terça-feira, 8 de janeiro de 2019

AQUÁRIO (4)

                         
CONSTELAÇÃO   DE   AQUÁRIO
           
Entre os gregos, a origem do signo de Aquário aparecia ligada principalmente ao mito de Ganimedes. Este nome, em grego, é composto de ganos, líquido brilhante, como o jorro do vinho escapando dos tonéis, e medesthai, verbo que traduz uma ideia de ocupação, de atividade. Ganimedes, “o amado dos deuses”, era o que se ocupava da distribuição do néctar (nektar, em grego, bebida dos deuses), distribuindo-o nos banquetes olímpicos.Transposta essa ideia para os planos terrestres, o vinho tomou o lugar do néctar, palavra que passou a significar qualquer bebida deliciosa. É por essa razão que praticamente em todas as tradições religiosas mediterrâneas em especial e europeias e ásio-menores, em geral, há sempre uma bebida de caráter enteógeno, mais à base do vinho, que transforma o mortal comum num ser religioso.


RAPTO  DE  GANIMEDES, PORTO, PORTUGAL
 (FERNANDES SÁ, 1874 - 1959)

Ao proporcionar a embriaguez divina, o vinho, como os cultos dionisíacos nos mostram, oferece aos que o consomem uma existência sobre-humana e atesta neles a presença real da
EUCARISTIA
divindade. É ainda nesse sentido, quando a história de  Cristo, que viveu uma paixão e uma ressurreição,  que o mito de Dioniso pode ser evocado, quando o deus grego declarou que era a cepa. As imagens se unem então no cristianismo: a seiva como a Luz do Espírito, o fruto como a eucaristia e o vinho como o sangue de Cristo.

Na epístola aos coríntios, por exemplo, S.Paulo, um aquariano, ao discorrer sobre o significado da ceia ritual judaica à qual Jesus imprimira um novo sentido, a Santa Ceia, fala que o cálice da bênção e que o pão partido eram, respectivamente, solidariedade com o sangue e com o corpo de Cristo. Ambos eram solidariedade com o corpo de Cristo, porque os que do banquete participavam transformavam-se num só corpo. Quem participava do banquete sacrificial tornava-se solidário com todos. Todas estas ideias nos apontam para um fundo comum mítico, astrológico (aquariano) e religioso ao qual cada cultura deu um tratamento particular, específico.


SANTA  CEIA ( PHILIPPE  CHAMPAIGNE , 1602 - 1674 )

A figura de Ganimedes sempre apareceu associada a banquetes, refeições aparatosas e com muitos participantes. Os banquetes, na antiguidade greco-romana, lembremos, significavam a participação num rito, num projeto ou numa festa que caracterizava o lugar de sua realização como um espaço de trocas onde a distinção de classe ou de raça podia ser superada (outro tema caro a Aquário), compartilhando-se não só a comida. Os primeiros cristãos adotaram o nome grego ágape (banquete) para designar o rito eucarístico, a comunhão, através do qual partilhavam a mesma graça e a mesma vida. Às refeições comuns também era dado o nome de ágape, adquirindo também o termo o sentido de caridade.

Ganimedes, no mito grego, era um belíssimo jovem, que exercia a função de pastor, tomando conta dos rebanhos do pai, Trós, numa versão, e de Laomedonte noutra. O primeiro, conforme Homero (Íliada), era o ancestral epônimo da raça troiana, casado com a mãe do jovem, Calírroe, uma filha do deus-rio Escamandro. Laomedonte era um rei da antiga Troia (Troada e Dardânia), casado com várias mulheres. Laomedonte teve inúmeros filhos, destacando-se dentre eles Podarces (futuro rei de Troia, com o nome de Príamo), Hesíona e Ganimedes. 

Na versão em que Laomedonte é tido como pai de Ganimedes, consta que ele recebeu, como presente de Zeus, para se consolar pela perda do filho, através de Hermes, dois cavalos maravilhosos, nascidos do sêmen do vento Zéfiro e de uma das Harpias, cavalos que, devido à sua espantosa velocidade, podiam galopar sobre as águas. Prometeu mais ao pai do jovem que o imortalizaria, o que fez, colocando-o nos céus entre as constelações do Zodíaco.
GANIMEDES  SERVE  VINHO  A  ZEUS / ÁGUIA
Qualquer que seja a versão sobre a paternidade do jovem, o que fica do mito é que, notado pelo Senhor do Olimpo, deslumbrado pelo seu esplendor físico, Ganimedes foi raptado por ele na forma de uma águia, perto de Ílion, e levado para a mansão olímpica. Conforme já exposto quando tratamos das constelações boreais, Aquila tem a ver com a forma alada tomada por Zeus para raptar o jovem Ganimedes. Essa constelação estende-se de 12º Capricórnio a 15º Aquário, sendo sua principal estrela Altair, de 1ª magnitude, atualmente sensibilizando o grau 1º04´ desta última.



A  ÁGUIA  E  GANIMEDES

Ganimedes tornou-se, assim, o escanção (servidor de bebidas) dos deuses e também escravo erótico de Zeus, substituindo Hebe (filha de Zeus e de Hera) na primeira função. Para celebrar o acontecimento, Zeus, instaurando no mito uma das práticas mais vezeiras nas relações homossexuais (presentes dados pelo erasta ao pupilo), ofereceu ao jovem um aro (anel), símbolo da união; um galo, ave que espanta as trevas noturnas ao anunciar a aurora; e um par de asas, símbolo de elevação. O galo, como se sabe, por suas características solares, é também um poderosos amuleto contra pesadelos. Foi nesta condição, de um ser alado, celeste, que Ganimedes passou a desempenhar as suas funções de escanção nas reuniões olímpicas. É nesta representação algo andrógina,angelical,que o jovem troiano, imortalizado por Zeus, seria colocado depois, como se disse, no Zodíaco entre os signos de Capricórnio e de Peixes.

Toda a história de Ganimedes, como se pode constatar sem muito esforço, é um relato sobre muitos temas que fazem parte do universo aquariano. A palavra escanção, como sabemos, não é de origem grega. Foi introduzida no nosso léxico a partir do gótico, skanja, do céltico, escanzaria, do alemão, schenk, ou do baixo francês pelo latim medieval, skankjo, segundo as várias hipóteses sobre a sua origem.O banquete, entre os gregos antigos, era realizado em muitas ocasiões, como sabemos, nas festas de casamento, nas cerimônias fúnebres e nas reuniões sociais e culturais. Nestas últimas, de modo especial, o banquete se integrou à filosofia como uma reunião durante a qual os convidados bebiam vinho e sobretudo conversavam sobre temas variados, filosóficos. Este banquete era chamado de symposion (posis, em grego, é ação de beber, gole de bebida), sendo presidido, dirigido, por um “symposiarkhes (simposiarca), encarregado de manter as conversas “acesas”, dosando, para isso, o teor alcoólico do vinho distribuído entre os convivas. Em Portugal, usa-se a palavra escanção para designar o profissional dos vinhos em restaurantes, incluída a
SOMMELIER
responsabilidade pela cave. No Brasil e no resto do mundo, a palavra usada para o desempenho dessa função é sommelier. Esta palavra, etimologicamente, quer dizer “encarregado das bestas de carga”. Depois, o nome foi aplicado àqueles que exerciam a função de supervisionar a mesa, os víveres e as bebidas numa comunidade. Na figura do escanção unem-se duas ideias caras a Aquário, banquete, participação comunitária, e circulação de energia (vinho) que a todos una. 

O vinho enquanto “sangue” da vinha nos remete a uma ideia de princípio vital considerado sob o ponto de vista espiritual, isto é, da totalidade. Assim como o sangue através da circulação arterial energiza os órgãos do corpo, fazendo-os funcionar corretamente em
DIONISO ( CARAVAGGIO , 1571 - 1610 )
benefício do todo, assim o vinho, bebida da imortalidade leva à transcendência do individual em direção do coletivo, da humanidade, do todo. Astrologicamente não nos esqueçamos que Urano, regente de Aquário, se exalta em Escorpião, signo no qual “vive” o deus Dioniso, o “inventor” do vinho. Aliás, o vinho em todas as tradições sempre teve também um valor cultural superior, favorecendo, àqueles que sabem consumi-lo, uma forma de convívio inteligente, culta. 

SYMPOSION
É nesta perspectiva que se coloca a obra (diálogo) de Platão, de modo especial o seu Symposion, O Banquete, em português (péssima tradução), que tem por cenário uma reunião patrocinada pelo poeta Agathon, da qual participam os seus amigos. Nessa reunião são abordados os temas do amor à ciência e ao belo. Cada um dos convivas faz um elogio ao amor, tomando Sócrates depois a palavra para fazer um elogio à beleza e uma reflexão sobre o amor aos belos corpos e às belas almas, depois às belas obras humanas, às belas-artes, à ciência e, por fim, à vida espiritual superior.

O “líquido” que hoje circula nos meios aquarianos nada tem a ver com aquele a que o mito se refere. O “verdadeiro” líquido aquariano significava então aproximação, contacto, união, presença, que não anulava as individualidades, mas que levava a uma participação comunitária. A energia aquariana, no seu mais
WORLD  WEB  WILDE
alto grau de eficiência, circula hoje, como sabemos, na Internet, formando uma rede mundial de computadores interconectados (WWW-World Web Wilde), que parece unir os que a usam, todos “linkados”, mas que, no fundo, os separa cada vez mais (outra contradição aquariana), vivendo todos numa “realidade” fragmentada de informações, sem nenhuma possibilidade de controle do todo. 

A relação entre a futura era de Aquário e a homossexualidade é um dos temas mais explorados pela cultura moderna, tanto a erudita como a de massa, como todos podemos constatar, principalmente com relação a esta última. Teatro, música, cinema, artes plásticas, desfiles, paradas, espetáculos, tudo foi permeado. Muito do que se produziu nessas áreas, inclusive na cultura erudita, acadêmica, tem como ideia básica a proclamada “homossexualidade dos antigos gregos”. Temos, contudo, que ter muito cuidado quando nos aproximamos dessa “unanimidade” que veio dos gregos. Até que ponto a antiga sociedade grega era realmente permissiva com relação à prática homossexual?

É claro que encontramos diversas demonstrações dessa forma de desejo, presentes não só na mitologia, na arte, na filosofia, na poesia, no teatro, na cerâmica e nos grafites gregos. É o caso de que
AQUILES   E   PÁTROCLO
ora tratamos, o rapto de Ganimedes por Zeus, transformado por ele em seu escravo erótico no Olimpo. Se nos voltamos para Homero, lá temos Aquiles e Pátroclo, heróis da Ilíada, vivendo uma comovente e delicada relação homoerótica. Sócrates (ou Platão?), já sexagenário, transforma a pederastia em pedagogia, iniciando o belo Alcebíades nos prazeres da carne e do espírito. Platão, Aristóteles, Alexandre Magno, Aristófanes, Epaminondas, Sófocles e outras importantes figuras históricas do mundo grego foram praticantes do amor unissexual conhecido também ao longo dos séculos como “amor grego”, “amor dórico” ou “amor socrático.”

Além disso, quando falamos da Grécia devemos lembrar que sua história se estende por cerca de 2300 anos, desde a chegada das tribos indo-europeias ao seu território até o denominado período romano. O que temos de mais consistente e sério sobre a homossexualidade grega nos vem da produção de uma elite cultural, os chamados helenistas, que se voltou sobretudo sobre o período clássico da história grega, cerca de 150 anos, dentro da qual está o período em em Péricles governou, entre os séculos V e IV aC., quando Atenas era por excelência a polis grega. 

No mais, quanto ao homem comum, ao longo de todos os demais séculos, a homossexualidade parece não ter sido unanimemente aceita. Havia em muitas cidades gregas legislação que punia até pesadamente a prostituição de um modo geral, inclusive a masculina. Não podemos esquecer por outro lado que a maioria dos scholars (os ingleses do período vitoriano, principalmente (segunda metade do séc. XIX e princípio do séc. XX) que se voltou para o estudo da homossexualidade grega era homossexual e procurou “dourar” de algum modo a sua abordagem, muito erudita sempre, revestindo-a às vezes até de grande charme, com farta riqueza de informações.


AQUÁRIO, ILUMINURA MEDIEVAL
As asas de Ganimedes explicam que o fluxo de Aquário não é líquido, mas aéreo, etéreo, lembrando as suas “águas” o oceano fluído que envolve o planeta Terra, com os seus variados tipos de ondas eletromagnéticas, regiões, níveis e frequências. Aquário, por isso, se liga ao fluído, ao volátil, à elevação, à emancipação, ao afastamento dos planos terrestres. Ganimedes, por sua vez, implica ideias de distribuir, de fazer circular o “líquido” da imortalidade (o vinho, recomendado por cardiologistas), para que sejam estabelecidas formas superiores de vida, fraternidade, altruísmo e igualdade. No corpo humano, lembramos, esta função cabe aos vasos sanguíneos, sendo os mais importantes as artérias, fortes e flexíveis, que transportam o sangue oxigenado no coração, distribuindo-o pelo corpo. Dentre as artérias, a principal, como sabemos, é a aorta, que no nasce no ventrículo esquerdo do coração. Astrologicamente, como se sabe, o coração é do signo de Leão, sendo as artérias governadas pelo signo de Aquário, oposto àquele.

Se astrologicamente a história de Ganimedes tem relação como o elemento ar, alquimicamente ela se relaciona com a sublimatio, palavra que indica elevação, movimento ascendente, como, aliás, a figura alada, o anjo, que representa o signo, sugere. É neste sentido que o anjo é uma das melhores representações do aquariano espiritualizado. 

Em todas as tradições, no antigo e no novo testamento, nas teorias religiosas egípcias, persas, indianas ou chinesas, por exemplo, encontramos a crença em seres espirituais superiores à natureza humana. A criação, segundo essas teorias, é concebida numa gradação em que o topo, imediatamente abaixo dos deuses, é ocupado por esses seres de substância incorpórea, espíritos puros, enquanto os humanos, duplos, são formados por matéria e espírito, corpo e alma, vivendo presos à Terra.

As características de leveza, souplesse, facilidade para se deslocar através de impulsos para diante e para cima a partir de um movimento peculiar dos tornozelos, faz com que o andar de muitos aquarianos (principalmente os que têm o ascendente no signo) lembre às vezes uma vitória sobre as forças da gravidade. Os tornozelos, segmentos ósseos em cada um dos membros inferiores, situados entre a perna e o pé, são conhecidos desde a antiguidade como o “segundo coração”, já que por eles é possível avaliar em que condições está a circulação arterial de alguém.


Particularmente importante no tornozelo é um ligamento (correia de transmissão do sistema locomotor) chamado tendão de Aquiles, que realiza a inserção dos músculos posteriores da perna sobre o calcâneo. O poder de impulso está nele, do qual dependem os saltos, sendo um símbolo da ascensão, da elevação. Aquiles, o maior dos guerreiros da mitologia grega, invencível, modelo do infante, o que combate a pé), um dos mais acabados tipos astrológicos arianos, como se sabe, tinha como ponto vulnerável no seu corpo este ligamento, o mais forte do corpo. Os gregos e os romanos antigos viam uma analogia entre asas e tornozelos. Ambos lembram desmaterialização, ultrapassagem, liberação, transcendência. O deus Hermes tinha pequenas asas nos tornozelos, razão pela qual superava qualquer obstáculo que encontrasse, transpondo-o. Astrologicamente, as asas de Hermes nos tornozelos significam não só a capacidade de deslocamentos rápidos mas força de elevação (exaltação de Mercúrio em Aquário). 

 
AQUILES  FERIDO .  ESTÁTUA  NOS  JARDINS  DO  ACHILLEION

Segundo o ensinamento da Angeologia, os anjos foram criados em um estado de graça, de felicidade e com a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Alguns, como temos no cristianismo, por exemplo, pecaram por orgulho e foram condenados a um suplício eterno; transformaram-se em demônios, seres que empurram os humanos na direção do mal. Cada ser humano é ajudado na via do bem por um anjo da guarda, chamado também de custódio, símbolo da consciência superior. Simbolicamente, os anjos são potências
LUDWIG KNAUS
1829-1910
invisíveis e correspondem na escala dos valores humanos aos mais altos, à mais elevada espiritualidade, pois podem frequentar a região etérica, onde vivem os deuses. Num nível muito abaixo, nessa escala de valores, mergulhados no mundo da matéria, que a Lua separa da região etérica, sem liberdade alguma, portanto, sujeitos às pressões dos seus corpos mental, emocional e físico, encontramos o resto da humanidade. A iconografia representa os seres que estão no topo da referida escala com asas, testemunhando sua essência imaterial, geralmente com vestes brancas, talares. Os demônios, lembremos, sob o ponto de vista psicológico, representam no ser humano as suas funções inferiores, agindo na sombra do inconsciente.

SUBLIMATIO
A sublimação alquímica, sempre vivida simbolicamente, é experimentada por muitos aquarianos através de imagens ascensionais, segundo a posição que ele ocupe na escala de valores do signo a que estamos nos referindo. Quanto mais espiritualizado o aquariano, mais o “angelical” o domina, menor o poder da matéria, passando ele a viver num plano de abstrações, deixando, como dizia Schopenhauer, de lutar, sofrer e morrer como um animal. Esta ascensão permitirá que ele se situe acima das coisas mundanas, adquirindo assim a habilidade de dissociar, de discriminar. Nem sempre, porém, esta sublimação “angelical” é atingida. Daí encontrarmos muitos aquarianos, conforme o nível que ocupem na referida escala, repetimos, “vivendo” os seus símbolos através de atividades que impliquem alguma forma de elevação, trabalhando no mundo da aeronáutica (militares da força aérea, empregados em empresas de aviação, maníacos por naves espaciais, aviões, zepelins, foguetes, balões, planadores, filmes, ficção científica, literatura etc.) Nas expressões inferiores do lado “angelical” comum a tendência aparecer através de colecionadores de anjinhos, de modelos de aviões, de foguetes etc. 

Tudo o que libera o homem, elevando-o do solo ou levando-o a percorrer horizontalmente toda superfície terrestre, rompendo fronteiras e limites, indiferenciando-o, individualizando-o ao máximo, se liga de algum modo a Aquário. Nestes casos, porém, há sempre o perigo do aquariano inflar demasiadamente o seu ego (leonino), sonhando alto demais, ou de não dominar adequadamente os meios técnicos que emprega para a sua ascensão. São estas duas configurações que costumam dar origem a duas grandes distorções em tipos do signo, gerando o aprendiz de feiticeiro e o delirante.


O  GOLEM  COMO  VEIO  AO  MUNDO
FILME  DE  PAUL  WEGENER , 1920

O primeiro, como se sabe, costuma precipitar tragédias, como no caso já descrito do Golem, pela busca de metas “impossíveis” ou pela inabilidade ou desconhecimento quanto ao uso das técnicas disponíveis tendo em vista o fim colimado. Já o segundo tipifica o aquariano que sofre do chamado delírio sistematizado, sistema logicamente organizado de ideias delirantes, que se instala sem sinal claro de demência, no qual grande número de funções perceptivas e cognitivas pode permanece intacto, mas ativados em níveis que parecem querer (ou querem mesmo?) ultrapassar os limites do humano. As manifestações deste segundo tipo podem ser detectadas em várias expressões aquarianas, mais ou menos logradas, expressões que elegem símbolos de caráter ascensional,como o da águia, por exemplo. 

A união da águia com a proposta visionária aquariana, com o objetivo de antecipar de algum modo o futuro, traço aquariano notável, nós a encontramos na atividade dos áugures do mundo greco-latino que traduziam o voo e o canto da águia em profecias. O delírio poético que tem no chamado condoreirismo (uma distorção do Romantismo, movimento artístico tipicamente aquariano) uma de suas mais pomposas, grandiloquentes, bombásticas e banais elaborações é também um bom exemplo.

Como traço de personalidade, o delírio aquariano tem um dos seus exemplos mais interessantes na tendência que muitos do signo apresentam no sentido de compensar a sua “fraqueza” solar (o Sol se exila em Aquário), que os faz sentirem-se inferiorizados por alguma razão (sentimentos sempre geradores de medo e ressentimentos reprimidos), por uma supercompensação, na linguagem psicanalítica. É isto que leva muitos aquarianos enquadrados neste exemplo para o outro polo. Vão de um disfarçado complexo de inferioridade (o de não serem “bons” em alguma coisa, uma limitação física, um problema de relacionamento, um mental não à altura de suas pretensões) para um complexo de superioridade. Procuram ser os melhores em alguma atividade (baterem recordes, se tornarem “únicos”, 
URANO

paradigmas, excêntricos etc.), superarem alguma marca, limite, no fundo sempre uma defesa contra o complexo oposto. É isto que aproxima tão perigosamente o sábio solitário (aquariano superior) do louco, igualmente solitário, perdido nos seus delírios paranoicos (lembremos que o símbolo de Urano é construído com duas Luas). 

Partindo destas considerações é que podemos ver Diógenes, o Cínico (413-327),como um dos  mais perfeitos tipos aquarianos da história da filosofia. A tradição nos fala de seu espírito cáustico, de seu desprezo pelas honras, pelas riquezas e por todas as convenções sociais, e da sua busca por uma vida sóbria e natural. Pés nus e envolvido por uma túnica, sua única vestimenta, vivia dentro de um grande tonel, símbolo evocador de abundância, de espontaneidade, sempre associado à palavra grega ganos, jorro do vinho. Tendo visto um menino beber na concha que fazia com uma das mãos, quebrou Diógenes a única tigela que possuía, alegando que o garoto lhe dera uma grande lição sobre o que era supérfluo na vida. 

A Alexandre Magno, que, curioso, o procurara em Corinto, perguntando-lhe o que ele desejava na vida, que ele tudo lhe daria, pediu apenas ao imperador que se afastasse um pouco de sua frente
 DIÓGENES
(ANTÔNIO ZANCHI, 1631-1722)
para que pudesse, sentado como estava, continuar a receber a luz do Sol. Famosos eram os seus passeios por Atenas quando, à luz do dia, com uma lanterna mão, saía, segundo dizia, para procurar “um homem.” Os cínicos, como se sabe, usavam de forma polêmica a vida canina (kyon, kynis, cão, em grego) como um modelo prático de virtudes, descaso pela vida social e moral vigente, espontaneidade, desfaçatez, despudor.

                                

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O RETRATO DE DORIAN GRAY



OSCAR   WILDE

Personagem de um romance de Oscar Wilde, Dorian Gray é um jovem inglês de grande beleza, que vive na alta sociedade vitoriana, período que se estende historicamente de 1837 a 1901, marcado fortemente pelo reinado da rainha Vitória. Este período se caracterizou na Inglaterra, dentre outras coisas, pelo auge de uma revolução industrial, por grande prosperidade e paz e por grandes lucros obtidos pelo país em decorrência da expansão das suas fronteiras, expansão conduzida por uma brutal política de colonização em vários continentes e de transferência de recursos para a metrópole. A sociedade afluente, a middleclass, era moralista, puritana e disciplinada. A referência a coisas do sexo era reprimida. A moral vigente sempre associara o grande interesse que as classes mais baixas demonstravam pela vida sexual a algo animalesco e indigno.


RAINHA VITÓRIA
Ao subir ao trono, a rainha Vitória aderiu politicamente aos costumes burgueses, ou seja, os homens eram os representantes da família no mundo exterior, cabendo às mulheres, socialmente, a guarda da moral, da castidade e a proteção do lar e dos filhos. A prática sexual era recomendada somente para fins reprodutivos. As mulheres nada entendiam de sexo, aconselhando-se que quando o assunto fosse mencionado elas se abstivessem de emitir qualquer opinião. O único “prazer” das mulheres: cuidar da casa, dos filhos, dos animais e dos empregados. Os maridos, geralmente, procuravam a satisfação das suas “necessidades” na rua, de preferência no East End de Londres.

Quando a classe superior, a upperclass, constituída pela nobreza e pela aristocracia, se “sujou” por contactos com a classe média, a abordagem da moral vitoriana tomou caminhos diferentes. Uma duplicidade então se instalou nesse período quanto à vida sexual. No mundo dos ricos e bem nascidos desenvolveram-se na prática atitudes bem diferentes das noções proclamadas oficialmente, delas fazendo parte o adultério, a prostituição e a homossexualidade. A noite ocultava todos os vícios no leste londrino, para onde costumavam ir muitos aristocratas e mesmo homens da classe média endinheirados, lugares onde se aglomeravam os bordéis, inclusive masculinos, as salas de espetáculos, de jogos e os antros das drogas, do ópio em especial.


ANTRO  DE  ÓPIO  EM  LONDRES

É de se lembrar que o nome Dorian, adotado por Wilde para designar o principal personagem da novela tem ligações com o mundo grego, mais exatamente com as tribos de origem indo-europeia que por volta do ano 1.000 aC, invadiram a Grécia, destruíram Micenas e Tirinto, impondo-se ao que sobrara da civilização creto-micênica e instaurando costumes ligados à vida militar, a chamada camaradagem bélica, a nudez do atleta e consolidando a prática da pederastia como método pedagógico. 

O adjetivo dórico sempre traduziu para os antigos gregos tanto uma ideia de poder, de belicosidade, de afirmação social como de rusticidade, de boçalidade e de grosseria, eis que foram eles, os dóricos, que, ao dominar a Grécia, a partir do Peloponeso, na virada do milênio, a mergulharam no que se denominou a idade das trevas, um período marcado pelo fechamento de fronteiras e de grande obscuridade social, cultural e comercial. Tal idade estendeu-se mais ou menos de 1.100 aC até o início do período arcaico, por volta de 900 aC. 

PEDERASTIA  NA  GRÉCIA  ANTIGA (CERÂMICA)

Conhecedor da cultura grega, o que parece ter prevalecido na escolha, por Wilde, do prenome Dorian para o “herói” de sua novela foi sobretudo a ligação dos dóricos com a pederastia, por eles institucionalizada como processo pedagógico. Não escapou da observação de Wilde também que esse tema, já presente entre os aqueus, permearia toda a cultura grega pelos séculos afora, inclusive a filosofia, despontando como suas mais importantes figuras a do erasta (amante) e do eromeno (jovem pupilo). 

ÉSQUINES
Não escapou também certamente ao conhecimento de Wilde um fato escandaloso ocorrido séculos mais tarde (período helenístico) entre os antigos gregos, quando nos aventuramos no mundo da pederastia daqueles tempos, o do destino de Timarco. Em 345 aC, Demóstenes e Timarco acusaram Ésquines de ter sido corrompido por Felipe da Macedônia. Numa peça oratória das mais brilhantes, Contra Timarco, que a história conserva, Ésquines foi à réplica, declarando que Timarco nada poderia falar, pois era famoso por sua depravação, muito conhecido, na sua juventude, como erasta (amante) de muitos eromenos  (pupilos) nos meios portuários do Pireu. A argumentação de Ésquines foi acatada e Timarco teve a sua palavra cassada, tendo, além disso, pela pena da atimia, perdido os seus direitos cívicos. Estávamos a esse tempo no chamado período helenístico da história grega, período em que a instituição da pederastia já ganhara fortes contornos de devassidão. 

Dorian Gray foi influenciado por um aristocrata cínico e decadente, lorde Henry Wotton. Arrogante, debochado, libertino, defensor de uma filosofia de vida hedonista, lord Henry Wotton representa, sem dúvida, a postura crítica de Wilde diante dos hipócritas valores da sociedade vitoriana da sua época. Wilde-Wotton tentou se colocar na sua novela, acima de tudo, como um iniciador, um pedagogo, conduzindo um ritual que deveria assegurar, com muito prazer, uma feliz passagem de seu pupilo de uma idade “terna” para outra mais “viril”. O drama de Wilde foi o de ele ter pretendido viver ostensivamente uma instituição iniciática indo-europeia, onde a relação homossexual erasta-eromeno era, digamos, obrigatória, num mundo cujas concepções dominantes a rejeitavam, não realmente, mas apenas na aparência. 


EDIÇÃO ANTIGA
Tanto isto é verdadeiro se atentarmos para o fato de que uma boa parte dos estudos sobre a homossexualidade grega foi escrita em língua inglesa durante o período vitoriano. Os departamentos de língua e de literatura grega em universidades inglesas foram, durante o período vitoriano, e mesmo depois, um refúgio mais ou menos seguro para muitos homossexuais que não queriam maiores aborrecimentos nem ousavam afrontar a sociedade. Wilde era realmente “demais” para seu tempo. Mais: para uma sociedade que precisava manter as aparências, afirmações como esta de Wilde: Um livro não é moral ou imoral. É bem ou mal escrito, eram profundamente provocativas, perigosas.

O   RETRATO
Fascinado pelas palavras de lord Henry, Dorian é tomado por uma ideia, a de que seu retrato, que acabara de ser pintado, iria envelhecer no seu lugar. Foi o que aconteceu. À medida que o tempo passava, Dorian permanecia jovem e belo. Seu retrato, contudo, desfigurando-se, ia incorporando as perversões e crimes que ele cometia. 

Quando Dorian Gray percebeu que o seu desejo fora atendido, que o retrato envelhecia e ele não, trancou-o numa sala de sua casa, impedindo que qualquer pessoa o visse. Um dia, porém, acabou mostrando-o ao seu próprio autor, o pintor Basil Hallward. Com receio de que seu segredo se tornasse público, não teve outra alternativa senão matá-lo.

DORIAN  GRAY


O tempo foi passando, as perversões de Dorian se avolumando. Não as suportando mais, certo dia, numa crise de fúria, com a faca com a qual matara o pintor, apunhalou a tela, gesto que também provocou a sua morte. Enquanto isso, amigos que haviam se apossado de uma chave do quarto onde estava o retrato, conseguiram nele entrar, juntamente com os empregados da casa. Encontram no chão, morto, com o rosto completamente deformado, um velho decrépito, cheio de rugas, uma figura asquerosa. Pelos anéis na mão do velho, reconhecem os serviçais que quem ali jazia era o patrão. Ao lado, o retrato de Dorian Gray recuperara a sua esplêndida beleza.

O romance de Wilde reúne vários temas que sempre chocaram a sociedade londrina, temas que começaram a entrar em moda em meados do século XIX, vida passional, sexo e suas perversões, crimes, homossexualidade, droga (eram famosos os antros de ópio em Londres, muito frequentados pela elite social), prostituição. Quanto à literatura, as “novidades” aprofundavam o esteticismo, o dandismo e o hedonismo, atuando como seu porta-voz o debochado lorde Wotton. As propostas, diluídas nas falas dos personagens, defendiam tanto o culto da beleza como uma forma de resistência ao puritanismo e à hipocrisia da sociedade vitoriana, apontando para uma entrega aos prazeres dos sentidos considerados como bem supremo. 

ALBERT   LEWIN
Em 1944, o romance de Oscar Wilde, mais um sucesso de público do que de crítica, foi transposto para o cinema, pela MGM, realizando-se o filme com a direção e roteiro de Albert Lewin e fotografia de Harry Strading. Nos principais papéis, temos Hurd Hatfield (Dorian Gray), Georde Sanders (lorde Henry Wotton), Donna Reed (Gladys), Peter Lawford (David Stone) e Angela Lansbury (Sybil Vane).

A adaptação do romance para o cinema foi feita pelo próprio diretor do filme, o que os grandes estúdios não permitiam normalmente. Contudo, Lewin, nascido nos USA, de família judia russa, tornara-se não só diretor, mas um produtor e roteirista de reconhecida competência. Seus primeiros trabalhos no cinema datam de 1942, assumindo ele logo depois a função de diretor e/ou de roteirista, sempre demonstrando aspirações culturais e literárias superiores na escolha e no tratamento dos seus temas. 


GEORGES  SANDERS
O Retrato de Dorian Gray é um filme do qual extraímos, sem dúvida, muitas possibilidades de leitura, tantas que podemos considerá-lo como um  roman à clé. Lewin, com seu grande talento e cultura, certamente sabia disso e captou com muita arte o ambiente da Inglaterra vitoriana aprisionada por inúmeros tabus morais e pela hipocrisia. Soube Lewin, magistralmente, também, manter no seu filme as tiradas irônicas e os epigramas de Oscar Wilde através de lord Wotton, soberbamente interpretado por George Sanders, um ator wildeano. 

POSTER DO FILME
A importância de O Retrato de Dorian Gray avulta por nos ter confirmado o quanto gente como Lewin faz falta ao cinema, principalmente ao cinema americano. Formado em literatura britânica pela universidade de Harvard, membro da sua Sociedade de Poesia, o libriano Lewin (nascido em 23 de setembro de 1894), apaixonado pelo expressionismo alemão, foi um poderoso sopro de cultura, de refinamento e de bom gosto que animou o cinema americano por algum tempo. Quanto ao que aqui se coloca, basta lembrar que os três primeiros filmes de Lewin tiveram os seus roteiros baseados em Somerset Maughan (Um Gosto e Seis Vinténs, 1942), Oscal Wilde (O Retrato de Dorian Gray, 1945) e Guy de Maupassant (O Homem sem Coração, 1947).


PATRICK  BRION
Considerado muito culto pelos chefões da MGM para ocupar um lugar mais importante no cinema, Lewin conseguiu, malgré tout, deixar nele a sua marca, trabalhando como produtor, orientando roteiros, escolhendo bons diretores de arte e fotógrafos, cercando-se de grandes atores (tinha especial predileção por George Sanders e soube reconhecer o
BERTRAND TAVERNIER
talento da então jovem Angela Lansbury). Não é por acaso que gente que vê o cinema não só pelo Box Office reconhece sua importância como o fizeram  o francês Patrick Brion (grande figura da história do cinema) na biografia de Lewin que escreveu,
Un Esthète à Hollywood (2002) ou os também franceses Jean Pierre Coursodon e Bertrand Tavernier em 50 Ans de Cinéma Américain, ali registrando a dificuldade de Lewin para viver a sua verdade e de se realizar culturalmente num ambiente dominado pelo dinheiro. 

A narração de O Retrato de Dorian Gray filme é linear, muito simples, seguindo Lewin de maneira fiel a história, procurando sempre evitar, contudo, que seu filme se contaminasse pela publicidade escandalosa que cercava a vida de Oscar Wilde e da qual se valeram as filmagens posteriores da mesma história, de nível muito inferior.  


O  RETRATO  DE  DORIAN  GRAY

O filme de Lewin é extremamente bem cuidado não só com relação à direção de atores, mas sobretudo com relação aos cenários, com notáveis toques decadentistas na direção de arte, pelas inúmeras sugestões apresentadas com relação ao passado, tanto na arquitetura de interiores como com relação aos figurinos. Quanto à música, Lewin pegou firme, dando-nos Chopin e Beethoven. Um detalhe interessante foi o uso que Lewin fez da cor, algo inédito, no que se refere aos planos do retrato de Dorian, num tempo em que praticamente todos os filmes eram rodados em branco e preto, um luxo para a época. 

DORIAN  E  GLADYS
Quanto à direção, para a concepção geral do filme, é de se destacar que Lewin conseguiu traduzir, como poucas vezes vimos no cinema, a atmosfera que Wilde havia criado para situar o seu romance, da qual fizeram parte, além dos traços decadentistas apontados (não só na direção de arte),  temas como os do narcisismo, hedonismo e esteticismo, muito presentes, aliás, na arte das últimas décadas do séc. XIX. 


À   MEIA   LUZ 
Outra “ousadia” de Lewin foi a escolha de Angela Lansbury para o papel de Sybil, apenas uma iniciante à época, revelada em Gaslight (À Meia-Luz), filme de Ceorge Cukor, com Ingrid Bergman e Charles Boyer nos principais papéis. A grande escolha do filme, entretanto, foi a de George Sanders, à época o mais completo e preparado ator para representar personagens como Lord Henry.  Um papel no qual Sanders realmente se superou com relação ao que fizera e talvez com relação com o que viria a fazer mais tarde. Uma curiosidade com relação à escolha do ator para o papel de Dorian Gray: Greta Garbo, famosíssima atriz, teve o seu nome cogitado seriamente para assumi-lo. Entretanto, o escolhido, por seu belo rosto e ambiguidade física, foi Hurd Hartfield, na época totalmente desconhecido. 

Merece especial destaque, para se compreender melhor tanto o romance de Wilde como o filme, foi o que à época da publicação do romance se deu o nome de duplicidade, palavra que caracterizava a vida dupla que muitos aristocratas levavam, indo procurar “diversão” nos bas-fonds da cidade. Há, no livro, na boca de um aristocrata, frases como esta: O crime pertence exclusivamente às ordens inferiores...Eu deveria imaginar que o crime era para eles o que a arte é para nós, simplesmente um método de obtenção de sensações extraordinárias. 


Dorian Gray é um personagem duplo, um esteta refinado e um devasso cujas ações levaram-no ao crime. Não é por acaso, aliás, que Oscar Wilde sempre foi um admirador de obras que tratam do aspecto duplo da natureza humana, como O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, Às Avessas, de J.K. Huysmans, Fausto, de Goethe, e outros.


PLATÃO
Um tema de Platão, de quem Wilde era profundo conhecedor, costuma ser invocado para que o alcance de O Retrato ganhe ainda maior dimensão. Referimo-nos à A República, onde dois personagens, Glauco e Adimanto, apresentam o mito de O Anel de Giges,  por meio do qual Giges fez-se invisível e adquiriu grande fortuna. Eles, então, perguntam provocativamente a Sócrates: Se alguém possuir tal anel, por que deveria agir com justiça? Sócrates responde que, embora ninguém possa ver o corpo, a alma ficará sempre desfigurada pelos males que alguém cometer em vida. Esta é uma das leituras de O Retrato, que podemos resumir através da expressão “vender a alma ao Diabo” para obter vantagens, poderes especiais etc.

ALEXANDR   SOKUROV
Quanto à ideia acima, não podemos esquecer que um dos maiores nomes do cinema atual, Alexandr Sokurov, fez uma tetralogia na qual explorou magistralmente o tema. Falo aqui dos filmes Moloch (1999), Taurus (2001), O Sol (2005) e Fausto (2011), que constituem a chamada tetralogia do poder, sobre três figuras históricas do séc. XX, Hitler, Lenin e Hiroito e uma do séc. XVI, Fausto, que “venderam a sua alma ao Diabo”.


FAUSTO   ENTREGA   SUA   ALMA

A história de Dorian Gray, ganha outra dimensão ao nos permitir ligá-la também a muitas outras da literatura, como as de Ulisses (Homero) e de Tannhäuser (Wagner), além naturalmente das de Fausto (Goethe, Thomas Mann ou Sokurov), já citadas, e de outras, inclusive a de Fernando Pessoa, quando pensamos no tema dos heterônimos. Em todas, mais ou menos claramente, temos a capitulação de um personagem diante de um duplo ou da tentação, da conquista de alguma coisa (imortalidade, poder, conhecimento, beleza, arte etc.) pela entrega da sua alma ao Demo. 






domingo, 4 de novembro de 2018

AQUÁRIO (3)


AQUÁRIO
(JOHFRA BOSSCHART, 1919-1998 
Os aquarianos de todos os matizes precisam saber que o arquétipo do demiurgo tem origem no mundo aquariano, tanto como o encontramos mais ou menos definido no léxico do homem comum, na filosofia ou na religião. A palavra demiurgo, como se sabe, é grega, formada por dem, demos, povo, e por ergon, trabalho. Ou seja, demiurgo é o que trabalha para o povo, um benfeitor, se quisermos, servindo o termo na antiga Grécia para designar não só o artesão, o médico, o inventor como o criador de qualquer obra de importância ou grandiosa que poderia ser usada por muita gente. 


PLATÃO
Foi Platão, no Timeu, quem pôs em circulação a palavra demiurgo na filosofia, para designar o artesão divino ou o princípio organizador do universo que, sem criar de fato a realidade, modela e organiza a matéria caótica preexistente através das imitação de modelos eternos e perfeitos (os chamados eide, de eidos, forma). Posteriormente, nas seitas cristãs de inspiração platônica e no gnosticismo, demiurgo será o intermediário de Deus na criação do universo, responsável pelo mal que há nele e que à divindade não poderá ser atribuído.

Não podemos, por isso, deixar de trazer para a nossa consideração o mito grego que melhor ilustra o que está acima, o de Dédalo e de seu filho Ícaro. É neste mito que encontramos os aspectos fundamentais que definem a dupla característica criadora do signo de Aquário, o impulso que pode salvar e o impulso que pode trazer a perdição. 

Dédalo foi um artesão ateniense, famoso como arquiteto, escultor, inventor  consumado, podendo ser considerado, dentre outras coisas, como um precursor da robótica. Seu nome significa engenho, obra-de-arte. Era filho de Eupalamos, nome que quer dizer aquele que é hábil com as mãos. Consta que, por ciúme, numa crise tipicamente leonina, matou um sobrinho, dotado de enorme capacidade criadora, sendo obrigado, por isso, a buscar o exílio em Creta.

SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE CNOSSOS


Acolhido por Minos, rei de Creta, tornou-se Dédalo o arquiteto oficial do reino, sendo responsável pela construção do Labirinto em Cnossos, gigantesco palácio constituído por um emaranhado de salas, corredores e subterrâneos. Foi nele que Minos mandou encerrar o Minotauro, monstro que sua mulher gerara incestuosamente ao se unir a um touro divino. Este animal fora enviado pelo deus Poseidon a pedido de Minos, um sinal divino que o confirmaria como único imperador de Creta, afastadas assim as pretensões de dois irmãos que com ele disputavam o trono. O animal foi enviado por Poseidon com a recomendação de que deveria ser sacrificado tão logo se mostrasse, resolvendo-se assim a  pendência. Minos, como sabemos, levou ao sacrifício um animal muito inferior, conservando o touro divino como reprodutor com o objetivo de fazer crescer ainda mais o seu grande rebanho e a sua incomensurável fortuna. 


LABIRINTO 

PASÍFAE  E  O  MINOTAURO
Os deuses puniram Minos, fazendo com que Pasífae, a rainha, concebesse uma paixão erótica irresistível pelo animal. Para consumar o seu intento, ela pediu a Dédalo que construísse um simulacro feminino do touro divino para que, entrando nele, pudesse se satisfazer sexualmente. Assim aconteceu, nascendo desse estranho conluio o Minotauro, monstro com corpo humano e cabeça de touro, que foi escondido nos subterrâneos do palácio. Minos, por sua vez, puniu Dédalo, que, sem consultá-lo, atendera ao que Pasífae lhe pedira, mandando-o para a prisão, juntamente com o filho Ícaro (etimologicamente, aquele se balança no ar), nascido de uma relação que mantivera, sem nenhum preconceito de classe, muito aquarianamente portanto, com uma escrava. 


ARIADNE, TESEU, MINOS
Outro ato lamentável de Dédalo com relação a Minos foi o auxílio que prestou à princesa Ariadne sem o seu conhecimento, fornecendo-lhe o famoso novelo de lã que seu amado, o herói ateniense Teseu, usou para se salvar do Labirinto, depois de matar o Minotauro. 

Deter um aquariano como Dédalo foi, sem dúvida, uma ingenuidade do rei, que subestimou a sua capacidade inventiva. Embora prisioneiro, Dédalo conseguiu fabricar, com penas de pássaros, entretela e cera, asas para si mesmo e para o filho, que presas às costas e acionadas pelos braços lhes permitiriam escapar da prisão. Ao filho fez a famosa recomendação: Não te aproximes demais do Sol; desconfia do teu entusiasmo ao voar, já que te sentirás tão livre e feliz nos céus como um pássaro que poderás correr o risco de chegar muito perto do Sol, fazendo com a cera de tuas asas derreta. Desconfia também do nevoeiro e da chuva fina se não quiseres que as penas de tuas asas, molhadas, se tornem muito pesadas e não mais sirvam para te transportar. Ícaro ouviu atentamente o pai, largou-se pelos ares, mas logo, vitimado pela conhecida embriaguez das alturas, aproximou-se perigosamente do Sol. As asas se despregaram de suas costas, caindo o jovem no mar, perecendo afogado. Em sua homenagem, o mar, na região de sua queda, passou a ser chamado de mar de Ícaro. 


ÍCARO  ( PETER PAUL RUBENS , 1636 )

Uma outra versão, porém, nos conta que, auxiliados por Pasífae, Dédalo e Ícaro conseguiram fugir de Creta, depois de ela ter se reconciliado Minos. Sabe-se por esta versão que pai e filho, cada um num barco, conseguiram sair da ilha em dias diferentes. Os barcos (modelos até então inexistentes) foram construídos por Dédalo, que para eles inventou uma vela especial. Ícaro, todavia, não conseguiu conduzir adequadamente a sua embarcação, que naufragou, morrendo afogado. Dédalo, por seu turno, perito na arte de navegar, conseguiu chegar a uma ilha desconhecida, nunca registrada antes em qualquer carta náutica. Em homenagem ao filho falecido, Dédalo a denominou Icária.

Dédalo refugiou-se a seguir na corte de Cócalos, rei da Sicília. Tomando conhecimento do local onde estava o genial inventor, Minos foi pessoalmente pressionar Cócalos para que Dédalo lhe fosse entregue. Mas o rei da Sicília a essa altura já havia sido conquistado pelo talentoso arquiteto, que construíra para ele uma cidadela inexpugnável na ilha, além de ter criado para divertimento de suas filhas soberbos autômatos, grandes bonecas que agiam como seres humanos. Diplomaticamente bem recebido por Cócalos, Minos hospedou-se no palácio. Convidado para um banho, o marido de Pasífae ao entrar na banheira real, mais uma pequena piscina, foi surpreendido por repentina mudança da água,que descia pela tubulação,em pez fervente, mais uma diabólica invenção do genial Dédalo. Outras versões, porém, muito malévolas, nos informam que foram as jovens e belas filhas do rei Cócalos que mataram Minos, pois não queriam, em hipótese alguma, abrir mão dos talentos do genial inventor que tanto as divertia com os seus mecanismos eróticos. Armaram uma festa, embebedaram Minos, e o afogaram na piscina. Um triste fim, sem dúvida, para um tão poderoso rei...


HERMES
Dédalo aparece no mito, acima de tudo, como um símbolo da engenhosidade e, como tal, é uma encarnação de certos aspectos do deus Hermes, o grande arquétipo no qual se concentram todas as características daquilo que chamamos de engenho, a capacidade de criar, produzir com arte e  habilidade alguma coisa, na qual podem entrar, nas expressões menores, o artifício, o estratagema, a astúcia, o provisório e mesmo o engodo. Lembremos em abono do que aqui que se coloca neste parágrafo que astrologicamente Mercúrio se exalta em Aquário, sendo inclusive regente do terceiro decanato do signo.

Há que se destacar, porém, como um traço importante da personalidade de Dédalo, com as implicações do arquétipo hermesiano, que ele, ao construir o Labirinto, deu simbolicamente forma a uma parte do psiquismo humano, àquilo que a psicologia chamaria mais de tarde de subconsciente. Segundo este enfoque, o labirinto teria relação com o fenômeno da vida psíquica que a psicanálise chamou mais tarde de recalque, mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ela ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. 

FIO DE ARIADNE
A palavra labirinto, todavia, faz parte de um campo semântico bem mais vasto. Numa leitura religiosa, serviria o labirinto para alegorizar o mundo como descaminho, como queda e perdição do espírito na dispersão e na perplexidade diante da vida fenomênica. A redenção só seria possível se fosse encontrado um meio de se sair dele (o fio de Ariadne). O labirinto pode servir também como a ilustração do mundo do erro, uma representação daqueles que vivem vegetativamente. Quando nascemos, entramos nele e nele permaneceremos, desorientados e aflitos, até que nos tornemos pessoas “cosméticas”, que nos voltemos para a luz, buscando uma posição na ordem cósmica. 


LABIRINTO  DE  CHARTRES
Em muitas tradições, a entrada no labirinto lembra também a viagem noturna do Sol. Mais: o labirinto pode representar o processo mental do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Em catedrais europeias, como a de Chartres, encontramos labirintos esculpidos na pedra do seu chão para representar a vida como peregrinação e as suas dificuldades. Os labirintos, nas catedrais, eram chamados de “caminhos de Jerusalém”, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. A arte barroca e a arte rococó, em muitos parques públicos e privados (castelos), principalmente na França, transformaram os labirintos, de esquemas relativamente simples, em verdadeiros dédalos (sinônimo de labirinto muito complicado para os franceses) de vegetação alta e espessa com o objetivo de divertir os seus visitantes. 

Miticamente, Dédalo é um dos mais ilustres representantes do signo de Aquário; de um lado, superlativamente, ele é o modelo mais bem acabado do inventor, do construtor, do artífice consumado; de outro, na sua expressão inferior, ele é o homem da bricolagem, palavra herdada do francês, que significa a montagem ou a instalação de qualquer coisa feita por pessoa não especializada, não habilitada. Bricoleur é aquele que, embora não especializado, executa trabalhos e reparos, muitas vezes caseiros, que podem acabar dando certo ou não. No geral, bricolagem, é
THOMAS  EDISON
também uma arte de natureza aquariana voltada para a montagem ou combinação de elementos diversos. Quando pensamos em Dédalo lembramo-nos, por exemplo, de aquarianos como Thomas Edison. Como sabemos, ele, muito jovem e inculto, com mínima escolaridade, deixou ao morrer um currículo onde estão relacionadas mais de mil invenções. Aspecto interessante da personalidade desse aquariano era a sua famosa insônia, problema muito comum nos do signo, no qual o planeta Urano tem seu domicílio.


É creditado a Dédalo um grande número de construções, descobertas e invenções. Ele teria concebido o templo de Apolo em Cumes, decorando-o com afrescos que, dizia-se, ilustravam as várias etapas de sua existência. Na Sicília, teria construído uma barragem no rio Alabas para represar água quente, de origem vulcânica, destinada a um balneário, também por ele construído. Em Agrigento, teria dirigido a construção de uma grande fortaleza, o terraço do templo de Afrodite em Eryx.

Além de grande construtor, interessou-se Dédalo pela arte da navegação, tendo construído muitos barcos e inventado velas especiais. Diz-se que o machado cretense foi criado por ele, o que o
MACHADO CRETENSE
torna autor do símbolo do império minoano, o labrys, dois machados cruzados (labrys é machado em grego), encontrados em bandeiras, estandartes, velas de barcos e, como marca comercial, nos produtos que eram fabricados na ilha, tecidos, cerâmica etc. Devemos ainda a Dédalo, segundo o mito, a invenção da broca, da verruma, do fio de prumo e de uma cadeira flexível, dobrável, encontrada no templo de Palas Atena Polyade. Não podemos esquecer ainda os famosos servomecanismos (autômatos) que construiu e espalhou pelos lugares por onde passou, sendo, nesse sentido, o grande precursor da robótica, como se disse. Os mais exagerados atribuíram a Dédalo a autoria dos projetos de construção das pirâmides egípcias e do templo do deus Ptah em Menfis. 


DÉDALO
(ÍCARO CANOVA, 1757-1822
Se à história de Dédalo e de Ícaro juntamos a de algumas personagens da mitologia grega, como a de Prometeu, por exemplo, o famoso titã, o filantropíssimo, um dos grandes traços da personalidade aquariana ficará bastante evidenciado. Referimo-nos a uma forma de hybris (orgulho, desmedida), muito comum em alguns representantes do signo, a de tentar sempre a superação de certos limites; a mania de bater recordes, de serem únicos, um reflexo leonino, signo oposto, sem dúvida. Esta hybris, em muitos heróis gregos, se caracteriza pela pretensão que apresentam no sentido de se igualar ou mesmo de superar os deuses. 

Um antiquíssimo sonho dos homens, como o encontramos em muitas literaturas, é o de não só se igualar à divindade como o de ultrapassá-la nos seus aspectos criativos através de inventos que deem aos homens formas de elevação (arranha-céus, torres, asas, balões, foguetes, naves espaciais, asa delta etc.), levando-os a tomar posse dos céus. Mas Ícaro, recordemos, conheceu a queda, esquecido de suas limitações. Pretendeu atingir o Sol, símbolo da vida espiritual, por meios técnicos, meios completamente inadequados para esse fim, como a humanidade vem constatando, aliás, tristemente, mas sem entender a lição.

A história de Ícaro, “aquele que conheceu a queda”, ilustra o velho ditado de “o aprendiz de feiticeiro”, ou seja, daquele que perde o controle dos elementos que libera e que julgava ingenuamente poder controlá-los. As descobertas técnicas patrocinadas pelo impulso aquariano já presentes neste final da era de Peixes, as invenções, o fabuloso avanço da ciência, da tecnologia, da medicina, da informática, por causa da contradição apontada, vêm trazendo grandes riscos, que os homens costumam  ignorar. 

Recordemos que a correta visão astrológica sempre nos disse que em Aquário há uma desconcertante mistura de ingenuidade, de genialidade, de ânsia libertária e dispersiva, tudo típico do elemento ar. No fundo, talvez, mais uma tentação de jogar com as ideias do que procurar concretizá-las (a falta do elemento terra). Isto não quer dizer que o aquariano não possa ser objetivo e bem organizado. Raros, porém, os aquarianos originais e que são capazes de reforçar os traços superiores do signo com relacionamentos positivos e com uma disposição mental voltada efetivamente para o futuro. Muitos são excêntricos só por amor à excentricidade, operando num nível bastante inferior deste que é conhecido como “o signo do homem.”


GOLEM, COMO  ELE  VEIO  AO  MUNDO
FILME  DE  PAUL  WEGENER, 1920

É do mundo judaico que nos vem um dos maiores exemplos das características aquarianas negativas. Refiro-me ao tema do Golem, a história de um ser mítico que simboliza a matéria animada artificialmente e que  se constituiu num grande perigo para o seu criador. A palavra golem significa incriado, informe. Trata-se de um ser semelhante a um autômato, criado artificialmente pela magia cabalística, isto é, pela palavra. Na língua ídiche, a palavra golem tem conotação insultuosa. Alguns, lembremos, tentam associar, erradamente, a figura do golem à do zumbi. Esta última, saliento, vem de nzumbi, que em quimbundo, língua africana, quer dizer espírito atormentado, alma que vagueia às horas mortas. Popularmente, a palavra zumbi se integrou ao nosso léxico, sendo usada para designar aquele que só está ativo ou só sai à noite. O Golem foi criado, segundo a tradição hebraica, por meios artificiais para concorrer com a criação de Adão por Deus. A sua criação é uma imitação do ato criador divino e com ele conflita. O Golem é mudo, seus criadores não conseguiram lhe dar o dom da palavra. 


FRANKENSTEIN
Uma certa semelhança pode ser estabelecida entre o Golem e o conde Frankenstein, idealizado por Mary Shelley. Esta romancista britânica, nascida Godwin (1797-1851), era a segunda esposa do poeta Percy B.Shelley, amigo de Keats e de Byron. Mary Shelley não tinha vinte anos quando escreveu Frankenstein ou O Prometeu Moderno, em 1817, novela pseudo-científica que evoca a criação artificial de um ser humano e o drama de seu demiurgo. 

O nome Golem tem também o sentido de “matéria informe”, representando uma espécie de Adão antes de lhe ter sido insuflada uma alma. Segundo a tradição cabalística, os grandes mestres da doutrina esotérica judaica conheciam a arte de, através de um apropriado uso da palavra criadora, infundir uma espécie de vida em um ser construído com argila. Um rabino era particularmente citado quando se mencionava este poder, Jehuda Elijah Low ben Bezalel, que viveu em Praga ao tempo do kaiser Rodolfo II. O reinado de Rodolfo II (astrologicamente, um fascinante tipo saturnino), de meados ao fim do séc. XVI, coincide com uma das épocas mais fecundas da Europa sob o ponto de vista intelectual.

Dizia-se que Bezalel havia criado o Golem e o escravizara. Trazia este monstro inscrita na sua testa a palavra emeth (verdade), palavra que lhe conferia a vida. Cheio de temor, devido ao estranho comportamento de sua criatura, o rabino resolveu apagar da sua testa a palavra que lhe dava a vida. Conseguiu, entretanto, apagar só a primeira letra, ficando meth, morte. O Golem entrou então em decomposição, formando-se uma massa de argila que acabou por sufocar o seu criador. A história deixa claro a conclusão: uma advertência contra o uso impróprio de forças mágicas, criadoras, que escapam do controle daqueles que as usam e que se tornam perigosas, destrutivas. 

SANTO ALBERTO MAGNO
Numa interpretação religiosa, como nos conta o cabalista Hal ben Scherira, por volta do ano 1.000, a história do Golem pode ser aplicada àqueles que absorvidos em práticas místicas de meditação descontroladas, são oprimidos e quase levados à morte pelo novo ser que “criaram”. Esta história, como alguns registram, pode ser vista também como uma paráfrase judaica de uma lenda cristã segundo a qual Santo Alberto Magno, o Doutor Universal, teria fabricado artificialmente um servo, destruído depois por seu aluno Tomás de Aquino. 


SEFER IETSIRÁ
O Golem dos judeus deveria ser fabricado com terra de solo virgem, dando-se-lhe uma forma humana, enquanto se dançava à sua volta e se entoavam os nomes de Deus ou combinações das letras do Sefer Ietsirá (O Livro da Criação). A vida lhe era dada ao se inscrever o Tetragrama (o nome de Deus com quatro letras) num pedaço de papel e colocando-o sob a sua língua ou gravando-se uma palavra hebraica em sua testa. Muitos cabalistas e alquimistas dedicaram-se à arte da criação do Golem, havendo muita literatura sobre ela, principalmente na Idade Média.

Uma lenda judaica atribui ao Maharal de Praga, acima citado, a criação de um Golem na forma de um autômato de argila que teria ajudado os judeus a escapar de complôs anti-semitas. Este Golem
O  GOLEM
foi destruído porque se rebelou contra o seu criador, guardados os seus restos em algum lugar da velha sinagoga de Praga. O Romantismo do século XIX voltará a explorar a figura do Golem conforme explica G.G.Scholem. Gustav Meyrink, em 1915, escreverá um romance fantástico sobre a criatura. No cinema, temos O Golem, filme alemão de 1920. Neste filme, o monstro, fabricado para fins pacíficos, se transforma num demônio sanguinário. O sorriso de uma menina, entretanto, encherá seu coração de ternura. Em 1936, Julien Duvivier, na França, fará um remake do filme, no qual o Golem assume o papel de um mediador de povos oprimidos. 



DE KUBRICK  E  CLARKE
O que fica, porém, da imagem do Golem é que ela tem sido usada sob um ponto de vista religioso para simbolizar a pretensão que o homem tem de imitar a Deus. Nesta perspectiva, o ser criado não seria mais que um ente desprovido de liberdade, inclinado para o mal, escravo de suas paixões. Outras interpretações, com as quais nos identificamos melhor astrologicamente, fazem do Golem a imagem da criação tecnológica que ultrapassa o seu criador e que pode destruí-lo, esmagá-lo. Uma das melhores ilustrações desta interpretação pode ser encontrada, sem dúvida, no filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick, com base numa história de Arthur C.Clarke. Refiro-me ao principal “ator” do filme (Hal 9000), um computador algorítmico programado heuristicamente. Seu nome de batismo viria das letras com que se iniciam as palavras que acabei de citar. Para alguns, porém, o nome teria mais a ver com a palavra inglesa Hell, inferno, já que é “puxando” para a pronúncia desta palavra que os astronautas a ele se referem no filme.

Hal mata um membro da tripulação, arremessando-o ao espaço, quando ele saiu para trocar uma peça da nave espacial. Dave, principal personagem humano do filme, percebe horrorizado que outros tripulantes também haviam sido mortos por Hal enquanto dormiam. Hal, no filme, é um computador que tem “sentimentos” e que parece enlouquecer, podendo matar seres humanos por causa de uma iníqua sub-programação secreta. Hal, na aparência, era como qualquer outro computador. Estava preparado para resolver problemas lógicos. Mas a grande diferença com relação aos outros computadores é que ele era capaz de resolver problemas quando não havia uma solução algorítmica, isto é, decorrente da lógica matemática. Ele podia, por isso, não só aprender com a experiência como inventar (heurística, do verbo grego heurisko, encontrar) soluções com base nos seus feelings.

Essa ideia de se ombrear com o divino, criando seres artificialmente, como as experiências transgênicas, mudando espécies, ou fabricando objetos, utensílios ou instrumentos através dos quais venham adquirir poderes “divinos”, como o dom da ubiquidade e vida eterna, por exemplo, sempre tentou os homens em todas as épocas. Estas ideias, contudo, apesar de toda a sua
DE RIDLEY  SCOTT
sedução, serão sempre um atentado contra a ordem cósmica. Ou seja, não cabe a este último signo, a seus representantes, a criação, prerrogativa leonina, mas, ao contrário, a doação do que foi criado, do mais importante, a do próprio ego, no sentido do altruísmo, do devotamento social. Ao chegar a Aquário, na ordem zodiacal, temos que pensar em libertação, desapego das coisas materiais, busca de uma espiritualidade (que nada tem a ver com religião) mais elevada, transcendência que deverá ser vivenciada no signo seguinte, Peixes. Lembro de um filme no qual estas questões foram abordadas, muito útil para discuti-las, nestes tempos de “espanto” tecnológico. Refiro-me a Blade Runner – O Caçador de Androides, de 1982, refeito em final cut, na versão do diretor, em 2007.