quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

DOENÇAS, NOMES, SUPERSTIÇÕES

                   
As doenças têm nomes e apelidos. Chamar uma doença pelo seu nome verdadeiro pode causar prejuízos, atraí-la, diz uma tradição popular encontrada em muitas civilizações desde a antiguidade. Aqui, entre nós, não se deve dizer, por exemplo, morfeia ou lepra, mas, sim, doença-de-são-lázaro.  Às vezes, o apelido é usado para encobrir a vergonha de se ter o mal. Os moços, outro exemplo, podem se orgulhar de ter gonorreias, umas depois das outras. Já os casados ou os mais idosos se referem à gonorreia como “doença de mulher”, “doença apanhada” ou “loucura da mocidade”. 

No geral, a esse artifício que usamos para suavizar palavras ou expressões da nossa comunicação verbal ou escrita, alguns estudiosos dão o nome de eufemismo. Esta palavra vem do grego eu (agradável, correto, bom) e pheme (palavra, expressão); juntas elas formam o verbo euphémein (dizer palavras amáveis).

LUCAS
Chamar a lepra de doença-de-são-lázaro é, contudo, um erro que a tradição popular vem mantendo, pois o Lázaro a que ela se refere nunca foi canonizado pela Igreja católica. Era ele o pobre mendigo, todo coberto de chagas, que vivia junto da porta da casa de um homem muito rico, conforme está no Novo Testamento, em Lucas. O Lázaro canonizado, santo, é o irmão das três Marias  (Maria Madalena, Maria, esposa de
LÁZARO
Cleofas, e Maria, mãe de Tiago. Este  Lázaro, a quem Jesus ressuscitou, veio no séc. I não só com as três Marias mas, também, com Marta, irmã de João, e outras pessoas, da Palestina para Marselha, cidade da qual  ele se tornou o primeiro bispo, sendo nela martirizado,  celebrando-se sua festa no dia 25 de maio. Esta história, tida  como fantasiosa por meios católicos mais sérios, nada tem a ver com a do outro Lázaro, o leproso, narrada por Lucas. 



AS  TRÊS   MARIAS ( ANTÔNIO BRILLA , 1813 - 1891 ) 

Em muitos meios sociais, um dos nomes mais evitados, quando se fala de doenças, é, por exemplo, o da sífilis, mal infeccioso transmitido principalmente por contacto sexual. Suavizando um pouco o nome e o que ele representa (possibilidade de ulcerações, cancros, erupções cutâneas, manifestações neurológicas etc.) comum chamá-la de doença francesa, porque muitos eram (são) vitimados quando de suas visitas a bordéis, que sempre gozaram de muita fama por causa de suas “profissionais” francesas.

GIROLAMO  FRACASTORO
O nome sífilis surgiu, já associado ao sexo desprotegido, quando da publicação de um poema latino, Syphilis sive morbus galicus (Sífilis ou a doença francesa), de autoria de Girolamo Fracastoro (1483-1553), médico do Concílio de Trento, poeta e astrônomo de Verona. Syphilis era o nome do principal personagem do poema, nome que desde então passou a designar a famosa doença, a ele se juntando outros, também ligados às prostitutas, como mal turco, mal polaco, mal napolitano etc.

Há que se lembrar também quando entramos nesta questão dos nomes das doenças que eles se impuseram, no geral, como eufemismos, bem antes das descobertas da microbiologia. O nome de muitas doenças infecciosas e de epidemias, durante séculos e séculos, era atribuído ao que os antigos gregos chamavam de miasmas, exalações pútridas que emanavam de animais ou de vegetais em decomposição. A palavra miasma vinha do verbo mainein, manchar, sujar. A propósito, uma curiosidade: é desse mesmo verbo que sai a palavra amianto (a, do grego, prefixo privativo), que significa puro, incorruptível. 

Eis alguns exemplos de eufemismos (apelidos) ligados ao nome de doenças, de males ou  de fluxos e secreções corporais na nossa tradição popular: desmantelo, regras menstruais;  nascida, espinha, tumor, furúnculo; passageira ou caseira, dor de barriga com diarreia; veias quebradas, varizes; sete couro, infecção que aparece no calcanhar e que precisa ser cortada (a epiderme) sete vezes para se obter a cura; ar do sol, congestão; dor de veado,  dor no baço, também chamada dor na passarinha; barriga fofa, a tem a pessoa que está obrando “água” ou obrando vermelho, diarreia com sangue; pustema, coisa ruim, ferida inflamada; constipação, problema intestinal que causa a retenção de fezes, prisão de ventre; papeira, bócio, distensão do tecido adiposo  debaixo do queixo causada geralmente por problemas tereoidianos; traseiros sujos, diarreia; gastura, indisposição estomacal, azia; sezão, maleita; gota-serena, catarata; tosse comprida, coqueluche; mal do monte, erisipela; ventosidades, gases intestinais, também chamados de flatos; empachamento, obstrução intestinal; mal-de-sete-dias, tétano umbilical, mal de recém-nascidos; nó nas tripas, vólvulo; puxamento, asma, bronquite; consumpção, mal dos peitos, hética, magrinha, a que seca, tuberculose; mal-do-monte epilepsia; sangue novo, urticária; doença de mulher-dama, blenorragia causada por meretriz; ranho, muco que se acumula nas fossas nasais e que escorre; mal de amores, doença venérea; espinhela-caída, aparece quando o doente muda de posição, de postura, com fortes dores na região torácica, inclusive vômitos. Estar de paquete, estar a mulher no seu período menstrual. 
PAQUETE
Tal expressão foi adotada popularmente no Rio de Janeiro, espalhando-se depois por outros estados brasileiros. A origem desta denominação se deve a uma comparação que o povo passou a fazer entre o tempo que os navios ingleses (Royal Mail Ship) levavam para cumprir, em meados do séc. XIX, a viagem entre Liverpool e o Rio de Janeiro, 28 dias, e o período do catamênio, (etimologicamente, descida da Lua, menstruação) da mulher, também de 28 dias.  


Muitos estudiosos consideram, entretanto, que esse costume de usar muitos eufemismos, muitos apelidos de doenças, no caso, não passa de uma forma disfarçada de hipocondria, uma espécie de patologia que leva também a pessoa a acreditar que, mesmo sem nenhuma evidência
CULTO  AOS  MORTOS
médica aparente, uma doença qualquer poderá vitimá-la. Muitas são as hipóteses, dizem os psicólogos, que tentam explicar esse comportamento, desde um histórico de doenças graves numa família, cujos nomes devem se tornar impronunciáveis, por isso, à criação de falsos sintomas para chamar a atenção de pais omissos, pouco afetivos, à mania de fazer exames médicos, medo da morte, atração por cemitérios, culto exagerado aos mortos (necrodulia) etc. 

A propósito, lembre-se que a essa tendência de se proibir que certas palavras ou expressões sejam pronunciadas ou grafadas dá-se o nome de tabuísmo, de tabu, proibido. Oriunda da Polinésia, a palavra tabu lá designava tudo a que se atribuía um caráter sagrado (objetos, lugares, seres etc.), cuja violação, desprezo ou inobservância causava punições divinas. Entrando na língua inglesa, a palavra espalhou-se pelo mundo, fazendo hoje parte do vocabulário de muitos países. Entre nós, há muito, muito tempo, usávamos também a designação de tabuísmos para palavras, locuções ou acepções consideradas vulgares, pornográficas, chulas, grosseiras ou ofensivas demais, destacando-se, dentre elas, o que chamamos de palavrões. Os tabuísmos são parentes próximos da chamada coprolalia (copro, fezes, e lalia, tagarelice, do grego), mania de falar sobre coisas nojentas.  


ABDOME
Os antigos médicos gregos da tradição hipocrática chamavam de hypocondrias, no plural, cada uma das duas partes laterais e superiores do abdome, separadas pelo epigástrio.  O hipocondríaco (hipo, abaixo e khondros, cartilagens) era o indivíduo que sofria por causa de suas vísceras, as quais lhe davam um humor triste e caprichoso; era o hipocondríaco o que se atormentava ao pensar na sua saúde. Hoje, a hipocondria é considerada como uma psicopatologia que certos indivíduos desenvolvem quando se preocupam demais com a sua  saúde, preocupação esta que os leva a apresentar inclusive sintomas de doenças sem razão médica alguma. Em suma, ainda segundo os gregos, eram tais indivíduos vítimas da nosomania (nosos, doença, e mania, obsessão, loucura, excitação, em grego), os chamados nosômanos, que só pensavam em doenças, na morte, em túmulos, nos objetos a ela ligados, nos ritos que davam fim a um cadáver...

EMBALMERS
Pelo seu caráter compulsivo, obsessivo, a hipocondria, muito estudada inclusive no século passado por Freud e Lacan, hoje considerada, somente pelos psiquiatras, é uma patologia e, como tal, tratada só por psicoterapeutas. A hipocondria costuma se manifestar, muitas vezes, com fortes traços paranoicos e com várias fobias, sendo as mais comuns a tanatofobia (Thanatos, em grego deus da morte, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, mais phobia, horror, medo) e a necrofobia (nekros, morto, cadáver), ambas gerando um medo mórbido com relação à morte e a tudo o que a ela se refira. Dentre os vários exemplos de hipocondríacos ligados a essas fobias, cite-se, por exemplo, Albert


Camus (1913-1960). Uma leitura sua, obrigatória, era a da revista americana Embalmers Monthly, destinada aos profissionais da arte de embalsamar cadáveres. Se quisermos mais, podemos ir à última peça de  Molière (1622-1673), Le Malade Imaginaire (O doente Imaginário), na qual o nosso genial autor parece ter se antecipado às teses hoje defendidas pela anti-psiquiatria (Thomas Szasz). 


PARANOIA
(JACK LARSON, 1928-2015)
Já a paranoia, para o homem comum, é delírio,
THOMAS  SZASZ
loucura. O discurso paranoico é cheio de inferências indevidas, de analogias absurdas. No grego, há a palavra
paranaos, demente. Etimologicamente, a palavra é formada por para, à margem, ao lado, e noein, pensar, do grego. Pensar, ficando à margem do normal. Causa a paranoia, como todos sabemos, muitas dificuldades nos relacionamentos, ciúmes, mania de perseguição, tendências esquizoides, mania de grandeza, exageros com relação a sentimentos amorosos. 

Se formos um pouco mais fundo nessa questão, não podemos esquecer que em muitas das antigas tradições religiosas como a hinduísta, a egípcia ou a judaico-cristã encontramos o registro de que as coisas do mundo e os seres que nele habitariam foram retirados do nada por certas palavras. Um dos exemplos mais conhecidos exemplo é a muito divulgada expressão bíblica Fiat lux. Para
PTAH
os defensores desta tese, as palavras e seus componentes, letras e sílabas, segundo as expressemos, têm vibrações, variadas frequências, podendo nos afetar de muitas maneiras e materializar coisas, doenças, inclusive, como se disse. Esse entendimento, por exemplo, já estava firmado na antiga religião egípcia, a alguns milhares de anos antes da era cristã. É neste sentido que  Ptah era considerado pelos egípcios como um  demiurgo. Foi ele quem com as suas palavras fez emergir do oceano primordial (caos), o Nun, na cosmogonia menfitana, as coisas e os seres que iriam constituir e povoar o universo. 

Alargando ainda um pouco mais o nosso enfoque, podemos recorrer a um tema muito próximo daquele acima exposto para lançar um pouco mais de luz (ou confusão) ao assunto ora abordado. Referimo-nos à superstição. Para muitas pessoas o medo da morte e de usar palavras que do seu universo façam parte não passa de uma superstição de gente ignorante. É de se lembrar ainda que essa palavra, superstição, é sempre empregada pejorativamente pela maioria das pessoas que dela se valem. Qual a razão disso? Serão as superstições rematadas besteiras? 

DE NATURA DEORUM
Em latim, temos superstitio. Cícero (De Natura Deorum) usou a palavra para designar a pessoa, o superstitiosus, que rezava sem cessar para que seus filhos vivessem mais que ele. Mais tarde, ainda na antiguidade, a palavra passou a designar aquele que ficava acima de qualquer coisa, além dos acontecimentos, por uma crença nos deuses, uma crença, porém, sempre impregnada de perplexidade e de inquietações. Dicionaristas (De Walde), bem mais tarde, afirmaram que superstitiosus  era aquele que se colocava acima dos homens e de seu tempo, como um vidente, um profeta, para perceber o futuro.  

Outra hipótese, mais moderna talvez, nos afirma que a superstição aparece muitas vezes quando os homens, depois de todos os seus esforços e recursos (experiência, ciência, análise, reflexão crítica e capacidade previsora), na tentativa de compreender alguma coisa, de elucidar algum problema, “sentem” ou têm a tentação de admitir a intervenção de forças ocultas, mágicas, que os impedem de ficar plenamente convencidos dos resultados a que chegaram.  É por essa razão que muitos supersticiosos, ao contrário do homem religioso, tentam se apropriar egoisticamente dessas inexplicáveis e intrometidas forças.  


FRANCIS   BACON
Foi um filósofo, Francis Bacon (sécs. XVI-XVII) que nos deixou este registro: evitar superstições é também uma superstição. Na Idade Média (até o século XIV), a palavra superstição designava o culto de falsos deuses. Na época no Iluminismo (Rousseau, Diderot) e mesmo antes, com Voltaire, a palavra era a antítese da razão, significando tudo o que fosse irracional, inclusive os dogmas da religião oficial, a católica. Hoje, os dicionários não mudaram o entendimento, mas evitam mencionar que dogmas religiosos sejam irracionais. Alinhando-se com a fé, o fanatismo e a intolerância, o dogma, já entre os antigos gregos,  era uma afirmação que, julgada boa, não admitia discussão. O dogma parte de uma certeza preexistente, opondo-se, por isso, a qualquer crítica.  Registram hoje os dicionários que são superstições as crenças que não têm por base a razão e o conhecimento científico, crenças que nos levam a crer em falsas obrigações, a temer certas coisas, a respeitá-las ou confiar em absurdos.

Entretanto, qualquer que seja a nossa posição com relação ao tópico central acima (pronunciar o nome de certas doenças pode “atraí-las”), entendemos que explorá-lo sempre nos trará algumas revelações sobre o nosso passado e/ou sobre a evolução dos nossos
FEUERBACH
costumes. Ao fazê-lo, temos que entrar obrigatoriamente no terreno das superstições,  da fé, do dogma e das crenças, seja num ideal, numa religião ou numa pessoa,  e também do que sejam conhecimento e saber. Será que a ciência e o seu produto, o conhecimento, podem resolver todos os problemas humanos? Foi o filósofo alemão Feuerbach quem, em 1841, nos deixou esta observação sobre o assunto: a fé não poderá se relacionar senão com o que não existe, pois o que existe é objeto de um saber real. A fé escapa do saber, do conhecimento.

Há muito, muito tempo que o ser humano se recusa a acreditar no acaso, palavra que vem do árabe, az-zahr, dado, jogo de dados. Acaso é acontecimento fortuito, de causa imprevisível, cujo desenvolvimento não se pode prever. Para o homem comum é contingência pura, embora a ciência não aceite a indeterminação pura. O que constatamos realmente quando enveredamos por esse terreno é que desde a pré-história a realidade percebida não basta ao ser humano, apesar dos avanços científicos. E que, além disso,  sempre afirmaram nossos ancestrais, há sempre em atuação no universo  forças maléficas ou benéficas, visíveis ou invisíveis. 

Pelo que as investigações histórico-arqueológicas, antropológicas e outras vêm nos fornecendo ao longo dos milênios parece estar suficientemente comprovado que o homem primitivo, ao levantar os olhos para o céu, foi tomado por um sentimento de religiosidade, isto é, de estar a ele ligado. Esse homem logo percebeu que sua vida dependia, em grande parte, do que o céu lhe enviava, e muito mais.  Faziam certamente parte desse sentimento tanto o terror como a veneração, um reverente respeito, e a necessidade de se prestar ao céu e às forças que lá atuavam algum culto, alguma adoração. Em suma, o que se tem de mais certo, é que o homem primitivo manteve sempre uma relação afetiva com o céu. Se as forças celestes atuavam favoravelmente, facilitando-lhe a existência, ele agradecia com cantos, festas e celebrações. Se, ao contrário, as forças celestes provocavam prejuízos e traziam sofrimentos, cabia-lhe fazer alguma coisa para reverter essas tendências, sacrifícios, oferendas, lamentos etc. Tudo isto se considerarmos que da vida desse homem primitivo, além da onipresença da morte, faziam parte inúmeros terrores representados pela fome, pelos ataques dos predadores, pelas secas, pelas tempestades, pelas inundações, pelas pestes, pelas doenças etc. 

Nas chamadas sociedades primitivas, o homem procurava explicar os acontecimentos do mundo natural nos quais se via envolvido através de um modo de pensar a que se deu o nome de animismo. O homem atribuía uma intenção a cada acontecimento, considerando-o animado por espíritos bons ou maus. Quanto aos espíritos bons, as forças positivas, era preciso aprender a se conciliar com eles; quanto às forças negativas, os espíritos maus, fazer tudo para afastá-los, mantê-los à distância. Este animismo deu origem primeiramente ao que se chamou de feitiçaria, magia, xamanismo etc. Aos poucos foi se integrando a estas práticas um processo de fetichismo, um culto prestado a objetos que representavam as entidades espirituais e que, conforme se acreditava, possuíam poderes mágicos. Com o tempo, ocorreu a chamada personificação, ou melhor, a antropomorfização. As forças sobrenaturais em ação no universo foram divinizadas a elas se atribuindo, além do seu poder sobrenatural, características comportamentais e modelos de pensamento dos seres humanos. Chegamos assim às diversas religiões, politeístas ou monoteístas. 

Nas sociedades primitivas nas quais o animismo ocupou uma posição importante, central, tiveram grande importância determinados atos rituais pelos quais certos “técnicos” (feiticeiros, mágicos, xamãs etc, acima mencionados) procuraram controlar as forças que nelas atuavam. Para os modernos estudiosos, antropólogos, arqueólogos, psicólogos e outros, dominava esse mundo o chamado pensamento mágico. Em algumas sociedades,
ÉDOUARD  BRASEY
certos rituais, festas, histórias, dogmas e tradições, ainda que considerados irracionais, foram se fixando, impondo-se, acabando por constituir as religiões (do verbo religare, em latim, religar), que vivem de dogmas e da fé, não da razão. Como procuram nos explicar alguns estudiosos destas questões, (Édouard Brasey, (França, 1954, escritor), quando, milhares, milhões de pessoas aceitam (?) e compartilham (?) as mesmas crenças, os mesmos dogmas, os mesmos preceitos e princípios, o que temos então são atos de fé e de comunhão e não mais superstições. A superstição passa então a se situar no plano do individual, é um investimento pessoal, que cada um faz, um ato que varia no tempo e no espaço, de acordo com  a cultura de cada sociedade. 


Nada demais, pois, que continuemos, como os nossos ancestrais, a aceitar as suas (nossas) boas superstições: nunca derrubar o saleiro, espalhando o sal pela toalha; jamais abrir um guarda-chuva dentro de casa; evitar reuniões marcadas para um dia 13, principalmente se caírem numa sexta-feira; não acompanhar nunca a passagem de cometas no céu, sempre um presságio de coisas negativas; para ter sorte, continuar com a nossa ferradura  de sete furos pendurada na parede; proteção? colocar réstias de alho atrás das portas; nunca ter falta de dinheiro? Andar sempre com um pequeno pedaço de metal no bolso, na bolsa (esta foi recomendada por Freud à sua noiva); um guizo de cascavel (não importa quantos) é amuleto que protege contra coisas ruins.

ALADIM NO JARDIM ,
1912 ( M. LIEBERT )
Lembrar que o amuleto protege, é defensivo, e que o talismã dá força, é ativo; ambos devem ser, contudo, devidamente preparados por “gente” que entenda do assunto, por “técnicos”. Um bom exemplo de talismã? Certas palavras que funcionavam como uma senha (semeion) para permitir o ingresso de iniciados (mystai, plural de mystes, iniciado) nos recintos das chamadas “religiões de mistério” da antiga Grécia, nas quais se discutiam conhecimentos esotéricos, só passados aos membros do grupo e por eles discutidos, dando-lhes mais “força”. O contrário de esotérico é exotérico, conhecimento (mínimo) que pode ser levado para o exterior, passado para pessoas que não sejam do grupo. Outro exemplo de talismã (aumento de força, convocação de entidades que auxiliem no desempenho mental e físico): a lâmpada de Aladim. Mais um: a palavra Shazam, usada nas histórias do Capitão Marvel.   














segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DEUSES GREGOS: TRANSCENDÊNCIA E IMANÊNCIA


DEUSES GREGOS
  
ARISTÓTELES
É preciso colocar de início para que as ideias fiquem bem claras que a mitologia grega, quanto à cultura ocidental, se inscreve na chamada tradição imanentista por oposição à transcendentalista. Sem nos
KANT
perdermos em maiores discussões sobre esta questão e sua repercussão na Filosofia, de Aristóteles à  Escolástica  e desta  a Kant e aos existencialistas, entendemos que o imanentismo  se caracteriza simplesmente por  tudo aquilo que procede de um ser como expressão do que ele traz em si, de sua participação no mundo e de suas relações com os outros seres humanos. 

Imanente vem do latim, in, em, dentro, e manere, permanecer, ficar, ou seja, aquilo que está no interior de um ser. A moral é imanente, por exemplo, quando decorre da vida social e tem relação com os homens e com os acontecimentos do mundo. No mito, a imanência nos fala da ação do divino (modelos superiores de existência criados pelos humanos) em nosso mundo, sendo-lhe intrínseca; os deuses dele participam, fazem parte de nossa vida, estão na natureza e inspiram as produções superiores do espírito humano, têm a ver com as nossas ações, a nossa arte, a nossa literatura, a nossa música, a nossa poesia como com os nossos crimes e
JUNG
pecados. Os antigos gregos colocaram em seus deuses a totalidade da existência, toda a sua complexidade e diversidade. Aparecem-nos eles assim como modelos de existência, para o bem ou para o mal, são paradigmas, aquilo que alguns chamam de arquétipos ou, melhor, são os revestimentos primários dos arquétipos da cultura ocidental, segundo uma tradição que remonta a Platão, a Fílon de Alexandria, ao Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a Santo Agostinho e, modernamente, a Jung.

A mitologia grega, para a cultura ocidental, como representação das forças que operam no universo, foi penetrando tudo. Acabou por se tornar a fonte de muitas alegorias  que alimentam as grandes

metáforas de muitos filósofos, místicos, cientistas, artistas, poetas, músicos, fazendo parte inclusive do cotidiano do homem comum ao invadir o léxico de várias línguas. Lembremo-nos do que Platão fez com Eros no seu diálogo O Simpósio quando, através de Sócrates, estabelece uma nova gênese do deus para  falar do amor homossexual. Ou, então, daquilo que Édipo significou para Freud na construção da sua Psicanálise ou, ainda, de como a crônica do titã Prometeu se encaixa à perfeição quando falamos de lutas contra a tirania ou do roubo de segredos científicos.


CERES (WATEAU, 1684-1721)
Quanto ao homem comum, a língua e a mitologia greco-latina estão presentes quando comemos cereais (Ceres), nectarinas, ambrosia, quando calçamos sapatos vulcanizados, ou colunas de mercúrio sobem e descem para medir as temperaturas do nosso corpo (termômetros). Vemos filmes épicos, dramáticos, eróticos; afrodisíacos melhoram o desempenho sexual; deuses (Urano, Plutão,
TÂNTALO
( GOYA , 1746 - 1828 )
Hélio, Selene) viraram elementos químicos (urânio, plutônio, hélio, selênio etc.) e um criminoso da mitologia grega deu nome a um dos metais mais valorizados do mundo, mais que o ouro, o tântalo. Utilizado em telefones portáteis, computadores pessoais e eletrônicos automotivos, o tântalo também é usado para fazer ferramentas de metal para usinagem e para a produção de superligas para componentes de motores a jato.


PÂNICO ( O  GRITO , EDWARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Personagens da mitologia grega,invadiram a Psicologia para dar nome a complexos ou síndromes (complexos de Zeus, de Cronos, de Héstia, de Electra ou síndromes do Pânico (do deus Pan), de Medeia. A palavra economia vem do grego (oikos, casa, habitação, mais nomos, lei, ou seja, é, na origem, a lei,  são as regras da casa) ou foram os deuses e heróis para o mundo das finanças para
AQUILES E AJAX (VASO GREGO)
designar o poder oculto do dinheiro (plutocracia) ou acabaram em prateleiras de supermercados como  sabão em pó (Ajax, herói grego, que é vendido como o furacão da limpeza). Foi o maior dos heróis gregos, Hércules, que no seu décimo primeiro trabalho (A limpeza dos estábulos do rei Augias) que inventou a propina. Os mitos e seus personagens estão em livros de Medicina dando o nome a doenças (satiríase, priapismo, erisipela, mercurialismo, saturnismo). Damos o nome de calcanhar de Aquiles a um ponto fraco em nosso corpo. Se mais quisermos  é só abrir os dicionários  e lá os encontraremos: morfina (Morfeu), hermético (Hermes), ciclópico (Ciclopes), tantalizar (Tântalo), nefelibata (Nefele), etérico (Éter), hemeroteca (Hemera), narcótico (Narciso), carisma (Cárites), bacanal (Baco), letargia (Lethe), museu (Musa), hipnose (Hipnos), oniromancia (Oniro). Quase toda as doenças e males que nos atingem são “gregos”: osteopenia, anemia, osteoporose, leucemia, pneumonia, prostatite, rinite, câncer, hidrocefalia, escoliose, psicopatia, nevrose, encefalite etc.  


HESPÉRIDES  ( HANS  VON  MARÉES , 1837 - 1887 )

Ampliando um pouco mais a nossa abordagem, indo noutra direção, tomemos, por exemplo, o universo semântico (possibilidades significativas) que Nix, a deusa da noite, com alguns de seus filhos ou personagens que com ela se apresentam, nos oferecem. É Nix uma das entidades cosmogônicas, nascida do Caos, como está em Hesíodo. Na ordenação cósmica cabem-lhe as trevas superiores, opondo-se ao Érebo, as trevas inferiores, estas as camadas intermediárias do Hades. Nix habita o extremo-ocidente, além da região das Hespérides, as ninfas do poente, suas filhas;  lá tem o seu palácio, de onde só sai quando Hemera, o dia, seu filho, se retira. A região onde  Nix tem o seu palácio, lembremos, é o lugar onde a luz morre. No interior da palavra ocidente esconde-se a raiz cad, que encerra a ideia de tombar, cair; daí, queda da luz, ocidente. Foi para esta região, vizinha do Hades, que se encaminhou Ulisses quando resolveu interrogar as almas dos mortos (nekyia) na esperança de obter informações sobre o seu caminho de volta  para Ítaca. O ocidente , se por um lado lembra declínio, decadência, como lugar noturno e satânico, sinistro, à esquerda, é o lugar das grandes-mães em todos os mitos, e nos diz, por outro, que ele é também o lugar da fertilidade, da fecundidade, lugar da obscuridade, das confidências, da discrição, do entendimento. 


HEMERA
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Retirando-se Hemera, o dia, e mergulhando o deus solar Hélio no oceano ou escondendo-se atrás dos montes, Nix começa  sua viagem pelos céus; vai no seu carro puxado por cavalos negros, com seu vasto manto salpicado de estrelas, franjado de infinito, como diz o poeta. Para muitos, quando ela estende o seu manto, são as horas das trevas, sempre perigosas. O intervalo entre os dois crepúsculos, o vespertino e o matutino, mais o seu ápice, a meia-noite, são as chamadas horas abertas, horas dos acontecimentos maléficos, em que demônios, fantasmas e espectros atuam livremente, principalmente nas encruzilhadas. Por sua representação espacial, a encruzilhada propõe múltiplas possibilidades, sugere mudanças, abandono de um caminho por outro. Para tomar o caminho certo temos que enfrentar as criaturas perniciosas  que do lugar  se apossaram como forças do caos, temos que reverenciá-las sempre, vencer os nossos temores, as nossas projeções imaginárias.  

NIX
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Nix é tanto ausência de luz quanto escuridão misteriosa, risco de desvios, confusão de distâncias, anulação de evidências. Mas Nix é também protetora dos úteros, das cavernas e das grutas, dos lugares de nascimento e de renascimento.  A não ser que Pothos, a saudade, interfira , porque saudosos não dormimos, Nix  libera  seu filho Hipnos, o sono, que, baixando o seu tridente sobre as nossas pálpebras, traz o sono reparador. Qualquer que seja a sua representação, como um jovem segurando uma papoula ou  uma espécie de cornucópia a gotejar o sono sobre os que dormem ou (melhor ainda) se ele vier com seu filho  Morfeu, o sonho, na forma de Hypar, o sonho premonitório. 

Há ocasiões em que Nix pode retardar a chegada de seus filhos para  favorecer a reflexão, a meditação raciocinada, colocando-se entre a proposta que nos fazem e a decisão que precisamos tomar, evitando precipitações, ensinando serenamente, generosamente. É nesses momentos  que ela toma o nome de Eufrone, a benfazeja, a benevolente, ou de Eulalia, a boa palavra, a mãe do bom conselho. Duas filhas de Nix poderão, contudo, aparecer se Hipnos não vier ou demorar muito para chegar: a irritante Éris, a discórdia, e Apate,
MORFEU
o engano, sempre desagradáveis e perturbadoras. Quando Morfeu, o de mil formas, vem como Oniro, o sonho enganador, Nix deixa de ser benfazeja. Agora, então, à nossa volta, animais fabulosos, luzes espantosas, gritos, gemidos, monstros, abolição do tempo e do espaço. Oniro, com a sua infinita capacidade de mudar de forma, faz surgir personagens como Iquelos  (aparência de realidade), Fobetor  (terrível, assustador), Fantasos (fenômenos enganadores) e muitos outros...                                                

FERNANDO  PESSOA
Os poetas e músicos têm especial predileção  por  Fílotes, a ternura, um dos filhos de Nix. Muitos escreveram ou compuseram sobre este sentimento noturno cujo nome vem do verbo grego amar e que entre os latinos  se liga  ao tenro, ao terno, ao delicado. Fílotes é aconchego, proteção, afago, delicadeza. Fernando Pessoa nos deixou  em Ficções do Interlúdio  (Álvaro de Campos), ao pedir que a Noite viesse, uma ideia  muito  clara desse sentimento noturno: Vem, e embala-nos, vem e afaga-nos.
BAUDELAIRE
Beija-nos silenciosamente na fronte, tão levemente na fonte que não saibamos que nos beijam senão por uma diferença na alma. Ou lembremo-nos de como Baudelaire, com o seu Recueillement, pede à sua dor que ela se tranquilize quando uma atmosfera obscura envolve a cidade, trazendo a uns a paz e a outros, o cuidado. Em ambos a esperança de que  Nix venha com Fílotes.



CHOPIN
( DELACROIX , 1789 - 1863 )
São certamente de Fílotes as composições musicais, vocais ou instrumentais, depois sobretudo pianísticas  sem forma especial, de caráter melancólico, triste para alguns,  a que deram o nome de noturno. Peças de atmosfera às quais Chopin, mais do que qualquer outro compositor, tem seu nome ligado. Abandono, solidão, um pedido de socorro... São também desse filho de Nix as chamadas berceuses, canções para fazer as crianças pegarem no sono, ritmo que lembra o balanço delicado de um berço. Para os povos de língua inglesa é a conhecida lullabay. Entre nós, é o acalanto (mitigar, acalmar, aquietar, calar), como Mário de Andrade registrou em Macunaíma, ao pedir que Acutipuru devolvesse o sono ausente da criança.
           
SELENE

Antes as trevas, depois a luz, é a sentença latina (Post tenebras lux), o que se torna válido tanto  para as cosmogonias como para o nosso processo de individuação. Importante destacar que Nix por isso é também vista como algo que devemos atravessar. As travessias noturnas são fortemente marcadas pela presença da Lua, a luz noturna, olho de Nix, que entre os gregos toma, dentre outros, o nome de Selene. Embora associada à doçura, à brancura, à proteção e à generosidade, lembrando em muitas tradições as velhas madrinhas, o poder maléfico de Selene pode ser tão grande quanto os bens que prodigaliza. O ferido por ela chama-se lunático, palavra que na antiguidade e ainda hoje em certas sociedades é sinônimo de epiléptico (agarrado, raptado por cima). Não esqueçamos também que aluado designa o que nasce com perturbações tanto psíquicas (amalucado) quanto físicas, o que nasceu fraco, raquítico, o que não tem coluna vertebral (rhakhis) boa. Tudo isto porque da Lua depende tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta, brotos, crias, ervas, gemas, grelos, rebentos, embriões. É neste sentido que a Lua aparece como deusa das passagens, das travessias, funções que se ampliarão e se fixarão melhor na figura de Ártemis, deusa lunar do panteão olímpico.


HESÍODO
Outra que aparece com Nix é Hécate (a que fere  distância), também  representação lunar como Selene. Vinda de um mundo pré-olímpico, Hesíodo, em sua Teogonia, dá-lhe grande destaque, certamente por ser agricultor além de poeta. Hécate representa os mistérios da noite, todos os seus sortilégios, sua magia, seus encantamentos. Deusa ctônica, dividia o poder sobre as encruzilhadas com o deus Hermes, o deus dos caminhos. Personificava as três fases visíveis da Lua, recebendo, por isso, o nome de Triforme ou Trívia, além dos de  Curótrofa e Enódia, a que faz passar e a dos caminhos. 

Baixava Hécate nas encruzilhadas a cada vinte e oito dias mais ou menos, na Lua nova (ausência de lua no céu). A Lua nova, como se sabe, é tempo de germinações espontâneas, indica que algo vai surgir. Daí um outro nome seu, Numênia, a primeira Lua. Simboliza fecundidade, fertilidade, redes e pomares cheios. Na Alquimia, a Lua nova tem a ver com a primeira etapa da obra alquímica, a nigredo. O séquito da deusa era formado por espectros, fantasmas, demônios, que aterrorizavam os que paravam nas encruzilhadas. Do séquito de Hécate participavam também  cães, éguas e lobas. Os cães, sobretudo, eram muito caros à deusa já que era pelos latidos deles que se anunciava a sua chegada. Fazem também parte do séquito da deusa, às vezes, entidades repulsivas  como a Empusa e a Lâmia, monstros dos terrores noturnos, ligadas aos mundos maternal e infantil. 


HÉCATE  ( WILLIAM BLAKE , 1757 - 1827 )

As almas errantes também faziam, às vezes, parte do cortejo da deusa, almas daqueles que não tinham tido morte ritual, razão pela qual  ficam a perambular pela terra. Hécate tinha, dentre as suas funções, a de estar sempre presente quando a alma entrava e saía do corpo. Daí ser deusa das almas dos mortos. Quando vinha à terra ficava a passear  nos cemitérios entre as tumbas, carregando consigo, em meio a gemidos e ranger de dentes, as almas sedentas, com suas longas vestes. Ao lado dos alimentos que lhe eram oferecidos, sempre juntos da deusa a copa e o cântaro. 

Em muitas tradições místicas, como no Sufismo, bastante comuns as imagens da viagem noturna. Para se chegar ao desejado estado de contemplação é necessário fechar as passagens dos sentidos físicos para que os espíritos, mais profundamente, possam operar com liberdade. É a chamada Noite Mística: barrar as impressões dos sentidos (esperanças, medo, emoções, sentimentos, etc.) para se chegar à luz interior. Para S. Juan de la Cruz, o famoso místico carmelitano, entrar na noite é o caminho da ascese,  a noite escura da alma: Oh! Noite que me guiaste! Oh! Noite mais amável que a alvorada! Oh! Noite que juntaste Amado com Amada, Amada já no Amado transformada (Canções da Alma).


S. JUAN DE LA CRUZ ( BECERRA , 1520 - 1570 )


TÂNATOS
Mais radical que Hipnos é seu irmão gêmeo Tânatos, a morte, também conhecido como sono eterno, o que tem alma de ferro e coração de bronze, inacessível à piedade, como diz Hesíodo. As representações terríveis de Tânatos, ao longo da história grega, é bom lembrar, admitiram sempre um lado “positivo”, digamos, na medida em que este filho de Nix significava transição para uma outra vida, acenava com possibilidade de renascimento. Se figuras sinistras como as Keres ou Eurínomo a ele se associavam  havia também a imagem dos Campos Elíseos. As Keres,  filhas de Nix, deusas lúgubres, sempre sedentas de sangue, atacavam os moribundos nos campos de batalha, como Homero nos deixou  no canto XVIII da Ilíada. Quanto a Eurínomo, o monstro escuro que devorava as carnes dos cadáveres, registre-se que é criação artística posterior. Polignoto, o pintor, o coloriu de azul, ao executar suas composições murais sobre temas mitológicos, que Pausânias e Plínio descreveram. Mesmo as Moiras, as donas do fio da vida,  também filhas de Nix, ligadas  a Tânatos, nunca chegaram  a ser representadas  de forma repulsiva ou hedionda. É claro que não podemos perder de vista as contribuições órficas e pitagóricas, já no período helenístico, que suavizaram bastante o tema da morte. 



UM  FIO  DE  OURO ( JOHN  MELHUISH  STRUDWICH , 1849 - 1937 ) 

Ao lado do caráter inexorável, iniludível, da ação das Moiras, Tânatos sempre foi visto como uma espécie de véu que se interpunha entre o morto e a luz, uma espécie de nuvem negra. Olhos que se fechavam, pálpebras baixadas, um ato de compaixão, quase. Um benfeitor especial que trazia o descanso e aliviava as dores. O que sempre se destacou quanto às Moiras, mais do que uma ideia de um inimigo físico foi a de que tanto simbolizavam as três etapas da vida humana: nascimento (Cloto), duração (Láquesis) e morte (Átropos), como a impossibilidade de sabermos de antemão o nosso destino. Uma fatalidade, sim, mas também uma liberação, um acesso, uma revelação. Daí, muitas representações de Tânatos como um belo jovem, como que a dormir, recostado numa árvore, uma tocha apagada ao lado. Ou, como em muitas outras representações, uma coluna partida, uma vela de barco arriada, uma corrente quebrada. Em alguns casos, esculpida na pedra, junto, uma borboleta, a indicar crenças reencarnacionistas. Atenuavam-se as representações violentas de Tânatos, como, por exemplo, as que o faziam semelhante a  Bóreas, o terrível vento hibernal do norte.


MOMO
Próxima de Éris, a Discórdia, estava outra  filha de Nix, Momo, a zombaria, o sarcasmo. Sua ocupação era a de ridicularizar as ações divinas ou humanas, com exceção as de Afrodite, nas quais  não encontrou nada que pudesse ser ridicularizado. No canto II (86) da Odisseia, lá está ela nas palavras de Telêmaco, filho de Ulisses. Momo marcou sua presença  na mitologia grega de modo espetacular ao se tornar a inspiradora da guerra de Troia a Zeus como recurso para a diminuição da densidade demográfica, insuportável àquela altura conforme queixas da grande-mãe Geia. Já Geras, a  velhice, outra filha, a angústia do efêmero, era uma triste divindade. Sempre representada por uma velha mulher, de túnica negra, um bastão de apoio retorcido numa das mãos; na outra, uma taça vazia; ao lado, uma clepsidra quase esgotada

PÍNDARO
Na divisão dos bens do universo, couberam aos humanos, por sua própria culpa, muitos males e misérias, embora, como dizia Píndaro nas Nemeias, deuses e humanos tivessem uma mãe comum. As atividades humanas ficaram restritas a limites impostos pelos deuses. Ultrapassá-los, era ofendê-los. Ofendiam os humanos aquilo que os gregos chamavam de Nêmesis,  grande divindade, filha de Nix, que personificava a justiça distributiva. Mais ainda: admitiam também os gregos que,  por mais rico e poderoso que fosse um homem, os deuses, talvez por inveja, poderiam sujeitá-lo a uma punição. A fortuna demasiada era um insulto aos deuses, sentimento que fazia parte do culto a Nêmesis. A deusa recebia  também o nome de Adastreia  (a da qual não se pode fugir, a necessidade).  Nêmesis marcava os limites dentro dos quais deveriam se distribuir as ações humanas. Não é por outra razão que a Moira é chamada de Aisa, parte igual, o “pedaço” de vida assinalado a cada um de nós.

Os deuses gregos  interferem na vida dos mortais, os efêmeros, os nascidos para um dia; dela participam, misturam-se, chegam facilmente à  promiscuidade, têm paixões, fazem sexo, muitos são declaradamente homossexuais. De outro lado e ao mesmo tempo são imortais (athanatoi), imperecíveis, imputrescíveis, sublimes. Vivem no Éter, gerado por Nix, a camada superior do cosmos, acima da Lua, região da luz eterna. Seu modo de viver é o de um banquete sem fim (thaleia). Difícil compreender, inaceitável mesmo, se não tivermos em mente o caráter imanentista da mitologia grega, que os deuses e sua entourage sejam ao mesmo tempo imortais, isentos de preocupação e de cuidados, estes típicos dos humanos, vivendo numa situação de satisfação sem carências, possam chegar na sua convivência ou envolvidos com mortais a tantas situações de perigo, de risco, de degradação e de vexame. Verdades ou poesia? Sólon já havia observado  que muito mentem os poetas. Xenófanes foi mais claro e Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que entre os homens é vergonhoso e censurável, roubo, adultério e logro mútuo. Por isso, Platão certamente proibiu a entrada de Homero no seu  Estado ideal...


JAVÉ
Na tradição imanentista , as divindades não ficam fora da existência humana, distantes e inacessíveis como um Javé-Adonai, nem a transcendência é transferida para uma outra vida, para o além, fora dos limites da experiência possível. A transcendência é colocada no aqui e no agora, nesta vida, tornando-se algo histórico. Os deuses gregos vão representar o possível dessa transcendência, salientando a importância da existência humana no que ela tem de irredutível. São a consciência permanente que temos de tomar do nosso destino pessoal na medida em que nos arrancamos a cada momento do nada para abrir adiante um futuro onde nossa existência se decidirá. 

Representam assim as divindades gregas os possíveis de nossa transcendência, que não é lançada para uma outra vida, cabendo-nos a escolha ou, se quisermos, a perplexidade diante das várias  possibilidades que tipificam. São eles  em nosso mundo princípios
KIERKGAARD
vitais que nos animam e não algo que vem de fora. A imanência é o momento pelo qual nós, refletindo sobre a nossa existência, experimentando, quem sabe, um sentimento de angústia diante dela; chegamos por nós mesmos ao “divino” ou ao “demoníaco” da divindade que “vive” em nós. É neste sentido que a transcendência só pode se dar pela existência (Kierkgaard).

sábado, 18 de janeiro de 2020

SOB O SOL DE SATÃ

                                                                        (Literatura e Cinema)     


Quando Maurice Pialat (1925-2003) optou, em 1987, por um tema démodé para enfrentar o júri e o público de Cannes, ele, para alguns profissionais do cinema, correu um risco calculado. Seu filme, Sob o sol de Satã, tendo por base o romance de mesmo nome de Georges Bernanos, competiu, mais diretamente, com os mais cotados nesse ano,  no 40º Festival de Cannes: Asas do Desejo (Win Wenders), A Família, de Ettore Scola, Olhos
SOB  O  SOL  DE  SATÃ
Negros,
de Nikita Mikhalkov, e Yeelen, de Souleymane Cissé. Presidiu o Júri desse festival o francês Yves Montand, famoso cantor e ator francês, muito conhecido por suas atividades políticas de esquerda. Patriotada ou não, o que ficou desse festival, com a vitória de Pialat, highly controversial, como disseram os americanos, foi não só um grande filme, o
ROBERT  BRESSON
excepcional Sob o sol de Satã (comparável, sob certos aspectos, com a obra-prima de Carl G. Dreyer, A Palavra), e o que chamo da necessidade de se conhecer melhor um grande romancista francês. Ainda ligando Bernanos ao cinema não se pode esquecer dos premiadíssimos  filmes Diário de um Pároco de Aldeia, de 1951, e de Mouchette, a Virgem Possuída, de 1967, dirigidos pelo grande Robert Bresson. 

No final dos anos 80, muito se falou e escreveu sobre o filme de Pialat, os cinéfilos, obviamente.  Quanto a Bernanos e ao seu romance, nessa época do festival de Cannes, praticamente nenhuma referência. Só recentemente, nos primeiros anos do nosso século, Bernanos pode se tornar mais conhecido aqui no Brasil por um público maior; alguns de seus livros foram traduzidos e editados e a história dos anos em que aqui viveu foi contada. Minha dívida pessoal para com ele era, porém, mais antiga. Conhecia-o desde os anos 60, inclusive pelo teatro. Reafirmando-se cada vez mais para mim a impressão que dele guardara (a denúncia quanto à desaparição da vida interior e a transformação dos seres humanos em verdadeiras boiadas pelo sistema econômico), tudo isto e muito mais me levou de volta ao livro (Sob o sol de Satã) e ao filme de Pialat, que já nos deixou também.


GEORGES   BERNANOS
Bernanos nasceu no dia 20 de fevereiro de 1888, em Paris, e morreu em Neuilly-sur-Seine em 1948. Pelo lado paterno, a família era de pequenos comerciantes (o pai era tapeceiro) e pelo lado materno de camponeses. Passou a infância e a juventude em Artois, na região norte do país, região que será o cenário de suas principais obras. Seus primeiros anos de vida são muito marcados pela religiosidade do ambiente familiar e escolar. Na juventude, politicamente, tornou-se um monarquista convicto. Participou da primeira guerra mundial (1914-1918), sendo ferido muitas vezes.

OS  GRANDES
CEMITÉRIOS SOB A LUA
Por falta de recursos materiais, por anti-conformismo e também por gosto pessoal, tornou-se desde cedo um fervoroso adepto da motocicleta como meio de transporte cotidiano. Em sua obra Os Grandes Cemitérios sob a Lua evocou bastante as suas incursões de moto através da ilha de Majorca, durante a guerra civil espanhola, referindo-se à sua moto vermelha que roncava como um pequeno avião.

Católico fervoroso e apaixonado monarquista, Bernanos militou, desde cedo nas fileiras da Action Française. Às vezes designada simplesmente pela sigla AF, a Action Française foi tanto uma escola de pensamento, de ideias, como um movimento político
O   JORNAL
monarquista de extrema-direita que se desenvolveu na primeira metade do século XX, na França. Esse movimento, ao terminar a segunda guerra mundial (1939-1945), por ter apoiado o regime de Vichy e por causa de sua cumplicidade com os invasores nazistas não teve mais condições de sobreviver. O jornal Action Française, órgão do movimento, deixou de circular, tendo sido proibida a utilização de seu título.

Em 1917, Bernanos se casou com Jeanne Talbert d’Arc (1893-1960), uma descendente da família da heroína francesa Jeanne d'Arc (1412-1431), tornando-se pai de seis filhos e trabalhando numa companhia de seguros. Financeiramente, sua vida era difícil, agravada a sua situação pela saúde da mulher, muito frágil.Terminada a guerra, na qual foi ferido muitas vezes, Bernanos retornou ao seu lugar de jornalista na AF e se tornou colaborador do jornal Le Figaro, o que levou a um sério atrito com um dos fundadores e principal figura da AF, Charles Maurras. Bernanos, por essa época, também demonstrou publicamente seu descontentamento pela linha política que a AF vinha adotando.

Rompendo com a Action Française, com problemas financeiros agravados, descontente, resolveu ir com a família para a ilha de Majorca e passou a adotar, com entusiasmo, a motocicleta como seu meio de transporte. Foi nessa ilha que viu o franquismo nascer e estourar a guerra civil espanhola. A princípio, apoiou a política de Franco, mas logo se desiludiu, com a selvageria das tropas franquistas e a hipócrita posição do clero espanhol.

SOB O SOL DE SATÃ
Em 1926, Bernanos publicou o seu primeiro romance, Sous le Soleil de Satan (Sob o Sol de Satã), inspirado na vida do Cura d’Ars, obra que lhe deu o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa, e que imediatamente se transformou num grande sucesso de crítica e de público. Obtendo um pouco mais de folga financeira, pode Bernanos a partir de então  se dedicar inteiramente à literatura, publicando, em cerca de vinte anos, uma obra sui generis. 

Foi nas ilhas Baleares, onde residia, que tomou conhecimento da posição dos países ocidentais com relação à política externa da Alemanha nazista. Com a ascensão de Hitler ao poder e devido às suas pregações nacionalistas, os alemão que habitavam os países vizinhos se sentiram muito atraídos pela possibilidade de fazer parte da chamada Grande Alemanha. Ou seja, os territórios onde vivessem alemães, nos países vizinhos, passariam a fazer parte do território alemão. Em março de 1938, Hitler já havia anexado parte da Áustria, tornando-a uma província do Reich. A Alemanha hitlerista estava tentando conquistar parte do território da Tchecoslováquia do mesmo modo, a chamada Sudetolândia, região tcheca habitada em grande parte por alemães (cerca de 70%). Hitler começou a exercer forte pressão sobre o governo tcheco. O perigo de uma guerra tornou-se iminente. 

O primeiro-ministro inglês, Neville Chamberlain, conservador, e Daladier, presidente da França, propõem encontrar-se com Hitler em Munich. Assim é feito, celebrando-se um acordo, do qual participa a Itália, com Mussolini. Os alemães, sob a promessa (não cumprida) de que não declarariam guerra, obtêm o de acordo da Inglaterra, da França e da Itália, para anexar a referida região tcheca ao seu território. Esse acontecimento convenceu Hitler de como os aliados ocidentais estavam débeis e o estimulou a obter mais. Em março de 1939, a Tchecoslováquia deixou de ser um país independente, transformando-se no Protetorado da Boêmia e Morávia da Alemanha.


CRUZ  DAS  ALMAS , ATUAL  MUSEU  BERNANOS
Revoltado e envergonhado com a posição da França e da Inglaterra, diante da pressão alemã, Bernanos resolveu seguir o caminho do exílio, defendendo publicamente a sua posição. Pretendeu inicialmente fixar-se na América do Sul. O local escolhido para exilar-se com a família era o Paraguai, mas acabou ficando no
STEFAN  ZWEIG
Brasil, onde chegou acompanhado da mulher, dos filhos e de um sobrinho. Dirigiu-se primeiro para Itaipava, no estado do Rio de Janeiro, instalando-se depois em Vassouras (RJ), Pirapora (MG) e Barbacena (MG). Por indicação de Virgílio de Melo Franco, fixou-se em Cruz das Almas (Barbacena), onde recebeu, em 1942, a visita de Stefan Zweig, pouco antes de seu suicídio. 

No Brasil, Bernanos escreveu Les Enfants Humiliés (As Crianças Humilhadas), Lettre aux Anglais (Carta aos Ingleses), Le Chemin de la Crois-des-Âmes (O Caminho de Cruz-das-Almas) e La France contre les Robots (A França contra os Robôs). No Brasil, terminou também Monsieur Ouine (O Senhor Ouine), que publicou na França em 1945. No Brasil,  Bernanos, se relacionou com muitos escritores, chegando mesmo a influenciá-los consideravelmente. Aqui, manteve estreitas relações com  Jorge  de
Lima, Alceu de Amoroso Lima, Henrique Hargreaves, Virgílio de Melo Franco, Augusto Frederico Schmidt, Álvaro Lins, Geraldo
LIVROS  DE  S. LAPAQUE  E  DE  H.J. SARRAZIN
França de Lima e Hélio Pelegrino, dentre outros. Esta fase brasileira de Bernanos foi registrada por Sébastien Lapaque no livro Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945). Outro registro foi o de Hubert Jacques Sarrazin, no livro Bernanos no Brasil (Editora Vozes).

Dentre outras obras de Bernanos traduzidas para o português, destaques para: Sob o Sol de Satã, Diário de um Pároco de Aldeia, Diálogo das Carmelitas, Nova História de Mouchette, Os Grandes Cemitérios sob a Lua, Joana, Relapsa e Santa, Um Sonho Ruim.

BRASIL, TERRA DE AMIZADE
Como jornalista, Bernanos participou intensamente da vida política francesa. Mesmo exilado no Brasil, seus artigos eram publicados na Europa. Deu grande apoio à Resistência Francesa e se colocou inteiramente contra o governo francês de Vichy, pró-nazista. Ao retornar à França, depois de terminada a segunda guerra mundial, Bernanos continuou, nômade como sempre, mudando-se de uma cidade para outra (mudou-se cerca de quarenta vezes ao longo de sua vida). O general Charles de Gaulle, que nutria por Bernanos uma grande admiração tanto pelo homem como pelo escritor, ao assumir o governo do país, propôs que ele assumisse uma função importante no seu ministério. Embora admirador das posições políticas de de Gaulle, Bernanos nada aceitou, assim como também rejeitou por três vezes a comenda da Légion d’Honneur e uma cadeira na Academia Francesa. 

Como ler Bernanos? No fim do século XIX e início do século XX, um aspecto da literatura francesa chama a atenção; tratava do declínio da influência religiosa, do cristianismo, em especial, na arte, muito presente até então. Em 1905, por decisão legal, o catolicismo deixou de ser a religião oficial do estado francês.Terminada a primeira guerra mundial, a questão religião-literatura voltou a ser discutida pela intelectualidade francesa. A calorosa acolhida que o romance Sob o Sol de Satã, de 1926, mereceu da crítica e do público pôs a questão de novo na ordem do dia, já que a França sempre foi e continua sendo o país onde se lê mais literatura de nível mais elevado.

No início dos anos 20, o movimento surrealista procurava também o seu lugar como proposta estética, tanto nas artes plásticas como na literatura. O surrealismo foi um movimento de vanguarda do qual fizeram parte artistas plásticos e escritores que procuraram romper com o racionalismo, por eles julgado limitador, redutor, a
BRETON   E   
MANIFESTOS   DO   SURREALISMO
fim de liberar a “vida do espírito” e captar o “maravilhoso” no cotidiano. O interesse mais imediato do movimento se centrava na produção de uma literatura do inconsciente, de base onírica, cuja finalidade, em parte, era a de ultrapassar a realidade da guerra. Em 1924, André Breton, grande nome da poesia, publicou  O Manifesto Surrealista, definindo as bases do movimento, que logo se irradiou pela Europa e pelos USA.

A primeira guerra mundial deixou marcas profundas na sociedade europeia, tornando-se bastante representativa uma corrente literária voltada para temas a ela ligados, com obras muito significativas, algumas premiadas (prêmio Goncourt). Quando, nesse cenário, o livro de Bernanos apareceu, grande era o debate literário envolvendo críticos, religiosos, leitores, filósofos e escritores. Foram precursores desse debate grandes nomes da literatura francesa que desde os últimos anos do século XIX haviam se convertido ao cristianismo, escritores como Paul Claudel, J.K. Huysmans e outros. No início do século XX, esse movimento em direção de conversões religiosas aumentou com a adesão de Francis Jammes, Jacques e Raissa Maritain, Max Jacob e outros. Gabriel Marcel, filósofo (fenomenologia) e dramaturgo, publicou a sua
FRANÇOIS  MAURIAC
peça L’Homme de Dieu, em 1925, convertendo-se oficialmente ao cristianismo em 1929. Julien Green, por essa época, abandonou o protestantismo pelo catolicismo. François Mauriac, que se tornara famoso com a publicação de Deserto do Amor, Thérèse Desqueyroux e Le Noeud de Vipères, voltou também à fé cristã.

A mais importante revista literária da época, a Nouvelle Revue Française, criada em 1909, conhecida pela sigla NRF, tornou-se uma arena de debates sobre a febre religiosa que tomara conta de algumas correntes literárias francesas, motivada principalmente pelos problemas sociais e psicológicos gerados pela guerra de 1914-1918. Entre o início dos anos 1920 e o início da segunda guerra mundial (1939-1945), Jacques Maritain manteve em sua casa o que alguns chamaram de o último salão de conversão. O abade Altermann, que celebrava aos domingos, em Paris, a missa dominical na Igreja dos Beneditinos, tornou-se o diretor de consciência de muitos escritores católicos dessa época. A teologia de Santo Tomás de Aquino voltou a ser discutida e muitos críticos literários, dentre os quais destacam-se Jacques Rivière e Albert Thibaudet, procuram debater os novos rumos da espiritualidade cristã na literatura.


ANDRÉ  GIDE
Por essa época, André Gide (1869-1957), simpatizante dos movimentos políticos de esquerda, depois de ter publicado Os Frutos da Terra, A Porta Estreita e Os Moedeiros Falsos, passou a ser considerado como um mestre por toda uma geração de jovens escritores. Em 1921, ele fez uma série de palestras, muito concorridas, num teatro de Paris, com base num ensaio que escrevera sobre Dostoievski. Esse teatro, chamado de Vieux-Colombier, funcionava como uma espécie de anexo da NRF.


  THÉÂTRE  DU  VIEUX-COLOMBIER 
Gide, nessas palestras, enunciou dois aforismos, logo tornados célebres e relacionados com a obra de Bernanos, aforismos que causaram muito escândalo: 1) É com bons sentimentos que fazemos a má literatura; 2) Não há obra de arte sem a colaboração do Demônio. Na sua quinta conferência, Gide discorreu sobre a existência do Demônio, no mais das vezes considerado pelos religiosos e pelos protestantes em particular como um simples conceito do Mal. Gide afirmou que o Demônio existia realmente, que o Maligno era um ser pessoal. Ele assinalou que o Demônio afetava o intelecto do homem, a sua parte mais nobre, e que ele agia sobretudo sobre os artistas enquanto estavam a elaborar a sua obra: toda obra de arte é um lugar de contacto, ou, se preferirem, um anel de casamento entre o céu e o inferno, dizia ele.

Vários escritores responderam a Gide. Um deles foi Henri Massis, também crítico literário,diretor de publicações da editora Plon, que tinha entre seus colaboradores Jacques Maritain. Massis era católico e um nacionalista convicto, discípulo de Maurras. Massis, com farta argumentação, acusou Gide de opor valores confusos, que só rebaixam o homem, a ideais clássicos e cristãos que, ao contrário, só o elevam. Jacques Rivière, então diretor da NRF, que fora atacado por Massis, e o escritor François Mauriac entraram também no debate. Ambos, embora não tivessem acatado totalmente os pontos de vista de Gide, não aceitavam o epíteto de demoníaco gideano. O que se sabe é que os meios intelectuais se agitaram bastante com aquilo que, para muitos, não passou de uma provocação de Gide. Foi neste ponto que George Bernanos entrou no debate, primeiro para concordar com Massis e depois, enquanto rompia com a Action Française e Maurras, se colocar totalmente contra ele.


BARBEY D'AUREVILLY
Publicado em 1926, pela editora Plon, Sob o Sol de Satã, seu primeiro romance, coloca Bernanos, como disse André Malraux, na linha de Barbey d’Aurevilly, mas acima deste, o que não é verdade, se aprendemos a conhecer a obra deste curioso e fascinante escritor. Nascido em 1808 e falecido em 1889, Barbey d’Aurevilly foi romancista, novelista, poeta, crítico de literatura, jornalista e polemista; aproximou-se de temas como o sobrenatural, o dandismo, o catolicismo, o decadentismo e o realismo fantástico. 

Segundo o próprio Bernanos afirmou, Sob o Sol de Satã é um livro nascido da guerra. Ele começou a escrevê-lo durante uma estada em Bar-le-Duc, em 1920, pequena cidade situada no noroeste da França, no departamento da Meuse, na região da Lorraine. Segundo ele, nesse momento, o mundo lhe oferecia uma face odiosa, o que o fazia duvidar se viveria por mais tempo, mas que não queria morrer sem dar o seu testemunho.


SANTO CURA D'ARS
O personagem principal do livro é o abade Donissan, inspirado no Santo Cura d‘Ars. Este santo é Jean-Marie Baptiste Vianney (1786-1859), padre francês canonizado pela Igreja Católica. É considerado o padroeiro dos sacerdotes. Oriundo de uma família de camponeses, conta a tradição que para seguir a vida religiosa teve Vianney que enfrentar muitos dissabores, principalmente a sua falta de instrução, e inclusive a oposição paterna. Com o auxílio do pároco da aldeia, ele conseguiu, com vinte anos de idade, ingressar no seminário da região. Consta que a sua capacidade de raciocínio não era boa. Para os seus professores era considerado um rude camponês que não tinha capacidade para aprender matérias mais abstratas como filosofia e teologia. Entretanto, se tinha dificuldade para acompanhar os outros, era um modelo de obediência, de caridade e de perseverança na fé. 

Foi o seminarista Vianney ordenado em 1815, mas com o impedimento de não poder confessar, por não o julgarem apto para guiar consciências. Apesar disso, acabou conseguindo assumir a condição de confessor três anos depois, tornando-se  um dos mais famosos e competentes confessores na história da Igreja Católica. Foi designado para cura de Ars, ao norte de Lyon, uma pequena cidade cuja população, na sua maior parte de não-praticantes da religião, era famosa por sua violência. Aos poucos, por sua postura, conseguiu mudar a realidade da pequena cidade. Afastou os homens das tabernas e os atraiu para a Igreja, usando para tanto a confissão, que passou a ser muito procurada como um meio de reconciliação. Tornando-se famoso por seu trabalho, o padre Vianney, com a sua atividade e conselhos, atraiu também muita gente das pequenas cidades vizinhas. 

Na paróquia em que vivia, em Ars, o padre Vianney fazia tudo, inclusive os serviços da casa paroquial, a limpeza, as suas refeições. Comia muito pouco e dormia cerca de três horas por noite. Quando herdou bens da sua família, distribuiu tudo entre os pobres. A fama de sua generosidade e desprendimento alastrou-se por toda a região, tornando-se Ars um centro de peregrinação. Jamais descansou e morreu consumido pela fadiga na noite de 4 de agosto de 1859, aos setenta e três anos. 

O padre Donissan, como o constrói Bernanos, é um personagem atormentado; duvida de si mesmo, chegando até a se considerar como indigno de exercer seu ministério. Seu superior e pai espiritual é Menou-Segrais, que o vê de outro modo, como alguém com traços até de santidade, pois ele tinha, segundo acreditava, a capacidade de irradiar a graça divina à sua volta. Mais tarde, Donissan receberá  o dom de “ler as almas”, de nelas entrar, dom que lhe fora concedido quando de um encontro noturno extraordinário que tivera com o próprio Satã. Seu destino sobrenatural vai confrontá-lo com Mouchette, uma jovem que ele não conseguirá salvar apesar de seu engajamento total para que tal acontecesse.

MAQUIGNON
 O encontro do padre Donissan com Satã, sob os traços de um maquignon, acontece numa noite em que ele foi a uma vila vizinha, para confessar alguns de seus habitantes. Maquignon em francês quer dizer alquilador, contratador de animais, vendedor de cavalos, sendo figuradamente um corretor de negócios um tanto escusos. Maquignoner, o verbo, quer dizer traficar, enganar, dissimular os defeitos de animais negociados, obter lucros em negócios pouco lícitos.

A história se passa na mencionada pequena cidade do norte da França, onde o abade Menou-Segrais acolheu na  sua paróquia o jovem sacerdote Donissan. Atormentado por dúvidas sobre a sua vocação religiosa, tendo recorrido inclusive a mortificações, Donissan experimenta grandes dificuldades para dar conta das suas funções cotidianas. O seu superior, Menou-Segrais, por sua ascendência natural, consegue fazer com o que jovem sacerdote volte a entrar em contacto com a sua aspiração profunda, na sua busca espiritual.


Perto da paróquia, Germaine Malhorty, chamada pelo apelido de Mouchette, uma adolescente de 16 anos, filha de um fabricante de cerveja da região, levava uma vida desregrada, cheia de fantasias, tendo aventuras sexuais com homens mais velhos. Tornara-se amante do arruinado marquês de Cardignan, que passara a se desfazer dos bens que herdara; mantinha também a jovem relações com um médico casado e deputado, Mr.Gallet.


MOUCHETTE,  APÓS  MATAR  SEU  AMANTE
Certa manhã, depois de ter passado a noite na casa de seu amante, Mouchette o mata com um tiro de uma velha espingarda de caça, um gesto meio acidental, meio intencional. Grávida, ela fala de seu estado a Gallet. Cioso de sua posição social, ele tenta confortá-la, revelando que a sindicância sobre o ocorrido concluiu pelo suicídio de seu amante, mas se recusa a ajuda-la, fazendo um desejado aborto. Mouchette que vive cada vez mais assediada interiormente pela sua culpa, passa a viver cada vez mais à deriva. 

Enquanto isso, Menou-Segrais envia Donissan para prestar assistência aos fiéis de uma paróquia vizinha. É no caminho que o jovem padre encontra a estranha figura (maquignon) acima mencionada, que se revela como uma encarnação de Satã. Enquanto o jovem padre tenta resistir ao fascínio da inusitada presença, esgotado, ela lhe oferece o dom de ver o interior dos seres humanos.

Donissan vai depois, ciente do que estava se passando com Mouchete, encontrá-la, com a firme intenção de reconduzi-la ao reino de Deus. A jovem, contudo, tendo retornado à sua casa, com uma lâmina, rasga a própria garganta, suicidando-se. Donissan, perdido, nada mais pode fazer senão levar o corpo agonizante de Mouchette ao altar da igreja. Um gesto escandaloso, que dele vai exigir uma explicação, uma retratação.

PADRE  DONISSAN  E  MOUCHETTE
Sous le Soleil de Satan pode ser dividido em três partes: 1) uma introdução onde se narra a  história de Mouchette, a jovem orgulhosa e impulsiva que vivia atormenta pela presença do mal em sua vida. Matou o homem que a seduziu e ficou chocada com a fraqueza e a pusilanimidade do seu outro sedutor, o deputado e médico Gallet. O padre Donissan não conseguiu salvá-la do poder de Satã. Arrancando o ensanguentado corpo da jovem do ambiente familiar, como foi dito acima, o leva e o deposita no altar da Igreja. Este gesto, escandaloso, como se disse, lhe vale cinco anos de reclusão, depois dos quais é nomeado para cura de Lumbres, uma pequena paróquia de gente insignificante. 2) Considerado um santo pela população local, vamos encontrar, tempos depois, Donisson envelhecido, mas sempre humilde e angustiado. Ele acreditou no fundo, um dia, respondendo ao apelo de Deus, que, pelo milagre da fé, poderia ressuscitar uma criança morta. Nova oportunidade lhe aparece, mas uma explosão de riso nervoso lhe revelou que tudo não passava de uma artimanha do próprio Satã, a lhe insuflar o pecado do orgulho. A criança não ressuscita, a mãe enlouquece e Donisson experimenta na sua transtornada desorientação os primeiros sinais de uma lancinante dor no peito. Ele será descoberto, como se disse, em seu confessionário, morto.


Passa-se o tempo, Donissan está agora em Lumbres (palavra que lembra, em francês, ombres, sombras), um lugarejo para cuja paróquia fora nomeado. Adquirira a reputação de um santo sacerdote, por sua caridade e humildade. Um camponês de uma comuna vizinha o procurou então para que ele desse atenção ao seu filho, que agonizava, vítima de uma meningite. Ao se encaminhar para ministrar os últimos sacramentos à criança, algo diferente o esperava: a família e um padre que se encontravam na casa do camponês esperavam dele nada mais que um milagre, pois a criança morrera. Donissan, alarmado, põe-se em fuga, persuadido da vitória das forças do mal. Esgotado, suplica a Deus que lhe permita viver se Ele julgá-lo capaz de ainda poder ajudar os outros. Fracassa, morrendo em pleno confessionário, onde o abade Menou-Segrais, que viera visitá-lo, o encontrou.

Bernanos deu a dois personagens o nome de Mouchette. A primeira delas figura em Sous le Soleil de Satan (1926). É a orgulhosa adolescente vítima do egoísmo dos homens que a desejaram sem amá-la, o que a fez voltar o seu desprezo contra si mesma e a sua
COM  TREZE  ANOS
revolta contra a ordem estabelecida. A segunda Mouchette tem treze anos e aparece em Nova História de Mouchette (1937). Neste personagem, Mouchette, se encarnam todos os miseráveis que suportam as agruras do seu destino sem jamais chegar a compreender toda a infelicidade de sua condição. Mouchette não existe senão como um ser que sente, mas uma sensibilidade sempre aguda, profundamente sofrida, dolorosa. 

No prólogo de seu romance, Bernanos procura reunir alguns temas que lhe são caros para nos mostrar as vias comuns do pecado. A humanidade, como uma boiada (troupeau) inconsciente, frouxa, perdida nos seus mil cuidados cotidianos, mais preocupada em manter a sua honorabilidade aparente do que procurar seguir moralmente uma vida firme e sadia, pactua sem cessar com o mal a ponto de criar continuamente as estruturas dos seus próprios pecados e faltas. As almas amolecidas, anestesiadas pela indiferença, niveladas pela descrença, não percebem que mergulham pouco a pouco no nada. 

Mouchette, como Bernanos nos deixa claro, recusou essa vida morna e procurou levar uma vida ativa, exaltada, mas enganosa em sua revolta. Ao fim de sua caminhada, ela só encontrará o desespero, a loucura e o suicídio. Nestas condições, o que há para aqueles que como Mouchette se envolvem na vida dessa maneira, é a morte da alma, uma solidão desesperada. Bernanos nos aponta que Satã é o mestre da ilusão com relação ao fim último do homem, conduzindo-o na direção das aparências enganadoras e estéreis, sempre causadoras de insatisfação e, nos piores casos, da sua própria autodestruição.

Bernanos, ao procurar uma síntese no seu prólogo, nos põe diante de dois valores ilusórios, o realismo e o otimismo, que não podem ajudar a humanidade ferida pelo mistério do Mal, do pecado, e do necessário combate espiritual. Para ele, o realismo era uma visão horizontal da natureza humana; era a boa consciência dos salauds
A   NÁUSEA
(safados). Este termo, lembro, Sartre usará também para designar em sua novela La Nausée (A Náusea), aqueles que se iludem, assumindo uma máscara social, conformista e tranquilizadora, para negar os aspectos trágicos e angustiantes da existência, a obrigação das escolhas pessoais e intransferíveis. Os salauds sentem-se justificados, acreditam na ciência, não têm problemas, afivelaram a máscara e representam. São os habitantes de Bouville, observados por Roquentin, o personagem de La Nausée. 

Quanto aos otimistas, Bernanos nos fala (Os Grandes Cemitérios sob a Lua) que o otimismo sempre lhe pareceu como o álibi dissimulado dos egoístas, que  jogam para mais adiante os problemas com a finalidade de esconder a sua satisfação autocentrada. São otimistas porque tal postura os dispensa de intervir, de participar. Realismo e otimismo são para Bernanos duas justificativas satânicas que muitos homens usam para escapar do necessário combate. Para Bernanos, tal combate deveria ocorrer sempre no aqui e no agora, no que lembra Dostoievski. Ou seja, o homem não poderia encontrar a sua felicidade senão em Deus, mas sempre ao preço de um combate espiritual exigente no curso de sua existência. 

O nome Donissan, para alguns estudiosos da obra de Bernanos, parece evocar duas noções; primeiro, aquela de um dom; depois, a de algo que se consome. Donissan seria, pois, aquele que, ao se doar, vai se esgotando (uma imagem solar). Donissan , como seu modelo, o cura d’Ars, renunciou às possessões terrestres, mas guarda um sólido bom senso da realidade concreta. O misticismo, segundo Bernanos, deveria enraizar-se no mundo material, não sendo jamais um sonho vazio ou feito de pensamentos desencarnados. 

O sol de Satã é a ilusão do conhecimento racional que se atém às aparências, ao fenomênico, à superfície das coisas, sonho de poder, que não alcança o coração, os sentimentos dos homens. Neste sentido, o conhecimento humano se tornou para Bernanos um divertimento inconsequente, causador das misérias humanas, e não o dom que devemos fazer de nós mesmos na direção de alguém. 


PADRE   DONISSAN
 No personagem Donissan, Bernanos reuniu diversos valores do cristianismo que lhe eram caros. De início, lembremos o espírito de pobreza, ou seja, a liberdade com relação aos bens materiais e aos conformismos de toda espécie. Donissan desprezava o conforto dos bens materiais, renunciou à posse do que é meritório inclusive para um camponês. Este desapego é evidenciado por seu aspecto descuidado, pelos sapatos cambados que usa, por sua cama miserável, seu sótão nu. Acima de tudo, Donissan, perante o mundo social, o mundo dos “bem pensantes”, é um pobre de espírito, característica revelada por sua atitude expectante diante da vida; Donissan era o que “esperava” sempre um sinal, aquele que estava sempre na escuta de um eventual apelo. A pobreza de espírito é uma abertura, uma permanente disponibilidade. Donissan era humilde e se considerava vazio, condições para que Deus o viesse habitar. 

Alguns poucos críticos qualificados que leram Bernanos com atenção falaram do espírito de pobreza de Donissan como algo infantil, uma atitude desinteressada e natural com relação aos outros. É neste estado que as crianças têm acesso de modo espontâneo ao sobrenatural, pois conseguem perceber além das aparências. Donissan é chamado muitas vezes de criança (mon enfant) por seu diretor de consciência. Nele, estavam presentes as três virtudes teologais, fé, esperança e caridade. Embora se sentisse quase sempre sozinho na sua luta contra Satã, que queria corromper a sua fé e a sua esperança para mergulhá-lo no desespero, ele resistiu, para poder reafirmar o seu espírito infantil e conquistar esse estado que alguns chamam de santidade, à hora de sua morte. Este acesso se deu no momento em que ele pronunciou, ao morrer, um sim, definitivo para ele, através do qual reconheceu que não compreendia nada, mas que aceitava.

Para Bernanos, havia duas formas de exercício do ministério sacerdotal. Uma, a mais comum, era do funcionário do culto e a outra do aventureiro de Deus, o combatente espiritual. O mesmo ele dizia dos escritores: há os ilusionistas, os enganadores, de língua dourada, como dizia, e uns poucos, sacerdotes ou não, que entendem o que seja o Sol de Satã e por extensão quem é Donissan. A palavra destes últimos é difícil, eles muitas vezes, como o personagem do filme, gaguejam, não são eloquentes, prestidigitadores, mal sabem jogar com algumas palavras do seu cotidiano. São, porém, simplesmente simples, diretos, convincentes, olham nos olhos, falam pouco, quando não se calam. E isto é o que basta.