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sexta-feira, 8 de maio de 2015

LINDO COMO TURHAN BEY (CONTO)


... bem, agora acho que será possível, é só esperar um pouco mais, já faltou tanto que cheguei até a duvidar, semana que vem as missas, uma apenas, e nesse meio tempo as visitas, torcer pra que deixem de aparecer, que sumam logo, que me deixem em paz, os cunhados principalmente, a vizinhança, mas acima de todos o Luizinho, dos filhos é o que eu preciso cortar logo, sempre ele, o mais chorão, o mais agarrado, aliás desde que Augusto começou com os problemas da diabetes, aquele dedão do pé, a ferida na perna, por fim aquele antraz nas costas, que não sei onde ele arrumou, que coisa feia, meu Deus!, nunca tinha ouvido falar nisso, e depois quando tudo foi piorando, foi ele, o Luizinho, o que mais sentiu, sempre rodeando, em volta da gente, rodeando, sempre, o mais chorão,  já que quanto aos outros acho que não terei problemas, pelo menos me parece, a não ser que algum deles ao ver o pai sendo enterrado tenha alguma coisa, um troço qualquer,  o pai metido naquele terno usado tão pouco, o terno do enterro, que boca!, disse ele brincando, quando o compramos lá no seu Jaime, puxa!, não é que ele acertou mesmo, e agora essas quatro velas grandes aí, os castiçais enormes, que não consigo tirar os olhos deles, um exagero, parecem mais postes, e depois as duas coroas que a funerária entregou, funerária “Boa Viagem”, até que o nome é bom se não fosse uma ponta de desrespeito que eu sinto, uma certa gozação, pelo menos pra mim é falta de respeito no fundo, hoje ninguém respeita mais nada, nem a morte,  rápidos eles são, isso sim,  uns urubus, o Augusto fechando os olhos e eles já me cercando, deve ser gente do próprio hospital, já vieram com a coroa do pessoal das lojas do bairro, imagine!, mas com que eu não me conformo é com a coroa do Clube de Malha, que pobreza, meu Deus!, nem se compara com a do pessoal das lojas, afinal foram anos e anos o Augusto presidente do clube, tomando conta de tudo naquele clube, mandando refazer, pintar, consertar, uns mal-agradecidos, uns encostados isso sim que são, eram,  mas o fato nisso tudo é que eu preciso abrir os olhos é com os filhos, a gente  nunca pode ter certeza, certeza mesmo, por mais que pense conhecer os filhos, uma reação qualquer, e eles viram uns estranhos, parecendo alguém que a gente nunca viu, como que aparecendo pela primeira vez, uns estranhos, pode ser, mas acho que sei quem são, pois, como dizia meu pai, quem sai aos seus não degenera, engraçado essa maneira de falar, coisa dos portugueses de antigamente, pareciam uns broncos, mas sabiam das coisas, isso sabiam, por isso acredito mais no meu coração, coração de mãe nunca se engana, como os antigos também diziam,  tenho certeza,  embora eles até agora  não tenham dito uma palavra, o pai ainda quente,  percebo que todos eles estão é loucos para que tudo acabe o mais depressa, se contendo, e aí, então, certeza certíssima, vai começar a inana, a história da herança, qual é a minha parte, que foram três meses  desde a fase pior até ontem que essa coisa da herança começou a esquentar, mas com eles me preocupo mais tarde, só não quero vexame aqui, já basta a minha irritação com esse negócio de velório, enterro, cemitério, melhor seria a cremação, sem dúvida, mas se eu dissesse isso seria um Deus nos acuda, me cairiam em cima, onde já se viu isso, não enterrar o Augusto no cemitério, ele não é nenhum renegado pra não ser enterrado junto com os pais e os tios, num lugar santo pra onde todo bom cristão devia ir, lugar santo coisa nenhuma, eles nunca vão lá, por eles tudo ali poderia ir pro beleléu, que o jazigo está precisando de uma reforma daquelas está, quero ver agora se alguém colabora, vão tirar o corpo fora, ora se vão, isso não há dúvida, vão desconversar, fazer de conta que não é com eles, sempre foi assim, aliás, não só com essa questão do cemitério mas com as outras quando foi preciso rachar despesas, que família mais desunida!, valha-me Deus!,  por exemplo quando foi preciso pingar algum dinheiro, como naquele caso da reforma da casa da Benedito Pinheiro depois que a Prefeitura  intimou a gente a consertar o muro,  que estava cai não cai, mas, não faz mal, mesmo que estranhem, que fiquem pensando lá de onde fui tirar o dinheiro, pago tudo para que a coisa acabe logo, e depois fim pra eles, tchauzinho pra vocês, passem bem!, aliás esse vai ser o melhor modo de calar a boca de todos, todos, sim, que ficavam falando por aí que a mão- de-vaca era eu e que ele, ao contrário, era gente boa, mão aberta, e isso provava que o que eles  nunca tinham conseguido do Augusto era por minha causa, mas quero ver a cara deles todos quando eu disser que pago tudo, o enterro, as missas, o conserto da campa, tudo, ainda que com uma bruta dor no coração pois no fundo eu preferia mais a cremação, mil vezes mais rápido, mais limpo, imagine só quanta sujeira nesses cemitérios, os corpos apodrecendo, uma aguinha até escorrendo de alguns carneiros, como vi no mês passado, e depois há a questão  do roubo das placas de bronze, isso nunca, nunca pagarei mais uma, o pessoal rouba mesmo, aliás desde que eu lembre já foram três, foi só por o nome do tio Rodrigão e ela se foi, mas o que dói mesmo no coração é esse espaço, quanto espaço perdido, meu Deus!, espaço que podia ser aproveitado prum parque, praças, jardins, onde as crianças brincassem, pois  não é nisso que vivem falando os jornais, esse negócio de melhorar o ambiente, ecologia,  sei lá, e depois sempre impliquei com cemitério, mais depois que o padre Júlio disse naquela missa de domingo que a palavra cemitério quer dizer lugar onde se dorme, uma rematada besteira, pensei, mas acho que besteira é eu ficar me preocupando com isso,  porque o mais importante é ele, ele que não chega, ele que não me sai da cabeça um minuto sequer, um aperto, tudo  latejando, pior do que aquelas dores de cabeça das piores, quando das minhas regras, quando a coisa estava para descer, dias e dias aquela pressão, aquela dor pelo corpo todo, que só melhorou felizmente quando descobri a homeopatia, santo remédio, qualquer um dos dois que me indicaram, Senhorina e Menstrualina, o primeiro um pouco melhor, sem dúvida, ainda que eu tenha ficado um pouco invocada com o nome, mas foi ele que me serviu também prum corrimento transparente sem sangue que tive, as tais de flores brancas, por isso indico sempre a homeopatia, mas eu aqui a pensar em homeopatia quando o meu problema é outro,  é essa pressão agora na cabeça, pior, muito pior que aquela que me punha o rosto em fogo, fazendo meu coração disparar quando a gente ficava depois do jantar arrumando a cozinha, uma pressão que piora a cada minuto porque ele não chega, essa pressão que quase me tira a respiração, esse suor frio na testa, que já nem consigo disfarçar mais, esse alvoroço todo por dentro que fica por conta do sofrimento que devo mostrar, os olhos vermelhos, nariz fungando, enfim  ser como todos esperam que uma mulher que acaba de perder o marido seja depois de quase vinte e cinco anos de casamento e, por falar nisso, como essa gente gosta de ver alguém sofrendo, esses casos todos que ficam contando, um horror, contando e olhando para ver como a gente ficamos, ficam calcando o dedo na ferida, como dizia minha avó,  a cabeça cheia de pontos doloridos, todos me lembrando  ele, ele que não me sai da cabeça, sempre ele, há quanto tempo ele, treze anos, sim, treze anos, desde que um dia depois do aniversário do Arturzinho, treze anos e sete meses no próximo dia 25, tanto tempo desde que ele entrou na loja, muito jovem, trazido pelo tio, o seu Bechara, gente antiga do bairro, gente séria, turcos acho, mas gente séria, como dizia sempre meu sogro, nesses dá pra confiar, conhecidos há quase  cinquenta anos, ele dizendo se chamar José, um pouco fechado, moreno claro, bigodes pretos, meu Deus, que panca, e que bigodes!, tão novo e os braços já tão cabeludos, como sonhei com aqueles braços, até que um dia, uma noite, depois do jantar, lá na cozinha, entre meio desejosa e respeitosa pedi licença para passar a mão neles,  para sentir como eram fortes, disse, ficando toda arrepiada, acho que não dormindo umas três noites, ele, como um artista de cinema, lindo, lindo, já falando tão bem a nossa língua, quase sem esse jeito meio arrevesado que os turcos têm de falar, tinha chegado aqui pequeno, disse, ele me lembrando muito, desde a primeira vez,  aquele  artista que vi na Cinelândia,
TURHAN  BEY
que a Rosinha sempre comprava, árabe, turco sei lá, também, mas sem bigodes, o que não fazia mal nenhum, um tal de Turhan Bey, um topete lindo que nunca desmanchava, olhos meio rasgados, trabalhava em filmes de deserto, de camelos, fontes jorrando, esguichos, mulheres com véu, odaliscas, igual às do carnaval de antigamente, que a gente via muitas, de barriguinha de fora, lá nas matinês do Santos, onde eu ainda ia em solteira,  porque depois fui deixando não só essas coisas de carnaval, uma bobagem, no fundo, como o cinema, e se já ia muito pouco em solteira, depois, então, quase nada, umas cinco ou seis vezes nestes anos todos, se tanto, sempre acompanhada pela dona Vivi ou pela dona Tudinha, as únicas com quem Augusto me deixava ir, muito pouco mesmo, eu nunca reclamando, nem me importando, mas de uma fita jamais esqueço, O Manto Sagrado, que beleza!, fui deixando então de ir, cada vez menos, porque o Augusto não era muito de sair, a não ser às quintas-feiras pra jogar a sueca na casa do seu Lopes, e nos fins de semana a malha, santa malha!, umas cervejinhas depois, e o domingo terminava, sempre assim, um dia depois do outro, e foi então que ele chegou, me impressionando tanto que o tio, sem perceber, ou percebendo, me salvou, desviando a conversa, dizendo uma bobagem qualquer, me salvando, ninguém notando como fiquei perturbada, dizendo seu Bechara que todos os homens da família tinham muito cabelo no peito e nos braços como o sobrinho, o José aqui presente, minha senhora, isso é da nossa gente, da Turquia, como a senhora sabe, completou orgulhoso, dizem que é por causa do quibe, ah! quanto quibe, quantas esfihas, quanto tabule, homos, charutos, picadinho de carneiro, quanto comida árabe fui aprendendo a fazer, comidas muito fortes,  todos em casa gostando, até o Augusto, ele sempre meio nojento, cheio de implicâncias para comer, quase nunca saindo do arroz com feijão durante a semana, caldo verde à noite e, aos domingos, bacalhau ou costeleta de porco, e depois quanta felicidade quando eu disse ao Augusto, três meses que ele já estava trabalhando na loja, ele bem que podia almoçar e jantar com a gente, Augusto, um rapaz tão distinto, respeitoso como nunca vi, de família conhecida, seria muito bom pra todos,  quinze, vinte minutos de almoço, ele voltaria à loja, sobrando inclusive mais tempo para você tirar a sua soneca,  tão bem que faz, você vai ficar muito mais descansado, menos tempo de pé, alivia as suas varizes, e depois é sempre alguém de responsabilidade, como se fosse da casa, alguém da família mesmo, e da casa tanto ele foi ficando que eu fui às nuvens quando eu disse que ele bem que podia me ajudar depois do jantar a arrumar a cozinha, afinal eram duas refeições que ele recebia, a gente nunca cobrou nem descontou nada, nem podia né!, não custava ele retribuir um pouco, parece que não ia mesmo a lugar nenhum depois, não tinha namorada, era da loja para casa e da casa para a loja, só ele e a mãe, uma turca que vivia com um pano enrolado na cabeça, enxaquecada, irmã viúva do seu Bechara,  e foram então tantos os pratos lavados, as panelas e talheres areados, que perdi a conta,  quanto sabão,  quanta palhinha, meu Deus!, e como ele areava bem, nunca vi igual, a louça na grande bacia e no fim uma chaleira de água quente, quase fervendo, despejar tudo em cima, que era bom para acabar com alguma gordura que tivesse ficado, ele no princípio meio tímido, um pouco desajeitado, mas, depois, me lembro como se fosse hoje, a primeira vez  que a minha mão tocou na dele, quando lhe dei uma esponja nova, tão nervosa que estava, a mão dele molhada, que eu tremia todinha, e por isso, nessa noite, nada de pegar no sono também, você, Augusto, me perguntando o que é que eu tinha, dizendo que não me entendia, eu parecendo até mais cansada depois que ele havia começado a me ajudar na cozinha, mais que cansaço, Augusto, e você ainda piorando a situação, dando pra chegar cada vez mais tarde, inventando desculpas, você que nunca tinha sido de sair assim, ficando certamente por aí, alguma mulher, pensei muito numa daquelas donas que se mudaram lá para perto da pastelaria do chinês, diziam que trabalhavam no Casablanca, lá perto do cais, você me dando uma bruta chance, me dando o Jorge de graça, pois, se você podia,  eu também devia poder, nada de mal que eu te desse o troco, como eu pensava nisso, bastava um gesto a mais, um encontrão na cozinha, tão pequena, uma vez até pensei que ele ia me dar uma encoxada  e nada, nada, quando tudo, tudo, poderia acontecer, e eu continuando a esperar alguma coisa que nunca chegava, não sei, nem um abraço, ele tão respeitoso sempre,  não me soltava, eu ficando ali presa, exausta, a cozinha terminando e nada, eu com uma tremenda raiva de mim, dias e dias  eu procurando os olhos dele, cheguei até a pensar que ele não gostava de mulher, imagine, eu muitas e muitas noites na cama imaginando coisas, sonhei até com ele uma vez pedindo para ver se eu tinha orelha furada, que sonho mais louco, que ele ia me dar uns brincos, e que eu soltava os meus cabelos para que ele visse, ele chegando bem perto pra ver, quase tocando a minha nuca, meus cabelos estavam até perfumados, um xampu novo que eu havia comprado, especial para quando isso acontecesse, afrodisíaco me disse sorrindo a mulher da farmácia, piscando o olho, palavra que eu nunca tinha ouvido, tive até que procurar num dicionário dos meninos, “que excita ou restabelece os desejos sexuais”, fiquei vermelha, um calor me subindo pelas pernas, quando li o que queria dizer, melhor ainda, continuou a mulher, isto só se a senhora quiser, é claro, me permita, e olhe que não é para qualquer freguesa que posso falar o que lhe digo, que nenhum homem escapa, não importa a idade da mulher, se ela fizer um tratamento que uma Revista da Semana muito antiga que eu tenho publicou e que nós indicamos aqui na farmácia no nosso setor de beleza, pois, em matéria de beleza as coisas mais antigas são as melhores, nada dessa enganação moderna, tiro e queda, a senhora vai confirmar, um, dois meses só, ao deitar, todas as noites, banhar os seios em leite quente, uma massagem circular, depois este creme aqui, e terminar esfregando suavemente com Pó de Lyrio, este outro, os seios vão perdendo toda a flacidez, “duros como aspas de toro”, como disse a dona Carmem, a espanhola que mora lá na esquina,  depois que usou, e olhe que ela é seguramente mais velha que a senhora, pois é como lhe digo, de mulher para mulher, precisamos ser gente, minha senhora, não importa a idade, nos valorizar, a mulher falando, falando, e acabei nunca fazendo o tal tratamento, e tudo foi ficando para trás,  vieram as festas de  Natal e de Ano Novo, tantas e tantas que nem sei, um pedaço de bolo, as eternas rabanadas, fatias-de-parida como alguém me disse, guaraná champanhe para as moças e crianças, licor para algumas senhoras, cerveja para os homens, às vezes vinho, no ano em que a gente está mais contente, feliz, mas sempre muita gente em volta, a casa cheia, a vizinhança  que nunca deixa de vir, é só ter uma boquinha que eles vêm, nada acontecendo,  tudo muito sério até, senhora prá cá, senhor pra lá, abraços, beijinhos, mas com ele, nada, nunca, neres de pitibiriba, nunquinha, o tempo passando, uma espécie de agonia sem fim, como agora, que ele não aparece, o corpo que já vai descer, o pessoal da funerária se agitando, a sala se enchendo, cada vez mais abafada, essa gente na minha frente, agora essas duas que entraram agora, falando, falando, acabo tendo um troço, a tagarelice das duas foi chegando, vou lhe dizer, dona Zilda, é aliás o que a rua toda comenta desde ontem, quando ele passou com aquela motocicleta preta, uma Norton, disse meu filho, que conhece, fazendo um barulhão danado, que falta de respeito, não,  dizendo pra todo mundo ouvir, quando parou no bar da esquina, pra todo mundo ouvir, sim, senhora, veja bem, todo mundo, que a moto tinha sido presente do seu Augusto, sempre mais que um pai pra ele, um pai, dá pra acreditar nisso, dona Zilda, a senhora que é mãe, avó, mulher vivida, que já viu muitas coisas na vida, me diga, veja a senhora se dá pra acreditar, um pai, se a rua toda já andava dizendo à boca pequena  que o finado ficava lá na loja com o turco até bem tarde por outros motivos, coisas que nem quero imaginar, ele dizendo que com a morte do seu Augusto não tinha  mais razão nenhuma pra ficar, que ia embora, se mandava, que ia abrir um negócio com um amigo longe dali, nada de velório, não queria encontrar ninguém da família, gente de quem  não gostava muito, aliás não gostava nada mesmo, e como a senhora sabe, dona Zilda, ele... as palavras que ouvia iam lhe rasgando a carne, uma zoeira nos ouvidos, a cabeça quase explodindo, e foi então que  um grito vindo lá do fundo lhe escapou pela boca, o caixão, as coroas, as velas, tudo rodopiando, sentiu que ia desmaiar, quando sentiu uns braços a envolvendo e se viu  numa sala ao lado do velório, a de número três, que estava vazia, o pessoal pedindo espaço, abre, abre, diziam,  deixa ela passar, dá licença, é a viúva, dá licença, gente, ela esta sem ar,  diziam, e foi então que as lágrimas começaram escorrer abundantes pelo rosto, parecendo uma sonâmbula perdida, alguém comentou, coitada, como sofre pelo marido, que falta não fará esse homem pra ela... Mas já não ouvia mais nada quando a deitaram no estrado; já era quase noite quando conseguiu se levantar, amparada pelas vizinhas...que pena!, que pena! é o que se dizia, não ter dado pra ela acompanhar o corpo do marido ao cemitério...




 MERCADO MUNICIPAL DE SANTOS, QUE OCUPOU A PRAÇA IGUATEMY MARTINS

*Este conto é dedicado ao pessoal que morava há muito, muito tempo, em Santos, entre a Iguatemy Martins, Bittencourt, Benedito Pinheiro e Sete de Setembro (Vila Nova).

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A ESTRADA ( CONTO )



ILUSTRAÇÃO    DE    LÚCIO    MENEZES


Depois de muito tempo parei e pude ver então o prédio. Silencioso e branco, assim visto de longe, sob a luz de cinco postes, era um imenso navio ancorado na noite. O andar superior, envidraçado, como ponte de comando onde se decidiam rumos, destacava-se nítido contra o céu escuro, enquanto a parte térrea apenas vislumbrada, casco também envidraçado, mergulhava a proa no mar que eu imaginava.

Quando comecei a andar novamente, um silêncio vazio de cansaço se alastrou pela estrada e o movimento do meu corpo não era mais que o hábito maquinal de caminhar. Não sei por que, mas tive a impressão exata de que o prédio navegava. Mais uma vez, agora sem parar, fixei o olhar naquelas linhas retas, ferros e mastros, nas paredes brancas, nos postes, que ora apareciam, ora desapareciam atrás da vegetação da beira da estrada e o andar superior, envidraçado, sem uma luz, me pareceu ponte de comando batida por relâmpagos, enquanto a parte térrea, casco, mergulhava silenciosamente a proa no mar que eu imaginava. 

Depois de muito tempo, depois de muito andar, olhei novamente o prédio, não mais o navio. Agora, real como as pedras da estrada, estava à minha frente um posto de gasolina, perdido numa estrada por onde raramente passava alguém, um posto de gasolina branco, envidraçado, sob a luz crua de cinco postes.

Aproximei-me, entrando por uma estrada mais estreita, o caminho que certamente me levaria ao posto, onde, depois de muito tempo, tanta fome e cansaço, eu poderia comer e descansar. Embora quisesse, não consegui correr: as pernas se haviam habituado demais à mecânica dos caminhos. Mas tentei e, de todo o esforço, sobraram-me apenas umas passadas mais rápidas. Como se não bastasse, o vento trouxe cheiro de gasolina e óleo. 

Uma vez mais olhei as paredes brancas, as luzes, um branco que escorria pelas paredes, com manchas negras em alguns lugares, marcas, palavras apagadas pelo tempo, mãos, desenhos, presenças de um dia. Mais adiante, sob o foco de luz de um dos cinco postes, um cachorro dormia fora da noite, como se estivesse fora da noite dormia sem se incomodar com o barulho dos insetos que, cegos de tanta luz, se chocavam contra o metal que protegia as lâmpadas.

E fiquei ali parado, à espera de que o cachorro percebesse a minha presença, sem me atrever a continuar. Não sei bem quanto tempo fiquei a olhá-lo, esperando. Finalmente, ele se espreguiçou e, sem que eu lhe visse os olhos, veio ao meu encontro, para tentar decifrar o segredo do meu corpo. Aterrorizado, permaneci imóvel, a voz estrangulada, a boca seca, sentindo um bafo quente nos tornozelos. E foi então, sem que eu soubesse como, que a minha perna esquerda se contraiu, os músculos se retesaram e desferi um pontapé. Dei o primeiro, o segundo, enquanto os ganidos se perdiam na noite, mas era a cabeça que me doía, dor profunda do Sol de muitos dias.

 Quando o cachorro se afastou, deixando um rastro de sangue, senti-me capaz de continuar, lentamente, o passo menos firme. Subi três degraus e colei o rosto nos vidros sujos, o casco envidraçado cuja proa estava mergulhada no mar antes imaginado. Pouco a pouco, os olhos foram se acostumando à penumbra. O balcão, a caixa registradora, anúncios, latas empilhadas, tudo de repente me pareceu petrificado, uma atmosfera opressiva, irreal, aquário estagnado, lembranças de um museu de cera, lembrança antiga, as estátuas e um menino vendo-as deslumbrado.

Mas o que eu sentia era fome, o estômago contorcido, dores de uma vida inteira. A claridade que escapava de uma porta entreaberta, nos fundos, deu-me alguma esperança. Chamei, bati palmas, gritei, ninguém respondeu. Subitamente, ouvi um barulho de lata no chão. Perdi as forças ao tentar localizá-la. Tinha tonturas, náuseas, e caí ali sentado, as costas de encontro à parede. Tudo começou a girar, latas, postes, cachorro, pneus velhos que se aproximavam. Senti um gosto amargo na boca quando um líquido morno e viscoso escorreu-me pelo queixo, pelo peito. Não tinha ânimo para virar a cabeça, tanto fazia.

A lata, pensava na lata, devia estar por perto, e havia uma torneira que pingava. Rastejei alguns metros e estendi o braço. Rápido, um gato fugiu, miando assustado. Mergulhei a mão e retirei muita coisa de dentro da lata, principalmente o que eu buscava. Os restos de comida ainda estavam intactos, salvos. E eu comi, levantando-me depois de comer no escuro, ouvindo apenas a torneira que continuava a pingar. Guardei uns pedaços de pão no bolso e voltei à estrada, talvez novo e igual caminho. O cachorro dormia, o poste, a luz, os insetos, ninguém.

À minha frente, na escuridão da noite, a reta esbranquiçada. Atrás, o posto de gasolina até se tornar mancha branca luminosa. Os carros, acenei algumas vezes. Por uns momentos, ainda os acompanhava com o olhar, dois pontos vermelhos, velozes, invisíveis quase, a caminho das estrelas, do horizonte. Nem me sobressaltava mais quando faróis faziam minha sombra crescer no chão. Nem um gesto, uma tentativa. Apenas, instintivamente, dava lugar, o caminho livre. Sempre uma buzina estridente, às vezes risos e palavrões. Poeira. E eu ficava e continuava sob o silêncio, onde havia o rio correndo. O vento no capim, pios de pássaros, meus passos.

Nesse momento, os olhos acostumados percorreram a paisagem, mas o entendimento não se fez. A memória trouxe terras e terras atravessadas, repetição incansável, sempre a mesma ausência. Nada mais que vultos noturnos, disformes, um aglomerado sem sentido ocupando o espaço. Inútil qualquer busca de significação. Era o momento em que tudo passava a existir por si, sem antes nem depois. Ainda assim procurei, desesperadamente procurei, só os olhos vivendo em mim. Então, gritei. Nenhuma resposta ao meu corpo de febre, uivos e latidos. E com o silêncio que caía sobre os campos veio a vontade de parar e acabar ali mesmo, sucumbido diante da imobilidade daquele céu afogado em sombra azul. Dei mais um passo e rolei para fora da estrada. Não sei, não saberei nunca quanto tempo permaneci desacordado, o rosto colado à terra úmida.

Lembro-me apenas, quando regressei, que o vento assobiava no capim e que nuvens esgarçadas desenhavam animais fabulosos no céu. Depois, num contacto estranho, os olhos viram mais abaixo a mancha verde indefinida. Nenhum pensamento me ocorria, sentia-me oco por dentro e por fora, como cadáver boiando à tona d’água. Pus-me de pé e procurei atravessar aquela cortina verde em direção ao rio. Avancei sem me importar com tropeções, tombos, os galhos que me feriam o corpo. Nesse momento, serena, com uma escolta de nuvens, a lua cruzou o céu, inundando tudo de luz. Da margem do rio, vi formas, distingui árvores, moitas e pedras, claridade e prata. 

Avancei mais. Tinha que chegar ao rio, agora o meu único objetivo. Logo a lama me cobriu os pés. Um pouco mais e já não tocava a terra. A correnteza me arrastava em paz e abandono. A água fria, tão fria e tão pura, anestesiava qualquer asco ou revolta. E os pulsos e o peito, e os braços, e o nariz, tudo a gelar, de um modo insuportável. Um gole, outro, a solidão absoluta. As bocas da água sugavam-me para o fundo, tinha que ceder. E os braços, inconscientes, exasperados, emergiam, estendiam-se, erguiam-se para o céu. O estertor e o repouso.

Mas havia a pedra. Não de dor, mas de espanto infinito quando as mãos se abateram sobre ela. Inspirei o ar repetidas vezes, agarrando-me à brutalidade da matéria que me feria o corpo, que me lacerava as mãos, a água entrando nos cortes, muito sangue que eu não vi. E com esforço e força galguei a pedra, sentindo a doçura de estar vivo.

Os olhos se abriram somente na aurora. Com o Sol, prenúncio de Sol, vinha a paz, paz irreal que parecia escorrer do céu através de uma luz onde se misturava o azul pálido e o rosa diluído. Luz frouxa, bruxuleante, denunciadora de que a carne estava machucada e de que os movimentos significavam dor. As águas haviam baixado mostrando areia alva e pedregulhos, seixos, pedras enormes. Apalpei os bolsos, o pão estava desfeito. Muito pouco sobrava do pão e do meu corpo. De novo o cansaço e a fome agravados pela dor e mais um dia. Pouco a pouco, porém, recomeçou o turbilhão. Os membros se enrijeciam a pele remoçava e vibrava ao apelo vermelho do horizonte. O que fora, o passado, recuava para um esquecimento longínquo.

Levantei-me, precisava voltar à estrada. O tempo já não era o tumor em que supurava a ausência. Fora, com certeza, em algum lugar, quase imperceptivelmente, havia aquela mesma e absoluta reclamação que me movia as pernas. Voltar para onde nada me esperava, mas sempre recomeçar. Tudo naquele momento era sagrado como um sacrifício antigo e imperscrutável. Quando cheguei à estrada, reta esbranquiçada a se perder de vista, o Sol rompia no horizonte.



sábado, 3 de dezembro de 2011

MARTA PELA MANHÃ (CONTO)




ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES


     Marta abriu os olhos lentamente. Sabia, no entanto, que qualquer tentativa seria inútil. Uma vez rompido o fio, que tudo estava por um fio, na recusa e na lucidez, não mais reencontraria o sono. Os olhos abertos, inútil tentar. Talvez fosse possível se não existisse nada, se outra fosse a vida. Agora, as coisas estavam à sua frente. E, com elas, manhãs, dias e noites queimando na memória. Olhou o quarto, a desordem, as marcas deixadas pelo corpo de Carlos Alfredo. Mas já a claridade entrava pela janela. O mundo lá de fora. Sons indistintos, vozes cortadas, palavras que não chegavam a se completar, a rua. E também um leve rumor de chuva, a chuva que escorrera e alagara toda a noite. Se tudo fosse diferente...

     Ruídos familiares, Maria lidando na cozinha. A­quele corpo a arrastar-se sobre os tamancos. Como os detesta­va! Ainda mais pelas manhãs, quando tudo o que incomoda incomoda mais. Os chinelos não serviram para nada. Dar foi o mesmo que jogá-los no lixo. Maria agradecera com um sorriso estúpido, mas nunca os pusera nos pés. Os pés de Maria. O cheiro forte de café lembrou-lhe que daí a pouco ela viria com a bandeja. A significação daquela presença. Como se dissesse que precisava sair da cama, vestir-se, viver mais um dia. Ficaria ali, fincada numa recriminação muda, o olhar parado. Deixar de pensar em Maria. Mas tudo lembrava Maria. A manhã era Maria. Aproveitar a cama um pouco mais, isso sim, enquanto ela não viesse.

     A cortina parecia agora a vela de um barco. Sempre enfunada. Enfunada. En-fu-na-da, repetiu alto, destacando bem as sílabas. Gostou da brincadeira, achando a sua voz bonita. Ia continuar quando as manchas luminosas da parede atraíram a sua atenção. Ora aqui, ora ali, manchas que às vezes adquiriam formas estranhas. De gente, de bichos, de ambos. Figuras fantásticas. Ainda há pouco, sem dúvida, um palhaço transformara-se num elefante. Permaneceu uns segundos na parede a­té que uma lufada mais forte levantou a cortina. A luz mudou de direção. No lugar, então, desumano, um círculo. Quase per­feito, se não fosse o lustre. Ficou a imaginar de onde, como era formado. Cortina, vidros, veneziana, a árvore do jardim, chuva, claridade, tudo era aquele círculo. Não gostou da figura. Lembrava geometria, teoremas (a soma do quadrado... dos catetos ou da hipotenusa?). Complicado, nunca chegara a entender. E depois para quê? Irmã Verônica. Boazinha a Irmã Verônica. Não brigava com ninguém. Pena que a tivessem transferido. Será que se lembrariam? Oito anos não é tanto tempo assim. O colégio. Sorriu. Agradavam-lhes esses pensamentos. Se pudesse organizá-los como num fichário; dizer depois, bem hoje vou pensar nisto, naquilo... Tudo classificado, ali, à mão. Os pensamentos na mão, entre os dedos. Lamentou não ter visitado as freiras ainda.

     Virou-se. De alto a baixo, finíssimas partículas de pó dançavam nas faixas luminosas. O rumor de chuva de­saparecera. Um sol pálido penetrava agora pela janela. "Sol e chuva, chuva e sol...", e o círculo de luz movera-se na pare­de. Pensou em cerrar as cortinas. Mas preferiu abandonar o corpo ao calor da cama. Antes, a carne sossegada que se comprazia na madorna da manhã. Havia também aquele torpor, incômodo à medida que fibras, músculos, a matéria despertava. E uma ton­tura de roda gigante na cabeça. Lembrança viva apesar dos a­nos. Era o cansaço, reconheceu finalmente. Cansaço de muitas noites, acumulado, empilhado, tijolo por tijolo, entre a escuridão e o sono de Carlos Alfredo.

     Correu os olhos pelo quarto. O espelho do guar­da-roupa devolveu imagens confusas. Distintamente na penumbra só o braço alvo, quase a tocar o chão. Os chinelos, a cadeira, o quadro, paisagem suíça, reclame de chocolate, pensou, tinham uma presença forte e insólita. Incomodavam como o círculo de luz, o cansaço. Desejou que não fossem tão evidentes. Assim não lembrariam nada. Sensação esquisita, quase medo. Ou medo. Mas medo de quê? Aquelas coisas todas do quarto a expulsá-la da cama. Maria. Obrigando a decisões. Sempre decisões. Fazer, não fazer. Será que a vida se resumia nisso? Nunca um momento de calma? Não no sono, na vida? Fechou os olhos. Dormir. Logo, porém, os abriu. E tudo ali, sem razão, numa impersonalidade que esmagava. Um quarto de hotel.

     Desviou o olhar para os cantos escuros do quar­to, ocultando-se entre as cobertas. No entanto, os pensamentos foram brotando. Vinham de dentro, do fundo, impossível detê­-los. Um olho d’água sempre a verter, inesgotável. As preocu­pações, Carlos Alfredo. De uns tempos para cá fora ele a importunar. Não posso compreender a tua vida. Sempre em casa, trancada. Você precisa sair, divertir-se. Ele nunca dissera, mas bem sa­bia o porquê das recriminações. Quem não via? Bastava olhá-lo. Aqueles olhos parados, a expressão abatida, forçando um sorriso. Mas Carlos Alfredo nunca pedira nada. Os olhos, sim, suplicavam. Mas sempre fizera por não entendê-los. Não tinha sido essa a com­preensão que imaginara.

ILUSTRAÇÃO   DE   AMÉLIA   BAUERFELDT

      
O mundo de Carlos Alfredo tão distante. Fracasso dos anos, vida lenta e morna. Cada dia mais afastados. Como acabariam? Dois velhos que se odiariam? Se suportariam? Os primei­ros anos de casamento. Não, ninguém poderia condená-la. Tentara entusiasmar-se. E quantas vezes não fora na frente? Mas será que isso não passava de um meio para compensar a desconfiança que jazia lá no fundo? Lá, bem no fundo? Não, não tinha sido sincera. Entretanto, passados os anos, feito o balanço, muito pouco sobrava. Promessas, planos. No ano que vem, se a gratificação for maior, não podemos, não podemos, não pos­so. Por que Carlos Alfredo há cinco anos no mesmo lugar? Sim, tal­vez culpada. Porém, não como ele pretendia. Aliás, nunca ti­nham falado às claras. Como era preciso. Maria novamente. Essa mulher tem patas de elefante! Como poderia receber alguém?

     Suspirou fundo. Aproveitar enquanto Maria não trouxesse o café. E então depois do jantar, quando ficavam a sós na sala, como pesavam as palavras. A falsa intimidade, a conversa banal, os monólogos. Atrás e além, coisas que não pode­riam ser ditas. Ou a coragem que faltava. Geralmente, era ele quem começava, baixando o jornal. A sua trincheira. Olha­va-o. O Carlos Alfredo de antigamente. Um rapaz sério chegando à sua casa. As noites de noivado na sala, as conversas do pai, o cafezinho, Carlos Alfredo é um rapaz de futuro, você tem sorte, disse-lhe a mãe. Coitada! Se os visse hoje. Metódico, hora certa para chegar e para sair. Carlos Alfredo ia embora. Como se não ti­vesse vindo. O casamento: o vestido branco e a palidez de Carlos Al­fredo. Quase ninguém; meia dúzia de convidados e os padrinhos. Nada de festas, que o pai não quisera. As amigas, nunca mais as vira depois do casamento.

     Agora ali estava ele. Um pouco mais gordo, e os primeiros fios brancos nos cabelos. Cabeça baixa, falando. Um "você não acha?" tirava-a das recordações. Estremecia. Responder, falar alguma coisa. O silêncio seria pior que o esforço para abrir a boca. Supôs a princípio que quando os lábios se movessem sairia um grito. Depois... depois acostumou-se. As palavras partiam então facilmente. Mecânicas. Umas depois das outras, ligando-se. Chegava mesmo a ouvi-las, sons estranhos, como se outra as pronunciasse. Outra Marta. Os assuntos do seu dia, qual dia? Nada, senão uma coisa disforme e vaga. O seu trabalho. Nada de pé, sólido. Carlos Alfredo, apesar de tudo, construía. Podia-se tocar, ver. Diferente da poeira que diariamente se acumula e que é preciso limpar. Ontem, hoje, amanhã. Recomeçar.

As longas tardes a perambular pela casa. Voltas sobre si mesma, abrindo e fechando portas, subindo e descendo. Foi então que pensou nos seus momentos secretos. Assim os chamava. Aqui, neste mesmo quarto. As cortinas cerradas, à luz do abajur, esquecida do tempo e de todos, punha-se a experimentar roupas. Principalmente os vestidos de passeio. Uma vez até o de noiva. Os sapatos, luvas, tudo cuidadosamente escolhido. Consumia horas no ritual, caprichando na pintura dos lábios, dos olhos, retocando. Inventava penteados, admirava-se no espelho. Ainda era bela. Nas ruas, os homens ao vê-la pas­sar "diriam alguma coisa". Espetáculo, prazer de tardes chuvosas que Carlos Alfredo e ninguém veria. Talvez, quem sabe, algum dia... Uma estátua, dissera certa vez aquele pintor.

Tinha o sol agora na cama. Maria daí a pouco viria com o café. O barulho da xícara estava a anunciar. E ela tiraria os sapatos para entrar. Na ponta dos pés. Sentiu-se mal só em pensar que iria rever aquele rosto envelhecido, bo­çal. Como se não bastasse, os objetos voltavam a incomodar. Não mais conseguia fixar a vista em nenhum deles. O sono, sim. Era preciso dormir. Assustou-se, reprimindo o grito e o ódio. Maria estava à sua frente com a bandeja. Mais silenciosa que nos outros dias.

— Pode deixar, ordenou ríspida.

A empregada obedeceu em silêncio. Já se retira­va quando Marta a chamou.

— Estou adoentada, Maria. Gripe, não sei. Telefone para o Sr. Carlos Alfredo e diga-lhe para almoçar na cidade. Hoje ficarei na cama.

domingo, 16 de outubro de 2011

UMA VIDA DIFERENTE (CONTO)




ILUSTRAÇÃO   DE   LÚCIO   MENEZES


          O prato, os talheres, as cascas da laranja, as migalhas, os copos. Um gesto e tudo iria para o chão, a louça e o passado. Vontade não faltava. Aliás, pensando bem, toda a sua vida fora feita de vontade que não faltava Quisesse ou não, aos trinta e cinco anos, a conclusão não podia ser outra. Porque tudo ficava no amanhã eu faço, no um dia acabo fazendo. Quantas vezes, ali sentada, quando o silêncio se alastrava pela casa, não dissera que era a última vez. A última vez que acordava cedo, a última vez que arrumava a cozinha, a última vez, sempre a última vez. Quantos anos ainda nessa vida, o tempo escorrendo, a suportar a longa sucessão de dias e noites entre a banca de peixe e a casa, o pai, Nina, vida lenta, interminável? Durante esses anos todos acontecera Waldomiro. Por uns momentos, não mais que por uns momentos, entre esperanças e pressentimentos, Waldomiro tinha sido mais imaginação que realidade. Chegara alto e moreno, pele trabalhada pelo mar, e no quarto, na banca de peixe, na rua mesmo, o futuro fora construído. O gesto interrompido, Waldomiro no pensamento, viu-se menina desajeitada armando as peças de um brinquedo-amor. Inesperado brinquedo, jogo difícil, para o qual não fora criada. Mas era uma vida, dádiva, que ofereceria a Waldomiro com os olhos enxutos e a boca sem palavras, porque o amor não precisava de palavras.
Mais do mar do que da terra, Waldomiro não entendeu. Ou fez que não, com as suas, preocupações, peixes, redes e barcos. Por isso, já não significava mais nada. Passara pela superfície calma da sua vida sem deixar marcas. Quando muito, imagens de uma vida diferente, hoje vaga lembrança onde havia mais decepção do que tristeza. No fundo, Waldomiro talvez nunca tivesse significado nada. Nem mesmo quando tudo era novo, nos primeiros tempos, quando tentara acreditar que a sua vida ia enfim se modificar. Modificação era sair do beco do Peixe, longe da casa, do trabalho na banca, viver, viver, sim, com Waldomiro. Uma outra vida, futuro imaginado. Mas que vida?, se nunca soubera fazer outra coisa senão cuidar da casa e trabalhar no peixe. Não era mulher para homem do mar. Mulher como tantas outras, isso era, que Waldomiro encontraria aqui e em outros portos. E quem sabe se a culpa não tinha sido sua, porque nunca falara, porque o gesto, áspero, desajeitado talvez, mas sempre um gesto, fora recolhido? E a palavra? Bastaria uma palavra. Culpada ou não, Waldomiro entrou com o correr do tempo para o rol das coisas que se repetiam.
Nem tinham começado a namorar, se aquilo podia ser chamado de namoro, Waldomiro dera para sumir dias e dias. Primeiro, aquela história do pesqueiro japonês, mês sem vir, sem mandar noticias, as noites na janela. Depois, a pesca da baleia, meses e meses sem fim. O certo é que pouco a pouco, sem nunca terem tocado no assunto, a vida foi se encarregando de acertar tudo. Até que as visitas de Waldomiro, visitas, sim, do jeito que ele vinha, entre um barco e outro, se tornaram mais regulares. Cinco, seis, sete, no máximo, por ano. Namoro... Um domingo à noite no cinema, aquele vestido azul, duas ou três vezes depois, três vezes, exatamente, por que não reconhecer?, ele nunca entrando porque já era muito tarde...
Mas nunca dissera uma palavra ao pai, a Nina, a ninguém. Poderiam eles compreendê-la? Violência, revolta, indiferença, conformismo, sentimentos de uma vida, de muitas, vidas vivendo lado a lado. Agora, por exemplo, um gesto e tudo viraria um monte de cacos. Pratos, copos, louça ordinária que o pai comprava, quebrar até não sobrar nada, Depois ir até o fim sem explicar, um gesto puxando o outro. Sair do beco do Peixe sem se incomodar com futuro. Esticar o braço e jogar tudo no chão, a louça e o passado. Um gesto. Mas como fazer isso, se nem força tinha para se levantar da mesa? De quê adiantava aquela revolta se sabia no fundo que nunca faria nada? O corpo não era mais que um desânimo infinito e os olhos dois olhos mortos de sono e cansaço a olhar a louça, a cozinha suja, as coisas por fazer.
Lá fora, lá fora o tanque, os varais, o passarinho, a criação, as pequenas preocupações noturnas, que só à noite dava tempo. Não bastava o trabalho na banca desde as seis da manhã e ainda por cima a casa. O trabalho na banca, por ruim que fosse, sempre tinha um sentido, mesmo limpar peixe tinha um sentido. Mas se não fizesse o trabalho da casa quem faria? Alguém precisava fazer, mulheres, muitas mulheres faziam. Nina? Nina dormia, pintava as unhas e enrolava o cabelo. Nina tinha quatorze anos. Quinze no mês que vem.
E, por falar em limpar, aquela cozinha estava uma sujeira. Foi deixando, deixando, e agora não podia olhar aquelas paredes de tão encardidas, O resto da casa também, imunda, caindo aos pedaços. a paredes rachadas, goteira por todo canto. Um dia, hoje não, um dia, se viesse a coragem, faria uma limpeza em regra, faxina de água, sabão, creolina. Depois era falar com o seu Lopes para ver se conseguia uma pintura. Pelo menos, caiar a cozinha e a frente.
No quintal nem era bom pensar. Desesperava até. Parecia um terreno baldio de tanto mato e lixo. Não adiantou nada aqueles homens. Os ratos voltaram e continuaram matando a criação nova. Da ninhada de doze, desde a semana passada, não sobravam mais que sete. Os homens deram umas bombadas, disseram para capinar no fundo, lá perto do pé de maria-mole, mandaram não jogar lixo, como não jogar lixo se o muro está arrebentado e todo o mundo que passa joga coisas, como ainda ontem o filho de dona Filomena, os homens falaram até em peste, mas o certo é que não adiantou nada. A prova foi hoje, mais dois pintinhos mortos. Bem, não que tenham morrido, até que não tinha visto os dois pintinhos mortos. Fugir, não fugiram, porque tinha perguntado à vizinhança toda. Roubaram, talvez. Mortos, roubados, sempre dava no mesmo. Melhor dizer que sumiram, sumiram como Waldomiro. Também ninguém se incomodava. Nina podia, bem que podia, se não passasse o dia todo lendo aquelas revistas, falando em fazer um teste na rádio, que tem um moço lá que prometeu...
Não, hoje não faria mais nada. Precisava era ir para o quarto, ficar na janela olhando a rua até que o sono chegasse. Gostava desses momentos. Não pensava em nada. Ou melhor, pensava cm muitas coisas, mas não fazia força para pensar nelas. Era como um desfile, alguém decidia o que ia ver. Não tinha que escolher, e se alguma coisa aborrecia nada mais fácil do que mudar a direção do olhar. Ai então vinham os tempos de menina, passeios, a escola, as praias iluminadas, automóveis, tudo diferente do beco do Peixe. Nas vezes em que fora a esses lugares chegara até a gostar. As mulheres fumavam, os homens falavam alto, olhavam de um modo estranho, como se tudo fosse deles. Roupas, então, nunca vira roupas tão bonitas. Se eles não falassem a mesma língua, poderia dizer até que estava viajando, visitando um outro pais.
O quarto, a rua. Rua, não, antes um beco, com o muro de dona Filomena atravancando tudo. Sempre tinha sido assim, a Prefeitura intimando, e o seu Lopes não fazendo nada. Dono de quase todas as casas da rua, apenas mandava o Perneta no fim do mês fazer a cobrança dos aluguéis. Não aparecia nunca. Seu Lopes era como um deus, todos sabiam que ele existia, mas poucos o tinham visto ou falado com ele. Se os inquilinos queriam reclamar era esperar o Perneta. Dia cinco, seis, lá vinha ele, capengando, importante. Os anos se passavam e a vida no beco continuava a mesma, as casas mais velhas, os moradores mais velhos. O muro de dona Filomena, agora cai não cai desde que o Gino soltara aquela cabeça-de-negro na noite de São João, foi o Gino, quem mais poderia, tudo esburacado, sem luz, beco de sombras, por onde ninguém passava depois das nove. Só com o seu Lopes mesmo, caiar a cozinha, pelo menos...
Quase dez horas no relógio da torre da igreja. Precisava era ir para a cama, pois o pai sempre acabava implicando. Apaga, Carmela! Fecha, Carmela! Olha o freguês, Carmela! Vida estúpida, o pai não parando de implicar. Em casa, na banca, vinte anos desde que a mãe morrera, o pai deixou de falar, não ligou para mais nada. Resmungava, bebia cada vez mais, dizendo palavrão por qualquer coisa.
Na banca era igual, o pai não parava de implicar. Mas o tempo passava mais depressa e quando dava conta mais um dia tinha ido. O avental e as botas de borracha voltavam para o lugar e a água escorria limpando tudo. A água então carregava as escamas, e aquela mistura de água, escamas, espinhas e sangue, quando havia luz, um sol que entrava pela janela dos fundos, parecendo até vitral de igreja. A água escorria vermelha, bem forte, depois ia clareando, tornando tudo limpo, branco para o dia seguinte. As mãos e os azulejos. O que fazer das mãos? nada tirava aquele cheiro, as mãos feridas, cortadas, calejadas, não havia esmalte que desse jeito naquelas unhas.
O pai nem precisava dizer. Depois de tanto tempo, acabara se acostumando, aprendendo a adivinhar os gestos. Vinte anos desde que o pai a pusera na banca, desde que a mãe tinha morrido, mal se lembrava do rosto dela, vinte anos conhecendo os homens e os peixes. Dez e meia, não era tão tarde assim... Quem sabe se o Waldomiro viria? Tinham chegado três barcos...

sábado, 1 de outubro de 2011

TARDE DE DOMINGO N º 2 (CONTO)




ILUSTRAÇÃO  DE  A. G. LIZZARRAGA


lá perto das câmaras frigoríficas, o Sol quase que derretera totalmente os blocos de gelo que haviam ficado no chão; enquanto isso, a água continua a escorrer pelo sulco dos ladrilhos sem encontrar qualquer obstáculo, percorrendo alguns centímetros, trinta, quarenta, no máximo, e depois despenca na sarjeta, onde vai formando poças, para, dali, vencendo as gretas da lama ressequida, vergando a minúscula vegetação que se agarra à pedra, ora retrocedendo, ora avançando, precipitar-se mais adiante numa boca-de-lobo com a certeza de fim alcançado;
acima, na calçada, retangulares, idênticos em tamanho e na inscrição vermelha que os recobre, duas letras A em vermelho, os caixotes, a mesma alça de corda em todos, esfiapada nas pontas, formam um estreito corredor com o gradil do mercado de peixe; foram empilhados desordenadamente, invadindo a calçada, mas não chegam a impedir, mesmo assim amontoados, que alguns raios do Sol atinjam o interior do edifício envolvido pela semiobscuridade; entre uma pilha e outra notam-se pequenas aberturas; assim vistas de longe lembram portas escancaradas por onde os feixes luminosos penetram para projetar nas paredes do fundo grandes medalhões de luz que ressaltam a brancura dos azulejos e evidenciam as manchas que a prolongada ação da umidade vem formando; mais à frente, os refrigeradores testemunham silenciosamente o sono de um gato que dorme enroscado no prato de uma balança;
a não ser o rádio ligado e o toldo, que levantaram, nada mudou de posição no bar no outro lado da praça, nem os ruídos aumentaram; os homens e as coisas permanecem nos seus lugares habituais, os jogadores de dominó discutem talvez algum pormenor da partida, comentam uma sena bem lançada ou, quem sabe, decidem qual deles pagará a próxima rodada de cerveja ou, ainda, combinam um encontro para o domingo seguinte, para todos os domingos seguintes, colados àquelas mesmas cadeiras, alisando aquele mesmo mármore azulado com veios brancos, planejando, rindo às vezes, o cigarro barato pendurado nos lábios, enquanto fora os prenúncios do crepúsculo tentam vencer a barreira de luz;
o Sol prossegue na sua lenta caminhada pelo claro azul transparente do céu, arrancando agora reflexos mortiços da água estagnada da Bacia; aqui e ali, como crivos de luz por onde se filtra o esquecimento das marés, peixes mortos cintilam entre restos de matéria em decomposição, o esqueleto de um caixote, mais além, semienterrado no lodo, intercepta momentaneamente os meandros azulados que o óleo desenha na superfície escura da água;
as sombras se alongam, a silhueta dos barcos imóveis ainda está recortada com nitidez, o frontispício dos velhos sobrados que circundam a praça, colunas, pinhas, frisos, florões, tudo se debruça em formas arredondadas sobre ao declive da rampa; no outro extremo, atrás dos armazéns, os braços inertes de dois guindastes deixam entrever uma chaminé branca que começa a deslizar suavemente, depois uma bandeira agitando cores que a distância não permite decifrar, visíveis por um momento, logo desaparecem, encobertas por grossos rolos de fumaça;
o mendigo volta a aparecer, dirige-se ao outro bar onde há pouco o saudaram, ou antes lhe fizeram um apelo para que entrasse, fica um momento à porta, parecendo não querer entrar, acaba depois por entrar, discute com o empregado que limpa as mesas ensebadas, os outros intervêm e ouve-se alguém gritar URSO; riem todos, isso, riem todos, inclusive o empregado e o cozinheiro que apareceu e agora enxuga as mãos no avental encardido, riem sem que o mendigo saiba das causas desse riso, provocadas talvez por algo que esteja ligado ao apelido; deve ser realmente assim, a palavra urso, além de incluir o homem, dá-lhe de uma maneira muito mais precisa não apenas uma identidade mas, sobretudo, certas e determinadas características que o integram no ambiente, longe de qualquer abstração que se possa fazer;
quilhas, cordame corroído, cascos, remos abandonados, os oito barcos nunca chegaram a perturbar a tranquilidade da tarde, nem mastros, nem marolas que proas distantes poderiam trazer transpõem a franja de limo que orla a pedraria da rampa; de vez em quando um peixe risca o espaço de prata para beliscar alguma coisa que não se pode ver; entretanto, com atenção, percebe-se que a água, junto da comporta, à entrada do canal, começa a se agitar, imperceptivelmente quase, agora um pouco mais, como se o mar fosse empurrado para dentro da Bacia, distinguindo-se ao mesmo tempo o barulho de um motor que um apito estridente mal permite captar; as marolas crescem, as cristas se empinam e à medida que se avolumam tudo trepida e vibra, os contornos se desfazem, a franja de limo desaparece, aparece de novo, torna a desaparecer, talvez definitivamente, enquanto o barco se aproxima da pequena ponte de atracação;
ou porque tenham terminado a partida ou porque o barco tenha chegado, coincidência ou não, os jogadores de dominó levantam-se, um pouco curvados ainda, os olhos semicerrados, despedindo-se de dois homens que estão numa mesa ao fundo; não se distinguem senão sombras, formas confusas, inexistentes certamente para quem não estiver próximo, trocam-se cumprimentos, mãos espalmadas, gestos largos, palavras, palavras que não ultrapassam uma área limitada, onde têm significação e são indispensáveis, onde possuem a certeza que as anima;
foi então que o bêbado saiu do bar, avançando um pouco inclinado pelo meio das mesas, cumprimentando na passagem, sem nenhum interesse, alguém que julgou reconhecer, um aceno apenas, atingindo depois a calçada; detém-se, ensaia alguns passos, um percurso mais longo, procura um ponto de apoio, muda bruscamente de sentido, rodopia em direção do poste, que abraça, larga-o, embaralha-se nos chinelos, caindo de costas;
manobrando com perícia, o barco encosta, não chegando, contudo, a esbarrar nos pneumáticos amarrados à ponte; salta um homem, veste camisa azul bastante desbotada, sobretudo nas axilas e nos ombros; bordadas ou costuradas na gola, em preto, ao que parece, duas âncoras, contrastando fortemente com o azul da camisa, permitem identificar o homem, precisar a sua atividade, situá-lo, enfim, num lugar determinado, numa zona de especialização o tanto quanto possível exata para quem conhece o trabalho e é afeito às coisas do mar; o homem dá alguns passos, hesita, finge consultar o relógio, sem sequer olhá-lo; ao fazer esse movimento, ergue a perna esquerda, tentando equilibrar-se no declive da rampa de pedras, escorrega, tropeça numa pedra; não se pode dizer se foi propositado ou por acaso, a pedra desliza e rola em direção à água escura da Bacia;
a mulata aproxima-se do local em que o bêbado caiu, vai devagar, o passo cadenciado, marcado por uma moleza irremediável; o tecido leve do vestido, um pouco brilhante, povoa-se formas abstratas, uma série de círculos que se ligam, que se interpenetram, uns vermelhos, outros azuis, notando-se o espalhafato do vermelho, uns laivos azulados, uma estranha massa líquida que se locomove;
o Sol começa a desaparecer, a poeira cintila mais frouxamente iluminada, um relâmpago estilhaça a quietude do céu, segue-se um estrondo, outro, escurece rapidamente, as áreas de luz se reduzem, desfazendo sombras, eliminando contornos, e eis que a chuva se precipita silenciosa, agora com violência, infiltrando-se, impondo a sua presença na cor que se respira em todo o céu feito de blocos cinzentos, leves, opacos, colados uns aos outros; a chuva engrossa, projeta-se com furor contra a parede descascada dos prédios, contra os vidros, contra a chapa de aço dos automóveis estacionados, ora num sentido, ora noutro, conforme o vento, varre os telhados, teimando sempre, insistindo, alagando;
o bêbado tenta escapar da chuva, debruça-se para a frente, rasteja, estica o braço, mostrando unhas muito rentes, escuras, cobertas por uma camada de óleo ou gordura; procura abrir os olhos, estabelecer talvez um inventário do seu reduzido campo visual, perturbado agora por aquela forma colorida que avança em meio à chuva em sua direção; cai de novo sentado, de encontro à parede, olhando a mulata com uma expressão na qual exista possivelmente mais angústia do que surpresa;
anoitece, o espaço da praça se limita agora a uma forma líquida repleta de formas líquidas, a umas casas acinzentadas, a uns reflexos avermelhados de algum luminoso nos paralelepípedos, onde se notam, em alguns, manchas escuras que a água não conseguiu desmanchar; um automóvel se aproxima, diminui a velocidade, pisca os faróis, o vermelho das lanternas traseiras se aviva ampliando a área de visibilidade, o automóvel chega mesmo quase a parar antes de avançar, primeiro cautelosamente, ganhando logo depois velocidade ao ultrapassar a curva do canal pata atingir o prédio do mercado em direção às grandes avenidas centrais;
o homem, a mulher e a criança, à espera de um barco provavelmente, refugiam-se sob o toldo do bar, um toldo de tecido grosseiro, sujo, com faixas coloridas, irreconhecíveis não tanto porque estejam desbotadas ou molhadas mas porque as vibrações da lona, provocadas pela violência do vento, cuja intensidade redobrou, impedem a vista de nelas se fixar; um halo furta-cor, bastante difuso, onde predomina o reflexo deformado dos objetos mais próximos, mesas, cadeiras, o ventilador do teto, a máquina de fazer café, que chamam de Soberana, pela marca, tudo se cola palidamente, de modo ondulante, à convexidade do vidro de uma vitrine que expõe doces velhíssimos sob o foco de uma luz fluorescente; o menino volta-se para a mulher apontando para a vitrine, a mulher o afasta, empurra-o, o menino insiste, a mulher se inclina para melhor ouvi-lo, repreende-o, olha para o homem, que não a olha, a mulher se apruma, ergue o braço e desfere um tapa que vai estalar na cabeça do menino, junto da orelha esquerda;
o homem não se impressionou com a cena, ou fingiu não se impressionar, continua como sempre esteve desde que chegou, encostado à parede, imóvel, a olhar a praça alagada, a encruzilhada distante, rua abaixo, até o fundo, lá no ponto em que aparece um bonde iluminado; ordena à mulher e à criança sempre atrás, uns três ou quatro passos, que o sigam, apesar da chuva; vai à frente, entra por uma rua bastante larga, caminha em silêncio, atento, observa as irregularidades do calçamento, recomenda de vez em quando cuidado à mulher, está tudo cheio de poças de água, escuras, oleosas, cheias de detritos; não há nele a mínima curiosidade, apenas o empenho de se conduzir da melhor maneira; dobra uma esquina, as formas se diluem mais sob a chuva, agora torrencial: a mulher desaparece, vê-se por uns momentos apenas o menino, que logo desaparece também;
um homem surge à porta do bar, parece ser o dono, levanta a cabeça para examinar o toldo, olha-o com curiosidade, experimenta a resistência das hastes de metal que o prendem à parede, dirige-se ao interior do bar, volta com um martelo, dá uma pancadas na caixa de ferro que contém as engrenagens, desaparece novamente; no bar não há mais ninguém, todos foram embora, a não ser o Urso, que tirita de frio numa mesa ao fundo; o homem olha-o, vai ao balcão, apanha um prato com umas sardinhas fritas, um pequeno copo e uma garrafa , dobra-se sobre a mesa onde está o mendigo, pousa o copo, ouve-se um estalo, a rolha salta do gargalo, o homem deposita o prato sobre a mesa e inclina a garrafa; o líquido avermelhado jorra, atinge a borda do copo, uns fios da bebida escorrem pelo vidro azulado, respingando o mármore da mesa; o mendigo fecha a mão, o braço ascende lentamente, segura o copo com inesperada firmeza e, por um breve momento, dá-se conta de que uma figura ovalada, com um rosto cheio de rugas, mostrando um sorriso desdentado, reflete-se no vidro; os lábios se aproximam da borda do copo, tomam contacto com o líquido, o sabor dilui-se pela boca, ao mesmo tempo que uma onda quente invade o palato, com um choque áspero, demorado;
há muito tempo que a praça está deserta, que não passa ninguém; os homens recolheram-se com certeza às suas casas, ouvem o rádio, vêm televisão, jogam cartas, brigam com as crianças, discutem com as mulheres, falam de futebol, comem, fabricam filhos, fornicam; depois, irão dormir, dando por terminado mais um domingo, enquanto a chuva continua a cair, insistente, alagando, correndo; alguns irão à janela e através das vidraças, entre bocejos, observarão as ruas desfeitas, mergulhadas num lago artificial; um pouco mais e não se verá mais nada, a não ser talvez, para os que prestarem atenção, ou se distraírem, um arquipélago de gotículas agarradas ao vidro, gotículas que sempre se renovarão enquanto persistir a chuva...