quinta-feira, 10 de agosto de 2017

VIRGEM (4)

                                       
VIRGEM
Procurando visualizar tudo o que está nos últimos parágrafos sob o ponto de vista astrológico, acredito que onde temos Plutão no mapa temos o Hades, o Inferno, os personagens que nele vivem e tudo o mais que nele se encerra.    Explicando-me melhor: se esse Plutão estiver saliente, elevado, posicionado por signo e casa de modo problemático, difícil, podemos ter o caso, dentre outras possibilidades, de, naquele ponto, nos depararmos com uma situação semelhante à vivida por Koré, isto é,
RAPTO   DE   KORÉ , 1587 ( HANS  VON  AACHEN )
a de nos tornarmos vítimas de alguma forma de abuso, seja de violência doméstica, de maus tratos infantis, de abuso físico, sexual ou outro qualquer, sempre de modo traumático. Espancamentos e estupros costumam se verificar quando temos configurações astrológicas das quais Plutão faz parte, evidentemente mal posicionado por casa e com aspectos negativos. Tais acontecimentos podem ir além da simples luxúria, fazendo-nos pensar, por exemplo, em envolvimentos sado-masoquistas que poderiam ser satisfeitos de outro modo bem menos violento. Além do mais, é preciso ressaltar que uma das características deste Plutão-Perséfone é que ele tende a inibir qualquer possibilidade de reação, podendo ocasionar, repetida a violência, que a vítima comece a sentir que ela foi a causa da sua própria perdição. Situações de culpa, diminuição da auto-estima, impotência, falta de reação são comuns, diante do poder da autoridade maior.

  PERSÉFONE   E   PLUTÃO
( JAN  PIETER  VAN  BAURSCHERT , THE ELDER , 1669 - 1728 )

Outra característica importante de Plutão-Perséfone é a de que ele, conforme sua situação celeste, posição terrestre e dignidade, poderá ser o lugar de nascimento do Puer Aeternus, de Brimo, o filho de
MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS
Hades e de Perséfone, como está nos Mistérios de Elêusis. Esta criança é a forma jovem que toma aquilo que os psicólogos chamam de si mesmo. É a chamada conjunctio, a coincidência dos opostos (equivalente à Lua nova). É algo assim  como a união de dois amantes, circunstância em que as personalidades consciente e inconsciente se aproximam uma da outra. Esta conjunctio é muito perigosa porque pode o inconsciente (anima) destruir o consciente (animus) ou este julgar-se livre daquele, sempre uma rematada mas perigosa presunção. Neste caso teremos a imagem do Sol destruindo a Lua; no inverso, a ameaça da psicose, da desestruturação da personalidade. Amor ou destruição? A conjunctio ocorre na Lua nova, no mundo inferior, portanto, na depressão mais profunda, no Hades, na noite escura em que a Lua não brilha; é nessa noite em que ela e o Sol podem se unir, anima-animus.

Este processo de nascimento da Criança Eterna ocorre em conexão com o tempo cíclico como o zodíaco nos demonstra. A realização do nosso processo de individuação só atinge a sua realidade quando renovado segundo o tempo sideral, isto é, nas 24 horas do dia e nos 12 meses do ano. O si mesmo só se torna real se o expressamos em ações. Nasce ele assim a cada hora e a cada momento do ciclo anual. Isto significa que nossos estágios de consciência são imprevisíveis e podem agir de modo diferente nas mesmas situações. Hoje, podemos agir de um modo, amanhã de outro, pois a cada momento a Criança Eterna tem que nascer em nós.

O  GRAAL

Uma das aproximações mais ricas que podemos fazer do signo de Virgem é a de relacioná-lo com o mito do Graal. A história desta taça sagrada foi objeto, durante a Idade Média, de numerosas interpretações de natureza mística. Esta taça ou copa, segundo uma tradição, teria sido usada por Cristo quando da sua última ceia com os apóstolos. Outra tradição nos diz que a copa teria sido usada por José de Arimateia, um judeu, discípulo de Jesus, que depois de ter nela recolhido o seu sangue no Calvário teria obtido de Pôncio Pilatos a devida autorização para  sepultá-lo.

A   TÁVOLA   REDONDA
Segundo as lendas bretãs, a copa (krater, em grego; crater, em latim) teria sido levada para a Inglaterra no ano de 64 dC e depositada numa capela dentro de um bosque ou num castelo no alto de uma montanha. Anjos teriam depositado no graal uma hóstia com poderes miraculosos, que alimentava o corpo e preparava para a vida espiritual. O tema serviu para uma série de lendas e romances do ciclo do rei Artur e seus cavaleiros da távola redonda.   

CHÉTRIEN  DE  TROYES
Qualquer que seja a tradição, o graal sempre foi considerado como um talismã celeste, um símbolo do paraíso perdido. A sua busca sempre foi identificada com o próprio processo de individuação superiormente conduzido, a conquista simultânea de um eu superior e de um avanço no caminho da espiritualização. Nestas histórias se conjugam influências celtas e as tradições lendárias do cristianismo medieval, segundo textos domo os de Chrétien de Troyes, Robert de Boron, Wolfran Von Eschenbach e outros, inclusive os aparecidos posteriormente (Julien Gracq e de T.S.Eliot).

O graal apresenta clara analogia com o princípio feminino na medida em que, pela sua forma, é símbolo do que recebe, do que acolhe. Além do mais, suas possibilidades simbólicas o ligam também de modo evidente, sob o ponto de vista astrológico, ao signo de Virgem, enquanto este nos fala de alimentação e da preparação para um caminho evolutivo do eu que nasceu no signo anterior (Leão, quinta casa). A busca do graal exige condições
GALAHAD
especiais raramente encontradas num cavaleiro. A rigor, só um deles, Galahad, se aproximou da copa maravilhosa. Perceval e Lancelot do Lago, dois destacados cavaleiros, tentarão, mas não poderão se aproximar do graal por viverem mundanamente. Galahad, filho deste último, o conquistará, pois é puro, livre de toda tentação terrestre. Para chegar ao graal, isto é, à plenitude interior, que ele simboliza, era preciso ser como Galahad. Evidentemente, o ideal de espiritualização da cavalaria, que Galahad encarnava mais do que qualquer outro, se perdeu. Nosso herói era mestre de sua montaria e nunca deixava de interiorizar os seus combates. 

Na sexta casa astrológica, Virgem, a decisão terá de ser tomada: evoluir, ir em direção do signo de Libra e seguintes ou fixação no ego leonino, ou seja, involuir. A estrela do signo de Virgem é, por isso, a de seis pontas. O vértice superior aponta para um caminho de natureza espiritualizante, ascensional. O vértice inferior, para um caminho regressivo, uma volta à vida instintiva.

Entre os judeus, Elul é o mês do signo de Virgem, ligado à conquista da sabedoria, início da vida espiritual, isto é, retorno ao divino e renovação. Ideias de purificação se apresentam aqui, ideias que devem levar antes de tudo à destruição das más sementes do passado. Segundo os judeus, Elul, etimologicamente, significa busca, pesquisa. O astro relacionado com o signo é Mercúrio, planeta associado ao intelecto, o melhor instrumento para o trabalho espiritual, que começa neste mês. Mercúrio também afeta Sivan (Gêmeos), o mês em que a Torá foi recebida.

O elemento de Elul é a terra, aqui simbolizando o reino das ações humanas, ou seja, a união do pensamento e da ação. É por essa
DEUTERONÔMIO
razão que no primeiro Shabat deste mês é lida publicamente uma parte do Deuteronômio, na qual se destacam as palavras dos Juízes e os meios adequados para o julgamento. O Deuteronômio é o quinto (Chumash) livro do Pentateuco, os cinco livros de Moisés (Bereshit, o Gênesis; Shemot, o Êxodo; Vaikrá, o Levítico; Bemidbar, Números; e Devarin, o Deuteronômio). Daian é o juiz que atua num tribunal religioso; segundo a tradição, Deus está sempre com ele, em suas deliberações. Um daian é sempre um parceiro de Deus e deve sentir-se temeroso diante da sua responsabilidade, como se uma espada estivesse encostada nas suas espáduas e o inferno escancarado a seus pés.

Quanto ao Shabat, lembremos que ele propõe um descanso obrigatório, indo do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite. É o dia em que Deus deu a sua bênção, ao descansar do trabalho da criação, que ele realizara em seis dias. Um judeu deve imitar Deus, descansando no Shabat, não realizando nenhum tipo de trabalho que signifique o controle do homem sobre a natureza. A proibição pode ser suspensa em casos excepcionais, quando houver, por exemplo, risco de vida. A palavra Shabat quer dizer repouso. No novo testamento e no cristianismo de Idade Média, o shabat sempre foi considerado desse modo, dia consagrado a Deus, um tempo sagrado com relação ao profano. 

Uma tradição muito mais antiga entre os judeus nos diz, porém, que o shabat estava associado a festas ligadas aos ciclos lunares e à neomancia. Era uma festa de tribos nômades realizada por ocasião da Lua cheia (shabater significa parar de crescer), uma assembleia, segundo algumas tradições cristãs, de feiticeiras, presidida de pelo próprio Diabo. Essas festas, em antigas tradições gregas, eram realizadas também em homenagem ao deus Dioniso, que nelas tomava o nome de Sabázio (sabakós, efeminado, em grego). 


                    SABÁZIO                

O culto de Sabázio chegou ao mundo grego através da Frígia, tendo um caráter orgiástico. Filho de Zeus serpentino e de Perséfone, Sabázio costumava tomar a forma de um réptil, tendo gerado, ao se unir a uma de suas sacerdotisas, filhos com acentuados traços de serpente. É neste sentido que chegaram a se realizar no mundo grego, associados aos mistérios de Elêusis, os de Sabázios, na medida em que, como divindade, ele representava as forças de dissolução da personalidade e a sua regressão a formas caóticas e primordiais, um mergulho na vida subconsciente.

COMEMORAÇÃO   DE   ELUL

Entre os judeus, segundo a ciência astrológica, uma pessoa sob a influência de Elul, Virgem, tem uma inclinação natural para a análise, dando sempre muita importância a detalhes, mesmo os insignificantes. Há uma tendência natural para o perfeccionismo, para uma acentuada postura introspectiva diante da vida e para a frieza emocional. Estas tendências, contudo, se trabalhadas segundo a Torá, podem ser superadas. Sem este auxílio, temos a compulsão para as coisas pequenas, a confusão entre o secundário, menos significativo, e o principal, mais importante, características que costumam ocasionar a falta de confiança, a dúvida, a paralisia diante das escolhas. Lembremos que o nome Elul foi herdado pelos judeus dos babilônicos, o sexto mês do ano (agosto-setembro), correspondente ao mês da colheita.

A letra Yod associa-se a Elul na medida em que significa pensamento, raciocínio, e que aponta para um futuro a ser criado. Segundo os astrólogos judeus, as faculdades da compreensão e da percepção são femininas. Por esta razão, o signo de Elul tem forma feminina, uma virgem, que simboliza a modéstia e a pureza, características essenciais para o retorno do divino. Os textos astrológicos atribuem a mão esquerda a Elul, indicando este lado, aqui, materialidade e ação. A letra Yod junta no seu significado conceitos de sabedoria e ação no mundo material. 

O poderoso potencial para ações retificadoras foi revelado ao povo judeu quando de sua perambulação pelo deserto. Durante Elul, Moisés subiu ao monte Sinai e abriu as portas da penitência para os
FESTA   DE   PESSACH
judeus. Elul é o sexto mês lunar do calendário hebraico. Como há uma discrepância de pouco mais de onze dias entre os 354 dias do ano lunar e os 365 do ano solar, um ano bissexto contendo um mês suplementar é intercalado sete vezes em cada dezenove anos. Isso permite que a
SOPRANDO   O   SHOFAR
festa de Pessach (Páscoa) caia sempre na primavera. Elul, numa outra contagem, precede o período de arrependimento associado ao ano novo (Rosh há-shaná), sempre um tempo de introspecção e de preparação espiritual. Algumas comunidades têm o costume, no mês de Elul, de soprar o shofar todas as manhãs após as orações, a fim de despertar os devotos para o arrependimento. 

O arrependimento (teshuvá) é, sob todos os pontos de vista, um conceito virginiano e tem o significado de retorno. É a partir de Elul que o pecado do afastamento do divino começa a ser apagado. As portas do arrependimento estão sempre abertas. Entretanto, se alguém peca com a intenção de se arrepender posteriormente, tal arrependimento não significará a obtenção do perdão divino. Segundo a tradição, uma pessoa deve se arrepender um dia antes de morrer, incluindo as orações do moribundo a confissão dos seus pecados. Todavia, como o dia da morte não pode ser conhecido, é preciso que o arrependimento seja diário. Isto é especialmente válido para o mês de Elul e para os dez dias de penitência (entre os dias 1º e 10º de Tishirei, Libra) período dedicado ao arrependimento, que culminam no Yom Kipur (Dia da Expiação, a 10 de Tishrei, dia de jejum, o mais sagrado do calendário judaico). 


DAVID  , C. 1768
( G.F. BARBIERI, IL GUERCINO )
São considerados, por exemplo, como modelos de arrependimento o do rei David e dos habitantes de Nínive (história de Jonas). David, censurado pelo profeta Natan, por ter pecado ao se unir a Betsabá, que estava casada com Urias, arrependeu-se, o mesmo fazendo os habitantes da referida cidade. Sob a influência da Cabala, muitas práticas ascéticas foram introduzidas no processo de penitência judaico, práticas como o ato de rolar na neve, jejuns prolongados. Outro conceito ligado a Elul é o da expiação (kapará), a reconciliação do humano com o divino, sempre feita através de sacrifícios. Os principais caminhos para a expiação se fixaram no arrependimento, na oração, na hospitalidade, na caridade, nas boas ações e no exílio. 

RIO   JORDÃO
A tribo associada ao mês de Elul é a de Gad. Segundo o Midrash (palavra que significa busca, procura; também método homilético, isto é, arte de pregar sermões eloquência religiosa, tudo relacionado com a interpretação bíblica através da qual o texto é explicado diferentemente de seu significado literal. O profeta Elias vem desta tribo. Por não ter morrido, Elias se transformou no anjo do Compromisso, fonte de santidade e de pureza. Gad, em hebraico, é palavra que significa alegria, felicidade, sorte. Era ele o sétimo filho de Jacó e de Zilpa, sua serva. Gad é o ancestral dos Gaditas. A esta tribo Moisés atribuiu o território a leste do rio Jordão. 

No inverno, o mês que corresponde a Elul é Adar (Peixes). O peixe, cuja existência não se separa nunca do meio em que vive, as águas, é usado para simbolizar a santidade e a pureza. O mês de Elul marca, como se disse, o temeroso e respeitoso início do retorno a Deus, como, aliás, a letra Yod sugere: o começo da sabedoria é o temor de Deus.

Eu, Javé, sou vosso Deus. Vós vos santificareis e sereis santos,
LEVÍTICOS
porque eu sou santo (Lev. 11,44). Esta passagem, entre os judeus, é tomada como base para a determinação do que é puro e impuro. Assim, tudo o que pode ofender a santidade de Javé é considerado impuro. A Bíblia, entretanto, não fixou objetivamente os critérios para tanto. O código da pureza está nos Levíticos 11-16 e indiretamente em 17-22, embora muitos outros detalhes estejam dispersos pelo texto bíblico. 

Os Levíticos formavam um código cerimonial que continha as disposições básicas, no tocante aos sacrifícios, ao sacerdócio e às leis da pureza. Daí, expressões como pureza levítica. Levi (ligado, apegado) era o terceiro filho de Jacó e de sua esposa Léa, filha de Laban, sendo seus descendentes os Levitas, que prestavam serviços ao templo.

A variedade do conceito de impureza é muito grande. Sempre será possível, entretanto, diante dessa variedade, estabelecer as situações em que esse o conceito se verifica de modo mais relevante. Tais situações são as seguintes: 

a) Antes do encontro com Deus. No Êxodo, nos Levíticos e em Samuel, encontramos referências claras sobre a necessidade da purificação do corpo pela água, inclusive de roupas asseadas, para entrar em contacto (templo) com Deus. No cristianismo, em Mateus, temos: se estás para fazer tua oferta diante do altar, e te lembras que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta. O que se coloca aqui é extensão do conceito de pureza para a vida interior. 

b) A mulher depois do parto. Nos Levíticos há prescrições rigorosas, rituais, para a purificação da mulher depois do parto. A impureza decorrente do parto de um menino se estende por 40 dias; de uma menina, o prazo se eleva para 80 dias. Durante esse período, a mulher não podia ir ao santuário e não podia tocar em coisa alguma santa. No cristianismo, conforme está em Lucas, a mãe de Jesus se submeteu a estas exigências.

c) Os leprosos – Nos Levíticos estão enumerados todos os casos que; ao tempo, eram considerados como leprosos. A lepra, em todas as tradições, desde tempos pré-históricos, sempre foi considerada como uma moléstia imposta por deusas lunares (A Grande Deusa Branca), uma punição motivada pelo consumo de alimentos proibidos. Muitas moléstias da pele eram chamadas de lepra na antiguidade, especialmente as de caráter crônico  ou contagioso. 

SÃO  LÁZARO
No grego antigo, a  moléstia de pele era a que produzia escamas, usado o nome para designar às vezes a elefantíase e a morfeia. O nome também era aplicado ao vitiligo, moléstia que causa perda da pigmentação, que resultava às vezes do consumo de alimentos impróprios. Na Bíblia, a lepra aparece algumas vezes como punição divina causada pelo pecado do orgulho. A lepra é às vezes também chamada de mal de Lázaro, nome de um pobre homem coberto de chagas, que os cães lambiam, tudo conforme narra São Lucas.  

d) As impurezas das casas – Qualquer fungo, mofo ou umidade, qualquer mancha inexplicável era considerada “lepra”. Os sacerdotes, como está nos Levíticos, decidiam sobre a sorte da casa.

e) Impurezas fisiológicas – Todo o capítulo 15 dos Levíticos fala deste tipo de impurezas, tais como polução noturna, menstruação, doenças venéreas etc. A lei sempre prescreve nestes casos um banho completo, mais ritual que higiênico. No cristianismo, em Mateus, encontramos a narração do episódio em que uma mulher sofrendo um fluxo de sangue não ousou tocar em Jesus em público, temendo complicações legais e rituais; por isso, tocou-lhe o manto de leve e às ocultas.

f) Impureza do templo – Se uma pessoa profana penetrasse no recinto sagrado reservado aos sacerdotes, o templo se tornava impuro. 

g) Impurezas da nação – A presença, no meio do povo, de transgressores da lei, de criminosos, de idólatras, de parceiros de matrimônios mistos eram impurezas que contaminavam a nação inteira. 

As águas tinham muito destaque nos ritos de purificação. Além das usadas para banhos e abluções, havia algumas águas às quais se atribuía um papel especial. Havia as águas do dilúvio que
MAR   VERMELHO
purificaram a terra da corrupção dos homens. As águas do mar Vermelho eram particularmente importantes porque purificaram os judeus dos contactos que haviam mantido com os egípcios quando do cativeiro. As águas do rio Jordão eram também importantes pois há registros de que purificavam a lepra. Importantes eram as chamadas “águas do ciúme”, usadas para descobrir a culpa ou a inocência da esposa suspeita de adultério. A indiciada deveria beber uma mistura de água com o pó do chão do templo para que se cumprisse o ritual do ordálio. 

RITUAL   DO   ORDÁLIO

Ordálio é, neste caso, um juízo de Deus que é obtido através deste ritual judiciário imposto ao acusado (a) para se descobrir a sua culpa ou a inocência. Este ritual é testemunhado na Bíblia com o nome acima ou o de “águas amargas”. Eram águas dadas a beber à esposa suspeita de adultério, registrando-se o caso nestes termos: Depois que ela as tiver bebido, se ela estiver culpada, tendo sido infiel a seu marido, as águas que trazem a maldição trar-lhe-ão sua amargura; seu ventre inchará, seus flancos emagrecerão, e essa mulher será uma maldição no meio de seu povo. Mas, se ela não se tiver manchado e for inocente, ela será preservada e terá filhos. (Números 5,11-31).

Esta preocupação que os judeus tiveram em associar o signo de Virgem à purificação é encontrada também em muitas outras tradições. Na religião católica, por exemplo, ela tem como representação máxima o batismo. Neste sacramento, a água desliza pela cabeça, região ariana, de onde emanam os nossos atos. No momento da morte, as unções  vinculam-se aos sete planetas da tradição, que governam os sentidos e determinadas partes do corpo. 


Um exemplo do que temos aqui pode ser encontrado num dos maiores romances da literatura de todos os tempos, Madame Bovary, de Gustave Flaubert. A descrição da cena está no momento mori de Emma Bovary: depois, o pároco recitou as preces Misereatur e Indulgentiam e, umedecendo o polegar no óleo, ungiu a moribunda: primeiro, naqueles olhos que tanto haviam desejado luxos terrenos; em seguida, no nariz, tão ansiosa ela, sempre desejosa de sentir as brisas e os perfumes amorosos; depois, na boca, que tantas vezes se abriu para a mentira, para a queixa orgulhosa e para o grito luxurioso; depois, nas mãos, que tanto se deleitaram em suaves contactos; e finalmente nos pés, que tantas vezes correram tão velozes na preocupação de saciar seus desejos, pés que já não caminharão mais. A purificação, segundo este ritual, compreende todo o corpo, desde a cabeça à planta dos pés, conforme a sequência zodiacal.  


SANTA   GENOVEVA
( LOUIS DUFOUR , 1901 - 1960 )
O cristianismo sempre associou Santa Genoveva (Geneviève), padroeira de Paris, ao signo de Virgem. Nascida em Nanterre, em 420, e falecendo em Paris, no ano 500, Genoveva, segundo a lenda, recebeu de são Germano, bispo de Auxerre, o chamado véu de virgem dedicada aos quinze anos. Devotou-se, desde então, aos trabalhos de oração e caridade. Foi ela que com sua intervenção conseguiu afastar as tribos francas que sitiavam Paris. Os parisienses perceberam as ações protetoras de Genoveva por longo tempo mesmo depois de sua morte, como aconteceu em 1.129, quando uma epidemia causada por alimentos (pães) produzidos com centeio envenenado (seigle ivre.) cessou subitamente no momento em que as relíquias da santa estavam sendo carregadas em procissão pública. 

NIDABA  OU  NISABA
Mais recuadamente, a origem deste mês do signo de Virgem pode ser encontrada da história da deusa suméria Nidaba ou Nisaba. Esta deusa era filha de uma espécie de Geia suméria, chamada por vários nomes, Inini, Gula etc., segundo a região do seu culto. Nidaba era a divindade que tutelava as colheitas, sendo especialmente reverenciada como deusa dos grãos. Em inscrições sumérias se registrava que ela levava uma estrela sobre a cabeça e um chicote na mão direita, chicote este cuja correia se estendia pela cauda do Leão. Esta ideia,

encontrada também entre os caldeus, a de “pegar” o Leão pela cauda, é sempre um indício do poder das grandes-mães sobre a energia cósmica. Em algumas tradições, ainda, lembre-se, o terceiro arcano do Tarot, A Imperatriz, aparece ligado ao signo de Virgem, enquanto representa a resultante da bipolaridade dos dois primeiros arcanos, O Mago (energia masculina) e A Sacerdotisa (energia feminina).

O signo de Virgem, como se sabe, predispõe os seus nativos a um temperamento nervoso, típico do elemento terra, com atuação num plano racional-analítico-prático. É em Virgem que a vida instintiva
DEMÉTER
vai encontrar o seu adequado posicionamento no sentido de sua submissão ao ego que nasceu em Leão, signo anterior. Este alinhamento do instintivo pode muitas vezes significar o seu não reconhecimento, como, aliás, o próprio mito grego nos sugere. Deméter nunca aceitou o fato de Koré ter “gostado” do que lhe aconteceu no Hades. Esta recusa da vida instintiva foi a causadora da depressão de Deméter, acontecimento que no plano da vida psíquica significou a retirada da sua libido da Terra, tornando-a árida, seca, preocupada unicamente em rever a filha. 

A psicanálise associou ao signo de Virgem um comportamento
SIGNO  DE  VIRGEM
ligado à função intestinal (governada pelo signo), no qual se juntam vários traços que na linguagem técnica recebeu o nome de complexo anal. Esse complexo corresponde a um período no desenvolvimento da criança em que ela demonstra um vivo interesse no fato de reter ou de evacuar fezes. A vida afetiva da criança nesse período se desloca para o funcionamento retal (Mercúrio governa o intestino delgado e Plutão o grosso), numa ou noutra fase, isto é, retenção ou expulsão. O que temos é o caso da chamada “analidade reprimida”, traduzida pela retenção por parte da criança virginiana do seu conteúdo intestinal, sob pressão educativa centrada em palavras dos mais velhos sobre sujeira, asseio, limpeza etc. Ao responder à pressão dos seus educadores, a criança virginiana acata prontamente a disciplina que lhe é imposta. 

Esse quadro infantil deixa marcas que se refletirão mais tarde no comportamento do virginiano adulto. Se esta analidade for vivida superiormente, sublimada, poderemos ter expressões intelectuais superiores. Nos tipos malogrados, o virginiano ficará preso num emaranhado de condicionamentos racionalizantes que imporão limites muito medíocres à sua existência. Neste último caso é que encontramos os excessos quanto à meticulosidade, o perfeccionismo exagerado etc. Assim, casos de constipação intestinal ou piores (diverticulite) se revelarão como tendência à avareza, à implicância, ao puritanismo, às pequenas manias, ao gosto pelas classificações e coleções, às gavetas para tudo, ao amor à ordem e à limpeza. Quanto ao plano da ação, teremos os tipos contemporizadores, proteladores, que sempre deixarão a sua decisão para amanhã. No plano mental, será o cético, o lúcido, o organizado, o adepto das estatísticas, características que se acentuarão quanto mais a dominante terra prevalecer e, sobretudo, a ação de Saturno.    

A constelação de Virgem estende-se de 20º Virgem a 6º Escorpião. Ptolomeu atribui às estrelas que estão na cabeça e na asa sul da constelação influências mercurianas e marcianas, estas bem menos evidentes. Outras estrelas na mesma asa e da região da cintura proporcionam influências mercurianas e venusianas, estas bem mais fracas. Na região dos pés e na barra da vestimenta, estrelas com influências de Mercúrio e de Marte. A estrela mais importante de Virgem é Spica.


Spica, a estrela mais brilhante de Virgo, alfa, está hoje a 23º 09´ de Libra. Além dela, a única a ser considerada astrologicamente é Vindemiatrix, a 9º 15´ de Libra. A simbologia desta estrela aparece associada a dádivas à humanidade, contribuições que determinadas personalidades que a tinham em evidência fizeram no sentido do progresso, do avanço. A espiga, lembremos, é um símbolo da fertilidade, do que alimenta, sugerindo tanto a maturidade da vida vegetal e animal como da vida psíquica. Bem
MOZART
posicionada e aspectada, Spica “alimenta” o quadrante onde aparece, proporcionando sempre benefícios. Um tema exemplar para estudo desta estrela pode ser o de Wolfgang Amadeus Mozart. Lembremos que Spica, juntamente com Sirius (Canis Major) e Canopus (Carina), estão entre as estrelas mais importantes do céu.  

DIONISO   E   AMPELO
Vindemiatrix ou Vindemiator, o vindimadeiro, é representado no mito grego por Ampelo, jovem amado por Dioniso. Filho de um sátiro e de uma ninfa, recebeu do deus um presente, uma videira carregada de cachos. Ao colher as uvas que estavam na parte mais alta, Ampelo caiu e morreu, sendo transformado por Dioniso nessa estrela. Vindimiatrix, simbolicamente, fala de coleções, lugar onde agregamos coisas, onde guardamos algo para uso futuro, lembrando cuidado, atitude previdente. 

                                      

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

VIRGEM (3)


CATEDRAL   DE   CHARTES
Dentro deste universo simbólico não nos surpreende o rito praticado, em tempos muito remotos, por sacerdotes gregos e romanos, que costumavam lançar grãos de trigo sobre as vítimas humanas imoladas para se garantir o renascimento dos vegetais, as próximas colheitas. Tal rito era, em suma,   uma prática que lembrava a imortalidade, a ressurreição. Além disso, explicava-se por esse rito também a razão  de se trazer espigas de
ESPIGAS   DE   TRIGO
trigo para o interior das casas com o objetivo de proteger tanto o edifício como os que nele viviam.  Presas à viga mestra das casas, quando de sua construção, as espigas de Deméter asseguravam não só solidez à construção como paz e prosperidade para os seus moradores.

É de se lembrar, quanto ao uso de espigas no interior das casas, como está acima, que os gregos antigos usavam também, com a mesma finalidade, mas na parte externa da construção, um elemento a que davam o nome de acrotério (de acro, ponta). Situados no mais elevado do frontão das construções, dentre os elementos mais usados como acrotérios (vasos, estatueta, bolas, imagens de animais etc.), encontramos a pinha, um símbolo do deus Dioniso. 

PINHA
A pinha, como se sabe, enquanto dionisíaca, é um  símbolo da vida sob a sua forma imperecível. Consagrada a várias divindades, mas principalmente a Dioniso, a pinha representa a permanência da vida vegetativa, a alternância das estações e a ressurreição da natureza. O longo bastão de Dioniso, o chamado tirso, atributo do deus e de suas sacerdotisas, era rodeado de hera, de flores da vinha e de cachos de uva. No topo, para a sua empunhadura, uma pinha encimava-o.  

Ao se apoderar da história de Deméter, a psicologia profunda vê no arquétipo por ela descrito um comportamento neurótico. As neuroses, como sabemos, constituem um conjunto de problemas de origem psíquica que, dentre outras características, costumam se manifestar por um comportamento compulsivo, de caráter obsessivo. Diferentemente da psicose (transtorno mental caracterizado por desintegração da personalidade, conflito com a realidade, alucinações, ilusões etc.) a neurose conserva uma referência à realidade, liga-se a situações circunscritas e gera intensas perturbações sensoriais, motoras, emocionais e ou vegetativas. 

O arquétipo materno liga-se, inconscientemente, no ser humano, aos elementos passivos, negativos, à água e à terra, entendidas estas como as matrizes que deram origem à vida. A primeira sempre foi divinizada por todas civilizações como o princípio de todas as coisas. A noção de águas primordiais existe em todas as culturas, simbolizando origem, purificação e regeneração. A terra é a
KNUM
substância universal, prima matéria, separada das águas, e é dela que sairá o homem. Este é o significado da argila como matéria que será utilizada, por exemplo, pelo deus Knum, entre os egípcios, para fabricar o homem. Ou, como está no Gênese, quando Elohim modelou uma estátua de argila vermelha, à sua semelhança, e nela insuflou uma alma. As palavras hebraicas adamah (terra) e adom (vermelho) têm relação com o primeiro homem criado, Adão, segundo esta tradição. 

Deméter tem a ver com as estações, com os trabalhos agrícolas, com a semeadura, com o crescimento das sementes, com os campos trabalhados, com as colheitas e com os celeiros. Sua função materna é importante, mas limitada, pois sofre uma violência, o rapto de sua filha, Koré. Esta violência é a causa da sua neurose, acima referida. Um detalhe muito importante desta história é que essa perda é apoiada e até incentivada pela própria Geia, avó de Koré, a Grande Mãe Universal, como está no hino homérico a Deméter. 


RAPTO   DE   KORÉ  ( ALESSANDRO  ALLORI , 1533 - 1607 )

Lembremos que Deméter é particularmente honrada na Sicília, pois é considerada como a sua divindade protetora. A deusa, na Sicília, representa um caso notável de associação de antigas crenças. Não só os antigos colonos gregos da ilha a ligaram a uma antiga deusa local da fertilidade como lá reconstruíram o mito. A jovem Koré estava em companhia de algumas ninfas oceânidas quando, ao colher narcisos, foi raptada por Hades, o Senhor dos Infernos, que estava à procura de alguém, uma deusa, que com ele pudesse compartilhar o poder sobre o seu reino.

Deus temido, soberano de um mundo invisível, lugar sem saída (salvo para os que acreditavam na reencarnação), mergulhado eternamente no frio e nas trevas, povoado de monstros, de
KORÉ    E    A   ROMÃ
espectros e de fantasmas, com os seus rios, antros e cavernas nos quais perambulavam as almas dos danados, Hades resolveu seu problema pelo sequestro. Sob o protesto de Ciane, uma das companheiras de Koré, transformada numa fonte por isso, arrastou a jovem para o seu reino, colocou nas suas mãos sementes de romã, símbolo da fidelidade conjugal, e fez com que ela as engolisse. Koré as experimentou e parece ter gostado.  Com isso, ficou “presa” definitivamente ao Hades. 


TRAPANI
Na versão siciliana do mito, consta que durante nove dias Deméter errou pelas terras da ilha à procura da filha desaparecida. Na sua passagem, ela foi deixando marcas por onde andou. Há um promontório foiciforme perto de Trapani que os sicilianos dizem ter sido originado pela perda de uma foice que Deméter, como deusa das colheitas, usava. Contam ainda que por causa de Deméter os tremoços, antes adocicados, amaldiçoados pela deusa, tornaram-se amargos e tóxicos. A deusa os amaldiçoou porque, ao perambular pela ilha à procura de Koré, interpretou como gozações, chacotas, os ruídos que as plantas da leguminosa emitiam quando de sua passagem. 

No seu desespero, não encontrando a filha, Deméter provocou uma seca terrível em todo o mundo. Homens e bestas começaram a morrer. Os deuses deixaram de receber sacrifícios. Zeus intercedeu e obrigou Hades a devolver Koré à mãe. Mas a jovem já havia experimentado as “sementes de romã”. Assim, ligara-se ao Senhor dos Infernos. Um acordo, então, é celebrado. Ela passaria uma
MINTHE
parte do ano com ele e outro tanto com a sua mãe. Uma prova de que Koré, já transformada em Perséfone, se afeiçoara bastante ao Senhor do Hades está na tenaz perseguição que ela moveu contra uma ninfa que mantinha relações com ele. Enciumada, Perséfone pôs-se a maltratá-la. Hades, contudo, não desejando perder a amante, a levou para as montanhas e a transformou numa planta, a hortelã perfumada e refrescante, com o nome de Minthe. 

Há uma outra versão sobre o caso acima. Como Koré, já como Perséfone, se afeiçoara bastante com o Senhor do Inferno, Deméter resolveu intervir a favor da filha, condenando a planta (hortelã pimenta, mentha piperita) a não gerar frutos, advindo daí a dupla reputação que a menta tem para os povos mediterrâneos: um caráter funesto, considerada como uma planta que ao mesmo tempo que causa a esterilidade tem um caráter afrodisíaco. 

Hipócrates, Aristóteles e Plínio, o Velho, acreditavam que a menta atuava como anticoncepcional. Grande parte desta aura que cerca a menta pode ser atribuída a uma lenda cristã. Consta que quando o menino Jesus e sua mãe fugiam de Herodes a menta os denunciou (felizmente em sottovoce e não foi ouvida), razão pela qual Maria a amaldiçoou: Tu és menta e tu mentirás sempre; florirás, mas não darás frutos.

Do ponto de vista de Geia, a Grande-Mãe, os elementos e acontecimentos desta história, sedução, rapto, “ingestão” de sementes de romã por Koré, a presença de Minthe, a ninfa do Hades, a indiscrição de Ascálafo eram irrelevantes. Não tinham a grande importância que lhes foi dada por Deméter e, a princípio por
LAGO   DE   PERGUSA
Koré. A “perdição” da jovem, como ficou claro em Homero, foi apoiada pela própria Geia que, inclusive, dela participou indiretamente ao cultivar as flores que ajudaram Hades a raptar a jovem. O rapto, segundo a tradição mais confiável, ocorreu na Sicília, perto do lago de Pergusa, sob os protestos das companheiras, em especial de Ciano, transformada por Hades numa fonte. 

Para Geia, o rapto de Koré e a sua sedução eram fatos naturais, tão naturais como o nascimento e a morte, que ela sempre enfrentara com tranquilidade e resignação. Suas experiências com Urano, neste particular, ainda que violentas, ela bem o sabia, faziam parte da ordem natural do mundo, na qual as violações apareciam como necessárias, inevitáveis. 

Num primeiro momento, Deméter simboliza uma fase muito importante na história da humanidade na medida em que ela, na
ELÊUSIS  -  GRÉCIA
linha sucessória das Mães ligadas à terra, vindo depois de Geia e de Reia, representa o aparecimento da agricultura com o consequente processo de sedentarização, isto é, o abandono da vida selvagem, nômade, coletora pela vida social mais organizada. Num outro plano, a mensagem mais importante deusa, através de Elêusis, é a da imortalidade da alma e a da sua eterna ressurreição depois da morte. 

Como se não bastassem essas possibilidades significativas, lembremos que Deméter ensinou aos homens a arte de plantar e de colher, atividades que dependem sempre de uma elevada capacidade discriminatória. O agricultor tem que ter, numa ponta, para plantar, a clara noção do lugar em que o fará, do tipo de solo, da estação, das condições climáticas, da qualidade das sementes e dos demais cuidados necessários. Noutra ponta, clara noção do momento oportuno da colheita, dos meios disponíveis para tanto, do que e onde o colhido deverá ser armazenado e do fim a lhe ser dado. Entre as duas pontas, os cuidados permanentes para que tudo o que foi plantado venha à luz da melhor maneira possível. 


A   COLHEITA  ( BRUEGEL , 1521 - 1569 )

A capacidade discriminatória de Deméter, numa visão mais apressada, parece dizer apenas ao que ocorre na “superfície”, à percepção das diferenças nele constatáveis, visíveis. Entretanto,
PERSÉFONE   E   HADES 
lembremos que o “outro lado” de Deméter é  Perséfone, e que elas, no fundo, são a mesma coisa. Assim, enquanto uma atua em cima, a outra atua em baixo. Por isso, a percepção de Deméter deverá implicar  também, sempre, a percepção do que ocorre no mundo inferior, o mundo do “não-visto”, do invisível. Ou seja, notar as diferenças no mundo de cima e ter, ao mesmo tempo, uma percepção do que é  invisível, que está no mundo inferior. 

O que acontece, porém, com relação a Deméter, como o mito desenha o arquétipo, é que ela não tem esta percepção “inferior”.
HÉCATE
Quando perde a filha, ela se torna depressiva.  Decreta a seca universal, nega o futuro. É a velha máxima da psicologia: se não posso ter o que desejo, destruo tudo e/ou me autodestruo. Sob o disfarce de um animal (tema já abordado acima) e de uma velha, Deméter perambulou pela terra, desesperada; deixou de tomar banho, não se alimentou, até encontrar Hécate, a deusa lunar triforme que lhe disse também ter ouvido os gritos da jovem, mas que não lhe fora possível reconhecer o raptor. Sugere Hécate que ela vá ao deus Hélios, que tudo via, já experiente nessas questões (a revelação do affaire Ares-Afrodite). Assim foi feito, cientificando-se então Deméter das circunstâncias do rapto de Koré e de seu autor. 

O comportamento de Deméter é reconhecidamente neurótico, como se disse. Desespero e depressão quando perdida a filha. Contentamento, pulos, “esquecimento” do drama vivido, quando a recuperou. A história de Deméter nos revela também, por essa linha de raciocínio, que, acima de tudo, a vida adquire um significado em função do que sentimos. São eles, os sentimentos, os doadores da vida. De bem com a vida, Deméter é benevolente, dadivosa. Mal com a vida, quando tem que lidar com o “lado ruim da vida”, é depressiva, agressiva, negativa, destruidora. Esse jogo normalidade/anormalidade nos introduz numa questão importante dos arquétipos, a de que todos têm também a sua patologia. Ou seja, num único e mesmo arquétipo podemos ter a sua patologia e a sua terapia.  


DEMÉTER
Quando recebemos os dons de Deméter, precisamos ficar cientes das dificuldades que eles nos oferecem, das suas implicações inconscientes, na maioria das vezes. A única maneira de percebê-las será ir em direção do Hades. Uma  das formas que usamos para representar as nossas perdas é o luto, tanto uma autopunição como uma punição com relação àqueles que fazem parte do mundo em que vivemos.

O “luto” de Deméter é representado pela cor negra, que caracteriza, numa “leitura” apressada e superficial, as trevas, a tristeza, a morte, a negação absoluta, o silêncio sem vir a ser. Os gregos e os romanos faziam da cor negra um símbolo do luto, cor das penas e das angústias da alma. No simbolismo ocidental e cristão, principalmente, o negro sempre foi usado como cor funerária, o “luto sem esperança.” A tradição ocidental atribui ao negro uma significação nefasta conforme o atestam expressões como “ideias negras”, “humor negro”, “besta negra”, “filme noir” etc. O negro designa o sombrio, o triste, o que se opõe ao claro, ao alegre, ao luminoso. 


A   FESTA   DE   AFRODITE  ( P.P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os conflitos entre os cultos de Deméter e de Afrodite encontram aqui a sua explicação. Koré, lembremos, foi raptada quando colhia flores, que, no mito, “pertencem” a Afrodite, a deusa das forças incontidas da fecundidade enquanto símbolos do desejo apaixonado. Afrodite é o prazer dos sentidos, da sexualidade que independe da procriação. É a alegria de viver, a atração voluptuosa, a sensualidade, a sedução, a celebração das trocas, a comunhão afetiva, o encanto, a beleza, a graça. O seu poder fala de ternura, de
PAPOULA
carícias, de doçura, de tudo que signifique prazer e beleza. É por essa razão que nos cultos de Deméter as flores estavam proibidas (oposição Touro-Escorpião). Apenas uma flor era admitida nos cultos de Deméter, a papoula, pois a deusa, quando desesperada, por sugestão divina, para se acalmar, tomara uma infusão preparada com as pétalas da flor (mekhon) que, representava em Elêusis, o sono, o esquecimento, inclusive o sono que se apoderava dos humanos depois que morriam até um eventual renascimento. Certas correntes míticas vêem a papoula como um personagem, por ela amado, metamorfoseado em flor.


NIX  ,  THANATOS  E  HIPNOS

O efeitos narcóticos da papoula são conhecidos pelos gregos desde a mais remota antiguidade, um atributo, no mito, pertencente aos deuses Hipnos, Thanatos e Nix, todos usando coroas feitas com a flor. Por seu caráter alucinógeno (extrai-se ópio da papoula), a papoula era uma flor sagrada, pois permitia viagens  extracorporais, viagens que sem uma orientação adequada podiam levar a viagens sem volta. 

A história de Deméter ganha outra dimensão se lembrarmos que ela “nega” com todas as suas forças o mundo “inferior” (Hades) ao se apegar neuroticamente (destrutivamente) ao mundo “superior”. Sua visão é  completamente diferente da de Geia, que “sabia” que os dois mundos são uma coisa só". Deméter perde a sua escala de valores (o que vale é só o mundo de cima), não há discernimento, discriminação, só desdém. As coisas para ela só valem pelo seu aspecto “de superfície”. Daí, a sua mágoa, a sua violência, quando a privam delas. Uma visão unilateral do signo de Virgem?  


PIETÀ  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

A mensagem astrológica do que estamos colocando poderá ser melhor apreendida se lembrarmos que o signo de Virgem, ao “receber” o ego nascido em Leão, quinta casa, não deverá apenas se fixar nos seus aspectos de “superfície”. Deverá cuidar do “outro lado”, preparando-o para a jornada subterrânea que se inicia neste período do ciclo anual. Uma das grandes imagens desta passagem está, por exemplo, numa das mais belas obras da escultura de todos os tempos, a Pietá, de Michelangelo. Com efeito, o signo de Virgem trata das transformações de nossa personalidade que partem de estados infanto-juvenis para a conquista de uma individualidade mais sábia, mais madura, representada pela fruição da colheita. É a partir de Virgem que começa a nossa reorientação (mal nascido o ego) para interesses mais universais, que, numa primeira etapa, devem passar obrigatoriamente pela vida representada pelo signo de Libra e pela sétima casa astrológica. 

Em Virgem acaba a aventura individual do ser humano. As forças do dia ainda predominam, mas começam a perder o seu poder. Por ser um signo de terra, Virgem nos fala, efetivamente, de coisas práticas (o “prato cheio” de Deméter), mas não há que se perder de vista que o caminho para o universal se abre aqui.  

Deméter, ao decretar a seca, procura eliminar o úmido do universo. Nega as possibilidades de contacto, presa de uma “ira vã e
HOMERO  ( MUSEU  DO  LOUVRE )
insaciável”, como está em Homero. A deusa, ao assim agir, nega o futuro. O quadro, como disse, é depressivo, neurótico, parecendo retirado da psiquiatria moderna: ela não se banha, deixa de comer, realiza tarefas que estão claramente muito abaixo de suas habilidades, anula a sua beleza, disfarçando-se, nega a sua própria sensualidade, foge do seu ambiente natural, o campo, procura a polis. 

ÍRIS ( L.GIORDANO )
Segundo o mito, sabemos que Zeus despachou a deusa Íris para acalmar Deméter, que não se recusou a ouvi-la. Depois, vieram outros deuses. A mesma resposta: ela jamais poria os pés no Olimpo e não permitiria que nada mais brotasse na superfície da terra enquanto a filha não lhe fosse devolvida.  Zeus, então, enviou seu embaixador plenipotenciário, Hermes, para discutir com Hades a questão e resolvê-la, de modo que a jovem retornasse ao seio materno. Hermes explicou a Hades que se Koré não fosse devolvida à mãe, a “débil raça humana seria aniquilada” e, com isto, os deuses não mais seriam honrados. Explicou mais Hermes que como os deuses “vivem” dos cultos que lhes são prestados e de sacrifícios recebidos, a extinção da raça humana significaria também a extinção dos deuses. Nada mais lógico.

Não houve necessidade de maiores detalhes para que Hades logo se convencesse, sendo-lhe prometido que a jovem passaria uns tempos com a mãe na superfície e outro tanto com ele no mundo ctônico. Consentiu que a jovem retornasse, fazendo-a, porém, ingerir mais
HADES
sementes de romã, o que lhe bastou para deixá-lo tranquilo quanto à certeza de sua volta. Feito isto, Hades mandou atrelar os seus cavalos e a levou no se divino carro até Elêusis. À vista de sua filha, Deméter não conteve a sua alegria. Sua primeira pergunta foi a de que se no Hades havia comido alguma coisa. Conformada com o ocorrido, Deméter e a filha passaram muito tempo trocando afago e demonstrações de afeto. Consta que a deusa infernal Hécate, tia da jovem, participou efusivamente do encontro e que Zeus enviou sua mãe, Reia, (e de Deméter também) com a missão de confirmar tudo o que se estabelecera. 

Deméter, como Mater Dolorosa, e sua filha sempre suscitaram nos gregos uma forte religiosidade. O mito grego segue de perto o modelo egípcio, de caráter osiriano, alterando-o, porém, no sentido
SACERDOTISA E INICIADO
de sua “persefonização”. O iniciado nos Mistérios era chamado também de Demetrios, sendo a filha uma forma regenerada, rejuvenescida, da mãe, quando de seu regresso do Hades. Os Mistérios falavam, pois, de um novo nascimento. A passagem de Koré, jovem rapariga núbil, a Perséfone, deusa dos Infernos, significa uma mudança de estado. Durante muito tempo, lembremos, desde tempos muito remotos, o rapto sempre foi considerado como um ritual matrimonial, um equivalente do estupro, um sequestro da alma. Temos o rapto da jovem pelo seu tio paterno e materno, o consentimento do pai (Zeus), a colaboração de Gaia, a grande ancestral, cujas entranhas se abriram para receber a bisneta. A testemunha de tudo isto é Euboleus (Bom Conselheiro), um porcariço que guardava os animais de Hades na Sicília, no local da cena. No momento em que a terra se abriu, alguns porcos desceram, caíram com Koré no Hades, razão pela qual se instituiu um rito de sacrifício de porcos quando das Tesmofórias, grandes festas anuais que se realizavam em homenagem a Deméter. Nessas festas, de caráter exclusivamente feminino, o mito de Deméter era inteiramente dramatizado, fechando-se o ciclo entre a semeadura e a colheita. 



TESMOFORIANTES  ( FRANCIS  DAVIS  MILLET ,  1848 - 1912 )

Numa outra perspectiva (psicológica), o mito nos fala de um animus infernal (Hades), irmão do animus olímpico (Zeus) que encontra a sua anima (Koré), seu complemento. Hades, ao liberar Koré para voltar a Deméter, profere, segundo o poeta, as seguintes palavras: Vai, Perséfone, volta à tua mãe velada de negro; mas guarda em teu peito um humor e um coração serenos. Não te desesperes. É inútil e em vão. O esposo que terás em mim não é indigno de ti entre os imortais; sou o próprio irmão de Zeus Pai. Quando estiveres aqui, reinarás sobre todos os seres que aqui vivem e se movem; terás os maiores privilégios entre os imortais, e serão castigados todos aqueles que te injuriarem no sentido de não se conciliarem com o teu coração através de piedosos sacrifícios e das oferendas que te cabem.” 


DEMÉTER  E  PERSÉFONE
Esta história de Deméter-Koré-Perséfone-Hades é também, numa outra leitura, uma ilustração que os gregos elaboraram, pela via mítica, para nos falar sobre o aparecimento dessa imagem interior no mundo masculino, a personificação feminina do seu inconsciente a que a psicologia profunda dá o nome de anima. Na anima se reúnem todas as tendência psicológicas femininas do psiquismo masculino, os sentimentos vagos, os estados de humor oscilantes, as suspeitas, as inferências, as emoções, a intuição, a sensibilidade para o mundo natural, tudo aquilo enfim que não pode ser objeto de quantificações,  de medições, de valorização objetiva. Neste sentido, Perséfone é, em suma, tudo aquilo que é irracional e ilógico. É neste sentido um poder invisível, distinto da nossa parte consciente. 

Ao se manifestar, esse lado feminino pode tomar diversas formas. Muito comuns as expressões deprimidas, violentas, irritadas, inseguras da anima, quando tomam então um caráter acabrunhante, opressivo, demoníaco, uma ilusão destrutiva muitas vezes. Estas formas sempre  fizeram parte dos mitos, das lendas, da literatura em geral, de contos folclóricos e populares; hoje, estão nos meios de comunicação, em filmes, na ópera, em canções populares, na publicidade, sendo matéria privilegiada de muitos estudos no campo da psicologia. A anima pode tomar aspectos positivos ou negativos. As Sereias da mitologia grega são exemplo da anima  funcionando destrutivamente ao atrair os homens para a perdição ou para a morte. 

EMILY   BRÖNTE
(BRANWELL BRÖNTE)
Esta mesma ideia está presente na mulher com relação ao seu animus, detentor do seu modelo masculino, do seu “homem interior”. O animus é, assim, a personificação masculina no inconsciente da mulher, podendo apresentar aspectos positivos ou negativos, como ocorre com a anima do homem. A influência básica do animus numa mulher tem muito a ver com a figura paterna, uma influência que inclusive pode se chocar a sua própria realidade pessoal. Um exemplo do que aqui se coloca está na figura de Heathcliff, personagem central da

novela de Emily Brönte, Morro dos Ventos Uivantes, transformada num excepcional filme, em 1.939, dirigido por William Wyler, com Laurence Olivier e Merle Oberon nos principais papéis. Heathcliff é uma figura torturada, demoníaca do animus da autora, espelhada nas figuras do irmão ou do próprio pai.