quinta-feira, 20 de abril de 2017

CÂNCER (3)

 
SIGNO  DE  CÂNCER , CATEDRAL  DE  CANTUÁRIA , INGLATERRA
                                      

Associadas ao signo de Câncer, algumas importantes divindades da mitologia grega  merecem referência especial. Em primeiro lugar, é preciso destacar as Moiras, conhecidas como Fiandeiras, na medida em que eram a personificação do destino individual, do "pedaço" de vida que cabia a cada ser humano que entrava na existência. A palavra moira quer dizer, lote, quinhão, parte, um quantum de felicidade ou de desventuras, representado por um fio que Cloto (etimologicamente, fiar) ia tecendo até que Láquesis (etimologicamente, sortear), por insondáveis razões, determinasse
THANATOS
que a ação de Cloto fosse interrompida, cabendo então a Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás), o corte do fio. Sempre presente nesse momento estava o deus Thanatos. O nome desse deus lembra dissipação, extinção, tornar-se sombra. Podia Thanatos aparecer no momento em que Átropos cortava o fio de vida diversas formas.  A mais comum era como uma nuvem escura, uma bruma que envolvia a cabeça e perturbava totalmente a visão do moribundo. Muitos o consideram um inimigo do gênero humano. É importante observar que o signo de Câncer tem analogia com os assuntos da casa IV dos mapas astrais, onde tradicionalmente os astrólogos, desde a antiguidade, colhem, dentre outras, informações  sobre a infância e a velhice, sobre o começo (graus iniciais) e o fim (graus finais) da existência.



AS   FIANDEIRAS ( 1657 , DIEGO  VELÁSQUES )

Além das Moiras, participam miticamente do contexto canceriano três divindades que representam a Lua. A mais antiga é Selene, a Lua considerada fisicamente. O nome sugere, em grego, ideias de
SELENE
brilho, clarão.  Em antigos textos Selene é também chamada de Mene. Tal nome era aplicado a ela quando, nos céus, percorria uma constelação zodiacal. O tempo que levava para essa travessia deu origem à palavra mensis, mês, para os latinos. Selene é a luz noturna, ligada a referências maléficas, perigosas. Os antigos gregos tinham o verbo seleniadzein para designar todos aqueles que Selene feria, tornando-os perturbados mentalmente, encantados, lunáticos, epilépticos ou mesmo feiticeiros e videntes. O radical indo-europeu que está embutido na palavra mene é me, que traduz uma ideia de medida. A Lua, nesse sentido, foi o astro que, com as suas fases, ensinou o homem a medir o tempo. Desse radical provêm palavras como mês, medida, imenso, mesura, menstruação, catamênio, metro etc. 



SELENE  EM  SEU  CARRO
  
Era Selene filha de Hiperíon (o que contempla do alto) e de Teia (a divina), da raça dos titãs, filhos de Urano e de Geia. Belíssima, percorria os céus à noite num carro de prata. Simbolizava a
SELENE   E   ENDIMION
( 1770 , UBALDO  GANDOLFINI )
fertilidade. Era famosa por seus inúmeros amores. De Zeus teve uma filha, Pandia, a totalmente divina. Foi amante do deus Pã. Seu grande amor parece ter sido o jovem Endímion, pastor do Peloponeso, formosíssimo, a quem Zeus, a seu pedido, deu o sono eterno, o maior desejo do jovem, para que assim pudesse preservar a sua juventude. Belo, tranquilo, adormecido na encosta de um monte, Endimion recebia as visitas noturnas de Selene. Consta que Hipnos, o deus do sono, também apaixonado pelo jovem, deu-lhe o dom de dormir de olhos abertos para que quando o visitasse pudesse olhá-lo nos olhos. 

O culto de Selene espalhou-se por todos os povos da Antiguidade. As bruxas da Tessália, por exemplo, gabavam-se de, pela sua feitiçaria, terem-na livrado do dragão que a queria devorar
BAKUNAWA

(eclipses) ou mesmo fazê-la descer à Terra. 

O tema de dragões atacando a Lua é  muito comum em várias tradições míticas, como na Índia. Ao lado, à direita, na mitologia filipina,  a imagem do dragão Bakunawa  devorando a Lua. A segunda-feira era consagrada à Lua, (Lunes dias, lundi, lunedi), relacionando-se todo o seu simbolismo com o do Sol. Os dois traços distintivos mais característicos da Lua são a privação de luz própria e as suas diferentes fases, a sua contínua mudança de forma. Daí porque representa a Lua o princípio feminino, a periodicidade, a renovação, sempre lembrando transformações, crescimento, desaparecimento e renascimento. É, por isso, usada para representar o tempo circularmente, o tempo que passa medido em fases sucessivas e regulares, lembrando sempre um eterno retorno.

ÁRTEMIS   E   APOLO
A segunda divindade do complexo lunar é Ártemis. Esse nome está relacionado tanto com artos (urso) quanto com artamos (sanguinária) ou artemes (são e salvo). Ártemis é a protetora, por excelência. Nasceu antes do irmão gêmeo, Apolo, o Sol, ajudando a mãe, Leto, no parto dele. Horrorizada com os sofrimento maternos quando do parto do irmão, obteve de seu pai Zeus o privilégio da virgindade. 


LETO  E  SEUS  FILHOS
Leto é filha do titã Ceos e de sua irmã Febe. Tinha Leto por irmãs Astreia (nome dado à constelação da Virgem na Idade de Ouro) e Ortígia. Grávida de Zeus, sentindo a hora do parto, Leto percorreu o mundo inteiro à procura de um lugar para dar a luz aos gêmeos. Hera, enciumada, proibira a Terra de acolher Leto. A ilha flutuante e estéril chamada Ortígia, por não estar fixada em lugar algum, a recebeu. Agradecido, Apolo a fixará mais tarde como centro do mundo, mudando-lhe o nome para Delos, a brilhante, a luminosa. Foi em Delos, abraçada a uma palmeira, que Leto deu a luz aos gêmeos. Hera, ainda assim, tentou impedir o nascimento deles, enviando sua filha Ilícia, a deusa dos partos, para “fechar o caminho” dos nascituros. Demovida de sua intenção por Palas Athena, Hera acabou consentindo no nascimento de Ártemis e de Apolo. Para escapar das perseguições da esposa de Zeus, Leto se transformou numa loba, o que explica um dos apelidos de Apolo, o Licógenes, o nascido da loba.

ÁRTEMIS
Ártemis é representada por uma jovem com vestes curtas, pregueadas, joelhos descobertos, à maneira espartana. Carrega, como o irmão, o arco e as flechas. Rebelde, não aceita Afrodite. Dentre as suas vítimas destacamos o gigante Oríon, o imprudente caçador Acteon, Oto, um dos Alóadas, a ninfa Calisto. Puniu Agamemnon, protegeu Hipólito, filho de Teseu. Seu cortejo era, como o de Dioniso, acompanhado por ninfas muito buliçosas e alegres, das quais exigia castidade absoluta. Percorria sempre os bosques e as florestas, com cães muito excitados. Era conhecida como  a Senhora das Feras, o que lhe deu um caráter de grande deusa oriental, muito ligada, por isso, à vida animal e vegetal. Suas festas se celebravam em Atenas no mês Elafebólion (março). Seu animal predileto era a corça, mas a ela se ligavam também todos os animais que se agitam demais, inquietos. Nas suas festas mais antigas era comum o ritual do diasparagmos, o despedaçamento das vítimas.


CORTEJO   DE   ÁRTEMIS  ( ELIHU  VEDDER , 1836 - 1923 )

Ártemis tem dois aspectos: o asiático, seu lado mais cruel, mais sanguinário (sacrifício de animais vivos, consumo da carne de animais) e o cretense, ocidental, ligado à fertilidade do solo, à fecundidade humana. É neste sentido que a deusa é protetora de tudo o que entra na vida (crias, ervas novas, brotos, rebentos etc.), das nascentes, dos córregos, dos riachos, de tudo o que aparece e que tem de fluir. 


FASES   DA   LUA
A deusa estava neste sentido intimamente ligada a Selene e a Hécate, as três expressões de um mesmo arquétipo. A primeira, como vimos, é personificação do astro lunar, cujo culto a filha de Leto suplantou, enquanto Apolo suplantava Hélios. O que se destaca neste relacionamento é o caráter da Lua como o astro das variações periódicas (O Sol não muda, não tem fases). Neste sentido, a Lua deu ao homem a primeira noção de morte ao desaparecer (Lua nova). Daí a Lua ser vista como símbolo do que passa e retorna. 


Outro aspecto é que a Lua representa sempre uma forma de conhecimento indireto, isto é, ela é um reflexo do Sol. Um dos melhores exemplos do que aqui exponho é o famoso mito da caverna, narrado por Platão. A Lua é passiva, receptiva, fecunda; representa a noite, a umidade, o psiquismo, a imaginação, o sonho, a fantasia, o transitório, o influenciável. Ela representa também aquilo que herdamos, os nossos atavismos, as forças que em nós atuam regressivamente; ela fala do passado, de memórias, da nossa alma onde domina a vida infantil, pré-egoica, vegetativa, modelo de uma sensibilidade profunda. 

A Antropologia chama de participação mística esse traço de comportamento que Ártemis representa: esse envolvimento com os substratos mais profundos da nossa vida arcaica, relações com mares, campos, florestas, animais. É por essa participação que a deusa se liga às formas que entram na existência (brotos, crias, ervas novas, etc.), como protetora de tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta. 


HÉCATE
Tão antiga quanto Selene no mito é Hécate, outra representação lunar. Descendente dos titãs, o dessa divindade parece vir de um verbo que significa ferir, arremessar com o intuito de atingir, agredir de longe. Deusa lunar muito misteriosa tanto por suas funções quanto por seus atributos, Hesíodo a dá como descendente de Asteria e do titã Perses, o devastador. Neste sentido, Hécate é independente das divindades olímpicas, conservando-lhe Zeus, todavia, na ordem olímpica, não só os seus privilégios mas acrescentando-lhes outros. 

Tornou-se Hécate divindade muito benéfica na medida em que, devidamente honrada, passou a conceder aos mortais prosperidade material, o dom da eloquência nas assembleias, vitórias nas batalhas e nos jogos, abundância de peixes aos pescadores, podendo também aumentar os rebanhos. É invocada como dea nutrice, estendendo-se os seus poderes a tudo o que deve crescer e prosperar. Neste sentido, como Ártemis e Apolo, deve ser honrada pela juventude. 

Aos poucos, seus atributos se ampliaram, especialmente na direção da magia e dos encantamentos, assumindo uma posição importante no mundo ctônico. Ligada aos feiticeiros e aos bruxos, aparece sempre, vinda do Mundo das Sombras, com uma tocha na mão, chegando mesmo a se apresentar zoomorficamente (cadela, loba, égua). Dona de todas as formas da magia, com ela se envolveram, cultuando-a, personagens importantes desse mundo como Eetes, Circe e Medeia.


HÉCATE  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

Acima, na superfície da Terra, divide Hécate com Hermes o poder sobre as encruzilhadas, lugar de aparições e de sortilégios. No mundo infernal, ctônico, tem relação, não com os mortos, que são de Perséfone, mas com os espectros e fantasmas que sobem, porque não tiveram morte ritual. Hécate vem das profundezas ctônicas nas
HERMES   ITIFÁLICO
noites de Lua Nova, aparecendo nas encruzilhadas onde eram encontradas as suas representações (imagens) como a dea trivia  (as três fases visíveis da Lua). Lembremos que nesses locais também eram encontradas imagens itifálicas do deus Hermes, a indicar fecundação, fertilidade, ideias sempre ligadas às mudanças que podem ser feitas nas encruzilhadas. Assim, Hécate é a deusa dos terrores noturnos, dos monstros apavorantes, que se mostram àqueles que param e permanecem nas encruzilhadas, lugar de mudança de destinos.

O tema da encruzilhada é encontrado em todas as tradições e culturas. Ela se torna uma espécie de centro do mundo, a interseção de planos, lugar que tem como matriz a cruz. São lugares habitados por gênios, feiticeiras e demônios, seres perigosos com os quais
LARES   COMPITALES
deve procurar se conciliar o peregrino, o viajante, o que se aventurou pelos caminhos à procura de um outro modo de ser. Lugar edipiano por excelência, de parada e de reflexão, de decisões heroicas ou de imobilismo, nele são também comuns os crimes, as emboscadas, as traições. Por isso, nas encruzilhadas encontramos obeliscos, hermas, pedras, pequenos altares, capelas, inscrições, oferendas etc. Os romanos, por exemplo, honravam nas encruzilhadas os Lares Compitales, as almas dos antepassados que atuavam como divindades protetoras. Lugares "religiosos" de muito movimento, os mendigos e pedintes na antiga Roma os escolhiam muito bem para aumentar a sua arrecadação.

DESPACHO
É na encruzilhada também que podemos, protegidos pelo anonimato, geralmente à noite, nos livrar de forças negativas, residuais, perigosas, com o auxílio de Hécate, de Hermes e dos seres que nela vivem. Na tradição afro-brasileira, este trabalho (despacho) é feito, para o bem ou para o mal, através de um dos orixás mais importantes do Candomblé, Exu, o chamado "homem das encruzilhadas". Na Umbanda e na Quimbanda, atua também nesta área a chamada Pombajira, guardiã das passagens, uma espécie de Exu-fêmea. 


AFRODITE   TRIVIA
A encruzilhada é ainda entre os gregos um lugar onde Afrodite costuma aparecer, na sua forma trivia, a Afrodite dos amores passageiros, triviais, lúbricos, amores impuros, vulgares, e não como a Afrodite Urânia, a dos amores espiritualizados. Por isso, na encruzilhada, em muitas tradições, encontramos também símbolos que significam, conforme o caso, um desejo de esconjuração, de sacrifício expiatório, de exorcismo, de afastamento, enfim, das energias e presenças maléficas. Oratórios, imagens de santos, de entidades protetoras, ex-votos, flores,  círios e velas que jamais deixam de brilhar. Neste sentido, a encruzilhada pode ser também um lugar em que podemos encontrar a luz, um lugar de renascimento, onde aparecem os bons gênios e as fadas protetoras que nos auxiliarão na virada do nosso destino, inspirando-nos a tomar a decisão mais acertada.   

Em Hécate, a grande deusa lunar, sintetizam-se os três aspectos da nossa vida psíquica, o infernal, o telúrico e o celeste. Porque ela
LUA   NOVA
aparece nas noites de Lua nova, acompanhada por animais "noturnos", cadelas, lobas, éguas, que lembram fertilidade, a deusa tem a ver, consideradas estas duas ideias,  com a dimensão inconsciente de nossa existência, lugar onde se agitam monstros, fantasmas, espectros que podem subir à superfície. Cultuada e reverenciada nas encruzilhadas, Hécate indica para nós que as decisões humanas não se inscrevem só no plano horizontal, nas quatro direções dos pontos cardeais, as direções que recebemos quando entramos na vida, mas, acima de tudo, revela-nos a deusa que cabe a nós, pelas escolhas que fizermos, acrescentar às quatro direções mencionadas mais duas, que estão no plano vertical, a da subida ou a da descida. 

Ao considerarmos o signo de Câncer como matriz, lugar de nascimento, em todas as tradições as grutas e cavernas sempre a ele apareceram associadas. Encontradas em lugares sombrios e

profundos,  sejam subterrâneas, em encostas escarpadas ou encravadas em montanhas, as grutas são arquétipos matriciais. Nesse sentido, tanto fazem parte de mitos de origem como dos ritos de iniciação como lugares de renascimento. Morada dos humanos desde tempo pré-históricos, as grutas são consideradas como verdadeiros reservatórios de energia e de lembranças, de complexos, de sentimentos e emoções que muitas vezes se agitam inexplicável e confusamente na nossa interioridade, perturbando a nossa vida consciente.

Tanto antigos lugares de culto da humanidade, ornadas de pinturas e gravuras, como, nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos, consideradas como um lugar materno, por excelência, as grutas sempre apareceram associadas  aos órgãos genitais femininos e, como tal, à fertilidade. Vários povos, os astecas, por exemplo, relacionavam num mesmo contexto simbólico a caverna, a mulher, a chuva e a Lua.



No simbolismo dos sonhos, por exemplo, um caminho a ser percorrido,  no  qual  se tenha  que  passar  por  grutas pode ser visto
como uma busca de um novo sentido para a vida. Sob o ponto de vista psicanalítico, tal percurso representa sempre uma descida às profundas camadas da vida subconsciente relacionadas com o inconsciente materno. Este percurso também poderá ser entendido, quem sabe,  como uma regressão a uma situação pré-natal, intra-uterina, um desejo de retorno à indeterminação, volta a um mundo obscuro e morno, onde não há escolhas nem decisões, onde tudo é recebido de graça.   

O mito da caverna, como sabemos, tem um papel importante na filosofia de Platão. As pessoas que vivem em cavernas, jamais ultrapassando a sua entrada, sempre receosas de ir além, não podem
conhecer o mundo. Só podem perceber dele senão sombras, conhecer apenas reflexos da realidade exterior, maior, mais vasta. Para conhecer esta realidade que está fora, além, para conhecer a verdade que a luz do Sol permite captar, é preciso sair da gruta. É por essa razão que se afirma que o conhecimento lunar, obtido só através de uma vida protegida pela gruta,  é  indireto, herdado, atávico.

PAN
Se num primeiro momento a gruta é proteção, agasalho, nutrição, segurança, noutro ela poderá se constituir em abafamento, sufocação, castração e mesmo lugar mortal. Sair da gruta será sempre um problema, qualquer que seja o modo pelo qual a abordemos. Foi certamente pensando nisto e em muitos outros aspectos dos quais o mito cuida que os antigos gregos deram forma ao mito do deus Pan, palavra (radical grego) que traduz uma ideia de totalidade. Pan quer dizer o todo, tudo.

DIONISO E PAN
No mito, Pan é filho do deus Hermes e da ninfa Dríope. Consta que por ser muito feio, peludo, teriomorfo, com orelhas pontiagudas, patas como as de bode no lugar de pés, foi rejeitado pela mãe. Hermes o levou para o Olimpo. Saltitante, alegre, desde logo deu demonstrações de ter nascido com um intenso furor erótico. Deram-lhe os deuses o nome de Pan. O deus Dioniso se encantou com o jovem deus, obtendo a permissão de Hermes para, de vez em quando, integrá-lo ao seu séquito, sempre ruidoso e barulhento, com as sua mênades. 

Pan passou a viver na Arcádia, região de pastores e poetas, sendo-lhe atribuída, de comum acordo com a deusa Ártemis, a tutela das regiões que ficavam além do oikos, dos territórios que ligavam o
PAN
conhecido ao desconhecido, lugares que levavam ao Grande Mundo, ao Todo. Pan passava os seus dias perambulando pelos campos, ser um lugar fixo, ora dormindo em grutas, banhando-se nos rios, sempre com muitos companheiros, tocando flauta (syrinx), perseguindo as ninfas e assustando os viajantes que se aventurassem pelos caminhos, pelas florestas e pelas montanhas. 

Antes, porém, uma palavra sobre o oikos. Na Idade do Bronze, antes do período arcaico da história grega, no fim do qual as cidades começara a se formar, o oikos era a unidade básica da família, constituída pela propriedade (casa, terras, plantações, pastos, escravos e animais). O pai era a autoridade suprema, fazendo-se a transmissão da propriedade sempre pela via patrilinear. A palavra economia, como a usamos hoje, tem na sua origem as palavras oikos (família)  e nomos (lei), a lei da família, a lei da casa.

PARA   ONDE   EU   VOU ?
O sentimento de solidão e de desamparo que costumava atacar os viajantes quando longe do oikos, principalmente nos dias escuros, de mau tempo, em noites sem Lua, quando nenhuma voz era ouvida, os campos silenciosos, os animais recolhidos, esse sentimento de solidão e desamparo, continuando, começou a ser considerado, não sabe bem por qual razão, como inspirado por Pan. Ansiosos, alarmados, aterrorizados, os viajantes, os peregrinos, sem um motivo justificável, ficavam paralisados por essa presença oculta de Pan, que se anunciava, como logo começou a se propalar, por um som terrível, entre o humano e o animal. Aos poucos, esse sentimento passou a ser chamado de terror pânico, um estado entre o pavor e o espanto, inexplicável, geralmente somatizado de diversos modos. 


DIANA   E   SUAS   NINFAS   SURPREENDIDAS   PELOS   FAUNOS
( PETER  PAUL  RUBENS , 1577 - 1640

Os companheiros de Pan eram os sátiros, os centauros, os silenos, as ninfas (oréadas,  dríadas, potâmidas, creneias e muitas outras), as retraídas ninfas, mas sempre muito atraídas por eles. Da história de Pan consta que ele prestou serviços aos deuses quando da titanomaquia, que, juntamente com seu pai, salvou Zeus (seu avô), quando do ataque de Tiphon, o maior dos monstros da mitologia grega. Quando de seu périplo asiático, para divulgação de seu culto, Dioniso fez questão de levá-lo. 


TITANOMAQUIA  ( CORNELIS  VAN  HAARLEM , 1562 - 1638 


PAN  ( PICASSO , 1881 - 1973 )
Um dos nomes de Pan era Hylaeos, como divindade das florestas. Da Grécia seu culto foi levado para a Itália, como protetor de rebanhos. Lá foi assimilado aos faunos (protetores de rebanhos e da fertilidade), aos egipans (pans como pequenos homenzinhos que lembram a forma caprina). Consta que no norte da África, na Líbia, havia uns egipans com cauda de peixe, dos quais teria saído a representação do signo de Capricórnio. Em Roma, estes seres eram chamados de silvanos (protetores do verde da Natureza), conhecidos também pelo nome de paniscus. 


PRÍAPO
Muito semelhante a Pan era Príapo, um filho espúrio de Dioniso e de Afrodite, protetor das colheitas e da fecundidade em geral, dono de uma magia simpática (apotropaica) infalível. Grande divindade asiática, Príapo pontificava na cidade de Lampsaco, na Misia, nas margens do Helesponto. Tinha uma ereção desmedida, persistente. Deu nome ao priapismo, uma patologia sexual. Diferente da satiríase, também uma patologia sexual, é caracterizada por uma grande e mórbida excitação, nela não entrando nenhum desejo sexual, o que acaba levando à impotência, à esterilidade.

Todas estas divindades campestres se ligavam a Pan, presentes na fertilidade animal e vegetal. Delas, por exemplo, sai a designação sátiro que usamos para qualificar o homem obsceno, lúbrico, voyeur ou exibicionista. Segundo Homero, teria existido nas montanhas da Cítia um povo inteiro de sátiros, que, quando envelheciam eram chamados de silenos. Os sátiros (etimologicamente, nome ligado a um verbo que significa distender, entumescer, inchar) eram divindades menores da natureza que acabaram se integrando também ao cortejo de Dioniso. Híbridos, eram humanos, com acentuados traços que lembravam sobretudo os bodes: orelhas pontudas, pequenos chifres na testa, peludos, cascos ao invés de pés. É dos sátiros que vem o nome satiríase, caracterizada por uma super-excitação mórbida, com ejaculação constante e ininterrupta que pode levar à morte.


CORTEJO   DE   DIONISO

Os centauros, filhos de Nephele, a Nuvem, e de Ixion (que viverá no Tártaro até o final dos tempos), lembre-se, costumavam também frequentar os territórios de Pan, chamados pelos gregos de agros. Brutais, quase sempre embriagados, vivendo em bandos, alimentando-se de carne crua, os centauros simbolizam a concupiscência carnal, ameaça da vida instintiva, sempre presente no homem que não sabia controlá-la. É neste sentido que os antigos gregos consideravam o centauro como uma antítese do cavaleiro que sabia dominar e controlar a sua montaria. 


OS   AMORES   DOS   CENTAUROS  ( 1635 , P.P. RUBENS )

Em parte zoomorfo, em parte humano, Pan era uma divindade turbulenta, que com os seus aparecimentos súbitos provocava o pânico entre os humanos, entre as ninfas e mesmo entre os deuses. Nos humanos, o terror neles infundido será diagnosticado, muito mais tarde, como uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas observáveis como vários processos patológicos. No seu aspecto mais visível, uma condição crítica passível de despertar inicialmente insegurança, medo, e terminar como prostração, imobilidade, às vezes com a sensação de morte súbita. 


PÂNICO
A chamada síndrome do pânico impede que a energia vital, certamente por pressões inconscientes vindas da gruta, se readapte diante de situações existenciais que exigem prontas mudanças, rápidas respostas, novos procedimentos, novas maneiras de ser diante de situações novas. Astrologicamente, é de se lembrar que o deus Pan “vive” entre a quarta e a quinta casas astrológicas, ou, de outro modo, entre o signo de Câncer e o de Leão e, também, é claro, de uma Lua mal posicionada e  aspectada num mapa astrológico. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

CÂNCER (2)

                          

CÂNCER (ALFONS  MUCHA,1860-1939)
Câncer é um signo lunar, feminino, cardinal, do elemento água, representando a vida e o patrimônio familiar, a mãe, a vida doméstica, os primeiros anos da infância. Na ordem temporal do Zodíaco, situa-se Câncer nove meses antes do signo ascendente,  associado ao signo de Áries (equinócio da primavera). É neste sentido que o signo de Câncer simboliza a fecundação e a concepção, ato pelo qual se dá a junção de gametas (células germinativas) que resultarão na formação de um zigoto (célula resultante da união dos gametas masculino e feminino). 


STONEHENGE


É de se lembrar que em meados do séc. XX, estudiosos ingleses da Universidade de Oxford, pesquisando o famoso monumento megalítico que se encontra no sul da Inglaterra, Stonehenge, há milênios, descobriram que do seu interior era possível se determinar com exatidão, tendo-se em vista a importância que tal determinação tinha para a agricultura, a entrada do Sol nos eixos equinociais e solsticiais. Constatou-se mais que os construtores de tal monumento a ele haviam incorporado conhecimentos matemáticos mais avançados do que aqueles encontrados alguns milênios mais tarde em edificações religiosas egípcias e mesopotâmicas. Mais ainda: constatou-se que nesse monumento e em edificações semelhantes, como as de Carnac, na Bretanha francesa, nos seus dolmens e menhirs, em algumas das enormes pedras usadas, com toneladas de peso, estavam entalhados alguns sinais que mais tarde fariam parte da codificação da linguagem astrológica. Um dos sinais mais notáveis foi um constituído por duas pequenas formas, dispostas horizontalmente, uma entrando na outra, formas muito parecidas com os algarismos seis e nove, que lembravam  bastante o símbolo do signo de Câncer. 


CARNAC ,  BRETANHA , FRANÇA

Desde a mais remota antiguidade, o signo de Câncer ficou conhecido como o signo das Grandes Mães, da Mãe Terra, principalmente, no seio da qual as sementes recebidas se desenvolviam e tomavam forma. Na antiga Caldeia, entre 4.000 e 3.000 anos aC, o signo já era conhecido como o Portal dos Homens, a entrada pela qual todas as almas que desciam dos céus entravam no plano da matéria, assumindo a forma humana. 


VÊNUS   WILLENDORF
Imagens de figuras femininas, pequenas estatuetas, que a arqueologia vem trazendo à luz, permitem-nos afirmar que o culto às Grandes-Mães, no paleolítico, em várias partes do mundo, já era praticado por volta de 30.000 anos aC ou mais, desde tempos mais recuados. A produção dessas estatuetas, muito variada, estendeu-se até a era astrológica de Touro, que se estendeu mais ou menos entre 4.000 e 2.000 aC. Foi por esta época, na transição da era de Touro (signo feminino, lunar) para a era de Áries (signo masculino, marciano), que se concluiu a passagem da tutela da unidade familiar do
 ARTHUR  JOHN  EVANS
feminino matriarcal para o masculino patriarcal. As descobertas de A.C. Evans (1851-1914), em Creta, que aproximaram a História da Mitologia, em fins do século XIX, deixaram claro que por volta de 3.000 aC existia na ilha, na chamada civilização minoana, uma avançada ginecocracia. Esta civilização, como se sabe, foi destruída tanto, em parte, por catástrofes naturais (maremotos) como, principalmente, pela ação dos guerreiros aqueus (micênicos). 






Com base em trabalhos do suíço J.J.Bachofen (1815-1887) e outros, foi possível se estabelecer historicamente uma divisão do matriarcado em três grandes períodos: 1) Heterismo; 2) Amazonismo; 3) Demetrismo. O primeiro período se destacou por apresentar uma espécie de comunismo tribal, com fortes componentes nômades e acentuada promiscuidade sexual. As
JOHANN JAKOB BACHOFEN
mulheres dominavam a vida social nesse período, exercendo os homens, dentre outras funções, menos significativas, a de machos reprodutores. A Grande-Mãe era representada, nesse período, por pequenas figuras femininas obesas, esteatopígicas, uma espécie de proto-Afrodite, no dizer de Bachofen. As estatuetas acentuavam fisicamente sempre o que sobretudo na mulher lembrava a fecundidade, o ventre, os seios, as nádegas e a vulva.


Bachofen fala que na segunda fase do matriarcado, com a diminuição das atividades predadoras e coletoras, um incipiente processo de sedentarização deu origem ao aparecimento da agricultura e de cultos ctônicos, de forte inspiração feminina, adquirindo as Grandes-Mães características lunares, representadas por figuras que lembravam vagamente a Demeter grega. 



AMAZONAS  ( HEINRICH  WILHELM  TISCHBEIN , 1751 - 1829 )


AMAZONA  A  CAVALO
VASO  GREGO
Ao final desta segunda fase surgiu o que os estudiosos chamaram de amazonismo. Os antigos  gregos, como sempre, se encarregaram de explicar um acontecimento social através da sua mitologia. Filhas do deus Ares e da ninfa Harmonia, protegidas pela deusa Ártemis, as amazonas eram mulheres guerreiras que viviam perto do Cáucaso, formando comunidades que se opunham ao poder
HÉRCULES  E  A  RAINHA  DAS  AMAZONAS
( NICOLAS  KNUPFER , 1609 - 1655 )
masculino. O antagonismo entre os dois princípios foi aumentando, acabando o poder feminino por perder os seus antigos privilégios. Heróis dos mitos gregos, saturados de machismo, como Hércules e Teseu, principalmente, encarregar-se-ão de liquidar, no mito, o princípio feminino com as suas façanhas. No seu sexto trabalho (veja-o neste blog), Hércules, comandando um exército, em companhia de outros heróis, foi ao país das amazonas e as exterminou. 

Sob o ponto de vista astrológico, o início do culto às Grandes-Mães se define melhor na era de Câncer, situada mais ou menos entre 8.000 e 6.000 aC, no neolítico, com forte ênfase matriarcal, caracterizado pela crescente sedentarização de contingentes humanos que viviam dispersos, retirando o seu sustento de atividades predadoras. A agricultura e a domesticação de animais ganharam grande impulso no período.

POTNIA   THERON
Nos milênios seguintes, mesopotâmicos, sumérios, egípcios, védicos, fenícios, cretenses, gregos, romanos, celtas, nórdicos, afro-brasileiros e outros, cada um a seu modo, deixaram-nos, para designar as grandes deusas do período matriarcal, nomes como Deusa das Montanhas, Senhora  dos Animais (Potnia Theron), Deusa das Serpentes, Deusa Mãe. Aos poucos, conforme as várias culturas, os mitos,
DEUSA  DAS  SERPENTES
suas histórias e os nomes, em várias regiões da Terra, foram se tornando mais precisos: Tiamat, Aditi, Cibele, Sarasvati, Kali, Isis, Ishtar, Astarte, Eurínome, Geia, Reia, Afrodite, Dana, Freya, Magna Mater (nome de Cibele entre os romanos), Tellus Mater (Mãe Terra), Iemanjá, Iansã e outros.


Na Mesopotâmia, por volta do ano 3.000 aC, encontramos ilustrações da vitória do patriarcado. A mitologia dos mesopotâmicos nos deixou a história da deusa Tiamat, o princípio feminino, sempre confundido com o caos e a desordem, submetido, em nome dos demais deuses celestes, pelo herói Marduk. Os gregos, em sua mitologia, nos deixaram também histórias semelhantes, sobre a total submissão do princípio feminino ao poder masculino. Lembre-se, por exemplo, da conquista de Delfos, guardado pelo dragão Ladon, pelo deus Apolo. Delfos era um centro oracular tutelado pela Grande-Mãe Geia e por sua filha Temis. Ou, cite-se, a vitória que o herói grego Teseu obteve sobre o Minotauro às custas da princesa cretense Ariadne, depois por ele abandonada. Ou, ainda, a conquista do Velocino de Ouro pelos argonautas, comandados por Jasão. Se não fosse Medeia, princesa e grande maga, sobrinha de Circe, os cinquenta e cinco heróis gregos jamais teriam conquistado o precioso tesouro.  


JASÃO  E  OS  ARGONAUTAS ( CHARLES DE LA FOSSE , 1636 - 1716 )

Ao desenterrar o mundo matriarcal, os pesquisadores nos ajudaram a reavaliar corretamente a história da humanidade e o papel que nela teve a mulher, embora muitas de suas conclusões venham sendo apresentadas com notáveis preconceitos machistas, algo que nem uma pretensa objetividade científica consegue camuflar. Dentre outros preconceitos, destacamos, por exemplo, o nome dado à primeira fase do matriarcado, heterismo, do grego hetaira, prostituta, algo absolutamente incorreto, pois a prostituição (ganho de dinheiro pela prática de atos sexuais) nunca fez parte do mundo matriarcal. O que temos de confirmado é que na ordem matriarcal sabia-se quem era a mãe, não o pai. A transmissão do poder social, inclusive de bens, quando havia, era matrilinear, sendo o pai uma figura bem menos importante, ignorada até sob vários aspectos. As uniões não eram monogâmicas. A vida dependia da mulher, cujo corpo analogicamente se confundia com a própria terra como fonte da existência. 

Foi durante o período matriarcal que a mulher, através das Grandes-Mães, comandou todos os ritos de fertilidade. No período matriarcal ela se tornou tanto dona da vida humana como do solo, da terra e dos animais. Foi neste período que se reforçou a união entre a mulher, o mundo vegetal e o mundo animal, preservando-se e reverenciando-se a fecundidade. Vêm desse mundo, por exemplo, as notáveis relações entre as deusas lunares Hécate e Ártemis com animais que lembram a fertilidade. 

Em Creta, os cultos à Grande-Mãe eram apresentados sob os aspectos da Montanha-Mãe, da Terra-Mãe ou da Deusa das Serpentes. Nas ilhas do Egeu, antes da ocupação pelos aqueus do território  que constituiria depois o mundo grego, os pelasgos
NISABA
cultuavam uma Grande-Mãe como divindade geradora da vida, da natureza, das águas, da fertilidade, doadora da agricultura e inventora da linguagem escrita. Lembre-se que em várias tradições a invenção da linguagem sempre foi atribuída às Grandes-Mães, como o encontramos na Índia (Sarasvati), entre os celtas (Brígida) e os sumérios (Nisaba). 


CIBELE
Na Ásia Menor, na Anatólia, de onde saíram, os cultos de Cibele talvez sejam os que  melhor representem o poder feminino, sob um aspecto tão dominador e cruel quanto o instaurado pelo poder patriarcal. Divindade frígia, seus cultos penetraram na Grécia e em Roma como representação do poder vegetativo e selvagem da natureza. Colocada nos panteões como uma deusa da fertilidade, ela chegou, no mundo mediterrâneo e na Ásia Menor, a dividir, em Roma principalmente, com Júpiter, na religião romana, o poder soberano sobre a reprodução das plantas, dos animais, dos homens e dos deuses. Conduzindo um carro puxado por leões, símbolo da força masculina, ela carregava consigo uma chave que lhe dava acesso, na superfície da Terra, através de uma porta, às riquezas que estavam nas suas profundezas. Na cabeça, ostentava uma coroa, encimada por um crescente lunar, formada por torres, a lembrar que o seu poder se estendia também à vida urbana. 


O  TRIUNFO  DE  CIBELE ( HANS  FRIEDRICH  SCHORER , 1634 )

Os cultos de Cibele, de natureza orgiástica, tinham um forte componente lunar e seus sacerdotes e adoradores, durante os seus solenes festejos, como Magna Mater ou Bona Mater, se
ATIS ( SÉC. II ) 
emasculavam e vestiam roupas femininas. No mito oriental, Cibele tinha por companheiro, Atis, divindade anatólia da vegetação, seu servidor e amante, que morria e renascia anualmente, no que lembra outros personagens míticos, também divindades da vegetação, como Tammuz e Adônis, na forma em que estes aparecem nas histórias de   Ishtar e de Afrodite.  





CÁRITES ( P.P. RUBENS )
Os aqueus, de origem indo-europeia, quando se instalaram no continente, fundando Micenas e Tebas, por volta de 2.000 aC, deram à Grande-Mãe dos pelasgos o nome de Eurínome (etimologicamente, a que governa um grande domínio), criando para ela mitos para enquadrá-la na nova ordem, terminando por rebaixá-la à condição de amante de Zeus, e tornando-a mãe das Cárites e do deus-rio Asopo. 

O que fica do que está acima é que a valorização do meio natural sempre esteve muito mais associada ao mundo feminino que ao mundo masculino. Quando a partir do neolítico as sociedades agrícolas começaram a se formar, criando uma economia baseada na produção da terra, a mulher passou a ocupar um lugar importante socialmente, pois, como a terra, era ela a doadora da vida. Os vegetais brotavam da terra, sendo colhidos no fim do verão. No outono a vida vegetal se recolhia ao interior do solo e lá ficava até o fim do inverno, quando os primeiros sinais do início de um novo subciclo, a primavera, se anunciavam. O degelo chegava ao fim, o carneiro começava a saltar nos campos, o Sol entrava na constelação de Áries. 

Nesse mundo, nascer era sair do ventre da mulher, como a planta saía do interior da terra. Morrer era retornar à terra, dona das forças universais. É desse entendimento que nos vêm as imagens das deusas dessas sociedades, nutridoras, doadoras da vida vegetal, animal e humana, das águas, do céu. Na mitologia grega, quem criou 
ADITI
o céu, em condições de igualdade, para que ele a cobrisse, foi Geia, a Grande-Mãe, suporte de toda existência, inclusive dos deuses celestes. Na Índia, Aditi, uma Grande-Mãe universal, a "liberta e ilimitada", como está no Rig-Veda, representava o céu, contrapondo-se à terra, "finita e limitada". Como Deva-Matri, era a mãe dos deuses celestes, os chamados Adityas, em numero de doze, simbolicamente visualizada pela passagem do Sol pelas constelações zodiacais.

Aos poucos, firmando-se o poder masculino, o céu, um território feminino (entre os antigos egípcios quem o dominava era a deusa Nut), foi passando para a tutela masculina, dando-se, no mundo
DYAUS   PITAR
indo-europeu, à divindade que sobre ele estendeu o seu poder, o nome de Dyaus. Etimologicamente, esse nome vem do radical proto-indo-europeu diw, deiwos, que significa brilhante, celeste, elevado, de onde saíram nomes como Dyaus, Dyaus Pitar, Zeus, Júpiter, Jovis e Deus. Na Índia, temos Dyaus-Pitri, Deus-Pai, considerada a Terra como mãe. Aditi, que dominava sozinha o espaço celeste e suas manifestações, foi rebaixada, passando a chamar-se Prithivi, não mais a "ilimitada", mas, agora, na nova situação, apenas a "ampla", a "vasta", o mundo natural. Prithivi, personificada como divindade, assumiu a tutela da Terra, tomando às vezes o nome de Bhumi, a camada terrestre por oposição à celeste, atmosférica, dominada por Dyaus.  

Na Idade dos Metais, que se seguiu à da Pedra (paleolítico, mesolítico e neolítico), primeiro tivemos o bronze e depois o ferro idade a partir da qual grandes transformações foram introduzidas, com a ascensão e supremacia do princípio masculino. As Grandes-Mães começaram a ceder lugar ao Grande-Pai e seus representantes, os deuses uranianos (Urano, em grego, quer dizer céu, aquele que fecunda), em torno dos quais tudo passou a se organizar. No chamado mundo ocidental, a história da humanidade, as religiões e o conhecimento passaram a ser explicados desde então sob um ponto de vista exclusivamente masculino. Lá pelo meio da era de Áries (1662 aC - 498 dC), as representações míticas começaram a ser deixadas de lado, sendo substituídas por outras, de natureza filosófica e cosmológica. Esse período passou a ser conhecido como da passagem do mito ao logos.

ATON
Na era de Áries, a humanidade ingressou na Idade do Ferro, radicalizando-se a destruição do princípio feminino com as religiões dessa era, inspiradas pelo monoteísmo egípcio (Aton), primeiro o judaísmo e depois as suas dissidências, o cristianismo e o islamismo. Esse rebaixamento fez com que as antigas Grandes-Mães passassem a sobreviver nos novos tempos, nos panteões dominados por divindades masculinas, de modo indigno, inteiramente a eles
DEMETER
submetidas. Numa desbotada homenagem às antigas Grandes-Mães, todo poderosas, deu-se o nome de demetrismo a essa última etapa do matriarcado. O nome foi retirado do nome Demeter, deusa grega  dos cereais, dos grãos, ao simbolizar essa deusa a passagem do mundo natural ao mundo da terra já dominada, explorada e organizada segundo uma visão patriarcal.

O rebaixamento das Grandes-Mães trouxe como consequência a desvalorização do mundo natural, que passou a ser considerado somente o ponto de vista material. Afastado o princípio da imanência  do mundo religioso, substituído pelo da transcendência, o mundo patriarcal, com a colaboração das religiões monoteístas, deu início na era de Áries a um longo processo de destruição dos recursos naturais da terra, processo que iria se acentuando nos séculos seguintes, até chegarmos à chamada revolução industrial e aos tempos modernos, onde essa destruição vem atingindo níveis alarmantes. 


SÍTIO  ARQUEOLÓGICO   DE   ELEUSIS  ,  GRÉCIA

A partir do ano 2.000 aC, os ataques à Grande-Mãe se tornaram devastadores. A misoginia religiosa fez com que o poder das Grandes-Mães se ocultasse. Não encontrando meios de se expressar abertamente, esse poder, em termos psicológicos, desceu à vida subconsciente, teve que se ocultar. Uma ilustração do que aqui se diz são os Mistérios de Eleusis, cerimônias instituídas pela deusa Demeter, pelas quais se estabeleceu uma ligação entre a agricultura e a vida psíquica. Não podendo mais se mostrar à luz do dia, encaminhou-se a Grande-Mãe para o mundo das sombras, guiada por Dioniso, o deus das metamorfoses.

TOTEM  E  TABU
A descoberta e a valorização, pelo homem, de seu poder fecundante, associado ao céu, e a desvalorização da função geradora (feminina), de natureza terrestre, desde então impuseram-se universalmente. As mudanças nas estruturas sociais, políticas e religiosas, a partir de então, alteraram radicalmente as relações entre os princípios masculino e feminino. Em Totem e Tabu, Freud, citando Frazer, discorreu sobre isto do seguinte modo: A fonte primeira do totemismo consistia na ignorância na qual se encontravam os primitivos quanto ao modo pelo qual os homens e animais procriavam e perpetuavam a espécie e sobretudo a ignorância do papel que o macho desempenhava na fecundação. Esta ignorância foi favorecida pela duração do intervalo que separa o ato da fecundação do nascimento. O totemismo será assim uma criação do espírito feminino e não do masculino.

O totemismo, como se sabe, é a crença na existência de um parentesco ou afinidade mística entre um grupo humano (ou pessoas) e um totem. Este é um animal, planta ou objeto que serve como símbolo sagrado de um grupo social, clã ou tribo e é considerado como seu ancestral e/ou divindade protetora. Tabu é instituição religiosa que, atribuindo caráter sagrado a determinados seres, objetos ou lugares, proíbe qualquer contacto com eles. A violação desse interdito acarreta (supostamente) castigo divino que pode recair sobre o culpado ou sobre seu grupo.

O caráter de sacralidade da Terra, do mundo natural, na nova ordem masculina, foi transferido para o Céu. O Cosmos começou a ser explicado como obra dos deuses, revelando-se o Céu como altura, onipotência, onisciência,  inacessibilidade, imperscrutabilidade, eternidade, incomensurabilidade, transcendência. Transcendente é o que ultrapassa. Diz-se que algo é transcendente quando este algo, Deus, no caso, ultrapassa o nosso poder de conhecimento. Quando falamos de um Deus transcendente estamos nos referindo a um Deus separado, distinto, de sua criação, conceito masculino que se opõe ao de imanência, panteísta, conceito feminino, segundo o qual Deus está presente no mundo criado. A doutrina da imanência
SPINOZA
revela que Deus e o mundo criado são a mesma coisa. Esta doutrina, na cultura ocidental, foi posta em circulação principalmente pelos estoicos, na antiga Grécia, para os quais Deus era a força vital imanente ao mundo. Foi Spinoza, seguidor desta doutrina (e por causa dela condenado pela Sinagoga Portuguesa de Amsterdam) que nos deixou a sua célebre afirmação: Deus sive natura. 


Os caldeus, na antiga Mesopotâmia, alinham-se entre os primeiros povos a estruturar a matéria astrológica. Desde logo, associaram o signo de Câncer ao caranguejo, no que foram seguidos pelos gregos. Os acadianos, do mesmo país, deram ao signo o nome de O Portão Norte do Sol (mês de Dazu). Como Porta dos Homens (entrada das almas no plano da matéria), os pitagóricos, os órficos e o platonismo assim o conheceram. Na Índia védica, o nome do signo é Kataka. 


AS  TENTAÇÕES  DE  SANTO  ANTÃO 

Desde a mais remota antiguidade, o caranguejo sempre apareceu simbolicamente ligado à Lua porque, como ela, tem uma marcha hesitante, podendo caminhar para a frente e para trás. Por causa de sua marcha retrógrada, em algumas tradições, o caranguejo é considerado como um símbolo da infelicidade, de malefícios. De outro lado, positivamente, o caranguejo sempre foi usado em cerimônias mágicas para provocar chuvas. Ao mesmo tempo, em virtude de seu aspecto repugnante, por causa de suas pinças e de sua carapaça, a "armadura dos demônios", ele foi considerado como uma criatura diabólica. É por essa razão que figura em As Tentações de Santo Antão (tela pintada por Hieronymus Bosch), este considerado como o fundador do monasticismo ocidental. A reputação maléfica do caranguejo é atestada em muitas tradições e se deve naturalmente à sua relação com a Lua, o que é explicado pelo fato de que ambos, a Lua ele, pelo seu caminhar vacilante, dão a impressão de que estão retrocedendo. Nesta perspectiva, o crustáceo e o signo, regido pela Lua, lembram sempre a involução, a indeterminação, a ameaça do caos. 


HÉRCULES  E  A  HIDRA  DE  LERNA

Na mitologia, o caranguejo foi colocado entre as constelações zodiacais em reconhecimento aos serviços que prestou à deusa Hera. Quando do mortal combate que travou Hércules contra a Hidra de Lerna (8º trabalho), o caranguejo foi enviado por Hera para auxiliar o monstro de nove cabeças; Hércules, como se sabe, num tremendo combate, conseguiu submeter a Hidra e matar o caranguejo. 


CARANGUEJO
Enquanto animal aquático, o caranguejo se relaciona com as águas originais, primordiais, não as águas regeneradoras, simbolizadas por Escorpião, outro signo ligado à água, nem as águas que tudo dissolvem, purificadoras, diluvianas, do signo de Peixes, do mesmo elemento. A água em Câncer se apresentas como água original, o que nos leva a associá-la analogicamente ao líquido amniótico, ao leite materno e à seiva vegetal. A água canceriana tem relação com valores que representam a intimidade, a interioridade, lembrando a vida nascente nas suas mais variadas expressões: fontes, regatos, brotos, ervas novas, germes, ovos, fetos, embriões, botões, manifestações que, em grande parte, sempre entram na vida devidamente protegidas por meio de cascas, revestimentos  protetores, carapaças. É por isso o signo de Câncer é conhecido como o "signo do meio", pois nele se faz a passagem do informal ao formal.  

HIPÓCRATES
Em grego, caranguejo é karkinos, cancer, em latim. Hipócrates, o pai da medicina, deu o nome do crustáceo a certos tumores, fazendo uma analogia entre as patas do animal, a sua movimentação e a proliferação anárquica, incontrolável e incessante de células no corpo humano, a partir do referido tumor, proliferação esta capaz de gerar metásteses, que poderão continuar ativas mesmo após a sua retirada cirúrgica.