tinham o poder de tornar invulnerável tudo o que fosse banhado por elas. Essa criança era Aquiles, cujo calcanhar, porém, não foi banhado pelas águas, pois por ali a mãe o segurara. Para os cuidados de sua educação,  Aquiles foi enviado à gruta do centauro Kiron. Consta que o centauro-mestre, ainda que não tivesse resolvido o problema da invulnerabilidade total de Aquiles, mas para aumentar o seu desempenho físico, operou o calcanhar do nosso herói, nele implantando um osso do gigante Dâmiso, o maior corredor que já existira, jamais vencido. 

O jovem foi muito bem tratado também pela mãe do centauro, Fílira, e por sua esposa, a ninfa Cáriclo. A partir dos doze anos, foi adestrado na caça, na equitação, na medicina e em outras artes; o centauro passou-lhe o respeito pelos mais velhos, e ensinamentos claros quanto à necessidade do que eram a defesa da honra pessoal (timé) e o amor à verdade. O jovem se alimentava das entranhas de leões e de javalis, da moelas de ursos, tudo para adquirir coragem, força e vigor. Do mel, recebia doçura, afabilidade. Ao chegar à gruta do centauro, o filho de Tétis chamava-se Líguiron (agudo, sibilante, gasguito).

Calcas, o adivinho, profetizou que a cidade de Troia só seria conquistada com a participação de Aquiles e que a guerra duraria cerca de dez anos. Tétis veio do fundo do mar e escondeu o filho, vestindo-o de mulher e passando a chamá-lo de Pirra. Assim, educado como uma jovem passou Aquiles muito tempo. Chegando a profecia ao conhecimento dos chefes militares aqueus, foram eles buscá-lo, sendo-lhes difícil reconhecer no meio das moças aquele que seria o maior guerreiro de todos os tempos. Acabaram por fim encontrando-o, resolvendo Ulisses o problema. Engajado, Aquiles partiu com um amigo, Pátroclo. Tétis sabia que o filho, se fosse a Troia, teria uma glória eterna, mas sua vida seria breve. Se não fosse, viveria muito, mas sem nenhuma glória. Aquiles, conhecendo o dilema, optou pelo morrer jovem.

Já no décimo ano da guerra que não se resolvia, Aquiles e Agamemnon tiveram  uma séria desavença. Este último teve que devolver, por imposição do deus Apolo,  ao pai, a sua escrava-amante. Irritado, para substituí-la, mandou buscar a escrava-amante de Aquiles, Briseida. Atingido em sua honra pessoal, Aquiles retirou-se da luta. A vitória dos aqueus ficou ameaçada. Tétis, a mãe do herói, subiu aos céus e foi pedir a Zeus que tornasse os troianos vitoriosos enquanto Aquiles não combatesse. Zeus atendeu-a; os acontecimentos começaram a favorecer os troianos, embora a guerra ainda não tivesse chegado ao seu auge. Diante da derrota iminente, porém, Agamemnon se retratou: devolveria Briseida e prometeu dar a Aquiles vinte escravas dentre as mulheres mais belas de Troia, além de, como prêmio máximo, lhe conceder,  como esposa,  uma de suas filhas. Aquiles se manteve irredutível na sua negativa.

PÁTROCLO   FERIDO
Nesse ínterim, Pátroclo, grande amigo de Aquiles, seu companheiro de tenda, numa ação individual, partiu em socorro dos gregos, desmoralizados por sucessivas derrotas. Aquiles consentiu que o amigo partisse, emprestando-lhe sua armadura. Pátroclo, numa escaramuça, acabou sucumbindo, golpeado por Heitor, herói troiano. Tomado por imensa dor, Aquiles se reconciliou com Agamemnon, voltando à luta, apesar de seu cavalo, Xanto, que tinha o dom da profecia, lhe ter anunciado sua morte próxima. Desprezando o aviso, avançou Aquiles contra os troianos. Heitor tentou atingi-lo. O deus Poseidon interveio, livrando-os do choque mortal. Depois de vários encontros, Aquiles e Heitor voltaram a se enfrentar. Zeus se decidiu pela morte do troiano. Ao morrer, Heitor falou a Aquiles sobre a hora de sua morte, que estava bem próxima. Aquiles, tomado pelo ódio, mutilou o corpo de Heitor, nunca esquecendo que ele matara Pátroclo. 



HEITOR   MORTO  ( LOUVRE )


Nesse ínterim, as Amazonas entraram na luta, em socorro de Troia. Aquiles, com requintes de selvageria, matou Pentesileia, a rainha das mulheres guerreiras. As lutas prosseguiam, o número de mortos aumentava. A cólera de Aquiles pela morte de Antíloco, filho de Nestor (depois de Pátroclo era o amigo mais estimado por Aquiles),
AQUILES   FERIDO
foi enorme. Preparava-se o filho de Tétis para o assalto final às muralhas de Troia. Teria tomado a cidade certamente se o deus Apolo não o intimasse a parar a luta. Não sendo atendido, Apolo guiou uma flecha disparada por Páris para que ela atingisse o único lugar vulnerável do corpo de Aquiles, o calcanhar. Em meio a estertores, lançando gritos de cólera e dor, Aquiles tombou finalmente morto. A disputa pelo seu corpo foi grande, conseguindo Ulisses e Ajax recuperá-lo. Os funerais foram celebrados por Tétis, pelas Ninfas e pelas Musas. Athena passou ambrosia no corpo de Aquiles para que ele não entrasse em putrefação. Todos lhe prestaram homenagens até que o fogo acabou por consumi-lo totalmente. 

Uma versão nos informa que Aquiles teve suas cinzas reunidas às de Pátroclo e levadas para o alto de um promontório para que todos, inclusive os navegantes, vissem a urna funerária do grande herói e de seu amigo. Outras versões registram que Tétis levou a urna para uma ilha deserta, chamada Leuce, a Branca. Outros ainda contam que Aquiles, depois de morto, passou a "viver" nessa ilha, que fica na foz do rio Danúbio. Os navegantes narram, desde então, que durante certas noites são ouvidos, vindos da ilha, ruídos do entrechoque de armas, cantos guerreiros e de banquetes. Por fim, outras versões narram que o herói se encaminhou depois de morto para os Campos Elíseos, no Hades, onde se uniu a Polixena, por quem sentiu grande amor, uma filha de Príamo, rei de Troia. Outros dizem que o herói no Hades se uniu a Medeia ou com Ifigênia ou com Helena. A Odisseia nos mostra Aquiles entre os mortos num diálogo com Ulisses, quando este, realizada a  cerimônia de invocação das almas (nekyia), ouviu do eídolon do herói, arrependido, uma triste confissão, vinda do fundo de seu coração,  a de que teria preferido a vida longa, mesmo que na condição de um humilde servidor de um pobre camponês.


DIÁLOGO  DE  AQUILES  E  ULISSES  

Está hoje, devidamente assentado, por estudos históricos, arqueológicos, etnográficos, etnológicos, epigráficos, linguísticos (filologia histórica) e outros, que, por trás da Ilíada temos alguns fatos históricos bem determinados, ainda que o maravilhoso mítico poético a permeie do começo ao fim. Ninguém poderá negar que os aqueus, fundando Argos e Micenas, para sobreviver nos territórios em que se instalaram, só encontraram uma alternativa, a de buscar o mar. Pode-se inclusive admitir que se os personagens que tomaram parte na Ilíada, conforme Homero nos conta, eram fictícios, figuras do mito, a destruição de Ilion, como a de Creta, foram, ao contrário, acontecimentos bem concretos, reais, historicamente comprovados. 

Abrindo um parêntesis: este mesmo entendimento terá que ser levado também para  a abordagem da Odisseia. Em que pesem as diferenças entre os dois poemas homéricos, não podemos deixar de lado os fatos históricos nos quais a história de Ulisses encontra as suas melhores explicações e justificativas. Aborde-se a Odisseia pelo viés que se quiser, literário, mítico, linguístico etc., não há como se negar: a  Odisseia tem como base histórica principal a busca do estanho, metal inexistente no território grego.

Sabe-se que desde o período minoico, bem antes de 2.000 aC, o comércio marítimo cretense dominava o Egeu oriental. A utilização industrial do bronze era um fato que levava os cretenses a buscar no ocidente o estanho, metal que, embora em proporção não muito elevada, entrava obrigatoriamente na fabricação do bronze. Dirigiram-se assim os cretenses à Sicília, ao Adriático e a outros lugares para esse fim.




Quando os micênicos conseguiram penetrar em Cnossos, muitos séculos depois, saqueando e destruindo a cidade, Micenas se converteu na herdeira do comércio cretense, estabelecendo transações comerciais mais amplas com o ocidente, alcançando não só a Itália meridional e a Sicília como a Sardenha e a Espanha. Sabe-se, por exemplo, que no princípio do segundo milênio aC os povos que viviam na península ibérica já haviam começado a utilizar o bronze por influência dos navegadores egeus que  os visitavam. 

Enquanto historicamente a discussão das datas e fatos com relação à Ilíada apresenta poucas controvérsias, a referente à Odisseia alimenta um debate que vem se estendendo até os nossos dias, firmando-se cada vez mais, com relação a esta última, a chamada tese atlântica e, por isso, ficando bastante enfraquecida a posição dos defensores da tese mediterrânea. Ou seja, Ulisses teria ultrapassado as colunas de Hércules e navegado até o Atlântico norte, tendo chegado, quem sabe, à Islândia. Por um estudo mais acurado do texto homérico e com as contribuições a que acima nos referimos, é possível estabelecer hoje que é no canto V da Odisseia que começa o relato da navegação atlântica de Ulisses, que, como tudo indica, se baseava em descrições fenícias, conforme se descobriu posteriormente. 

Acrescente-se que os gregos micênicos, tendo adquirido um profundo conhecimento das técnicas de navegação, se guiavam muito bem pelas estrelas e, como observadores argutos, sabiam também se valer de outros fenômenos celestes. Nas suas observações, iam muito além do que sabiam os sacerdotes do santuário de Delfos, organizadores do imperialismo grego, que viviam fechados nos seus templos. 





Desde os micênicos que os gregos tinham como norma autorizar empreendimentos marítimos e viagens só entre março e outubro. Registre-se que o início anual da temporada marítima era determinado pelo aparecimento das Plêiades, grupo de estrelas situado no final da constelação de Touro. A etimologia do nome, Plêiades, nos remete ao verbo plein, navegar, em grego. Pela limpidez de sua visualização, a partir de maio, esse grupo, as Plêiades, ligava-se com muito destaque aos calendários agrícola e marítimo.

Os marinheiros gregos observaram, por exemplo, que no curso de suas aventuras marítimas em direção do sul a estrela Polar ia se acercando cada vez mais do horizonte. A medida de sua altitude, medida angular, lhes permitia avaliar a distância que percorriam. Os gregos se aproveitaram tanto das descobertas babilônicas como egípcias com relação aos céus, valendo-se delas inclusive com relação à construção de seus barcos. O trirreme grego, para navegação oceânica, com cerca de 40 m. de comprimento, como se comprovou, descendente direto dos barcos egípcios, era impulsionado por remos manejados com grande firmeza, por cento e quarenta e quatro remadores, podendo atingir uma velocidade de 22 km/hora. 


TRIRREME   GREGO 

De outro lado, muito próximos de cretenses e micênicos, por sua civilização e poder marítimo, os troianos constituíam-se num sério obstáculo para a expansão dos dois primeiros citados no Mediterrâneo. Era preciso, pois, destruir a talassocracia troiana para
RUÍNAS  DE  TROIA
não só dominar o Egeu oriental como penetrar na Ásia Menor (Anatólia). A invasão de Troia pelos micênicos se deu provavelmente entre 1.193 e 1.184 aC., como as mais recentes pesquisas históricas propõem.

Uma leitura atenta da Ilíada nos faz “sentir” que estamos diante de um texto que descreve uma guerra de conquista e que seus personagens parecem ter uma existência “real”. Ao lado dos aspectos político, social e religioso que a Ilíada apresenta, não há dúvida de que o poeta nos descreve com aceitável veracidade que o mundo micênico era constituído por um conjunto de grandes e pequenos reinos, bastante entrelaçados por razões de fidelidade ou vassalagem, dominado por uma voraz aristocracia guerreira.

As principais características do mundo grego de então foram bem destacadas por Homero, evidenciando-se dentre elas a riqueza de Micenas (riquíssima em ouro), a inexistência do cobre e do ferro, a
FUNERAL   GRÉCIA   ANTIGA
arquitetura dos palácios, a figura do anax (palavra que designa o rei, o senhor, que possui um poder que o situa acima do basileu, o simplesmente rei), o fausto dos funerais (Pátroclo), o megaron (grande sala, típica dos palácios micênicos), o costume de designar os aristocratas e mesmo os inferiores por meio de muitos epítetos, associados ao seu nome de família. 



Nesse mundo, circulava uma poesia transmitida oralmente, de geração em geração, de natureza áulica (do grego, aulé, palácio, e do latim aula, corte, sala do palácio), palaciana, com muitas fórmulas religiosas e militares. Tal poesia se renovava continuamente à medida que ia sendo cantada, sabendo-se, contudo, que os poetas (aedos ou rapsodos) guardavam na sua memória a totalidade dos versos, a maior parte deles constituída de frases feitas, constantemente repetidas. É de se notar que os epítetos abundantemente encontrados nos poemas homéricos, milhares de vezes repetidos, ganham destaque maior quando nos voltamos para os personagens mais importantes e para as grandes divindades, que chegam a ter em média uma dezena de apelidos, que pouco variam.

Tudo indica que Homero fazia-se entender perfeitamente pela aristocracia micênica, gente voltada para as armas e para o mar. Deixava essa poesia claro para eles que o presente era o passado constantemente renovado por aedos e rapsodos. Nesse discurso poético, toda a ênfase se concentrava sobretudo, na vida dos heróis, na qual se projetava a vida dos deuses, em conceitos que tanto enalteciam ou não verdades do espírito e do corpo. Por isso, em Homero, na Ilíada, principalmente, o destaque vai para palavras como kalon (belo), agathon (bom), kleos (fama, renome), timé (honra), areté (virtude, excelência), kakon (mal), É do mundo homérico que nos vêm palavras como xenos e barbaros. A primeira designa o grego que vivia no exterior, vindo de uma outra cidade grega, de uma colônia. Já o bárbaro não era grego, falava uma língua incompreensível. A palavra barbaro era uma onomatopeia evocativa de uma algaravia. Quanto à projeção do divino no humano, observe-se, por exemplo, o modo como Agamemnon exerce a sua autoridade, de modo muito semelhante ao despótico comportamento de Zeus no Olimpo, com relação aos seus pares divinos.

Qualquer que seja o viés adotado para nos aproximarmos dos poemas homéricos, o que fica claro ao final é que eles difundiram o “mundo dos gregos”, democratizando-o, fazendo-nos compreender o elevado conceito que eles tinham da sua própria cultura diante dos bárbaros. Ainda que reconhecendo o que deviam aos egípcios, cretenses, mesopotâmicos e a outros povos, eles sempre tiveram consciência de que levaram a eles, inclusive através de suas aventuras imperialistas, valores novos, por esses povos  ignorados, ou apenas conservados por eles num estado embrionário. 

A história do nascimento, da infância e da juventude e da vida adulta dos personagens heroicos  de Homero costuma se revestir de traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. A Grécia clássica procurou transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses heróis. Na realidade, entretanto, não era bem assim. Os heróis gregos, como já se observou,  são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. São apresentados como invulneráveis ou quase, mas podem ser abatidos (Aquiles). Têm graça e beleza, mas podem ser monstruosos (o gigantismo de Hércules, de Aquiles, de Teseu). São, na realidade teriomorfos, andróginos, mudam de sexo, adotam o travestismo, transitam entre o masculino e o feminino (Aquiles foi chamado de Pirra, a Vermelha), têm anomalias físicas (Hércules tinha três fileiras de dentes, era também chegado ao travestismo), têm problemas nos pés (Édipo), são transformados em serpentes (Cadmo). Com muita facilidade são tomados por monstros e demônios, pela loucura (Lyssa), pelo Erro (Até), pela Discórdia (Éris), no que acompanham as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual aberrante, cometem estupros, atacam os próprios deuses,  têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam de um modo que beira a anarquia as normas de convivência e regras de civilidade. 


GIGANTOMAQUIA  ( P. P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os excessos heroicos, a rigor, não têm limites. Violentam deusas (Orion, Ixion), são sacrílegos (Ajax agride Cassandra em recinto sagrado), são hetero e homossexuais (Hércules, Aquiles), no que, aliás, imitam os próprios deuses. Certamente, o traço mais característico e específico do herói grego era a hybris, a desmedida, em escala superlativa. Embora punidos e castigados, tentarão sempre enfrentar os deuses, como se fossem iguais a eles, podendo, contudo, ajudá-los (Gigantomaquia). Ambivalentes e monstruosos, os heróis gregos, pelo seu comportamento, lembram a fluidez dos tempos primordiais, quando os elementos constitutivos do cosmos ainda não haviam se assentado. Um período onde as irregularidades e os abusos eram comuns, período do cosmos ainda em formação. Com o "mundo dos homens", onde as desmedidas, as explosões temperamentais e os excessos físicos e emocionais devem ser proibidos, ou, pelo menos, controlados, os heróis tornaram-se figuras extravagantes. Com eles, encerra-se o chamado período heroico da mitologia grega, definido por Hesíodo. 

Os heróis gregos enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos revelam também a situação de conflito do psiquismo humano, pelos combates, em última instância, que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas (monstros, malfeitores, gigantes), de tendências regressivas, uma espécie de Fatum a persegui-los. Sempre a vida como luta (agonística), como criação de novas formas de relacionamento com o mundo, a partir das lutas internas, as conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização constantes. Pressões internas, projeções imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas. De outro lado, o mundo com seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores. Ao lado dos ingredientes da vida heroica, da excepcionalidade no seu agir (areté) e da honorabilidade pessoal (timé), que estão na base das vitórias interiores, sempre, por outro lado, as ameaças de origens inconscientes, a vaidade, o renome através da consideração pública.


 HERÓIS   GREGOS   

Os heróis de Homero “viveram” entre um período histórico que vai do Heládico recente ao início do Arcaico. Na escala dos metais, faziam parte da chamada idade do bronze, um período da civilização que veio depois do chamado período calcolítico. Todo o período do bronze é conhecido pelo desenvolvimento da tecnologia desse metal, o bronze, essencial para a civilização grega desse período, período situado entre o fim do neolítico e o começo do arcaico, dominado pelo ferro.

Os guerreiros que participaram da guerra de Troia eram responsáveis pela confecção de suas próprias armas, sendo muito usados na Ilíada o substantivo khalkos  (bronze), e o adjetivo khalkeion (brônzeo) embora Homero, que viveu na idade do ferro, se traísse, usando vez ou outra o substantivo sideros (ferro), como na passagem (Ilíada, IV) em que faz a descrição da flecha de Pândaro, com ponta de ferro, que fere Menelau.

Ficamos espantados até hoje quando tomamos conhecimento das características das armas ofensivas e defensivas usadas na Ilíada, designadas indistintamente pelo vocábulo teukhos (equipamento, utensílio). Chama nossa atenção, por exemplo, quanto às armas ofensivas, as lanças, os dois tipos, um chamado dory e outro enkhos. O primeiro tipo era pontiagudo e brilhante, bem menor diante do outra. Idomeneu, porque gostava de usar essa lança,  era conhecido pelo apelido de douriklytos (o famoso pela lança dory). A outra lança chamava a atenção pelo seu tamanho, pois “projetava a sua sombra longe”. A lança de Heitor, por exemplo, tinha onze
TEXTO  DA  ILÍADA
côvados, o que equivale  a mais ou menos sete metros de comprimento. A lança de Aquiles, pelo seu peso, não podia ser manejada por ninguém a não ser ele. Quando Pátroclo, que era fortíssimo, tentou usá-la, não conseguiu, faltou-lhe braço para tanto. Esta grande lança do Pelida fora um presente de Kiron a Peleu, pai do nosso herói.  Muitos heróis da Ilíada gostavam de usar junto de sua espada (xiphos), na cintura, uma espécie de facão, de grande punhal (makhaira), que tanto servia para fazer cirurgias como sacrifícios. 

Os combates da Ilíada privilegiam a luta corpo-a-corpo. Há bem menos referências a lutas travadas a distância. Entre os aqueus, por exemplo, Teucro, irmão bastardo de Ajax Telamônio, embora sobrinho de Príamo e tendo participado ao lado do irmão junto dos gregos, era um exímio arqueiro. Na Ilíada, entre os arqueiros, sempre considerados negativamente,  indignos,  sem ardor, podemos citar Pândaro e Páris.  

Famosas na Íliada eram as couraças (thorakes) como armas defensivas, feitas de bronze (khalkeothorekon). A mais famosa era a de Aquiles, fabricada por Hefesto, “mais brilhante que os raios de fogo”. Outra couraça famosa foi a que Agamemnon ganhou de Ciniras, rei de Chipre, profusamente decorada. Os gregos davam o nome de mitra a um cinturão largo. Quando em combate, davam preferência a um tipo especial chamado zoster, que cobria a parte inferior da couraça. 


AQUILES  ,  O   HERÓI

Homero sempre usou para descrever as armas dos heróis da Ilíada uma adjetivação extremamente favorável: “armas nobres e ilustres”, “armas belas”, “armas policromadas, esplêndidas”, “armas brônzeas”. As armas do Pelida eram “extraordinárias (pelotia), admiráveis (thauma), belas (kala), nobres (aglaa)”. O escudo (aspis) do Pelida, por exemplo, era uma obra de arte: dele faziam parte cinco camadas, duas de bronze, duas de estanho e uma de ouro. 

Além da proteção da cabeça, do peito e dos braços, os heróis homéricos usavam uma proteção para as pernas, as chamadas grevas (knemides), uma armadura de metal, composta de placas, que iam do joelho até os pés. As belas grevas de Aquiles, fabricadas por Hefesto, eram feitas de estanho, com fivelas de prata. Para a proteção da cabeça, os heróis usavam o elmo (korys), um capacete feito geralmente de bronze, enfeitados com penachos de crina de cavalos. O penacho do capacete de Aquiles era dourado. 

Depois da morte de Aquiles, as suas armas  deveriam ter sido entregues ao melhor dos guerreiros aqueus depois dele. As armas seriam, então, de Ajax Telamônio, o melhor, excetuando-se Aquiles. Todavia, as armas foram entregues a Ulisses, o que provocou a ira do Telamônio. A competição entre Ulisses e Ajax pelas armas do Pelida foi vencida pelo primeiro, mais por causa da sua eloquência do que pelos seus méritos bélicos. Os chefes gregos que as destinaram ao rei do Ítaca levaram mais em consideração mais o discurso de Ulisses do que as suas virtudes (areté), as suas habilidades no campo de batalha. A prevalecer estas últimas, as armas deveriam certamente ter ido para as mãos do Telamônio. Desta areté, lembre-se, faziam parte, para o herói homérico, não só a vitória, ou seja, a morte do inimigo como o ação de despojá-lo de suas armas, belíssimas no geral, e de ultrajar o seu cadáver. 

A fim de se ter uma ideia de conjunto da Ilíada, para estudo, acho interessante fazer um resumo dos cantos, antes de se explicá-los, com a expectativa de que esta seja a primeira camada de uma leitura que ao correr dos anos vá se estratificando de modo a que novas camadas possam não só ir se depositando sobre a anterior, mas completando-a, alargando-a, consolidando-a e jogando-nos noutras direções. Acredito que já tenha sido possível perceber que a leitura (o estudo, melhor dizendo) dos poemas homéricos é algo que demanda vontade, tempo e persistência.  O estudo dos temas e sub-temas que dele fazem parte se constitui certamente num projeto que se inscreve naquilo que os antigos chamavam de erudição e que lembra também o que entendemos por esotérico. A erudição nos lembra algo que vai se formando, se construindo, e, como tal, é algo que não se realiza nunca. Já o esoterismo aponta para o que é reservado ao interior, a poucos; por isso, por oposição ao exotérico, o que, do primeiro, pode ser difundido no exterior, sempre bem menos do que naquele se contém, se aprofunda e exige. Por isso, o exotérico é acessível a um público bem maior, no geral apenas curioso e diletante. 

ODISSEIA , EDIÇÃO  DE  1815
Cabe ainda lembrar que um bom número dos antigos estudiosos gregos das duas epopeias dividiram-se em dois grupos, os unitários e os separatistas. Os primeiros sempre achando que os dois poemas haviam sido escritos por um mesmo poeta (ou por um mesmo grupo). Os outros eram partidários daqueles que atribuíam uma autoria diferente aos poemas. Para estes, A Ilíada seria efetivamente um poema histórico, épico, ou seja, homérico, enquanto a Odisseia seria mais um romance (o primeiro romance escrito), mais fantasioso, “romanesco”. Unitários ou separatistas, cada grupo, ao longo dos séculos, sempre defendeu o seu ponto de vista com muita garra, recheando-o de muitos argumentos, dados e citações. Já ao tempo dos antigos gregos, observe-se, dava-se o nome de corizontes aos defensores do ponto de vista separatista, do verbo grego chorizein (separar).