domingo, 4 de novembro de 2018

AQUÁRIO (3)


AQUÁRIO
(JOHFRA BOSSCHART, 1919-1998 
Os aquarianos de todos os matizes precisam saber que o arquétipo do demiurgo tem origem no mundo aquariano, tanto como o encontramos mais ou menos definido no léxico do homem comum, na filosofia ou na religião. A palavra demiurgo, como se sabe, é grega, formada por dem, demos, povo, e por ergon, trabalho. Ou seja, demiurgo é o que trabalha para o povo, um benfeitor, se quisermos, servindo o termo na antiga Grécia para designar não só o artesão, o médico, o inventor como o criador de qualquer obra de importância ou grandiosa que poderia ser usada por muita gente. 


PLATÃO
Foi Platão, no Timeu, quem pôs em circulação a palavra demiurgo na filosofia, para designar o artesão divino ou o princípio organizador do universo que, sem criar de fato a realidade, modela e organiza a matéria caótica preexistente através das imitação de modelos eternos e perfeitos (os chamados eide, de eidos, forma). Posteriormente, nas seitas cristãs de inspiração platônica e no gnosticismo, demiurgo será o intermediário de Deus na criação do universo, responsável pelo mal que há nele e que à divindade não poderá ser atribuído.

Não podemos, por isso, deixar de trazer para a nossa consideração o mito grego que melhor ilustra o que está acima, o de Dédalo e de seu filho Ícaro. É neste mito que encontramos os aspectos fundamentais que definem a dupla característica criadora do signo de Aquário, o impulso que pode salvar e o impulso que pode trazer a perdição. 

Dédalo foi um artesão ateniense, famoso como arquiteto, escultor, inventor  consumado, podendo ser considerado, dentre outras coisas, como um precursor da robótica. Seu nome significa engenho, obra-de-arte. Era filho de Eupalamos, nome que quer dizer aquele que é hábil com as mãos. Consta que, por ciúme, numa crise tipicamente leonina, matou um sobrinho, dotado de enorme capacidade criadora, sendo obrigado, por isso, a buscar o exílio em Creta.

SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE CNOSSOS


Acolhido por Minos, rei de Creta, tornou-se Dédalo o arquiteto oficial do reino, sendo responsável pela construção do Labirinto em Cnossos, gigantesco palácio constituído por um emaranhado de salas, corredores e subterrâneos. Foi nele que Minos mandou encerrar o Minotauro, monstro que sua mulher gerara incestuosamente ao se unir a um touro divino. Este animal fora enviado pelo deus Poseidon a pedido de Minos, um sinal divino que o confirmaria como único imperador de Creta, afastadas assim as pretensões de dois irmãos que com ele disputavam o trono. O animal foi enviado por Poseidon com a recomendação de que deveria ser sacrificado tão logo se mostrasse, resolvendo-se assim a  pendência. Minos, como sabemos, levou ao sacrifício um animal muito inferior, conservando o touro divino como reprodutor com o objetivo de fazer crescer ainda mais o seu grande rebanho e a sua incomensurável fortuna. 


LABIRINTO 

PASÍFAE  E  O  MINOTAURO
Os deuses puniram Minos, fazendo com que Pasífae, a rainha, concebesse uma paixão erótica irresistível pelo animal. Para consumar o seu intento, ela pediu a Dédalo que construísse um simulacro feminino do touro divino para que, entrando nele, pudesse se satisfazer sexualmente. Assim aconteceu, nascendo desse estranho conluio o Minotauro, monstro com corpo humano e cabeça de touro, que foi escondido nos subterrâneos do palácio. Minos, por sua vez, puniu Dédalo, que, sem consultá-lo, atendera ao que Pasífae lhe pedira, mandando-o para a prisão, juntamente com o filho Ícaro (etimologicamente, aquele se balança no ar), nascido de uma relação que mantivera, sem nenhum preconceito de classe, muito aquarianamente portanto, com uma escrava. 


ARIADNE, TESEU, MINOS
Outro ato lamentável de Dédalo com relação a Minos foi o auxílio que prestou à princesa Ariadne sem o seu conhecimento, fornecendo-lhe o famoso novelo de lã que seu amado, o herói ateniense Teseu, usou para se salvar do Labirinto, depois de matar o Minotauro. 

Deter um aquariano como Dédalo foi, sem dúvida, uma ingenuidade do rei, que subestimou a sua capacidade inventiva. Embora prisioneiro, Dédalo conseguiu fabricar, com penas de pássaros, entretela e cera, asas para si mesmo e para o filho, que presas às costas e acionadas pelos braços lhes permitiriam escapar da prisão. Ao filho fez a famosa recomendação: Não te aproximes demais do Sol; desconfia do teu entusiasmo ao voar, já que te sentirás tão livre e feliz nos céus como um pássaro que poderás correr o risco de chegar muito perto do Sol, fazendo com a cera de tuas asas derreta. Desconfia também do nevoeiro e da chuva fina se não quiseres que as penas de tuas asas, molhadas, se tornem muito pesadas e não mais sirvam para te transportar. Ícaro ouviu atentamente o pai, largou-se pelos ares, mas logo, vitimado pela conhecida embriaguez das alturas, aproximou-se perigosamente do Sol. As asas se despregaram de suas costas, caindo o jovem no mar, perecendo afogado. Em sua homenagem, o mar, na região de sua queda, passou a ser chamado de mar de Ícaro. 


ÍCARO  ( PETER PAUL RUBENS , 1636 )

Uma outra versão, porém, nos conta que, auxiliados por Pasífae, Dédalo e Ícaro conseguiram fugir de Creta, depois de ela ter se reconciliado Minos. Sabe-se por esta versão que pai e filho, cada um num barco, conseguiram sair da ilha em dias diferentes. Os barcos (modelos até então inexistentes) foram construídos por Dédalo, que para eles inventou uma vela especial. Ícaro, todavia, não conseguiu conduzir adequadamente a sua embarcação, que naufragou, morrendo afogado. Dédalo, por seu turno, perito na arte de navegar, conseguiu chegar a uma ilha desconhecida, nunca registrada antes em qualquer carta náutica. Em homenagem ao filho falecido, Dédalo a denominou Icária.

Dédalo refugiou-se a seguir na corte de Cócalos, rei da Sicília. Tomando conhecimento do local onde estava o genial inventor, Minos foi pessoalmente pressionar Cócalos para que Dédalo lhe fosse entregue. Mas o rei da Sicília a essa altura já havia sido conquistado pelo talentoso arquiteto, que construíra para ele uma cidadela inexpugnável na ilha, além de ter criado para divertimento de suas filhas soberbos autômatos, grandes bonecas que agiam como seres humanos. Diplomaticamente bem recebido por Cócalos, Minos hospedou-se no palácio. Convidado para um banho, o marido de Pasífae ao entrar na banheira real, mais uma pequena piscina, foi surpreendido por repentina mudança da água,que descia pela tubulação,em pez fervente, mais uma diabólica invenção do genial Dédalo. Outras versões, porém, muito malévolas, nos informam que foram as jovens e belas filhas do rei Cócalos que mataram Minos, pois não queriam, em hipótese alguma, abrir mão dos talentos do genial inventor que tanto as divertia com os seus mecanismos eróticos. Armaram uma festa, embebedaram Minos, e o afogaram na piscina. Um triste fim, sem dúvida, para um tão poderoso rei...


HERMES
Dédalo aparece no mito, acima de tudo, como um símbolo da engenhosidade e, como tal, é uma encarnação de certos aspectos do deus Hermes, o grande arquétipo no qual se concentram todas as características daquilo que chamamos de engenho, a capacidade de criar, produzir com arte e  habilidade alguma coisa, na qual podem entrar, nas expressões menores, o artifício, o estratagema, a astúcia, o provisório e mesmo o engodo. Lembremos em abono do que aqui que se coloca neste parágrafo que astrologicamente Mercúrio se exalta em Aquário, sendo inclusive regente do terceiro decanato do signo.

Há que se destacar, porém, como um traço importante da personalidade de Dédalo, com as implicações do arquétipo hermesiano, que ele, ao construir o Labirinto, deu simbolicamente forma a uma parte do psiquismo humano, àquilo que a psicologia chamaria mais de tarde de subconsciente. Segundo este enfoque, o labirinto teria relação com o fenômeno da vida psíquica que a psicanálise chamou mais tarde de recalque, mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ela ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. 

FIO DE ARIADNE
A palavra labirinto, todavia, faz parte de um campo semântico bem mais vasto. Numa leitura religiosa, serviria o labirinto para alegorizar o mundo como descaminho, como queda e perdição do espírito na dispersão e na perplexidade diante da vida fenomênica. A redenção só seria possível se fosse encontrado um meio de se sair dele (o fio de Ariadne). O labirinto pode servir também como a ilustração do mundo do erro, uma representação daqueles que vivem vegetativamente. Quando nascemos, entramos nele e nele permaneceremos, desorientados e aflitos, até que nos tornemos pessoas “cosméticas”, que nos voltemos para a luz, buscando uma posição na ordem cósmica. 


LABIRINTO  DE  CHARTRES
Em muitas tradições, a entrada no labirinto lembra também a viagem noturna do Sol. Mais: o labirinto pode representar o processo mental do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Em catedrais europeias, como a de Chartres, encontramos labirintos esculpidos na pedra do seu chão para representar a vida como peregrinação e as suas dificuldades. Os labirintos, nas catedrais, eram chamados de “caminhos de Jerusalém”, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. A arte barroca e a arte rococó, em muitos parques públicos e privados (castelos), principalmente na França, transformaram os labirintos, de esquemas relativamente simples, em verdadeiros dédalos (sinônimo de labirinto muito complicado para os franceses) de vegetação alta e espessa com o objetivo de divertir os seus visitantes. 

Miticamente, Dédalo é um dos mais ilustres representantes do signo de Aquário; de um lado, superlativamente, ele é o modelo mais bem acabado do inventor, do construtor, do artífice consumado; de outro, na sua expressão inferior, ele é o homem da bricolagem, palavra herdada do francês, que significa a montagem ou a instalação de qualquer coisa feita por pessoa não especializada, não habilitada. Bricoleur é aquele que, embora não especializado, executa trabalhos e reparos, muitas vezes caseiros, que podem acabar dando certo ou não. No geral, bricolagem, é
THOMAS  EDISON
também uma arte de natureza aquariana voltada para a montagem ou combinação de elementos diversos. Quando pensamos em Dédalo lembramo-nos, por exemplo, de aquarianos como Thomas Edison. Como sabemos, ele, muito jovem e inculto, com mínima escolaridade, deixou ao morrer um currículo onde estão relacionadas mais de mil invenções. Aspecto interessante da personalidade desse aquariano era a sua famosa insônia, problema muito comum nos do signo, no qual o planeta Urano tem seu domicílio.


É creditado a Dédalo um grande número de construções, descobertas e invenções. Ele teria concebido o templo de Apolo em Cumes, decorando-o com afrescos que, dizia-se, ilustravam as várias etapas de sua existência. Na Sicília, teria construído uma barragem no rio Alabas para represar água quente, de origem vulcânica, destinada a um balneário, também por ele construído. Em Agrigento, teria dirigido a construção de uma grande fortaleza, o terraço do templo de Afrodite em Eryx.

Além de grande construtor, interessou-se Dédalo pela arte da navegação, tendo construído muitos barcos e inventado velas especiais. Diz-se que o machado cretense foi criado por ele, o que o
MACHADO CRETENSE
torna autor do símbolo do império minoano, o labrys, dois machados cruzados (labrys é machado em grego), encontrados em bandeiras, estandartes, velas de barcos e, como marca comercial, nos produtos que eram fabricados na ilha, tecidos, cerâmica etc. Devemos ainda a Dédalo, segundo o mito, a invenção da broca, da verruma, do fio de prumo e de uma cadeira flexível, dobrável, encontrada no templo de Palas Atena Polyade. Não podemos esquecer ainda os famosos servomecanismos (autômatos) que construiu e espalhou pelos lugares por onde passou, sendo, nesse sentido, o grande precursor da robótica, como se disse. Os mais exagerados atribuíram a Dédalo a autoria dos projetos de construção das pirâmides egípcias e do templo do deus Ptah em Menfis. 


DÉDALO
(ÍCARO CANOVA, 1757-1822
Se à história de Dédalo e de Ícaro juntamos a de algumas personagens da mitologia grega, como a de Prometeu, por exemplo, o famoso titã, o filantropíssimo, um dos grandes traços da personalidade aquariana ficará bastante evidenciado. Referimo-nos a uma forma de hybris (orgulho, desmedida), muito comum em alguns representantes do signo, a de tentar sempre a superação de certos limites; a mania de bater recordes, de serem únicos, um reflexo leonino, signo oposto, sem dúvida. Esta hybris, em muitos heróis gregos, se caracteriza pela pretensão que apresentam no sentido de se igualar ou mesmo de superar os deuses. 

Um antiquíssimo sonho dos homens, como o encontramos em muitas literaturas, é o de não só se igualar à divindade como o de ultrapassá-la nos seus aspectos criativos através de inventos que deem aos homens formas de elevação (arranha-céus, torres, asas, balões, foguetes, naves espaciais, asa delta etc.), levando-os a tomar posse dos céus. Mas Ícaro, recordemos, conheceu a queda, esquecido de suas limitações. Pretendeu atingir o Sol, símbolo da vida espiritual, por meios técnicos, meios completamente inadequados para esse fim, como a humanidade vem constatando, aliás, tristemente, mas sem entender a lição.

A história de Ícaro, “aquele que conheceu a queda”, ilustra o velho ditado de “o aprendiz de feiticeiro”, ou seja, daquele que perde o controle dos elementos que libera e que julgava ingenuamente poder controlá-los. As descobertas técnicas patrocinadas pelo impulso aquariano já presentes neste final da era de Peixes, as invenções, o fabuloso avanço da ciência, da tecnologia, da medicina, da informática, por causa da contradição apontada, vêm trazendo grandes riscos, que os homens costumam  ignorar. 

Recordemos que a correta visão astrológica sempre nos disse que em Aquário há uma desconcertante mistura de ingenuidade, de genialidade, de ânsia libertária e dispersiva, tudo típico do elemento ar. No fundo, talvez, mais uma tentação de jogar com as ideias do que procurar concretizá-las (a falta do elemento terra). Isto não quer dizer que o aquariano não possa ser objetivo e bem organizado. Raros, porém, os aquarianos originais e que são capazes de reforçar os traços superiores do signo com relacionamentos positivos e com uma disposição mental voltada efetivamente para o futuro. Muitos são excêntricos só por amor à excentricidade, operando num nível bastante inferior deste que é conhecido como “o signo do homem.”


GOLEM, COMO  ELE  VEIO  AO  MUNDO
FILME  DE  PAUL  WEGENER, 1920

É do mundo judaico que nos vem um dos maiores exemplos das características aquarianas negativas. Refiro-me ao tema do Golem, a história de um ser mítico que simboliza a matéria animada artificialmente e que  se constituiu num grande perigo para o seu criador. A palavra golem significa incriado, informe. Trata-se de um ser semelhante a um autômato, criado artificialmente pela magia cabalística, isto é, pela palavra. Na língua ídiche, a palavra golem tem conotação insultuosa. Alguns, lembremos, tentam associar, erradamente, a figura do golem à do zumbi. Esta última, saliento, vem de nzumbi, que em quimbundo, língua africana, quer dizer espírito atormentado, alma que vagueia às horas mortas. Popularmente, a palavra zumbi se integrou ao nosso léxico, sendo usada para designar aquele que só está ativo ou só sai à noite. O Golem foi criado, segundo a tradição hebraica, por meios artificiais para concorrer com a criação de Adão por Deus. A sua criação é uma imitação do ato criador divino e com ele conflita. O Golem é mudo, seus criadores não conseguiram lhe dar o dom da palavra. 


FRANKENSTEIN
Uma certa semelhança pode ser estabelecida entre o Golem e o conde Frankenstein, idealizado por Mary Shelley. Esta romancista britânica, nascida Godwin (1797-1851), era a segunda esposa do poeta Percy B.Shelley, amigo de Keats e de Byron. Mary Shelley não tinha vinte anos quando escreveu Frankenstein ou O Prometeu Moderno, em 1817, novela pseudo-científica que evoca a criação artificial de um ser humano e o drama de seu demiurgo. 

O nome Golem tem também o sentido de “matéria informe”, representando uma espécie de Adão antes de lhe ter sido insuflada uma alma. Segundo a tradição cabalística, os grandes mestres da doutrina esotérica judaica conheciam a arte de, através de um apropriado uso da palavra criadora, infundir uma espécie de vida em um ser construído com argila. Um rabino era particularmente citado quando se mencionava este poder, Jehuda Elijah Low ben Bezalel, que viveu em Praga ao tempo do kaiser Rodolfo II. O reinado de Rodolfo II (astrologicamente, um fascinante tipo saturnino), de meados ao fim do séc. XVI, coincide com uma das épocas mais fecundas da Europa sob o ponto de vista intelectual.

Dizia-se que Bezalel havia criado o Golem e o escravizara. Trazia este monstro inscrita na sua testa a palavra emeth (verdade), palavra que lhe conferia a vida. Cheio de temor, devido ao estranho comportamento de sua criatura, o rabino resolveu apagar da sua testa a palavra que lhe dava a vida. Conseguiu, entretanto, apagar só a primeira letra, ficando meth, morte. O Golem entrou então em decomposição, formando-se uma massa de argila que acabou por sufocar o seu criador. A história deixa claro a conclusão: uma advertência contra o uso impróprio de forças mágicas, criadoras, que escapam do controle daqueles que as usam e que se tornam perigosas, destrutivas. 

SANTO ALBERTO MAGNO
Numa interpretação religiosa, como nos conta o cabalista Hal ben Scherira, por volta do ano 1.000, a história do Golem pode ser aplicada àqueles que absorvidos em práticas místicas de meditação descontroladas, são oprimidos e quase levados à morte pelo novo ser que “criaram”. Esta história, como alguns registram, pode ser vista também como uma paráfrase judaica de uma lenda cristã segundo a qual Santo Alberto Magno, o Doutor Universal, teria fabricado artificialmente um servo, destruído depois por seu aluno Tomás de Aquino. 


SEFER IETSIRÁ
O Golem dos judeus deveria ser fabricado com terra de solo virgem, dando-se-lhe uma forma humana, enquanto se dançava à sua volta e se entoavam os nomes de Deus ou combinações das letras do Sefer Ietsirá (O Livro da Criação). A vida lhe era dada ao se inscrever o Tetragrama (o nome de Deus com quatro letras) num pedaço de papel e colocando-o sob a sua língua ou gravando-se uma palavra hebraica em sua testa. Muitos cabalistas e alquimistas dedicaram-se à arte da criação do Golem, havendo muita literatura sobre ela, principalmente na Idade Média.

Uma lenda judaica atribui ao Maharal de Praga, acima citado, a criação de um Golem na forma de um autômato de argila que teria ajudado os judeus a escapar de complôs anti-semitas. Este Golem
O  GOLEM
foi destruído porque se rebelou contra o seu criador, guardados os seus restos em algum lugar da velha sinagoga de Praga. O Romantismo do século XIX voltará a explorar a figura do Golem conforme explica G.G.Scholem. Gustav Meyrink, em 1915, escreverá um romance fantástico sobre a criatura. No cinema, temos O Golem, filme alemão de 1920. Neste filme, o monstro, fabricado para fins pacíficos, se transforma num demônio sanguinário. O sorriso de uma menina, entretanto, encherá seu coração de ternura. Em 1936, Julien Duvivier, na França, fará um remake do filme, no qual o Golem assume o papel de um mediador de povos oprimidos. 



DE KUBRICK  E  CLARKE
O que fica, porém, da imagem do Golem é que ela tem sido usada sob um ponto de vista religioso para simbolizar a pretensão que o homem tem de imitar a Deus. Nesta perspectiva, o ser criado não seria mais que um ente desprovido de liberdade, inclinado para o mal, escravo de suas paixões. Outras interpretações, com as quais nos identificamos melhor astrologicamente, fazem do Golem a imagem da criação tecnológica que ultrapassa o seu criador e que pode destruí-lo, esmagá-lo. Uma das melhores ilustrações desta interpretação pode ser encontrada, sem dúvida, no filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick, com base numa história de Arthur C.Clarke. Refiro-me ao principal “ator” do filme (Hal 9000), um computador algorítmico programado heuristicamente. Seu nome de batismo viria das letras com que se iniciam as palavras que acabei de citar. Para alguns, porém, o nome teria mais a ver com a palavra inglesa Hell, inferno, já que é “puxando” para a pronúncia desta palavra que os astronautas a ele se referem no filme.

Hal mata um membro da tripulação, arremessando-o ao espaço, quando ele saiu para trocar uma peça da nave espacial. Dave, principal personagem humano do filme, percebe horrorizado que outros tripulantes também haviam sido mortos por Hal enquanto dormiam. Hal, no filme, é um computador que tem “sentimentos” e que parece enlouquecer, podendo matar seres humanos por causa de uma iníqua sub-programação secreta. Hal, na aparência, era como qualquer outro computador. Estava preparado para resolver problemas lógicos. Mas a grande diferença com relação aos outros computadores é que ele era capaz de resolver problemas quando não havia uma solução algorítmica, isto é, decorrente da lógica matemática. Ele podia, por isso, não só aprender com a experiência como inventar (heurística, do verbo grego heurisko, encontrar) soluções com base nos seus feelings.

Essa ideia de se ombrear com o divino, criando seres artificialmente, como as experiências transgênicas, mudando espécies, ou fabricando objetos, utensílios ou instrumentos através dos quais venham adquirir poderes “divinos”, como o dom da ubiquidade e vida eterna, por exemplo, sempre tentou os homens em todas as épocas. Estas ideias, contudo, apesar de toda a sua
DE RIDLEY  SCOTT
sedução, serão sempre um atentado contra a ordem cósmica. Ou seja, não cabe a este último signo, a seus representantes, a criação, prerrogativa leonina, mas, ao contrário, a doação do que foi criado, do mais importante, a do próprio ego, no sentido do altruísmo, do devotamento social. Ao chegar a Aquário, na ordem zodiacal, temos que pensar em libertação, desapego das coisas materiais, busca de uma espiritualidade (que nada tem a ver com religião) mais elevada, transcendência que deverá ser vivenciada no signo seguinte, Peixes. Lembro de um filme no qual estas questões foram abordadas, muito útil para discuti-las, nestes tempos de “espanto” tecnológico. Refiro-me a Blade Runner – O Caçador de Androides, de 1982, refeito em final cut, na versão do diretor, em 2007.








terça-feira, 25 de setembro de 2018

PALAVRAS CURAM?


MIRA SCHENDEL

A importância de As Mil e Uma Noites, na versão que nos deixou o sábio francês Antoine Galland, orientalista, do séc. XVIII, é um dos mais interessantes exemplos de como as palavras podem curar. Galland (1646-1715) aprendeu o árabe, o turco e o persa durante as suas viagens a Constantinopla, com o embaixador Nointele, e depois quando foi ao Oriente. Foi nomeado professor de árabe do Colégio de França. Publicou vários obras, lembranças de viagem, um diário, uma coleção de máximas orientais etc. Foram, contudo, as traduções de textos árabes que o tornaram célebre, Origem e Progresso do Café, Alcorão e, sobretudo, em 12 volumes, os contos de As Mil e Uma Noites.



SCHEHEREZADE ( MÉDARD  TVTGAT )

A narradora de As Mil e Uma Noites é Scheherazade. O rei persa Chariyar, convencido da infidelidade de sua mulher, mata-a. A cada noite une-se a uma nova mulher, sacrificada logo no dia seguinte com medo de ser traído. Scheherezade se oferece como sua esposa; à noite, começa a contar histórias que cativam o soberano, que, muito curioso e interessado, decide não entregá-la ao carrasco para que ela chegue ao fim das histórias que lhe eram contadas. A mesma cena repete-se todas as noites, os dias se sucedem. Quando chegam à milésima primeira noite, Chariyar, fascinado pela arte de Scheherezade, renuncia ao seu projeto de matá-la. Scheherezade é a Senhora do Tempo, dona da palavra que seduz, memória e encantamento. Tessitura de enredos, tramas de cores e sons, labirintos, prodígio de eloquência. Ela inverte a terapia tradicional: o doente é quem ouve, o sultão, no caso. Será curado pelas histórias da filha do Vizir.


SCHEHEREZADE  ( MAGRITTE )

No começo do século XVIII, a literatura francesa começa a se distanciar do heroico ao procurar assuntos capazes de suscitar a curiosidade dos leitores, de falar de emoções, recorrendo ao romanesco, ao insólito, às situações imprevistas. Um dos pontos mais altos dessa virada, desse distanciamento, está exatamente nas histórias que Galland traduz, desprovidas de toda a lógica que comandava o mundo da cultura europeia. As história de Galland eram cheias de magia, de acontecimentos que escapavam da ordem natural das coisas. Estávamos, com essas histórias, bem longe do homem cartesiano, livre e responsável por si mesmo. A fantasia desses contos orientais começava a colocar em questão a metafísica tradicional. Mais: as histórias respondiam a uma necessidade que os poetas da época não podiam satisfazer.


Scheherezade inaugura em 1704 o cosmopolitismo do século XVIII, um acolhimento sem reservas das influências estrangeiras. Os contos nos mostram como Scheherezade é superior ao rei, insistindo a maior parte das histórias no poder, na astúcia e até no cinismo das mulheres. Essa obra apresenta uma nova concepção de amor, uma forma que se imporá. Entre escritores ou filósofos franceses, o amor era uma virtude escorada pelo racional que sempre decidia entre o bem e o mal. Em Racine, por exemplo, será uma fraqueza.

Em As Mil e uma Noites, o amor se transformará, através do poder das palavras de Scheherezade, numa fonte de volúpia na qual se deve mergulhar, superando-se assim todas as interdições ou proibições. As histórias de Scheherezade nos falam do fogo da paixão, de chamas que queimam, tudo apontando para os prazeres da carne. O clima é de prazer carnal, os episódios são rápidos, sempre um forte apelo sensual. O amor nasce da beleza dos corpos, as ações se centram no imediato e no prazer experimentado sem remorsos. Temas como o da poligamia, lugares como haréns, personagens como eunucos podiam ser reais, faziam parte de um mundo onde o amor era experimentado sem culpa.

A poesia da natureza de As Mil e Uma Noites não estava exclusivamente nos seus aspectos materiais, mas, sobretudo, naquilo que eles poderiam sugerir, evocar. Uma visão que encantava e que fazia apelo a desejos sempre renovados através de impressões inéditas. O exotismo entrara em moda, o Oriente em especial, desde o séc. XVII. Os diários e as descrições de viagens aparecem, na esteira das traduções de Galland. As Companhias das Índias contribuem para o sucesso do exotismo. Era comum, nos salões, que nobres ou burgueses ricos circulassem fantasiados de persas ou turcos, que os servidores fossem negros com turbantes, torso nu. Uma boa parte deste cenário acabou entrando na pintura pelas telas de pintores famosos (Boucher, Huet, Desportes etc.). Tais temas chamavam-se então chinoiseries, turqueries.

KAMA  SUTRA

Lembre-se que no final do século XIX (1885) teríamos o ponto alto desta maré orientalista com a publicação, pelo editor Lisieux, por apaixonada sugestão de Guy de Maupassant, daquilo que o mundo árabe havia produzido de melhor com relação aos prazeres e ao erotismo, o famoso Jardim PerfumadoJ, obra que tanto encantara Richard Burton, o grande escritor e explorador inglês, tradutor, dentre outras obras, do Kama Sutra para o inglês.


O  JARDIM  PERFUMADO (AUTOR DESCONHECIDO)

Outro exemplo de como as palavras mudam comportamentos está naquilo que as histórias da Filosofia classificam como Sofística, que aparece na antiga Grécia por volta do século IV aC. A palavra está relacionada com a ideia de conhecimento. Foram os sofistas, como pensadores, que colocaram as necessidades do homem de então numa perspectiva de vida estritamente prática, não mais em exigências de ordem teórica ou científica. Os sofistas tornaram-se um fenômeno muito significativo no campo da educação. É com eles que uma ideia e uma teoria entram de modo consciente na pedagogia, recebendo um tratamento racional. A sofística só admite sensação e opinião. A alma não é algo imortal, separado do corpo, que nele entra e sai, mas é tão só um fenômeno acidental e mutável como todos os demais. Para os sofistas, tudo está num devenir constante. Não há senão sensações mutáveis. Não há critério seguro que permita distinguir o verdadeiro do falso. A verdade que se diz não é o importante (não há verdade objetiva), o mais importante é o modo de dizer. Uma opinião se impõe não por ser verdadeira, impõe-se, sim, porque “sabe” criar o convencimento naquele que escuta (persuasão). Este é o grande tema da retórica para os sofistas, da qual foram grandes mestres.


SOFISTAS ( MOSAICO DE POMPEIA )

O sucesso dos sofistas como retóricos e educadores pode ser explicado parcialmente devido ao momento histórico em que apareceram e ensinaram. Atenas tinha como regime político a democracia. A experiência demonstrava que nas assembleias populares o que sabia fascinar o povo com a sua eloquência se impunha, não importando tanto o que era dito. Os sofistas educavam os jovens de modo a prepará-los para a vida política. Iam de cidade em cidade, sendo pagos por suas lições (algo nunca visto antes). Logo a arte da dialética (arte de disputar) se converteu em arte de discutir com palavras (erística). Com o tempo, porém, a virtude sofística descambou para as sutilezas lógicas, para raciocínios fingidos, enganosos (sofismas), tomando o nome sofista um sentido pejorativo, como o encontramos em Platão, o maior inimigo da sofística. Com os sofistas, os problemas do homem ganhavam prioridade pois era diante dele que a Natureza aparecia, que o mundo se revelava, a exigir respostas imediatas. Os sofistas chamaram a atenção sobre o homem, sobre suas atividade, sobre suas normas de conduta e, acima de tudo, sobre a questão da subjetividade quanto ao conhecimento humano. Criticaram pois, a chamada metafísica da essência e afirmaram o primado do concreto e do particular, o que se capta no imediato e no momentâneo. Não há, para eles, uma verdade absoluta, mas uma verdade relativa ao homem. Todos os juízos e opiniões, afirmativos ou negativos, são subjetivos, dizem. A verdade varia de acordo com as nossas impressões sensoriais. O homem não é mais que sensação e os objetos nada mais são do que aquilo que se apresenta a a ele através das suas sensações variáveis.

Outro exemplo muito interessante de como as palavras mudam comportamentos e, por isso, podem aparecer associadas às artes da cura, nós o encontramos nos mitos ligados ao deus Asclépio, que tinha por centro irradiador a cidade de Epidauro, na antiga Grécia. Filho do deus Apolo e da mortal Coronis, Asclépio foi educado pelo centauro Kiron, também médico. Asclépio participa da natureza humana e divina, lembrando-nos a união indissolúvel que existe entre ambas. Fixando-se em Epidauro, chamado pelos gregos de Filantropissimo, Asclépio é a figura central, naquela cidade, de um grupo de sacerdotes-médicos (Asclepíades). Entre os descendentes deste grupo encontra-se Hipócrates, historicamente, o pai da medicina.


ASCLÉPIO
Asclépio teve quatro filhas de seu casamento com Epíone, a Benéfica: Áceso (a que cuida de), Iaso (a cura), Panaceia (a que socorre a todos) e Higeia (a Saúde). Eram seus filhos também Podalírio e Macaon, médicos. O culto de Asclépio era celebrado num templo em Epidauro onde havia uma famoso labirinto, no qual era guardada uma serpente, ser ctônico que tinha o poder de renascer constantemente. Os cultos do deus se estenderam dos sécs. VI aC ao V dC. Asclépio, chamado de deus Toupeira, porque esse animal “vê” no escuro, era o deus da nooterapia, isto é, da cura pela mente. Esta cura provocava a metanoia, a transformação de sentimentos. A ideia básica era a de que os erros, as faltas, as desmedidas, as hamartiai provocavam problemas que, interiorizados (incubação), tornavam-se agentes mórbidos detonadores de doenças. As causas das doenças estariam, pois, na mente. A nooterapia purificaria o mental e, em consequência, o físico, o homem inteiro.


APARIÇÃO  DA  FACE  DE  AFRODITE (SALVADOR DALI)

Grande importância no processo terapêutico em Epidauro era dada aos sonhos. Havia a famosa enkoimesis (deitar e dormir) no santuário. Os doentes eram levados ao sono e deste aos sonhos através de determinadas sugestões. Interpretados os sonhos pelos sacerdotes-médicos, os medicamentos eram prescritos. Isto era o que se denominava mântica por incubação (diferente da mântica por inspiração, de Apolo, e da mântica indutiva, feita por conclusão sobre observações). Em Epidauro, só havia cura se houvesse a metanoia, a transmutação de sentimentos e emoções. Neste sentido, havia nas terapias uma metusia, uma comunhão, convergência de vários processos e cerimônias através das quais os médicos procuravam, com suas palavras, reforçar o sentimento religioso dos doentes. Canto, dança, práticas esportivas, banhos, teatro, poesia, reforma de hábitos alimentares, tudo era utilizado para produzir o efeito terapêutico desejado. Procurava-se sobretudo a eliminação de paixões desastrosas. O lugar era ornamentado por muitas obras de arte cuja finalidade era a de elevar espiritualmente as pessoas que lá se internavam.Todo esse conjuntos de procedimentos tinha como meta final aquilo que os gregos chamavam de catarse, libertação, expulsão ou purgação do que era estranho à essência ou à natureza do corpo e que, por isso, o corrompia.


ASCLÉPIO  ( AUTOR DESCONHECIDO )

Faz parte do tema que estamos abordando, nele devendo merecer grande destaque, por sua importância, a instituição da confissão, como apareceu no Cristianismo, principalmente entre os séculos XIII e XIX. O confessionário foi, sem dúvida, o centro de um drama que se desenvolveu entre a dialética da culpa e do perdão. Pelo uso da palavra que há nessa instituição, tem ela um lugar importante na história das curas da humanidade. O confessor foi um médico das almas, juiz dos pecados, pai espiritual. Milhões de pessoas nos séculos apontados passaram por confessionários no mundo ocidental, lugar onde seres culpados, cheios de angústia, procuravam perdão e redenção. Santo Afonso de Ligório, sécs. XVII/XVIII, escreve no seu Guia do Confessor: Para cumprir os deveres de um bom pai, o confessor deve mostrar-se cheio de caridade, e o primeiro uso que deve fazer dessa caridade consiste em acolher com igual benevolência todos os penitentes, pobres, sem instrução e cobertos de pecados. Preconizava-se uma abertura para a benevolência, uma técnica de escuta e de questionamento do pecador. Outro texto nos diz que o confessor deve ser como um médico espiritual que acolhe um doente da alma.



A maneira prudente e amigável de confessar recomendada por Santo Afonso de Ligório prevaleceu dos séculos XVIII ao XX, mas não impediu uma crescente deserção dos confessionários, que já vinha do começo do primeiro. Já no século XIX, uma clara hostilidade se fazia sentir, principalmente pelos homens. Acusava-se a confissão de intervir na intimidade dos lares, de opor a mulher ao homem, a religião à política etc.


A  CONFISSÃO  ( ANTOON VAN  DYCK )

Ficou, contudo, a pergunta: a confissão confortava? Será que ela ajudou realmente as pessoas a se suportarem, a se sentirem mais à vontade interiormente? Não resta dúvida que as palavras dos padres nos confessionários tenham animado muitas almas que na instituição procuravam sinceramente o alívio dos seus problemas. O confessor era afinal um “diretor de consciência”, muitas vezes amigo e confidente, um guia seguro. Se pensarmos, porém, nos desejos de perfeição que muitos confessores demonstravam, muito além do razoável, ou se considerarmos aqueles que procuravam o confessionário mecanicamente (confissão para não atrair reprovações), o confessionário ficou muito aquém do pretendido. O grande problema foi que muitos fiéis, inúmeras vezes, foram convidados a fazer nos confessionários uma revisão de vida total. Questionários complicadíssimos, repletos de perguntas, de circunstâncias atenuantes, agravantes etc. Não se pode deixar de reconhecer, contudo, que o confessionário foi um dos meios que nossos antepassados tiveram para conhecer a alma humana. Quanto ao perdão, foi ele uma das grandes contribuições que o Cristianismo trouxe para a “saúde” interior do homem moderno. Pelo confessionário, o desfile de quanto sofrimento, quantas angústias e, também, quanta redenção, quanta cura! Será que ainda é possível trabalhar com a confissão depois de Freud? Nossa modernidade substituiu a confissão pela Psicologia. Melhoramos?



                                                                                                                                  
Quanto a esta problemática do perdão, a sua melhor formulação está, sem dúvida, na mitologia, como a temos no mito das Erínias, as Fúrias, divindades do remorso, deusas violentas, guardiãs das leis da natureza e da ordem do mundo, no sentido físico e moral. Puniam elas todos aqueles que ultrapassavam os seus direitos em prejuízo dos outros. São as vingadoras dos crimes cometidos, divindades da Ananke, conceito filosófico-religioso que lembra reposição de limites.


ORESTES PERSEGUIDO PELAS FÚRIAS ( BOUGUEREAU )

As Erínias não deixam o criminoso esquecer os seus crimes. São a consciência culpada, morbosa. Interiorizadas, simbolizam os remorsos, os sentimentos de culpa que podem levar até à autodestruição, se consideramos as falta inexpiáveis. Não se calam nunca, dia e noite, não deixando o criminoso dormir, se alimentar. Podem, contudo, se transformar nas Eumênides, as Benfeitoras, quando há o arrependimento sincero, que leve a uma apreciação mais comedida dos atos praticados. Não bastava, porém, para as Erínias a declaração do arrependimento. Imprescindíveis, para elas, objetivamente, a reparação pecuniária, sempre pesadíssima, as penitências, longas penitências, e o trabalho social gratuito por anos e anos. Só, então, as Erínias podiam deixar o criminoso em paz.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

AQUÁRIO (2)


HAPI
No Egito, o signo de Aquário aparecia associado ao rio Nilo, o “rio azul”. Lembremos que o nome Nilo vem dos gregos (neilos) e é encontrado no sânscrito como adjetivo, nila, azul. Do latim, nilus, passou para o árabe e para o português, como o temos,por exemplo, na palavra anil. O rio era divinizado pelos egípcios quando de suas enchentes, sendo chamado então de Hapi. Representavam-no por uma figura antropomorfizada, obesa, com grande ventre, com seios pendentes, desenvolvidos como os de uma mulher, o que lhe dava um aspecto andrógino. Vestido como um barqueiro, às vezes como um pescador, usava Hapi uma coroa de plantas aquáticas na cabeça (lótus se representado no Alto Egito, papiro, no Baixo Egito). O deus Hapi era aquele que nutria, que alimentava o país e os próprios deuses; morava na primeira catarata do rio, numa ilha, de onde derramava de suas ânforas a água que iria abastecer o céu e depois a terra.

Autogerado, Hapi era chamado de Único, acreditando os egípcios
NUN
que ele saía do Oceano primordial, o Nun, que envolvia a Terra, do qual Hapi era uma forma secundária. Nun guardava todas as formas possíveis, as positivas e as negativas, e dentro dele se manifestou o demiurgo. Nun era considerado o deus das origens na cosmogonia heliopolitana. Em Hermópolis, era um dos quatro princípios masculinos, representando o infinito líquido, associado à sua contrapartida feminina, Nenet. Rodeando o mundo visível, ele esta na origem das enchentes. É da profundeza de suas águas que no final dos tempos sairá um demiurgo para nos proporcionar um novo ciclo de vida.  


HERMÓPOLIS  ,  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO

Já os devotos da deusa Ísis davam outra interpretação às cheias do Nilo, que começavam em meados de junho. Afirmavam eles que tal acontecimento se devia às lágrimas da deusa, chorosa pela morte de
OSÍRIS
Osíris, assassinado por seu irmão gêmeo Seth. Qualquer que seja, porém, o aspecto religioso privilegiado, o que se sabe é que, além de muitas oferendas, cânticos e poemas sempre haviam sido entoados e recitados às margens do rio desde tempos muitos remotos para que as águas atingissem um ponto ideal quando das enchentes de modo a proporcionar a máxima fertilidade paras terras vizinhas, mais ou menos a 20 km. de ambas as margens do rio,  Deste ponto ideal dependia anualmente a prosperidade ou a infelicidade do povo egípcio. Quando gregos e romanos ocuparam o país, a referida altura, para que a almejada fartura das colheitas fosse obtida, estava fixada em mais ou menos dezesseis côvados, quase onze metros.  

Lembremos que o deus Hapi, apesar de muito reverenciado,  nunca chegou a fazer parte de qualquer sistema teológico no Egito. Nos templos, ele exercia uma função doadora, para outros subalterna, sendo uma espécie de auxiliar dos grandes deuses, oferecendo-lhes o produto de suas águas. Neste sentido, a função de Hapi lembra muito a de Ganimedes como escanção dos deuses do Olimpo grego. Muito representado na escultura religiosa do país, Hapi atuava juntamente com as divindades do mar, dos grãos, do florescimento do mundo vegetal, das oferendas e, de um modo geral, dos que de algum modo proporcionavam bem-estar e felicidade.  

Na mitologia egípcia, os deuses sempre mantiveram uma relação muito difícil com o mar, com as suas enormes extensões de água salgada que muitas vezes se tornavam perigosas quando ventos e tempestades vindos da massa líquida marinha se abatiam sobre a costa. Na verdade, o alto-mar para os egípcios sempre representou uma região de acesso muito difícil, pois era preciso atravessar, para atingi-lo, as zonas instáveis do delta do rio, zonas pantanosas, perigosas, que lembravam sempre a sofrida peregrinação de Ísis em busca de seu amado Osíris. Contudo, se os extensos pântanos significavam por um lado proteção contra ataques externos, por outro desestimulavam tentativas de atravessá-los, uma alternância com a qual os egípcios tiveram que conviver por milênios.


ÍSIS

Desde tempos imemoriais se falava no país de uma força poderosa, desconhecida, que aterrorizava os pescadores que iam além do delta do Nilo, uma força que atacava e destruía barcos e homens, ninguém sobrevivendo. Era o deus dos mares, que, às vezes, avançava sobre as terras da região do delta; ora era o gado, criado nessas regiões, levado pelas águas; noutras ocasiões, pequenos vilarejos eram destruídos e cadáveres apareciam presos às raízes das plantas dos pântanos. Os rumores se multiplicavam, o temor tomava conta de todos que viviam na região. 

A afirmação dos antigos ganhou corpo com o tempo: falava-se que um monstro de nome Yam, vindo das profundezas marinhas, andava à noite pelo delta, acompanhado de crocodilos e hipopótamos. Uma boa parte da mitologia egípcia registra com ênfase a luta entre o deus Hapi e os agentes monstruosos do deus marinho, todos relacionados, sob o ponto de vista astrológico, com os dois últimos signos zodíaco.


PROTEU
Quanto aos gregos, lembremos, desde Homero, atribuíram eles inicialmente a um deus chamado Proteu (o primeiro gerado, o que vem antes, etimologicamente), cujo apelido era O Velho do Mar, a tutela dos mares gregos e egípcios. Sua residência ficava numa ilha arenosa, Pharos, situada na costa do delta do rio Nilo. Proteu era uma divindade dotada de poderes oraculares, exercendo também a função de pastor de
PTOLOMEU FILADELFO
rebanhos de animais marinhos (focas e outros). Não gostava de ser incomodado nem consultado, evitando sempre os inoportunos. Fugia deles, tomando a forma de qualquer animal marinho ou simplesmente se transformando em água ou fogo. No ano de 300 aC, Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito, mandou construir na ilha de Pharos, diante de Alexandria, uma torre de mármore branco de 180 m. de altura. Esta notável edificação, uma das sete maravilhas do mundo, guiava os navegantes à noite, graças a fogueiras que eram mantidas permanentemente acesas no seu topo.



GEIA  E  FILHOS
Proteu era também chamado pelos gregos de Nereu (o que vive mergulhado, etimologicamente), pai das nereidas, ninfas do mar, tendo sido gerado pela união de Pontos e de Geia, esta última a Grande-Mãe Terra. O primeiro mencionado, cujo nome lembra caminho, lugar por onde se transita, representa no mito grego, como sabemos, a primeira concepção do mundo marinho, ou melhor, da energia que há no elemento líquido oceânico e passa por ter sido o pai também de, além de Nereu, de Taumas (O Maravilhoso), Fórcis (O Branco, no sentido de encanecido), Ceto (A Baleia) e Euríbia (A de Grande Força Vital), entidades marinhas. 

Os gregos, através de seus primeiros escritores, poetas ou não, como Homero, Hesíodo e Heródoto, sempre consideram o oceano
OCEANO , MOSAICO  ROMANO
como um imenso rio que fluía em torno da Terra. Na sucessão das divindades que o tutelaram, depois das  entidades primordiais acima mencionadas, aquele que melhor representou a massa circular líquida que envolvia a Terra, como um rio-serpente, foi o deus Oceano, o filho mais velho de Urano e de Geia, um titão, portanto. Sempre considerado como extremamente cordato e acessível ao se relacionar, Oceano, unindo-se a Tétis, símbolo do poder gerador das massas oceânicas, tornou-se pai das Oceânidas, as ninfas dos oceanos e mares, e de inúmeros rios que atravessa a Terra. Dentre os mais importantes filhos de Oceano, destacamos, segundo os gregos (Hesíodo), os rios Nilo, Aqueloo,  Alfeu, Erídano, Peneu... 

DEUCALIÃO  E  PIRRA
Antigos povos da Mesopotâmia, como os babilônicos, principalmente, associavam o signo de Aquário ao décimo-primeiro mês do seu zodíaco, Shabatu, palavra que tem o significado de Curso das Águas da Chuva. Na Grécia, é de se notar, o signo antes de ser associado a Ganimedes, aparecia ligado a  Deucalião, filho de Prometeu e de Clímene, herói que se salvou do dilúvio enviado por Zeus. Etimologicamente, o nome Deucalião lembra mergulho, imersão no elemento líquido. Casou-se com Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora. 

OVÍDIO
Desgostoso com o comportamento dos heróis da Idade do Bronze, descontrolados, que viviam atolados no vício e no crime, Zeus resolveu, como diz o poeta Ovídio, castigar todos os homens, afogando-os nas águas de um dilúvio. Salvou-se o casal Deucalião e Pirra, que fundou um reino e, com os seus filhos e descendentes, repovoou a terra, criando uma nova humanidade.
  
Entre os latinos, certamente por influência grega, quando Ganimedes já havia substituído Deucalião como representante mítico do signo, surgiram, para designar Aquário, além de Ganimedes, naturalmente, nomes como Amphora, Junonis Astrum (Astro de Juno, esposa de Júpiter), Jovis Cynoedus ou Cinaedus  (Favorito de Júpiter), Puer Iliacus (Garoto de Ilion, Troia), Puer Aquilae (Garoto da Águia).  


AQUÁRIO
Na tradição ocidental, pela via latina, fixou-se o nome Aquarius, para o décimo primeiro signo zodiacal. Aquarius, em latim, lembre-se é tudo o que concerna à água, servindo a palavra para designar também tanto aquele que tem a função de transportar água como o que trabalha como inspetor encarregado da supervisão das águas. Note-se ainda que os franceses adotaram para designar o signo a palavra Verseau, hydrokhoeus, em grego. vertedouro, o que derrama  água.

Diante do exposto, acredito que fique fácil entender porque os antigos associaram essa região do zodíaco à água, região conhecida em antigas astronomias pelo nome de Mar. Para representar essa região nos céus, os antigos utilizaram uma onda, que era o hieróglifo egípcio da água, elemento que põe tudo em comum, que apaga as fronteiras, ligado alquimicamente à solutio. É por esta razão que o signo que ocupou esta região do céu sempre foi considerado com aquele em que o ser humano transcende a sua individualidade e a sua vida social para se integrar a humanidade.

O acesso a esta transcendência, entretanto, terá que ser feita atrvés do elemento ar. Ou seja, é pelo despertar de sua consciência coletiva que o homem compreende que ele é também a humanidade. É por isso que este signo faz quadratura (conflito) com os signos de Touro (a matéria) e com o signo de Escorpião (a metamorfose) e faz oposição ao signo de Leão (o ego). 

Fixando-nos mais na tradição que nos vem da Grécia, não podemos deixar de considerar inicialmente que as relações entre o signo de Aquário e Urano, estabelecidas desde a descoberta desse astro em fins do séc. XVIII, confirmaram todas as aproximações anteriormente feitas entre mitologia e astrologia. Melhor, não só confirmaram como permitiram que o homem entrasse em contacto com dimensões desconhecidas da sua interioridade e do universo, ampliadas mais tarde com a descoberta de Netuno (meados do séc. XIX) e Plutão (década de 1930).


SISTEMA   SOLAR

Se os  planetas visíveis a olho nu até Saturno dizem respeito mais diretamente à evolução física e moral do ser humano individualmente considerado, os três  planetas invisíveis ao olhar humano (Urano, Netuno e Plutão), situados além de Saturno, dizem mais respeito à sua sua interioridade, à sua vida subconsciente, e afetam sobremodo a humanidade como um todo. 

Foi, aliás, por essa razão que os planetas transaturninos foram considerados como a oitava maior de Mercúrio (Urano), Vênus (Netuno) e Marte (Plutão). Quando, na música, dizemos que uma nota está uma oitava acima da outra isto significa que a nota é a mesma, situada porém numa região mais aguda do instrumento. Tome-se o caso de Mercúrio, planeta que numa carta astral descreve como funciona a mente de uma pessoa. Urano, como sua oitava maior, nos descreverá outros tipos de vibração mental, de natureza mais evoluída, que vão além de Mercúrio. É neste sentido, por exemplo, que Urano é considerado como o planeta da intuição, um conhecimento imediato, instantâneo, ao qual se pode chegar sem necessidade das demonstrações que a mente normal precisa para a ele chegar, se é que consegue. É a intuição uma apreensão que se parece muito com o conceito filosófico do Zen, o satori, que se pode traduzir como compreensão profunda e imediata, iluminação.

HESÍDIO
Conforme nos conta Hesíodo em seu poema A Teogonia, Urano era o nome que os gregos davam ao céu estrelado. Nascido de Geia por partenogênese, sem o concurso de qualquer divindade masculina, gerado por ela em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cobrisse, como está no poema, Urano passou a fecundá-la e ela pôs no mundo vários filhos, divindades e monstros, os titãs, os Cíclopes e os Hecatônquiros.

O relacionamento entre Urano e seus filhos, como se sabe, sempre foi difícil; os filhos produzidos por ele e Geia formavam no seu todo uma prole anárquica, revoltada, perigosa, desmesurada; seu comportamento era espasmódico, imprevisível, oscilando todos entre entre estados de grande exaltação e de profunda depressão. Urano tinha tanto horror dos seus filhos, tão pouco gratificantes para o seu amor-próprio, que não hesitava em lançar uns no Tártaro, encerrando-s na camada mais profunda do inferno, ou obrigar Geia a reabsorver outros.

Levando a um paroximismo incontrolável a sua função procriadora, sempre debruçado sobre Geia, fecundando-a incessantemente, Urano jamais deu ouvidos às suas queixas. Inconformada, ela chamou seus filhos à revolta com a finalidade de dar fim à prepotência de seu filho-amante. O único que a atendeu foi Kronos, o caçula; Geia lhe forneceu-lhe então uma foice de silex com a qual ele investiu contra o pai e o castrou. Dessa castração, do contacto da genitália de Urano lançada ao mar com a sua espuma (aphros, em grego), tudo em meio a sangue e secreções, nascerá Afrodite, deusa do amor.

Parece não haver dúvidas de que o papel representado por Geia na castração de Urano foi inspirado por aquele que Cibele, deusa frígia, como Grande-Mãe, desempenhava  na mitologia dos povos do oriente-próximo. Até onde se sabe, foi no culto de Cibele que se encontrou o primeiro ritual de castração masculina devidamente registrado.


CASTRAÇÃO   DE   URANO


CIBELE
Esta história apresenta algumas versões, parecendo-nos a mais aceitável a mais antiga, a greco-oriental, que nos apresenta Atis, deus anatólio da vegetação, servidor a amante de Cibele, mãe dos deuses, dos humanos, dos animais e da vegetação selvagem. Grande-Mãe, Cibele se situa entre as maiores divindades da fertilidade do mundo antigo. Montada num carro puxado por leões,  símbolo de seu poder, ela possui uma chave com a qual abre as portas da Terra onde estão encerradas todas as suas riquezas. Seu culto se espalhou pelo Mediterrâneo, alcançando Roma, onde era apresentada majestosamente com pequenas torres numa coroa  que ostentava na sua cabeça, emblemas das várias cidades que protegia. 

CIBELE   E   ATIS ( ANGELO MONTICELLI , 1778 - 1837 )

Seus cultos, no oriente, eram de natureza orgiástica, neles se encaixando a história de Atis. Amado pelo hermafrodito Agdistis e não podendo a ele se unir, por sua dependência de Cibele, Atis enlouqueceu, e se mutilou, castrando-se (emasculação), numa das festas da Grande-Mãe, realizadas anualmente. Ovídio, muito mais tarde, retomou a história de Atis, da sua castração, eliminando, porém, a sua ligação com Agdistis.  Atis passou,  a partir dessa versão, a ser considerado  como um deus da vegetação que morria e renascia anualmente, um representante da chamada fecundidade pela morte.

Considerando o que até agora foi expôsto com relação a Urano não será preciso muito esforço para se perceber, mesmo para os que não se aventuraram na caminhada astro-mitológica, o quanto o filho amante de Geia pode se insinuar, como poderoso arquétipo na personalidade de muitos daqueles que a astrologia chama de aquarianos. Realmente, Urano, como deus do céu, além de outros excessos, parace apresentar, quando analisado mais de perto, como característica principal, uma incontrolável e anárquica criatividade, a personificação de uma fecundidade que não conhece limites.

O mito nos revela que Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, que a fazia reabsorver os filhos que gerava, resolveu libertar a sua prole. Pediu que os filhos a auxiliassem. Todos se recusaram, com exceção do caçula, Kronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Kronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava para mais uma vez se deitar sobre Geia, Kronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe, com a sua foice, a sua genitália.

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e ele um espaço que nunca mais voltaria a desaparecer. Essa façanha de Kronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. Desde então, a foice, como símbolo, associou-se às colheitas e à morte, aparecendo como um atributo das divindades agrícolas, cujo melhor exemplo pode ser encontrado no deus Saturno, dos povos latinos.


NUT 

Astrologicamente, foi atribuída a Urano, o planeta mais excêntrico do sistema solar até então conhecido (excentricidade até hoje não contestada), a tutela da constelação de Aquário, pelas seguintes razões, em função das influências que exerce sobre o nosso planeta e a vida humana: essencialmente, Urano é variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, excitante (mania, no sentido grego), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista (utópico), original, inédito e estéril.

Através dos adiante nomeados traços de personalidade, que destacamos, a influência uraniana costuma ser traduzida pelos seguintes comportamentos:  desmesurado impulso criador; peculiaríssima originalidade, caracterizada pela autossuficiência; excessos individualistas;  forte inclinação à independência (ação reflexa do singno oposto, Leão), alimentada muitas vezes por uma absoluta falta de compromisso ou de concessões com relação ao meio em que vive; obstinada cosmovisão; lógica e ética únicas, base de um comportamento que leva invariavelmente o tipo aquariano mais comum a não querer pertencer a “nenhum rebanho”. 

Lembro que a união de uma Deusa-Mãe com um Filho Amante é um modelo muito repetido nas primeiras fases de várias mitologias, uma forma incestuosa de relacionamento que nesses tempos primordiais terminava via de regra tragicamente, encontrando-se um de seus melhores exemplos, atualizado, na história do infortunado Édipo. 

EVA
( L.L.DHURMER, 1865 - 1953 ) 
O ímpeto criativo de Urano, talvez a sua característica mais marcante, costuma gerar, em muitos casos, o melhor e o prior através de inventos e formas, individual ou coletivamente.  É neste sentido que Aquário é o signo do demiurgo, do inventor, daquele que vai também rejeitar muitas vezes (sempre?) a sua própria criação, como Urano o fez com seus próprios filhos e como, entre os judeus, Javé, valendo-se da sua criatura masculina, fez com a mulher, Eva. 

Dentro deste contexto é que podemos estabelecer a analogia entre a inesgotável capacidade criadora do Céu Estrelado e a ação aquariana superior de caráter científico, tecnológico ou artístico, uma fantástica capacidade criadora nem sempre coerente e muitas vezes inconsciente, quanto aos efeitos maléficos daquilo que foi criado, poderia produzir. São estas considerações, a meu ver, que atualmente, diante do surto inventivo que tomou conta da humanidade a partir de fins do séc. XVIII, se nota nos países mais influenciados pelas características aquarianas, características que precisam ser trazidas à discussão para se questionar a responsabilidade dos inventores, forçando tais países a que se conscientizem e interroguem sobre os efeitos deletérios de sua  própria criação.