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domingo, 24 de maio de 2015

DALVA, ESSE É O NOME (CONTO)



ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES

Tudo ficou mais claro quando começamos a falar do bairro: já não importa o tempo. Resumo de tempo. Primeiro, vieram perfumes e sons, quintais com cajás-mangas e carambolas, coisas que a gente via, vagas lembranças noturnas, indecifráveis então. Depois, só depois, você. Dalva é o nome. Dalva e não esse, de puta, que te deram aqui no cabaré, que a vida te deu. Dalva como antigamente, na incompreensão, nos gritos, nos olhos assustados, na rua onde juntos moramos um dia. 

— Dalva, já pra dentro! Menina não brinca com moleque.

A casa, pinturas e jardim de cimento não conseguiram mudá-la. Está como você a viu. O sol ainda lambuza de mel os telhados (os telhados que você queria derreter para fazer uma grande bala de mel). E o mesmo luar encharca as noites: e encostando o ouvido nas velhas paredes, nos muros, nos portões, isso bem tarde, quando o bairro está imóvel e em silêncio, a gente pode ouvir lá dentro as nossas vozes de um dia, rumor de passos, risos, barulhos de guindaste, corridas, apitos, segredo meu, Dalva, nosso.

— Assim não vale, assim não vale, o pegador é o Lelé.

— Não grita, que o seu Juca fez noitada, deixa ele dormir. 

Agora à minha frente. Não sei quanto você ganha por cada copo meu. Sou um freguês, desses que aos sábados anda pelos cabarés. O que fazer numa noite de sábado? A gente trabalha a semana inteira e no sábado vem aqui conversar, conversas casuais, mãos descansando sobre as mesas, a toalha encardida apesar de limpa, as mulheres passando. Não adianta, acabamos sempre por aqui. Só quando o corpo está bem cansado, voltamos, mania de andar, esticando os caminhos, chutando latas, falando alto, parando no bar do Alfredo pra tomar a última cerveja, com aquela sensação de alguém que perdeu o bonde e que todos ficam olhando, eu, o Sílvio, o Armando, o pessoal lá do bairro que vem pra cá. 

Que vida, desde que um dia. Quem foi, Dalva? Gente do bairro? O pai e o irmão mandaram você embora, esses eu sei. Geraldo, principalmente, quando se fez homem em cima de um caminhão de café. Precisava do respeito dos companheiros de peitos largos e braços grossos, me contaram. A mãe, coitada, é bom você saber hoje, nunca poderia ter sido. Chorava e esperou por você até não aguentar mais. 

— A minha, dona Maria, anda por aí, e era tão bonita. Acaba voltando, acaba. Casa é sempre casa, dona Maria. 

Criança, você não se lembra quantas noites não a vi, tarde da noite, correndo ruas, o chale preto na cabeça. Seu Júlio, aposentado depois que o gelo e os peixes lhe estropiaram o corpo. Seu Júlio, de cara balofa, aquilo era a bebida, de cara balofa picada de bexigas. E o Luizinho, vocês não viram o Luizinho? Se ele aparecer mando avisar, dona Justina, ele anda numas companhias, obrigado.

Ela está cumprindo ordens, Dalva. Pra que brigar com ela? Quem manda, você sabe, é a gorda, lá da caixa. Sim, já reparei. Nunca vi dona de cabaré que fosse bonita, uns bofes. Ela acha que você está me incomodando. O que me incomoda é aquela cara, redonda, enorme. Um sapo fumando, você acertou. Pode deixar, Dalva, falo com ela. Arranjo uma desculpa, de que você me agrada mesmo assim, por exemplo. Você que falava tanto, tagarelava, a Dalva fala um bocado, cabelos loiros e olhos azuis, ainda me lembro. 

No quarto ao lado, fingindo dormir, as brigas que escutávamos. A rua ainda girando na cabeça, Senhora dona Sancha coberta de ouro e prata, disso não, de pegador ou de  mana mula é que eu quero brincar, as brigas que escutávamos com o coração pulando dentro do peito. Pias fedorentas gorgolejando, a mãe lavando os pratos no tanque, choros, torneiras abertas, rádios fanhosos, a voz do Brasil, aí então a gente dormia, lavando antes os pés. E seu Júlio sempre bêbado, o que não vai dizer a vizinhança. A vida naqueles porões, faces cavadas, cores terrosas. O cheiro dos porões, Dalva, ficou para sempre na pele. Como aqueles caiçaras lá na rampa, trazendo a marca e o cheiro de marés podres, óleo e maresia.

Cabelos loiros e olhos mais cinzentos que azuis, diferente dessa pasta que hoje cobre o seu rosto. Cinco anos aqui estragam bastante. Igual à vida nos porões. Seu corpo deve estar todo manchado, essa mancha no seu braço. Se você não se largasse tanto... Enquanto falamos, o pior são essas meninas. A noite toda servindo, beliscadas por tudo que é marinheiro e gringo. E elas dão risada, pensam no soldo deles. É, você ganha mais. Mas o que é que você ganha, Dalva? Se não é o amigo ou a polícia, a vida se encarrega de tirar, de você, da gente dos porões.

Você com certeza não se lembra de mais ninguém. Eu podia dizer que o Armando e o Sílvio vieram comigo. Aquele que está dançando com a mulata é o Armando, o Charuto, como a gente chamava. Morava perto de você. Sim, estou escutando. Você brincou muito com ele, ajudou até, de catimbau e vassoura na porta dos armazéns de café. Lá naquela mesa está o Sílvio, meio alto já. Se não me engano, foi o seu primeiro namorado nas matinês de domingo, quando você vinha de vestido branco e ele não passava o braço pelas suas costas porque a gente estava na fileira de trás.

—O Sílvio é bobo, se fosse eu, a Dalva aí do lado e ele não faz nada.

Não, não quero dançar. Agora vem o show. O magriça do pistão está tirando uns agudos. Olha, Dalva, é o momento de glória do homem. Jogaram o foco de luz em cima dele, lá no canto. E ele parece outro dentro daquela fantasia desengonçada. De mexicano, cubano, não sei bem, mas o que ele é, isso sim, é barbeiro durante o dia, trabalha à tarde no salão do seu Nicola. Mora lá no bairro e de vez em quando apanha da mulher, uma bonitona que sai muito. São duas horas, Dalva. Hora de você parar um pouco. Duas horas falando, falando. Não digo, mas gostaria que você calasse a boca. CALA A BOCA, DALVA! Desculpe, Dalva, quero ver a rumbeira. Não, não é o meu tipo, muita carne. 

Não precisava também ficar assim, que nem estátua, de boca aberta, com esses olhos parados. Aliás, os seus olhos agora, o mesmo brilho que você tinha em frente das vitrines da infância. Sempre vidros entre você e a vida, essas lantejoulas de rumbeira, vidros, Dalva... 

— Também essa menina só vive querendo as coisas.

Mas você era tão pequena, não sentia ou não sabia. Ou sentíamos todos à nossa maneira. Só os olhos vivendo em nós. Olhar deslumbrado, pregado nas vitrines dos bares e das lojinhas do bairro. O mesmo olhar quando íamos de bonde à cidade, uma festa. Havia cores, Dalva, mas logo continuávamos a correr. E esquecíamos. Mais quando as janelas punham o frio e a umidade dentro dos porões.

— Onde já se viu! Isso é pra criança rica, menina. 

Ou no filho. É nele que você está pensando? Que ele fica em casa dormindo. A vizinha do quarto do lado, você não gosta muito dela, dá uma espiada de vez em quando porque você paga. Mas no fundo ela não vai. Quantas vezes você aqui chorou sorrindo e ele chorou, Dalva? O pai, se aparece, vem pra fazer barulho, sei. Na semana passada, isso depois de quase dois meses, deu uma surra em você e levou o dinheiro. Não precisava levantar a saia pra eu ver essas marcas na sua coxa. Acredito, foi na quina da mesa. Um escândalo, quase veio a polícia. 

Escândalo fazia seu Júlio quando bebia. Era só a mãe falar, ele começava a quebrar tudo e a xingar. Então a mãe chorava, você também, embora não entendesse, e a vizinhança, gente de muro baixo, vinha olhar, porque o pobre, dona Justina, esta vida não presta mesmo, tem de mostrar tudo. O meu Júlio até que não é mau, dona Maria, são aqueles botequins lá do mercado, seu guarda, só por esta vez. E, na porta, o carro de presos encostado, havia uns que riam, outros que diziam pra largar seu Júlio, que polícia devia andar atrás de ladrão e não de um velho que de vez em quando ficava bêbado. Mas sempre levavam seu Júlio, é melhor para a senhora, dona Justina, uns dois dias e ele volta mansinho. Nessa hora, quedê Geraldo? Ninguém sabia do Geraldo nessa noite e no outro dia, que ele não se importava, e a mãe dizia então para você vir dormir com ela e até bem tarde, olhos com poeira de sono, João Pestana está chegando, chegando, chegando, você ouvia ela chorar.

— A minha acaba voltando, acaba, dona Maria. Casa é sempre casa. 

E ninguém voltou pra dona Justina, você, seu Júlio, Luizinho, Geraldo, e muitos anos se passaram. O velho morreu numa noite de bebedeira, afogado lá na rampa, entre restos de peixes e cascas de banana, e o Luizinho, dizem até que está preso, desapareceu do bairro. Geraldo não. Geraldo mudou, casado com uma italiana barulhenta. Macho respeitado pelo braço, abriu caminho na vida, fazendo muitos filhos, mas parece que deu hoje pra beber, ainda acaba como o pai. 

A velha então ficou sozinha e se desesperou, vivendo do que os outros davam, os vizinhos mais antigos. Às vezes fala em você andando de noite pelas ruas, umas palavras sem sentido, e a molecada nova do bairro, eles não sabem brincar como nós, Dalva, chama dona Justina de doida, lá vem a doida, olha a doida. Ela não liga, ri, fala alto, chamando todos de meu filho, mas quando está com raiva, xinga e levanta a saia, ela que era tão quieta, fechada em casa, vivendo só pra vocês.   
                                   
Agora, Dalva, estamos aqui, um em frente ao outro, mais calados do que nunca, esperando que a noite acabe. Eu com uma vontade danada de ir embora, querendo, não sei por que, que você não existisse, que você sumisse da minha frente, melhor até nunca a gente tivesse se encontrado. O máximo que eu posso fazer, Dalva, é dizer que levo você pra casa, de carro, num táxi, se eu conseguir um. São três e meia. A esta hora você não arranja mesmo mais ninguém, tanto tempo perdido aqui comigo, lembrando coisas. Os dois perdemos tempo, e de tudo o que falamos não sobra agora mais pra mim que um gosto de fumo e bebida na boca, gosto amargo neste fim de noite, eu meio bêbado, madrugada lá fora, nas ruas, no bairro onde juntos moramos um dia, manhãs com cheiro forte de café e gritos que punham a gente fora da cama. Boa noite, Dalva! Vamos?



sexta-feira, 8 de maio de 2015

tarde de domingo

                                              
“Está ainda por surgir uma nova ciência que se ocupará da aproximação entre os seres vivos, dos seus contatos, dos seus retraimentos, dos movimentos dos seus corpos e dos seus membros. Ciência que será a da solidão do homem e, por isso mesmo, do próprio homem: este o motivo por que não tentou ninguém.” 
                                                                                         JEAN REVERZY.



ÉDOUARD  VUILLARD  -  INTÉRIEUR, 1902

Há muito que o mundo era aquela névoa pousada sobre os objetos. Uma cortina que fora baixando aos poucos até reduzir tudo a vultos e manchas. Sinais, presenças de um dia que só as mãos ajudavam a recordar. Por que se preocupar esta noite? Uma noite como as outras, certamente. Tudo no lugar de sempre. O mesmo silêncio, Corisco ali ao lado, o seu ronronar, a cadeira de balanço rangendo, a negra Lupércia velando no quarto dos fundos, silêncio pesado, no entanto, silêncio bom, a vida se acabando com tempo, sem nada pedir.

Se não fosse pelos sons que de vez em quando chegavam da rua, teria a impressão de viver num lugar deserto. As praias da infância, a casa, a soleira de pedra, a lanterna do alpendre, as gaivotas, o vento na areia, a voz da mãe, tudo voltava. Sentiu um mal-estar quando a casa lhe apareceu, como num sonho, no fundo do mar, navio submerso, enorme e branca, quase em completa escuridão, uma forma mais adivinhada que vista. Alguns peixes nadavam silenciosamente à sua volta, peixes de abismo que não precisam mais de olhos. 

Um leve movimento de cabeça fez com que seus pensamentos se desviassem. Agora eram os sons, o sussurro distante da cidade, buzinas, apitos, um grito, vozes entrecortadas, conversas que chegavam aos pedaços, um latido, outro, risadas, alguém cantando pelo vazio dos quintais. De onde viriam? De repente, tudo silenciava, os ruídos da casa voltavam a se impor, os murmúrios do tempo, como os chamava. Esses, já os conhecia bem, demais até, já se haviam incorporado ao próprio silêncio. Em noites de chuva e vento eram as venezianas como castanholas, umas lâminas soltas, castanholas como as que tio Alexandre havia trazido da Espanha, falando de touradas, leques coloridos, mantilhas, ciganos; nos grandes temporais, com trovões e raios, o céu escuro, corre a esconder as tesouras e a cobrir espelhos, Santa Bárbara nos proteja, que a paineira ficava com a dança de São Guido; nas mudanças de tempo, os estalidos da madeira, os móveis se espreguiçando, disse um dia Maria Amália e todos acharam muita graça, uma menina de cinco anos dizendo essas coisas, uma menina que gostava de pegar aqueles besouros que pulavam do jardim para dentro da casa ou se chocavam contra as vidraças. Cada barulho no seu tempo, na sua estação, sem mistério, sem sustos. Por que então desarrumar os pensamentos hoje? Uma cortina que não valia a pena descerrar...



PIERRE  BONNARD  -  1899

Ajeitou-se um pouco mais na cadeira à procura de outras posições, o corpo sabia encontrá-las. Fechou os olhos aos poucos, relaxando. Dormitava, a cabeça pendente. Aquela mancha negra à sua frente era o piano. Tudo se desvanecia. Marfim e ausência. Rogério, a mãe, Ignez, Maria Amália, tio Alexandre, os primos, vida breve a deles. Noites no piano, castiçais cintilando, o jarro de flores, a sala iluminada e tranquila. Rogério não é hoje mais que uma figura meio apagada naquele retrato pendurado na parede. E a boca, os olhos, como era a voz de Rogério? Fez um grande esforço, mas não conseguiu se lembrar. Quem, para se lembrar deles? Contornos que se iam perdendo, lembranças ainda dolorosas que encobrira, acenos de um tempo que findara. 

Entretanto, nada tão vivo e real como essas presenças que ainda pareciam andar pela casa. Tinha a impressão de que os alcançaria com as mãos, todos sentados na sala, como à espera de que alguém fosse tocar piano. Poderiam, então, depois, conversar, uma conversa tranquila, sem urgências, sem que os olhos falassem coisas diferentes das palavras que estavam sendo ditas e que ninguém ficasse atrás delas, escondendo-se, todos rindo, felizes e bons, todos contentes porque capazes de conversar assim tão despreocupadamente. Depois, seriam servidos biscoitos, todos preferindo os sequilhos de Lupércia, e refrescos, limonada, licor para os adultos. Cada um contaria um caso, todos se interessando muito pelo que estava sendo dito, inclusive pelo que as crianças diziam, uma casa diferente, onde crianças tomavam parte em conversa de gente grande, nada de senhor pai ou senhora mãe, ninguém precisando fingir que dava importância a elas, até que, bem tarde já, quando o João Pestana estivesse chegando para alguns, muitos já levando a mão à boca para esconder um bocejo, aí, então, papai  diria que já eram horas, levantando-se. Tio Alexandre iria embora com Rogério e nós, cambaleando de sono, subiríamos, com Maria Amália nos braços de mamãe.

Já sob as cobertas, entre risos e cochichos, ouviríamos os ferrolhos sendo corridos, as trancas, as janelas sendo fechadas, até que mamãe gritasse baixinho uma boa-noite-durmam-bem-não-façam-barulho. As luzes apagadas, gozaríamos, então, sem saber que as estávamos gozando, daquelas pequenas alegrias de um resto de noite, os passos abafados de papai no corredor, o cheiro da roupa limpa, o perfume do sabonete, as toalhas de linho, até que o nosso último olhar se perdesse sobre a bacia e o jarro em cima da cômoda, naquela figura do jarro, e que João Pestana nos levasse. 

Ao lado do piano, no fundo do salão, dois armários que iam até o teto e um grande baú de couro, sustentado por suportes de madeira; mais adiante, a coluna com o cachepô de faiança, e, sempre,
ODILON   REDON
sempre, impregnando tudo um odor de madeiras velhas. Canto respeitado, reino do gato Jeremias, grande ancestral de Corisco, era o lugar de onde saíam histórias antigas, quando os armários e o baú se abriam, prazer de tardes e noites chuvosas, exemplos, lições, demonstrações, tudo o que deveria ser imitado. Os olhos esbugalhados, o coração batendo mais rápido, observávamos, escutávamos em absoluto silêncio, como se estivéssemos num teatro, embora nunca tivéssemos ido a um. Molduras de estanho, colares, pentes, tiaras, chapéus, bengalas, fechaduras de prata, plumas coloridas, chapéus de feltro, botões de madrepérola, licoreiros, angélicas, toalhas de renda, cartolas, lanternas, bússolas, binóculos, caleidoscópios, relógios, biscoiteiras de porcelana, símbolos indecifráveis de um mundo encantado para o nosso temor e espanto. 

Rogério era o mais curioso, mas ele foi asa de pássaro batendo, passou rápido, deixando saudade. Tio Alexandre trouxe a notícia. Difícil viver sem ele, sem aqueles olhos azuis, seu sorriso calmo, a vida chegando quando ele entrava. Mas ele se foi. Durante muito tempo perguntou à mãe o que era leucemia. Depois, esqueceu. A vida foi se encarregando de pôr as coisas no lugar. Sentiu apenas que Rogério não teve tempo para tomar posse do seu destino. Os anos se passaram, a vida voltou a tecer os seus fios. Retraía-se, seu corpo mudava, não sabia bem o que fazer com ele. Serenamente vazia, a compensação vinha pela poesia e pelo piano. Aos poucos, foi retornando à sua verdadeira proporção para descobrir que não havia surpresas, que tudo estava ordenado desde sempre. Há milhões de anos ordenado. Guardou as mágoas, recolheu a dor e sobreviveu.

Depois, apareceu o outro primo, Luiz. Apareceu, não, ele veio naturalmente pelas mãos do pai. Coube à mãe explicar o que queria dizer a presença de Luiz. Nada muito claro, mas pareceu-lhe que ela procurava dizer que a unidade da família deveria ser preservada e que poder e prestígio se consolidavam pelo casamento. Como não entendesse bem, a mãe encerrou, dizendo-lhe que mais tarde compreenderia melhor. O pai, por seu lado, mais direto, disse-lhe 
         JEUNES  FILLES  AU  PIANO
             (AUGUSTE  RENOIR)
que já era tempo de passar do piano, dos bordados e das poesias para outro destino, o casamento, ajudar um marido a se tornar um grande homem, como esposa e mãe. Ficou noites sem dormir pensando no que significava ser mulher. Luiz vinha de um outro ramo da família que não conhecia bem. Trazia não só cafezais, fazendas, mas casas comissárias, as duas pontas do fabuloso negócio que desbravava terras e fundava cidades, como dizia o pai, entre contente e expectante. Luiz tinha os privilégios dos filhos de família primogênitos. Pertencia à estirpe dos varões que mandam e governam. Lembrou-se do dia do casamento, quando ao descer do altar, sem dar conta do que fazia, mordeu um botão de flor de laranjeira do buquê que carregava. O pai e a mãe sorriram, realmente o casamento se consumava. Nas semanas que se seguiram à festa, jantar e baile, duas palavras lhe ficaram nos ouvidos: opíparo e copioso. Nunca as ouvira antes, teve que perguntar ao pai o que queriam dizer. 

Luiz gostava de penteados esculturais e de botas de pelica para as mulheres; quanto aos vestidos, só figurinos franceses, e todos com muitas anáguas. Para servir a mesa, só copeiras brancas, loiras de preferência, era mais chique... O primeiro conflito que teve com Luiz foi por causa de literatura. Não propriamente conflito, porque não reagiu. Espantou-se mais com a grosseria de suas palavras do que com o gesto. Luiz lhe disse que para mulheres só admitia umas poucas letras, algumas operações aritméticas e algumas cantigas de ninar, se não houvesse amas, observou, e, quanto a leituras, só as do livro de orações,  pois, mais do que isso, era pôr em risco a estrutura do lar. Afirmava tudo isto com um ar cínico, às vezes exaltado, como era seu costume. Como resposta, conseguiu apenas ponderar, com voz sussurrante, a garganta fechada e os olhos úmidos, que, embora não fosse uma animadora de salões, ele bem sabia que a música, as poesias, a arte, enfim, ao lado dos bordados e dos crochês, das mesas bem servidas e de receber visitas, faziam também parte da sua vida, que precisava sonhar, que gostava de beleza, de fantasia. Da resposta que ele lhe deu não se lembrava bem. Mantivera-se calma, disso se lembrava, sim. Ele lhe arrancou então das mãos, com violência, um livro de Alberto de Oliveira que tio Alexandre lhe emprestara; ainda tinha na memória os versos de "Cheiro de Espádua", que estava a ler naquele momento.  Procurou abrir-se com a mãe, procedera bem, mal? Depois de ouvi-la, a mãe, ao que parece não entendendo bem o que procurava, lhe falou sobre as virtudes da maternidade, concluindo  com a recomendação de que mantivesse sempre o corpo arredondado e macio, o olhar meigo e atento, não importando o número de filhos, e, acima de tudo, evitasse o sol para assegurar a alvura do rosto a fim de não ter que recorrer ao disfarce do pó-de-arroz. Olhou-a atônita, sem saber o que dizer. 

Vieram, então os enjoos e desejos, os filhos, os resguardos, o Vinho Biogênico, as ardósias, as primeiras cartilhas onde “o menino vê o gato” e “a bola é de Babá”. Luiz, do alto das suas botas, sobranceiro, orgulhava-se como reprodutor, festejando cada nascimento, abrindo garrafas de vinho do Porto. Com ele, definitivamente, aprendera que as coisas se impunham sem que fosse possível qualquer escolha. Onde errara? A chuva, por exemplo, que antes significava barcos de papel, o melhor banho de mar do mundo, desde que não houvesse raios, passeios alegres e despreocupados, sem receio de resfriados, noites quietas e sossegadas, histórias do tio Alexandre, o desfile das peças que saíam dos armários e do baú, horas que pingavam vagarosa e generosamente, virou cuidado, janelas se fechando, lenha úmida, roupa que não secava, virou tempo ruim para as crianças, garganta inflamada.  Percebia vagamente que faltara alguma coisa em sua vida. Sentia-se só e abandonada diante do que não escolhera. 

Durante anos e anos Deus fez a sua vontade. Deu e tirou. Mortes, desenganos, alegrias, ilusões, obscuras promessas que não conseguia entender. E depois desse tempo todo descobriu que também se podia viver sem felicidade, Foi naquela tarde de domingo. Luiz dormia, os filhos e as noras reunidos com amigos no jardim, rindo, ouvindo música. Um sentimento de paz parecia se alastrar pela casa, paz irreal, escorrendo dos telhados, das nuvens, misturada à luz que em jorros inundava a sala. Encostou a cabeça no vidro da janela e sentiu o rosto molhado. Viu, então, as marcas que o tempo deixara, os cabelos grisalhos, a expressão contraída. Um momento, não mais que um momento para que a vida inteira se esvaísse. Sentiu que regressava sozinha de uma longa viagem, uma sensação de queda, como se olhasse o mundo pela primeira vez. E ele nunca lhe parecera tão distante. Reconhecimento tardio de que aquele não era o mundo para o qual havia se preparado. Olhou mais uma vez pela janela, tendo a impressão de que a sombra gigantesca da paineira gerara aquele domingo. Passou as mãos pelo rosto. As lágrimas rolavam sem ressentimento.

Procurou lembrar-se de alguns momentos que, se não plenos, se não houvessem trazido alguma satisfação, sempre ajudaram pelo menos a continuar. Quem sabe, perguntava-se, se não é só isso que existe realmente, se não é só isso que realmente conta. Apenas um pouco de habilidade e eles apareceriam, os momentos perfeitos. Agarrar-se a eles. Era só calar as perguntas, não pronunciar certas palavras, passar por cima de algumas coisas. Ou então e ao mesmo tempo, por que não?,  visitar e receber pessoas, um chá à tarde, agitar-se como todos se agitam, ocupar-se, voltar às obras assistenciais, pensar nos filhos, nos netos, lembrar datas de aniversário, ir às compras, conversar com os vizinhos, distrair-se, viajar, ver coisas bonitas, cansar um pouco o corpo, se possível, para que o sono viesse logo.  Um pouco de habilidade, apenas, não dar espaço para que os pensamento aflorassem. Sorriu, afundando-se um pouco mais na cadeira.

Uma rajada mais forte escancarou a janela do fundo, inflando as cortinas, como as velas de um barco. Pressentiu que a madrugada ia cedendo lugar à aurora e que logo a sala se encheria de claridade, apesar das cortinas. Os objetos sairiam inevitavelmente das sombras, trazendo a manhã. Pequeninos círculos de luz já começavam a rodopiar no teto, à sua frente. Fixou o olhar na obstinação dos objetos. As mãos começaram a se movimentar, tentava fazer com que os dedos se cravassem nos braços da cadeira, um esforço que, entretanto, sabia inútil. Aquelas mãos, como se não fossem suas. Desistiu. Tentou investir contra tudo o que estava ali à sua volta. Lá fora, a vida renascia aos poucos, a luz já estava dentro da sala, irrecusável agora, incontestável. Tentou mais uma vez. Não conseguiu. Percebeu que havia esgotado todas as suas lembranças.


ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A ESTRADA ( CONTO )



ILUSTRAÇÃO    DE    LÚCIO    MENEZES


Depois de muito tempo parei e pude ver então o prédio. Silencioso e branco, assim visto de longe, sob a luz de cinco postes, era um imenso navio ancorado na noite. O andar superior, envidraçado, como ponte de comando onde se decidiam rumos, destacava-se nítido contra o céu escuro, enquanto a parte térrea apenas vislumbrada, casco também envidraçado, mergulhava a proa no mar que eu imaginava.

Quando comecei a andar novamente, um silêncio vazio de cansaço se alastrou pela estrada e o movimento do meu corpo não era mais que o hábito maquinal de caminhar. Não sei por que, mas tive a impressão exata de que o prédio navegava. Mais uma vez, agora sem parar, fixei o olhar naquelas linhas retas, ferros e mastros, nas paredes brancas, nos postes, que ora apareciam, ora desapareciam atrás da vegetação da beira da estrada e o andar superior, envidraçado, sem uma luz, me pareceu ponte de comando batida por relâmpagos, enquanto a parte térrea, casco, mergulhava silenciosamente a proa no mar que eu imaginava. 

Depois de muito tempo, depois de muito andar, olhei novamente o prédio, não mais o navio. Agora, real como as pedras da estrada, estava à minha frente um posto de gasolina, perdido numa estrada por onde raramente passava alguém, um posto de gasolina branco, envidraçado, sob a luz crua de cinco postes.

Aproximei-me, entrando por uma estrada mais estreita, o caminho que certamente me levaria ao posto, onde, depois de muito tempo, tanta fome e cansaço, eu poderia comer e descansar. Embora quisesse, não consegui correr: as pernas se haviam habituado demais à mecânica dos caminhos. Mas tentei e, de todo o esforço, sobraram-me apenas umas passadas mais rápidas. Como se não bastasse, o vento trouxe cheiro de gasolina e óleo. 

Uma vez mais olhei as paredes brancas, as luzes, um branco que escorria pelas paredes, com manchas negras em alguns lugares, marcas, palavras apagadas pelo tempo, mãos, desenhos, presenças de um dia. Mais adiante, sob o foco de luz de um dos cinco postes, um cachorro dormia fora da noite, como se estivesse fora da noite dormia sem se incomodar com o barulho dos insetos que, cegos de tanta luz, se chocavam contra o metal que protegia as lâmpadas.

E fiquei ali parado, à espera de que o cachorro percebesse a minha presença, sem me atrever a continuar. Não sei bem quanto tempo fiquei a olhá-lo, esperando. Finalmente, ele se espreguiçou e, sem que eu lhe visse os olhos, veio ao meu encontro, para tentar decifrar o segredo do meu corpo. Aterrorizado, permaneci imóvel, a voz estrangulada, a boca seca, sentindo um bafo quente nos tornozelos. E foi então, sem que eu soubesse como, que a minha perna esquerda se contraiu, os músculos se retesaram e desferi um pontapé. Dei o primeiro, o segundo, enquanto os ganidos se perdiam na noite, mas era a cabeça que me doía, dor profunda do Sol de muitos dias.

 Quando o cachorro se afastou, deixando um rastro de sangue, senti-me capaz de continuar, lentamente, o passo menos firme. Subi três degraus e colei o rosto nos vidros sujos, o casco envidraçado cuja proa estava mergulhada no mar antes imaginado. Pouco a pouco, os olhos foram se acostumando à penumbra. O balcão, a caixa registradora, anúncios, latas empilhadas, tudo de repente me pareceu petrificado, uma atmosfera opressiva, irreal, aquário estagnado, lembranças de um museu de cera, lembrança antiga, as estátuas e um menino vendo-as deslumbrado.

Mas o que eu sentia era fome, o estômago contorcido, dores de uma vida inteira. A claridade que escapava de uma porta entreaberta, nos fundos, deu-me alguma esperança. Chamei, bati palmas, gritei, ninguém respondeu. Subitamente, ouvi um barulho de lata no chão. Perdi as forças ao tentar localizá-la. Tinha tonturas, náuseas, e caí ali sentado, as costas de encontro à parede. Tudo começou a girar, latas, postes, cachorro, pneus velhos que se aproximavam. Senti um gosto amargo na boca quando um líquido morno e viscoso escorreu-me pelo queixo, pelo peito. Não tinha ânimo para virar a cabeça, tanto fazia.

A lata, pensava na lata, devia estar por perto, e havia uma torneira que pingava. Rastejei alguns metros e estendi o braço. Rápido, um gato fugiu, miando assustado. Mergulhei a mão e retirei muita coisa de dentro da lata, principalmente o que eu buscava. Os restos de comida ainda estavam intactos, salvos. E eu comi, levantando-me depois de comer no escuro, ouvindo apenas a torneira que continuava a pingar. Guardei uns pedaços de pão no bolso e voltei à estrada, talvez novo e igual caminho. O cachorro dormia, o poste, a luz, os insetos, ninguém.

À minha frente, na escuridão da noite, a reta esbranquiçada. Atrás, o posto de gasolina até se tornar mancha branca luminosa. Os carros, acenei algumas vezes. Por uns momentos, ainda os acompanhava com o olhar, dois pontos vermelhos, velozes, invisíveis quase, a caminho das estrelas, do horizonte. Nem me sobressaltava mais quando faróis faziam minha sombra crescer no chão. Nem um gesto, uma tentativa. Apenas, instintivamente, dava lugar, o caminho livre. Sempre uma buzina estridente, às vezes risos e palavrões. Poeira. E eu ficava e continuava sob o silêncio, onde havia o rio correndo. O vento no capim, pios de pássaros, meus passos.

Nesse momento, os olhos acostumados percorreram a paisagem, mas o entendimento não se fez. A memória trouxe terras e terras atravessadas, repetição incansável, sempre a mesma ausência. Nada mais que vultos noturnos, disformes, um aglomerado sem sentido ocupando o espaço. Inútil qualquer busca de significação. Era o momento em que tudo passava a existir por si, sem antes nem depois. Ainda assim procurei, desesperadamente procurei, só os olhos vivendo em mim. Então, gritei. Nenhuma resposta ao meu corpo de febre, uivos e latidos. E com o silêncio que caía sobre os campos veio a vontade de parar e acabar ali mesmo, sucumbido diante da imobilidade daquele céu afogado em sombra azul. Dei mais um passo e rolei para fora da estrada. Não sei, não saberei nunca quanto tempo permaneci desacordado, o rosto colado à terra úmida.

Lembro-me apenas, quando regressei, que o vento assobiava no capim e que nuvens esgarçadas desenhavam animais fabulosos no céu. Depois, num contacto estranho, os olhos viram mais abaixo a mancha verde indefinida. Nenhum pensamento me ocorria, sentia-me oco por dentro e por fora, como cadáver boiando à tona d’água. Pus-me de pé e procurei atravessar aquela cortina verde em direção ao rio. Avancei sem me importar com tropeções, tombos, os galhos que me feriam o corpo. Nesse momento, serena, com uma escolta de nuvens, a lua cruzou o céu, inundando tudo de luz. Da margem do rio, vi formas, distingui árvores, moitas e pedras, claridade e prata. 

Avancei mais. Tinha que chegar ao rio, agora o meu único objetivo. Logo a lama me cobriu os pés. Um pouco mais e já não tocava a terra. A correnteza me arrastava em paz e abandono. A água fria, tão fria e tão pura, anestesiava qualquer asco ou revolta. E os pulsos e o peito, e os braços, e o nariz, tudo a gelar, de um modo insuportável. Um gole, outro, a solidão absoluta. As bocas da água sugavam-me para o fundo, tinha que ceder. E os braços, inconscientes, exasperados, emergiam, estendiam-se, erguiam-se para o céu. O estertor e o repouso.

Mas havia a pedra. Não de dor, mas de espanto infinito quando as mãos se abateram sobre ela. Inspirei o ar repetidas vezes, agarrando-me à brutalidade da matéria que me feria o corpo, que me lacerava as mãos, a água entrando nos cortes, muito sangue que eu não vi. E com esforço e força galguei a pedra, sentindo a doçura de estar vivo.

Os olhos se abriram somente na aurora. Com o Sol, prenúncio de Sol, vinha a paz, paz irreal que parecia escorrer do céu através de uma luz onde se misturava o azul pálido e o rosa diluído. Luz frouxa, bruxuleante, denunciadora de que a carne estava machucada e de que os movimentos significavam dor. As águas haviam baixado mostrando areia alva e pedregulhos, seixos, pedras enormes. Apalpei os bolsos, o pão estava desfeito. Muito pouco sobrava do pão e do meu corpo. De novo o cansaço e a fome agravados pela dor e mais um dia. Pouco a pouco, porém, recomeçou o turbilhão. Os membros se enrijeciam a pele remoçava e vibrava ao apelo vermelho do horizonte. O que fora, o passado, recuava para um esquecimento longínquo.

Levantei-me, precisava voltar à estrada. O tempo já não era o tumor em que supurava a ausência. Fora, com certeza, em algum lugar, quase imperceptivelmente, havia aquela mesma e absoluta reclamação que me movia as pernas. Voltar para onde nada me esperava, mas sempre recomeçar. Tudo naquele momento era sagrado como um sacrifício antigo e imperscrutável. Quando cheguei à estrada, reta esbranquiçada a se perder de vista, o Sol rompia no horizonte.



sábado, 3 de dezembro de 2011

MARTA PELA MANHÃ (CONTO)




ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES


     Marta abriu os olhos lentamente. Sabia, no entanto, que qualquer tentativa seria inútil. Uma vez rompido o fio, que tudo estava por um fio, na recusa e na lucidez, não mais reencontraria o sono. Os olhos abertos, inútil tentar. Talvez fosse possível se não existisse nada, se outra fosse a vida. Agora, as coisas estavam à sua frente. E, com elas, manhãs, dias e noites queimando na memória. Olhou o quarto, a desordem, as marcas deixadas pelo corpo de Carlos Alfredo. Mas já a claridade entrava pela janela. O mundo lá de fora. Sons indistintos, vozes cortadas, palavras que não chegavam a se completar, a rua. E também um leve rumor de chuva, a chuva que escorrera e alagara toda a noite. Se tudo fosse diferente...

     Ruídos familiares, Maria lidando na cozinha. A­quele corpo a arrastar-se sobre os tamancos. Como os detesta­va! Ainda mais pelas manhãs, quando tudo o que incomoda incomoda mais. Os chinelos não serviram para nada. Dar foi o mesmo que jogá-los no lixo. Maria agradecera com um sorriso estúpido, mas nunca os pusera nos pés. Os pés de Maria. O cheiro forte de café lembrou-lhe que daí a pouco ela viria com a bandeja. A significação daquela presença. Como se dissesse que precisava sair da cama, vestir-se, viver mais um dia. Ficaria ali, fincada numa recriminação muda, o olhar parado. Deixar de pensar em Maria. Mas tudo lembrava Maria. A manhã era Maria. Aproveitar a cama um pouco mais, isso sim, enquanto ela não viesse.

     A cortina parecia agora a vela de um barco. Sempre enfunada. Enfunada. En-fu-na-da, repetiu alto, destacando bem as sílabas. Gostou da brincadeira, achando a sua voz bonita. Ia continuar quando as manchas luminosas da parede atraíram a sua atenção. Ora aqui, ora ali, manchas que às vezes adquiriam formas estranhas. De gente, de bichos, de ambos. Figuras fantásticas. Ainda há pouco, sem dúvida, um palhaço transformara-se num elefante. Permaneceu uns segundos na parede a­té que uma lufada mais forte levantou a cortina. A luz mudou de direção. No lugar, então, desumano, um círculo. Quase per­feito, se não fosse o lustre. Ficou a imaginar de onde, como era formado. Cortina, vidros, veneziana, a árvore do jardim, chuva, claridade, tudo era aquele círculo. Não gostou da figura. Lembrava geometria, teoremas (a soma do quadrado... dos catetos ou da hipotenusa?). Complicado, nunca chegara a entender. E depois para quê? Irmã Verônica. Boazinha a Irmã Verônica. Não brigava com ninguém. Pena que a tivessem transferido. Será que se lembrariam? Oito anos não é tanto tempo assim. O colégio. Sorriu. Agradavam-lhes esses pensamentos. Se pudesse organizá-los como num fichário; dizer depois, bem hoje vou pensar nisto, naquilo... Tudo classificado, ali, à mão. Os pensamentos na mão, entre os dedos. Lamentou não ter visitado as freiras ainda.

     Virou-se. De alto a baixo, finíssimas partículas de pó dançavam nas faixas luminosas. O rumor de chuva de­saparecera. Um sol pálido penetrava agora pela janela. "Sol e chuva, chuva e sol...", e o círculo de luz movera-se na pare­de. Pensou em cerrar as cortinas. Mas preferiu abandonar o corpo ao calor da cama. Antes, a carne sossegada que se comprazia na madorna da manhã. Havia também aquele torpor, incômodo à medida que fibras, músculos, a matéria despertava. E uma ton­tura de roda gigante na cabeça. Lembrança viva apesar dos a­nos. Era o cansaço, reconheceu finalmente. Cansaço de muitas noites, acumulado, empilhado, tijolo por tijolo, entre a escuridão e o sono de Carlos Alfredo.

     Correu os olhos pelo quarto. O espelho do guar­da-roupa devolveu imagens confusas. Distintamente na penumbra só o braço alvo, quase a tocar o chão. Os chinelos, a cadeira, o quadro, paisagem suíça, reclame de chocolate, pensou, tinham uma presença forte e insólita. Incomodavam como o círculo de luz, o cansaço. Desejou que não fossem tão evidentes. Assim não lembrariam nada. Sensação esquisita, quase medo. Ou medo. Mas medo de quê? Aquelas coisas todas do quarto a expulsá-la da cama. Maria. Obrigando a decisões. Sempre decisões. Fazer, não fazer. Será que a vida se resumia nisso? Nunca um momento de calma? Não no sono, na vida? Fechou os olhos. Dormir. Logo, porém, os abriu. E tudo ali, sem razão, numa impersonalidade que esmagava. Um quarto de hotel.

     Desviou o olhar para os cantos escuros do quar­to, ocultando-se entre as cobertas. No entanto, os pensamentos foram brotando. Vinham de dentro, do fundo, impossível detê­-los. Um olho d’água sempre a verter, inesgotável. As preocu­pações, Carlos Alfredo. De uns tempos para cá fora ele a importunar. Não posso compreender a tua vida. Sempre em casa, trancada. Você precisa sair, divertir-se. Ele nunca dissera, mas bem sa­bia o porquê das recriminações. Quem não via? Bastava olhá-lo. Aqueles olhos parados, a expressão abatida, forçando um sorriso. Mas Carlos Alfredo nunca pedira nada. Os olhos, sim, suplicavam. Mas sempre fizera por não entendê-los. Não tinha sido essa a com­preensão que imaginara.

ILUSTRAÇÃO   DE   AMÉLIA   BAUERFELDT

      
O mundo de Carlos Alfredo tão distante. Fracasso dos anos, vida lenta e morna. Cada dia mais afastados. Como acabariam? Dois velhos que se odiariam? Se suportariam? Os primei­ros anos de casamento. Não, ninguém poderia condená-la. Tentara entusiasmar-se. E quantas vezes não fora na frente? Mas será que isso não passava de um meio para compensar a desconfiança que jazia lá no fundo? Lá, bem no fundo? Não, não tinha sido sincera. Entretanto, passados os anos, feito o balanço, muito pouco sobrava. Promessas, planos. No ano que vem, se a gratificação for maior, não podemos, não podemos, não pos­so. Por que Carlos Alfredo há cinco anos no mesmo lugar? Sim, tal­vez culpada. Porém, não como ele pretendia. Aliás, nunca ti­nham falado às claras. Como era preciso. Maria novamente. Essa mulher tem patas de elefante! Como poderia receber alguém?

     Suspirou fundo. Aproveitar enquanto Maria não trouxesse o café. E então depois do jantar, quando ficavam a sós na sala, como pesavam as palavras. A falsa intimidade, a conversa banal, os monólogos. Atrás e além, coisas que não pode­riam ser ditas. Ou a coragem que faltava. Geralmente, era ele quem começava, baixando o jornal. A sua trincheira. Olha­va-o. O Carlos Alfredo de antigamente. Um rapaz sério chegando à sua casa. As noites de noivado na sala, as conversas do pai, o cafezinho, Carlos Alfredo é um rapaz de futuro, você tem sorte, disse-lhe a mãe. Coitada! Se os visse hoje. Metódico, hora certa para chegar e para sair. Carlos Alfredo ia embora. Como se não ti­vesse vindo. O casamento: o vestido branco e a palidez de Carlos Al­fredo. Quase ninguém; meia dúzia de convidados e os padrinhos. Nada de festas, que o pai não quisera. As amigas, nunca mais as vira depois do casamento.

     Agora ali estava ele. Um pouco mais gordo, e os primeiros fios brancos nos cabelos. Cabeça baixa, falando. Um "você não acha?" tirava-a das recordações. Estremecia. Responder, falar alguma coisa. O silêncio seria pior que o esforço para abrir a boca. Supôs a princípio que quando os lábios se movessem sairia um grito. Depois... depois acostumou-se. As palavras partiam então facilmente. Mecânicas. Umas depois das outras, ligando-se. Chegava mesmo a ouvi-las, sons estranhos, como se outra as pronunciasse. Outra Marta. Os assuntos do seu dia, qual dia? Nada, senão uma coisa disforme e vaga. O seu trabalho. Nada de pé, sólido. Carlos Alfredo, apesar de tudo, construía. Podia-se tocar, ver. Diferente da poeira que diariamente se acumula e que é preciso limpar. Ontem, hoje, amanhã. Recomeçar.

As longas tardes a perambular pela casa. Voltas sobre si mesma, abrindo e fechando portas, subindo e descendo. Foi então que pensou nos seus momentos secretos. Assim os chamava. Aqui, neste mesmo quarto. As cortinas cerradas, à luz do abajur, esquecida do tempo e de todos, punha-se a experimentar roupas. Principalmente os vestidos de passeio. Uma vez até o de noiva. Os sapatos, luvas, tudo cuidadosamente escolhido. Consumia horas no ritual, caprichando na pintura dos lábios, dos olhos, retocando. Inventava penteados, admirava-se no espelho. Ainda era bela. Nas ruas, os homens ao vê-la pas­sar "diriam alguma coisa". Espetáculo, prazer de tardes chuvosas que Carlos Alfredo e ninguém veria. Talvez, quem sabe, algum dia... Uma estátua, dissera certa vez aquele pintor.

Tinha o sol agora na cama. Maria daí a pouco viria com o café. O barulho da xícara estava a anunciar. E ela tiraria os sapatos para entrar. Na ponta dos pés. Sentiu-se mal só em pensar que iria rever aquele rosto envelhecido, bo­çal. Como se não bastasse, os objetos voltavam a incomodar. Não mais conseguia fixar a vista em nenhum deles. O sono, sim. Era preciso dormir. Assustou-se, reprimindo o grito e o ódio. Maria estava à sua frente com a bandeja. Mais silenciosa que nos outros dias.

— Pode deixar, ordenou ríspida.

A empregada obedeceu em silêncio. Já se retira­va quando Marta a chamou.

— Estou adoentada, Maria. Gripe, não sei. Telefone para o Sr. Carlos Alfredo e diga-lhe para almoçar na cidade. Hoje ficarei na cama.

domingo, 16 de outubro de 2011

UMA VIDA DIFERENTE (CONTO)




ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES


          O prato, os talheres, as cascas da laranja, as migalhas, os copos. Um gesto e tudo iria para o chão, a louça e o passado. Vontade não faltava. Aliás, pensando bem, toda a sua vida fora feita de vontade que não faltava Quisesse ou não, aos trinta e cinco anos, a conclusão não podia ser outra. Porque tudo ficava no amanhã eu faço, no um dia acabo fazendo. Quantas vezes, ali sentada, quando o silêncio se alastrava pela casa, não dissera que era a última vez. A última vez que acordava cedo, a última vez que arrumava a cozinha, a última vez, sempre a última vez. Quantos anos ainda nessa vida, o tempo escorrendo, a suportar a longa sucessão de dias e noites entre a banca de peixe e a casa, o pai, Nina, vida lenta, interminável? Durante esses anos todos acontecera Waldomiro. Por uns momentos, não mais que por uns momentos, entre esperanças e pressentimentos, Waldomiro tinha sido mais imaginação que realidade. Chegara alto e moreno, pele trabalhada pelo mar, e no quarto, na banca de peixe, na rua mesmo, o futuro fora construído. O gesto interrompido, Waldomiro no pensamento, viu-se menina desajeitada armando as peças de um brinquedo-amor. Inesperado brinquedo, jogo difícil, para o qual não fora criada. Mas era uma vida, dádiva, que ofereceria a Waldomiro com os olhos enxutos e a boca sem palavras, porque o amor não precisava de palavras.
Mais do mar do que da terra, Waldomiro não entendeu. Ou fez que não, com as suas, preocupações, peixes, redes e barcos. Por isso, já não significava mais nada. Passara pela superfície calma da sua vida sem deixar marcas. Quando muito, imagens de uma vida diferente, hoje vaga lembrança onde havia mais decepção do que tristeza. No fundo, Waldomiro talvez nunca tivesse significado nada. Nem mesmo quando tudo era novo, nos primeiros tempos, quando tentara acreditar que a sua vida ia enfim se modificar. Modificação era sair do beco do Peixe, longe da casa, do trabalho na banca, viver, viver, sim, com Waldomiro. Uma outra vida, futuro imaginado. Mas que vida?, se nunca soubera fazer outra coisa senão cuidar da casa e trabalhar no peixe. Não era mulher para homem do mar. Mulher como tantas outras, isso era, que Waldomiro encontraria aqui e em outros portos. E quem sabe se a culpa não tinha sido sua, porque nunca falara, porque o gesto, áspero, desajeitado talvez, mas sempre um gesto, fora recolhido? E a palavra? Bastaria uma palavra. Culpada ou não, Waldomiro entrou com o correr do tempo para o rol das coisas que se repetiam.
Nem tinham começado a namorar, se aquilo podia ser chamado de namoro, Waldomiro dera para sumir dias e dias. Primeiro, aquela história do pesqueiro japonês, mês sem vir, sem mandar noticias, as noites na janela. Depois, a pesca da baleia, meses e meses sem fim. O certo é que pouco a pouco, sem nunca terem tocado no assunto, a vida foi se encarregando de acertar tudo. Até que as visitas de Waldomiro, visitas, sim, do jeito que ele vinha, entre um barco e outro, se tornaram mais regulares. Cinco, seis, sete, no máximo, por ano. Namoro... Um domingo à noite no cinema, aquele vestido azul, duas ou três vezes depois, três vezes, exatamente, por que não reconhecer?, ele nunca entrando porque já era muito tarde...
Mas nunca dissera uma palavra ao pai, a Nina, a ninguém. Poderiam eles compreendê-la? Violência, revolta, indiferença, conformismo, sentimentos de uma vida, de muitas, vidas vivendo lado a lado. Agora, por exemplo, um gesto e tudo viraria um monte de cacos. Pratos, copos, louça ordinária que o pai comprava, quebrar até não sobrar nada, Depois ir até o fim sem explicar, um gesto puxando o outro. Sair do beco do Peixe sem se incomodar com futuro. Esticar o braço e jogar tudo no chão, a louça e o passado. Um gesto. Mas como fazer isso, se nem força tinha para se levantar da mesa? De quê adiantava aquela revolta se sabia no fundo que nunca faria nada? O corpo não era mais que um desânimo infinito e os olhos dois olhos mortos de sono e cansaço a olhar a louça, a cozinha suja, as coisas por fazer.
Lá fora, lá fora o tanque, os varais, o passarinho, a criação, as pequenas preocupações noturnas, que só à noite dava tempo. Não bastava o trabalho na banca desde as seis da manhã e ainda por cima a casa. O trabalho na banca, por ruim que fosse, sempre tinha um sentido, mesmo limpar peixe tinha um sentido. Mas se não fizesse o trabalho da casa quem faria? Alguém precisava fazer, mulheres, muitas mulheres faziam. Nina? Nina dormia, pintava as unhas e enrolava o cabelo. Nina tinha quatorze anos. Quinze no mês que vem.
E, por falar em limpar, aquela cozinha estava uma sujeira. Foi deixando, deixando, e agora não podia olhar aquelas paredes de tão encardidas, O resto da casa também, imunda, caindo aos pedaços. a paredes rachadas, goteira por todo canto. Um dia, hoje não, um dia, se viesse a coragem, faria uma limpeza em regra, faxina de água, sabão, creolina. Depois era falar com o seu Lopes para ver se conseguia uma pintura. Pelo menos, caiar a cozinha e a frente.
No quintal nem era bom pensar. Desesperava até. Parecia um terreno baldio de tanto mato e lixo. Não adiantou nada aqueles homens. Os ratos voltaram e continuaram matando a criação nova. Da ninhada de doze, desde a semana passada, não sobravam mais que sete. Os homens deram umas bombadas, disseram para capinar no fundo, lá perto do pé de maria-mole, mandaram não jogar lixo, como não jogar lixo se o muro está arrebentado e todo o mundo que passa joga coisas, como ainda ontem o filho de dona Filomena, os homens falaram até em peste, mas o certo é que não adiantou nada. A prova foi hoje, mais dois pintinhos mortos. Bem, não que tenham morrido, até que não tinha visto os dois pintinhos mortos. Fugir, não fugiram, porque tinha perguntado à vizinhança toda. Roubaram, talvez. Mortos, roubados, sempre dava no mesmo. Melhor dizer que sumiram, sumiram como Waldomiro. Também ninguém se incomodava. Nina podia, bem que podia, se não passasse o dia todo lendo aquelas revistas, falando em fazer um teste na rádio, que tem um moço lá que prometeu...
Não, hoje não faria mais nada. Precisava era ir para o quarto, ficar na janela olhando a rua até que o sono chegasse. Gostava desses momentos. Não pensava em nada. Ou melhor, pensava cm muitas coisas, mas não fazia força para pensar nelas. Era como um desfile, alguém decidia o que ia ver. Não tinha que escolher, e se alguma coisa aborrecia nada mais fácil do que mudar a direção do olhar. Ai então vinham os tempos de menina, passeios, a escola, as praias iluminadas, automóveis, tudo diferente do beco do Peixe. Nas vezes em que fora a esses lugares chegara até a gostar. As mulheres fumavam, os homens falavam alto, olhavam de um modo estranho, como se tudo fosse deles. Roupas, então, nunca vira roupas tão bonitas. Se eles não falassem a mesma língua, poderia dizer até que estava viajando, visitando um outro pais.
O quarto, a rua. Rua, não, antes um beco, com o muro de dona Filomena atravancando tudo. Sempre tinha sido assim, a Prefeitura intimando, e o seu Lopes não fazendo nada. Dono de quase todas as casas da rua, apenas mandava o Perneta no fim do mês fazer a cobrança dos aluguéis. Não aparecia nunca. Seu Lopes era como um deus, todos sabiam que ele existia, mas poucos o tinham visto ou falado com ele. Se os inquilinos queriam reclamar era esperar o Perneta. Dia cinco, seis, lá vinha ele, capengando, importante. Os anos se passavam e a vida no beco continuava a mesma, as casas mais velhas, os moradores mais velhos. O muro de dona Filomena, agora cai não cai desde que o Gino soltara aquela cabeça-de-negro na noite de São João, foi o Gino, quem mais poderia, tudo esburacado, sem luz, beco de sombras, por onde ninguém passava depois das nove. Só com o seu Lopes mesmo, caiar a cozinha, pelo menos...
Quase dez horas no relógio da torre da igreja. Precisava era ir para a cama, pois o pai sempre acabava implicando. Apaga, Carmela! Fecha, Carmela! Olha o freguês, Carmela! Vida estúpida, o pai não parando de implicar. Em casa, na banca, vinte anos desde que a mãe morrera, o pai deixou de falar, não ligou para mais nada. Resmungava, bebia cada vez mais, dizendo palavrão por qualquer coisa.
Na banca era igual, o pai não parava de implicar. Mas o tempo passava mais depressa e quando dava conta mais um dia tinha ido. O avental e as botas de borracha voltavam para o lugar e a água escorria limpando tudo. A água então carregava as escamas, e aquela mistura de água, escamas, espinhas e sangue, quando havia luz, um sol que entrava pela janela dos fundos, parecendo até vitral de igreja. A água escorria vermelha, bem forte, depois ia clareando, tornando tudo limpo, branco para o dia seguinte. As mãos e os azulejos. O que fazer das mãos? nada tirava aquele cheiro, as mãos feridas, cortadas, calejadas, não havia esmalte que desse jeito naquelas unhas.
O pai nem precisava dizer. Depois de tanto tempo, acabara se acostumando, aprendendo a adivinhar os gestos. Vinte anos desde que o pai a pusera na banca, desde que a mãe tinha morrido, mal se lembrava do rosto dela, vinte anos conhecendo os homens e os peixes. Dez e meia, não era tão tarde assim... Quem sabe se o Waldomiro viria? Tinham chegado três barcos...