terça-feira, 17 de julho de 2018

AQUÁRIO (1)

   

Por volta de 4000 aC, a constelação de Aquário sinalizava para os povos do Oriente Próximo o solstício de inverno, visualizada nos céus como um gigante com um recipiente nas mãos, a derramar água. A área celeste governada por esse gigante era imensa, sendo chamada simplesmente de A Água, dela fazendo parte as seguintes constelações: Pisces, Cetus, Capricornus, Delphinus, Eridanus, Pisces Australis e Hydra, todas relacionadas com o elemento líquido.


ERÍDANO
Muitos povos que viviam em extensas regiões situadas entre a Europa e Ásia davam também à mencionada área celeste, pela mesma razão, o nome de O Mar. Essa região se estendia para eles, a partir da chamada Cabra Marítima (Capricórnio), na direção do oriente, nela se situando Peixes: na direção  noroeste fica o agrupamento estelar chamado Delfim; na direção sul, ficava o agrupamento Peixes Astral; e na direção se encontrava a Baleia. Os gregos deram o nome de Erídano ao uma faixa estrelada que, atravessando a Baleia (Cetus, desaguava na constelação de Orion. Erídano, lembremos, na mitologia grega foi um dos muitos filhos dos deuses marinhos  Oceano e Tétis. Era um deus-rio que aparece associado ao terceiro trabalho de Hércules e à história do malogrado herói Faetonte.

CONSTELAÇÃO  DE  AQUÁRIO
Os babilônicos davam às estrelas de Aquário o nome de “Assento das Águas Moventes”, nelas vendo a origem das tempestades de inverno e das correntes que um dia haviam precipitado o dilúvio sobre a terra. As primeiras referências que temos sobre o dilúvio, cujas águas teriam vindo dessa região do céu, nós as encontramos, até onde a pesquisa histórica conseguiu se estender,nos antigos textos de uma famosa epopeia sumero-babilônica nos quais se conta a história do herói mítico Gilgamés. Pelos referidos textos ficamos sabendo que os humanos, criados pelos deuses, devido aos seus pecados, nunca muito claramente definidos, deveriam ser destruídos. A decisão foi tomada pelos deuses (Anu, Bel, Ninib e Enugi), numa assembleia divina, realizada na cidade de Suripak, às margens do rio Eufrates. Ea (etimologicamente, a casa da água), identificado pelos gregos como Poseidon, deus do Apsu (rio-mar que envolvia e suportava a terra), sentindo muita pena da humanidade, resolveu intervir, ajudando-a. 


UTNAPISHTIN
Ea recomendou a Utnapishtin, um dos habitantes de Suripak, que construísse um barco de cento e vinte côvados (medida equivalente a 66 cm.), cerca de 80 metros, e o carregasse com todos os bens que pudesse, para que ele e sua família, mais os animais e os pássaros recolhidos, se salvassem quando a tormenta se abatesse. Depois de seis dias e seis noites de tempestades jamais vistas, tudo se acalmou, mas a terra havia se transformado num grande lamaçal. Da sua barca, encalhada no alto de um monte, Utnapishtin soltou sucessivamente uma andorinha, uma pomba e um corvo. Os dois primeiros, depois de muito tempo, voltaram à embarcação porque não haviam encontrado onde pousar. O corvo nunca mais voltou, nunca se sabendo o que lhe aconteceu. 

Utnapishtin desceu então do seu barco, fez uma libação aos deuses e depositou uma oferenda no alto da montanha. Por intervenção de Ea, mais uma vez, os deuses aceitaram os sacrifícios e Bel, tomando as mãos de Utnapishtin e de sua mulher, lhes disse que a partir daquele momento constituiriam a raça humana, semelhante à dos deuses, fixando-lhes, para que pudessem viver a salvo dos cataclismos, um retiro inviolável e paradisíaco na embocadura dos rios. 

Passaram-se desde então séculos e séculos. Os humanos, esquecidos das  promessas que haviam feito, abandonados os sacrifícios, o “alimento” dos deuses, voltaram a proceder mal, fechados cada vez mais no seu egoísmo. A mais remota ideia que temos da instituição do sacrifício nos vem desses tempos.





Foi no mundo mesopotâmico que se fixou a ideia, depois levada para outras civilizações, que o homem havia sido criado pelos deuses para não só servi-los como para vesti-los e alimentá-los, além de lhes dar muitos presentes. Dentre os sacrifícios mais comuns estava o de aninais, cujo sangue ratificava a ligação entre o homem e o divino. Muito importante, nessas cerimônias, era o item  dos alimentos oferecidos aos deuses, os mesmos que os humanos mais apreciavam, peixes, carne, cremes, mel, bolos e cerveja, esta também muito utilizada pelos egípcios, conhecida como a bebida da imortalidade.

OSSO   SACRO
O tema do sacrifício, salienta-se, sempre este presente em todas civilizações da antiguidade. Os presentes e os sacrifícios, por exemplo, vão aparecer também  na Bíblia, no Gênesis. A palavra veio do latim, sacrificium, para nós. Ou melhor,  de sacrum facere, realização do sagrado. Esta realização era feita, principalmente, pelo oferecimento do chamado osso sacro aos deuses. 


HIPÓCRATES
A título de curiosidade, registre-se que osso em grego é osteon. Quando da tradução da obra de Hipócrates, o pai da medicina, do grego para o latim, o tradutor, com muita propriedade, acrescentou a palavra hieron (sagrado) para designar esse osso, ao qual se deu o nome de sagrado porque na cavidade por ele formada alojavam-se os órgãos genitais, através dos quais, pela atividade sexual, os seres humanos eram trazidos à vida, uma função sagrada. Não é por outra razão, aliás, que as mais antigas tradições astrológicas atribuem a tutela dessa região do corpo onde o osso sacro se encontra a Sagitário, cujo planeta regente é Júpiter.  
  
Encerrado este breve comentário sobre o tema do sacrifício, nossa história prossegue: reunidos, os imortais decidiram mais uma vez punir os humanos, tornados cada vez mais estéreis. Os campos perderam o seu verde, nada mais brotava. Durante cinco anos, apesar de grande sofrimento, a humanidade contudo resistiu. A partir do sexto ano, porém, os humanos começaram a se devorar entre si. A terra se despovoou rapidamente, o mundo vegetal foi sendo aniquilado rapidamente, os mares e rios começaram a secar, catástrofes nunca imaginadas. 

MAMI
Por iniciativa de Ea, novamente, a terra foi então repovoada por uma nova raça humana, criada por Mami, deusa dos destinos. Ela cortou catorze pedaços de lama, colocando sete partes à sua direita e outros sete à sua esquerda, partes que, respectivamente, deram origem então ao mundo masculino e ao mundo feminino, como os temos até hoje.


GILGAMÉS
Todas estas catástrofes, como nos revelam os mitos mesopotâmicos, vieram da mencionada região do céu, mais exatamente da constelação que no calendário babilônico recebeu o nome de Gu, palavra que significava ânfora, um recipiente sagrado; para os babilônicos, a referida constelação sempre apareceu associada às grandes inundações do solstício de inverno e à ideia de salvação da humanidade. Na sequência zodiacal estabelecida pelos mesopotâmicos, Aquário ou Gu, o último dos signos fixos, aparece com destaque na epopeia de Gilgamés, na qual encontramos também muitas referências à figura de Utanapisthin, este figura, desde então, associada ao signo.

Para melhor compreender esta associação, devemos lembrar alguns detalhes da grande epopeia de Gilgamés, composta provavelmente por volta de 2.000 aC. Por ela ficamos sabendo que nosso herói,
RUÍNAS  DE  URUK
certamente um personagem histórico evemerezado (rei do país de Sumer, 3.000 aC ?), o grande construtor das muralhas de Uruk, era tirânico, poderoso, cruel e opressor. Logo nos primeiros versos do poema se narra que Gilgamés não deixava nenhum filho para seu pai; dia e noite a sua violência continuava irrefreada; apesar disso, ele era o pastor de Uruk. Ele era um pastor, forte, magnânimo e sábio. Gilgamés não deixava nenhuma virgem para o amante, a filha de um guerreiro, a escolhida de um nobre. O lamento do povo era ouvido pelos deuses constantemente.



ENKIDU
Ouvindo os clamores do povo, Anu, o deus celeste, ordenou a Aruru, a deusa-mãe, que criasse “um igual” a Gilgamés, com o qual ele pudesse lutar, esquecendo-se assim de atormentar seu povo. É criado então Enkidu, uma espécie de gêmeo de Gilgamés, mas muito primitivo e selvagem, um ser que gostava de viver entre os animais. Logo ele e Gilgamés se tornaram companheiros inseparáveis. Um dia, porém, os deuses resolveram que Enkidu devia morrer (doença enviada pela deusa Ishtar). Não se conformando, Gilgamés resolveu trazê-lo de volta a vida. Para tanto, largou-se pelo mundo em busca da erva da imortalidade. Quem a conhecia era Utanapisthin, seu guardião, tornado imortal pelos deuses depois do dilúvio.

A epopeia nos relata que Gilgamés chorou amargamente a morte do amigo. Partiu então à procura de Utnapishtin, a quem os deuses haviam acolhido depois do dilúvio e instalado na terra de Dilmun, o paraíso sumério (talvez na região do golfo pérsico), descrito como o lugar onde nasce o Sol. Era protegido do deus Ea, deus da água doce e da sabedoria; patrono das artes e um dos criadores da humanidade. Com a conivência de Ea, Utnapishtin sobrevivera ao dilúvio na companhia da sua família e das “sementes de todas as criaturas vivas”. Depois disso, foi levado pelos deuses para viver para sempre na foz dos rios Tigre e Eufrates e recebeu o apelido de “O Longínquo”. 

Para chegar a Utnapishtin, Gilgamés, que em companhia de Enkidu havia vencido um touro bravio enviado por Ishtar, teve que
SHAMASH
enfrentar depois vários leões e os perigosos homens-escorpião, três situações em que temos uma clara referência à passagem do Sol pelos três signos fixos que antecedem Aquário, Touro, Leão e Escorpião. Os homens-escorpião, lembremos, são sentinelas das montanhas onde o Sol se põe ao cair da noite. Ao atravessar essas montanhas, sempre na direção do oeste, depois de muito perambular pela escuridão, Gilgamés chegou a um jardim a beira-mar. Shamash, o deus Sol, o viu e lhe disse que nunca encontraria a vida que procurava. A resposta de Gilgamés foi, como está no poema, um “discurso” tipicamente aquariano: Então, depois de errar e de me esfalfar pela vastidão selvagem, terei ainda de dormir e deixar que a terra cubra para sempre a minha cabeça? Que meus olhos vejam o Sol até que por ele sejam ofuscados. Embora eu não seja melhor do que um morto, porém que eu veja a luz do Sol.



SIDURI
Dito isto, e afastando-se, caminhou nosso herói em direção de uma mulher que por perto fabricava bebidas. Era Siduri, entidade divina que vivia à beira do mar, preparando vinhos, no jardim do Sol. Ao notar a presença de Gilgamés, Siduri passou o ferrolho na porta que dava acesso ao jardim. Gilgamés a questionou. Ela, então, lhe perguntou porque ele apresentava um ar tão faminto e o seu rosto estava tão macilento; qual o motivo de tanto desespero no seu coração, a sua abatida expressão de cansaço, como a de alguém que houvesse feito uma grande viagem. Gilgamés, depois de falar de suas aflições, da morte de Enkidu, do seu temor também de virar pó, perguntou-lhe como chegar a Utapishtin. Ela o mandou procurar o barqueiro Urshanabi. Assim foi feito e, depois de muitas peripécias, nosso herói conseguiu se apresentar a Utnapishtin. 

Gilgamés contou a sua história e pediu que O Longínquo, instruindo-o sobre a vida e a morte, lhe dissesse como encontrar a vida eterna que procurava. A resposta que obteve foi a de que tudo era impermanente e que os deuses é que distribuíam a vida e a morte, mas que o dia da morte eles nunca o revelariam. Utapishhtin acabou, contudo, por revelar ao nosso herói que o que ele procurava. A vida eterna poderia ser obtida se mergulhasse nas profundezas do oceano e de lá trouxesse uma planta maravilhosa, com espinhos, que devolvia ao homem a juventude perdida, tornando-o imortal. Assim fez Gilgamés, pensando em oferecer a planta aos homens para deles afastar para sempre temida ideia da morte. 

COM  A  PLANTA  DA  VIDA
Ao tomar o caminho de volta a Uruk, com a planta nas mãos, Gilgamés resolveu contudo descansar e banhar-se num lago, junto a uma fonte. Depositou a planta numa pedra e entrou na água. Mas nas profundezas desse lago havia uma serpente que, sentindo o doce perfume que emanava da planta, saiu da água e a arrebatou, abocanhando-a, voltando de novo às águas profundas do lago. Gilgamés nada viu. Olhou desesperadamente à sua volta, as águas silenciosas do lago nada lhe disseram. Angustiado como nunca, sentou-se sobre uma pedra e chorou por ter perdido a planta do rejuvenescimento.

Qual a lição a retirar desta história sob o ponto de vista aquariano? A imagem de imortalidade para Gilgamés era a de uma uma vida apenas prolongada, um antigo anseio da humanidade. Seu objetivo, desde o começo, foi o de um ego ambicioso e ávido de poder. As vitórias que Gilgamés sempre procurou voltavam-se tão só para o exterior, como as de Édipo, por exemplo. Além do mais, sua grande vitória dependia, como o mito nos mostra claramente, da posse de um produto, muito semelhante àquele que os alquimistas orientados para conquistas materiais sempre buscaram e jamais obtiveram, o cinábrio, a droga da imortalidade, que provocava uma regeneração física perpétua.

A volta de Gilgamés para Uruk, depois do seu fracasso, parece apontar para um recomeço. Teria sido sua longa jornada em vão? Ele não obteve a vida eterna que tanto desejava, objetivo último de suas aspirações. Igualar-se talvez aos deuses? Não será esse o grande sonho aquariano? Palavras de Gilgamés no poema: Ó Urshanabi, foi para isto que eu trabalhei com as minhas mãos, e para isto que o meu coração ficou sem sangue? Porque para mim nada ganhei; agora o animal da terra (a serpente) a tem em vez de mim. Já a correnteza a arrastou vinte léguas para os canais onde a encontrei. Eu achei um sinal e agora o perdi. Deixemos o barco na margem e vamos.


A  VITÓRIA  DA  SERPENTE
O poema se fecha com a “vitória” da serpente. Nada se soube se Gilgamés entendeu que a renovação da vida pertencia de fato à serpente. A conclusão a que muitos chegaram ao tomar conhecimento da sua busca é a de que nosso herói não estava ainda preparado para alcançar a imortalidade. Não entendeu a “lição” da serpente, desse “animal terrestre” como ele a chamou, que estava no centro de um complexo arquetipal de grande riqueza simbólica ao representar a vida das profundezas, reservatório de onde provinham todas as manifestações que apareciam na superfície. 

Gilgamés era um ser da superfície, fixado apenas nesta polaridade, nas conquistas de cima. O poema deixa subtendido que é a vida profunda, simbolizada pela serpente que vai se refletir na consciência diurna, da superfície. Não é por outra razão que os povos da Mesopotâmia, os antigos caldeus, principalmente, designavam vida e serpente por uma mesma palavra. Por isso, para eles, a serpente visível nada mais seria que uma fugaz encarnação do grande arquétipo urobórico, causal e atemporal, mestre do princípio vital e de todas as forças em operação no cosmos. Gilgamés não souber ler isto. 

Os antigos mesopotâmicos sempre afirmaram, comentando a história de nosso herói, que os deuses, por alguma razão insondável, não permitiram que ele conservasse a erva da vida. Uma explicação possível talvez pudesse ser tentada: ela não representaria muito provavelmente nas suas mãos uma mudança do homem interior nem corresponderia a um desejo profundo de iluminação e de expansão da consciência. Gilgamés, do começo ao fim da sua viagem, sempre permanecera fixado no seu ego. Nada mais restou então a ele senão voltar a Uruk, recomeçar a sua vida e assumir a sua condição de mortal. Como está no poema, Gilgamés cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história.


A história de Gilgamés tem astrologicamente óbvias relações com eixo Leão-Aquário e, por isso, com o domínio do fogo na sua expressão leonina. O nome Gilgamés, escrito muitas vezes como Gibilgamesh, contém o nome Gibil, um deus do fogo dos sumérios, no que se aproxima muito de Prometeu, também um sacerdote ligado ao fogo.. A história deste herói mesopotâmico parece ter servido de base para outros mitos e lendas cujos personagens são figuras representativas do descontrole do elemento ígneo no nível da vida instintiva (ariana) e racional (leonina) e do seu reflexo no polo oposto (Aquário). Prometeu, Hércules, Sansão, Noé, Tubalcain, Deucalião, Catapatha Brahmana e outros, neste sentido, “descendem” diretamente do herói mesopotâmico.

Numa síntese final da história de Gilgamés e de suas profundas ressonâncias aquarianas, não é possível deixar de se destacar a grande lição da serpente (vida subconsciente) que nosso herói não entendeu. Uma lição elaborada há milhares de anos e perfeitamente atual. Nosso herói, como fica fácil perceber para os familiarizados com uma leitura mais consequente dos mitos, também não entendeu que só lhe cabia viver como homem e não como um deus. Gilgamés fracassou e só lhe restaria morrer e deixar que cobrissem a sua cabeça com a terra, como ele mesmo reconheceu.

Utanapishtin lhe disse que jamais conquistaria a vida eterna. Não lhe caberia, como homem, outra alternativa senão a de encher a barriga, dançar, lavar-se, usar roupas limpas, cuidar do filho e tornar a sua mulher feliz. Este era o destino dos homens e com ele Gilgamés deveria se conformar. Aceitar a vida terrestre e aproveita-la. Seria a erva da imortalidade uma brincadeira dos deuses? O fato é que depois da oportunidade (?) perdida, Gilgamés se pôs a chorar. 

Como Orfeu, outro fracassado, ele não teria uma segunda chance. Vencido, deprimido e reduzido a um simples mortal, não lhe coube outra saída senão a de louvar a sua própria criação, os esplendores de Uruk. Seus discurso é doloroso, mas era a única coisa que poderia fazer: Vem, vem,
URSHANABI
Urshanabi, ver os muros da cidade, o seu terraço, toca neste trabalho feito na pedra, nos tijolos recozidos, magníficos. Os sete sábios edificaram as fundações destes muros. Olha esta cidade,  seus jardins, os terrenos à sua volta. Uruk, a minha cidade, ela é tudo isso. A lição que ficou para Gilgamés foi a de compreender que, para os mortais, a sabedoria consiste tão só em aproveitar, como puderem, a vida terrestre, já que, athanatoi (imortais), só os deuses, como diziam os gregos.

domingo, 17 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (5)


VERÃO
(MARC CHAGALL , 1938)
Não podemos deixar de lembrar ainda que alguns mitos gregos nos falam de  sistemas familiares em que as faltas e crimes dos pais são pagos pelos filhos. Acontecimentos dessa natureza estão registrados em muitas histórias e  descrevem a meu ver um mal-estar, ou melhor, uma espécie ferida que às vezes não fecha nunca, apresentada por grande parte dos capricornianos, ferida que lhes faz sentir que nunca obtiveram dos pais o que deles realmente necessitaram.   

Mitos gregos que melhor exemplificam o que acima aponto são os que nos falam da família dos átridas, também chamados de pelópidas, e da família dos labdácidas. Os primeiros têm como ponto de partida Tântalo, pai de Pélops, que por sua vez gerou Atreu, Tieste e Plístene, sendo o primeiro pai de  Agamêmnon e Menelau. Quanto à segunda, tudo começa com Lábdaco, passando por Laio, até chegar a Édipo e seus filhos. Nas duas famílias, uma corrente ininterrupta de traições, misérias, mazelas, crimes, incestos, mortes, onde um tipo de paternidade capricorniana
GEIA  E  URANO
apresenta claramente aspectos em que as ideias de fecundação se misturam às de dominação, de inibição e de autoridade indiscutível. O grande arquétipo deste tipo de paternidade tem naturalmente como modelo original a figura de Cronos, que, em última instância representa o mundo da autoridade em oposição ao das forças da mudança e da inovação. Cronos, como se sabe, é um titã, nascido de uma relação incestuosa entre Geia, a terra, e Urano, o céu, seu filho e amante. 

A mitologia grega, quando é posta em discussão a questão da paternidade (tema capricorniano, por excelência), deixa claro que no seu contexto (o das tradições patriarcais) a figura paterna é muito mais uma instauradora de valores, de leis e de regras que propriamente uma figura familiar, papel que elimina uma possível pretensão de igualdade da figura materna com ela. É nesse cenário
ÉDIPO E ANTÍGONA
(BRODOWISKI, 1784-1832
que, no mundo moderno, a figura paterna ainda se insere:  é o pai que estabelece o que é justo, bom e conveniente para a família e para os filhos, sendo considerado, por isso, como fonte de transcendência. Mas deixa ele também implícito, ao desempenhar desse modo o papel que lhe cabe, que o progresso passa pela sua supressão, tudo como também nos descrevem as histórias das dinastias da mitologia grega e de personagens como Édipo, Orestes, Teseu, Antígona e muitos outros.

É do mundo romano que nos vem um dos mitos que a tradição astrológica costuma associar a Capricórnio. Refiro-me à história de Janus, o deus bifronte dos povos da península itálica, por eles considerada como uma divindade indígete, isto é, autenticamente nacional, por oposição às importadas, as novênsiles. Janus, com efeito, tinha o seu culto celebrado no mês de janeiro, mês em que o Sol atravessa a constelação de Capricórnio. Uma das faces de Janus olhava o passado e a outra o futuro. Numa das mãos ele carregava uma chave e na outra uma foice. A chave, como sabemos, tem um duplo simbolismo, ela fecha, trazendo ideias de limite, de separação, de impedimento, de encerramento, e abre, sugerindo um
JANUS
meio de dar acesso a algo, de permitir, de libertar. Também símbolo de sabedoria, a chave, com o bastão, aparecem nas mãos de Janus como deus das portas solsticiais, exercendo assim uma função de guia (do qual o bastão é um símbolo) abrindo o caminho iniciático. O bastão de Janus dá ritmo à marcha do iniciado; sua dimensão, sua forma e sua flexibilidade correspondem sempre a medidas sagradas. Com a foice, na forma de um crescente lunar, Janus incorpora mais traços saturninos, simbolizando a sua figura tanto a morte como a esperança de um renascimento, falando-nos assim do inexorável progresso temporal.

Janus, como se sabe, é, entre os romanos, o guardião da porta principal, chamada janua. Por extensão, Janus acabou adquirindo poder sobre tudo aquilo a que o ser humano dava início, como está na palavra initium. A etimologia mais remota de Janus está numa raíz indo-europeia, ya, que tem o significado de passar, transitar. Entre os romanos, passagens abertas eram chamadas de iani. É por esta razão que o início do ano na Roma antiga foi colocado sob a tutela de Janus, no seu mês, janeiro, isto é, no signo de Capricórnio, pois neste mês o Sol, a 21 de dezembro, retomava o seu caminho de volta em direção do hemisfério norte. 

Lembremos, porém, que nem sempre foi unânime este entendimento entre os romanos, quanto ao mês que marcaria o início do ano. Segundo a tradição mítica, Rômulo havia fixado o início do ano no mês de março, em homenagem ao deus Marte, seu pai. Numa Pompílio, o segundo rei de Roma,  alterou essa disposição ao estabelecer o início do ano no mês de Janeiro e
JUNO
definindo o mês seguinte, fevereiro, meses inexistentes. Fevereiro vem de februa, um apelido da deusa Juno (Hera) enquanto esposa de Fébruo (O Purificador), uma divindade infernal. O mês de fevereiro (februaris mensis) era o último do antigo calendário romano, mês dedicado às expiações e purificações. Fébruo acabou sendo identificado como Pai Dite (Dis Pater), o equivalente do Plutão (Hades) grego, divindade em honra da qual se realizavam, no mundo romano, no período, as
NUMA   POMPÍLIO
cerimônias de mundificação e de expiação anuais. Esse mês foi instituído por Numa Pompílio desejoso de igualar o sistema romano de contar o tempo com o dos povos mais cultos (gregos e fenícios), com os quais os romanos começavam a entrar em contacto. Lembremos que Numa Pompílio (715-672 aC) é um personagem que não tem a sua identidade histórica claramente definida, aparecendo muitas vezes como uma figura mítica. 

A título de curiosidade, é de se lembrar também que o mês de fevereiro é o menor dos meses do ano. Isto se deve ao fato de no tempo do imperador Augusto (63 aC-14 dC) os seus aduladores terem proposto que o mês a ele consagrado, agosto, até então com 30 dias, tivesse a ele acrescentado mais um, para se igualar ao de julho, consagrado ao seu tio, o grande imperador Julio César, já falecido. Seria inadmissível, diziam tais aduladores, que o maior imperador romano, o divino Augusto, ficasse numa situação inferior à de qualquer outro imperador. Assim, o mês de fevereiro foi usado para que tal acerto fosse feito no calendário romano. 


O imperador Carlos Magno, todo poderoso sobre a Europa ocidental, no séc. VIII, fez o início do ano retornar à data fixada por Rômulo. No séc. XIII, a Igreja Católica tentou fazer coincidir o início do ano com o sábado de Aleluia, quando se procede à cerimônia do fogo novo, da bênção das pias batismais, e com a ressurreição de Cristo, que assegura ao homem uma promessa de vida nova e feliz. No séc. XVI, o rei Calos IX, fixou para a cristandade o princípio do ano no primeiro dia do mês de janeiro.  

Voltando a Janus, é de se ressaltar que o deus possuía um templo em Roma com doze portas, com um altar em cada uma delas. No dia 1º de janeiro, nesse templo, os romanos trocavam presentes, figos, maçãs, bolos de mel, peles de carneiro, taças de vinho etc., costume que está na base das festividades celebradas até hoje, entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Janus, no panteão romano, pode ser citado juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos que perseguiam os vivos como personificação de antepassados mortos, transformados depois em entidades protetoras da família e da casa. Janus é um desses deuses mais antigos entre os romanos, sendo, como se disse, representado com duas faces contrapostas numa cabeça, dominando as portas de passagem. Era uma divindade de caráter nacional. Numa das sete colinas de Roma, desde tempos muito remotos, havia uma cidade denominada Janiculum, em sua homenagem. 


LARES   E   PENATES

Segundo alguns mitólogos, Janus teria sido um herói que emigrara da Tessália (Grécia) para a Itália, recebendo do rei Câmeses parte de seu reino. Morrendo este último, conta o mito que Janus reinou sozinho no Lácio e que acolheu mais tarde o deus Cronos que emigrara para a Itália depois da vitória dos olímpicos. Janus dividiu seu reino com ele (como Câmeses o fizera), recebendo Cronos, entre os romanos, o nome de Saturno (nome que vem dos verbo
TERMAS   DE   SATÚRNIA
latino serere, semear, plantar). Unindo-se à deusa Ops Consivia (a Terra, semelhante à deusa Cibele, da Ásia Menor), a prodigalizadora da abundância, Saturno fundou uma cidade fortificada (Saturnia) na região do Capitólio, assumindo a condição de uma divindade civilizadora, instaurando a chamada aetas aurea (idade do ouro). 

As figuras de Janus e de Saturno acabaram por se fundir. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis ianuarius, o mês que marca a passagem de um ano a outro, como também a ele foi atribuída a tutela de todos os começos, sendo por isso invocado ao nascer de cada dia, antes de qualquer outra divindade. Na festa celebrada em sua honra, no dia 9 de janeiro, era feito o sacrifício (agonium) de um carneiro (guia do rebanho). O santuário principal do deus, o Janus Geminus ou Quirinus (quiris, quiritis, nome pelo qual eram designados  os cidadãos romanos) estava situado ao norte do Fórum, diante do templo de Vesta. A estátua de Janus bifronte foi
JANUS   BIFRONTE
colocada debaixo de um arco na porta principal da cidade, de modo que ele olhasse para a sua entrada e a sua saída. Esta atitude era considerada pelos romanos como um símbolo de sua solicitude, o que o transformava no patrono dos porteiros. Aliás, como porteiro (janitor), Janus usava o seu bastão (virga) para evitar as intrusões molestas e afastar animais inconvenientes. Nesta função de porteiro, Janus era chamado pelos sobrenomes de Patulcius, o que abre, e de Clusivius, o que fecha. O culto de Janus estava centralizado na colina Janiculum, onde o rei Anco Márcio havia estabelecido uma fortificação para proteger o caminho dos comerciantes que iam à Etrúria e ao porto do Tibre, razão pela qual Janus recebeu o apelido de Portunus. Com o tempo, Janus tornou-se não só protetor das entradas e das saídas como dos comerciantes e dos navegadores. Sua cabeça figurava na mais antiga moeda dos romanos. 





Deus ambivalente, deus dos deuses na Roma antiga, Janus assumiu a condição de deus das transições e das passagens, marcando inclusive a evolução do passado em direção do futuro, de um estado a outro, de um mundo a outro. Sua dupla face significava que ele supervisionava tudo, tanto as entradas e as saídas como olhava para o interior e para o exterior. Neste sentido, Janus é a encarnação do próprio princípio da vigilância que pode se constituir também na imagem de um imperialismo sem limites. Sua figura bifronte está sempre nos arcos, nas portas, nas galerias, nos lugares de passagem. Alguns mitólogos fazem referência a um Janus quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do universo. 

A cabeça de Janus passou a alguma culturas como o símbolo da ambiguidade, algo assim como uma lâmina que tem dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus é considerada como a união do positivo e do negativo, qualidades que estão em todas as situações e ações humanas. Entre os romanos antigos, a cabeça bifronte de Janus era também um símbolo da vigilância (pessoas que têm “olhos na nuca”). Aos poucos, porém, esse sentido se perdeu para dar lugar ao da falsidade, como no caso da pessoa que tem “duas caras”, pessoa não digna de confiança, a que oculta o seu verdadeiro eu.    

DESTRUIÇÃO  DO  TEMPLO  DE  JERUSALÉM
( NIKOLAI   GE , 1831 - 1894 )
Entre os judeus, Tevet é o mês de Capricórnio, relacionado com a montanha e, no corpo humano, com a raiva e o fígado. O nome Tevet indica uma carência, uma falta de influência divina. Foi durante este mês que o cerco que levaria à destruição de Jerusalém começou; durante o mês de Tamuz, brechas foram abertas nas muralhas da cidade; em Av, o templo foi destruído. Assim, Tevet (Capricórnio), Tamuz (Câncer) e Av (Leão) são considerados pelos judeus como meses de influências negativas.

CHANUKÁ  ( CHAGALL , 1887 - 1985 )
Tevet é o décimo mês lunar do calendário hebraico a contar de Nissan, mês do Êxodo, ou quarto mês a partir da festa de ano novo (Rosh ha-Shaná). Tevet começa geralmente na segunda metade de dezembro. A festa de Chanuká (festa das luzes) estende-se até os primeiros dias deste mês. Em seu oitavo mês foi completada a tradução da Bíblia para o grego pelos setenta e dois sábios. A história desta tradução está narrada numa obra grega (carta de Arísteas). Por ela ficamos sabendo que a Torá, no séc. III aC, foi traduzida e passou a fazer parte da biblioteca do imperador egípcio Ptolomeu Filadelfo, em Alexandria. O sumo sacerdote de Jerusalém enviou setenta e dois sábios (seis para cada tribo) que fizeram a tradução, que impressionou bastante o imperador. Os rabinos consideraram, entretanto, a tradução uma tragédia, pois não a viram como correta, apenas um texto para uso dos gentios. No dia dez de Tevet se realiza um jejum público para lembrar o cerco de Jerusalém pelos babilônios, cerco este que deu origem à destruição do primeiro templo. Este dia de jejum é o único no calendário judaico que pode cair numa sexta-feira. 

O elemento terra aparece associado a Tevet, simbolizando o vagaroso poder de materialização que nele predomina. Entretanto, é dentro da terra que o poder de sustentação da vida está contido, assim como é dentro do fígado que está o sangue novo, fonte de energia do corpo humano. Segundo algumas tradições, os meses de Tevet (Capricórnio) e de Shevat (Aquário) correspondem aos dois olhos. Este entendimento decorre do fato, segundo tais tradições, de serem os olhos humanos os órgãos que mais facilmente afastam o homem da espiritualidade, segundo o ditado: O olho vê, o coração deseja.

Segundo a astrologia judaica, os olhos correspondem a dois meses do verão, Tamuz e Av, e, por essa razão, por ação reflexa, se ligam a dois meses do inverno, Tevet e Shevat. O atributo natural de Tamuz é a visão, sentido dependente do olho, lugar onde o mal encontra a sua primeira base de influência. Este signo aparece associado ao caranguejo, lembrando, por isso, movimento e flutuação. 

O astro que se associa a Tevet é Shabtai, Saturno, nome que etimologicamente lembra limitação, inatividade, razão, confirmando-se as tradições, pelas quais ele dá lugar a que as influências destrutivas do mal se manifestem. No seu aspecto positivo, Saturno representa a compreensão profunda, a erudição, e a contemplação, associada ao Shabat, na medida em que refreia a atividade mundana para permitir a experiência do transcendental. A expressão negativa deste signo, segundo a astrologia judaica, está no fato de ser Tevet para os cristãos um mês festivo, pois está na base da religião cristã, religião que quanto mais se difundia maior a perseguição e o sofrimento dos judeus.

A tribo relacionada com este signo é a de Dan, que tem a ver com o poder do severo julgamento. Dan, nome que quer dizer julgamento, é o sétimo filho de Jacó e o primeiro de Bilha (escrava de Rachel), ancestral de uma pequena tribo que se instalou em Leshem, perto da nascente do rio Jordão, no extremo norte de Israel. Sansão foi o
ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( MARC  CHAGALL )
mais célebre dos descendentes desta tribo. No acampamento dos judeus, no deserto, a tribo de Dan ocupava um território onde o Sol se escondia, o norte, associado a Satã, ao mal, lugar do infortúnio, de obscuridade e morte, como o atesta Jeremias: é do setentrião que a infelicidade se espalhará  sobre todos os habitantes do país. Em muitas catedrais e igrejas cristãs, a porta do norte é conhecida como a porta do Diabo. O norte, para os judeus, é uma direção associada à acumulação de riqueza; foi dela, conforme explica a Midrash (método de interpretação bíblico), que a tribo de Dan recebeu o ouro com o qual contribuiu para a confecção do bezerro de ouro. 


Segundo os judeus, os nascidos no mês de Tevet costumam demonstrar uma forte inclinação para amealhar riqueza material. Esta tendência está expressa na letra Ayin, a letra deste mês, bem como está associada ao olho direito. Os judeus, durante a sua vida, devem prestar especial atenção neste mês à função espiritual da visão, conforme está em Isaías (cap. 40, 26): levantai vossos olhos ao alto e vede que criou esses corpos celestes: quem faz marchar em ordem o exército das estrelas e as chama a todas pelos seus nomes: pela eficácia da sua fortaleza, e força, e poder, nem uma só faltou. 

O mês de Tevet tem como atributo emocional a raiva (rogez), que tem o mesmo valor numérico da palavra Yirah, orgulho e consciência inspirada. Isto pode ajudar alguém a direcionar a energia de sua raiva orgulhosa contra a inclinação ao mal. A palavra raiva (rogez) é também numericamente equivalente à palavra poder (gevurah). O Mal usa o poder para vencer a santidade de Israel. A vitória sobre os atributos negativos do mês de Tevet pode trazer a uma pessoa um grande crescimento espiritual. A letra Ayin, acima mencionada, conforme certas tradições, representa também o poder de Esaú; sua forma, agachada e curva, simboliza a queda de Esaú.

Esaú, lembremos, em hebraico é peludo, felpudo, filho de Isaac e de Rebeca, apelidado O vermelho, considerado como o ancestral dos edomitas. Ávido de poder, trocou a sua primogenitura com seu irmão gêmeo e mais novo, Jacó, sendo depois privado da benção

SITRA   ACHRA 
paterna em razão de conflitos com o irmão. Assassino, estuprador e adúltero, Esaú morreu quando um neto de Jacó, durante os funerais deste, cortou-lhe a cabeça. Entre os judeus, Esaú simbolizou primeiramente o cruel império romano e depois, na Idade Média, o mundo cristão, pela sua postura antagônica com relação aos descendentes de Jacó. Entre os místicos, Esaú representa o Sitra Achra, o lado do Mal.

Os filisteus (povo semítico, talvez originário de Creta ou do sul da Ásia Menor; por volta de 1.200 aC), instalaram-se nos territórios sírios e palestinos e no norte do Egito; aniquilaram os hititas, fundaram várias cidades, dente elas Gaza; exerceram sempre muita pressão sobre Israel, o que contribuiu para fazer dele uma monarquia; no final do séc.VIII aC, foram submetidos pelos assírios), astrologicamente, são representados para os judeus pelo signo de Capricórnio. Desejando purificar a má influência da origem de sua mulher filisteia, lembram os judeus que Sansão, da tribo de Dan, deu-lhe de presente uma cabra.

Segundo a astrologia judaica, a influência de Capricórnio atinge negativamente Israel só se negligenciados ou esquecidos os preceitos da Torá. Particularmente importante neste mês é a influência do patriarca José, cuja história (sua estada no Egito) é sempre lida ao final do shabat, destacando-se a insegurança que ele deve ter experimentado enquanto vivendo no país dos faraós, um traço capricorniano, segundo os judeus. Durante os meses de Tevet e Shevat são lidos também trechos do livro do Êxodo. A influência de Sagitário em Tevet é representada por José e é enaltecida na festa da Luzes.


CABRA
Para os judeus, a cabra é, dentre todos os animais que vivem em rebanhos, o primeiro a avançar quando chega a um pasto. Essa afirmação está baseada no Talmud, maneira de agir que se confunde com o próprio processo da criação. Antes havia trevas, agora há luz, concluem os judeus. A natureza da cabra, no sentido de tomar a dianteira, assemelha-se à natureza dos capricornianos. Esta postura, porém, tanto pode significar, como eles a consideram, impulso em direção da espiritualidade como em direção da impureza material. Quanto ao primeiro, há que se remover todos os obstáculos quando a meta é a vida espiritual. A grande santidade de Capricórnio está no valor numérico da palavra gdee (cabra), dezessete, o mesmo valor numérico da palavra tov, divindade. 

É preciso lembrar que os judeus não vêem o bem e o mal como forças independentes, mas produzidas pelo próprio Deus. Encontramos em Isaías: Eu formo a luz e crio a escuridão. Eu faço a paz e crio o mal. Muitos rabinos recomendam que uma bênção
SAMAEL
deve ser proferida tanto na ocorrência do bem quanto do mal, pois tudo o que Deus faz é feito no sentido do bem. Na Idade Média, muitos filósofos judeus consideravam que o mal era tão somente a ausência do bem. A Cabala, entretanto, afirma que a fonte do mal está no Sitra Achra, o Outro Lado, sempre em conflito com as forças do bem. O Sitra Achra é o nome genérico das forças demoníacas, estruturadas de modo sefirótico. Esse Outro Lado não tem energia própria, sendo um parasita da luz divina, uma espécie de antimatéria. É governado por Samael, príncipe dos demônios, e por Lilith, gênio feminino do mal.   

O mal que os filisteus sempre representaram para o povo judaico sempre apareceu associado a Lilith e ao poder que ela tem sobre o reino do desejo. Dalila, que Sansão tentou subjugar, é uma manifestação desse poder. Sansão, como sabemos, é um herói bíblico nazirita que viveu no tempo dos Juízes, oriundo da tribo de Dan. Dotado de força extraordinária, realizou proezas que o
SANSÃO MATA LEÃO (CHAGA
tornaram célebre entre o povo de Israel. Matou um leão com as suas próprias mãos e pôs em fuga os seus inimigos, atacando-os com a queixada de um asno. Sua mãe foi avisada pelo anjo Uriel que teria um filho, a ser educado no caminho da religião, pois ele livraria Israel da opressão dos filisteus. Vitimado, porém, por violentas paixões sexuais, acabou sendo entregue aos filisteus por uma de suas amantes, Dalila. Aprisionado, seus olhos foram vazados, sofrimento que lhe coube como uma punição, um castigo divino, assim entendiam todos, por ter sempre cedido às tentações da luxúria que eles lhe traziam. Enquanto aprisionado em Gaza, cego, as mulheres iam visitá-lo na sua cela, para com ele ter relações sexuais, na esperança de  ter um filho tão forte quanto ele. Sabemos que Sansão fez com que o templo filisteu desmoronasse, rompendo as colunas que o sustentavam. Sua morte, para os judeus, teve sempre a característica de um martírio altruísta.


Para a astrologia judaica, o nome de cada signo ensina o processo pelo qual a alma de cada um dos tipos zodiacais pode ser aberta para o divino. A imagem de uma flecha sendo disparada (Sagitário) guarda analogia com a saída da alma do mundo infernal. Esta flecha encontra a sua estabilidade em Tevet, Capricórnio, o tempo de autodisciplina e de preparação para a iluminação. Este processo alcança o mês seguinte, Shevat, Aquário, com a ideia de retidão. 

Negativamente, Tevet pode trazer influências de caráter depressivo, que levem à solidão, ao auto-confinamento. As letras da palavra gdee (cabra) podem ser arranjadas de modo a formar geed, falo. Para os judeus, o uso inadequado deste último, no sentido de desejo, gera ocasiões em que o bem é removido de sua normal posição neste signo. O símbolo da pureza capricorniana é o tsadik (homem justo, probo, personificado como José), cuja energia possibilitou a vitória que a festa das Luzes simboliza, corrigindo-se o que de mal houver em Tevet. José, como se sabe, venceu a tentação do olhar que, dentre outras coisas, leva ao adultério. O poder para a vitória sobre esta tentação está escondido no povo de Israel, sendo ele chamado por isso de reminiscência de José pela tradição religiosa.



CONSTELAÇÃO   DE   CAPRICÓRNIO 

A constelação de Capricórnio estende-se hoje de 2º a 24º Aquário, sendo suas estrelas pouco significativas astrologicamente. Sua principal estrela (alfa) é Giedi, também chamada de Algedi, num dos chifres da cabra, de magnitude ligeiramente superior a 3, hoje a cerca de 3º10´ de Aquário. Este nome é retirado de Al Jady (A Cabra), o nome árabe da constelação. Ptolomeu viu nela influências da natureza de Vênus e de Marte. Há nela também alguns traços uranianos, que sugerem acontecimentos inesperados, às vezes violentos e agressivos, dependendo, é claro, de sua posição e aspectos. A estrela beta de Capricórnio é dupla, Dabih Major e Dabih Minor, na base do chifre. A estrela gama é Nashira, a Afortunada, na região da cauda da figura. Com exceção da primeira estrela mencionada e de Deneb Algedi, estrela delta, as estrelas de Capricórnio não têm maior expressão astrológica. A rigor, a única levada em consideração é esta última, a 22º50´ de Aquário, situada na cauda da cabra, com magnitude 3,1. Entre os árabes é Al Dhanab al Jady (a cauda da cabra). Ptolomeu a relacionou com Saturno e Júpiter, lembrando legalidade, tempo, justiça, sabedoria que protege e que auxilia, vontade de ajudar liderando. Para que estas
LE   VERRIER
características ganhem relevo e destaque é necessário que Deneb Algedi mantenha de algum modo relações positivas com o signo de Libra e com planetas que nele se encontrem. Um fato curioso com relação a Deneb Algedi é que o astrônomo Le Verrier manifestou sempre seu descontentamento com relação às efemérides de Urano, descoberto em 1.781.
GALLE, 1912-1910



Achava Le Verrier, na década de 1840, que havia um elemento perturbador da órbita uraniana, uma massa desconhecida, a 5º na direção leste de Deneb Algedi. Poucos anos depois (1846), com base nesta indicação, o astrônomo Galle descobria o planeta Netuno.









  

quarta-feira, 13 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (4)

          
ATLAS ( ARTUS QUELLINUS, SÉC.XVII )
Embora a história do titã Atlas seja muitas vezes, sob o ponto de vista astrológico, aproximada de temas taurinos em virtude de características de sua personalidade e destino (suportar a abóbada celeste nos ombros para que ela não desabe sobre a Terra), seu mito tem também, e talvez mais, estreita relação com o universo capricorniano. Da sua relação com Touro ficou, por exemplo, na anatomia humana, o nome da primeira vértebra cervical, atlas, que se articula com a região occipital do crânio e o sustenta. Em português, cervix (nuca, em latim) é toutiço, cachaço, nuca, pescoço. Cervicartrose é o nome de problemas (artrose) nessa região do corpo.   

A relação que encontro entre Atlas e Capricórnio está no seguinte fato: toda vez que aparece um mito que narra uma história de petrificação, de coagulação, sob o ponto de vista alquímico, é possível a meu ver evocar tal relação. É o caso de Atlas, filho de Jápeto e da oceânida Clímene, irmão de Prometeu, Epimeteu e Menécio, sobrinho de Cronos,  este figura máxima da segunda dinastia da mitologia grega. Lembro, a propósito, que atlante, na arquitetura grega, era uma figura ou a metade de uma figura humana, frequentemente masculina, que substitui ou decora um membro, isto é, cada uma das partes de uma obra ou de um todo arquitetônico.


HERÓDOTO
Quando de seu retorno do ocidente, aonde fora matar a Medusa, Perseu petrificou Atlas, mostrando-lhe a cabeça do monstro, a fim de puni-lo não só em virtude dos crimes por ele cometidos no seu passado (a luta contra os olímpicos, ou seja, a matéria que se atreveu a subjugar o espírito), como por sua atitude nada hospitaleira com relação a Hércules quando da execução por parte deste filho de Zeus de seu terceiro trabalho.   


GASTON   BACHELARD
Gaston Bachelard nos falou de um “complexo de Atlas” que, em termos astrológicos, é em última instância uma luta pela verticalidade. Bachelard associa a vértebra atlas ao término do movimento de todas as demais vértebras em direção da verticalidade, sendo o lugar dessa vértebra o ponto onde “o ser se revolta contra a sua sorte.” O complexo de Atlas é definido normalmente em termos psicológicos como uma tendência instintiva que alguém apresenta no sentido de acumular responsabilidades e tensões  nessa região do corpo, nos ombros, traduzida essa tendência, muitas vezes, pela expressão “carregar o mundo nas costas.” As tensões assim acumuladas costumam atingir o tônus do trapézio, o principal músculo que sustenta a cabeça. Daí, dores no pescoço, na nuca, na cabeça, bruxismo, tensão generalizada, enfim. Tudo isso provoca muitas vezes o esgotamento dos estoques de neurotransmissores cerebrais ocasionando estados, no geral, altamente depressivos.

Muitos capricornianos, como se sabe, costumam aderir a este complexo de Atlas sem perceber como isto acontece, vivenciando-o através de crises de responsabilidade, remorso, culpa, renúncia, fatalidade, destino etc. Não nos esqueçamos que Saturno, o planeta de Capricórnio, tanto é previsão, precaução, responsabilidade, seriedade, maturidade de espírito, vontade e reflexão como, além das características negativas acima mencionadas, é o astro que através do intelecto regula a utilização da memória, das funções inibidoras e que provoca o retardamento dos reflexos. Gaston Bachelard, lembro, pôs em evidência com muita propriedade a simbólica da petrificação, nela compreendida as imagens do rochedo, da montanha, do frio, do gelo, da neve e da própria terra.  

Todo capricorniano parece saber que a ameaça da petrificação sempre o ronda. É por isso que ele sabe que tem que se movimentar, se mexer, trabalhar, avançar. Parar, para muitos (a maioria ?) capricornianos, é mergulhar na depressão petrificadora. O tema alquímico da coagulatio é muito importante no universo capricorniano. Esta talvez a razão maior pela qual os do signo tenham a reputação de possuir “tão pouca imaginação”, ao contrário dos nativos de Câncer, o signo que a eles se opõe.

Neste sentido é que podemos dizer que o capricorniano superior se liga muito à imagem do rochedo e ao que dela podemos depreender simbolicamente. Com efeito, por causa de sua dureza, de sua fixidez, da sua permanência e da majestade de suas formas e, muitas vezes, das suas dimensões enormes, a pedra, o rochedo, a montanha, no caso, sempre impressionou os homens desde tempos pré-históricos. Por essa razão, em muitas culturas os rochedos e as montanhas foram transformados em objeto de culto, cujo vestígio pode ser encontrado nos dólmens, menires e pedras sagradas que se espalham por toda a terra. 


DÓLMENS - STONHENGE


FADAS
(M. TARRANT, 1888 - 1959)
Os dólmens são pedras enormes, dispostas verticalmente, agrupadas duas a duas (bilítico), três a três (trilítico) e assim por diante. Segundo alguns pesquisadores (embora haja muitas dúvidas), indicavam necrópoles. Muitos dólmens, ao evocar a forma de casas de pedra, eram conhecidos como residência de fadas e de korrigans (do bretão, korig, anão, pequeno ser), que dançavam nas noites de luar à sua volta. Sob o ponto de vista capricorniano, todavia, o que nos interessa são os menires, dos quais me ocupo a seguir. 


OS   KORRIGANS  -  CARTÃO   POSTAL
  
MENIRES DE CARNAC
A relação dos menires com Capricórnio se evidencia e reforça se soubermos que na origem o menir (men, pedra; hir, longa, na língua bretã) é um monumento megalítico, uma enorme pedra alongada, de altura variável (até cerca de 11 metros), fixada verticalmente no solo, juntamente com uma pedra deitada, sempre considerada como símbolo do renascimento do Sol ou do solstício de inverno. O menir representa também o mais antigo símbolo do andrógino (a junção
LINGAM  E  YONE
das duas pedras brutas), composto pelo princípio viril, a força ativa de um lado, e a matéria, princípio feminino, passivo, e gerador, de outro lado. Na Índia, são, respectivamente, Purusha (espírito) e Prakriti (matéria), ou o lingam e a yone, uma pedra colocada verticalmente dentro de um círculo na terra. Símbolos como este encontram-se em toda as primitivas civilizações.

Uma antiga tradição, atestada ainda no séc. XIX, na França e na Irlanda, ligava os menires a cultos de fecundidade e ao casamento de modo especial. Para obter um esposo, muitas jovens depositavam oferendas junto dessas pedras, ornando-as de guirlandas de flores. Para engravidar, muitas esposas, em razão da sua forma fálica, se esfregavam nessas pedras. Com o avanço do cristianismo no mundo celta, essas pedras começaram a ser chamadas de pedras do Diabo, lançando-se sobre elas toda espécie de descrédito no sentido de destruir o antigo culto que lhes era prestado. 

VIA   LÁCTEA
O esoterismo ismaelita usa o rochedo como um símbolo da condensação, na terra, da parte mais densa da matéria “decaída”, quando da rebelião dos anjos. Na antiguidade grega, os pitagóricos e platônicos antes e os neopitagóricos e neoplatônicos depois, estes últimos já no mundo greco-romano alexandrino, discutiram esta questão através das chamadas "portas do céu". Afirmavam eles, de um modo geral, que no zodíaco há duas portas, situadas nos dois pontos opostos em que a Via Láctea corta o círculo zodiacal e que limitam o curso do Sol. Um ponto está no trópico do verão, no signo de Câncer, sendo chamado de a “porta dos homens”, pela qual se dá a queda das almas na Terra. Outro ponto está no trópico hibernal, no signo de Capricórnio, ao qual dão o nome de “porta dos deuses”, pelo qual as almas fazem o seu retorno ao éter divino. 


HOMERO
Lembremos que Homero procurou simbolizar tudo isto com a alegoria da caverna de Ítaca ou das Ninfas, ideia retomada por Porfírio, que chamou o lugar de Espelho do Mundo, lugar de entrada das almas na Terra. Seduzidas pela enganadora atração da matéria, fala-nos Porfírio, as almas que para cá vieram perderam as suas asas. Chegando à referida caverna (signo de Câncer), nela encontram urnas e cântaros de pedra (a sema, prisão, dos órficos, na expressão soma sema, corpo, prisão da alma), uma metáfora dos corpos terrestres que deverão animar. Na sua caminhada, as almas, entre os signos de Câncer e de Leão, bebem da “taça de Dioniso”, também chamada de “taça do esquecimento” e de embriaguez pelo mundo sensível, ideias que muito nos lembram o conceito de Maya, dos hinduístas. 

Como resistência e obstinação, o rochedo é uma síntese das virtudes dos capricornianos superiores, muitas vezes inconsciente. O rochedo desafia qualquer tentativa de penetração, de apagamento do que foi gravado. É por esses motivos certamente que muitos escultores têm um modo de ser tão saturnizado, como Rodin, por
GOETHE NO CAMPO SAGRADO
( J. H. W. TISCHBEIN, 1751 - 1829 )
exemplo, escultores que como ele têm a paixão pelo material mais resistente, mais duro, granitos, mármores ou madeiras, pois só esse material é digno de seu desafio titânico. Lembro que foi um Virgo saturnizado, Goethe, que associou o granito à educação de uma vontade, não para torná-la inabalável, mas para fazê-la resistir aos golpes e às injúrias do destino. É evidente que ao nos envolvermos com estas questões sempre podemos ficar a um passo da pobreza despojada, do espaço contraído, reduzido a uma cela individual, ficarmos prisioneiros do frio, do gelo e da morte, perigos que sempre ameaçam os capricornianos.



CÍCERO
Há uma frase de Bachelard que, acredito, nos ajuda, e muito, a aumentar a nossa possibilidade de compreensão do signo de que tratamos. Num certo trecho de sua obra sobre o elemento terra ele afirma que o rochedo é um grande moralista. Isto é, o rochedo é um ser moral. A filosofia costuma definir a moral (palavra criada pelo capricorniano Cícero para traduzir do grego a palavra ethikos) como aquilo que concerne aos costumes, às regras de conduta admitidas numa época por uma determinada sociedade. Muitos dos melhores trabalhos sobre a Moral fazem parte do mundo capricorniano. 

Costumes, conduta, convivência, regras, limites, a Moral é certamente um saber capricorniano. Concretamente, a Moral deu origem no Direito à chamada “pessoa moral”, que tanto tem a ver astrologicamente com Libra como com Capricórnio. Enquanto a “pessoa física” está relacionada com o corpo humano como manifestação, uma individualidade biológica, uma função psicológica pela qual um indivíduo se considerada um eu, a “pessoa moral” se refere a esse indivíduo na medida em que ele possui qualidades que lhe permitem participar da sociedade segundo uma noção de valores, que é dada por símbolos como a balança e a régua. A primeira é o instrumento da avaliação, da pesagem, do julgamento, sendo a outra, por excelência, o instrumento da construção. É a régua que nos permite estabelecer o plano diretor dos edifícios, inclusive o social, e verificar quanto à exatidão da sua construção. 

Lembremos que a Moral tem por base aquilo que o tempo consagrou, o chamado direito consuetudinário (consuetudinarius, em latim, é o habitual, o costumeiro, o usual), o direito fundado nos costumes, na prática, e não nas leis escritas. Não foi por acaso que
CARTAS  PERSAS
Montesquieu (Charles-Louis de Secondat), um capricorniano-aquariano, apresentou na Academia de Ciências de Bordeaux trabalhos sobre Anatomia (glândulas renais), sobre Física (o eco, a transparência dos corpos e a lei da gravidade). Sua grande contribuição, entretanto, está no campo da Moral, nos trabalhos que escreveu sobre os costumes, os hábitos, a política e a religião, publicados, dentre outros, com títulos como O Espírito das Leis e As Cartas Persas.

Quando alguém se comporta moralmente, isto significa que este alguém, antes de pensarmos em leis, tem uma conduta que observa as regras admitidas numa determinada época, numa sociedade determinada. Um fato moral é desejável para uma determinada sociedade quando ele se situa no plano médio do conjunto de seus valores, permitindo a realização de uma vida social mais justa, mais humana. 

De um modo geral, a literatura produzida por capricornianos, inclusive a filosófica, privilegia as memórias, os diários, as máximas, a historiografia e a metafísica (La Rochefoucauld, Michelet, Saint-Simon, Maine de Biran etc.). Sempre uma ideia de
MOLIÈRE
( P. MIGNARD, CA.1658 )
ir ao fundo das coisas, às bases, para verificar como tudo se organiza a partir delas. Lembro que foi de um tipo capricorniano mercurizado como Molière que, no séc. XVII, vieram as melhores críticas aos costumes e à vida moral do ser humano de todos os tempos. Kepler, nome importante tanto na astronomia como na astrologia, é outro exemplo; ele nos deu, com as suas leis empíricas, uma descrição exata e coerente dos corpos celestes. Nas artes plásticas, a figura solitária e amargurada de Cézanne é outro exemplo, sempre nos atraindo pelo conjunto de sua obra, na qual se destaca a sua grande obsessão pictórica, o monte Saint Victoire, em Aix-en-Provence, tema de cerca de vinte telas. Se nos voltarmos para exemplos nossos, obrigatória a referência a dois escritores, um poeta, João Cabral de Melo Neto (A Educação pela Pedra), e um romancista, Graciliano Ramos (Vidas Secas), que fazem parte do mundo de Capricórnio. 

AS   GÓRGONAS
( 1902 , G.  KLIMT )
O motivo da petrificação, tão caro a Capricórnio, encontra uma de suas melhores ilustrações na história do herói Perseu. Este herói, como se sabe, destacou-se por ter vencido, com o auxílio dos deuses, um dos maiores monstros da mitologia grega, a Medusa, uma das três Górgonas (As Apavorantes), filhas dos monstros marinhos Forcis e Cetus. Ésteno e Euríale eram as outras duas irmãs da Medusa. Das três, a única realmente perigosa era está última; seu nome vem de um radical indo-europeu, med, que traduz uma ideia de medida, moderação. A Medusa, bem como suas irmãs, tinham a cabeça coberta de serpentes, presas de javali como dentes, mãos de bronze e asas de ouro. Quem trocasse olhares com a Medusa ficaria petrificado. Assim, ao vencê-la, Perseu venceu a petrificação. O tema da petrificação, alquimicamente, se liga à operação chamada coagulatio, cujo simbolismo pertence ao elemento terra. O símbolo maior da coagulatio é, como se sabe, o chumbo, metal de Saturno, de Capricórnio, pois, associado a ideias de depressão, peso, gravidade, limitações mortificantes, vincula-se sempre, psicologicamente, às fortes pressões das particularidades da vida pessoal de alguém.


DÂNAE  ( TICIANO  VECELLIO , 1488 - 1576 )

Astrologicamente, com base naquilo que o mito nos narra, Perseu parece ter, efetivamente, superado, ainda na juventude, a ameaça de coagulação que, na sua vida, o eixo Câncer-Capricórnio (casa IV e meio-do-céu) poderia representar. Um dos problemas deste eixo, é importante salientar,  Perseu já o trazia superado (?) quando nasceu, pois não teve um pai mortal, como era típico na genealogia dos heróis gregos ou não. Era apenas filho de Zeus, pois, antes de concebê-lo, Dânae não conhecera homem algum. O grande problema familiar do nosso herói ficou então centrado diretamente nas suas relações com a mãe e indiretamente com o avô materno. 

Fazendo um breve retrospecto da história, recordemos que um oráculo havia sentenciado que se Dânae tivesse um filho ele destruiria o avô materno, Acrisio. Este, embora tenha tomado todas as providências para evitar o nascimento de um neto, não o conseguira. Zeus, apesar de conhecer a profecia oracular, obviamente, resolveu (os desígnios dos deuses são insondáveis!) ter um filho com a belíssima princesa. Para tanto, penetrou na inexpugnável fortaleza em que o pai a encerrara. Tomando a forma de uma “chuva de ouro”, insinuou-se o Senhor do Olimpo pelas frestas do telhado do edifício, conseguindo chegar ao leito da jovem e, antropomorfizando-se, a fecundou. Dânae, ciente de seu papel nessa epifania (o de que fora escolhida para ser mãe de um ser semi-divino), conseguiu trazer o filho à vida sem que o pai o soubesse. Um dia, porém, Acrisio tomou conhecimento do ocorrido e, embora Dânae tenha tentado convencê-lo da paternidade divina do filho, ele não aceitou a história da filha, mandando  que ela e o menino fossem lançados ao mar, dentro de uma arca. Empurrada pelas correntes marinhas, a arca chegou à ilha de Sérifo, sendo recolhida pelo irmão do seu rei. A mãe e a criança foram levadas para o palácio real, sendo Perseu adotado como filho do rei Polidectes. Vivendo na corte como um príncipe, belíssimo, forte, inteligente, protegia Perseu com muita habilidade a mãe das investidas do rei que sempre desejou tornar Dânae sua concubina.

PERSEU  E  A  CABEÇA  DA  MEDUSA  ( DETALHE )

Certa feita, numa festa de aniversário de Polidectes, os amigos desejaram lhe oferecer um presente real, um cavalo, um soberbo animal como não havia outro no reino. Perseu, contudo, tomando a palavra, prontificou-se a oferecer ao rei algo inusitado, a cabeça da Medusa, monstro horripilante que aterrorizava o país. Todos se espantaram, diante da ousadia do jovem. Polidectes aceita o presente, impondo, porém, uma condição: se Perseu não lhe trouxesse a cabeça do monstro, ele se apossaria de Dânae. Tomando conhecimento do que transcorrera na referida festa, Dânae se desespera, temendo pelo destino de seu filho, ainda muito jovem. Tenta dissuadi-lo de tão perigoso intento, chora, descabela-se, lança-se ao chão, ajoelha-se. O jovem, contudo, embora sofrendo muito, manteve-se firme, deixando a mãe, fazendo-lhe muitas recomendações de cuidado quanto às intenções de Polidectes.   

Como sempre acontece em tais situações, e em se tratando de um filho de Zeus, o candidato a herói é protegido por entidades ou divindades, os chamados “guardiães do limiar”, que o ajudam, de um lado, a vencer possíveis dúvidas ou temores e, de outro, a que seja evitada a hibrys, sempre perigosa, isto é, os descomedimentos, os exageros, o orgulho, características contraditórias, mas muito comuns em heróis semi-divinos. Hermes e Palas Atena acorreram no sentido de auxiliar o jovem. Aconselhado por eles, Perseu se dirigiu primeiramente aos confins do ocidente, indo além das terras dos Cimérios, lugar jamais alcançado pelos raios do Sol, onde viviam as Greias, conhecidas como as Velhas, irmãs mais velhas das Górgonas. Vencendo-as, instruído pelas duas divindades tutelares, Perseu conseguiu delas a informação de como chegar a umas ninfas que tinham em seu poder objetos que muito facilitariam a sua tarefa. 

PÉGASO
Obteve Perseu os referidos objetos sem maiores problemas. Eram eles: um par de sandálias voadoras, um saco (alforje) para guardar a cabeça do monstro e um capacete que tinha a propriedade de tornar invisível quem o usasse, como o do deus Hades. Hermes já lhe havia fornecido uma espada maravilhosa, afiadíssima, e Palas Atena lhe dera o famoso escudo de bronze, tão polido quanto o melhor espelho de cristal. Penetrando na imensa caverna dos monstros pelo ar, calçado com as sandálias voadoras, pairando acima deles, valeu-se do escudo polido para devolver o olhar do
PALAS  ATHENA
monstro, que imediatamente ficou petrificado, do que se aproveitou o jovem para, com um certeiro golpe, decepar a sua cabeça, guardada no alforje que levava. Do pescoço ensanguentado da Medusa nasceram, no ato, dois seres: o cavalo alado Pégaso e o gigante Crisaor, ambos filhos que ela gestava dentro do seu corpo, fruto de relação que mantivera com o deus Poseidon. A cabeça da Medusa, posteriormente, entregue a Palas Atena, foi colocada no seu escudo. 

Com a cabeça da Medusa no alforje, Perseu tomou o caminho o caminho do oriente, chegando à Etiópia. Encontrou o país sob a ameaça de devastação. A rainha Cassiopeia ousara proclamar-se mais bela que as nereidas, mais bela que Hera, afirmavam alguns.
ANDRÔMEDA (G. DORÉ, 1832-1883)
Era preciso punir a rainha por tamanha ousadia. Poseidon enviou um monstro marinho para destruir o país. Diante da iminência do desastre, um oráculo foi consultado. A sentença: o país seria poupado se uma vítima expiatória fosse oferecida ao monstro. Pressionado pela população do reino, Cefeu, o rei, mandou prender a filha, a princesa Andrômeda (a que comanda o homem, a que dá a medida do homem, em grego), num penhasco à beira-mar, para esse fim. É nesse momento que Perseu chega ao país. Viu a cena e ficou profundamente tocado; lágrimas vieram-lhe aos olhos; apaixonou-se pela princesa, que, na sua dignidade calada, além de belíssima, era, sem dúvida, um exemplo inexcedível de piedade filial, pois espontaneamente oferecera-se, sem dramas, para salvar o reino e o país.        

Perseu, a essa altura já muito famoso por ter vencido a Medusa, se propôs a salvar a princesa, fazendo um acordo com Cefeu e Cassiopeia. Salvá-la-ia se ela lhe fosse dada em casamento, o que é aceito. Com as suas armas e sua habilidade, Perseu não teve muito trabalho para liquidar o monstro marinho. Ao se apresentar aos pais da jovem para tomar posse de seu “tesouro”, nosso herói não contava com a intromissão de um irmão de Cefeu, tio da moça, portanto; alegava ele que Andrômeda já lhe fora prometida pelos pais. A luta é encarniçada, mas Perseu a todos venceu, inclusive o exército de Cefeu, que, arrependido, não desejava ver a filha casada com seu irmão.

Perseu e Andrômeda se dirigiram para Sérifo. Toma nosso herói conhecimento que Polidectes expulsara o irmão do reino e que tentara violentar sua mãe. Exibiu ao rei e ao seu grupo a cabeça da Medusa, petrificando a todos. Através do deus Hermes, devolveu os objetos que recebera das ninfas e entregou a cabeça da Medusa à
LARISSA , RUÍNAS 
deusa Palas Atena. Em companhia da mãe e de Andrômeda, não tomou o caminho de sua terra natal, Argos, pois temia o cumprimento do oráculo; dispensou os soldados que o acompanhavam e anonimamente dirigiu-se para Larissa, cidade distante da outra. Como um cidadão comum, inscreveu-se nos agones que se realizavam no ginásio local. Na prova do disco, lançou-o com tal força que a peça, escapando-lhe das mãos, atingiu a cabeça de um espectador que estava na tribuna de honra, matando-o. Era seu avô, que a convite do rei de Larissa, assistia aos jogos. Cumprira-se o oráculo. Identificando-se, Perseu, depois de prestar as honras fúnebres a Acrisio, uma solenidade da qual participaram todos os habitantes da cidade, se dirigiu com Dânae e Andrômeda a Tirinto, onde assumiu o trono, entregando o reino de Argos ao primo Megapentes, mediante uma permuta.


TIRINTO , SÍTIO ARQUEOLÓGICO
Segundo o mito, a história de Perseu terminou aqui; em companhia da mãe, ele e Andrômeda tiveram muitos filhos, vivendo felizes no palácio de Tirinto. Dos filhos que tiveram, sete ao todo, ficaram no mito apenas Electrion (pai de Alcmena, mulher de Anfitrion, mãe de Hércules e de Íficles), Estênelo (rei de Micenas), Helio (filho caçula, que fundou a cidade de Helo, na Lacônia, da qual se tornou herói epônimo) e Gorgófone (a primeira mulher que, no mito, tendo enviuvado, uniu-se em segundo matrimônio, o que era proibido até então).  

Como se pode depreender desta história, o abandono do regaço materno por Perseu é um exemplo típico daquilo que os gregos antigos chamavam de efebia. Na Grécia, em Atenas especialmente, o efebo é o adolescente que, tendo chegado à idade de dezoito anos, tem que passar pela docimasia (etimologicamente, verificar a aptidão, pôr à prova, testar) antes de se inscrever como cidadão nos registros de seu domo. Na polis grega, essa passagem era vivida através do serviço militar que o jovem devia prestar, algo sempre temível diante das inúmeras batalhas que as cidades gregas travavam entre si e, o pior, os conflitos contra invasores externos (a Pérsia, principalmente) e as aventuras colonialistas que os levavam para bem longe da pátria. 

No mito, a efebia se caracterizava por uma exibição de coragem, de destreza, de um ideal viril pelo qual se demonstrasse um pleno domínio das chamadas “artes heroicas”, enfim, numa prova pública a que o jovem candidato a herói deveria se submeter. Matar monstros, vencer malfeitores, gigantes, libertar princesas, apoderar-se de tesouros escondidos, na terra, nas alturas de montanhas inacessíveis, nos mares e nas suas profundezas ou mesmo no mundo infernal, provas que significavam sempre a superação dos limites humanos. A efebia sempre significava o abandono da casa paterna, da vida familiar, ou seja, astrologicamente, a saída do signo de Câncer para o de Leão, da quarta para a quinta casa, decisão que sempre ameaçava o “transgressor” ao fazê-lo viver essa travessia como culpa, remorso. É nesta condição que a figura materna (Dânae), inteiramente e apenas fixada na sua função geradora, tentou se transformar na “mãe devoradora”, voltando-se contra aquele a quem deu à luz (Perseu), impedindo-o de se libertar, sugerindo essa petrificação limitações que podem equivaler à própria morte. 

MEDUSA
É na perspectiva acima que a Medusa pode ser considerada como um dos grandes símbolos da culpa pessoal na medida em que ela revelava através do olhar “devolvido” o que as pessoas que a olhavam eram realmente. Vencer a Medusa é superar as ameaças de paralisação, de imobilismo, de divisão interior na melhor das hipóteses, que a quarta casa pode impor. A Medusa é assim a culpa que petrifica, seja essa culpa objetiva ou não, podendo ser neste segundo caso produto de uma imaginação doentia, lunar, de uma subjetividade patológica, talvez mais nefasta que a da primeira hipótese. Os escritores franceses incluíram a palavra medusa no seu léxico, recebendo-a do grego pela via latina, transformando o nome num verbo, méduser, ao que parece desde o
MEDUSA
séc. XVII, com o sentido de estuporar, siderar, paralisar, estarrecer e, naturalmente, petrificar. Em muitas línguas, a palavra medusa designa também uma mulher muito feia, com ares de bruxa. Na celenterologia, é um pequeno ser marinho de corpo gelatinoso, que lembra um sino ou uma campânula, com tentáculos à sua volta, lado convexo para cima e boca localizada no centro da superfície côncava inferior.