segunda-feira, 18 de setembro de 2017

LIBRA (2)

                                                 
AFRODITE  DE  CNIDOS
Para contrabalançar as forças eróticas presentes no universo, os gregos criaram uma deusa, Afrodite, colocando sob sua tutela o prazer, o amor, a beleza, a sexualidade e a sensualidade das mulheres, levando-as a se envolver com funções criativas e procriativas. No mito, Afrodite nasceu no mar, em meio a espumas (aphros, em grego, espuma). Essa imagem de Afrodite, adulta, nua, lindíssima, nascida das águas, será representada por muitos artistas. A deusa, pelo seu nascimento, define que o princípio da vida afetiva e, consequentemente, da vida amorosa estará para sempre ligado ao elemento líquido. Ou seja, amor é umidade. Os secos, os quentes e os frios têm muita dificuldade com relação à vida afetiva, ao amor, que fala de reciprocidade, de permeações e de fusões. Afrodite passou por Chipre, a ilha do cobre, definindo-se a partir de então como “boa condutora de eletricidade”, isto é, constituindo a polaridade passiva, feminina, por oposição à polaridade masculina, ativa. Ou seja, o princípio da água atenuando o princípio do fogo, Afrodite e Eros. 




Deusa de sedutora beleza (enkrateia, sedução), Afrodite era honrada em inúmeros santuários em todo o mundo mediterrâneo e da Asia Menor. A deusa surge no mundo grego para colocar as relações afetivas numa perspectiva de reciprocidade. Ela passa a simbolizar as forças irrefreáveis da fecundidade, não com relação aos frutos, mas com relação ao desejo apaixonado compartilhado. 

A deusa é tanto o amor sob a forma física como o prazer dos sentidos cabendo-lhe o poder da transformação dos seres que nesses processos se envolvem. É neste sentido uma deusa alquímica, consumando relacionamentos, gerando formas novas de existência. Ela é também o impulso que vai além do sexual, apresentando um ímpeto tanto psicológico como espiritual que nos fala de comunicação e de comunhão. Qualquer pessoa que já tenha se apaixonado por alguém, por um lugar, por uma ideia, por um objeto artístico está lidando com os poderes da deusa. A consciência de Afrodite está presente também em todo trabalho criativo, mesmo aquele feito solitariamente. É a deusa das interações, podendo transformar uma simples conversa numa “obra de arte”. Com a deusa atuando em nós, também podemos nos tornar mais espontâneos, como numa improvisação musical. Onde quer que apareça a consciência de Afrodite, os parceiros irradiam bem-estar, energia intensificada, a conversa fica mais  espirituosa, estimulando-se os pensamentos e sentimentos. 

AFRODITE   CALIPÍGEA
A deusa tem vários nomes, apelidos, Calipígea, Trívia, Urânia, Pandêmia, Citereia, Cípris etc. Toda pessoa que se envolve num processo afetivo, de trocas, a deusa a transforma num ser especial, quase “divino”, como diziam os antigos gregos. Quando Afrodite se apossa da personalidade de uma mulher, ela se abre para o mundo, para os outros, socializando-se também. Ela aumenta o magnetismo pessoal. Quando por razões culturais e religiosas a mulher é rebaixada, satanizada, Afrodite se “ausenta”. O arquétipo pode pôr uma mulher (dependendo do meio) inclusive em divergência com os padrões de moralidade nele vigentes. Por isso, as mulheres “Afrodite” podem ser marginalizadas, consideradas como perigosas, quando não como raptoras do masculino, como acontece com as religiões patriarcais.

Afrodite era muito mal vista em Atenas, a cidade de Palas Athena, deusa virgem, das acrópoles. Nos meios populares da cidade,

Afrodite era muitas vezes chamada de “A Prostituta”. Por causa de sua personalidade, fortemente marcada por traços orientais, sobretudo de Ishtar e de Astarte, aquela mesopotâmica e esta fenícia, Afrodite, para os padrões gregos, era considerada como uma bárbara. Tudo isto transparece, por exemplo, de modo muito claro, na tragédia Medeia, de Eurípedes, nas falas de Jasão, quando ele, num ataque xenófobo, comunicou à princesa da Cólquida que estava se separando dela, uma “bárbara”, para se casar com a filha do rei Creonte.


Quando duas pessoas se apaixonam, a deusa cria um campo de energia fantástico, intensificado. Ambas sentem-se mais bonitas, as impressões sensoriais se ampliam, a música se transforma em
PITAGÓRICOS
linguagem privilegiada, os odores ficam mais penetrantes, o tato passa a ser um dos sentidos mais importantes. Cultivar Afrodite é criar interesses pela arte, pela música, pela poesia, pela dança. É gostar do próprio corpo, cuidar dele, sem exageros, uma decoração corporal contida, harmoniosa. É por essa razão que Afrodite é a deusa da vida cosmética, palavra grega que vem de kosmos, esta significando ordem, o universo como ordem. Os pitagóricos foram os primeiros a usar esta palavra com este sentido porque o universo poderia ser reduzido a proporções matemáticas, devidamente ajustadas. Uma pessoa cosmética seria, pois, aquela que saberia encontrar o seu lugar de forma harmoniosa na ordem cósmica, como os astros souberam fazer. Por extensão, encontrar uma ordem justa na sociedade, sempre um reflexo da ordem cósmica. Para isto, ainda segundo os pitagóricos, deveria ser usada a katharsis, a purificação da alma, palavra que tinha entre eles fortes analogias com a música , a base da virtude maior, a sophrosyne (autodomínio, moderação). 


As mulheres que assumem o arquétipo de que tratamos podem enfrentar muitas dificuldades com outras mulheres, presas a outros
HERA
arquétipos, especialmente as mulheres do tipo Hera. No geral, as mulheres Afrodite têm a capacidade de ver sempre a beleza e de se ligar criativamente a alguma coisa, a alguma atividade, mesmo na velhice. Crescem com grande vitalidade e graça. Na velhice, estão de bem com a vida, são sábias, não vivem se queixando nem são rabugentas. Interessam-se pelos outros, ligam-se ao mundo, interessadas sempre pelo que vem à frente. No geral, a mulher identificada com a deusa é mais extrovertida, sua atenção é sempre sedutora, ainda que muitas vezes possa ser mal interpretada. 



ACROCORINTO

A negação de Afrodite está nos meios repressores que condenam a sexualidade e a sensualidade, que negam o corpo, que criam situações de culpa e de conflito, de ansiedade e depressão, diante do apelo da vida. Por isso, as mulheres Afrodite tendem a viver o presente. A cidade de Afrodite era Corinto, a Opulenta, uma cidade
EPÍSTOLA   AOS   CORÍNTIOS
rica, alegre, de muitas festas. Nas alturas da cidade, na Acrocorinto, a quase oitocentos metros de altura, encontrava-se um famoso templo no qual viviam as hierodulas, as prostitutas sagradas, sacerdotisas da deusa. Foi nessa cidade que o apóstolo Paulo, na era cristã, deu vazão a toda a sua misoginia, escrevendo a Epístola aos Coríntios.


No período clássico da história grega, Corinto era considerada a terceira cidade, depois de Atenas e Esparta. Tinha uma formidável acrópole e uma situação geográfica privilegiada, abrindo-se simultaneamente para a Ásia e para a Europa ocidental, o que parecia justificar seu grande progresso material. Miticamente, histórias nos contam que Corinto foi fundada por Foroneu, filho do deus-rio Ínaco e da ninfa Mélia, e que suas muralhas teriam levantadas por Sísifo, o mais inescrupuloso e inteligente dos mortais. 




Quando abordamos os mitos gregos ou não de modo mais aprofundado,  sabendo ir de modo mais percuciente às suas fontes mais responsáveis e sérias, podemos entender, como tantas vezes já mencionado neste blog, o quanto eles nos permitem entrar no conhecimento do nosso próprio padrão arquetípico. Esse conhecimento nos ajuda a compreender qual é a nossa natureza divina. Quanto às mulheres, imprescindível o conhecimento do culto e dos rituais de Afrodite, o arquétipo que ela representa, que sempre as ajudará, certamente, a “viver” um pouco melhor, a se libertar, principalmente nas sociedades fortemente marcadas por valores patriarcais, da culpa por querem ser o que realmente são e não podem. Isto, no mínimo, as ajudará a se tornarem mais conscientes, fazendo-as cuidar de seus interesses, reconhecidos de modo mais claro os seus limites e os dos outros. 

AFRODITE
Como doadora da graça social, Afrodite se alinha naturalmente com os que lutam a favor da vida, procurando combater não só aqueles que se aniquilam entre si, que promovem guerras estúpidas sob justificativas religiosas (econômicas sempre, no fundo) como os que dizimam os recursos naturais de nossa mãe Terra. Neste sentido, a proposta maior da deusa está certamente no convite que ela nos faz, muitas vezes não muito bem compreendido, no sentido de que saibamos evitar que as tendências destrutivas que estão à solta no mundo acabem, inconscientemente, se voltando contra nós mesmos. Com isto saberemos inclusive evitar as idiotas propostas de políticos, economistas e empresários que, em escala mundial, nos propõem um crescimento contínuo de nossos índices econômicos. 

Não é preciso ser filósofo, psicólogo, médico, advogado ou sacerdote para perceber que o ser humano, ainda que dizendo amar a vida, vem atualmente se matando a si mesmo como nunca aconteceu antes. E o que é pior, pois, como constatamos, a maneira de morrer escolhida pelo próprio ser humano é hoje muito rápida, tão rápida que muitos que já morreram para a vida continuam sobrevivendo por muito, muito tempo, em dolorosos estágios de vida vegetativa, doentes ou não. Vemos isso diariamente diante dos nossos olhos, muitas vezes dentro de nossas casas. Os métodos que as pessoas escolhem para se matar são inúmeros e não devem interessar só a especialistas, já que o ser humano tem que ser considerado como uma totalidade. 


THANATOS   E   EROS  ( 1911 ,  GUSTAV   KLIMT )

Vida é conflito, sabemos, luta. Amor e ódio, produção e consumo, criação e destruição, anabolismo e catabolismo, uma guerra entre tendências opostas que se confunde com a própria dinâmica do universo. As tendências que lutam a favor da vida ou contra a vida não podem ser representadas só por Eros e por Thanatos, como defendeu Freud. É certo que o ser humano carrega dentro de si estas divindades. É certo que Thanatos sempre acabará por se impor, pois somos seres datados. Nossa vida é um hífen entre duas datas. Cabe-nos, na medida do possível, colaborar ao máximo para que as forças eróticas e tanáticas em operação no universo sejam atenuadas pelos valores que Afrodite representa. Isto nos ajudará não só a controlar melhor tanto as forças eróticas como as tanáticas soltas no universo, patrocinadas e incentivadas, como se sabe, pelo grande capital, criador do nefasto sistema de mercado, e pela indústria armamentista nas suas diversas expressões. 

Há, contudo, uma enorme quantidade de seres humanos, nas mais diversas latitudes e longitudes da Terra que desde muito cedo, nas várias camadas sociais, mais altas ou mais baixas, seres inclusive mal entrados na vida, que por razões diversas colaboram com as forças tanáticas. Esse instinto de autodestruição aparece sob diversas formas, muitas toleradas ou mesmo aceitas socialmente. Não falamos aqui do desejo consciente de morrer, mas do desejo inconsciente de morrer. Como formas crônicas inconscientes de autodestruição podemos apontar, por exemplo, muitas inclinações masoquistas de comportamento (submissão à punição) por causa de um sentimento de culpa, criado no mais das vezes desnecessariamente.


CASAMENTO  CAMPONÊS ( PIETER  BRUEGEL, O VELHO, 1525 - 1569 )

Em muitas das chamadas tendências religiosas ou espirituais encontramos também fortes tendências autodestrutivas, tanto no caso de ascetas, de jejuadores (casos de autoflagelação, de martírio etc) como no de pessoas que, temendo a vida, se refugiam em organizações religiosas, seitas etc. Há inclusive, noutras áreas, formas muito disfarçadas de autodestruição. Dentre as muitas, destacamos a curtição gastronômica (a peregrinação pelos restaurantes; o caso de pessoas que se matam pela comida para compensar falta de amor ou de segurança), pelos esportes radicais, pela autoimolação por razões familiares (alguém que abre mão de tudo por problemas de família), pela droga e pelo álcool socialmente consumidos, pela deterioração crescente da qualidade de vida pelo uso inadequado da tecnologia, pela simulação de doenças ou ferimentos etc. 

A automutilação estética é, sem dúvida, uma das formas mais insidiosas de autodestruição inconsciente. Nesta área, podemos exemplificar com as tendências anoréxicas ou com as operações cirúrgicas. Ou seja, embora não nos mutilemos a nós próprios, entregamo-nos a algum cirurgião para que ele o faça (caso de pessoas que não podem passar sem uma ou mais operações plásticas anuais). Ainda nesta área, principalmente no mundo feminino, podemos mencionar o desejo inconsciente que as pessoas têm de se autodestruir quando aderem à moda das roupas, da maquiagem ou da decoração corporal sem perceber o quanto se destroem, ao invés de lutar pela conquista de uma individualidade. No fundo, seguir a moda (puro consumismo) não passa de um desejo de ser como todo mundo, rico ou pobre, isto é, um desejo de não ser nada, ninguém. 

HORÁCIO
Para finalizar, quando pensamos em Afrodite, nada melhor do que lembrar as máximas Carpe Diem, de Horácio (gozemos o momento favorável, aproveitemos com moderação tudo o que se apresente de positivo, mesmo que pouco e transitório) e Utere temporibus (aproveitemos o momento feliz), de Ovídio. Trazendo estas máximas, em nome de Eros
OVÍDIO
e de Afrodite, para o centro de nossas vidas, estaremos, sem dúvida, controlando melhor as forças tanáticas que um dia acabarão por se impor . Viveremos certamente um pouco melhor, pois, afinal, os poetas (os bons, é claro) serão sempre os nossos melhores conselheiros. 





quarta-feira, 23 de agosto de 2017

LIBRA (1)

                                              

LIBRA
Uma das mais antigas referências que temos sobre o signo de Libra (23 de setembro a 22 de outubro) nós a encontramos no antigo Egito, na balança como símbolo do julgamento. A balança era o centro de uma cerimônia religiosa muito importante. Esta cerimônia consistia na pesagem das almas quando, desprendendo-se do corpo, elas iniciavam a sua viagem para o Outro Lado (Duat). Esta pesagem se realizava na sala da deusa Maat, deusa da justiça e da verdade, por meio de uma balança na qual se depositava, no prato da esquerda, o coração (Ib) do morto e no outro prato, o da direita, uma pena branca de avestruz, símbolo da deusa. 


MAAT

Aparecendo sempre em oposição ao carneiro, símbolo do aspecto criador, animal portador da vida, da saúde e da força, a balança é um símbolo do poente, da morte, e abre caminho de para a ressurreição. Enquanto o carneiro transmuta o declínio solar em esplendor, em impulso luminoso, a balança marca os momentos inicias da sua extinção. A balança mantém as forças da luz e das trevas momentaneamente em equilíbrio. Logo, porém, a espada da justiça cortará sem qualquer outra influência o fio deste equilíbrio (equinócio). Este corte introduz os homens “naquilo que deve ser” queiram eles ou não. A matéria, a vida mundana, os corpos, tudo o que tomou forma, enfim, começa a caminhar para o seu fim. O sentido do “que deve ser” é inversamente proporcional ao “que quer (ou acredita) ser”. Pesa-se aqui, rigorosamente, um “tanto” de
AVESTRUZ
construção e um “tanto” de destruição, de modo que os pesos se anulem. Pesava-se, assim, no Egito, o hieróglifo da verdade, a pena que simbolizava a deusa, sendo o contrapeso o coração do morto. As penas do avestruz, porque exatamente iguais, eram símbolos da equidade, e, como tal, da deusa Maat, que personificava a verdade, a justiça e a norma.Ela representava o equilíbrio e a harmonia da criação com relação ao incriado, ao caótico.    

Ao lado dos cultos e de seus objetos, a religião egípcia sempre teve um caráter moral, a que era dado o nome de “maat”. É quase impossível traduzir com exatidão o significado desta palavra, nela se combinando conceitos de ordem, justiça, dever, retidão, responsabilidade, algo muito parecido com a palavra sânscrita dharma. Maat, como conceito, não tinha origem humana. Fora criado pelos deuses e desde o aparecimento do cosmos passou a fazer parte da criação. Antes de qualquer coisa, maat representava a lei divina, imutável e imprescritível, na qual deviam se inspirar as leis humanas, chamem-se elas ética, moral ou princípios de direito. Todos deveriam, desde o faraó ao camponês, se esforçar para viver de acordo com ela, cada um no seu nível social.

Concebida dessa maneira, como obra dos deuses, e não da consciência dos homens, maat sempre se revestiu para os egípcios de imutável perfeição. Isto excluía qualquer possibilidade de crítica ou de mudança da estrutura social. O mundo e o que havia nele tinha sido criado pelos deuses exatamente da forma como queriam. Tudo era, portanto, como deveria ser, fixo, eterno. As guerras, as pestes, as secas significavam simples perturbações temporárias da ordem cósmica estabelecida. Uma vez que o mundo tinha sido criado como deveria ser desde o momento da criação, não era possível por definição ter havido uma época anterior melhor. Na
VALE   DO   NILO
religião egípcia não havia ideias como Jardim do Éden, Idade de Ouro ou Apocalipse. A mesma atitude determinava a concepção que os egípcios tinham da morte e a importância que lhe atribuíam. As suas crenças sobre a vida do além-túmulo, como as que diziam respeito aos deuses, tinham velhas raízes no vale do rio Nilo. Sepulturas da era neolítica revelavam a existência, ao lado dos mortos, de instrumentos, de objetos e de víveres que só podiam mostrar a intenção de serem usados pelo falecido no além. 

No eixo da balança usada na psicostasia ficava sentado o deus Toth, o escriba divino, na sua forma cinocéfala ou com a cabeça de íbis. Ao fundo, sob a presidência do deus supremo, Osíris, quarenta e duas divindades, correspondentes aos quarenta e dois nomos, ou divisões administrativas do país, acompanhavam a cerimônia. Dela participava também o deus-chacal Anúbis, como senhor do mundo dos mortos. Aos pés de Osíris ficava o monstro Ammit, uma figura híbrida, meio crocodilo, meio hipopótamo, peitoral de leão, chamado de O Devorador; aguardava o resultado da pesagem. Este monstro era uma imagem das águas primordiais, lembrando o caos. Se o coração do morto fosse mais pesado que a pena da deusa Maat, ele era entregue ao monstro, que logo o devorava. Com isto, ele voltava à indeterminação para, um dia, quem sabe, passar pela metempsicose (passagem da alma de um corpo a outro). Se o coração fosse mais leve que a pena da deusa, a alma se encaminharia para o Outro Lado, reconstituindo-se o corpo, que então gozaria da imortalidade de Osíris. 


   LIVRO   DOS   MORTOS -  

A alma era pesada em função da sua maior ou menor proximidade com o divino. Quanto mais próxima dele, mais se elevava. Por isso, se ela tivesse se afastado do divino na sua caminhada terrena, perderia as suas asas, a sua leveza. Lembremos que a alma (ba), no Egito, era representada por um pássaro androcéfalo. Na psicostasia, a pena, por isso, simbolizava a elevação da alma. Segundo o prato da balança judicial que se eleve, ela será reconhecida como pura ou corrompida.


MORTE  DE  HÉRCULES , 1634  ( FRANCIS  ZURBARÁN )

A psicostasia é uma cerimônia que lembra elevação, e, portanto, o elemento ar. É, no fundo, um processo pelo qual uma substância
ELIAS  ( ÍCONE RUSSO )
inferior se traduz numa forma superior por um movimento ascendente. Um dos aspectos do simbolismo da ascensão é, como se sabe, o da translação para a eternidade. Exemplos deste aspecto estão no suicídio apoteótico de Hércules, suicídio que o levou para o Olimpo, e o da subida aos céus do profeta Elias, que a ele ascendeu vivo, num remoinho, transportado num carro puxado por cavalos de fogo. 

A origem do simbolismo da translação para os céus, isto é, para a eternidade, encontra, ao que parece, a sua primeira expressão na antiga religião egípcia. Esta forma de translação é chamada, alquimicamente, de sublimatio superior, descrita por várias religiões. Na sua existência temporal, contudo, o ser humano só pode experimentar a chamada sublimação inferior, aquela em que os anseios de altura, de voo ou de ascensão exigem sempre uma volta à terra porque ele não pode, enquanto coagulatio, abrir mão da alternância entre a elevação e a queda, isto é, da circulatio. A sublimatio superior propõe a eternidade, a inferior, traz de volta à terra, tendo um caráter ascendente num primeiro momento e descendente numa segunda fase.

ZIBANITU

Os antigos povos da Babilônia davam ao signo de Libra o nome de Zibanitu, a Balança, e nela viam duas estrelas importantes: Zuben do Sul e Zuben do Norte, os dois extremos polarizados que lembravam a pesagem das almas no julgamento depois da morte (a psicostasia para os egípcios e a querostasia para os gregos). 


HERMES   PSICOPOMPO

A balança, entre os persas, foi colocada nos céus sob a tutela do anjo Rashu, postado junto de Mitra, também com a finalidade da pesagem das almas sobre a ponte do destino. Lembremos que a mesma ideia aparece na Grécia. Num famoso vaso grego, Hermes, na função de deus psicopompo, procede à pesagem das almas de Aquiles e de Pátroclo. Entre os muçulmanos, a balança do julgamento é mencionada no Corão. Num sentido figurado, no Islã, a balança é um grande livro aberto sobre o qual se inscrevem diretamente as boas e as más ações do crente. Na vida cotidiana, ela simboliza o bom julgamento, a apreciação justa, o sentido da discriminação. Há entre os árabes do Magrebe (ocidente, lugar onde o Sol se põe) a expressão que revela a sua importância: Teu olho é a tua balança.


A ILÍADA
Entre os gregos, já em Homero (A Ilíada) a balança era usada para simbolizar o destino como se mostra no episódio em que se narra o combate entre Aquiles e Heitor: Quando, porém, chegaram pela quarta vez, às fontes,  o Pai dos deuses ergueu então a balança de ouro e nela colocou as duas sortes da morte, em um dos pratos a morte de Aquiles e em outro a de Heitor, o domador de cavalos; depois elevou-a, segurando-a pelo meio. O dia fatal de Heitor havia chegado e ele desceu ao Hades. Apolo Febo o havia abandonado.


 MIGUEL  E  JACÓ ( EUGÈNE  DELACROIX , 1798 - 1863 )

No cristianismo, o signo de Libra costuma aparecer associado a São Miguel, o arcanjo do julgamento. Este arcanjo, entre os judeus, é o de mais alta hierarquia, sendo conhecido como o Príncipe da Água e o Anjo de Prata. No período bíblico, Miguel anunciou a Sara que ela daria à luz Isaac; foi ele mesmo que no teste da akedá interveio para que o mesmo Isaac não fosse sacrificado, Miguel lutou com Jacó, ferindo-o; foi Miguel quem disse que ele, Jacó, receberia um novo nome, Israel. Como advogado do povo judaico, Miguel senta-se à direita do Trono da Glória. É Miguel que acompanha os devotos ao céu após a morte e faz a oferenda das suas almas no altar celestial. Assinalemos que no pensamento judaico, os demônios são privados de seu poder diante de tudo o que é equilibrado. 

Na Idade Média, havia a chamada prova da balança ou bibliomancia, que servia para condenar os feiticeiros. Colocava-se o acusado sobre um dos pratos de uma balança e no outro se depositava uma Bíblia. Se o acusado pesasse mais, seria condenado. Consta que muitas feiticeiras, bem mais leves que seus comparsas masculinos, conseguiram escapar da condenação. De um modo geral, porém, a bibliomancia consistia na adivinhação do futuro através da interpretação de uma passagem de um livro aberto ao acaso.


HOKSENWAAG
A cidade holandesa de Oudewater é famosa porque desde o final da alta Idade Média gozava de um privilégio incomum, não possuído por nenhuma outra na Europa. Milhares de pessoas acusadas de feitiçaria a procuravam na esperança de obter um livramento de tal acusação ou suspeita. É que nessa cidade havia um edifício público, conhecido como Hoksenwaag (Casa de Pesagem de Feiticeiros) que expedia certificados para esse fim. Um magistrado verificava primeiramente se o interessado não escondia nada sob suas vestes. Com vestes sumárias, quase nu, descalço, na presença de um conselho da cidade, a pesagem era realizada em público. O certificado expedido, no caso inocência, era muito detalhado, selado, com diversas assinaturas das autoridades, libertando o acusado de qualquer suspeita. Lembremos que na Bíblia (Provérbios) encontramos: A balança enganosa é abominação diante do Senhor; o peso justo é a sua vontade. O objetivo maior da pesagem realizada em Oudewater era o de se constatar se o incriminado havia sido colocado ou não em estado de levitação pelo Diabo. 

JABIR  IBN  HAYYAN
A simbologia da balança foi muito utilizada pela Alquimia. É do mundo árabe que nos vem o Livro das Balanças, de autoria de Jabir Ibn Hayyan (sécs. VIII-IX), chamado de Geber pelos latinos, que viveu perto de Bagdá. Para ele, por exemplo, o ouro representava o equilíbrio perfeito entre os dois princípios opostos e complementares, o enxofre e o mercúrio. Os outros metais seriam manifestações destes mesmos dois princípios, mas através de uniões imperfeitas. 

Os gregos, antes de definir melhor a área zodiacal de Libra, entendiam que ela pertencia às pinças da constelação de Escorpião, as Chelae Arum, segundo os romanos. Os sumérios já conheciam a região como separada de Escorpião, chamando-a de Zibba Anna, a Balança do Céu. Os árabes, apoiando-se nos babilônicos, davam o nome de Zuben el Genubi e Zuben Eschamali às duas principais estrelas de Libra, e também uma tradução dos nomes gregos dados por Ptolomeu. Para o ocidente, a “independência” de Libra só ocorreu por volta de 1.100 aC, quando a constelação começou a marcar o equinócio do outono. Sosígenes, um astrólogo alexandrino, provavelmente ciente das elaborações sumérias e egípcias, deu subsídios para que no calendário Juliano a constelação de Libra ficasse posicionada entre Virgem e Escorpião. Tudo isto explica porque o signo de Libra foi o último a ser introduzido e fixado no Zodíaco. Em sânscrito, Libra é Thula e em grego Zygos.


 LIBRA   E   ESCORPIÃO   

A balança, em todas as tradições, sempre apareceu associada à espada (Áries), unindo os dois símbolos a função administrativa e a função militar. É por essa razão que os celtas viam a espada tanto como um emblema da bravura e do poder guerreiro, sinônimo de
KSHATRIA , RAJPUT
destruição, como símbolo da justiça e da paz, na medida em que a destruição deve ser aplicada à injustiça, à ignorância, àquilo que é malefício, tornando-se por esse fato positiva. É por isso que a espada evoca também a guerra santa. Na Índia, é a casta dos Kshatrias, a segunda, a do poder político e a dos guerreiros, que une os dois símbolos, a balança e a espada, deixando-nos claro esta associação que a espada deve se colocar a serviço da justiça, o que nem sempre, porém, acontece. 

Entre os gregos, a primeira divindade associada ao signo de Libra foi Têmis. Filha de Urano e de Geia, Têmis (etimologicamente, estabelecer como norma) é a deusa das leis imprescritíveis, irrevogáveis e universais de origem divina. Estas leis opõem-se àquelas estabelecidas pelos homens (nomos) e às regras morais, o chamado direito consuetudinário. A ideia de uma lei divina já tinha sido aventada por Heráclito, na filosofia pré-socrática na medida em que o filósofo  vinculou as leis humanas à lei cósmica. 


TÊMIS , ZEUS  E  PALAS
A titânida Têmis foi a segunda esposa de Zeus Todo-Poderoso. Unindo-se a ele, tornou-se mãe das Horas  e das ninfas do rio Erídano (o rio Pó, da Itália), as mesmas que ensinaram a Hércules o caminho que levava ao Jardim das Hespérides (3º trabalho, referente ao signo de Gêmeos). Devido à sua união com Têmis, Zeus assumiu a condição de divindade máxima da qual derivam todas as leis, os ordenamentos e o direito em geral. Em nome de Zeus, os reis da terra deviam exercitar o seu poder, fazendo justiça e defendendo a ordem. É por essa razão que, já em Homero, Têmis é sempre invocada com Zeus para estender a sua proteção ao justo.

A Têmis cabia também o poder sobre os oráculos e os ritos em geral, além de supervisionar as assembleias. Os oráculos são locais onde a divindade pode falar diretamente por meio de um médium que caia em estado de entusiasmos. Os gregos chamavam tal local, onde se buscava um bom conselho (chresmos) de chresterion ou manteion. Os romanos o chamavam de oraculum, de onde veio a palavra para a nossa língua. O mundo oracular é, por excelência, feminino. Mesmo depois que o oráculo de Delfos, de Geia e de Têmis, passou para o mundo patriarcal (conquistado por Apolo), a transmissão das sentenças oraculares não pode deixar de prescindir do feminino, reveladas que eram por mulheres, as pitonisas ou sibilas. Foi Têmis quem passou a Apolo o domínio da mântica usada no referido oráculo. A mântica de Geia e de Têmis era a chamada mântica por incubação, transformada pelo deus em profética.   


GIGANTOMAQUIA  -  PARTENON

Como grande divindade das leis eternas, era Têmis também a dona do bom conselho sob o nome de Euphrone, atributo que dividia com Nix, a deusa da Noite. Têmis aconselhou a Zeus, na Gigantomaquia, a cobrir o seu escudo, que por isso recebeu o nome de égide. Esta palavra vem do grego aigis, cabra, pois foi com a pele da cabra Amalteia que tal escudo foi coberto e depois passado
JARDIM   DAS   HESPÉRIDES
( E. BURNE - JONES , 1833 - 1898 )
para as mãos de Palas Atena. Consta que foi também por conselho de Têmis que a guerra de Troia foi deflagradas como uma forma de equilibrar melhor, ao tempo, o excesso de população da terra. Deve-se também a Têmis, como antiga titular do oráculo délfico, o conselho dado a Zeus e a Poseidon para que não se unissem à nereida Tétis, pois, se o fizessem, ela daria à luz um filho mais poderoso que o pai. Previu ainda Têmis que um dia um filho de Zeus (Hércules) retiraria do Jardim das Hespérides os pomos de ouro, guardados no referido jardim, pelo gigante Atlas.

DIONISO  E  AS  HORAS

Assim como Têmis tem a ver com a constelação de Libra, as suas filhas as Horas também a ele se ligam, integrando-se ao séquito da deusa Afrodite, que assumiria a tutela da referida área zodiacal como o planeta Vênus. As Horas eram filhas de Têmis e de Zeus e eram consideradas as divindades das estações do ano. Eram três, correspondendo à primavera, ao verão e ao outono, pois o inverno não era considerado como uma estação, já que era um período em que a natureza morria. Por isso, o número das Horas se fixou em três, cada uma delas com um atributo: flores (primavera), grãos (verão) e uvas e frutos (outono). Havia uma quarta Hora, a do inverno, representada com despojos de caçadas, mas que nunca teve o realce das irmãs. 

Como divindades das estações, promoviam as Horas o desenvolvimento da natureza, colocando-se porém sob a tutela de divindades maiores. Ligadas à vida da natureza, exerciam elas o controle sobre as mudanças do tempo, abrindo ou fechando os portões do céu, provocando a alternância entre os períodos chuvosos e os ensolarados, tudo para o melhor crescimento da vida vegetal. Gentis e simpáticas, movendo através da dança, usando coroas de ouro enfeitadas com flores, eram sempre benevolentes e protetoras da humanidade. Apesar de às vezes provocarem a impaciência em principalmente em razão de atrasos, sempre acabavam por aparecer, trazendo doçura e beleza, jamais decepcionando.


IRENE ,  EUNOMIA  ,  DIKE 

De divindades do mundo vegetal passaram depois a representar as horas do dia. Seus nomes: Eunômia (disciplina), Dike (justiça) e Irene (paz). Eram chamadas pelos atenienses por outros nomes, respectivamente: Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). Aos poucos, a ação das Horas se estendeu ao mundo dos humanos, como divindades que asseguravam o equilíbrio e o ajuste da vida social. Participavam elas também de modo especial da paideia, na medida em que cuidavam da educação das crianças, “umedecendo-as” (no mundo natural, eram as Horas encarregadas de distribuir a umidade) corretamente para que brotassem no tempo certo, crescessem adequadamente e florescem no tempo devido. 

Assim como tinham a ver com a ordem das estações, as Horas participavam da moralidade da vida social, nos seus aspectos quanto à virtude, à honestidade, ao bem, à manutenção da palavra dada etc., o que se tornava ainda mais evidente por serem filhas de Têmis. Assim, neste domínio, Eunômia personificava a legislação de um modo geral; Dike, a justiça; e Irene a paz. Os serviços da primeira voltavam-se sobretudo para a vida política, sendo o resultado de suas intervenções muito celebrados por poetas e pelo Estado de um modo geral. Dike atuava mais na área do chamado Direito Civil, na esfera das relações individuais, passando informações ao Pai de todas as injustiças cometidas. 

IRENE   E   PLUTO
Irene, a mais álacre das irmãs, era muito reverenciada em festivais em que se celebravam a convivência humana. Irene tornou-se mais tarde, segundo algumas versões, mãe de Pluto, a personificação da riqueza, um robusto menino que passou a acompanhar Dioniso e Perséfone, carregando uma cornucópia. As imagens de Pluto o descrevem como cego porque favorecia tanto os justos quanto os injustos. Segundo consta, foi o próprio Zeus quem o cegou, para impedir que socorresse só os bons. Irene era reverenciada também sob o nome de Chloris (em Roma, a deusa Flora), como divindade dos brotos, dos botões e das flores, muito cortejada por Bóreas, o vento do norte, e por Zéfiro, o vendo do oeste. Como dissemos, uniu-se a este último, tornando-se sua fiel esposa. 


ZÉFIRO   E   FLORA
( W. A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

VIRGEM (4)

                                       
VIRGEM
Procurando visualizar tudo o que está nos últimos parágrafos sob o ponto de vista astrológico, acredito que onde temos Plutão no mapa temos o Hades, o Inferno, os personagens que nele vivem e tudo o mais que nele se encerra.    Explicando-me melhor: se esse Plutão estiver saliente, elevado, posicionado por signo e casa de modo problemático, difícil, podemos ter o caso, dentre outras possibilidades, de, naquele ponto, nos depararmos com uma situação semelhante à vivida por Koré, isto é,
RAPTO   DE   KORÉ , 1587 ( HANS  VON  AACHEN )
a de nos tornarmos vítimas de alguma forma de abuso, seja de violência doméstica, de maus tratos infantis, de abuso físico, sexual ou outro qualquer, sempre de modo traumático. Espancamentos e estupros costumam se verificar quando temos configurações astrológicas das quais Plutão faz parte, evidentemente mal posicionado por casa e com aspectos negativos. Tais acontecimentos podem ir além da simples luxúria, fazendo-nos pensar, por exemplo, em envolvimentos sado-masoquistas que poderiam ser satisfeitos de outro modo bem menos violento. Além do mais, é preciso ressaltar que uma das características deste Plutão-Perséfone é que ele tende a inibir qualquer possibilidade de reação, podendo ocasionar, repetida a violência, que a vítima comece a sentir que ela foi a causa da sua própria perdição. Situações de culpa, diminuição da auto-estima, impotência, falta de reação são comuns, diante do poder da autoridade maior.

  PERSÉFONE   E   PLUTÃO
( JAN  PIETER  VAN  BAURSCHERT , THE ELDER , 1669 - 1728 )

Outra característica importante de Plutão-Perséfone é a de que ele, conforme sua situação celeste, posição terrestre e dignidade, poderá ser o lugar de nascimento do Puer Aeternus, de Brimo, o filho de
MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS
Hades e de Perséfone, como está nos Mistérios de Elêusis. Esta criança é a forma jovem que toma aquilo que os psicólogos chamam de si mesmo. É a chamada conjunctio, a coincidência dos opostos (equivalente à Lua nova). É algo assim  como a união de dois amantes, circunstância em que as personalidades consciente e inconsciente se aproximam uma da outra. Esta conjunctio é muito perigosa porque pode o inconsciente (anima) destruir o consciente (animus) ou este julgar-se livre daquele, sempre uma rematada mas perigosa presunção. Neste caso teremos a imagem do Sol destruindo a Lua; no inverso, a ameaça da psicose, da desestruturação da personalidade. Amor ou destruição? A conjunctio ocorre na Lua nova, no mundo inferior, portanto, na depressão mais profunda, no Hades, na noite escura em que a Lua não brilha; é nessa noite em que ela e o Sol podem se unir, anima-animus.

Este processo de nascimento da Criança Eterna ocorre em conexão com o tempo cíclico como o zodíaco nos demonstra. A realização do nosso processo de individuação só atinge a sua realidade quando renovado segundo o tempo sideral, isto é, nas 24 horas do dia e nos 12 meses do ano. O si mesmo só se torna real se o expressamos em ações. Nasce ele assim a cada hora e a cada momento do ciclo anual. Isto significa que nossos estágios de consciência são imprevisíveis e podem agir de modo diferente nas mesmas situações. Hoje, podemos agir de um modo, amanhã de outro, pois a cada momento a Criança Eterna tem que nascer em nós.

O  GRAAL

Uma das aproximações mais ricas que podemos fazer do signo de Virgem é a de relacioná-lo com o mito do Graal. A história desta taça sagrada foi objeto, durante a Idade Média, de numerosas interpretações de natureza mística. Esta taça ou copa, segundo uma tradição, teria sido usada por Cristo quando da sua última ceia com os apóstolos. Outra tradição nos diz que a copa teria sido usada por José de Arimateia, um judeu, discípulo de Jesus, que depois de ter nela recolhido o seu sangue no Calvário teria obtido de Pôncio Pilatos a devida autorização para  sepultá-lo.

A   TÁVOLA   REDONDA
Segundo as lendas bretãs, a copa (krater, em grego; crater, em latim) teria sido levada para a Inglaterra no ano de 64 dC e depositada numa capela dentro de um bosque ou num castelo no alto de uma montanha. Anjos teriam depositado no graal uma hóstia com poderes miraculosos, que alimentava o corpo e preparava para a vida espiritual. O tema serviu para uma série de lendas e romances do ciclo do rei Artur e seus cavaleiros da távola redonda.   

CHÉTRIEN  DE  TROYES
Qualquer que seja a tradição, o graal sempre foi considerado como um talismã celeste, um símbolo do paraíso perdido. A sua busca sempre foi identificada com o próprio processo de individuação superiormente conduzido, a conquista simultânea de um eu superior e de um avanço no caminho da espiritualização. Nestas histórias se conjugam influências celtas e as tradições lendárias do cristianismo medieval, segundo textos domo os de Chrétien de Troyes, Robert de Boron, Wolfran Von Eschenbach e outros, inclusive os aparecidos posteriormente (Julien Gracq e de T.S.Eliot).

O graal apresenta clara analogia com o princípio feminino na medida em que, pela sua forma, é símbolo do que recebe, do que acolhe. Além do mais, suas possibilidades simbólicas o ligam também de modo evidente, sob o ponto de vista astrológico, ao signo de Virgem, enquanto este nos fala de alimentação e da preparação para um caminho evolutivo do eu que nasceu no signo anterior (Leão, quinta casa). A busca do graal exige condições
GALAHAD
especiais raramente encontradas num cavaleiro. A rigor, só um deles, Galahad, se aproximou da copa maravilhosa. Perceval e Lancelot do Lago, dois destacados cavaleiros, tentarão, mas não poderão se aproximar do graal por viverem mundanamente. Galahad, filho deste último, o conquistará, pois é puro, livre de toda tentação terrestre. Para chegar ao graal, isto é, à plenitude interior, que ele simboliza, era preciso ser como Galahad. Evidentemente, o ideal de espiritualização da cavalaria, que Galahad encarnava mais do que qualquer outro, se perdeu. Nosso herói era mestre de sua montaria e nunca deixava de interiorizar os seus combates. 

Na sexta casa astrológica, Virgem, a decisão terá de ser tomada: evoluir, ir em direção do signo de Libra e seguintes ou fixação no ego leonino, ou seja, involuir. A estrela do signo de Virgem é, por isso, a de seis pontas. O vértice superior aponta para um caminho de natureza espiritualizante, ascensional. O vértice inferior, para um caminho regressivo, uma volta à vida instintiva.

Entre os judeus, Elul é o mês do signo de Virgem, ligado à conquista da sabedoria, início da vida espiritual, isto é, retorno ao divino e renovação. Ideias de purificação se apresentam aqui, ideias que devem levar antes de tudo à destruição das más sementes do passado. Segundo os judeus, Elul, etimologicamente, significa busca, pesquisa. O astro relacionado com o signo é Mercúrio, planeta associado ao intelecto, o melhor instrumento para o trabalho espiritual, que começa neste mês. Mercúrio também afeta Sivan (Gêmeos), o mês em que a Torá foi recebida.

O elemento de Elul é a terra, aqui simbolizando o reino das ações humanas, ou seja, a união do pensamento e da ação. É por essa
DEUTERONÔMIO
razão que no primeiro Shabat deste mês é lida publicamente uma parte do Deuteronômio, na qual se destacam as palavras dos Juízes e os meios adequados para o julgamento. O Deuteronômio é o quinto (Chumash) livro do Pentateuco, os cinco livros de Moisés (Bereshit, o Gênesis; Shemot, o Êxodo; Vaikrá, o Levítico; Bemidbar, Números; e Devarin, o Deuteronômio). Daian é o juiz que atua num tribunal religioso; segundo a tradição, Deus está sempre com ele, em suas deliberações. Um daian é sempre um parceiro de Deus e deve sentir-se temeroso diante da sua responsabilidade, como se uma espada estivesse encostada nas suas espáduas e o inferno escancarado a seus pés.

Quanto ao Shabat, lembremos que ele propõe um descanso obrigatório, indo do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite. É o dia em que Deus deu a sua bênção, ao descansar do trabalho da criação, que ele realizara em seis dias. Um judeu deve imitar Deus, descansando no Shabat, não realizando nenhum tipo de trabalho que signifique o controle do homem sobre a natureza. A proibição pode ser suspensa em casos excepcionais, quando houver, por exemplo, risco de vida. A palavra Shabat quer dizer repouso. No novo testamento e no cristianismo de Idade Média, o shabat sempre foi considerado desse modo, dia consagrado a Deus, um tempo sagrado com relação ao profano. 

Uma tradição muito mais antiga entre os judeus nos diz, porém, que o shabat estava associado a festas ligadas aos ciclos lunares e à neomancia. Era uma festa de tribos nômades realizada por ocasião da Lua cheia (shabater significa parar de crescer), uma assembleia, segundo algumas tradições cristãs, de feiticeiras, presidida de pelo próprio Diabo. Essas festas, em antigas tradições gregas, eram realizadas também em homenagem ao deus Dioniso, que nelas tomava o nome de Sabázio (sabakós, efeminado, em grego). 


                    SABÁZIO                

O culto de Sabázio chegou ao mundo grego através da Frígia, tendo um caráter orgiástico. Filho de Zeus serpentino e de Perséfone, Sabázio costumava tomar a forma de um réptil, tendo gerado, ao se unir a uma de suas sacerdotisas, filhos com acentuados traços de serpente. É neste sentido que chegaram a se realizar no mundo grego, associados aos mistérios de Elêusis, os de Sabázios, na medida em que, como divindade, ele representava as forças de dissolução da personalidade e a sua regressão a formas caóticas e primordiais, um mergulho na vida subconsciente.

COMEMORAÇÃO   DE   ELUL

Entre os judeus, segundo a ciência astrológica, uma pessoa sob a influência de Elul, Virgem, tem uma inclinação natural para a análise, dando sempre muita importância a detalhes, mesmo os insignificantes. Há uma tendência natural para o perfeccionismo, para uma acentuada postura introspectiva diante da vida e para a frieza emocional. Estas tendências, contudo, se trabalhadas segundo a Torá, podem ser superadas. Sem este auxílio, temos a compulsão para as coisas pequenas, a confusão entre o secundário, menos significativo, e o principal, mais importante, características que costumam ocasionar a falta de confiança, a dúvida, a paralisia diante das escolhas. Lembremos que o nome Elul foi herdado pelos judeus dos babilônicos, o sexto mês do ano (agosto-setembro), correspondente ao mês da colheita.

A letra Yod associa-se a Elul na medida em que significa pensamento, raciocínio, e que aponta para um futuro a ser criado. Segundo os astrólogos judeus, as faculdades da compreensão e da percepção são femininas. Por esta razão, o signo de Elul tem forma feminina, uma virgem, que simboliza a modéstia e a pureza, características essenciais para o retorno do divino. Os textos astrológicos atribuem a mão esquerda a Elul, indicando este lado, aqui, materialidade e ação. A letra Yod junta no seu significado conceitos de sabedoria e ação no mundo material. 

O poderoso potencial para ações retificadoras foi revelado ao povo judeu quando de sua perambulação pelo deserto. Durante Elul, Moisés subiu ao monte Sinai e abriu as portas da penitência para os
FESTA   DE   PESSACH
judeus. Elul é o sexto mês lunar do calendário hebraico. Como há uma discrepância de pouco mais de onze dias entre os 354 dias do ano lunar e os 365 do ano solar, um ano bissexto contendo um mês suplementar é intercalado sete vezes em cada dezenove anos. Isso permite que a
SOPRANDO   O   SHOFAR
festa de Pessach (Páscoa) caia sempre na primavera. Elul, numa outra contagem, precede o período de arrependimento associado ao ano novo (Rosh há-shaná), sempre um tempo de introspecção e de preparação espiritual. Algumas comunidades têm o costume, no mês de Elul, de soprar o shofar todas as manhãs após as orações, a fim de despertar os devotos para o arrependimento. 

O arrependimento (teshuvá) é, sob todos os pontos de vista, um conceito virginiano e tem o significado de retorno. É a partir de Elul que o pecado do afastamento do divino começa a ser apagado. As portas do arrependimento estão sempre abertas. Entretanto, se alguém peca com a intenção de se arrepender posteriormente, tal arrependimento não significará a obtenção do perdão divino. Segundo a tradição, uma pessoa deve se arrepender um dia antes de morrer, incluindo as orações do moribundo a confissão dos seus pecados. Todavia, como o dia da morte não pode ser conhecido, é preciso que o arrependimento seja diário. Isto é especialmente válido para o mês de Elul e para os dez dias de penitência (entre os dias 1º e 10º de Tishirei, Libra) período dedicado ao arrependimento, que culminam no Yom Kipur (Dia da Expiação, a 10 de Tishrei, dia de jejum, o mais sagrado do calendário judaico). 


DAVID  , C. 1768
( G.F. BARBIERI, IL GUERCINO )
São considerados, por exemplo, como modelos de arrependimento o do rei David e dos habitantes de Nínive (história de Jonas). David, censurado pelo profeta Natan, por ter pecado ao se unir a Betsabá, que estava casada com Urias, arrependeu-se, o mesmo fazendo os habitantes da referida cidade. Sob a influência da Cabala, muitas práticas ascéticas foram introduzidas no processo de penitência judaico, práticas como o ato de rolar na neve, jejuns prolongados. Outro conceito ligado a Elul é o da expiação (kapará), a reconciliação do humano com o divino, sempre feita através de sacrifícios. Os principais caminhos para a expiação se fixaram no arrependimento, na oração, na hospitalidade, na caridade, nas boas ações e no exílio. 

RIO   JORDÃO
A tribo associada ao mês de Elul é a de Gad. Segundo o Midrash (palavra que significa busca, procura; também método homilético, isto é, arte de pregar sermões eloquência religiosa, tudo relacionado com a interpretação bíblica através da qual o texto é explicado diferentemente de seu significado literal. O profeta Elias vem desta tribo. Por não ter morrido, Elias se transformou no anjo do Compromisso, fonte de santidade e de pureza. Gad, em hebraico, é palavra que significa alegria, felicidade, sorte. Era ele o sétimo filho de Jacó e de Zilpa, sua serva. Gad é o ancestral dos Gaditas. A esta tribo Moisés atribuiu o território a leste do rio Jordão. 

No inverno, o mês que corresponde a Elul é Adar (Peixes). O peixe, cuja existência não se separa nunca do meio em que vive, as águas, é usado para simbolizar a santidade e a pureza. O mês de Elul marca, como se disse, o temeroso e respeitoso início do retorno a Deus, como, aliás, a letra Yod sugere: o começo da sabedoria é o temor de Deus.

Eu, Javé, sou vosso Deus. Vós vos santificareis e sereis santos,
LEVÍTICOS
porque eu sou santo (Lev. 11,44). Esta passagem, entre os judeus, é tomada como base para a determinação do que é puro e impuro. Assim, tudo o que pode ofender a santidade de Javé é considerado impuro. A Bíblia, entretanto, não fixou objetivamente os critérios para tanto. O código da pureza está nos Levíticos 11-16 e indiretamente em 17-22, embora muitos outros detalhes estejam dispersos pelo texto bíblico. 

Os Levíticos formavam um código cerimonial que continha as disposições básicas, no tocante aos sacrifícios, ao sacerdócio e às leis da pureza. Daí, expressões como pureza levítica. Levi (ligado, apegado) era o terceiro filho de Jacó e de sua esposa Léa, filha de Laban, sendo seus descendentes os Levitas, que prestavam serviços ao templo.

A variedade do conceito de impureza é muito grande. Sempre será possível, entretanto, diante dessa variedade, estabelecer as situações em que esse o conceito se verifica de modo mais relevante. Tais situações são as seguintes: 

a) Antes do encontro com Deus. No Êxodo, nos Levíticos e em Samuel, encontramos referências claras sobre a necessidade da purificação do corpo pela água, inclusive de roupas asseadas, para entrar em contacto (templo) com Deus. No cristianismo, em Mateus, temos: se estás para fazer tua oferta diante do altar, e te lembras que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta. O que se coloca aqui é extensão do conceito de pureza para a vida interior. 

b) A mulher depois do parto. Nos Levíticos há prescrições rigorosas, rituais, para a purificação da mulher depois do parto. A impureza decorrente do parto de um menino se estende por 40 dias; de uma menina, o prazo se eleva para 80 dias. Durante esse período, a mulher não podia ir ao santuário e não podia tocar em coisa alguma santa. No cristianismo, conforme está em Lucas, a mãe de Jesus se submeteu a estas exigências.

c) Os leprosos – Nos Levíticos estão enumerados todos os casos que; ao tempo, eram considerados como leprosos. A lepra, em todas as tradições, desde tempos pré-históricos, sempre foi considerada como uma moléstia imposta por deusas lunares (A Grande Deusa Branca), uma punição motivada pelo consumo de alimentos proibidos. Muitas moléstias da pele eram chamadas de lepra na antiguidade, especialmente as de caráter crônico  ou contagioso. 

SÃO  LÁZARO
No grego antigo, a  moléstia de pele era a que produzia escamas, usado o nome para designar às vezes a elefantíase e a morfeia. O nome também era aplicado ao vitiligo, moléstia que causa perda da pigmentação, que resultava às vezes do consumo de alimentos impróprios. Na Bíblia, a lepra aparece algumas vezes como punição divina causada pelo pecado do orgulho. A lepra é às vezes também chamada de mal de Lázaro, nome de um pobre homem coberto de chagas, que os cães lambiam, tudo conforme narra São Lucas.  

d) As impurezas das casas – Qualquer fungo, mofo ou umidade, qualquer mancha inexplicável era considerada “lepra”. Os sacerdotes, como está nos Levíticos, decidiam sobre a sorte da casa.

e) Impurezas fisiológicas – Todo o capítulo 15 dos Levíticos fala deste tipo de impurezas, tais como polução noturna, menstruação, doenças venéreas etc. A lei sempre prescreve nestes casos um banho completo, mais ritual que higiênico. No cristianismo, em Mateus, encontramos a narração do episódio em que uma mulher sofrendo um fluxo de sangue não ousou tocar em Jesus em público, temendo complicações legais e rituais; por isso, tocou-lhe o manto de leve e às ocultas.

f) Impureza do templo – Se uma pessoa profana penetrasse no recinto sagrado reservado aos sacerdotes, o templo se tornava impuro. 

g) Impurezas da nação – A presença, no meio do povo, de transgressores da lei, de criminosos, de idólatras, de parceiros de matrimônios mistos eram impurezas que contaminavam a nação inteira. 

As águas tinham muito destaque nos ritos de purificação. Além das usadas para banhos e abluções, havia algumas águas às quais se atribuía um papel especial. Havia as águas do dilúvio que
MAR   VERMELHO
purificaram a terra da corrupção dos homens. As águas do mar Vermelho eram particularmente importantes porque purificaram os judeus dos contactos que haviam mantido com os egípcios quando do cativeiro. As águas do rio Jordão eram também importantes pois há registros de que purificavam a lepra. Importantes eram as chamadas “águas do ciúme”, usadas para descobrir a culpa ou a inocência da esposa suspeita de adultério. A indiciada deveria beber uma mistura de água com o pó do chão do templo para que se cumprisse o ritual do ordálio. 

RITUAL   DO   ORDÁLIO

Ordálio é, neste caso, um juízo de Deus que é obtido através deste ritual judiciário imposto ao acusado (a) para se descobrir a sua culpa ou a inocência. Este ritual é testemunhado na Bíblia com o nome acima ou o de “águas amargas”. Eram águas dadas a beber à esposa suspeita de adultério, registrando-se o caso nestes termos: Depois que ela as tiver bebido, se ela estiver culpada, tendo sido infiel a seu marido, as águas que trazem a maldição trar-lhe-ão sua amargura; seu ventre inchará, seus flancos emagrecerão, e essa mulher será uma maldição no meio de seu povo. Mas, se ela não se tiver manchado e for inocente, ela será preservada e terá filhos. (Números 5,11-31).

Esta preocupação que os judeus tiveram em associar o signo de Virgem à purificação é encontrada também em muitas outras tradições. Na religião católica, por exemplo, ela tem como representação máxima o batismo. Neste sacramento, a água desliza pela cabeça, região ariana, de onde emanam os nossos atos. No momento da morte, as unções  vinculam-se aos sete planetas da tradição, que governam os sentidos e determinadas partes do corpo. 


Um exemplo do que temos aqui pode ser encontrado num dos maiores romances da literatura de todos os tempos, Madame Bovary, de Gustave Flaubert. A descrição da cena está no momento mori de Emma Bovary: depois, o pároco recitou as preces Misereatur e Indulgentiam e, umedecendo o polegar no óleo, ungiu a moribunda: primeiro, naqueles olhos que tanto haviam desejado luxos terrenos; em seguida, no nariz, tão ansiosa ela, sempre desejosa de sentir as brisas e os perfumes amorosos; depois, na boca, que tantas vezes se abriu para a mentira, para a queixa orgulhosa e para o grito luxurioso; depois, nas mãos, que tanto se deleitaram em suaves contactos; e finalmente nos pés, que tantas vezes correram tão velozes na preocupação de saciar seus desejos, pés que já não caminharão mais. A purificação, segundo este ritual, compreende todo o corpo, desde a cabeça à planta dos pés, conforme a sequência zodiacal.  


SANTA   GENOVEVA
( LOUIS DUFOUR , 1901 - 1960 )
O cristianismo sempre associou Santa Genoveva (Geneviève), padroeira de Paris, ao signo de Virgem. Nascida em Nanterre, em 420, e falecendo em Paris, no ano 500, Genoveva, segundo a lenda, recebeu de são Germano, bispo de Auxerre, o chamado véu de virgem dedicada aos quinze anos. Devotou-se, desde então, aos trabalhos de oração e caridade. Foi ela que com sua intervenção conseguiu afastar as tribos francas que sitiavam Paris. Os parisienses perceberam as ações protetoras de Genoveva por longo tempo mesmo depois de sua morte, como aconteceu em 1.129, quando uma epidemia causada por alimentos (pães) produzidos com centeio envenenado (seigle ivre.) cessou subitamente no momento em que as relíquias da santa estavam sendo carregadas em procissão pública. 

NIDABA  OU  NISABA
Mais recuadamente, a origem deste mês do signo de Virgem pode ser encontrada da história da deusa suméria Nidaba ou Nisaba. Esta deusa era filha de uma espécie de Geia suméria, chamada por vários nomes, Inini, Gula etc., segundo a região do seu culto. Nidaba era a divindade que tutelava as colheitas, sendo especialmente reverenciada como deusa dos grãos. Em inscrições sumérias se registrava que ela levava uma estrela sobre a cabeça e um chicote na mão direita, chicote este cuja correia se estendia pela cauda do Leão. Esta ideia,

encontrada também entre os caldeus, a de “pegar” o Leão pela cauda, é sempre um indício do poder das grandes-mães sobre a energia cósmica. Em algumas tradições, ainda, lembre-se, o terceiro arcano do Tarot, A Imperatriz, aparece ligado ao signo de Virgem, enquanto representa a resultante da bipolaridade dos dois primeiros arcanos, O Mago (energia masculina) e A Sacerdotisa (energia feminina).

O signo de Virgem, como se sabe, predispõe os seus nativos a um temperamento nervoso, típico do elemento terra, com atuação num plano racional-analítico-prático. É em Virgem que a vida instintiva
DEMÉTER
vai encontrar o seu adequado posicionamento no sentido de sua submissão ao ego que nasceu em Leão, signo anterior. Este alinhamento do instintivo pode muitas vezes significar o seu não reconhecimento, como, aliás, o próprio mito grego nos sugere. Deméter nunca aceitou o fato de Koré ter “gostado” do que lhe aconteceu no Hades. Esta recusa da vida instintiva foi a causadora da depressão de Deméter, acontecimento que no plano da vida psíquica significou a retirada da sua libido da Terra, tornando-a árida, seca, preocupada unicamente em rever a filha. 

A psicanálise associou ao signo de Virgem um comportamento
SIGNO  DE  VIRGEM
ligado à função intestinal (governada pelo signo), no qual se juntam vários traços que na linguagem técnica recebeu o nome de complexo anal. Esse complexo corresponde a um período no desenvolvimento da criança em que ela demonstra um vivo interesse no fato de reter ou de evacuar fezes. A vida afetiva da criança nesse período se desloca para o funcionamento retal (Mercúrio governa o intestino delgado e Plutão o grosso), numa ou noutra fase, isto é, retenção ou expulsão. O que temos é o caso da chamada “analidade reprimida”, traduzida pela retenção por parte da criança virginiana do seu conteúdo intestinal, sob pressão educativa centrada em palavras dos mais velhos sobre sujeira, asseio, limpeza etc. Ao responder à pressão dos seus educadores, a criança virginiana acata prontamente a disciplina que lhe é imposta. 

Esse quadro infantil deixa marcas que se refletirão mais tarde no comportamento do virginiano adulto. Se esta analidade for vivida superiormente, sublimada, poderemos ter expressões intelectuais superiores. Nos tipos malogrados, o virginiano ficará preso num emaranhado de condicionamentos racionalizantes que imporão limites muito medíocres à sua existência. Neste último caso é que encontramos os excessos quanto à meticulosidade, o perfeccionismo exagerado etc. Assim, casos de constipação intestinal ou piores (diverticulite) se revelarão como tendência à avareza, à implicância, ao puritanismo, às pequenas manias, ao gosto pelas classificações e coleções, às gavetas para tudo, ao amor à ordem e à limpeza. Quanto ao plano da ação, teremos os tipos contemporizadores, proteladores, que sempre deixarão a sua decisão para amanhã. No plano mental, será o cético, o lúcido, o organizado, o adepto das estatísticas, características que se acentuarão quanto mais a dominante terra prevalecer e, sobretudo, a ação de Saturno.    

A constelação de Virgem estende-se de 20º Virgem a 6º Escorpião. Ptolomeu atribui às estrelas que estão na cabeça e na asa sul da constelação influências mercurianas e marcianas, estas bem menos evidentes. Outras estrelas na mesma asa e da região da cintura proporcionam influências mercurianas e venusianas, estas bem mais fracas. Na região dos pés e na barra da vestimenta, estrelas com influências de Mercúrio e de Marte. A estrela mais importante de Virgem é Spica.


Spica, a estrela mais brilhante de Virgo, alfa, está hoje a 23º 09´ de Libra. Além dela, a única a ser considerada astrologicamente é Vindemiatrix, a 9º 15´ de Libra. A simbologia desta estrela aparece associada a dádivas à humanidade, contribuições que determinadas personalidades que a tinham em evidência fizeram no sentido do progresso, do avanço. A espiga, lembremos, é um símbolo da fertilidade, do que alimenta, sugerindo tanto a maturidade da vida vegetal e animal como da vida psíquica. Bem
MOZART
posicionada e aspectada, Spica “alimenta” o quadrante onde aparece, proporcionando sempre benefícios. Um tema exemplar para estudo desta estrela pode ser o de Wolfgang Amadeus Mozart. Lembremos que Spica, juntamente com Sirius (Canis Major) e Canopus (Carina), estão entre as estrelas mais importantes do céu.  

DIONISO   E   AMPELO
Vindemiatrix ou Vindemiator, o vindimadeiro, é representado no mito grego por Ampelo, jovem amado por Dioniso. Filho de um sátiro e de uma ninfa, recebeu do deus um presente, uma videira carregada de cachos. Ao colher as uvas que estavam na parte mais alta, Ampelo caiu e morreu, sendo transformado por Dioniso nessa estrela. Vindimiatrix, simbolicamente, fala de coleções, lugar onde agregamos coisas, onde guardamos algo para uso futuro, lembrando cuidado, atitude previdente.