terça-feira, 25 de setembro de 2018

PALAVRAS CURAM?


MIRA SCHENDEL

A importância de “As Mil e Uma Noites”, na versão que nos deixou o sábio francês Antoine Galland, orientalista, do séc. XVIII, é um dos mais interessantes exemplos de como as palavras podem curar. Galland (1646-1715) aprendeu o árabe, o turco e o persa durante as suas viagens a Constantinopla com o embaixador Nointele, depois, quando foi ao Oriente.

Foi nomeado professor de árabe do Colégio de França. Publicou vários obras,lembranças de viagem, um diário, uma coleção de máximas orientais etc.

Foram, contudo, as traduções de textos árabes que o tornaram célebre, “Origem e Progresso do Café”, “Alcorão” e, sobretudo, em 12 volumes, os contos de “As Mil e Uma Noites”.Medard Tytgat, "Scheherazade"
A narradora de “As Mil e Uma Noites” é Scheherazade. O rei persa Chariyar,convencido da infidelidade de sua mulher, mata-a. A cada noite une-se a uma nova mulher, sacrificada logo no dia seguinte com medo de ser traído. Scheherezade se oferece como sua esposa; à noite, começa a contar histórias que cativam o soberano, que, muito curioso e interessado, decide não entregá-la ao carrasco para que ela chegue ao fim das histórias que lhe eram contadas.

A mesma cena repete-se todas as noites, os dias se sucedem. Quando chegam à milésima primeira noite, Chariyar, fascinado pela arte de Scheherezade, renuncia ao seu projeto de matá-la. Scheherezade é a “Senhora do Tempo”, dona da palavra que seduz, memória e
encantamento. Tessitura de enredos, tramas de cores e sons, labirintos, prodígio de eloquência. Ela inverte a terapia tradicional: o doente é quem ouve, o sultão, no caso. Será curado pelas histórias da filha do Vizir.

Magritte, "Scheherazade"

No começo do século XVIII, a literatura francesa começa a se distanciar do heroico ao procurar assuntos capazes de suscitar a curiosidade dos leitores, de falar de emoções, recorrendo ao romanesco, ao insólito, às situações imprevistas. Um dos pontos mais altos dessa virada, desse distanciamento, está exatamente nas histórias que Galland traduz, desprovidas de toda a lógica que comandava o mundo da cultura européia. As história de Galland eram cheias de magia, de acontecimentos que escapavam da ordem natural das coisas. Estávamos, com essas histórias, bem longe do homem cartesiano, livre e responsável por si mesmo. A fantasia desses contos orientais começava a colocar em questão a metafísica tradicional. Mais: as histórias respondiam a
uma necessidade que os poetas da época não podiam satisfazer.
Scheherezade inaugura em 1704 o cosmopolitismo do século XVIII, um
acolhimento sem reservas das influências estrangeiras. Os contos nos
mostram como Scheherezade é superior ao rei, insistindo a maior parte das
histórias no poder, na astúcia e até no cinismo das mulheres. Essa obra
apresenta uma nova concepção de amor, uma forma que se imporá. Entre
escritores ou filósofos franceses, o amor era uma virtude escorada pela
racional que sempre decidia entre o bem e o mal. Em Racine, por exemplo,
será uma fraqueza. Em “As Mil e uma Noites” o amor se transformará,
através do poder das palavras de Scheherezade, numa fonte de volúpia na qual
se deve mergulhar, superando-se assim todas as interdições ou proibições.
As histórias de Scheherezade nos falam do fogo da paixão, de chamas que
queimam, tudo apontando para os prazeres da carne. O clima é de prazer
carnal, os episódios são rápidos, sempre um forte apelo sensual. O amor nasce
da beleza dos corpos, as ações se centram no imediato e no prazer
experimentado sem remorsos. Temas como o da poligamia, lugares como
haréns, personagens como eunucos podiam ser reais, faziam parte de um
mundo onde o amor era experimentado sem culpa.
A poesia da natureza de “As Mil e Uma Noites” não
estava exclusivamente nos seus aspectos materiais,
mas, sobretudo, naquilo que eles poderiam sugerir,
evocar. Uma visão que encantava e que fazia apelo a
desejos sempre renovados através de impressões
inéditas. O exotismo entrara em moda, o Oriente em especial, desde o séc.
XVII. Os diários e as descrições de viagens aparecem, na esteira das traduções
de Galland. As Companhias das Índias contribuem para o sucesso do
exotismo. Era comum, nos salões, que nobres ou burgueses ricos circulassem
fantasiados de persas ou turcos, que os servidores fossem negros com
turbantes, torso nu. Uma boa parte deste cenário acabou entrando na pintura
pelas telas de pintores famosos (Boucher, Huet, Desportes etc.). Tais temas
chamavam-se então “chinoiseries”, “turqueries”.
Lembre-se que no final do século XIX (1885) teríamos o ponto alto desta maré
orientalista com a publicação, pelo editor Lisieux, por apaixonada sugestão de
Guy de Maupassant, daquilo que o mundo árabe havia produzido de melhor
com relação aos prazeres e ao erotismo, o famoso “Jardim Perfumado”, obra
que tanto encantara Richard Burton, o grande escritor e explorador inglês,
tradutor, dentre outras obras, do Kama Sutra para o inglês.
A rti sta descon h eci do, "O jardim perfu m ado"
Outro exemplo de como as palavras mudam comportamentos está naquilo
que as histórias da Filosofia classificam como Sofística, que aparece na antiga
Grécia por volta do século IV aC. A palavra está relacionada com a ideia de
conhecimento. Foram os sofistas, como pensadores, que colocaram as
necessidades do homem de então numa perspectiva de vida estritamente
prática, não mais em exigências de ordem teórica ou científica. Os sofistas
tornaram-se um fenômeno muito significativo no campo da educação. É com
eles que uma ideia e uma teoria entram de modo consciente na pedagogia,
recebendo um tratamento racional.
A sofística só admite sensação e opinião. A alma não é algo imortal, separado
do corpo, que nele entra e sai, mas é tão só um fenômeno acidental e mutável
como todos os demais. Para os sofistas, tudo está num devenir constante. Não
há senão sensações mutáveis. Não há critério seguro que permita distinguir o
verdadeiro do falso. A verdade que se diz não é o importante (não há verdade
objetiva), o mais importante é o modo de dizer. Uma opinião se impõe não por
ser verdadeira, impõe-se, sim, porque “sabe” criar o convencimento naquele
que escuta (persuasão). Este é o grande tema da retórica para os sofistas, da
qual foram grandes mestres.
O sucesso dos sofistas como retóricos e educadores pode ser explicado
parcialmente devido ao momento histórico em que apareceram e ensinaram.
Atenas tinha como regime político a democracia. A experiência demonstrava
que nas assembleias populares o que sabia fascinar o povo com a sua
eloquência se impunha, não importando tanto o que era dito. Os sofistas
educavam os jovens de modo a prepará-los para a vida política. Iam de cidade
em cidade, sendo pagos por suas lições (algo nunca visto antes).
Logo a arte da dialética (arte de disputar) se converteu em arte de discutir com
palavras (erística). Com o tempo, porém, a virtude sofística descambou para
as sutilezas lógicas, para raciocínios fingidos, enganosos (sofismas), tomando
o nome sofista um sentido pejorativo, como o encontramos em Platão, o
maior inimigo da sofística.
Com os sofistas, os problemas do homem
ganhavam prioridade pois era diante dele
que a Natureza aparecia, que o mundo se
revelava, a exigir respostas imediatas. Os
sofistas chamaram a atenção sobre o
homem, sobre suas atividade, sobre suas
normas de conduta e, acima de tudo, sobre a
questão da subjetividade quanto ao
conhecimento humano.
Criticaram pois, a chamada metafísica da
essência e afirmaram o primado do concreto
e do particular, o que se capta no imediato e no momentâneo. Não há, para
eles, uma verdade absoluta, mas uma verdade relativa ao homem. Todos os
juízos e opiniões, afirmativos ou negativos, são subjetivos, dizem. A verdade
varia de acordo com as nossas impressões sensoriais. O homem não é mais
que sensação e os objetos nada mais são do que aquilo que se apresenta ao
homem através das suas sensações variáveis.
Outro exemplo muito interessante de como as palavras mudam
comportamentos e, por isso, podem aparecer associadas às artes da cura, nós o
encontramos nos mitos ligados ao deus Asclépio, que tinha por centro
irradiador a cidade de Epidauro, na antiga Grécia. Filho do deus Apolo e da
mortal Coronis, Asclépio foi educado pelo centauro Kiron, também médico.
Asclépio participa da natureza humana e divina, lembrando-nos a união
indissolúvel que existe entre ambas. Fixando-se em Epidauro, chamado pelos
gregos de “Filantropissimo”, Asclépio é a figura central, em Epidauro, de um
grupo de sacerdotes- médicos (Asclepíades). Entre os descendentes deste grupo
encontra-se Hipócrates, historicamente, o pai da medicina...
Asclépio teve quatro filhas de seu casamento
com Epíone, a “Benéfica”: Áceso (a que
cuida de), Iaso (a cura), Panaceia (a que
socorre a todos) e Higeia (a Saúde). Eram
seus filhos também Podalírio e Macaon,
médicos. O culto de Asclépio era celebrado
num templo em Epidauro onde havia uma
famoso labirinto, no qual era guardada uma
serpente, ser ctônico que tinha o poder de
renascer constantemente. Os cultos do deus
se estenderam dos sécs. VI aC ao V dC.
Asclépio, chamado de deus Toupeira”,
porque esse animal “vê” no escuro, era o
deus da nooterapia, isto é, da cura pela
mente. Esta cura provocava a metanoia, a
transformação de sentimentos. A ideia básica
era a de que os erros, as faltas, as desmedidas, as “hamartiai” provocavam
problemas que, interiorizados (incubação), tornavam-se agentes mórbidos
detonadores de doenças. As causas das doenças estariam, pois, na mente. A
nooterapia purificaria o mental e, em consequência, o físico, o homem inteiro.
Salvador Dalí . "Aparição da Face de Afrodite"
Grande importância no processo terapêutico em Epidauro era dada aos
sonhos. Havia a famosa “enkoimesis” (deitar e dormir) no santuário. Os
doentes eram levados ao sono e deste aos sonhos através de determinadas
sugestões. Interpretados os sonhos pelos sacerdotes-médicos, os medicamentos
eram prescritos. Isto era o que se denominava mântica por incubação
(diferente da mântica por inspiração, de Apolo, e da mântica indutiva, feita
por conclusão sobre observações). Em Epidauro, só havia cura se houvesse a
metanoia, a transmutação de sentimentos e emoções. Neste sentido, havia nas
terapias uma “metusía”, uma comunhão, convergência de vários processos e
cerimônias através das quais os médicos procuravam, com suas palavras,
reforçar o sentimento religioso dos doentes. Canto, dança, práticas esportivas,
banhos, teatro, poesia, reforma de hábitos alimentares, tudo era utilizado para
produzir o efeito terapêutico desejado. Procurava-se sobretudo a eliminação de
paixões desastrosas. O lugar era ornamentado por muitas obras de arte cuja
finalidade era a de elevar espiritualmente as pessoas que lá se
internavam.Todo esse conjuntos de procedimentos tinha como meta final
aquilo que os gregos chamavam de catarse, libertação, expulsão ou purgação
do que era estranho à essência ou à natureza do corpo e que, por isso, o
corrompia.
Artista desconhecido. "Asclépio"
Faz parte do tema que estamos abordando, nele devendo merecer grande
destaque, por sua importância, a instituição da confissão, como apareceu no
Cristianismo, principalmente entre os séculos XIII e XIX. O confessionário
foi, sem dúvida, o centro de um drama que se desenvolveu entre a dialética da
culpa e do perdão. Pelo uso da palavra que há nessa instituição, tem ela um
lugar importante na história das curas da humanidade.
O confessor foi um médico das almas, juiz dos pecados, pai espiritual. Milhões
de pessoas nos séculos apontados passaram por confessionários no mundo
ocidental, lugar onde seres culpados, cheios de angústia, procuravam perdão e
redenção. Santo Afonso de Ligório, sécs. XVII/XVIII, escreve no seu “Guia do
Confessor”: para cumprir os deveres de um bom pai, o confessor deve
mostrar-se cheio de caridade, e o primeiro uso que deve fazer dessa caridade
consiste em acolher com igual benevolência todos os penitentes, pobres, sem
instrução e cobertos de pecados.” Preconizava-se uma abertura para a
benevolência, uma técnica de escuta e de questionamento do pecador. Outro
texto nos diz que o confessor “deve ser como um médico espiritual que acolhe
um doente da alma.”
A maneira prudente e amigável de confessar recomendada por Santo Afonso
de Ligório prevaleceu dos séculos XVIII ao XX, mas não impediu uma
crescente deserção dos confessionários, que já vinha do começo do primeiro.
Já no século XIX, uma clara hostilidade se fazia sentir, principalmente pelos
homens. Acusava-se a confissão de intervir na intimidade dos lares, de opor a
mulher ao homem, a religião à política etc.
Antony Van Dyck
Ficou, contudo, a pergunta: a confissão confortava? Será que ela ajudou
realmente as pessoas a se suportarem, a se sentirem mais à vontade
interiormente? Não resta dúvida que as palavras dos padres nos
confessionários tenham animado muitas almas que na instituição
procuravam sinceramente o alívio dos seus problemas. O confessor era afinal
um “diretor de consciência”, muitas vezes amigo e confidente, um guia
seguro. Se pensarmos, porém, nos desejos de perfeição que muitos confessores
demonstravam, muito além do razoável, ou se considerarmos aqueles que
procuravam o confessionário mecanicamente (confissão para não atrair
reprovações), o confessionário ficou muito aquém do pretendido.
O grande problema foi que muitos fiéis, inúmeras vezes, foram convidados a
fazer nos confessionários uma revisão de vida total. Questionários
complicadíssimos, repletos de perguntas, de circunstâncias atenuantes,
agravantes etc. Não se pode deixar de reconhecer, contudo, que o
confessionário foi um dos meios que nossos antepassados tiveram para
conhecer a alma humana. Quanto ao perdão, foi ele uma das grandes
contribuições que o Cristianismo trouxe para a “saúde” interior do homem
moderno. Pelo confessionário, o desfile de quanto sofrimento, quantas
angústias e, também, quanta redenção, quanta cura! Será que ainda é possível
trabalhar com a confissão depois de Freud? Nossa modernidade substituiu a
confissão pela Psicologia. Melhoramos?
Quanto a esta problemática do perdão, a sua melhor formulação está, sem
dúvida, na mitologia, como a temos no mito das Erínias, as Fúrias, divindades
do remorso, deusas violentas, guardiãs das leis da natureza e da ordem do
mundo, no sentido físico e moral. Puniam elas todos aqueles que
ultrapassavam os seus direitos em prejuízo dos outros. São as vingadoras dos
crimes cometidos, divindades da Ananke, conceito filosófico-religioso que
lembra reposição de limites.
Orestes persegu i do pel as fúrias por William -Adolphe Bouguereau
As Erínias não deixam o criminoso esquecer os seus crimes. São a consciência
culpada, morbosa. Interiorizadas, simbolizam os remorsos, os sentimentos de
culpa que podem levar até à autodestruição, se consideramos as faltas
inexpiáveis. Não se calam nunca, dia e noite, não deixando o criminoso
dormir, se alimentar. Podem, contudo, se transformar nas Eumênides, as
Benfeitoras, quando há o arrependimento sincero, que leve a uma apreciação
mais comedida dos atos praticados. Não bastava, porém, para as Erínias a
declaração do arrependimento. Imprescindíveis, para elas, objetivamente, a
reparação pecuniária, sempre pesadíssima, as penitências, longas penitências,
e o trabalho social gratuito por anos e anos. Só, então, as Erínias podiam
deixar o criminoso em paz.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

AQUÁRIO (2)


HAPI
No Egito, o signo de Aquário aparecia associado ao rio Nilo, o “rio azul”. Lembremos que o nome Nilo vem dos gregos (neilos) e é encontrado no sânscrito como adjetivo, nila, azul. Do latim, nilus, passou para o árabe e para o português, como o temos,por exemplo, na palavra anil. O rio era divinizado pelos egípcios quando de suas enchentes, sendo chamado então de Hapi. Representavam-no por uma figura antropomorfizada, obesa, com grande ventre, com seios pendentes, desenvolvidos como os de uma mulher, o que lhe dava um aspecto andrógino. Vestido como um barqueiro, às vezes como um pescador, usava Hapi uma coroa de plantas aquáticas na cabeça (lótus se representado no Alto Egito, papiro, no Baixo Egito). O deus Hapi era aquele que nutria, que alimentava o país e os próprios deuses; morava na primeira catarata do rio, numa ilha, de onde derramava de suas ânforas a água que iria abastecer o céu e depois a terra.

Autogerado, Hapi era chamado de Único, acreditando os egípcios
NUN
que ele saía do Oceano primordial, o Nun, que envolvia a Terra, do qual Hapi era uma forma secundária. Nun guardava todas as formas possíveis, as positivas e as negativas, e dentro dele se manifestou o demiurgo. Nun era considerado o deus das origens na cosmogonia heliopolitana. Em Hermópolis, era um dos quatro princípios masculinos, representando o infinito líquido, associado à sua contrapartida feminina, Nenet. Rodeando o mundo visível, ele esta na origem das enchentes. É da profundeza de suas águas que no final dos tempos sairá um demiurgo para nos proporcionar um novo ciclo de vida.  


HERMÓPOLIS  ,  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO

Já os devotos da deusa Ísis davam outra interpretação às cheias do Nilo, que começavam em meados de junho. Afirmavam eles que tal acontecimento se devia às lágrimas da deusa, chorosa pela morte de
OSÍRIS
Osíris, assassinado por seu irmão gêmeo Seth. Qualquer que seja, porém, o aspecto religioso privilegiado, o que se sabe é que, além de muitas oferendas, cânticos e poemas sempre haviam sido entoados e recitados às margens do rio desde tempos muitos remotos para que as águas atingissem um ponto ideal quando das enchentes de modo a proporcionar a máxima fertilidade paras terras vizinhas, mais ou menos a 20 km. de ambas as margens do rio,  Deste ponto ideal dependia anualmente a prosperidade ou a infelicidade do povo egípcio. Quando gregos e romanos ocuparam o país, a referida altura, para que a almejada fartura das colheitas fosse obtida, estava fixada em mais ou menos dezesseis côvados, quase onze metros.  

Lembremos que o deus Hapi, apesar de muito reverenciado,  nunca chegou a fazer parte de qualquer sistema teológico no Egito. Nos templos, ele exercia uma função doadora, para outros subalterna, sendo uma espécie de auxiliar dos grandes deuses, oferecendo-lhes o produto de suas águas. Neste sentido, a função de Hapi lembra muito a de Ganimedes como escanção dos deuses do Olimpo grego. Muito representado na escultura religiosa do país, Hapi atuava juntamente com as divindades do mar, dos grãos, do florescimento do mundo vegetal, das oferendas e, de um modo geral, dos que de algum modo proporcionavam bem-estar e felicidade.  

Na mitologia egípcia, os deuses sempre mantiveram uma relação muito difícil com o mar, com as suas enormes extensões de água salgada que muitas vezes se tornavam perigosas quando ventos e tempestades vindos da massa líquida marinha se abatiam sobre a costa. Na verdade, o alto-mar para os egípcios sempre representou uma região de acesso muito difícil, pois era preciso atravessar, para atingi-lo, as zonas instáveis do delta do rio, zonas pantanosas, perigosas, que lembravam sempre a sofrida peregrinação de Ísis em busca de seu amado Osíris. Contudo, se os extensos pântanos significavam por um lado proteção contra ataques externos, por outro desestimulavam tentativas de atravessá-los, uma alternância com a qual os egípcios tiveram que conviver por milênios.


ÍSIS

Desde tempos imemoriais se falava no país de uma força poderosa, desconhecida, que aterrorizava os pescadores que iam além do delta do Nilo, uma força que atacava e destruía barcos e homens, ninguém sobrevivendo. Era o deus dos mares, que, às vezes, avançava sobre as terras da região do delta; ora era o gado, criado nessas regiões, levado pelas águas; noutras ocasiões, pequenos vilarejos eram destruídos e cadáveres apareciam presos às raízes das plantas dos pântanos. Os rumores se multiplicavam, o temor tomava conta de todos que viviam na região. 

A afirmação dos antigos ganhou corpo com o tempo: falava-se que um monstro de nome Yam, vindo das profundezas marinhas, andava à noite pelo delta, acompanhado de crocodilos e hipopótamos. Uma boa parte da mitologia egípcia registra com ênfase a luta entre o deus Hapi e os agentes monstruosos do deus marinho, todos relacionados, sob o ponto de vista astrológico, com os dois últimos signos zodíaco.


PROTEU
Quanto aos gregos, lembremos, desde Homero, atribuíram eles inicialmente a um deus chamado Proteu (o primeiro gerado, o que vem antes, etimologicamente), cujo apelido era O Velho do Mar, a tutela dos mares gregos e egípcios. Sua residência ficava numa ilha arenosa, Pharos, situada na costa do delta do rio Nilo. Proteu era uma divindade dotada de poderes oraculares, exercendo também a função de pastor de
PTOLOMEU FILADELFO
rebanhos de animais marinhos (focas e outros). Não gostava de ser incomodado nem consultado, evitando sempre os inoportunos. Fugia deles, tomando a forma de qualquer animal marinho ou simplesmente se transformando em água ou fogo. No ano de 300 aC, Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito, mandou construir na ilha de Pharos, diante de Alexandria, uma torre de mármore branco de 180 m. de altura. Esta notável edificação, uma das sete maravilhas do mundo, guiava os navegantes à noite, graças a fogueiras que eram mantidas permanentemente acesas no seu topo.



GEIA  E  FILHOS
Proteu era também chamado pelos gregos de Nereu (o que vive mergulhado, etimologicamente), pai das nereidas, ninfas do mar, tendo sido gerado pela união de Pontos e de Geia, esta última a Grande-Mãe Terra. O primeiro mencionado, cujo nome lembra caminho, lugar por onde se transita, representa no mito grego, como sabemos, a primeira concepção do mundo marinho, ou melhor, da energia que há no elemento líquido oceânico e passa por ter sido o pai também de, além de Nereu, de Taumas (O Maravilhoso), Fórcis (O Branco, no sentido de encanecido), Ceto (A Baleia) e Euríbia (A de Grande Força Vital), entidades marinhas. 

Os gregos, através de seus primeiros escritores, poetas ou não, como Homero, Hesíodo e Heródoto, sempre consideram o oceano
OCEANO , MOSAICO  ROMANO
como um imenso rio que fluía em torno da Terra. Na sucessão das divindades que o tutelaram, depois das  entidades primordiais acima mencionadas, aquele que melhor representou a massa circular líquida que envolvia a Terra, como um rio-serpente, foi o deus Oceano, o filho mais velho de Urano e de Geia, um titão, portanto. Sempre considerado como extremamente cordato e acessível ao se relacionar, Oceano, unindo-se a Tétis, símbolo do poder gerador das massas oceânicas, tornou-se pai das Oceânidas, as ninfas dos oceanos e mares, e de inúmeros rios que atravessa a Terra. Dentre os mais importantes filhos de Oceano, destacamos, segundo os gregos (Hesíodo), os rios Nilo, Aqueloo,  Alfeu, Erídano, Peneu... 

DEUCALIÃO  E  PIRRA
Antigos povos da Mesopotâmia, como os babilônicos, principalmente, associavam o signo de Aquário ao décimo-primeiro mês do seu zodíaco, Shabatu, palavra que tem o significado de Curso das Águas da Chuva. Na Grécia, é de se notar, o signo antes de ser associado a Ganimedes, aparecia ligado a  Deucalião, filho de Prometeu e de Clímene, herói que se salvou do dilúvio enviado por Zeus. Etimologicamente, o nome Deucalião lembra mergulho, imersão no elemento líquido. Casou-se com Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora. 

OVÍDIO
Desgostoso com o comportamento dos heróis da Idade do Bronze, descontrolados, que viviam atolados no vício e no crime, Zeus resolveu, como diz o poeta Ovídio, castigar todos os homens, afogando-os nas águas de um dilúvio. Salvou-se o casal Deucalião e Pirra, que fundou um reino e, com os seus filhos e descendentes, repovoou a terra, criando uma nova humanidade.
  
Entre os latinos, certamente por influência grega, quando Ganimedes já havia substituído Deucalião como representante mítico do signo, surgiram, para designar Aquário, além de Ganimedes, naturalmente, nomes como Amphora, Junonis Astrum (Astro de Juno, esposa de Júpiter), Jovis Cynoedus ou Cinaedus  (Favorito de Júpiter), Puer Iliacus (Garoto de Ilion, Troia), Puer Aquilae (Garoto da Águia).  


AQUÁRIO
Na tradição ocidental, pela via latina, fixou-se o nome Aquarius, para o décimo primeiro signo zodiacal. Aquarius, em latim, lembre-se é tudo o que concerna à água, servindo a palavra para designar também tanto aquele que tem a função de transportar água como o que trabalha como inspetor encarregado da supervisão das águas. Note-se ainda que os franceses adotaram para designar o signo a palavra Verseau, hydrokhoeus, em grego. vertedouro, o que derrama  água.

Diante do exposto, acredito que fique fácil entender porque os antigos associaram essa região do zodíaco à água, região conhecida em antigas astronomias pelo nome de Mar. Para representar essa região nos céus, os antigos utilizaram uma onda, que era o hieróglifo egípcio da água, elemento que põe tudo em comum, que apaga as fronteiras, ligado alquimicamente à solutio. É por esta razão que o signo que ocupou esta região do céu sempre foi considerado com aquele em que o ser humano transcende a sua individualidade e a sua vida social para se integrar a humanidade.

O acesso a esta transcendência, entretanto, terá que ser feita atrvés do elemento ar. Ou seja, é pelo despertar de sua consciência coletiva que o homem compreende que ele é também a humanidade. É por isso que este signo faz quadratura (conflito) com os signos de Touro (a matéria) e com o signo de Escorpião (a metamorfose) e faz oposição ao signo de Leão (o ego). 

Fixando-nos mais na tradição que nos vem da Grécia, não podemos deixar de considerar inicialmente que as relações entre o signo de Aquário e Urano, estabelecidas desde a descoberta desse astro em fins do séc. XVIII, confirmaram todas as aproximações anteriormente feitas entre mitologia e astrologia. Melhor, não só confirmaram como permitiram que o homem entrasse em contacto com dimensões desconhecidas da sua interioridade e do universo, ampliadas mais tarde com a descoberta de Netuno (meados do séc. XIX) e Plutão (década de 1930).


SISTEMA   SOLAR

Se os  planetas visíveis a olho nu até Saturno dizem respeito mais diretamente à evolução física e moral do ser humano individualmente considerado, os três  planetas invisíveis ao olhar humano (Urano, Netuno e Plutão), situados além de Saturno, dizem mais respeito à sua sua interioridade, à sua vida subconsciente, e afetam sobremodo a humanidade como um todo. 

Foi, aliás, por essa razão que os planetas transaturninos foram considerados como a oitava maior de Mercúrio (Urano), Vênus (Netuno) e Marte (Plutão). Quando, na música, dizemos que uma nota está uma oitava acima da outra isto significa que a nota é a mesma, situada porém numa região mais aguda do instrumento. Tome-se o caso de Mercúrio, planeta que numa carta astral descreve como funciona a mente de uma pessoa. Urano, como sua oitava maior, nos descreverá outros tipos de vibração mental, de natureza mais evoluída, que vão além de Mercúrio. É neste sentido, por exemplo, que Urano é considerado como o planeta da intuição, um conhecimento imediato, instantâneo, ao qual se pode chegar sem necessidade das demonstrações que a mente normal precisa para a ele chegar, se é que consegue. É a intuição uma apreensão que se parece muito com o conceito filosófico do Zen, o satori, que se pode traduzir como compreensão profunda e imediata, iluminação.

HESÍDIO
Conforme nos conta Hesíodo em seu poema A Teogonia, Urano era o nome que os gregos davam ao céu estrelado. Nascido de Geia por partenogênese, sem o concurso de qualquer divindade masculina, gerado por ela em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cobrisse, como está no poema, Urano passou a fecundá-la e ela pôs no mundo vários filhos, divindades e monstros, os titãs, os Cíclopes e os Hecatônquiros.

O relacionamento entre Urano e seus filhos, como se sabe, sempre foi difícil; os filhos produzidos por ele e Geia formavam no seu todo uma prole anárquica, revoltada, perigosa, desmesurada; seu comportamento era espasmódico, imprevisível, oscilando todos entre entre estados de grande exaltação e de profunda depressão. Urano tinha tanto horror dos seus filhos, tão pouco gratificantes para o seu amor-próprio, que não hesitava em lançar uns no Tártaro, encerrando-s na camada mais profunda do inferno, ou obrigar Geia a reabsorver outros.

Levando a um paroximismo incontrolável a sua função procriadora, sempre debruçado sobre Geia, fecundando-a incessantemente, Urano jamais deu ouvidos às suas queixas. Inconformada, ela chamou seus filhos à revolta com a finalidade de dar fim à prepotência de seu filho-amante. O único que a atendeu foi Kronos, o caçula; Geia lhe forneceu-lhe então uma foice de silex com a qual ele investiu contra o pai e o castrou. Dessa castração, do contacto da genitália de Urano lançada ao mar com a sua espuma (aphros, em grego), tudo em meio a sangue e secreções, nascerá Afrodite, deusa do amor.

Parece não haver dúvidas de que o papel representado por Geia na castração de Urano foi inspirado por aquele que Cibele, deusa frígia, como Grande-Mãe, desempenhava  na mitologia dos povos do oriente-próximo. Até onde se sabe, foi no culto de Cibele que se encontrou o primeiro ritual de castração masculina devidamente registrado.


CASTRAÇÃO   DE   URANO


CIBELE
Esta história apresenta algumas versões, parecendo-nos a mais aceitável a mais antiga, a greco-oriental, que nos apresenta Atis, deus anatólio da vegetação, servidor a amante de Cibele, mãe dos deuses, dos humanos, dos animais e da vegetação selvagem. Grande-Mãe, Cibele se situa entre as maiores divindades da fertilidade do mundo antigo. Montada num carro puxado por leões,  símbolo de seu poder, ela possui uma chave com a qual abre as portas da Terra onde estão encerradas todas as suas riquezas. Seu culto se espalhou pelo Mediterrâneo, alcançando Roma, onde era apresentada majestosamente com pequenas torres numa coroa  que ostentava na sua cabeça, emblemas das várias cidades que protegia. 

CIBELE   E   ATIS ( ANGELO MONTICELLI , 1778 - 1837 )

Seus cultos, no oriente, eram de natureza orgiástica, neles se encaixando a história de Atis. Amado pelo hermafrodito Agdistis e não podendo a ele se unir, por sua dependência de Cibele, Atis enlouqueceu, e se mutilou, castrando-se (emasculação), numa das festas da Grande-Mãe, realizadas anualmente. Ovídio, muito mais tarde, retomou a história de Atis, da sua castração, eliminando, porém, a sua ligação com Agdistis.  Atis passou,  a partir dessa versão, a ser considerado  como um deus da vegetação que morria e renascia anualmente, um representante da chamada fecundidade pela morte.

Considerando o que até agora foi expôsto com relação a Urano não será preciso muito esforço para se perceber, mesmo para os que não se aventuraram na caminhada astro-mitológica, o quanto o filho amante de Geia pode se insinuar, como poderoso arquétipo na personalidade de muitos daqueles que a astrologia chama de aquarianos. Realmente, Urano, como deus do céu, além de outros excessos, parace apresentar, quando analisado mais de perto, como característica principal, uma incontrolável e anárquica criatividade, a personificação de uma fecundidade que não conhece limites.

O mito nos revela que Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, que a fazia reabsorver os filhos que gerava, resolveu libertar a sua prole. Pediu que os filhos a auxiliassem. Todos se recusaram, com exceção do caçula, Kronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Kronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava para mais uma vez se deitar sobre Geia, Kronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe, com a sua foice, a sua genitália.

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e ele um espaço que nunca mais voltaria a desaparecer. Essa façanha de Kronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. Desde então, a foice, como símbolo, associou-se às colheitas e à morte, aparecendo como um atributo das divindades agrícolas, cujo melhor exemplo pode ser encontrado no deus Saturno, dos povos latinos.


NUT 

Astrologicamente, foi atribuída a Urano, o planeta mais excêntrico do sistema solar até então conhecido (excentricidade até hoje não contestada), a tutela da constelação de Aquário, pelas seguintes razões, em função das influências que exerce sobre o nosso planeta e a vida humana: essencialmente, Urano é variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, excitante (mania, no sentido grego), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista (utópico), original, inédito e estéril.

Através dos adiante nomeados traços de personalidade, que destacamos, a influência uraniana costuma ser traduzida pelos seguintes comportamentos:  desmesurado impulso criador; peculiaríssima originalidade, caracterizada pela autossuficiência; excessos individualistas;  forte inclinação à independência (ação reflexa do singno oposto, Leão), alimentada muitas vezes por uma absoluta falta de compromisso ou de concessões com relação ao meio em que vive; obstinada cosmovisão; lógica e ética únicas, base de um comportamento que leva invariavelmente o tipo aquariano mais comum a não querer pertencer a “nenhum rebanho”. 

Lembro que a união de uma Deusa-Mãe com um Filho Amante é um modelo muito repetido nas primeiras fases de várias mitologias, uma forma incestuosa de relacionamento que nesses tempos primordiais terminava via de regra tragicamente, encontrando-se um de seus melhores exemplos, atualizado, na história do infortunado Édipo. 

EVA
( L.L.DHURMER, 1865 - 1953 ) 
O ímpeto criativo de Urano, talvez a sua característica mais marcante, costuma gerar, em muitos casos, o melhor e o prior através de inventos e formas, individual ou coletivamente.  É neste sentido que Aquário é o signo do demiurgo, do inventor, daquele que vai também rejeitar muitas vezes (sempre?) a sua própria criação, como Urano o fez com seus próprios filhos e como, entre os judeus, Javé, valendo-se da sua criatura masculina, fez com a mulher, Eva. 

Dentro deste contexto é que podemos estabelecer a analogia entre a inesgotável capacidade criadora do Céu Estrelado e a ação aquariana superior de caráter científico, tecnológico ou artístico, uma fantástica capacidade criadora nem sempre coerente e muitas vezes inconsciente, quanto aos efeitos maléficos daquilo que foi criado, poderia produzir. São estas considerações, a meu ver, que atualmente, diante do surto inventivo que tomou conta da humanidade a partir de fins do séc. XVIII, se nota nos países mais influenciados pelas características aquarianas, características que precisam ser trazidas à discussão para se questionar a responsabilidade dos inventores, forçando tais países a que se conscientizem e interroguem sobre os efeitos deletérios de sua  própria criação. 





terça-feira, 17 de julho de 2018

AQUÁRIO (1)

   

Por volta de 4000 aC, a constelação de Aquário sinalizava para os povos do Oriente Próximo o solstício de inverno, visualizada nos céus como um gigante com um recipiente nas mãos, a derramar água. A área celeste governada por esse gigante era imensa, sendo chamada simplesmente de A Água, dela fazendo parte as seguintes constelações: Pisces, Cetus, Capricornus, Delphinus, Eridanus, Pisces Australis e Hydra, todas relacionadas com o elemento líquido.


ERÍDANO
Muitos povos que viviam em extensas regiões situadas entre a Europa e Ásia davam também à mencionada área celeste, pela mesma razão, o nome de O Mar. Essa região se estendia para eles, a partir da chamada Cabra Marítima (Capricórnio), na direção do oriente, nela se situando Peixes: na direção  noroeste fica o agrupamento estelar chamado Delfim; na direção sul, ficava o agrupamento Peixes Astral; e na direção se encontrava a Baleia. Os gregos deram o nome de Erídano ao uma faixa estrelada que, atravessando a Baleia (Cetus, desaguava na constelação de Orion. Erídano, lembremos, na mitologia grega foi um dos muitos filhos dos deuses marinhos  Oceano e Tétis. Era um deus-rio que aparece associado ao terceiro trabalho de Hércules e à história do malogrado herói Faetonte.

CONSTELAÇÃO  DE  AQUÁRIO
Os babilônicos davam às estrelas de Aquário o nome de “Assento das Águas Moventes”, nelas vendo a origem das tempestades de inverno e das correntes que um dia haviam precipitado o dilúvio sobre a terra. As primeiras referências que temos sobre o dilúvio, cujas águas teriam vindo dessa região do céu, nós as encontramos, até onde a pesquisa histórica conseguiu se estender,nos antigos textos de uma famosa epopeia sumero-babilônica nos quais se conta a história do herói mítico Gilgamés. Pelos referidos textos ficamos sabendo que os humanos, criados pelos deuses, devido aos seus pecados, nunca muito claramente definidos, deveriam ser destruídos. A decisão foi tomada pelos deuses (Anu, Bel, Ninib e Enugi), numa assembleia divina, realizada na cidade de Suripak, às margens do rio Eufrates. Ea (etimologicamente, a casa da água), identificado pelos gregos como Poseidon, deus do Apsu (rio-mar que envolvia e suportava a terra), sentindo muita pena da humanidade, resolveu intervir, ajudando-a. 


UTNAPISHTIN
Ea recomendou a Utnapishtin, um dos habitantes de Suripak, que construísse um barco de cento e vinte côvados (medida equivalente a 66 cm.), cerca de 80 metros, e o carregasse com todos os bens que pudesse, para que ele e sua família, mais os animais e os pássaros recolhidos, se salvassem quando a tormenta se abatesse. Depois de seis dias e seis noites de tempestades jamais vistas, tudo se acalmou, mas a terra havia se transformado num grande lamaçal. Da sua barca, encalhada no alto de um monte, Utnapishtin soltou sucessivamente uma andorinha, uma pomba e um corvo. Os dois primeiros, depois de muito tempo, voltaram à embarcação porque não haviam encontrado onde pousar. O corvo nunca mais voltou, nunca se sabendo o que lhe aconteceu. 

Utnapishtin desceu então do seu barco, fez uma libação aos deuses e depositou uma oferenda no alto da montanha. Por intervenção de Ea, mais uma vez, os deuses aceitaram os sacrifícios e Bel, tomando as mãos de Utnapishtin e de sua mulher, lhes disse que a partir daquele momento constituiriam a raça humana, semelhante à dos deuses, fixando-lhes, para que pudessem viver a salvo dos cataclismos, um retiro inviolável e paradisíaco na embocadura dos rios. 

Passaram-se desde então séculos e séculos. Os humanos, esquecidos das  promessas que haviam feito, abandonados os sacrifícios, o “alimento” dos deuses, voltaram a proceder mal, fechados cada vez mais no seu egoísmo. A mais remota ideia que temos da instituição do sacrifício nos vem desses tempos.





Foi no mundo mesopotâmico que se fixou a ideia, depois levada para outras civilizações, que o homem havia sido criado pelos deuses para não só servi-los como para vesti-los e alimentá-los, além de lhes dar muitos presentes. Dentre os sacrifícios mais comuns estava o de aninais, cujo sangue ratificava a ligação entre o homem e o divino. Muito importante, nessas cerimônias, era o item  dos alimentos oferecidos aos deuses, os mesmos que os humanos mais apreciavam, peixes, carne, cremes, mel, bolos e cerveja, esta também muito utilizada pelos egípcios, conhecida como a bebida da imortalidade.

OSSO   SACRO
O tema do sacrifício, salienta-se, sempre este presente em todas civilizações da antiguidade. Os presentes e os sacrifícios, por exemplo, vão aparecer também  na Bíblia, no Gênesis. A palavra veio do latim, sacrificium, para nós. Ou melhor,  de sacrum facere, realização do sagrado. Esta realização era feita, principalmente, pelo oferecimento do chamado osso sacro aos deuses. 


HIPÓCRATES
A título de curiosidade, registre-se que osso em grego é osteon. Quando da tradução da obra de Hipócrates, o pai da medicina, do grego para o latim, o tradutor, com muita propriedade, acrescentou a palavra hieron (sagrado) para designar esse osso, ao qual se deu o nome de sagrado porque na cavidade por ele formada alojavam-se os órgãos genitais, através dos quais, pela atividade sexual, os seres humanos eram trazidos à vida, uma função sagrada. Não é por outra razão, aliás, que as mais antigas tradições astrológicas atribuem a tutela dessa região do corpo onde o osso sacro se encontra a Sagitário, cujo planeta regente é Júpiter.  
  
Encerrado este breve comentário sobre o tema do sacrifício, nossa história prossegue: reunidos, os imortais decidiram mais uma vez punir os humanos, tornados cada vez mais estéreis. Os campos perderam o seu verde, nada mais brotava. Durante cinco anos, apesar de grande sofrimento, a humanidade contudo resistiu. A partir do sexto ano, porém, os humanos começaram a se devorar entre si. A terra se despovoou rapidamente, o mundo vegetal foi sendo aniquilado rapidamente, os mares e rios começaram a secar, catástrofes nunca imaginadas. 

MAMI
Por iniciativa de Ea, novamente, a terra foi então repovoada por uma nova raça humana, criada por Mami, deusa dos destinos. Ela cortou catorze pedaços de lama, colocando sete partes à sua direita e outros sete à sua esquerda, partes que, respectivamente, deram origem então ao mundo masculino e ao mundo feminino, como os temos até hoje.


GILGAMÉS
Todas estas catástrofes, como nos revelam os mitos mesopotâmicos, vieram da mencionada região do céu, mais exatamente da constelação que no calendário babilônico recebeu o nome de Gu, palavra que significava ânfora, um recipiente sagrado; para os babilônicos, a referida constelação sempre apareceu associada às grandes inundações do solstício de inverno e à ideia de salvação da humanidade. Na sequência zodiacal estabelecida pelos mesopotâmicos, Aquário ou Gu, o último dos signos fixos, aparece com destaque na epopeia de Gilgamés, na qual encontramos também muitas referências à figura de Utanapisthin, este figura, desde então, associada ao signo.

Para melhor compreender esta associação, devemos lembrar alguns detalhes da grande epopeia de Gilgamés, composta provavelmente por volta de 2.000 aC. Por ela ficamos sabendo que nosso herói,
RUÍNAS  DE  URUK
certamente um personagem histórico evemerezado (rei do país de Sumer, 3.000 aC ?), o grande construtor das muralhas de Uruk, era tirânico, poderoso, cruel e opressor. Logo nos primeiros versos do poema se narra que Gilgamés não deixava nenhum filho para seu pai; dia e noite a sua violência continuava irrefreada; apesar disso, ele era o pastor de Uruk. Ele era um pastor, forte, magnânimo e sábio. Gilgamés não deixava nenhuma virgem para o amante, a filha de um guerreiro, a escolhida de um nobre. O lamento do povo era ouvido pelos deuses constantemente.



ENKIDU
Ouvindo os clamores do povo, Anu, o deus celeste, ordenou a Aruru, a deusa-mãe, que criasse “um igual” a Gilgamés, com o qual ele pudesse lutar, esquecendo-se assim de atormentar seu povo. É criado então Enkidu, uma espécie de gêmeo de Gilgamés, mas muito primitivo e selvagem, um ser que gostava de viver entre os animais. Logo ele e Gilgamés se tornaram companheiros inseparáveis. Um dia, porém, os deuses resolveram que Enkidu devia morrer (doença enviada pela deusa Ishtar). Não se conformando, Gilgamés resolveu trazê-lo de volta a vida. Para tanto, largou-se pelo mundo em busca da erva da imortalidade. Quem a conhecia era Utanapisthin, seu guardião, tornado imortal pelos deuses depois do dilúvio.

A epopeia nos relata que Gilgamés chorou amargamente a morte do amigo. Partiu então à procura de Utnapishtin, a quem os deuses haviam acolhido depois do dilúvio e instalado na terra de Dilmun, o paraíso sumério (talvez na região do golfo pérsico), descrito como o lugar onde nasce o Sol. Era protegido do deus Ea, deus da água doce e da sabedoria; patrono das artes e um dos criadores da humanidade. Com a conivência de Ea, Utnapishtin sobrevivera ao dilúvio na companhia da sua família e das “sementes de todas as criaturas vivas”. Depois disso, foi levado pelos deuses para viver para sempre na foz dos rios Tigre e Eufrates e recebeu o apelido de “O Longínquo”. 

Para chegar a Utnapishtin, Gilgamés, que em companhia de Enkidu havia vencido um touro bravio enviado por Ishtar, teve que
SHAMASH
enfrentar depois vários leões e os perigosos homens-escorpião, três situações em que temos uma clara referência à passagem do Sol pelos três signos fixos que antecedem Aquário, Touro, Leão e Escorpião. Os homens-escorpião, lembremos, são sentinelas das montanhas onde o Sol se põe ao cair da noite. Ao atravessar essas montanhas, sempre na direção do oeste, depois de muito perambular pela escuridão, Gilgamés chegou a um jardim a beira-mar. Shamash, o deus Sol, o viu e lhe disse que nunca encontraria a vida que procurava. A resposta de Gilgamés foi, como está no poema, um “discurso” tipicamente aquariano: Então, depois de errar e de me esfalfar pela vastidão selvagem, terei ainda de dormir e deixar que a terra cubra para sempre a minha cabeça? Que meus olhos vejam o Sol até que por ele sejam ofuscados. Embora eu não seja melhor do que um morto, porém que eu veja a luz do Sol.



SIDURI
Dito isto, e afastando-se, caminhou nosso herói em direção de uma mulher que por perto fabricava bebidas. Era Siduri, entidade divina que vivia à beira do mar, preparando vinhos, no jardim do Sol. Ao notar a presença de Gilgamés, Siduri passou o ferrolho na porta que dava acesso ao jardim. Gilgamés a questionou. Ela, então, lhe perguntou porque ele apresentava um ar tão faminto e o seu rosto estava tão macilento; qual o motivo de tanto desespero no seu coração, a sua abatida expressão de cansaço, como a de alguém que houvesse feito uma grande viagem. Gilgamés, depois de falar de suas aflições, da morte de Enkidu, do seu temor também de virar pó, perguntou-lhe como chegar a Utapishtin. Ela o mandou procurar o barqueiro Urshanabi. Assim foi feito e, depois de muitas peripécias, nosso herói conseguiu se apresentar a Utnapishtin. 

Gilgamés contou a sua história e pediu que O Longínquo, instruindo-o sobre a vida e a morte, lhe dissesse como encontrar a vida eterna que procurava. A resposta que obteve foi a de que tudo era impermanente e que os deuses é que distribuíam a vida e a morte, mas que o dia da morte eles nunca o revelariam. Utapishhtin acabou, contudo, por revelar ao nosso herói que o que ele procurava. A vida eterna poderia ser obtida se mergulhasse nas profundezas do oceano e de lá trouxesse uma planta maravilhosa, com espinhos, que devolvia ao homem a juventude perdida, tornando-o imortal. Assim fez Gilgamés, pensando em oferecer a planta aos homens para deles afastar para sempre temida ideia da morte. 

COM  A  PLANTA  DA  VIDA
Ao tomar o caminho de volta a Uruk, com a planta nas mãos, Gilgamés resolveu contudo descansar e banhar-se num lago, junto a uma fonte. Depositou a planta numa pedra e entrou na água. Mas nas profundezas desse lago havia uma serpente que, sentindo o doce perfume que emanava da planta, saiu da água e a arrebatou, abocanhando-a, voltando de novo às águas profundas do lago. Gilgamés nada viu. Olhou desesperadamente à sua volta, as águas silenciosas do lago nada lhe disseram. Angustiado como nunca, sentou-se sobre uma pedra e chorou por ter perdido a planta do rejuvenescimento.

Qual a lição a retirar desta história sob o ponto de vista aquariano? A imagem de imortalidade para Gilgamés era a de uma uma vida apenas prolongada, um antigo anseio da humanidade. Seu objetivo, desde o começo, foi o de um ego ambicioso e ávido de poder. As vitórias que Gilgamés sempre procurou voltavam-se tão só para o exterior, como as de Édipo, por exemplo. Além do mais, sua grande vitória dependia, como o mito nos mostra claramente, da posse de um produto, muito semelhante àquele que os alquimistas orientados para conquistas materiais sempre buscaram e jamais obtiveram, o cinábrio, a droga da imortalidade, que provocava uma regeneração física perpétua.

A volta de Gilgamés para Uruk, depois do seu fracasso, parece apontar para um recomeço. Teria sido sua longa jornada em vão? Ele não obteve a vida eterna que tanto desejava, objetivo último de suas aspirações. Igualar-se talvez aos deuses? Não será esse o grande sonho aquariano? Palavras de Gilgamés no poema: Ó Urshanabi, foi para isto que eu trabalhei com as minhas mãos, e para isto que o meu coração ficou sem sangue? Porque para mim nada ganhei; agora o animal da terra (a serpente) a tem em vez de mim. Já a correnteza a arrastou vinte léguas para os canais onde a encontrei. Eu achei um sinal e agora o perdi. Deixemos o barco na margem e vamos.


A  VITÓRIA  DA  SERPENTE
O poema se fecha com a “vitória” da serpente. Nada se soube se Gilgamés entendeu que a renovação da vida pertencia de fato à serpente. A conclusão a que muitos chegaram ao tomar conhecimento da sua busca é a de que nosso herói não estava ainda preparado para alcançar a imortalidade. Não entendeu a “lição” da serpente, desse “animal terrestre” como ele a chamou, que estava no centro de um complexo arquetipal de grande riqueza simbólica ao representar a vida das profundezas, reservatório de onde provinham todas as manifestações que apareciam na superfície. 

Gilgamés era um ser da superfície, fixado apenas nesta polaridade, nas conquistas de cima. O poema deixa subtendido que é a vida profunda, simbolizada pela serpente que vai se refletir na consciência diurna, da superfície. Não é por outra razão que os povos da Mesopotâmia, os antigos caldeus, principalmente, designavam vida e serpente por uma mesma palavra. Por isso, para eles, a serpente visível nada mais seria que uma fugaz encarnação do grande arquétipo urobórico, causal e atemporal, mestre do princípio vital e de todas as forças em operação no cosmos. Gilgamés não souber ler isto. 

Os antigos mesopotâmicos sempre afirmaram, comentando a história de nosso herói, que os deuses, por alguma razão insondável, não permitiram que ele conservasse a erva da vida. Uma explicação possível talvez pudesse ser tentada: ela não representaria muito provavelmente nas suas mãos uma mudança do homem interior nem corresponderia a um desejo profundo de iluminação e de expansão da consciência. Gilgamés, do começo ao fim da sua viagem, sempre permanecera fixado no seu ego. Nada mais restou então a ele senão voltar a Uruk, recomeçar a sua vida e assumir a sua condição de mortal. Como está no poema, Gilgamés cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história.


A história de Gilgamés tem astrologicamente óbvias relações com eixo Leão-Aquário e, por isso, com o domínio do fogo na sua expressão leonina. O nome Gilgamés, escrito muitas vezes como Gibilgamesh, contém o nome Gibil, um deus do fogo dos sumérios, no que se aproxima muito de Prometeu, também um sacerdote ligado ao fogo.. A história deste herói mesopotâmico parece ter servido de base para outros mitos e lendas cujos personagens são figuras representativas do descontrole do elemento ígneo no nível da vida instintiva (ariana) e racional (leonina) e do seu reflexo no polo oposto (Aquário). Prometeu, Hércules, Sansão, Noé, Tubalcain, Deucalião, Catapatha Brahmana e outros, neste sentido, “descendem” diretamente do herói mesopotâmico.

Numa síntese final da história de Gilgamés e de suas profundas ressonâncias aquarianas, não é possível deixar de se destacar a grande lição da serpente (vida subconsciente) que nosso herói não entendeu. Uma lição elaborada há milhares de anos e perfeitamente atual. Nosso herói, como fica fácil perceber para os familiarizados com uma leitura mais consequente dos mitos, também não entendeu que só lhe cabia viver como homem e não como um deus. Gilgamés fracassou e só lhe restaria morrer e deixar que cobrissem a sua cabeça com a terra, como ele mesmo reconheceu.

Utanapishtin lhe disse que jamais conquistaria a vida eterna. Não lhe caberia, como homem, outra alternativa senão a de encher a barriga, dançar, lavar-se, usar roupas limpas, cuidar do filho e tornar a sua mulher feliz. Este era o destino dos homens e com ele Gilgamés deveria se conformar. Aceitar a vida terrestre e aproveita-la. Seria a erva da imortalidade uma brincadeira dos deuses? O fato é que depois da oportunidade (?) perdida, Gilgamés se pôs a chorar. 

Como Orfeu, outro fracassado, ele não teria uma segunda chance. Vencido, deprimido e reduzido a um simples mortal, não lhe coube outra saída senão a de louvar a sua própria criação, os esplendores de Uruk. Seus discurso é doloroso, mas era a única coisa que poderia fazer: Vem, vem,
URSHANABI
Urshanabi, ver os muros da cidade, o seu terraço, toca neste trabalho feito na pedra, nos tijolos recozidos, magníficos. Os sete sábios edificaram as fundações destes muros. Olha esta cidade,  seus jardins, os terrenos à sua volta. Uruk, a minha cidade, ela é tudo isso. A lição que ficou para Gilgamés foi a de compreender que, para os mortais, a sabedoria consiste tão só em aproveitar, como puderem, a vida terrestre, já que, athanatoi (imortais), só os deuses, como diziam os gregos.

domingo, 17 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (5)


VERÃO
(MARC CHAGALL , 1938)
Não podemos deixar de lembrar ainda que alguns mitos gregos nos falam de  sistemas familiares em que as faltas e crimes dos pais são pagos pelos filhos. Acontecimentos dessa natureza estão registrados em muitas histórias e  descrevem a meu ver um mal-estar, ou melhor, uma espécie ferida que às vezes não fecha nunca, apresentada por grande parte dos capricornianos, ferida que lhes faz sentir que nunca obtiveram dos pais o que deles realmente necessitaram.   

Mitos gregos que melhor exemplificam o que acima aponto são os que nos falam da família dos átridas, também chamados de pelópidas, e da família dos labdácidas. Os primeiros têm como ponto de partida Tântalo, pai de Pélops, que por sua vez gerou Atreu, Tieste e Plístene, sendo o primeiro pai de  Agamêmnon e Menelau. Quanto à segunda, tudo começa com Lábdaco, passando por Laio, até chegar a Édipo e seus filhos. Nas duas famílias, uma corrente ininterrupta de traições, misérias, mazelas, crimes, incestos, mortes, onde um tipo de paternidade capricorniana
GEIA  E  URANO
apresenta claramente aspectos em que as ideias de fecundação se misturam às de dominação, de inibição e de autoridade indiscutível. O grande arquétipo deste tipo de paternidade tem naturalmente como modelo original a figura de Cronos, que, em última instância representa o mundo da autoridade em oposição ao das forças da mudança e da inovação. Cronos, como se sabe, é um titã, nascido de uma relação incestuosa entre Geia, a terra, e Urano, o céu, seu filho e amante. 

A mitologia grega, quando é posta em discussão a questão da paternidade (tema capricorniano, por excelência), deixa claro que no seu contexto (o das tradições patriarcais) a figura paterna é muito mais uma instauradora de valores, de leis e de regras que propriamente uma figura familiar, papel que elimina uma possível pretensão de igualdade da figura materna com ela. É nesse cenário
ÉDIPO E ANTÍGONA
(BRODOWISKI, 1784-1832
que, no mundo moderno, a figura paterna ainda se insere:  é o pai que estabelece o que é justo, bom e conveniente para a família e para os filhos, sendo considerado, por isso, como fonte de transcendência. Mas deixa ele também implícito, ao desempenhar desse modo o papel que lhe cabe, que o progresso passa pela sua supressão, tudo como também nos descrevem as histórias das dinastias da mitologia grega e de personagens como Édipo, Orestes, Teseu, Antígona e muitos outros.

É do mundo romano que nos vem um dos mitos que a tradição astrológica costuma associar a Capricórnio. Refiro-me à história de Janus, o deus bifronte dos povos da península itálica, por eles considerada como uma divindade indígete, isto é, autenticamente nacional, por oposição às importadas, as novênsiles. Janus, com efeito, tinha o seu culto celebrado no mês de janeiro, mês em que o Sol atravessa a constelação de Capricórnio. Uma das faces de Janus olhava o passado e a outra o futuro. Numa das mãos ele carregava uma chave e na outra uma foice. A chave, como sabemos, tem um duplo simbolismo, ela fecha, trazendo ideias de limite, de separação, de impedimento, de encerramento, e abre, sugerindo um
JANUS
meio de dar acesso a algo, de permitir, de libertar. Também símbolo de sabedoria, a chave, com o bastão, aparecem nas mãos de Janus como deus das portas solsticiais, exercendo assim uma função de guia (do qual o bastão é um símbolo) abrindo o caminho iniciático. O bastão de Janus dá ritmo à marcha do iniciado; sua dimensão, sua forma e sua flexibilidade correspondem sempre a medidas sagradas. Com a foice, na forma de um crescente lunar, Janus incorpora mais traços saturninos, simbolizando a sua figura tanto a morte como a esperança de um renascimento, falando-nos assim do inexorável progresso temporal.

Janus, como se sabe, é, entre os romanos, o guardião da porta principal, chamada janua. Por extensão, Janus acabou adquirindo poder sobre tudo aquilo a que o ser humano dava início, como está na palavra initium. A etimologia mais remota de Janus está numa raíz indo-europeia, ya, que tem o significado de passar, transitar. Entre os romanos, passagens abertas eram chamadas de iani. É por esta razão que o início do ano na Roma antiga foi colocado sob a tutela de Janus, no seu mês, janeiro, isto é, no signo de Capricórnio, pois neste mês o Sol, a 21 de dezembro, retomava o seu caminho de volta em direção do hemisfério norte. 

Lembremos, porém, que nem sempre foi unânime este entendimento entre os romanos, quanto ao mês que marcaria o início do ano. Segundo a tradição mítica, Rômulo havia fixado o início do ano no mês de março, em homenagem ao deus Marte, seu pai. Numa Pompílio, o segundo rei de Roma,  alterou essa disposição ao estabelecer o início do ano no mês de Janeiro e
JUNO
definindo o mês seguinte, fevereiro, meses inexistentes. Fevereiro vem de februa, um apelido da deusa Juno (Hera) enquanto esposa de Fébruo (O Purificador), uma divindade infernal. O mês de fevereiro (februaris mensis) era o último do antigo calendário romano, mês dedicado às expiações e purificações. Fébruo acabou sendo identificado como Pai Dite (Dis Pater), o equivalente do Plutão (Hades) grego, divindade em honra da qual se realizavam, no mundo romano, no período, as
NUMA   POMPÍLIO
cerimônias de mundificação e de expiação anuais. Esse mês foi instituído por Numa Pompílio desejoso de igualar o sistema romano de contar o tempo com o dos povos mais cultos (gregos e fenícios), com os quais os romanos começavam a entrar em contacto. Lembremos que Numa Pompílio (715-672 aC) é um personagem que não tem a sua identidade histórica claramente definida, aparecendo muitas vezes como uma figura mítica. 

A título de curiosidade, é de se lembrar também que o mês de fevereiro é o menor dos meses do ano. Isto se deve ao fato de no tempo do imperador Augusto (63 aC-14 dC) os seus aduladores terem proposto que o mês a ele consagrado, agosto, até então com 30 dias, tivesse a ele acrescentado mais um, para se igualar ao de julho, consagrado ao seu tio, o grande imperador Julio César, já falecido. Seria inadmissível, diziam tais aduladores, que o maior imperador romano, o divino Augusto, ficasse numa situação inferior à de qualquer outro imperador. Assim, o mês de fevereiro foi usado para que tal acerto fosse feito no calendário romano. 


O imperador Carlos Magno, todo poderoso sobre a Europa ocidental, no séc. VIII, fez o início do ano retornar à data fixada por Rômulo. No séc. XIII, a Igreja Católica tentou fazer coincidir o início do ano com o sábado de Aleluia, quando se procede à cerimônia do fogo novo, da bênção das pias batismais, e com a ressurreição de Cristo, que assegura ao homem uma promessa de vida nova e feliz. No séc. XVI, o rei Calos IX, fixou para a cristandade o princípio do ano no primeiro dia do mês de janeiro.  

Voltando a Janus, é de se ressaltar que o deus possuía um templo em Roma com doze portas, com um altar em cada uma delas. No dia 1º de janeiro, nesse templo, os romanos trocavam presentes, figos, maçãs, bolos de mel, peles de carneiro, taças de vinho etc., costume que está na base das festividades celebradas até hoje, entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Janus, no panteão romano, pode ser citado juntamente com os Lares, os Manes e os Penates, divindades que tinham sido espíritos que perseguiam os vivos como personificação de antepassados mortos, transformados depois em entidades protetoras da família e da casa. Janus é um desses deuses mais antigos entre os romanos, sendo, como se disse, representado com duas faces contrapostas numa cabeça, dominando as portas de passagem. Era uma divindade de caráter nacional. Numa das sete colinas de Roma, desde tempos muito remotos, havia uma cidade denominada Janiculum, em sua homenagem. 


LARES   E   PENATES

Segundo alguns mitólogos, Janus teria sido um herói que emigrara da Tessália (Grécia) para a Itália, recebendo do rei Câmeses parte de seu reino. Morrendo este último, conta o mito que Janus reinou sozinho no Lácio e que acolheu mais tarde o deus Cronos que emigrara para a Itália depois da vitória dos olímpicos. Janus dividiu seu reino com ele (como Câmeses o fizera), recebendo Cronos, entre os romanos, o nome de Saturno (nome que vem dos verbo
TERMAS   DE   SATÚRNIA
latino serere, semear, plantar). Unindo-se à deusa Ops Consivia (a Terra, semelhante à deusa Cibele, da Ásia Menor), a prodigalizadora da abundância, Saturno fundou uma cidade fortificada (Saturnia) na região do Capitólio, assumindo a condição de uma divindade civilizadora, instaurando a chamada aetas aurea (idade do ouro). 

As figuras de Janus e de Saturno acabaram por se fundir. Para o povo, entretanto, Janus foi sempre o senhor das passagens, sendo-lhe não só consagrado o mensis ianuarius, o mês que marca a passagem de um ano a outro, como também a ele foi atribuída a tutela de todos os começos, sendo por isso invocado ao nascer de cada dia, antes de qualquer outra divindade. Na festa celebrada em sua honra, no dia 9 de janeiro, era feito o sacrifício (agonium) de um carneiro (guia do rebanho). O santuário principal do deus, o Janus Geminus ou Quirinus (quiris, quiritis, nome pelo qual eram designados  os cidadãos romanos) estava situado ao norte do Fórum, diante do templo de Vesta. A estátua de Janus bifronte foi
JANUS   BIFRONTE
colocada debaixo de um arco na porta principal da cidade, de modo que ele olhasse para a sua entrada e a sua saída. Esta atitude era considerada pelos romanos como um símbolo de sua solicitude, o que o transformava no patrono dos porteiros. Aliás, como porteiro (janitor), Janus usava o seu bastão (virga) para evitar as intrusões molestas e afastar animais inconvenientes. Nesta função de porteiro, Janus era chamado pelos sobrenomes de Patulcius, o que abre, e de Clusivius, o que fecha. O culto de Janus estava centralizado na colina Janiculum, onde o rei Anco Márcio havia estabelecido uma fortificação para proteger o caminho dos comerciantes que iam à Etrúria e ao porto do Tibre, razão pela qual Janus recebeu o apelido de Portunus. Com o tempo, Janus tornou-se não só protetor das entradas e das saídas como dos comerciantes e dos navegadores. Sua cabeça figurava na mais antiga moeda dos romanos. 





Deus ambivalente, deus dos deuses na Roma antiga, Janus assumiu a condição de deus das transições e das passagens, marcando inclusive a evolução do passado em direção do futuro, de um estado a outro, de um mundo a outro. Sua dupla face significava que ele supervisionava tudo, tanto as entradas e as saídas como olhava para o interior e para o exterior. Neste sentido, Janus é a encarnação do próprio princípio da vigilância que pode se constituir também na imagem de um imperialismo sem limites. Sua figura bifronte está sempre nos arcos, nas portas, nas galerias, nos lugares de passagem. Alguns mitólogos fazem referência a um Janus quadrifons, o de quatro faces, capaz de guardar as quatro direções do universo. 

A cabeça de Janus passou a alguma culturas como o símbolo da ambiguidade, algo assim como uma lâmina que tem dois gumes. Positivamente, a cabeça do deus é considerada como a união do positivo e do negativo, qualidades que estão em todas as situações e ações humanas. Entre os romanos antigos, a cabeça bifronte de Janus era também um símbolo da vigilância (pessoas que têm “olhos na nuca”). Aos poucos, porém, esse sentido se perdeu para dar lugar ao da falsidade, como no caso da pessoa que tem “duas caras”, pessoa não digna de confiança, a que oculta o seu verdadeiro eu.    

DESTRUIÇÃO  DO  TEMPLO  DE  JERUSALÉM
( NIKOLAI   GE , 1831 - 1894 )
Entre os judeus, Tevet é o mês de Capricórnio, relacionado com a montanha e, no corpo humano, com a raiva e o fígado. O nome Tevet indica uma carência, uma falta de influência divina. Foi durante este mês que o cerco que levaria à destruição de Jerusalém começou; durante o mês de Tamuz, brechas foram abertas nas muralhas da cidade; em Av, o templo foi destruído. Assim, Tevet (Capricórnio), Tamuz (Câncer) e Av (Leão) são considerados pelos judeus como meses de influências negativas.

CHANUKÁ  ( CHAGALL , 1887 - 1985 )
Tevet é o décimo mês lunar do calendário hebraico a contar de Nissan, mês do Êxodo, ou quarto mês a partir da festa de ano novo (Rosh ha-Shaná). Tevet começa geralmente na segunda metade de dezembro. A festa de Chanuká (festa das luzes) estende-se até os primeiros dias deste mês. Em seu oitavo mês foi completada a tradução da Bíblia para o grego pelos setenta e dois sábios. A história desta tradução está narrada numa obra grega (carta de Arísteas). Por ela ficamos sabendo que a Torá, no séc. III aC, foi traduzida e passou a fazer parte da biblioteca do imperador egípcio Ptolomeu Filadelfo, em Alexandria. O sumo sacerdote de Jerusalém enviou setenta e dois sábios (seis para cada tribo) que fizeram a tradução, que impressionou bastante o imperador. Os rabinos consideraram, entretanto, a tradução uma tragédia, pois não a viram como correta, apenas um texto para uso dos gentios. No dia dez de Tevet se realiza um jejum público para lembrar o cerco de Jerusalém pelos babilônios, cerco este que deu origem à destruição do primeiro templo. Este dia de jejum é o único no calendário judaico que pode cair numa sexta-feira. 

O elemento terra aparece associado a Tevet, simbolizando o vagaroso poder de materialização que nele predomina. Entretanto, é dentro da terra que o poder de sustentação da vida está contido, assim como é dentro do fígado que está o sangue novo, fonte de energia do corpo humano. Segundo algumas tradições, os meses de Tevet (Capricórnio) e de Shevat (Aquário) correspondem aos dois olhos. Este entendimento decorre do fato, segundo tais tradições, de serem os olhos humanos os órgãos que mais facilmente afastam o homem da espiritualidade, segundo o ditado: O olho vê, o coração deseja.

Segundo a astrologia judaica, os olhos correspondem a dois meses do verão, Tamuz e Av, e, por essa razão, por ação reflexa, se ligam a dois meses do inverno, Tevet e Shevat. O atributo natural de Tamuz é a visão, sentido dependente do olho, lugar onde o mal encontra a sua primeira base de influência. Este signo aparece associado ao caranguejo, lembrando, por isso, movimento e flutuação. 

O astro que se associa a Tevet é Shabtai, Saturno, nome que etimologicamente lembra limitação, inatividade, razão, confirmando-se as tradições, pelas quais ele dá lugar a que as influências destrutivas do mal se manifestem. No seu aspecto positivo, Saturno representa a compreensão profunda, a erudição, e a contemplação, associada ao Shabat, na medida em que refreia a atividade mundana para permitir a experiência do transcendental. A expressão negativa deste signo, segundo a astrologia judaica, está no fato de ser Tevet para os cristãos um mês festivo, pois está na base da religião cristã, religião que quanto mais se difundia maior a perseguição e o sofrimento dos judeus.

A tribo relacionada com este signo é a de Dan, que tem a ver com o poder do severo julgamento. Dan, nome que quer dizer julgamento, é o sétimo filho de Jacó e o primeiro de Bilha (escrava de Rachel), ancestral de uma pequena tribo que se instalou em Leshem, perto da nascente do rio Jordão, no extremo norte de Israel. Sansão foi o
ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( MARC  CHAGALL )
mais célebre dos descendentes desta tribo. No acampamento dos judeus, no deserto, a tribo de Dan ocupava um território onde o Sol se escondia, o norte, associado a Satã, ao mal, lugar do infortúnio, de obscuridade e morte, como o atesta Jeremias: é do setentrião que a infelicidade se espalhará  sobre todos os habitantes do país. Em muitas catedrais e igrejas cristãs, a porta do norte é conhecida como a porta do Diabo. O norte, para os judeus, é uma direção associada à acumulação de riqueza; foi dela, conforme explica a Midrash (método de interpretação bíblico), que a tribo de Dan recebeu o ouro com o qual contribuiu para a confecção do bezerro de ouro. 


Segundo os judeus, os nascidos no mês de Tevet costumam demonstrar uma forte inclinação para amealhar riqueza material. Esta tendência está expressa na letra Ayin, a letra deste mês, bem como está associada ao olho direito. Os judeus, durante a sua vida, devem prestar especial atenção neste mês à função espiritual da visão, conforme está em Isaías (cap. 40, 26): levantai vossos olhos ao alto e vede que criou esses corpos celestes: quem faz marchar em ordem o exército das estrelas e as chama a todas pelos seus nomes: pela eficácia da sua fortaleza, e força, e poder, nem uma só faltou. 

O mês de Tevet tem como atributo emocional a raiva (rogez), que tem o mesmo valor numérico da palavra Yirah, orgulho e consciência inspirada. Isto pode ajudar alguém a direcionar a energia de sua raiva orgulhosa contra a inclinação ao mal. A palavra raiva (rogez) é também numericamente equivalente à palavra poder (gevurah). O Mal usa o poder para vencer a santidade de Israel. A vitória sobre os atributos negativos do mês de Tevet pode trazer a uma pessoa um grande crescimento espiritual. A letra Ayin, acima mencionada, conforme certas tradições, representa também o poder de Esaú; sua forma, agachada e curva, simboliza a queda de Esaú.

Esaú, lembremos, em hebraico é peludo, felpudo, filho de Isaac e de Rebeca, apelidado O vermelho, considerado como o ancestral dos edomitas. Ávido de poder, trocou a sua primogenitura com seu irmão gêmeo e mais novo, Jacó, sendo depois privado da benção

SITRA   ACHRA 
paterna em razão de conflitos com o irmão. Assassino, estuprador e adúltero, Esaú morreu quando um neto de Jacó, durante os funerais deste, cortou-lhe a cabeça. Entre os judeus, Esaú simbolizou primeiramente o cruel império romano e depois, na Idade Média, o mundo cristão, pela sua postura antagônica com relação aos descendentes de Jacó. Entre os místicos, Esaú representa o Sitra Achra, o lado do Mal.

Os filisteus (povo semítico, talvez originário de Creta ou do sul da Ásia Menor; por volta de 1.200 aC), instalaram-se nos territórios sírios e palestinos e no norte do Egito; aniquilaram os hititas, fundaram várias cidades, dente elas Gaza; exerceram sempre muita pressão sobre Israel, o que contribuiu para fazer dele uma monarquia; no final do séc.VIII aC, foram submetidos pelos assírios), astrologicamente, são representados para os judeus pelo signo de Capricórnio. Desejando purificar a má influência da origem de sua mulher filisteia, lembram os judeus que Sansão, da tribo de Dan, deu-lhe de presente uma cabra.

Segundo a astrologia judaica, a influência de Capricórnio atinge negativamente Israel só se negligenciados ou esquecidos os preceitos da Torá. Particularmente importante neste mês é a influência do patriarca José, cuja história (sua estada no Egito) é sempre lida ao final do shabat, destacando-se a insegurança que ele deve ter experimentado enquanto vivendo no país dos faraós, um traço capricorniano, segundo os judeus. Durante os meses de Tevet e Shevat são lidos também trechos do livro do Êxodo. A influência de Sagitário em Tevet é representada por José e é enaltecida na festa da Luzes.


CABRA
Para os judeus, a cabra é, dentre todos os animais que vivem em rebanhos, o primeiro a avançar quando chega a um pasto. Essa afirmação está baseada no Talmud, maneira de agir que se confunde com o próprio processo da criação. Antes havia trevas, agora há luz, concluem os judeus. A natureza da cabra, no sentido de tomar a dianteira, assemelha-se à natureza dos capricornianos. Esta postura, porém, tanto pode significar, como eles a consideram, impulso em direção da espiritualidade como em direção da impureza material. Quanto ao primeiro, há que se remover todos os obstáculos quando a meta é a vida espiritual. A grande santidade de Capricórnio está no valor numérico da palavra gdee (cabra), dezessete, o mesmo valor numérico da palavra tov, divindade. 

É preciso lembrar que os judeus não vêem o bem e o mal como forças independentes, mas produzidas pelo próprio Deus. Encontramos em Isaías: Eu formo a luz e crio a escuridão. Eu faço a paz e crio o mal. Muitos rabinos recomendam que uma bênção
SAMAEL
deve ser proferida tanto na ocorrência do bem quanto do mal, pois tudo o que Deus faz é feito no sentido do bem. Na Idade Média, muitos filósofos judeus consideravam que o mal era tão somente a ausência do bem. A Cabala, entretanto, afirma que a fonte do mal está no Sitra Achra, o Outro Lado, sempre em conflito com as forças do bem. O Sitra Achra é o nome genérico das forças demoníacas, estruturadas de modo sefirótico. Esse Outro Lado não tem energia própria, sendo um parasita da luz divina, uma espécie de antimatéria. É governado por Samael, príncipe dos demônios, e por Lilith, gênio feminino do mal.   

O mal que os filisteus sempre representaram para o povo judaico sempre apareceu associado a Lilith e ao poder que ela tem sobre o reino do desejo. Dalila, que Sansão tentou subjugar, é uma manifestação desse poder. Sansão, como sabemos, é um herói bíblico nazirita que viveu no tempo dos Juízes, oriundo da tribo de Dan. Dotado de força extraordinária, realizou proezas que o
SANSÃO MATA LEÃO (CHAGA
tornaram célebre entre o povo de Israel. Matou um leão com as suas próprias mãos e pôs em fuga os seus inimigos, atacando-os com a queixada de um asno. Sua mãe foi avisada pelo anjo Uriel que teria um filho, a ser educado no caminho da religião, pois ele livraria Israel da opressão dos filisteus. Vitimado, porém, por violentas paixões sexuais, acabou sendo entregue aos filisteus por uma de suas amantes, Dalila. Aprisionado, seus olhos foram vazados, sofrimento que lhe coube como uma punição, um castigo divino, assim entendiam todos, por ter sempre cedido às tentações da luxúria que eles lhe traziam. Enquanto aprisionado em Gaza, cego, as mulheres iam visitá-lo na sua cela, para com ele ter relações sexuais, na esperança de  ter um filho tão forte quanto ele. Sabemos que Sansão fez com que o templo filisteu desmoronasse, rompendo as colunas que o sustentavam. Sua morte, para os judeus, teve sempre a característica de um martírio altruísta.


Para a astrologia judaica, o nome de cada signo ensina o processo pelo qual a alma de cada um dos tipos zodiacais pode ser aberta para o divino. A imagem de uma flecha sendo disparada (Sagitário) guarda analogia com a saída da alma do mundo infernal. Esta flecha encontra a sua estabilidade em Tevet, Capricórnio, o tempo de autodisciplina e de preparação para a iluminação. Este processo alcança o mês seguinte, Shevat, Aquário, com a ideia de retidão. 

Negativamente, Tevet pode trazer influências de caráter depressivo, que levem à solidão, ao auto-confinamento. As letras da palavra gdee (cabra) podem ser arranjadas de modo a formar geed, falo. Para os judeus, o uso inadequado deste último, no sentido de desejo, gera ocasiões em que o bem é removido de sua normal posição neste signo. O símbolo da pureza capricorniana é o tsadik (homem justo, probo, personificado como José), cuja energia possibilitou a vitória que a festa das Luzes simboliza, corrigindo-se o que de mal houver em Tevet. José, como se sabe, venceu a tentação do olhar que, dentre outras coisas, leva ao adultério. O poder para a vitória sobre esta tentação está escondido no povo de Israel, sendo ele chamado por isso de reminiscência de José pela tradição religiosa.



CONSTELAÇÃO   DE   CAPRICÓRNIO 

A constelação de Capricórnio estende-se hoje de 2º a 24º Aquário, sendo suas estrelas pouco significativas astrologicamente. Sua principal estrela (alfa) é Giedi, também chamada de Algedi, num dos chifres da cabra, de magnitude ligeiramente superior a 3, hoje a cerca de 3º10´ de Aquário. Este nome é retirado de Al Jady (A Cabra), o nome árabe da constelação. Ptolomeu viu nela influências da natureza de Vênus e de Marte. Há nela também alguns traços uranianos, que sugerem acontecimentos inesperados, às vezes violentos e agressivos, dependendo, é claro, de sua posição e aspectos. A estrela beta de Capricórnio é dupla, Dabih Major e Dabih Minor, na base do chifre. A estrela gama é Nashira, a Afortunada, na região da cauda da figura. Com exceção da primeira estrela mencionada e de Deneb Algedi, estrela delta, as estrelas de Capricórnio não têm maior expressão astrológica. A rigor, a única levada em consideração é esta última, a 22º50´ de Aquário, situada na cauda da cabra, com magnitude 3,1. Entre os árabes é Al Dhanab al Jady (a cauda da cabra). Ptolomeu a relacionou com Saturno e Júpiter, lembrando legalidade, tempo, justiça, sabedoria que protege e que auxilia, vontade de ajudar liderando. Para que estas
LE   VERRIER
características ganhem relevo e destaque é necessário que Deneb Algedi mantenha de algum modo relações positivas com o signo de Libra e com planetas que nele se encontrem. Um fato curioso com relação a Deneb Algedi é que o astrônomo Le Verrier manifestou sempre seu descontentamento com relação às efemérides de Urano, descoberto em 1.781.
GALLE, 1912-1910



Achava Le Verrier, na década de 1840, que havia um elemento perturbador da órbita uraniana, uma massa desconhecida, a 5º na direção leste de Deneb Algedi. Poucos anos depois (1846), com base nesta indicação, o astrônomo Galle descobria o planeta Netuno.