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quarta-feira, 6 de maio de 2015

A ESTRADA ( CONTO )



ILUSTRAÇÃO    DE    LÚCIO    MENEZES


Depois de muito tempo parei e pude ver então o prédio. Silencioso e branco, assim visto de longe, sob a luz de cinco postes, era um imenso navio ancorado na noite. O andar superior, envidraçado, como ponte de comando onde se decidiam rumos, destacava-se nítido contra o céu escuro, enquanto a parte térrea apenas vislumbrada, casco também envidraçado, mergulhava a proa no mar que eu imaginava.

Quando comecei a andar novamente, um silêncio vazio de cansaço se alastrou pela estrada e o movimento do meu corpo não era mais que o hábito maquinal de caminhar. Não sei por que, mas tive a impressão exata de que o prédio navegava. Mais uma vez, agora sem parar, fixei o olhar naquelas linhas retas, ferros e mastros, nas paredes brancas, nos postes, que ora apareciam, ora desapareciam atrás da vegetação da beira da estrada e o andar superior, envidraçado, sem uma luz, me pareceu ponte de comando batida por relâmpagos, enquanto a parte térrea, casco, mergulhava silenciosamente a proa no mar que eu imaginava. 

Depois de muito tempo, depois de muito andar, olhei novamente o prédio, não mais o navio. Agora, real como as pedras da estrada, estava à minha frente um posto de gasolina, perdido numa estrada por onde raramente passava alguém, um posto de gasolina branco, envidraçado, sob a luz crua de cinco postes.

Aproximei-me, entrando por uma estrada mais estreita, o caminho que certamente me levaria ao posto, onde, depois de muito tempo, tanta fome e cansaço, eu poderia comer e descansar. Embora quisesse, não consegui correr: as pernas se haviam habituado demais à mecânica dos caminhos. Mas tentei e, de todo o esforço, sobraram-me apenas umas passadas mais rápidas. Como se não bastasse, o vento trouxe cheiro de gasolina e óleo. 

Uma vez mais olhei as paredes brancas, as luzes, um branco que escorria pelas paredes, com manchas negras em alguns lugares, marcas, palavras apagadas pelo tempo, mãos, desenhos, presenças de um dia. Mais adiante, sob o foco de luz de um dos cinco postes, um cachorro dormia fora da noite, como se estivesse fora da noite dormia sem se incomodar com o barulho dos insetos que, cegos de tanta luz, se chocavam contra o metal que protegia as lâmpadas.

E fiquei ali parado, à espera de que o cachorro percebesse a minha presença, sem me atrever a continuar. Não sei bem quanto tempo fiquei a olhá-lo, esperando. Finalmente, ele se espreguiçou e, sem que eu lhe visse os olhos, veio ao meu encontro, para tentar decifrar o segredo do meu corpo. Aterrorizado, permaneci imóvel, a voz estrangulada, a boca seca, sentindo um bafo quente nos tornozelos. E foi então, sem que eu soubesse como, que a minha perna esquerda se contraiu, os músculos se retesaram e desferi um pontapé. Dei o primeiro, o segundo, enquanto os ganidos se perdiam na noite, mas era a cabeça que me doía, dor profunda do Sol de muitos dias.

 Quando o cachorro se afastou, deixando um rastro de sangue, senti-me capaz de continuar, lentamente, o passo menos firme. Subi três degraus e colei o rosto nos vidros sujos, o casco envidraçado cuja proa estava mergulhada no mar antes imaginado. Pouco a pouco, os olhos foram se acostumando à penumbra. O balcão, a caixa registradora, anúncios, latas empilhadas, tudo de repente me pareceu petrificado, uma atmosfera opressiva, irreal, aquário estagnado, lembranças de um museu de cera, lembrança antiga, as estátuas e um menino vendo-as deslumbrado.

Mas o que eu sentia era fome, o estômago contorcido, dores de uma vida inteira. A claridade que escapava de uma porta entreaberta, nos fundos, deu-me alguma esperança. Chamei, bati palmas, gritei, ninguém respondeu. Subitamente, ouvi um barulho de lata no chão. Perdi as forças ao tentar localizá-la. Tinha tonturas, náuseas, e caí ali sentado, as costas de encontro à parede. Tudo começou a girar, latas, postes, cachorro, pneus velhos que se aproximavam. Senti um gosto amargo na boca quando um líquido morno e viscoso escorreu-me pelo queixo, pelo peito. Não tinha ânimo para virar a cabeça, tanto fazia.

A lata, pensava na lata, devia estar por perto, e havia uma torneira que pingava. Rastejei alguns metros e estendi o braço. Rápido, um gato fugiu, miando assustado. Mergulhei a mão e retirei muita coisa de dentro da lata, principalmente o que eu buscava. Os restos de comida ainda estavam intactos, salvos. E eu comi, levantando-me depois de comer no escuro, ouvindo apenas a torneira que continuava a pingar. Guardei uns pedaços de pão no bolso e voltei à estrada, talvez novo e igual caminho. O cachorro dormia, o poste, a luz, os insetos, ninguém.

À minha frente, na escuridão da noite, a reta esbranquiçada. Atrás, o posto de gasolina até se tornar mancha branca luminosa. Os carros, acenei algumas vezes. Por uns momentos, ainda os acompanhava com o olhar, dois pontos vermelhos, velozes, invisíveis quase, a caminho das estrelas, do horizonte. Nem me sobressaltava mais quando faróis faziam minha sombra crescer no chão. Nem um gesto, uma tentativa. Apenas, instintivamente, dava lugar, o caminho livre. Sempre uma buzina estridente, às vezes risos e palavrões. Poeira. E eu ficava e continuava sob o silêncio, onde havia o rio correndo. O vento no capim, pios de pássaros, meus passos.

Nesse momento, os olhos acostumados percorreram a paisagem, mas o entendimento não se fez. A memória trouxe terras e terras atravessadas, repetição incansável, sempre a mesma ausência. Nada mais que vultos noturnos, disformes, um aglomerado sem sentido ocupando o espaço. Inútil qualquer busca de significação. Era o momento em que tudo passava a existir por si, sem antes nem depois. Ainda assim procurei, desesperadamente procurei, só os olhos vivendo em mim. Então, gritei. Nenhuma resposta ao meu corpo de febre, uivos e latidos. E com o silêncio que caía sobre os campos veio a vontade de parar e acabar ali mesmo, sucumbido diante da imobilidade daquele céu afogado em sombra azul. Dei mais um passo e rolei para fora da estrada. Não sei, não saberei nunca quanto tempo permaneci desacordado, o rosto colado à terra úmida.

Lembro-me apenas, quando regressei, que o vento assobiava no capim e que nuvens esgarçadas desenhavam animais fabulosos no céu. Depois, num contacto estranho, os olhos viram mais abaixo a mancha verde indefinida. Nenhum pensamento me ocorria, sentia-me oco por dentro e por fora, como cadáver boiando à tona d’água. Pus-me de pé e procurei atravessar aquela cortina verde em direção ao rio. Avancei sem me importar com tropeções, tombos, os galhos que me feriam o corpo. Nesse momento, serena, com uma escolta de nuvens, a lua cruzou o céu, inundando tudo de luz. Da margem do rio, vi formas, distingui árvores, moitas e pedras, claridade e prata. 

Avancei mais. Tinha que chegar ao rio, agora o meu único objetivo. Logo a lama me cobriu os pés. Um pouco mais e já não tocava a terra. A correnteza me arrastava em paz e abandono. A água fria, tão fria e tão pura, anestesiava qualquer asco ou revolta. E os pulsos e o peito, e os braços, e o nariz, tudo a gelar, de um modo insuportável. Um gole, outro, a solidão absoluta. As bocas da água sugavam-me para o fundo, tinha que ceder. E os braços, inconscientes, exasperados, emergiam, estendiam-se, erguiam-se para o céu. O estertor e o repouso.

Mas havia a pedra. Não de dor, mas de espanto infinito quando as mãos se abateram sobre ela. Inspirei o ar repetidas vezes, agarrando-me à brutalidade da matéria que me feria o corpo, que me lacerava as mãos, a água entrando nos cortes, muito sangue que eu não vi. E com esforço e força galguei a pedra, sentindo a doçura de estar vivo.

Os olhos se abriram somente na aurora. Com o Sol, prenúncio de Sol, vinha a paz, paz irreal que parecia escorrer do céu através de uma luz onde se misturava o azul pálido e o rosa diluído. Luz frouxa, bruxuleante, denunciadora de que a carne estava machucada e de que os movimentos significavam dor. As águas haviam baixado mostrando areia alva e pedregulhos, seixos, pedras enormes. Apalpei os bolsos, o pão estava desfeito. Muito pouco sobrava do pão e do meu corpo. De novo o cansaço e a fome agravados pela dor e mais um dia. Pouco a pouco, porém, recomeçou o turbilhão. Os membros se enrijeciam a pele remoçava e vibrava ao apelo vermelho do horizonte. O que fora, o passado, recuava para um esquecimento longínquo.

Levantei-me, precisava voltar à estrada. O tempo já não era o tumor em que supurava a ausência. Fora, com certeza, em algum lugar, quase imperceptivelmente, havia aquela mesma e absoluta reclamação que me movia as pernas. Voltar para onde nada me esperava, mas sempre recomeçar. Tudo naquele momento era sagrado como um sacrifício antigo e imperscrutável. Quando cheguei à estrada, reta esbranquiçada a se perder de vista, o Sol rompia no horizonte.



sábado, 3 de dezembro de 2011

MARTA PELA MANHÃ (CONTO)




ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES


     Marta abriu os olhos lentamente. Sabia, no entanto, que qualquer tentativa seria inútil. Uma vez rompido o fio, que tudo estava por um fio, na recusa e na lucidez, não mais reencontraria o sono. Os olhos abertos, inútil tentar. Talvez fosse possível se não existisse nada, se outra fosse a vida. Agora, as coisas estavam à sua frente. E, com elas, manhãs, dias e noites queimando na memória. Olhou o quarto, a desordem, as marcas deixadas pelo corpo de Carlos Alfredo. Mas já a claridade entrava pela janela. O mundo lá de fora. Sons indistintos, vozes cortadas, palavras que não chegavam a se completar, a rua. E também um leve rumor de chuva, a chuva que escorrera e alagara toda a noite. Se tudo fosse diferente...

     Ruídos familiares, Maria lidando na cozinha. A­quele corpo a arrastar-se sobre os tamancos. Como os detesta­va! Ainda mais pelas manhãs, quando tudo o que incomoda incomoda mais. Os chinelos não serviram para nada. Dar foi o mesmo que jogá-los no lixo. Maria agradecera com um sorriso estúpido, mas nunca os pusera nos pés. Os pés de Maria. O cheiro forte de café lembrou-lhe que daí a pouco ela viria com a bandeja. A significação daquela presença. Como se dissesse que precisava sair da cama, vestir-se, viver mais um dia. Ficaria ali, fincada numa recriminação muda, o olhar parado. Deixar de pensar em Maria. Mas tudo lembrava Maria. A manhã era Maria. Aproveitar a cama um pouco mais, isso sim, enquanto ela não viesse.

     A cortina parecia agora a vela de um barco. Sempre enfunada. Enfunada. En-fu-na-da, repetiu alto, destacando bem as sílabas. Gostou da brincadeira, achando a sua voz bonita. Ia continuar quando as manchas luminosas da parede atraíram a sua atenção. Ora aqui, ora ali, manchas que às vezes adquiriam formas estranhas. De gente, de bichos, de ambos. Figuras fantásticas. Ainda há pouco, sem dúvida, um palhaço transformara-se num elefante. Permaneceu uns segundos na parede a­té que uma lufada mais forte levantou a cortina. A luz mudou de direção. No lugar, então, desumano, um círculo. Quase per­feito, se não fosse o lustre. Ficou a imaginar de onde, como era formado. Cortina, vidros, veneziana, a árvore do jardim, chuva, claridade, tudo era aquele círculo. Não gostou da figura. Lembrava geometria, teoremas (a soma do quadrado... dos catetos ou da hipotenusa?). Complicado, nunca chegara a entender. E depois para quê? Irmã Verônica. Boazinha a Irmã Verônica. Não brigava com ninguém. Pena que a tivessem transferido. Será que se lembrariam? Oito anos não é tanto tempo assim. O colégio. Sorriu. Agradavam-lhes esses pensamentos. Se pudesse organizá-los como num fichário; dizer depois, bem hoje vou pensar nisto, naquilo... Tudo classificado, ali, à mão. Os pensamentos na mão, entre os dedos. Lamentou não ter visitado as freiras ainda.

     Virou-se. De alto a baixo, finíssimas partículas de pó dançavam nas faixas luminosas. O rumor de chuva de­saparecera. Um sol pálido penetrava agora pela janela. "Sol e chuva, chuva e sol...", e o círculo de luz movera-se na pare­de. Pensou em cerrar as cortinas. Mas preferiu abandonar o corpo ao calor da cama. Antes, a carne sossegada que se comprazia na madorna da manhã. Havia também aquele torpor, incômodo à medida que fibras, músculos, a matéria despertava. E uma ton­tura de roda gigante na cabeça. Lembrança viva apesar dos a­nos. Era o cansaço, reconheceu finalmente. Cansaço de muitas noites, acumulado, empilhado, tijolo por tijolo, entre a escuridão e o sono de Carlos Alfredo.

     Correu os olhos pelo quarto. O espelho do guar­da-roupa devolveu imagens confusas. Distintamente na penumbra só o braço alvo, quase a tocar o chão. Os chinelos, a cadeira, o quadro, paisagem suíça, reclame de chocolate, pensou, tinham uma presença forte e insólita. Incomodavam como o círculo de luz, o cansaço. Desejou que não fossem tão evidentes. Assim não lembrariam nada. Sensação esquisita, quase medo. Ou medo. Mas medo de quê? Aquelas coisas todas do quarto a expulsá-la da cama. Maria. Obrigando a decisões. Sempre decisões. Fazer, não fazer. Será que a vida se resumia nisso? Nunca um momento de calma? Não no sono, na vida? Fechou os olhos. Dormir. Logo, porém, os abriu. E tudo ali, sem razão, numa impersonalidade que esmagava. Um quarto de hotel.

     Desviou o olhar para os cantos escuros do quar­to, ocultando-se entre as cobertas. No entanto, os pensamentos foram brotando. Vinham de dentro, do fundo, impossível detê­-los. Um olho d’água sempre a verter, inesgotável. As preocu­pações, Carlos Alfredo. De uns tempos para cá fora ele a importunar. Não posso compreender a tua vida. Sempre em casa, trancada. Você precisa sair, divertir-se. Ele nunca dissera, mas bem sa­bia o porquê das recriminações. Quem não via? Bastava olhá-lo. Aqueles olhos parados, a expressão abatida, forçando um sorriso. Mas Carlos Alfredo nunca pedira nada. Os olhos, sim, suplicavam. Mas sempre fizera por não entendê-los. Não tinha sido essa a com­preensão que imaginara.

ILUSTRAÇÃO   DE   AMÉLIA   BAUERFELDT

      
O mundo de Carlos Alfredo tão distante. Fracasso dos anos, vida lenta e morna. Cada dia mais afastados. Como acabariam? Dois velhos que se odiariam? Se suportariam? Os primei­ros anos de casamento. Não, ninguém poderia condená-la. Tentara entusiasmar-se. E quantas vezes não fora na frente? Mas será que isso não passava de um meio para compensar a desconfiança que jazia lá no fundo? Lá, bem no fundo? Não, não tinha sido sincera. Entretanto, passados os anos, feito o balanço, muito pouco sobrava. Promessas, planos. No ano que vem, se a gratificação for maior, não podemos, não podemos, não pos­so. Por que Carlos Alfredo há cinco anos no mesmo lugar? Sim, tal­vez culpada. Porém, não como ele pretendia. Aliás, nunca ti­nham falado às claras. Como era preciso. Maria novamente. Essa mulher tem patas de elefante! Como poderia receber alguém?

     Suspirou fundo. Aproveitar enquanto Maria não trouxesse o café. E então depois do jantar, quando ficavam a sós na sala, como pesavam as palavras. A falsa intimidade, a conversa banal, os monólogos. Atrás e além, coisas que não pode­riam ser ditas. Ou a coragem que faltava. Geralmente, era ele quem começava, baixando o jornal. A sua trincheira. Olha­va-o. O Carlos Alfredo de antigamente. Um rapaz sério chegando à sua casa. As noites de noivado na sala, as conversas do pai, o cafezinho, Carlos Alfredo é um rapaz de futuro, você tem sorte, disse-lhe a mãe. Coitada! Se os visse hoje. Metódico, hora certa para chegar e para sair. Carlos Alfredo ia embora. Como se não ti­vesse vindo. O casamento: o vestido branco e a palidez de Carlos Al­fredo. Quase ninguém; meia dúzia de convidados e os padrinhos. Nada de festas, que o pai não quisera. As amigas, nunca mais as vira depois do casamento.

     Agora ali estava ele. Um pouco mais gordo, e os primeiros fios brancos nos cabelos. Cabeça baixa, falando. Um "você não acha?" tirava-a das recordações. Estremecia. Responder, falar alguma coisa. O silêncio seria pior que o esforço para abrir a boca. Supôs a princípio que quando os lábios se movessem sairia um grito. Depois... depois acostumou-se. As palavras partiam então facilmente. Mecânicas. Umas depois das outras, ligando-se. Chegava mesmo a ouvi-las, sons estranhos, como se outra as pronunciasse. Outra Marta. Os assuntos do seu dia, qual dia? Nada, senão uma coisa disforme e vaga. O seu trabalho. Nada de pé, sólido. Carlos Alfredo, apesar de tudo, construía. Podia-se tocar, ver. Diferente da poeira que diariamente se acumula e que é preciso limpar. Ontem, hoje, amanhã. Recomeçar.

As longas tardes a perambular pela casa. Voltas sobre si mesma, abrindo e fechando portas, subindo e descendo. Foi então que pensou nos seus momentos secretos. Assim os chamava. Aqui, neste mesmo quarto. As cortinas cerradas, à luz do abajur, esquecida do tempo e de todos, punha-se a experimentar roupas. Principalmente os vestidos de passeio. Uma vez até o de noiva. Os sapatos, luvas, tudo cuidadosamente escolhido. Consumia horas no ritual, caprichando na pintura dos lábios, dos olhos, retocando. Inventava penteados, admirava-se no espelho. Ainda era bela. Nas ruas, os homens ao vê-la pas­sar "diriam alguma coisa". Espetáculo, prazer de tardes chuvosas que Carlos Alfredo e ninguém veria. Talvez, quem sabe, algum dia... Uma estátua, dissera certa vez aquele pintor.

Tinha o sol agora na cama. Maria daí a pouco viria com o café. O barulho da xícara estava a anunciar. E ela tiraria os sapatos para entrar. Na ponta dos pés. Sentiu-se mal só em pensar que iria rever aquele rosto envelhecido, bo­çal. Como se não bastasse, os objetos voltavam a incomodar. Não mais conseguia fixar a vista em nenhum deles. O sono, sim. Era preciso dormir. Assustou-se, reprimindo o grito e o ódio. Maria estava à sua frente com a bandeja. Mais silenciosa que nos outros dias.

— Pode deixar, ordenou ríspida.

A empregada obedeceu em silêncio. Já se retira­va quando Marta a chamou.

— Estou adoentada, Maria. Gripe, não sei. Telefone para o Sr. Carlos Alfredo e diga-lhe para almoçar na cidade. Hoje ficarei na cama.