sábado, 19 de outubro de 2019

OS SALÕES DO SÉCULO XVIII*

                                       
SALON  AU  XVIII SIÈCLE ( GEOFRIN )

Os acontecimentos históricos podem ser explicados de diversas maneiras. Além de historiadores, obviamente, todas as pessoas, letradas ou iletradas, a seu modo,  com maior ou menor autoridade e propriedade, formalmente ou não, podem ter algo a dizer sobre tais acontecimentos. De um lado, em menor quantidade, é claro, temos valorizados livros, teses ou tratados produzidos academicamente por qualificados profissionais da área sobre eventos variados, eventos passados,.presentes ou futuros que a humanidade viveu, vive ou viverá. De outro lado, como imensa maioria, temos as simples observações e opiniões do homem comum que, muitas como desabafos, na sua maioria desqualificados, alimentadas pela comunicação de massas, se perdem no  efêmero de nosso dia-a-dia. 

Tanto nas produções dos profissionais da cultura, das ciências e das artes como nos desabafos do homem comum encontro uma questão que me parece comum a ambos, uma pergunta mais ou menos bem formulada:  será que a história da humanidade caminha no sentido de um aperfeiçoamento moral ou exprime ela uma alarmante decadência, sobretudo dos costumes, apesar de um espantoso “progresso” tecnocientífico?

O texto que está abaixo, uma breve incursão histórica, produzida na esfera de alguém que  tem algum interesse em acontecimentos culturais, parte da constatação de que nestes estapafúrdios tempos em que vivemos só um pouco das muitas explicações e interpretações dos profissionais acima mencionados pode ser lido e compreendido e muito menos incorporado e renovado para orientar a nossa maneira de ser. Tudo, pois, que nos chega quando tratamos destes assuntos, precisa ser comparado, cotejado, reti-ratificado, arquivado, aproveitado, deletado, quando não ignorado ou esquecido totalmente.


A  ASTROLOGIA
(G. BARBIERI, 1591 - 1666)
Com o espírito assim orientado é que procuro, bem ou mal, como um ser comum de poucas letras, me abrir para o mundo na perspectiva aqui apontada, tendo como válido e útil aquilo que a Astrologia, seriamente considerada e estudada, nos propõe para a abordagem de acontecimentos históricos, culturais ou não.  O seriamente ora mencionado sobre a Astrologia nada tem a ver evidentemente com a pop astrology, como ela aparece em jornais e em muitos livros sobre ela publicados, mas com o que ela nos oferece desde tempos muitos remotos como legado praticamente encontrado em todas as
CARTA ASTRAL
culturas, desde a pré-história, abandonado, por pressões dos representantes da “racionalidade”, pelas academias no séc. XVII. Nem tem a ver com a afirmação de pessoas que peremptoriamente declaram nela não “acreditar”, como se ela fosse uma religião, ainda que dela nada conheçam. A Astrologia, uma carta astral, nesta perspectiva, por exemplo, se parece com um hemograma. Não “acreditamos” num hemograma.  Apenas sabemos lê-lo ou não. E mesmo sabendo lê-los, os hemogramas, quantos erros não se cometem na interpretação de seus dados?


OS  DEZ  ASTROS 
A Astrologia nos revela, desde sempre, que os planetas que circulam, juntamente com os luminares (Sol e Lua), em volta da Terra, no zodíaco das doze constelações, influenciam,  além da humana, a vida do nosso planeta, nos seus três reinos, mineral, vegetal e animal. Os dez astros que atuam no círculo zodiacal das constelações, dependendo de seu relacionamento, formando o que chamamos de aspectos, envolvem continuamente a Terra com uma rede de energias que a tudo atinge, como está acima, principalmente quando pensamos no mundo natural no qual o homem vive, afetando sobremodo o seu comportamento. A recente descoberta dos planetas que estão além de Saturno, Urano, Netuno e Plutão (estes três invisíveis a olho nu), possibilitou ao homem não só ir além do sistema solar (Saturno era o limite) como lhe abriu o intelecto para um outro entendimento, quanto à sua psique coletiva e ao seu desenvolvimento bio-cultural.

TELESCÓPIO  HOLANDÊS DE ALTHOUGH LIPPERSTREY, 1624

Graças ao telescópio, no final do século XVIII, e outros inventos, o homem ampliou a sua visão e compreensão do universo, passando a entendê-lo melhor, com outras informações. A trajetória zodiacal de Saturno é de 28 anos. A de Urano, palavra grega que significa céu, é de cerca de 84 anos, permanecendo, em média, entre 7 e 8 anos, em cada uma das constelações (signos). Logo que descoberto,
em 1.781, Urano, por suas características astronômicas foi estudado de vários modos pela ciência. Quanto à Astrologia, como ocorreu com outros planetas, anteriormente, que já haviam sido estudados desde a antiguidade, os astrólogos, dentre os quatro elementos (fogo, terra, ar e água) que atuam no universo, indicaram o elemento a que ele pertencia (ar) e os efeitos que produzia no comportamento humano, ao transitar por esta ou aquela constelação (signo astrológico); foram definidos, segundo a analogia, os princípios gerais que ele representava, as suas influência quanto à tipologia física, ao caráter, à psicologia, à psicopatologia, aos problemas físicos (patologias), às predisposições sociais etc. das pessoas por ele  mais ou menos sensibilizadas, conforme a matéria astrológica ensinava.


OS  QUATRO  ELEMENTOS

Algumas analogias a partir de certos números que podemos estabelecer entre o homem e a vida cósmica permitir-nos-ão certamente entender melhor o que aqui se expõe. O Sol, ao transitar lá nas suas alturas pelo zodíaco das constelações, leva 25.920 anos. O homem, por seu turno, respira por minuto, em média, 18 vezes por minuto. Por dia, em planos diferentes, evidentemente, temos também o mesmo número (18x60x24), 25.920 vezes. O Sol, com esse cálculo, leva 72 anos para andar um grau. Se multiplicarmos 72 pelos 360º do círculo zodiacal, teremos o mesmo número, 25.920. 72 bpm é, ao que nos parece, um número médio bastante aceitável para o ciclo de expansão e relaxamento das nossas artérias, para se atestar a nossa saúde cardíaca. Coincidência? Na Astrologia, o signo de Aquário tem estreita relação com o nosso sistema arterial enquanto o signo que lhe é oposto, o de Leão, é “governado” pelo coração, analogicamente, o Sol, que energiza todo o sistema solar. As artérias, como se sabe, têm a finalidade de transportar sangue (energia) do coração para o resto do corpo. Comuns, por exemplo, os casos de muitos aquarianos que tendo certas dissonâncias (patologias) aquarianas, sob o ponto de vista astrológico, tenham os pés e/ou as mãos frias.


VITRAL  DE  CHARTRES
Cada era cósmica, segundo a Astrologia, tem a duração de 2.160 anos. A era de Peixes, na qual nos encontramos nos seus graus finais,  começou em 498 dC e terminará em 2.658 (2.160 + 498), quando o Sol ingressar matematicamente no signo de Aquário. Começará então realmente a famosa era de Aquário. Alguns dos temas desta futura era já vêm sendo “sentidos” desde o século XVIII nos
AQUÁRIO
( S.DALI, 1904 - 1989 )
vários campos da atividade humana, na ciência, na política, nas artes, na música, na literatura etc. No passado, séc. XVIII, o fenômeno da atividade dos salões foi um deles. Na política, as lutas de independência de várias colônias foi outro. Hoje, na ciência, temos, ainda exemplificando, o tema da inteligência artificial. No filosófico-religioso, o fim da filosofia e o trans-humanismo e o fim de Deus e das religiões (profecia de Nietzsche), estas oferecendo uma grande resistência, diante dos altíssimos lucros que obtêm. 

Quando Urano se destaca num tema astral por posição e aspectos, como logo se constatou desde a sua descoberta, inclusive por exemplos colhidos retroativamente, seu dono procura de um do geral se voltar invariavelmente para a exploração de valores mais elevados, se rebelar com ralação ao que é  tradicional, seja individualmente (arquétipo da hiper-individualização) ou através de associações,  de uma vida comunitária, grupal, que procura o bem-estar de todos. A procura da separação das origens costumava ser sempre enfatizada. Prevalecendo a tendência ao individualismo, sempre presente a ideia de “não ser como os outros”, que pode se expressar pela revolta, pela excentricidade, por riscos de desmedida ou pelo impulso de se criar algo diferente, inusitado. A inflação do eu pode ser de difícil contenção, sendo comuns, quando aspectos de
HIPÓFISE
Urano atingem principalmente o ascendente (corpo físico) e seu planeta regente, ou o Sol, espasmos, convulsões, movimentos físicos involuntários etc. Urano, no corpo humano, tem muito a ver com a hipófise ou a pituitária, a “glândula cibernética”, ligada ao controle de nossa vida hormonal (de hormao, em grego, excitar).


Fazem parte tradicionalmente da galeria dos aquarianos, uranianos de algum modo, portanto, pelo nascimento (trânsito do Sol pelo signo) ou pelo ascendente,  signo (Aquário) para o qual a Terra se voltava quando do seu nascimento: Darwin, Augusto Comte, Jung, Karl Marx, Byron, Schubert, Charles Dickens, Thomas Edison, Stendhal, Montesquieu, Galileu, Voltaire, James Joyce, Robespierre, Lewis Carrol, Antonio Carlos Jobim, Julio Verne, H.G.Wells, Strindberg, Degas, Simone Weil,  Fernand Léger, Picard, Brecht, James Dean, Mozart, Manet, Virginia Wolf, Radamés Ganattali e muitos, muitos outros.


URANO
Urano, astrologicamente, foi associado ao signo de Aquário, tornando-se o seu regente (signo e planeta operam com energias muito semelhantes). Aquário, nas suas melhores expressões, é um signo que se relaciona com amizades, altruísmo, idealismo, uniões com interesses especiais, de ideias comunitárias, tendências prometeicas etc. Os participantes da revolução francesa de 1.789, deflagrada com a intenção de ser a Revolução das Revoluções, simplesmente não "deu". Na eterna alternância dos contrário, foi preciso que Napoleão viesse para dar "fechada" naquilo que a Revolução de 1789 abrira. Lembre-se que para marcar o evento  os revolucionários de 1789 cunharam a expressão Liberdade, Fraternidade e Igualdade, lema de forte inspiração aquariana. Só no ano de 2.672, entretanto, a humanidade entrará realmente na famosa Era de Aquário, embora já venhamos sentindo alguns de seus efeitos desde o séc. XVIII, quando Urano foi descoberto, ao transitar pelo signo de Gêmeos.

Urano é extremamente ambíguo: confunde os sexos (GLST), mas sabemos cada vez menos quanto ao que é masculino e feminino. Dentro em breve, a ciência dará certamente um jeito:  homens gerarão (darão à luz) e as mulheres fecundarão. O mundo aquariano nos permite obter uma quantidade cada vez maior de informações, mas talvez nunca tenhamos nos deparado com tanta falta de conhecimento e  muito menos de sabedoria como hoje, estes dois a serem construídos por nós a partir daquelas. A velocidade e o alcance da nossa comunicação é espantosa, enorme, mas a solidão e a depressão aumentam cada vez mais. Enquanto isso, orgulhosamente, a ciência aquariana vai nos dando condições de visitar todo o sistema solar, de colonizar alguns planetas e de explorar a nossa galáxia.  

Uma síntese uraniana (seu campo semântico) pode ser assim apresentada: Urano é essencialmente um planeta variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, comunitário, excitante, maníaco (no sentido da mania grega), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista, utópico, original inédito e estéril.

No século XVIII, a verdade das religiões, tida como revelada, começou, por inspiração uraniana, a ser substituída por propostas filosóficas pragmáticas. A atitude, diante do mundo, começou ser inspirada pela empiria. Mesmo que, com todas as suas tentativas, seus tâtonements, como diziam os franceses, o conhecimento deveria derivar agora da experiência humana e não da revelação divina. O critério da verdade passou a ser dominado pelo sucesso das ações. Só seria verdadeiro o que desse resultados positivos. Mesmo uma religião só seria considerada “verdadeira” se ela se mostrasse moralmente benéfica, útil. A classe social ascendente, a burguesia, sentia grande necessidade de luzes, de informações, para melhor tomar consciência de si mesma e do papel que deveria representar nos novos tempos.

VOLTAIRE
Voltaire, da Inglaterra, exportava para a Europa continental Newton, Bacon, Hume e Locke. Nas suas Les Lettres Philosophiques (1738) ele discorria amplamente sobre a vida inglesa e fazia, ao mesmo tempo, uma crítica pesada aos valores franceses. Por essa época, ele publica Les Eléments Philosophiques de Newton,
HELVETIUS
uma vulgarização muito bem feita dos princípios da ciência newtoniana. Na França, pela ação de Rousseau, dos 
enciclopedistas, abriam-se grandes fendas nas estruturas até então dominadas pelo clero e pela nobreza. O espírito crítico, o racionalismo e teses materialistas (Helvetius) passam a exercer uma poderosa influência contra a autoridade da Igreja Católica, afetando todo o pensamento filosófico então dominante.


Até o século XVIII, a literatura, em que pesem as exceções de sempre, não passava, no seu todo, de uma espécie de cerimônia de reconhecimento entre o escritor e seu público, uma afirmação de que ambos pertenciam ao mesmo e conhecido universo. Uma afirmação de reconhecimento de que ambos, apesar de ocasionais discordâncias por parte do escritor, pertenciam a uma sociedade modelar, a ambos familiar, e que, por isso, deveria ser respeitada quanto aos seus valores. Neste sentido, no plano das ideias, nada de se descobrirem coisas novas. Ficava o escritor, apesar de alguns deslizes e escapadas, como se disse, restrito ao que era conhecido do sistema dominante por ele e pelos leitores.

Desde início do século XVIII, principalmente, o escritor se sentia tomado por uma nova missão, a de iluminar e de reivindicar com as suas obras o direito de propor uma ação anti-histórica. Começava a ser efetivamente desmontada aquela impressão de estabilidade inabalável que o século XVII, dominado pelo cristianismo, pela monarquia e pelo classicismo, deixara. O século XVIII elegeu o movimento como o tema central de suas motivações para que uma nova ordem política e social fosse instalada. Esse movimento vinha sendo produzido desde o século anterior por uma fermentação de novas ideias que acabariam por fazer eclodir a revolução nos últimos anos deste século.  Lembre-se, embora só descoberto em 1.781, as influências inovadoras uranianas já vinham sendo “sentidas”, provocando algumas mudanças desde o séc. XVII.

DUCHESSE DU MAINE
(A.S. BELLE, 1674-1734
Na França, o homem de letras assumiu um papel extremamente militante no bojo desse movimento. Esse papel fez com que a Corte deixasse de ser o centro do país e o foco gerador de opiniões no domínio das ideias, do pensamento filosófico e artístico. Outro fator que contribuiu muito para a aceleração desse movimento foi o da criação dos chamados salões, cafés e clubes, centros de muitas reuniões e discussões. Destaque especial quanto aos salões deve ser dado às mulheres da aristocracia que fundaram importantes polos
CHÂTEAU DE SCEAUX
irradiadores de inovadoras propostas culturais, apesar do caráter mundano de alguns deles. Dentre esses salões, de duração variável, mas sempre de agitação muito marcante, citamos os Salões da duquesa do Maine, no castelo de Sceaux, que começou a funcionar já no início do séc. XVIII; o de Madame de Tencis, o de Madame de Lambert, o de Madame de Deffand, o de Madame de Geoffrin e o de Madame de Espinasse, dentre outros.


O papel do homem de letras, através de uma ação concreta, é agora o de iluminar as mentes e incendiar os corações tanto de aristocratas quanto de burgueses. Para isso era preciso combater as ideias dos primeiros e fazer com que os outros, os burgueses, esquecessem as suas humilhações, prevenções, desconfianças e temores diante da outra classe. Não mais confundir o presente com o eterno, como queria a Igreja. Combater a espiritualidade cristalizada, refundi-la no sentido de torná-la algo vivo, em permanente movimento e que não se prestasse mais a se confundir com qualquer ideologia.

Reuniam-se nos salões, à época, ratés ou não, escritores, poetas, filósofos, divulgadores de ideias, o que havia, enfim, de mais significativo em termos de cultura, ao lado de aristocratas, mondains e demi-mondains de toda a espécie. Frequentá-los e participar das discussões acabou por tornar esses salões indispensáveis para se conhecer, no detalhe, não só a cultura do tempo, mas, sobretudo, a nova literatura que então se produzia. As reuniões eram presididas normalmente por mulheres que se distinguiam não só por seu espírito livre, por sua capacidade mental, por seu gosto e pela habilidade e tato que demonstravam ao desempenhar tal função. Embora se discutissem assuntos diversos, à designação de Salões costumava juntar-se o qualificativo de literários. Um aspecto interessante que nesses Salões se desenvolveu bastante, a par da apresentação de textos, foi o hábito da conversação, da causerie sobre choses de l’esprit, um hábito que acabou por se integrar também à vida social dos franceses, de uma elite que pouco frequentava os Salões. 

O   MUNDANO
É de se lembrar a propósito de tudo o que está acima que, em 1.736, Voltaire publicou um poema filosófico intitulado Le Mondain em que satirizava valores cristãos e elogiava uma vida de prazeres vivida em sociedade. Viver no Jardim do Paraíso seria viver num estado de barbárie. Le Paradis terrestre est où je suis (O Paraíso terrestre é onde eu estou), concluía Voltaire. A publicação de Le Mondain levou-o a se envolver num escandaloso debate público com escritores que defendiam o sistema político-religioso vigente. Ameaçado de prisão, refugiou-se em Bruxelas, na Bélgica.


SALÃO  DO  HÔTEL  DE  RAMBOUILLET

A influência das reuniões que se realizaram em Rambouillet, sobre o gosto e a língua franceses, vinha desde esse tempo, o que deu a esse Hôtel um lugar muito importante na história da literatura francesa. O Hôtel, um grande palácio, servia de residência parisiense a Catherine de Vivonne, Marquesa de Rambouillet, de quem saiu o nome do Hôtel, conhecido noutros tempos como Hôtel de Pisani. O Rambouillet ficava localizado nas proximidades do Palácio do Louvre, no lugar onde atualmente se ergue o Palais Royal.


CATHERINE  DE  VIVONNE - PISANI

A influência de Rambouillet pode ser traçada desde o início do séc. XVII, mais exatamente desde 1608, quando um grupo lá se reuniu para discutir literatura. A influência deste Salão pode ser constada até mais ou menos 1.660. O nome deste palácio explica-se deste modo: pelo seu casamento com Charles d’Angennes, vidame (funcionário que substituía os senhores eclesiásticos em funções jurídicas ou militares) de Mans, depois marquês de Rambouillet pela morte se seu pai, Catherine Vivonne-Pisani passou a ocupar a propriedade. Desde 1.608, por sua iniciativa, ela começou a receber um grupo da sociedade da época, iniciando-se assim as famosas reuniões desse Hôtel, que foram ganhando uma expressão cada vez maior. Catherine, a bela marquesa, juntava às qualidades de sua afabilidade e de sua habilidade na administração do palácio (assumiu inclusive, como arquiteta, a responsabilidade pelas reformas no interior e no exterior do imóvel) superiores qualidades intelectuais por todos reconhecidas.

Durante o reinado de Luís XIII (1.610-1.643) teve também um certo destaque, embora não muito justificável o exagero, o Salão mantido por Madame Des Loges, chamada por seus admiradores de a décima musa. Diziam mais esses admiradores que todas as musas pareciam viver no seu palácio sob sua proteção, prestando-lhe sempre as maiores homenagens. Porém, o que ficou realmente do XVII foi o esplendor de Rambouillet, que uns poucos Salões, ainda que dignos de registro, procuraram imitar, mas jamais atingindo o seu éclat (brilho).

DUCHESSE  DU  MAINE
Só no séc. XVIII, porém, o movimento dos Salões ganharia um grande impulso com suas reuniões semanais realizadas aos sábados (o salão da duquesa Du Maine) ou às terças-feiras (o salão da marquesa de Lambert). Muitos desses Salões, entretanto, apesar do esforço de seus patrocinadores para orientá-los na direção da cultura, das discussões literárias sobretudo e ainda que frequentados por gent d’esprit, ficaram conhecidos como “templos da galanteria e de graciosas frivolidades”.

MME  DE  LAMBERT
( NICOLAS LARGELY)
O Salão de Mme de Lambert, que funcionou entre 1.710 e 1.733, destacou-se dentre todos, porém, por ter, segundo Fontenelle, afastado de suas reuniões a “moléstia epidêmica do jogo” e por ter sido o único em que era possível participar, com espírito, de discussões culturais mais sérias, das quais participavam inclusive alguns religiosos. Há registros de que no Salão de Mme. de Lambert foram discutidos, antes de chegar ao público letrado, questões como a da “superioridade da cultura moderna sobre a antiga”, a da “inutilidade dos versos para a poesia”, “o absurdo das personificações mitológicas”, “o absurdo da manutenção de regras literárias apenas em razão de sua antiguidade” etc. Voltaire, por exemplo, foi, como frequentador destes Salões, um grande incentivador de Mme. Du Deffand para que ela, com destemor, continuasse a se manter firme na organização de suas reuniões.


BARÃO D'HOLBAC
( A.ROSLIN, 1718 - 793 )
Impossível esquecer, ao se discorrer sobre esse típico fenômeno aquariano do séc. XVIII dos Salões, o do barão d’Holbac, le premier maître d’hôtel de la philosophie. Há documentação abundante sobre ele; numa de suas reuniões, estavam presentes, dentre ouras figuras da época, Diderot, d’Alembert, Helvétius, o abade Galliant. Em tal reunião, segundo Rousseau, teria nascido a Enciclopédia. Este Hôtel era chamado pelo autor de Rêverie d’un pomeneur solitaire de club hollbachique.

STAËL  & B.CONSTANT
Com a revolução de 1.789 as reuniões deixaram de ser realizadas. Quando as agitações políticas terminaram, a vida pode renascer, reiniciado-se as reuniões. Um dos primeiros a funcionar foi o de Mme. de Staël & Benjamin Constant. Os tempos, porém, eram outros, perdera-se o ímpeto do século XVIII, embora alguns permanecessem ativos no novo século. Explicações? A política, a solicitação dos negócios e a crescente agitação no mundo do dinheiro acabaram com a disponibilidade para as coisas do espírito e enfraqueceram o gosto artístico. Acima de tudo, começou a faltar tempo para a delicatesse das supremas artes francesas, as da causerie e da conversation. Outras energias, na permanente troca que se dá entre elas e o céu (zodíaco das constelações e astros), estavam atuando, mudando a vida no nosso planeta.   

À Mara e ao Edson - São Paulo, outubro de 2.019   

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

MAL DI LUNA



A   LUA ( TARSILA  DO  AMARAL , 1886 - 1973 ), MOMA, NY

Em razão de sua rápida movimentação e das transformações periódicas pelas quais passa na sua trajetória celeste, a Lua, em todas as culturas, sempre apareceu associada aos valores da mudança, da inconstância, da mobilidade.  No ser humano, ela rege a vida infantil, arcaica, anímica, tendo relação com a zona noturna da sua personalidade como matéria constitutiva da própria anima, do princípio feminino passivo, maternal, e das trevas do inconsciente. É deste modo que o astro lunar, quando pensamos no ser humano, tem relação com os temperamentos linfáticos, digestivos, dilatados, que caracterizam o chamado complexo maternal, que se traduz por uma sensibilidade crepuscular, voltada para a vida vegetativa, temperamentos fortemente marcados pelo instinto de conservação, pela prudência, pela propensão à calma e ao repouso. Seres que, ao invés de adquirir uma forma, de conquistar uma individualidade, sempre nos dão a impressão de tomados por um forte desejo de se demorar na infância, de prolongá-la, de preferirem o interior ao exterior, de viverem dentro de uma concha, de se refugiarem no passado.

O comportamento lunar apresenta, como tal, relação com a vida instintiva, anímica, infantil, caprichosa, inconstante, quimérica, sonhadora, inconsciente, noturna, por oposição à vida solar, racional, adulta, firme, brilhante, que se pretende constante, afirmativa e consciente. Sentimental e imaginativo, o lunático é o que sofre influência da Lua, sempre um indivíduo de humor inconstante, incoerente, excêntrico, muitas vezes idiossincrático ao extremo. Lunaticus era o adjetivo que os escritores romanos usavam para designar tanto o maníaco como o epiléptico, males sempre atribuídos a influências lunares. 

LUIGI   PIRANDELLO

MALE  DI  LUNA
Em 1913, Luigi Pirandello publicou uma novela chamada Male di Luna, que nos descreve um personagem que nas noites de Lua cheia apresentava mudanças no seu comportamento. Esta história, com outras quatro do mesmo escritor, foram filmadas pelos irmãos Taviani em l983. O filme, chamado pelos seus autores de Kaos, teve o seu nome retirado, segundo explicações deixadas pelo próprio Pirandello, que nasceu em 1867, num local chamado Càvusu, na língua regional, próximo de Agrigento, ao sul da Sicília. Depois o nome do lugar foi abreviado para Càusu, palavra derivada do grego kaos.


VITTORIO (1929-2018) E PAOLO TAVIANI (1931)
Male di luna, no filme dos Taviani, nos conta que Sidora, três dias depois de sua lua-de-mel, descobre que, durante a Lua cheia, seu marido, Batà, fora de casa, passava a noite uivando como um lobo, arranhando a porta e janelas da casa. Batà tentou salvar o seu casamento permitindo que o belo Saro passasse as noites dentro de sua casa, com a sua mulher, para protegê-la,


NA  ILHA  DE  LIPARI

O filme é todo de inspiração lunar. O seu epílogo, uma história chamada Colloquio con la madre (Conversa com a Mãe) descreve o próprio Pirandello fazendo uma visita ao seu lar na Sicília, muitos anos depois de sua mãe ter morrido. Na conversa que mantém com ela, o personagem lhe pede que conte a história de uma viagem que fez quando criança, à ilha de Malta, aonde foram visitar seu pai, lá exilado. A sequência final nos mostra crianças escorregando em direção do mar na ilha de Lipari.

KAOS
Os contos de Pirandello que dão origem ao belo filme dos Taviani têm relação com a sofrida vida camponesa, gente que trabalhava no campo, muitos permanentemente tomados pela ideia de emigrar. Interessante destacar que Pirandello chegou a afirmar algumas vezes que, a rigor, as histórias de Kaos não haviam sido escritas por ele; eram histórias que ele ouvira de Maristella, uma camponesa de Agrigento, sua ama, que dele cuidava e, à escondida dos pais, o levava à missa, sempre a lhe contar histórias da gente siciliana, histórias de vida e morte, de amor, de licantropia, de crendices e superstições.


NOVO MUNDO
A esta altura, não é possível deixar de se aproximar este grande filme dos irmãos Taviani de Novo Mundo (Nuovomondo), de 2006, da bela e politicamente engajada obra de Emanuele Crialese (direção e roteiro).  Este filme, que complementa aquele de outro modo, retrata as enormes dificuldades de muitos sicilianos que, com crianças, mães e velhas avós, no início do século XX, tentaram entrar nos USA como emigrantes. 

PROUST  E  SUA  MÃE
Com um pouco de leituras e atenção, não precisamos fazer muito esforço para descobrir na literatura o escritor que talvez tenha vivido como ninguém o chamado complexo lunar em toda a sua amplitude. Referimo-nos a Marcel Proust (1871-1922). A mãe chamava-se Jeanne Weil, de uma família judaica, a quem o menino se ligou desde os primeiros meses de vida com uma ternura doentia, extravagante, quase morbosa, alimentada por Jeanne. Tomado por esse amor maternal exagerado, o pequeno Marcel, desde cedo, mimado como poucos, foi se entregando a uma ansiedade incontrolável, com relação à mãe, causadora de muitos de seus distúrbios psicossomáticos. 

Num dia em que, retornando de um passeio, teve a sua primeira crise de falta de ar, a vida do menino Marcel mudou drasticamente. Esta situação se agravou dias depois quando, antes dos seus dez anos, numa noite, sozinho no seu quarto, posto para dormir, ele voltou a ter outra crise, muito pior do que a primeira. Em baixo, os pais recebiam convidados no salão de festas da casa (uma reunião só para adultos) e a mãe não subira (esquecera-se?) para acariciá-lo, como sempre fazia nessas ocasiões. Nos dias seguintes, o diagnóstico médico veio: asma, uma doença inflamatória crônica das vias respiratórias aéreas.  No caso de Proust, uma afecção também geradora de muita angústia, sempre um apelo à proteção e à ternura, como concluiu  André Maurois. 


ROBERT  DE  MONTESQUIOU
( GIOVANNI  BOLDINI , 1842 - 1931 )
Charles Briand nos revela (Le Secret de Marcel Proust) que, ao aceitar e cultivar a doença, Proust parece tê-la achado muito melhor, bem mais aprazível “vivê-la” do que enfrentar a vida real, com as suas inúmeras, constantes e aborrecidas dificuldades. Escapismo, evasão e sonho, de um lado, levaram-no à literatura, para uma realização literária genial e única. De outro, antes mesmo de chegar à puberdade, um crescente envolvimento com o que chamou de “pântano dos prazeres”, cultivado por sua exigente sensualidade, seu confuso erotismo e uma filosofia de vida hedonista de jovem burguês rico, com fumaças aristocráticas, inspiradas pelo conde Robert de Montesquiou, modelo do seu personagem Charlus.



Em 1906, Proust foi morar num apartamento do boulevard Haussmann, mandando revestir de cortiça o seu quarto para se proteger dos ruídos das ruas. Nesse endereço, isolado do mundo,  escreveu À La Recheche Du Temps Perdu, talvez o melhor romance da literatura moderna. 


A Proust, um canceriano de nascimento, aplicam-se exemplarmente alguns dos traços que descrevem o que chamamos aqui de comportamento lunar maternal: interiormente, a pessoa, embora adulta, parece se conservar sempre uma delicada e sensível criança em cuja vida terão lugar mais importante, sempre com lacrimejante emoção, as memórias, as reminiscências, os lugares da infância, a nostalgia, objetos do passado, cenários em que a figura materna se destacará sempre.  Um universo interior que, na maioria dos casos, passa a substituir o mundo exterior.


A Psicologia junguiana, ao falar do complexo materno descreve como suas principais características uma grande necessidade de seduzir, a homossexualidade e a impotência, o que leva aquele que por ele é tomado a desenvolver também uma personalidade puer. Puer, pueris, em latim, é criança. Na Psicologia a palavra foi usada para descrever o comportamento da criança, do pré-adolescente ou mesmo do adolescente que se recusa a “crescer, que não amadurece, desligado da realidade, dela descomprometido, sempre procurando proteção materna e preso geralmente às lembranças do passado, juntando objetos, muito mais fixado no seu valor emocional do que no seu valor econômico. 


PEDROLINO
( GIOVANNI  PELLESINI )
Atraente, fascinante e ao mesmo tempo temível, o mundo lunar dá origem a muitos personagens na arte, na literatura, na música e no cinema. Um deles, por exemplo, é o Pierrô. Sonhador, poeta, que vive no “mundo da Lua”; ele usa uma espécie de caftã branco aperolado. Oriundo da Commedia dell ́Arte, como o Arlequin, tem nela o nome italiano de Pedrolino. Apareceu em Paris no século XVI, de onde saltou para os teatros de feira, para a Ópera Cômica francesa e para o resto do mundo, inclusive para o carnaval brasileiro. 

JEAN-LOUIS  BARRAULT , 1910 - 1994
Mestre da pantomima, Pierrô não consegue falar, apenas sente. Ingênuo e sentimental, com sua roupa enfeitada de pompons e gola grande franzida; ama Colombina, também personagem da Commedia dell ́Arte, que não o ama, uma espécie de Afrodite Pandemia, sedutora, volúvel, esperta. O Pierrô foi imortalizado por um dos maiores atores do teatro e do cinema de todos os tempos, Jean-Louis Barrault. Como Baptiste (no papel de um mímico), o filme, Les Enfants Du Paradis, de 1945, aqui exibido com o título de Boulevard do Crime, tem a direção de Marcel Carné (1945) e roteiro de Jacques Prévert, obra considerada como uma dos melhores da história cinematográfica. Dela participaram, além de Barrault, Arletty, Pierre Brasseur e Maria Casarès, três figuras inesquecíveis do cinema francês.

Jean-Luc Godard, em 1965, realizou seu décimo filme, sobre um jovem professor que se cansara da monotonia e do absurdo de sua vida profissional e familiar. O filme teve por base uma história do escritor norte-americano Lionel White e ficou conhecido por dois títulos de Demônio das Onze Horas e Pierrot Le Fou, um road-movie, cheio de peripécias, crimes e banhos de sangue.

PIERROT , LE  FOU
 Os principais personagens do filme, vividos por Jean-Paul Belmondo e Anna Karina. Ele um professor casado, com filhos, e ela uma babá, sua antiga amante, parecem tentar provar que o amor é a única salvação num mundo totalmente alienado (estamos na década de 1960!). Todavia, o que o filme nos mostra realmente, no qual os personagens se movimentam bastante, é um mundo anárquico, fragmentado, ilógico, assumindo o seu personagem principal o papel de um anti-herói. Sua companheira, a babá Marianne, num momento do filme, diante do seu comportamento, o chama de Pierrot, o Louco.   

GILLES  ( ANTOINE  WATEAU )
Nas artes plásticas, Antoine Watteau (1684-1721) utilizou o personagem na tela chamada Pierrot ou Gilles, nome que no séc. XVII designava um bufão de feira, ingênuo, simplório e tristonho. A obra pictórica de Watteau se inscreve na estética do rococó, uma derivação e, ao mesmo tempo, uma reação à suntuosidade e ao exibicionismo do barroco. Rococó é palavra de origem francesa, proveniente de rocaille, literalmente, rocha artificial. Rocaille, como termo arquitetônico, indicava ornamentação de grutas e jardins com o motivo das conchas de vieira (símbolo de Afrodite) e outros deste derivados. 

As grutas são simbolicamente verdadeiros reservatórios de energia e de lembranças, de complexos, de sentimentos e emoções que muitas vezes se agitam inexplicável e confusamente na interioridade do ser humano, perturbando a sua vida consciente. Antigos lugares de culto da humanidade, ornados de pinturas e gravuras, como nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos, consideradas como um lugar materno, por excelência, as grutas sempre apareceram associadas aos órgãos genitais femininos e, como tal, à fertilidade. Vários povos, como sabemos, relacionaram num mesmo contexto simbólico a caverna, a mulher, a chuva e a Lua.


ROCOCÓ
O rococó, além da França, ganhou muito destaque no sul da Alemanha e na Áustria. O rococó, voltado principalmente para os interiores, procurou o que os latinos chamaram de bellum, às vezes pejorativamente, expresso através do agradável, do delicado, do sutilmente sensual, do requinte que beirava o afetado, da graça, da brincadeira, mesmo na arquitetura. Para designar o barroco e suas manifestações artísticas, usavam-se qualificativos como belo,  íntegro, grandioso, palaciano, imponente, que os latinos procuraram sintetizar através do conceito de pulchrum, feito sobretudo para espantar, atrair e submeter. 

CHINOISERIES
Watteau participou de um grupo de pintores que se destacou na decoração de interiores, tornando-se muito requisitado para pintar arabescos e desenhos nas residências de nobres e aristocratas. Muito sucesso alcançou Watteau ao introduzir na pintura que fazia nessas residências, além de temas mitológicos e bucólicos, o que então foi chamado chinoiseries e singeries, pequenos motivos chineses e simiescos, que se tornaram muito afamados em toda a Europa. 

PIERRE-AUGUSTE RENOIR
( 1841 - 1919 )
 No fim da vida, no seu último ano de existência, certamente cansado e desiludido, passou de excepcional pintor a gênio, indo muito além de tudo o que fizera; deixou-nos, como legado maior de sua arte, a obra-prima que é Pierrot ou Gilles, algo muito diferente das suas fêtes galantes e das suas badinages. Sem nenhum bem, morreu pobremente, assistido por um único amigo em julho de 1721. Dentre muitos dos grandes das artes plásticas, como Renoir, Cézanne, Monet e outros, que, indo à commedia dell’arte, se valeram do lunar Pierrot, o mais impressionante é, sem dúvida, o de Watteau.   

PIERROT  LUNAIRE
Já na música, quem se valeu do lunar personagem foi Arnold Schoenberg para o seu melodrama lírico (quatro instrumentos e voz), com base num poema de A.Giraud, chamado Pierrot lunaire (1912). Revolucionária, esta obra utiliza o chamado Sprechgesang, o canto falado, que permite à voz a liberdade de fazer inflexões entre as notas. Esta obra exerceu grande influência sobre a música erudita do séc. XX.




PIERROT  LUNAIRE
Para compor a sua obra, Schoenberg se valeu de um ciclo de cincoenta poemas publicado em 1884 pelo poeta belga Albert Giraud, que geralmente aparece associado tanto ao movimento Simbolista como ao Decadentismo. O protagonista do ciclo é o lunar Pierrot, o servo cômico da Commedia dell'Arte francesa e, mais tarde, da pantomima da avenida parisiense.


LICANTROPIA
Para designar o modo pelo qual a claridade da Lua afetava certas pessoas os gregos criaram o verbo selenediazein, do nome Selene, pelo qual o astro noturno era conhecido. Sempre associada a um mundo perigoso, incompreensível, maléfico muitas vezes, doentio (licantropia; veja Mal da Lua, conto de Kaos), a Lua tornava lunáticos os seres por ela “feridos”, seres que se tornavam hipersensíveis, incoerentes, inadaptados para uma vida normal. Do verbo acima, para designar tais pessoas, saiu o substantivo seleniadzomenus, que no cristianismo (São Mateus) incorporou também o sentido de epilético.  


No mundo da arte, como estamos a expor, encontramos um grande número de “feridos” mais ou menos profundamente pela Lua, artistas que embora por ela “atacados” e/ou justamente por causa dela, nos deixaram uma produção de excepcional valor, um Schubert e um Debussy na Música, um Amedeo Modigliani na Pintura, Rousseau e Montaigne na Filosofia, Proust na Literatura etc. Dentre todos estes, aquele que talvez tenha sido um seleniadzomenus dos mais “feridos” pela Lua tenha sido o poeta francês Jules Laforgue, tanto pela participação da Lua em sua obra como pelo tipo de vida que levou.


JULES   LAFORGUE   E   LEAH   LEE

Jules Laforgue (1860-1887) nasceu no Uruguai (Montevideo) onde o pai trabalhava como professor. Em 1876, a família, de origem bretã (o pai, a mãe e nove filhos) voltou à França, ficando Jules e um de seus irmãos, por razões de dificuldades financeiras, na casa de um tio, em Tarbes. Tentando completar seus estudos regulares, Jules, que nunca foi um bom aluno, não o conseguiu.  Morrendo a mãe em 1877, Jules, já em Paris, tendo abandonado a escola, entregou-se à leitura de autores franceses (poetas principalmente) e a perambular por museus, onde adquiriu certa cultura artística.  Protegido por Paul Bourget, editor, e por Charles Ephrussi, rico colecionador de obras de arte, publicou o seu primeiro poema em 1879. 


Entre 1881 e 1886, Laforgue morou em Berlin, trabalhando como leitor e conselheiro cultural da Imperatriz Augusta. Em 1885, publicou L’Imitation de Notre-Dame La Lune, por muitos considerada a sua melhor obra. Retornando à França em 1886, casou-se com a inglesa Leah Lee, morrendo no ano seguinte, vitimado pela tuberculose. 


LITANIAS  DA  LUA 
Foi influenciado por Walt Whitman na poesia e, de modo especial, no plano das ideias (filosofia), por Schopenhauer e por Von Hartman. Cultivou, em especial, nos seus poemas, por influência maior do primeiro, do qual foi grande leitor, dois veios carregados de melancolia e de spleen. Um dos primeiros poetas na França a aderir ao verso livre, à linguagem coloquial, influenciou bastante Ezra Pound, Marcel Duchamp e o jovem T.S. Eliot. Entre nós, além de outros, foram tocados por ele de algum modo Pedro Kilkerry, Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Seus versos foram aqui traduzidos, com destaque para Litanias da Lua (tradução e organização de Regis Bonvicino, Edit. Iluminuras) e Os Últimos Poemas do Pierrô Lunar (tradução de Luiz Carlos de B. Rezende, Edit. 7 Letras).  



quinta-feira, 19 de setembro de 2019

DRAGÕES E SERPENTES NO MITO, NA ASTROLOGIA E NA ASTRONOMIA

PLANETAS
Em 1930, a União Astronômica Internacional  estabeleceu que no céu havia 88 constelações, distribuídas como  boreais (norte celeste), austrais (sul celeste) e zodiacais, que envolvem a Terra, por onde circulam, do ponto de vista terrestre, o Sol, a Lua e oito planetas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão, estes três últimos invisíveis a olho nu. Os nomes destas constelações foram fixados na língua latina embora a maioria deles provenha da língua grega, da mitologia grega principalmente. Na antiguidade eram conhecidas, entre os três grupos acima mencionados, apenas 48 constelações, número definido por Ptolomeu no Almagesto. Hoje, esse número se expandiu para mais de cem.

LOS LIBROS DEL SABER
Historicamente, é de se recordar que só em 1252, na Europa, em Toledo, na Espanha, os estudiosos do céu voltariam a fazer uma nova e mais consequente avaliação do que gregos, latinos e outros povos haviam deixado. Esse trabalho tomou o nome de Los Libros Del Saber de Astronomia, as celebres Tábuas Afonsinas, compiladas pelos astrônomos árabes, sob o patronato do futuro rei Alfonso X, o Sábio, 1221 - 1284, dedicado astrônomo. De Alfonso, falavam os seus súditos,
CANTIGAS  DE  SANTA  MARIA
carinhosamente diga-se, que ele abandonava muitas vezes a coroa pelo astrolábio, esquecendo seus deveres terrestres pela sua paixão pelas coisas celestes. Vale informar também que Alfonso ficou também muito conhecido por sua atividade literária, sendo considerado, se não como o autor das 427 famosas Cantigas de Santa Maria, o poeta que compôs muitas delas. 

AL SUWAR
Aos agrupamentos de astros que formavam as constelações os gregos deram genericamente o nome de Morphoseis (semelhantes, parecidas) ou Schemata (figuras). Os latinos chamaram tais agrupamentos estelares de constellatio, constelações, dando-se o nome de Zodia àquelas que lembravam a forma animal. Em 1515, numa edição do Almagesto, apareceu o nome Stellatio para designá-las enquanto no mundo árabe já circulava, há muito, para o mesmo fim, o nome Al Suwar.

Foram os antigos gregos que, no ocidente, começaram a utilizar os nomes de figuras de animais para designar, principalmente, os agrupamentos estelares. Vindos do mito, dragões e serpentes ocuparam um lugar especial quanto a essa designação. Nomeando figuras formadas a partir de agrupamentos de estrelas, “sensibilizando” pontos do círculo zodiacal, atuando em certas áreas (quadrantes) ou isoladamente através de uma estrela fixa, dragões e serpentes marcaram fortemente desde então sua presença na Astrologia. Presentes em todas as tradições, esses estranhos seres, considerados como produzidos pela imaginação dos homens, costumam significar nos mapas astrais em que aparecem muito mal-estar, sofrimento e angústia.


QUATZACÓATL
A figura do dragão parte, no geral, de um modelo clássico, o da serpente, transformada ao receber pernas e componentes típicos dos répteis, como os dos crocodilos; ou receber também das aves asas, como no caso da serpente emplumada dos toltecas ou olmecas, o quatzacóatl (serpente, em língua nahuati); ao incorporar ainda dos animais marinhos barbatanas, escamas, caudas bífidas etc. A imagem desses monstros se completa muitas vezes pelo acréscimo de víboras, pequenas serpentes venenosas ao seu corpo escamoso, à guisa de pelos. 

HÉRCULES  E  CÉRBERO
Os dragões, quanto à forma, podem ser policéfalos, polioftalmos, polimorfos, polípodes etc. Vomitam fogo, sua baba é venenosa, seus sangue mata, mas, em alguns casos, é possível fabricar do corpo do dragão ou de suas secreções remédios e antídotos (contravenenos) maravilhosos É, por exemplo, o caso de Cérbero, o cão infernal tricéfalo da mitologia grega, de cuja baba, quando esta atinge o solo, nasce o acônito. Versão mais completa sobre a origem desta planta nos informa que tal aconteceu quando Cérbero, vencido e trazido à luz por Hércules (10º trabalho), foi atingido por raios solares.  Contorcendo-se, o monstro vomitou uma baba escura e no lugar em que ela tocou a terra, brotou imediatamente um pé de acônito. Esta planta, como se descobriu posteriormente, já vicejava no Hades, no Tártaro, região infernal mais profunda, nos jardins lá mantidos pela deusa Hécate. Cérbero, como bem sabem os bons astrólogos, pode “aparecer” numa carta astral no lugar onde está posicionado Plutão.


ACÔNITO
O acônito, planta muito tóxica era utilizado na Grécia antiga em alguns rituais de magia negra. Na Europa, desde a antiguidade, o acônito era usado para afastar vampiros e curar a licantropia. Segundo a tradição, quem absorvia acônito podia morrer. Porém, aquele que estivesse envenenado e o absorvesse podia curar-se. Quando usado em doses homeopáticas o acônito costuma trazer muitos benefícios. É neste caso indicado para tratamento da ansiedade, de crises de pânico, tanatofobia, acrofobia, claustrofobia, necrofobia e descontroles físico-mentais em geral.

Em todas as tradições, qualquer que seja a sua forma, dragões serão sempre, num primeiro momento, um símbolo do Mal. Para efeitos práticos, serão dracônticos todos os seres que atuem nessa direção.  É neste sentido que os mitos relacionados com dragões, serpentes, gigantes e demônios nos revelam que quando esse seres atuam estamos sempre em perigo, sempre diante de situações ameaçadoras, que podem nos levar à morte.  

MONSTROS
Monstros, como sabemos, são seres disformes, fantásticos, tidos como produzidos pela imaginação, pela fantasia (phantasia, em grego, é imaginação) do homem. Monstro etimologicamente, quer dizer prodígio da natureza. Prodígio é palavra aplicada a seres que são aberrações, desvios, distorções, com relação ao que é natural, normal. Os monstros nos causam espanto, são descomunais. Estão presentes nos mitos, nas religiões, nas lendas e em muitas histórias da literatura universal.

MONSTROS
De um modo geral, eles têm relação com as cosmogonias, com a vida primordial e sua origem, sendo seu ambiente natural o das forças primitivas em ação no universo, forças que, embora consideradas como potencialidades formais, resistem tenazmente  a qualquer ordenação que se lhes queira dar. Nesse sentido, os monstros  aparecem sempre ligados ao caótico, ao desordenado, ao indiferenciado, ao que não tem limite ou lei. É por essa razão que os mitos e depois a psicologia fizeram deles símbolos da predominância, no ser humano, de forças instintivas ou irracionais, forças que devem ser sacrificadas em nome de uma vida superior, organizada, orientada racionalmente. Os monstros são assim avessos à ideia de cosmos, de ordem, de harmonia.

SÃO MIGUEL ARCANJO
Enquanto as serpentes, no seu modelo clássico, participam da terra e da água, os dragões se relacionam com os quatro elementos, fogo, terra, ar e água, com ênfase maior quanto ao primeiro. No cristianismo, por exemplo, a luta de São Jorge ou de São Miguel contra dragões é mais uma vitória do fogo espiritual sobre o fogo a serviço da matéria. 



Em muitas culturas, o estudo das forças do Mal, nas suas várias expressões, inclusive sob o ponto de vista histórico, é designado pelo nome de Demonologia. É nestes textos que são estudadas inclusive todas as metamorfoses pelas quais as entidades do Mal passaram e passarão continuamente para intervir não só no destino pessoal de cada ser humano como no das sociedades humanas em geral. À Demonologia aqui referida  podemos associá-la a um outro  conhecimento muito importante, a Criptozoologia, o estudo de espécies de animais lendários, hipotéticos ou simplesmente avistados, extintos ou desconhecidos, e sua relação com mitos de várias culturas.

AS  TRÊS  GÓRGONAS
( GUSTAVE KLIMT, 1862 - 1918 )
Uma característica notável que muitos dragões apresentam no mito é a da ambiguidade, podendo, neste caso, quando controlados ou vencidos, produzir o Bem. Um dos exemplos mais significativos do que aqui se fala é o da Medusa, conhecida como uma Górgona, juntamente com as suas duas outras irmãs, Ésteno e Euríale. Das três, a mais perigosa realmente era a Medusa, monstro feminino, com a cabeça enrolada por serpentes, de olhar terrível, que petrificava as pessoas com as quais trocasse olhares. O herói Perseu, quando cortou a cabeça desse monstro, avisado por deuses que o haviam aconselhado, recolheu o sangue que jorrava pelo lado direito do seu pescoço, que tinha a propriedade de curar doenças e mesmo em alguns casos de ressuscitar os mortos. O sangue do lado esquerdo, porém, era veneno mortal. 



NIX  ( PEDRO  AMÉRICO , 1843 - 1905 )
MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES, RJ 
Essa característica, aliás, a da ambiguidade, não estava presente no mito só com relação a alguns monstros. Muitas divindades que não podem ser classificadas como monstruosas, dracônticas, a possuíam, como, por exemplo, constatamos na história de Nix, a Noite, divindade primordial nascida do Caos. Nix, a Noite, entre os antigos gregos, sempre teve algum controle sobre doenças, sofrimentos, pesadelos, angústias, sonhos, infelicidades, disputas, guerras, assassinatos e morte. Tudo o que era inexplicável e temível para o ser humano podia, em muitos casos, vir dela de algum modo. Na Grécia antiga, as confrarias órficas foram na direção contrária deste entendimento, honrando-a de várias maneiras, santificando-a, porque, para elas, Nix trazia a bênção dos deuses. Símbolo de todas as germinações, de todas as gestações, Nix alimentava os luminares do céu e tudo o que a Terra produzia. O seu simbolismo tinha correspondências com a obscuridade, com o negro, com a ignorância, com o inconsciente e, por essa razão, com todas as possibilidades da existência, inclusive as de renascimento. Quando honrada devidamente, Nix tomava o nome de Eufrone, a mãe do bom conselho.

POSEIDON
Um dos maiores geradores de monstros na mitologia grega é Poseidon, deus do elemento líquido, dos mares e oceanos, Netuno entre os povos latinos, inclusive na Astrologia. Na forma de cavalo, Poseidon tomou o nome de Hippios, nome que pode ser associado à velocidade das ondas e à sua crista, como a de cavalos, quando do seu tropel marinho. Nos mitos, branco e alado, é um símbolo de espiritualidade, de autodomínio, da pessoa que sabe se dominar, se controlar. Negro, ele aparece ligado à Lua e à água, encarnando as forças descontroladas do psiquismo humano. 


BESTIÁRIO
Associado à luxúria nos Bestiários da Idade Média, o cavalo há muito já era considerado também um símbolo universal da energia psíquica colocada a serviço das paixões humanas. Todas as características e ligações de Poseidon com monstros simbolizam forças irracionais, algo tenebroso, abissal. Na Astrologia, é o planeta Netuno, princípio da receptividade passiva, manifestando-se por faculdades supranormais. Nos tipos superiores, é inspiração, intuição, amor universal, sacrifício desinteressado, espiritualidade. Nos tipos inferiores, é anulação da vontade, desorganização, caos. 

PERSEU E ANDRÔMEDA
( CHARLES - ANDRÉ  VAN  LOO, C.1740 )

Dentre outras possibilidades significativas, Poseidon (Netuno) é visto como o criador de paraísos artificiais e de ilhas, como a Atlântida. Pai de gigantes, ciclopes, salteadores e caçadores malditos, a prole de Poseidon é sempre sinônimo de desproporção, de descontrole, de malefícios. Um dos melhores exemplos que podemos mencionar com relação a Poseidon é o do monstro marinho que ele enviou para destruir o reino de Cefeu por causa da hybris (orgulho, soberba) de sua mulher, a rainha Cassiopeia,  que se considerava mais bela que todas as nereidas e que a própria deusa Hera, esposa de Zeus. 

Lembremos que não só através de divindades tidas como naturalmente benéficas, como Afrodite e Zeus, Vênus e Júpiter respectivamente na Astrologia, pode se “esconder” muito mal. Uma mulher, ainda exemplificando, pode viver astrologicamente a Vênus de seu mapa através de arquétipos representados pelas Sereias, pelas Ondinas ou pelas Melusinas (genericamente de todas as ninfas ligadas aos mares e aos oceanos, se quisermos), sempre belíssimas,  temíveis sedutoras que costumam levar muitos homens do mar à perdição e mesmo à morte. A  etimologia grega de seirazein, de onde sai a palavra sereia, quer dizer “prender com uma corda”.


JOGO  DAS  SEREIAS  ( ARNOLD  BÖCKLIN , 1886 - 1901 )

Afrodite tem vários nomes, apelidos, gerados pelos diversos papéis que pode representar, Calipígea, Trívia, Urânia, Pandêmia, Androfona, Citereia, Cípris etc. Toda pessoa que se envolve num processo afetivo de trocas, a deusa a transforma num ser especial, quase “divino”. Quando Afrodite se apossa da personalidade de uma mulher, ela costuma se abrir para o mundo, para os outros,
PALAS  ATHENA
( GUSTAV  KLIMT , 1862 - 1918 )
socializando-se, podendo inclusive aumentar bastante o seu magnetismo pessoal, chamado pelos gregos de enkrateia. Quando por razões sociais, culturais e religiosas a mulher é rebaixada, Afrodite se “ausenta”. O arquétipo pode pôr uma mulher, dependendo do meio, em divergência com os padrões de moralidade vigentes. Por isso, as mulheres-Afrodite podem ser marginalizadas, satanizadas, consideradas como perigosas, quando não como raptoras do masculino, como no caso das Sereias. Em Atenas, lembre-se, onde Palas Athena, deusa virgem, guerreira, inspiradora dos trabalhos úteis e guia de heróis  pontificava, Afrodite era conhecida como a “oriental”, a “prostituta”.



ASCLÉPIO
As serpentes, desde tempos muito remotos, sempre apareceram associadas à vida e a  transformações porque elas têm a propriedade de mudar de pele, o que levou os antigos a considerá-las como capazes de recuperar a juventude. Por essa razão a serpente foi usada como um dos símbolos do deus Asclépio, que pontificava no santuário de Epidauro. Filho de Apolo, deus solar, educado pelo centauro Kiron, Asclépio “vivia” no Tholos, um edifício de seu complexo médico em Epidauro, em companhia de uma serpente sempre enrolada num bastão, que não só possuía o poder da adivinhação, por ter acesso ao mundo  ctônico, como por simbolizar também, como se disse, a vida que se regenerava continuamente. Não podemos esquecer que Asclépio era também conhecido pelo apelido de deus-toupeira, por fazer com que seus sacerdotes-médicos “penetrassem” na escuridão do psiquismo dos doentes, usando a  oniromancia (interpretação dos sonhos), juntamente com a chamada nooterapia (cura pela mente) técnica que levava à metanoia, à transformação dos sentimentos. A toupeira, como se sabe, é um animal ctônico, adaptado para ver na escuridão. Vive no interior da terra, movimentando-se em pequenos túneis e galerias,verdadeiros labirintos. 

ILUMINURA  MEDIEVAL
Na tradição alquímica, por exemplo, o dragão é Saturno, o adversário da luz, do espírito, do ouro, enquanto representa o chumbo. Como princípio da contração, da condensação, da inércia, força que tende sempre a cristalizar, impedindo irradiações, Saturno prende sempre à forma, impedindo mudanças. O chumbo, seu metal, governa a base mais modesta, mais inferior, de onde se pode partir em busca de alguma evolução, sempre muito difícil. Saturno se liga à falta de luz, é denso, pesado, governa a lei da gravidade e tudo o que limita e cerceia.


MONSTRO MARINHO
Dragões golpeiam, serpentes enlaçam e engolem. São diferentes dos animais de chifre que penetram e perfuram. Enquanto os dragões se ligam mais às quatro direções do espaço e aos quatro elementos, a serpente, por sua forma, liga-se mais ao movimento circular, participando de uma reabsorção cíclica, de
URÓBORO
uma ideia de eterno retorno. É neste sentido que em alguma tradições a serpente recebe o nome de
uróboro (do grego, cauda e engolir). É neste sentido que a serpente rompe o movimento linear, lembrando um criação contínua, um perpétuo retorno. Daí ideias de continuidade e de auto-fecundação, cujo melhor exemplo encontramos no círculo zodiacal. Além do mais é preciso observar, ainda simbolicamente, que serpentes atuam mais no mundo subterrâneo, na vida subconsciente; dragões agem mais na superfície, atacando o ego que se pretende consciente.


Etimologicamente, a palavra dragão (drakon, o macho, e drakaina, a fêmea, em grego, vem do verbo derkomai, que significa “olhar fixamente”, no sentido de um olhar devolvido, muito penetrante. Os judeus lhe deram o nome de tannin, grande serpente, palavra cuja origem está ligada ao chacal (tan), animal necrófago. 

ZEUS   E   TIFON     
O dragão, nos mitos, costuma ter a sua origem estabelecida em períodos em que a ordem cósmica ainda não se fixara, períodos nos quais ele assumia o comando das forças regressivas que se opunham às que procuravam atuar evolutivamente. Nesta perspetiva, o dragão é um agente do caos. Na antiga Grécia, as forças que se 
TIAMAT
opunham à ordem cósmica tinham um representante máximo, o monstro Tifon, filho de Geia e do Tártaro. Os caldeus viram estas forças simbolizadas por Tiamat, personificação feminina do mar. É contra estas primitivas forças cegas do caos que os deuses inteligentes e organizadores devem sempre entrar em luta.

Os dragões encarnam o mal que deuses, heróis ou mesmo os seres humanos têm que vencer quando tentam buscar um caminho evolutivo. Se o dragão aparece associado ao seco, à esterilidade, o tesouro por ele guardado será então a fertilidade, representada pelo úmido, por um princípio feminino, uma princesa, por exemplo. Se, por outro lado, pensamos no escuro da vida subconsciente e nos monstros que ali habitam, o herói que deverá enfrentá-los será um representante da razão (elemento ar). Uma ilustração do que aqui se diz está na derrota do dragão de natureza luciferiana. Quem o derrotou foi Miguel, arcanjo que revelou a Sara que ela seria mãe de Isaac e que anunciou a Abraão que  não sacrificasse o filho na akedá. Miguel (Mikael: mi, quem, ka, como, El, por Elohim), em hebraico, aquele que é como Deus. Miguel está sentado à direita do trono divino, aparecendo associado aos arcanjos Gabriel, Rafael e Uriel, mas sendo a eles superior. Seu grande inimigo é Samael, líder dos demônios, chefe das forças do Setra Achra, o reino do Mal.


HESPÉRIDES  ( EDWARD  CALVERT , 1799 - 1883 )

Entre os gregos, a constelação do dragão, Draco, uma das mais antigas do céu, aparece unida a dois mitos. Na primeira temos a história do dragão de cem olhos que juntamente com as Hespérides guardava os pomos de ouro no maravilhoso jardim que ficava no extremo-ocidente. Outra versão nos conta que Apolo, para tomar posse do oráculo de Delfos, matou a drakaina  Python, também chamada de Delfine, que Geia gerara e designara para vigiá-lo.  Os egípcios identificavam Draco pelo nome de Ammit, monstro formado por partes de crocodilo, hipopótamo e pantera, que atuava na sua psicostasia (pesagem das almas).


DRAGÃO
( G. DORÉ , 1832 - 1883 )
Os dragões, segundo a sua morfologia, indicam também as áreas da vida humana em que atuam. Assim, dragões com bico e pés de águia apontam para desejos de elevação, para um potencial celeste. Com o corpo se serpente, apontam para o mundo subterrâneo, para  a vida subconsciente. Com asas de morcego, sugerem elevação pelo intelecto; com corpo e/ou cauda de leão, se vencidos, indicam a vitória da vida racional sobre o instinto. 

A constelação de Draco, entre os gregos, tinha em tempos pré-históricos uma configuração bem maior do que a que tem hoje. Ela incorporava as duas Ursas, a Maior e a Menor. Estende-se atualmente entre as latitudes 63º e 81º N. A principal estrela de Draco é Thuban (nome adotado pelos árabes para tradução do nome grego Draco), que no ano de 2.700 aC ocupava a posição de estrela polar, o que fazia do dragão o guardião do centro em torno do qual todo o universo girava. Como circumpolar, a constelação do Draco nunca se põe, o que significa dizer que ela nunca “dorme” (se põe), como os dragões.

DRACO
Thuban (estrela alfa Draconis na astrologia ocidental) sensibiliza hoje o signo de Virgem a quase 7º. Sua influência, segundo Ptolomeu, é da natureza de Marte e de Saturno. No geral, os efeitos de Draco são considerados através dessa estrela. Sua proposta: o tema do tesouro e de sua respectiva proteção e vigilância. Pode isto significar numa carta astral a necessita de muito zelo e cuidado com relação a algo a que a pessoa esteja ligada, uma ideia, uma habilidade, uma forma de arte, uma atividade profissional, algo inventado por ela etc. A influência de Draco (Thuban) também diz respeito ao ato de dar ou de compartilhar “tesouros”, inclusive quanto às dificuldades que desse ato possam decorrer. Nesta última hipótese, podemos ter também, por Saturno, indícios de personalidade fechada, soturna, sombria, quando não esquizoide.  


Sob pressão do cristianismo, a Idade Média fez da serpente um símbolo do Mal, do psiquismo impuro, um animal duplamente amaldiçoado. Primeiro, pelo Criador como um ser da astúcia, da tentação, do pecado, em suma. Segundo, foi também amaldiçoada pela Virgem Maria por ter assustado o burrico que usava para transportar o menino Jesus, quando da fuga para o Egito. É por essa razão que muitos astrólogos cristãos medievais representaram o sexto signo zodiacal por uma Virgem com um pé sobre a cabeça de uma serpente ou pisando um crescente lunar. 


O  PECADO  ORIGINAL
( HUGO VAN DER GOES , ( 1440 - 1482 )
A satanização da serpente vem de longe, passando do judaísmo para o cristianismo. No primeiro, Satã, nome que significa acusador no antigo hebraico, era o maior dos antigos anjos. Recusou-se a prestar homenagem a Adão, uma criatura feita a partir do pó, enquanto ele, ainda que em bem menor proporção, como Deus, fora feito de luz. Lúcifer, etimologicamente, o que transporta a luz, ficou com ciúmes do status de Adão e desejou Eva. Na forma de uma serpente, tentou e manteve relação sexual com Eva, tornando-se o pai de Caim. Ao exilar-se do céu, tomou o nome de Satã, e levou consigo uma hoste de anjos, por ele liderados, formando o reino do Mal, Sitra Achra, que governa com Lilith, sua esposa. Quando se relacionou sexualmente com Eva, injetou sua peçonha nela e em todos os seus descendentes. Essa peçonha, segundo o Talmud, foi removida do povo de Israel quando Moisés lhe entregou os ensinamentos da Torá.

Em muitas constelações, encontramos referências a dragões e serpentes, como Ophiucus, Serpens, Cetus, além de monstros semelhantes. Nos doze trabalhos de Hércules, uma ilustração mítica do zodíaco, temos vários monstros de natureza dracôntica como as Éguas antropófagas de Diomeses, o Leão de Nemeia, a Hydra de Lerna, Cérbero , o Gigante Gerião e outros.