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sábado, 3 de dezembro de 2011

MARTA PELA MANHÃ (CONTO)




ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES


     Marta abriu os olhos lentamente. Sabia, no entanto, que qualquer tentativa seria inútil. Uma vez rompido o fio, que tudo estava por um fio, na recusa e na lucidez, não mais reencontraria o sono. Os olhos abertos, inútil tentar. Talvez fosse possível se não existisse nada, se outra fosse a vida. Agora, as coisas estavam à sua frente. E, com elas, manhãs, dias e noites queimando na memória. Olhou o quarto, a desordem, as marcas deixadas pelo corpo de Carlos Alfredo. Mas já a claridade entrava pela janela. O mundo lá de fora. Sons indistintos, vozes cortadas, palavras que não chegavam a se completar, a rua. E também um leve rumor de chuva, a chuva que escorrera e alagara toda a noite. Se tudo fosse diferente...

     Ruídos familiares, Maria lidando na cozinha. A­quele corpo a arrastar-se sobre os tamancos. Como os detesta­va! Ainda mais pelas manhãs, quando tudo o que incomoda incomoda mais. Os chinelos não serviram para nada. Dar foi o mesmo que jogá-los no lixo. Maria agradecera com um sorriso estúpido, mas nunca os pusera nos pés. Os pés de Maria. O cheiro forte de café lembrou-lhe que daí a pouco ela viria com a bandeja. A significação daquela presença. Como se dissesse que precisava sair da cama, vestir-se, viver mais um dia. Ficaria ali, fincada numa recriminação muda, o olhar parado. Deixar de pensar em Maria. Mas tudo lembrava Maria. A manhã era Maria. Aproveitar a cama um pouco mais, isso sim, enquanto ela não viesse.

     A cortina parecia agora a vela de um barco. Sempre enfunada. Enfunada. En-fu-na-da, repetiu alto, destacando bem as sílabas. Gostou da brincadeira, achando a sua voz bonita. Ia continuar quando as manchas luminosas da parede atraíram a sua atenção. Ora aqui, ora ali, manchas que às vezes adquiriam formas estranhas. De gente, de bichos, de ambos. Figuras fantásticas. Ainda há pouco, sem dúvida, um palhaço transformara-se num elefante. Permaneceu uns segundos na parede a­té que uma lufada mais forte levantou a cortina. A luz mudou de direção. No lugar, então, desumano, um círculo. Quase per­feito, se não fosse o lustre. Ficou a imaginar de onde, como era formado. Cortina, vidros, veneziana, a árvore do jardim, chuva, claridade, tudo era aquele círculo. Não gostou da figura. Lembrava geometria, teoremas (a soma do quadrado... dos catetos ou da hipotenusa?). Complicado, nunca chegara a entender. E depois para quê? Irmã Verônica. Boazinha a Irmã Verônica. Não brigava com ninguém. Pena que a tivessem transferido. Será que se lembrariam? Oito anos não é tanto tempo assim. O colégio. Sorriu. Agradavam-lhes esses pensamentos. Se pudesse organizá-los como num fichário; dizer depois, bem hoje vou pensar nisto, naquilo... Tudo classificado, ali, à mão. Os pensamentos na mão, entre os dedos. Lamentou não ter visitado as freiras ainda.

     Virou-se. De alto a baixo, finíssimas partículas de pó dançavam nas faixas luminosas. O rumor de chuva de­saparecera. Um sol pálido penetrava agora pela janela. "Sol e chuva, chuva e sol...", e o círculo de luz movera-se na pare­de. Pensou em cerrar as cortinas. Mas preferiu abandonar o corpo ao calor da cama. Antes, a carne sossegada que se comprazia na madorna da manhã. Havia também aquele torpor, incômodo à medida que fibras, músculos, a matéria despertava. E uma ton­tura de roda gigante na cabeça. Lembrança viva apesar dos a­nos. Era o cansaço, reconheceu finalmente. Cansaço de muitas noites, acumulado, empilhado, tijolo por tijolo, entre a escuridão e o sono de Carlos Alfredo.

     Correu os olhos pelo quarto. O espelho do guar­da-roupa devolveu imagens confusas. Distintamente na penumbra só o braço alvo, quase a tocar o chão. Os chinelos, a cadeira, o quadro, paisagem suíça, reclame de chocolate, pensou, tinham uma presença forte e insólita. Incomodavam como o círculo de luz, o cansaço. Desejou que não fossem tão evidentes. Assim não lembrariam nada. Sensação esquisita, quase medo. Ou medo. Mas medo de quê? Aquelas coisas todas do quarto a expulsá-la da cama. Maria. Obrigando a decisões. Sempre decisões. Fazer, não fazer. Será que a vida se resumia nisso? Nunca um momento de calma? Não no sono, na vida? Fechou os olhos. Dormir. Logo, porém, os abriu. E tudo ali, sem razão, numa impersonalidade que esmagava. Um quarto de hotel.

     Desviou o olhar para os cantos escuros do quar­to, ocultando-se entre as cobertas. No entanto, os pensamentos foram brotando. Vinham de dentro, do fundo, impossível detê­-los. Um olho d’água sempre a verter, inesgotável. As preocu­pações, Carlos Alfredo. De uns tempos para cá fora ele a importunar. Não posso compreender a tua vida. Sempre em casa, trancada. Você precisa sair, divertir-se. Ele nunca dissera, mas bem sa­bia o porquê das recriminações. Quem não via? Bastava olhá-lo. Aqueles olhos parados, a expressão abatida, forçando um sorriso. Mas Carlos Alfredo nunca pedira nada. Os olhos, sim, suplicavam. Mas sempre fizera por não entendê-los. Não tinha sido essa a com­preensão que imaginara.

ILUSTRAÇÃO   DE   AMÉLIA   BAUERFELDT

      
O mundo de Carlos Alfredo tão distante. Fracasso dos anos, vida lenta e morna. Cada dia mais afastados. Como acabariam? Dois velhos que se odiariam? Se suportariam? Os primei­ros anos de casamento. Não, ninguém poderia condená-la. Tentara entusiasmar-se. E quantas vezes não fora na frente? Mas será que isso não passava de um meio para compensar a desconfiança que jazia lá no fundo? Lá, bem no fundo? Não, não tinha sido sincera. Entretanto, passados os anos, feito o balanço, muito pouco sobrava. Promessas, planos. No ano que vem, se a gratificação for maior, não podemos, não podemos, não pos­so. Por que Carlos Alfredo há cinco anos no mesmo lugar? Sim, tal­vez culpada. Porém, não como ele pretendia. Aliás, nunca ti­nham falado às claras. Como era preciso. Maria novamente. Essa mulher tem patas de elefante! Como poderia receber alguém?

     Suspirou fundo. Aproveitar enquanto Maria não trouxesse o café. E então depois do jantar, quando ficavam a sós na sala, como pesavam as palavras. A falsa intimidade, a conversa banal, os monólogos. Atrás e além, coisas que não pode­riam ser ditas. Ou a coragem que faltava. Geralmente, era ele quem começava, baixando o jornal. A sua trincheira. Olha­va-o. O Carlos Alfredo de antigamente. Um rapaz sério chegando à sua casa. As noites de noivado na sala, as conversas do pai, o cafezinho, Carlos Alfredo é um rapaz de futuro, você tem sorte, disse-lhe a mãe. Coitada! Se os visse hoje. Metódico, hora certa para chegar e para sair. Carlos Alfredo ia embora. Como se não ti­vesse vindo. O casamento: o vestido branco e a palidez de Carlos Al­fredo. Quase ninguém; meia dúzia de convidados e os padrinhos. Nada de festas, que o pai não quisera. As amigas, nunca mais as vira depois do casamento.

     Agora ali estava ele. Um pouco mais gordo, e os primeiros fios brancos nos cabelos. Cabeça baixa, falando. Um "você não acha?" tirava-a das recordações. Estremecia. Responder, falar alguma coisa. O silêncio seria pior que o esforço para abrir a boca. Supôs a princípio que quando os lábios se movessem sairia um grito. Depois... depois acostumou-se. As palavras partiam então facilmente. Mecânicas. Umas depois das outras, ligando-se. Chegava mesmo a ouvi-las, sons estranhos, como se outra as pronunciasse. Outra Marta. Os assuntos do seu dia, qual dia? Nada, senão uma coisa disforme e vaga. O seu trabalho. Nada de pé, sólido. Carlos Alfredo, apesar de tudo, construía. Podia-se tocar, ver. Diferente da poeira que diariamente se acumula e que é preciso limpar. Ontem, hoje, amanhã. Recomeçar.

As longas tardes a perambular pela casa. Voltas sobre si mesma, abrindo e fechando portas, subindo e descendo. Foi então que pensou nos seus momentos secretos. Assim os chamava. Aqui, neste mesmo quarto. As cortinas cerradas, à luz do abajur, esquecida do tempo e de todos, punha-se a experimentar roupas. Principalmente os vestidos de passeio. Uma vez até o de noiva. Os sapatos, luvas, tudo cuidadosamente escolhido. Consumia horas no ritual, caprichando na pintura dos lábios, dos olhos, retocando. Inventava penteados, admirava-se no espelho. Ainda era bela. Nas ruas, os homens ao vê-la pas­sar "diriam alguma coisa". Espetáculo, prazer de tardes chuvosas que Carlos Alfredo e ninguém veria. Talvez, quem sabe, algum dia... Uma estátua, dissera certa vez aquele pintor.

Tinha o sol agora na cama. Maria daí a pouco viria com o café. O barulho da xícara estava a anunciar. E ela tiraria os sapatos para entrar. Na ponta dos pés. Sentiu-se mal só em pensar que iria rever aquele rosto envelhecido, bo­çal. Como se não bastasse, os objetos voltavam a incomodar. Não mais conseguia fixar a vista em nenhum deles. O sono, sim. Era preciso dormir. Assustou-se, reprimindo o grito e o ódio. Maria estava à sua frente com a bandeja. Mais silenciosa que nos outros dias.

— Pode deixar, ordenou ríspida.

A empregada obedeceu em silêncio. Já se retira­va quando Marta a chamou.

— Estou adoentada, Maria. Gripe, não sei. Telefone para o Sr. Carlos Alfredo e diga-lhe para almoçar na cidade. Hoje ficarei na cama.

domingo, 16 de outubro de 2011

UMA VIDA DIFERENTE (CONTO)




ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES


          O prato, os talheres, as cascas da laranja, as migalhas, os copos. Um gesto e tudo iria para o chão, a louça e o passado. Vontade não faltava. Aliás, pensando bem, toda a sua vida fora feita de vontade que não faltava Quisesse ou não, aos trinta e cinco anos, a conclusão não podia ser outra. Porque tudo ficava no amanhã eu faço, no um dia acabo fazendo. Quantas vezes, ali sentada, quando o silêncio se alastrava pela casa, não dissera que era a última vez. A última vez que acordava cedo, a última vez que arrumava a cozinha, a última vez, sempre a última vez. Quantos anos ainda nessa vida, o tempo escorrendo, a suportar a longa sucessão de dias e noites entre a banca de peixe e a casa, o pai, Nina, vida lenta, interminável? Durante esses anos todos acontecera Waldomiro. Por uns momentos, não mais que por uns momentos, entre esperanças e pressentimentos, Waldomiro tinha sido mais imaginação que realidade. Chegara alto e moreno, pele trabalhada pelo mar, e no quarto, na banca de peixe, na rua mesmo, o futuro fora construído. O gesto interrompido, Waldomiro no pensamento, viu-se menina desajeitada armando as peças de um brinquedo-amor. Inesperado brinquedo, jogo difícil, para o qual não fora criada. Mas era uma vida, dádiva, que ofereceria a Waldomiro com os olhos enxutos e a boca sem palavras, porque o amor não precisava de palavras.
Mais do mar do que da terra, Waldomiro não entendeu. Ou fez que não, com as suas, preocupações, peixes, redes e barcos. Por isso, já não significava mais nada. Passara pela superfície calma da sua vida sem deixar marcas. Quando muito, imagens de uma vida diferente, hoje vaga lembrança onde havia mais decepção do que tristeza. No fundo, Waldomiro talvez nunca tivesse significado nada. Nem mesmo quando tudo era novo, nos primeiros tempos, quando tentara acreditar que a sua vida ia enfim se modificar. Modificação era sair do beco do Peixe, longe da casa, do trabalho na banca, viver, viver, sim, com Waldomiro. Uma outra vida, futuro imaginado. Mas que vida?, se nunca soubera fazer outra coisa senão cuidar da casa e trabalhar no peixe. Não era mulher para homem do mar. Mulher como tantas outras, isso era, que Waldomiro encontraria aqui e em outros portos. E quem sabe se a culpa não tinha sido sua, porque nunca falara, porque o gesto, áspero, desajeitado talvez, mas sempre um gesto, fora recolhido? E a palavra? Bastaria uma palavra. Culpada ou não, Waldomiro entrou com o correr do tempo para o rol das coisas que se repetiam.
Nem tinham começado a namorar, se aquilo podia ser chamado de namoro, Waldomiro dera para sumir dias e dias. Primeiro, aquela história do pesqueiro japonês, mês sem vir, sem mandar noticias, as noites na janela. Depois, a pesca da baleia, meses e meses sem fim. O certo é que pouco a pouco, sem nunca terem tocado no assunto, a vida foi se encarregando de acertar tudo. Até que as visitas de Waldomiro, visitas, sim, do jeito que ele vinha, entre um barco e outro, se tornaram mais regulares. Cinco, seis, sete, no máximo, por ano. Namoro... Um domingo à noite no cinema, aquele vestido azul, duas ou três vezes depois, três vezes, exatamente, por que não reconhecer?, ele nunca entrando porque já era muito tarde...
Mas nunca dissera uma palavra ao pai, a Nina, a ninguém. Poderiam eles compreendê-la? Violência, revolta, indiferença, conformismo, sentimentos de uma vida, de muitas, vidas vivendo lado a lado. Agora, por exemplo, um gesto e tudo viraria um monte de cacos. Pratos, copos, louça ordinária que o pai comprava, quebrar até não sobrar nada, Depois ir até o fim sem explicar, um gesto puxando o outro. Sair do beco do Peixe sem se incomodar com futuro. Esticar o braço e jogar tudo no chão, a louça e o passado. Um gesto. Mas como fazer isso, se nem força tinha para se levantar da mesa? De quê adiantava aquela revolta se sabia no fundo que nunca faria nada? O corpo não era mais que um desânimo infinito e os olhos dois olhos mortos de sono e cansaço a olhar a louça, a cozinha suja, as coisas por fazer.
Lá fora, lá fora o tanque, os varais, o passarinho, a criação, as pequenas preocupações noturnas, que só à noite dava tempo. Não bastava o trabalho na banca desde as seis da manhã e ainda por cima a casa. O trabalho na banca, por ruim que fosse, sempre tinha um sentido, mesmo limpar peixe tinha um sentido. Mas se não fizesse o trabalho da casa quem faria? Alguém precisava fazer, mulheres, muitas mulheres faziam. Nina? Nina dormia, pintava as unhas e enrolava o cabelo. Nina tinha quatorze anos. Quinze no mês que vem.
E, por falar em limpar, aquela cozinha estava uma sujeira. Foi deixando, deixando, e agora não podia olhar aquelas paredes de tão encardidas, O resto da casa também, imunda, caindo aos pedaços. a paredes rachadas, goteira por todo canto. Um dia, hoje não, um dia, se viesse a coragem, faria uma limpeza em regra, faxina de água, sabão, creolina. Depois era falar com o seu Lopes para ver se conseguia uma pintura. Pelo menos, caiar a cozinha e a frente.
No quintal nem era bom pensar. Desesperava até. Parecia um terreno baldio de tanto mato e lixo. Não adiantou nada aqueles homens. Os ratos voltaram e continuaram matando a criação nova. Da ninhada de doze, desde a semana passada, não sobravam mais que sete. Os homens deram umas bombadas, disseram para capinar no fundo, lá perto do pé de maria-mole, mandaram não jogar lixo, como não jogar lixo se o muro está arrebentado e todo o mundo que passa joga coisas, como ainda ontem o filho de dona Filomena, os homens falaram até em peste, mas o certo é que não adiantou nada. A prova foi hoje, mais dois pintinhos mortos. Bem, não que tenham morrido, até que não tinha visto os dois pintinhos mortos. Fugir, não fugiram, porque tinha perguntado à vizinhança toda. Roubaram, talvez. Mortos, roubados, sempre dava no mesmo. Melhor dizer que sumiram, sumiram como Waldomiro. Também ninguém se incomodava. Nina podia, bem que podia, se não passasse o dia todo lendo aquelas revistas, falando em fazer um teste na rádio, que tem um moço lá que prometeu...
Não, hoje não faria mais nada. Precisava era ir para o quarto, ficar na janela olhando a rua até que o sono chegasse. Gostava desses momentos. Não pensava em nada. Ou melhor, pensava cm muitas coisas, mas não fazia força para pensar nelas. Era como um desfile, alguém decidia o que ia ver. Não tinha que escolher, e se alguma coisa aborrecia nada mais fácil do que mudar a direção do olhar. Ai então vinham os tempos de menina, passeios, a escola, as praias iluminadas, automóveis, tudo diferente do beco do Peixe. Nas vezes em que fora a esses lugares chegara até a gostar. As mulheres fumavam, os homens falavam alto, olhavam de um modo estranho, como se tudo fosse deles. Roupas, então, nunca vira roupas tão bonitas. Se eles não falassem a mesma língua, poderia dizer até que estava viajando, visitando um outro pais.
O quarto, a rua. Rua, não, antes um beco, com o muro de dona Filomena atravancando tudo. Sempre tinha sido assim, a Prefeitura intimando, e o seu Lopes não fazendo nada. Dono de quase todas as casas da rua, apenas mandava o Perneta no fim do mês fazer a cobrança dos aluguéis. Não aparecia nunca. Seu Lopes era como um deus, todos sabiam que ele existia, mas poucos o tinham visto ou falado com ele. Se os inquilinos queriam reclamar era esperar o Perneta. Dia cinco, seis, lá vinha ele, capengando, importante. Os anos se passavam e a vida no beco continuava a mesma, as casas mais velhas, os moradores mais velhos. O muro de dona Filomena, agora cai não cai desde que o Gino soltara aquela cabeça-de-negro na noite de São João, foi o Gino, quem mais poderia, tudo esburacado, sem luz, beco de sombras, por onde ninguém passava depois das nove. Só com o seu Lopes mesmo, caiar a cozinha, pelo menos...
Quase dez horas no relógio da torre da igreja. Precisava era ir para a cama, pois o pai sempre acabava implicando. Apaga, Carmela! Fecha, Carmela! Olha o freguês, Carmela! Vida estúpida, o pai não parando de implicar. Em casa, na banca, vinte anos desde que a mãe morrera, o pai deixou de falar, não ligou para mais nada. Resmungava, bebia cada vez mais, dizendo palavrão por qualquer coisa.
Na banca era igual, o pai não parava de implicar. Mas o tempo passava mais depressa e quando dava conta mais um dia tinha ido. O avental e as botas de borracha voltavam para o lugar e a água escorria limpando tudo. A água então carregava as escamas, e aquela mistura de água, escamas, espinhas e sangue, quando havia luz, um sol que entrava pela janela dos fundos, parecendo até vitral de igreja. A água escorria vermelha, bem forte, depois ia clareando, tornando tudo limpo, branco para o dia seguinte. As mãos e os azulejos. O que fazer das mãos? nada tirava aquele cheiro, as mãos feridas, cortadas, calejadas, não havia esmalte que desse jeito naquelas unhas.
O pai nem precisava dizer. Depois de tanto tempo, acabara se acostumando, aprendendo a adivinhar os gestos. Vinte anos desde que o pai a pusera na banca, desde que a mãe tinha morrido, mal se lembrava do rosto dela, vinte anos conhecendo os homens e os peixes. Dez e meia, não era tão tarde assim... Quem sabe se o Waldomiro viria? Tinham chegado três barcos...