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segunda-feira, 4 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (3)



NINFA   AMALTEIA

CORNUCÓPIA
Entre os antigos gregos, a constelação de Capricórnio era uma homenagem de Zeus à ninfa Amalteia (maltakos, em grego, é suave, doce, terna) que, na forma de uma cabra, o amamentou quando escondido pela mãe, Reia, em Creta, para protegê-lo do pai, Kronos, que devorava seus filhos assim que nascidos. Mais tarde, brincando com a sua ama-de-leite, quebrou um de seus  chifres. Redimindo-se, Zeus o
PALAS ATHENA
transformou na cornucópia, símbolo da abundância, depois atributo tanto de Tykhe, deusa do Acaso, entre os gregos, como de Flora, deusa do mundo vegetal, entre os romanos. Da pele do animal  (
aigós) fez um escudo, a égide (aigis), palavra que tanto traduz uma ideia de proteção, como arma de defesa, e como arma de ataque, com o sentido de furacão, tempestade. A égide, neste sentido, cedida por Zeus, passou a ser usada por Palas Athena, nela se fixando emblematicamente a cabeça da Medusa, a Górgona que Perseu matou.


AURIGA
Entre os gregos, a cabra montanhesa sempre apareceu associada ao relâmpago, a chuvas e a tempestades. Isto se deve evidentemente ao solstício de verão (a cabra é um dos animais do eixo Câncer-Capricórnio) e, astrologicamente, à influência da estrela da Cabra, Capella, que sensibiliza atualmente o grau 21º-22º de Gêmeos). Esta estrela faz parte da constelação do Auriga (10º de Gêmeos-3º de Câncer).

MOISÉS - ( G. DORÉ, 1832 - 1883 ) 
Quanto aos judeus, Javé, como se disse, manifestou-se a Moisés no alto do Sinai entre relâmpagos em meio a uma grande tempestade. Esta a razão pela qual a cobertura do tabernáculo foi feita de pele de cabra. O tabernáculo, tenda, em latim, entre os hebreus continha a arca da aliança. No templo de Jerusalém, construído por Salomão, o tabernáculo era o “Santo dos Santos”. No culto cristão, ele passou a guardar as
TABERNÁCULO
hóstias consagradas. Onde quer que se encontre, o tabernáculo lembra o templo na sua origem, a arca da aliança, onde a lei recebida era guardada, parte da própria energia divina, prefigurando a Jerusalém celeste. Numa sinagoga, o tabernáculo, a santa arca, guarda os rolos da Torá. A festa do tabernáculo, Sukot, é uma das grandes cerimônias do judaísmo, celebrada no mês de Tishrei, associado ao signo de Libra, o sétimo mês do calendário hebraico a contar de Nissan (Áries) e o primeiro mês a contar do ano novo (Rosh-há-shaná).



SUKOT ( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

Astrologicamente, como sabemos, a pele tem relação com Vênus (Libra), com Saturno (Capricórnio) e com Mercúrio (Gêmeos), ou seja, respectivamente, significando contacto, lugar de toques, carícias, quanto ao primeiro planeta; limite, defesa, isolamento quanto ao segundo; e respiração, troca com o exterior, comunicação, quanto ao último. Fixando-nos em Capricórnio, é importante ressaltar que a pele é o maior órgão do corpo humano, representando cerca de 15% do peso corpóreo. Por ser o único órgão que tem contacto com o meio externo, funciona como barreira e também serve para estabelecer contacto com esse meio e o interior do corpo, protegendo o ser humano de agressões externas, regulando a temperatura e mantendo o organismo em equilíbrio.  Detalhando-se um pouco mais, lembre-se ainda, sob o ponto de vista astrológico, que Vênus tem domínio sobre a epiderme (a camada mais externa da pele) e que Saturno com a derme (a camada mais profunda da pele).

Sabemos que, de um modo geral, os capricornianos têm a pele sensível, que esse revestimento exterior reflete muitas vezes seus tormentos interiores e que ele, a pele, por isso, costuma se constituir num lugar privilegiado de somatizações; cóleras recolhidas, emoções não exteriorizadas, falta de sensibilidade para com os próprios sentimentos e os dos outros; dificuldades com qualquer tipo de intimidade podem deixar marcas profundas (algo até como esfoladuras nos casos mais significativos) na pele dos tipos capricornianos ou mesmo na de outros tipos astrológicos em que Saturno ocupe uma posição relevante, especialmente se em relação desarmônica com Vênus. É neste sentido que Capricórnio (e os demais signos de terra, Touro e Virgem, também, a seu modo) é tido como bem mais estoico do que é na realidade, simplesmente porque só toma consciência de seus “ferimentos”, de seus problemas cutâneos, com muito atraso, depois de muito tempo, de muitas marcas, no geral pouco notadas. 

ZEUS
A cabra Amalteia nos conduz naturalmente a um outro personagem capricorniano, muito ignorado quanto a esta associação. Refiro-me a Pan, divindade dos povos gregos da Arcádia. Além de Zeus Lycaios (Lobo), naturalmente, as duas divindades mais veneradas na região eram a deusa lunar Ártemis e Pan. É interessante registrar que os habitantes da Arcádia eram chamados de pelasgos ou de aborígenes pelos outros gregos, pois descendiam de tribos pré-históricas e, como tal, considerados como oriundos do povo mais antigo da Grécia.  


PAN
Pan era filho de Hermes e da mortal Dríope (a que tem o aspecto de uma árvore, etimologicamente). Rejeitado pela mãe por causa de seu aspecto monstruoso, foi envolvido pelo pai numa pele de cabra e levado para o Olimpo. Os deuses se encantaram com a criança, de modo especial Dioniso, de cujo cortejo ele viria mais tarde a fazer parte. Recebeu o filho de Hermes, dos Imortais, pela alegria que lhes causou, o nome de Pan, pois viram que um filho do deus que unia o céu, a terra e o inferno e que, no plano terrestre, dominava as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), só poderia encarnar a totalidade universal criada.


Sob a inspiração de Pan, os filósofos estoicos elaboraram na antiguidade grega uma doutrina segundo a qual Deus se confundia com o Todo,
SPINOSA
identificando-se ele assim com o mundo. Foram os estoicos que desenvolveram a ideia de que Deus é a força vital imanente ao mundo. Spinosa, bem mais tarde, retomou esta ideia, expressando-a por uma frase célebre: Deus sive natura. Outros filósofos depois a utilizaram, fazendo-a invadir sobretudo o romantismo alemão do final do séc. XVIII ao início do séc. XIX, com Novalis, Schlegel, Jacobi, Scheling e outros. Muitos historiadores da cultura vêem o panteísmo como uma concepção do divino que se expressa através de uma energia impessoal presente em toda a natureza e em todos os seres. A palavra panteísmo foi usada pela primeira vez na filosofia ocidental no início do séc. XVIII. Lembre-se que a teologia cristã moderna (vide inclusive a condenação de Spinosa pela sinagoga) identificou o panteísmo como um ateísmo por que ele recusava a ideia de um Deus pessoal. Ao evocar o panteísmo a ideia de uma força impessoal presente em todo o universo e no homem, não há como deixar de aproximá-lo daquilo que os povos védicos na Índia, numa elaboração superior, nos deram através do conceito de Brahman.

PAN
O corpo de Pan era peludo, possuindo ele chifres e cascos no lugar de pés, como os de bode, e orelhas pontiagudas.  Prodigiosamente ágil, perambulava pelos bosques e vales tocando a sirinx, flauta por ele inventada, sempre à procura de ninfas e de mênades para atacá-las e com elas copular. Quando não as encontrava, masturbava-se furiosamente. Foi reverenciado inicialmente como deus dos rebanhos e dos pastores, passando a encarnar depois o princípio da ordem universal, invocado inclusive nas litanias órficas como um princípio amoroso, criador, incorporado à matéria e formador do mundo. Neste sentido, era fonte e origem de todas as coisas, representando a matéria animada pelo espírito divino (princípio da imanência), a natureza como um todo, nela se concentrando os quatro elementos constitutivos do universo. Era dele que provinham as criaturas mistas, sátiros, silenos, egipãs, faunos etc.


CORTEJO   DE   DIONISO

Estas criaturas mistas, entre o animal e o humano, eram divindades menores do mundo natural nos mitos greco-romanos, criaturas de energia sexual inesgotável. Faziam parte do barulhento cortejo do deus Dioniso, vivendo em campos e bosques, a comer e a beber, perseguindo incansavelmente, como se disse, as mênades e as ninfas. É de uma das mais notáveis figuras do séquito de Dioniso que sai o nome satiríase para designar uma patologia sexual. Esta patologia se caracterizava, para os antigos gregos, por super-excitação mórbida que levava os homens a manter o seu membro viril em permanente ereção, com ejaculações constantes, que acabavam por lhes causar esgotamento e morte. A satiríase, nesse contexto, distinguia-se do priapismo (de Príapo, deus itifálico, protetor dos jardins, filho de Afrodite e de Dioniso), também patologia sexual que se caracterizava por uma ereção persistente e dolorosa, mas, diferentemente da satiríase, sem nenhum desejo.   

PAN
A aparição de Pan nos campos provocava o pânico, um terror inexplicável, paralisante, que se apossava das pessoas que o viam. Gostava Pan de repousar nos períodos de calor intenso, ninguém ousando perturbá-lo, ficando tudo silencioso e calmo na natureza. Aqueles que o perturbassem incorriam na ira do deus, que os atacava, inspirando-lhes o terror pânico. Consta que na batalha de Maratona, Pan atacou os persas, o que praticamente determinou a vitória dos gregos sobre os seus figadais inimigos. Em agradecimento ao deus, os gregos erigiram um templo em sua homenagem na Acrópole.

Na história de Pan, há registros que nos falam de seu amor por Selene e pela ninfa Eco, às quais teria oferecido, como presente, rebanhos de bois brancos. Um dos acontecimentos mais importantes na crônica desse deus tem relação com Tifon, o maior dos monstros descritos pela mitologia grega. Filho de Geia e do Tártaro, era um agente do caos, uma perigosa ameaça para a ordem cósmica. Podia andar pelos mares mais profundos sem que sua cabeça fosse coberta pela água; sua estatura ultrapassava em muito os picos das maiores montanhas, indo além das nuvens mais altas; ao abrir os braços, suas mãos alcançavam com facilidade o oriente e o ocidente. Seu corpo era coberto por víboras, possuía asas e seus olhos lançam dardos de fogo.


ZEUS   ATACA   TIFON

Para escapar do ataque de Tifon ao Olimpo, contam os mitos, os deuses gregos fugiram apavorados, inclusive Pan, que se lançou num rio com a intenção de se transformar em peixe. Tudo aconteceu tão rapidamente que ele ganhou apenas uma cauda pisciforme. Quando retornou de seu mergulho, soube que Zeus havia sido mutilado pelo monstro, que lhe cortara os tendões dos braços e das pernas. Em companhia do pai (Hermes), Pan conseguiu, contudo, afastar Tifon com o seu famoso grito que causava terror e fuga. Dirigindo-se depois a uma gruta, onde o Senhor do Olimpo jazia inerte, ambos, ele e o pai, conseguiram reconstituí-lo, ligando os seus tendões, dando-lhe assim uma nova forma, equivalente a um segundo nascimento, que o projetou num nível superior de existência divina.


MONTE   ETNA
Assim recomposto, Zeus, como sabemos, voltou a se defrontar com Tifon, que se refugiou na ilha da Sicília. Zeus o perseguiu, travando-se então uma batalha terrível. Ao final, Zeus conseguiu vencê-lo, lançando sobre ele o monte Etna. Aprisionado, mas não morto, Tifon, até hoje, através de labaredas e gases, continua a dar sinais de sua presença, lembrando-nos a sua contida presença que as forças do caos, ainda que dominadas momentaneamente, se constituem numa ameaça permanente. Segundo os gregos, para recompensar Pan dos inestimáveis serviços que lhe prestou, Zeus o colocou nos céus como a constelação de Capricórnio.

Esta identificação de Pan com o Todo, como a antiguidade no-la legou, encontra a meu ver a sua melhor explicação se considerarmos que  Capricórnio é o signo que abre o quarto quadrante  zodiacal, quadrante que nos coloca na décima casa, o meio-do-céu, o setor que marca a possibilidade da mais elevada realização individual, o mais elevado grau de influência que podemos ter sobre o mundo. Esta influência, para a maioria, só costuma tomar o caminho da vida material ( simbolizado pela cabra montanhesa). Para outros, uma significativa minoria (simbolizado pelo licorne), a subida poderá tomar um sentido espiritual. A partir de Capricórnio, entendido o signo através deste símbolo do licorne, é que o Todo, sob a tutela de  Pan, poderá se abrir para nós. É neste quadrante que temos, depois de Capricórnio, o signo de Aquário, que superiormente representa a humanidade, e, fechando o ciclo zodiacal, o signo de Peixes, o signo da doação, que independe de retribuição e de reconhecimento. 

CAPRICÓRNIO
(ALEISTER CROWLEY, 1875-1947)  
A antiguidade grega atribuía a Pan dons proféticos, os mesmos que encontramos em outros seres telúricos, mais instintivos, que, ao invés da razão, preferem ouvir aquele “saber” espontâneo que “sabe” mais que ela, aquele saber que percebe as verdades essenciais, as que têm importância realmente. A parte “úmida” de Capricórnio (a cauda pisciforme de Pan) tem, astrologicamente, muito a ver com o lado inconsciente do signo, lado que, ao invés de causar problemas maiores, contribui positivamente, principalmente quando pensamos nos tipos superiores do signo. É este lado úmido que faz com que, embora possa se encontrar numa posição de poder ou de influência, o capricorniano de terceiro tipo (licorne) sabe que há uma autoridade real ou simbólica diante da qual terá que se curvar, há o poder das origens (Câncer), que nunca poderá ser esquecido. 

O lado úmido de Capricórnio (Pan), segundo o mito, teria vindo do delfim, o peixe sempre associado a Apolo e ao oráculo de Delfos. Uma versão mitológica nos informa que os delfins são antigos piratas que, depois de terem atacado Dioniso, caíram na água e se arrependeram. Tornando-se símbolos da regeneração, estes peixes, ainda segundo o mito, ajudam os náufragos, muitos deles inclusive, para salvá-los, empurrando-os até as praias. Plutarco, o escritor e moralista, sacerdote de Apolo em Delfos, conta que o poeta e músico Arion (séc. VII aC) foi salvo dessa maneira. Os delfins eram muito conhecidos  pela sua sabedoria e prudência (virtudes capricornianas), sendo considerados, pela sua maneira de se deslocar, como mestres navegadores.


ARION ( W.A.BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )

Além de ter há muito invadido a filosofia, Pan invadiu invadiu também na nossa modernidade a psicologia para dar nome a uma síndrome, a do pânico. Esta síndrome é definida como um transtorno de ansiedade que produz geralmente, sem evidência de uma causa aparente, medo, muita apreensão, temores, tidos como infundados, levando a pessoa por eles tomada a “sentir” que algo indefinido e ruim está para lhe acontecer. Recorrente e inesperado, o transtorno acaba gerando, antes das crises, estados de preocupação constantes com a desconfiança de que ele esteja para ocorrer novamente, fazendo a pessoa imaginar que, numa delas, não conseguirá se controlar.  No mais, o quadro de sempre: transpiração, aceleração de batimentos cardíacos, dor no peito, tontura, sensação de desmaio, calafrios, palidez são os seus variáveis sintomas. A medicina desconhece as causas desta síndrome, limitando-se ao tratamento dos seus sintomas e a um acompanhamento psicológico.

Para entender a origem esta síndrome, hoje de caráter “epidêmico”, o que temos de melhor é, sem dúvida, ir às relações entre Pan e Ártemis. Pan, em grego, como se disse, significa o todo, tudo, sendo considerado como o deus da fecundidade e da potência sexual. Brutal em seus desejos e terrível nas suas aparições, anunciadas por gritos apavorantes, ele provocava o terror naqueles que se aventuravam nos territórios em que vivia, o grande Todo, sem honrá-lo devidamente. Estes territórios, que eram dele, se situavam entre o conhecido, regiões protegidas, da deusa Ártemis, (grutas, lugares de nascimento) e o desconhecido (o grande Todo).


PAN   E   ÁRTEMIS
Quem ousasse ir em direção do grande Todo, teria que estar preparado, isto é, saber se separar dos lugares conhecidos, protegidos por Ártemis, simbolizados pela gruta, sempre uma vitória sobre os temores do desconhecido. Ártemis e Pan nos dizem que a vida é feita de passagens, sendo a primeira delas a da saída da gruta. Passagens a serem refeitas constantemente, a fim de que, em meio às provas e dificuldades, aprendamos a conquistar e a preservar a nossa necessária autonomia nos embates da vida. Ártemis, lembremos, é a deusa das passagens, aquela que protege tudo o que deve e precisa entrar na vida, cuidando das crias, dos brotos, das ervas novas, dos riachos, a fim de que caminhem em direção de uma vida “adulta”.

CAVERNA
Cavernas, grutas, todos os lugares sombrios e profundos, são arquétipos maternais, lembrando vida inconsciente.  Eles se associam nos mitos à Lua, a Ártemis, não só como lugares protegidos, relacionando-se inclusive a ritos de iniciação. Aqueles que não conseguem se separar da gruta são os lunares, os que ficam presos aos seus hábitos, aos seus automatismos corporais,  às suas pressões atávicas, aos seus condicionamentos e idiossincrasias. São os que  permanecem ou demoram-se demais na infância, preferindo o dentro ao fora, inclinando-se à esquizoidia.

Aqueles que se atrevem a enfrentar o desconhecido, o grande Todo, sem ter sabido se desligar da gruta, vão sempre cheios de culpa e de ruminações inconscientes dolorosas, sempre com o seu olhar
TARÔ
voltado para trás, como Orfeu; serão as vítimas preferidas, primeiro de Pothos, o deus da saudade, e depois de Pan, que os enche de ansiedade e de terror pânico. Quem melhor explica esta síndrome é, sem dúvida, a Astrologia, encontrando-se as suas maiores vítimas entre os cancerianos e/ou aqueles que têm a Lua em destaque (angular) nos seus mapas por posição e aspectos. A lâmina XVIII do Tarot é uma das melhores ilustrações desta síndrome.

Em todas as tradições míticas, as grutas sempre foram consideradas como um lugar de nascimento. Na mitologia grega eram de Ártemis Encontradas em lugares sombrios e profundos, sejam subterrâneas, encravadas em montanhas ou em encostas escarpadas, as grutas são arquétipos matriciais. Nesse sentido, tanto fazem parte de mitos de origem e dos ritos de iniciação como lugares de renascimento. Morada dos humanos desde tempo pré-históricos, são simbolicamente verdadeiros reservatórios de energia e de lembranças, de complexos, de sentimentos e de emoções que muitas vezes se agitam inexplicável e confusamente na interioridade do ser humano, perturbando a sua vida consciente.

Tanto antigos lugares de culto da humanidade, ornadas de pinturas e gravuras, como, nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos, consideradas como um lugar materno, por excelência, as grutas sempre apareceram associadas  aos órgãos genitais femininos e, como tal, à fertilidade. Vários povos relacionavam num mesmo contexto simbólico a caverna, a mulher, a chuva e a Lua.

No simbolismo dos sonhos, por exemplo, um caminho a ser percorrido, no qual se tenha que passar por grutas pode ser visto como uma busca de um novo sentido para a vida. Sob o ponto de vista psicanalítico, tal percurso representa sempre uma descida às profundas camadas da vida subconsciente relacionadas com o inconsciente materno. Este percurso também poderá ser entendido, quem sabe,  como uma regressão a uma situação pré-natal, intra-uterina,  um desejo de retorno à indeterminação, volta a um mundo obscuro e morno, onde não há escolhas nem decisões, onde tudo é recebido de graça. Neste caso, as suas maiores vítimas serão certamente os piscianos e/ou aqueles que têm em seus mapas astrais um Netuno poderoso.    

As grutas exercem um grande fascínio (talvez muito mais sobre os espeleólogos; speleo, gruta, em grego))  sobre todos aqueles que pretendem conhecer um pouco mais, num plano simbólico, a respeito das profundezas de sua personalidade. Qualquer que seja o enfoque, grutas representam sempre abrigos absolutos. Entrar nelas é psicologicamente um retorno ao seio maternal, uma negação do nascimento, um mergulho no indefinido. É, neste sentido, ao mesmo tempo, uma renúncia à vida terrestre e um desejo de renascimento sob uma nova forma.


PLATÃO
O mito da caverna, como sabemos, tem um papel importante na filosofia de Platão. As pessoas que vivem em grutas, jamais indo além de sua entrada, não podem conhecer o mundo. Só percebem dele apenas sombras, conhecem tão só reflexos da realidade exterior, maior, mais vasta, projetados nas paredes. Para conhecer esta realidade que está fora, além, a verdade que a luz do Sol permite captar, é preciso sair da gruta. É por essa razão que se afirma que o conhecimento lunar, obtido só através de uma vida protegida desse modo,  é  indireto, herdado, atávico.

Se num primeiro momento a gruta é proteção, agasalho, nutrição,  segurança, noutro ela poderá se constituir em abafamento, sufocação, castração e mesmo em lugar mortal. Sair da gruta será sempre um problema, qualquer que seja o modo pelo qual abordemos este tema. Foi certamente pensando nisto e em muitos outros aspectos míticos relacionados com grutas que os antigos gregos deram forma ao mito do deus Pan.

De comum acordo com a deusa Ártemis, a tutela das regiões que ficavam além do oikos, dos territórios que ligavam o conhecido ao desconhecido, foram atribuídas a Pan. O conceito de oikos, já estava estabelecido na Idade do Bronze, antes do período arcaico da história grega, no fim do qual pequenos núcleos urbanos começaram a se formar. O oikos era a unidade básica da família, constituída pela propriedade (casa, terras, plantações, pastos, escravos e animais). O pai era a autoridade suprema, fazendo-se a transmissão da propriedade sempre pela via patrilinear. A palavra economia, como a usamos hoje, tem na sua origem nas palavras oikos (família)  e  nomos (lei), economia, a lei da família, a lei da casa. 

O sentimento de solidão e de desamparo que costumava atacar os viajantes quando longe do oikos, principalmente nos dias escuros, de mau tempo, em noites sem Lua, quando nenhuma voz era ouvida, os campos silenciosos, os animais recolhidos, esse sentimento de solidão e desamparo, continuando, começou a ser considerado, não se sabe bem por qual razão, como inspirado por Pan. Ansiosos, alarmados, aterrorizados, os viajantes, os peregrinos, sem um motivo justificável, ficavam paralisados por essa presença oculta de Pan, que se anunciava, como logo começou a se propalar, por um som ouvido, um som terrível, entre o grito humano e o uivo animal. Aos poucos, esse sentimento passou a ser chamado de terror pânico, um estado entre o pavor e o espanto, inexplicável, geralmente somatizado de diversos modos. 


SILVANO
Um dos nomes de Pan era Hylaeos (o da floresta) como divindade das florestas. Da Grécia, seu culto foi levado para a Itália, como protetor de rebanhos. Lá foi assimilado aos faunos (protetores de rebanhos e da fertilidade), aos egipãs (homenzinhos que lembram a forma caprina). Consta que no norte da África, na Líbia, havia uns egipãs com cauda de peixe, dos quais teria saído a representação do signo de Capricórnio, dos silvanos (protetores do verde da Natureza), estes conhecidos também pelo nome de paniscus

Todas estas divindades campestres se ligavam a Pan, presentes na fertilidade animal e vegetal. Delas, por exemplo, saem designações como sátiro que usamos para qualificar o homem obsceno, lúbrico, voyeur ou exibicionista. Segundo Homero, teria existido nas montanhas da Cítia um povo inteiro de sátiros, que, quando envelheciam eram chamados de silenos. Os sátiros (etimologicamente, nome ligado a um verbo que significa distender, entumescer, inchar) eram divindades menores da natureza que acabaram se integrando também ao cortejo de Dioniso, como se disse. 

CENTAUROS  ( PETER   PAUL  RUBENS , 1577 - 1640 )

Os centauros, filhos de Nephele, a Nuvem, e de Ixion (que viverá no Tártaro até o final dos tempos), entre o humano e o cavalo, lembre-se, costumavam também frequentar os territórios de Pan, chamados pelos gregos, de agros. Brutais, quase sempre embriagados, vivendo em bandos, alimentando-se de carne crua, os centauros simbolizam a concupiscência carnal, a ameaça da vida instintiva, sempre presente no homem que não sabia controlá-la. É neste sentido que os antigos gregos consideravam o centauro como uma antítese do cavaleiro que sabia dominar e controlar a sua montaria. 

Em parte zoomorfo, em parte humano, Pan era uma divindade turbulenta, que com os seus aparecimentos súbitos provocava o pânico entre os humanos, entre as ninfas e mesmo entre os deuses. Nos humanos, o terror neles infundido será diagnosticado, muito mais tarde, como uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas observáveis como vários processos patológicos. No seu aspecto mais visível, uma condição crítica passível de despertar inicialmente insegurança, medo, e terminar como prostração, imobilidade, às vezes com a sensação de morte súbita. 

A chamada síndrome do pânico impede que a energia vital, certamente por pressões inconscientes vindas da gruta, se readapte diante de situações existenciais que exigem prontas mudanças, rápidas respostas, novos procedimentos, novas maneiras de ser diante de situações novas. Astrologicamente, é de se lembrar que o deus Pan “vive” entre a quarta e a quinta casas astrológicas, ou, de outro modo, entre o signo de Câncer e o de Leão e, também, é claro, poderá se “manifestar” através de uma Lua angular, mal posicionada e aspectada num mapa astrológico. 


QUADRANTES   ASTROLÓGICOS

O signo de Câncer relaciona-se com a fecundação e a concepção, com a alimentação, presentes sempre os conceitos de segurança, proteção e amparo. Câncer tem a ver com o lar, a mãe, a tribo, as heranças, as impressões, as lembranças, a força psíquica das origens, os sentimentos e emoções, a memória. Inferiormente, o signo lembra estreiteza mental, impressionabilidade, acumulação, adesão incondicional, emotividade, humor caprichoso, indolência, infantilismo psíquico, atavismo, idiossincrasias, domínio do hábito.

Leão, para o bem ou para o mal, aponta para: conquista do ego, autonomia, ardor vital, auto-expressão criativa, império da vontade, força emotiva ativa, busca da própria razão de viver, iniciativa, ampliação, orgulho, passionalismo, tendência à ação sem compartilhamento,  narcisismo, infantilidade, cólera, necessidade de reverências, generosidade, exibicionismo.  
       
   
        

domingo, 9 de fevereiro de 2014

QUINTO TRABALHO DE HÉRCULES


A captura e a morte do leão de Nemeia - Para cumprir a tarefa determinada, Hércules se dirige ao bosque de Nemeia, perto da cidade de mesmo nome, na Grécia. Gerado pelos maiores monstros da mitologia grega, Tifon e Équidna, o leão de Nemeia devastava e destruía tudo, matando os habitantes da região, devorando rebanhos. Era irmão de Cérbero, o monstruoso cão tricéfalo do Hades, da Hidra de Lerna, da Quimera, do Dragão Ládon, do Abutre devorador do fígado de Prometeu e de Ortro, o Cão de Gerião, e de Fix, a Esfinge de Tebas.
 
ÉQUIDNA

A inspiração para a realização deste trabalho (e de outros), como se sabe, foi de Hera, sempre vingativa, ao perseguir a descendência
de Zeus.. Quem nos conta isso mais detalhadamente é Calímaco, o poeta. Vários autores, por outro lado, como Epimênides (poeta, filósofo e místico, muito famoso, tinha a fama de poder projetar o seu duplo) e Plutarco, nos dão informações diferentes sobre a origem do Leão de Nemeia: Hera teria encontrado o animal na Lua, onde “os seres são quinze vezes maiores que na Terra”, fazendo-o cair, de lá, sobre o monte Apesas, na região. 

Ficando com os registros míticos mais aceitos, o que se sabe é que
ZEUS E TIFON
o Leão de Nemeia descende de Forcis e de Ceto, irmãos, monstros marinhos, pertencentes à primeira geração divina. Équidna, a Serpente, era filha deles. Quanto a Tifon, apesar de algumas variantes, tem-se como certo que seus pais são Geia e o Tártaro, ou seja, o não-ser. É Tifon um filho do mundo ctônico (de khthonios, em grego), sinônimo de inferno.

Como um dos elementos primordiais do cosmos, o Tártaro é a região mais profunda das entranhas da Terra. Como tal, é a última camada do Hades, lugar jamais atingido pela luz. Associado sempre por isso a ideias de escuridão, morte, prisão eterna dos condenados e dos danados, foi onde Plutão, o deus dos infernos, construiu o seu palácio. 


CENA DO TÁRTARO

Enorme, incomensurável, cheio de serpentes pelo corpo, os olhos de Tifon lançavam chamas; nos mares, sua cabeça sempre ficava acima da superfície das águas; de pé, sobre a terra, podia olhar por cima das nuvens; se estendesse os seus inúmeros braços, podia tocar com facilidade o oriente e o ocidente. Só a duríssimas penas Zeus conseguiu contê-lo, lançando sobre ele o monte Etna, que vez ou outra entra em erupção, sinalizando a sua presença. 

ETNA-TIFON

Chegando a Nemeia, depois de ter declarado o objetivo de sua viagem, Hércules recebeu o apoio dos moradores do lugar, indo hospedar-se na casa de Molorcho, um pastor, cujo filho fora morto pelo Leão; recebeu dele homenagens como se fosse um deus, tão impressionado que ficou o hospedeiro com a sua aparência. Hércules pediu-lhe que preparasse um animal a ser sacrificado a Zeus, no caso de voltar vitorioso.  O pastor deveria esperar por 30 dias. Se dentro desse prazo ele não voltasse, que Molorcho sacrificasse sozinho o animal.

As versões mais correntes nos contam que Hércules, brandindo o seu porrete, se pôs à procura da fera. O porrete utilizado por Hércules, lembremos, fora por ele mesmo construído quando do início do ciclo dos doze trabalhos. Abatera uma oliveira selvagem e do seu tronco fizera a sua arma preferida, um símbolo do poder que domina pelo esmagamento. Sabia Hércules que a fera era invulnerável a flechas e lanças. Localizou-a numa floresta próxima, conseguindo encurralá-la na caverna de uma montanha, o seu refúgio. Quando se preparava para enfrentá-la, eis que o animal surgiu às suas costas. Percebeu então nosso herói que a caverna não era o que imaginara; ela tinha duas entradas, assemelhando-se mais a um túnel. Por isso, o animal lhe escapara.




HÉRCULES E O LEÃO DE NEMEIA

Recomeçando a caçada ao animal, Hércules cuidadosamente bloqueou com enormes pedras uma das entradas da gruta e voltou assim a encurralá-lo. Não podendo escapar, o animal foi então atacado pelo nosso herói. A luta foi tremenda, decidindo-a Hércules quando, depois de certeiros golpes de clava, tonteando o animal, conseguiu agarrá-lo com os seus musculosos e possantes braços, sufocando-o, em meio a seus grunhidos e estertores. Arranhado, ferido, sangrando muito, mas vitorioso, Hércules depois, então, com sua afiadíssima faca, esfolou a monstruosa fera, retirando-lhe o couro. Desde então, para marcar a sua vitória, passou a usá-lo sobre os seus ombros e cabeça como seu emblema. Esta imagem, a de Hércules vencedor do Leão de Nemeia, é, sem dúvida, a cena mais representada de toda a mitologia grega.

Levando às costas o animal morto, Hércules partiu em direção de Micenas. Foi impedido por Euristeu de entrar na cidade. Por um arauto, Copreu, a ordem foi transmitida: Hércules deveria deixar o leão morto diante das muralhas. Por causa desse episódio, Euristeu mandou fabricar um enorme vaso de bronze que doravante poderia lhe servir de esconderijo no caso de Hércules querer se aproximar muito do palácio.

Ao mencionar Copreu, não posso deixar de me estender um pouco sobre essa figura, que não só faz parte da história de Hércules como tem seu nome ligado a palavras que lembram imundície, fezes, matéria em decomposição. Kopros, em grego, é fezes, estrume. Dela nos vêm, por exemplo, coprofagia, prática de comer fezes; coprofilia, interesse patológico por fezes em geral e, particularmente, pela associação delas ao ato sexual; coprofobia, medo mórbido de fezes ou de defecar. É dessa palavra, ou melhor, de sua raiz, mais recuadamente, que sai a popular caca, excremento, fezes, matéria fecal. 

Copreu é nome que em grego lembra o que é sórdido, infame, imprestável. No mito, é filho de Pélops, rei da Élida. Acusado de homicídio, refugiou-se na corte de Euristeu, que fez dele o arauto encarregado de, em seu nome, manter contactos com Hércules. Depois da morte de Hércules, Euristeu o enviou como seu embaixador junto a Tráquis e depois a Atenas para que ambas as cidades não dessem hospitalidade aos descendentes de Hércules, os Heráclidas, os filhos que ele tivera com sua última mulher, Djanira.    


DJANIRA, HÉRCULES E O CENTAURO

O leão é um animal solar, poderoso, majestoso, orgulhoso, soberano (rei dos animais), usado simbolicamente desde tempos remotos para representar as qualidades superiores do ser humano e também os defeitos que a ela são inerentes, autoritarismo, tirania, despotismo, egolatria etc. Na religião, por exemplo, positivamente, o encontramos como símbolo de Krishna, de Buda, de Cristo, de Sekhmet (a deusa leoa dos egípcios), de São Marcos (Veneza) assim como de todos aqueles que, ao longo da história, adquiriram algum tipo de poder: Salomão, Ashoka, Luis XIV, Napoleão Bonaparte, Lourenço, o Magnífico, Guilherme I, Benito Mussolini, muitos inclusive nascidos no período em que o Sol atravessava a constelação zodiacal do mesmo nome (23 de julho-22 de agosto). O auge do verão (hemisfério norte) se caracteriza por uma grande exuberância vital, pelo esplendor da luz, pelo calor, atingindo o Sol, astro regente da constelação, a sua máxima luminosidade no ciclo anual. Os dias são longos, as noites curtas, o período é de grandes festas e de celebrações.

Ainda no período matriarcal da história da humanidade, encontramos o leão usado como um símbolo de dominação. A Grande-Mãe anatólia Cibele, cultuada em montanhas e grutas, era,
SEKHMET
na Ásia Menor, iconograficamente representada com a cabeça coroada de torres, com um crescente lunar, sempre se deslocando num carro puxado por leões. No Egito, não podemos esquecer a poderosa Sekhmet, originária do delta do Nilo, representada por uma majestosa mulher com cabeça de leão. Deusa guerreira, ela assumia às vezes o papel de olho de Ra para destruir os inimigos do Sol. Negativamente, ela espalhava as epidemias, mas, honrada devidamente, podia curar. Os médicos faziam parte do seu colégio sacerdotal. Na mitologia grega, encontramos sobrevivências do poder leonino das antigas deusas, por exemplo, em Ártemis, nas suas mais antigas representações, enquanto reverenciada como Potnia Theron (Senhora das Feras).

O leão só assumiu a sua posição como símbolo máximo do poder patriarcal por volta de 2.000 aC, quando do começo da era astrológica de Áries. Foi durante essa era (matematicamente, entre 1.662 aC – 498 dC) que movimentos religiosos de inspiração patriarcal liquidaram definitivamente o mundo matriarcal (vide primeiro trabalho de Hércules) e que as tribos indo-europeias se deslocaram em direção da Ásia (futura Índia) e Europa (futura Grécia e mundo celta). A desvalorização do feminino se acentuou cada vez mais, equiparando-se a posição da mulher na sociedade à de um escravo. Se antes, no matriarcado, o homem sentia “inveja do útero”, agora, no patriarcado, era a mulher quem sentia “inveja do pênis”.


Nesse sistema, que Hércules tão bem representa, o chefe da família, socialmente, gozava de absoluta autoridade sobre o oikos (mulher, filhos, empregados, escravos, animais, propriedades). Além de presidir o culto doméstico, o chefe da família podia recusar ou aceitar a criança recém-nascida, ajustava o casamento dos filhos sem consultá-los, podia emancipá-los ou adotar um estranho. A
VIDA DOMÉSTICA
mulher (estamos falando do período histórico mais “adiantado” da Grécia antiga e da elite aristocrática), desde o seu nascimento, era considerada sempre como de menor idade, passando a vida inteira sob a tutela de um senhor (kyrios). Quando solteira, tinha que prestar obediência ao pai; casada, ao marido; viúva, ao filho ou a um tutor, designado em testamento pelo marido falecido. Embora, é claro, os costumes contribuíssem para amenizar um pouco esse quadro, a mulher era um ser sem nenhuma expressão social. Fazia parte daquele grupo, juntamente com escravos, estrangeiros, menores, adidos domésticos etc., que, quando do choque entre as forças apolíneas e dionisíacas, engrossou as fileiras destas últimas, forças que, como se sabe, acabaram por destruir a polis grega, Atenas principalmente.  

Como símbolo extremo, o leão passou a representar o homem heroico, tanto no sentido positivo como no sentido negativo. Vencer o leão passou a significar a vitória do espírito humano sobre a natureza animal. Mas, do outro lado, o leão podia ser também um símbolo das potências infernais. É neste sentido que o signo do Leão é tanto real como infernal. Um signo ambíguo, que pode apontar, como se disse, para uma grande propensão ao faustoso e ao exibicionismo, à riqueza, à vaidade e à tirania, como, numa outra direção, para posturas reveladoras de uma autoridade natural, de generosidade, de grande de espírito. 
   
A palavra Nemeia, nome do bosque onde vivia o leão, tem a ver com verbo nemein, distribuir, delimitar. Já nomo, do verbo nemo, tem a ver com a determinação do espaço que no pasto deve caber a cada pastor que vá apascentar os seus animais. Nomo é também delimitação territorial, divisão, província, comarca e, como tal, aparece no Egito, dividido em 42 nomos. Nêmesis, nome que tem relação com as citadas palavras, lembremos, é a grande divindade da Justiça distributiva, lembrando limites, que pune todos aqueles que ultrapassam o seu metron, invadindo o espaço dos outros, atitude muito comum nos tipos malogrados do signo de Leão. É Nêmesis a deusa que restabelece o equilíbrio quando a justiça deixa de ser equânime, trazendo muito sofrimento aos transgressores e aos omissos, que nada fazem para coibi-los. Ela curva os orgulhosos, pune os vaidosos, aconselhando sempre a moderação e a discreção. São seus símbolos, dentre outros: a régua, o esquadro, o leme, o chicote, o freio, o compasso, tudo enfim que dá a ideia da justa medida. 

A proposta deste quinto trabalho é a de que o nosso herói aprenda a lidar com o descomedimento de sua personalidade. A luta a ser travada, em última instância, é contra aquilo que os gregos antigos chamavam de hybris, uma tendência natural do ser humano ao excesso, à desmedida. A consequência desta atitude é a violência, a ação perigosa, a agressão, que os gregos chamavam de hamartia. Tem o herói que aprender a controlar a sua natural disposição para ultrapassar limites em todos os sentidos, não reconhecendo, muitas vezes, o direito dos outros, o espaço por eles ocupado. Nemeia é, assim, o “bosque da lei”, onde inclusive os “leões” devem respeitar os limites de convivência. 


HÉLIO

Analogicamente, tudo isto tem a ver com o auge do verão, segundo mês da estação, quando não pensamos mais no fogo impulsivo das auroras primaveris, mas, sim, na chama irradiante do verão que traz o calor e a luz. Ligam-se a este momento ideias de ardor vital, voluntariedade, ambição, dominação. No mito grego, deuses como Febo, Hélio, Apolo são representações arquetípicas de várias expressões solares. No mês do Leão, temos ideias de conquista de uma autonomia, da aparição de um eu que, ao se revelar pelo nascimento de uma vontade, terá que se expressar socialmente, levando em consideração os outros. Apaixonado, veemente, de temperamento bilioso, o leonino deseja aplausos, gosta de centralizar as atenções, mas nunca deverá perder a noção do que está fora dele. Por isso, o leão sempre foi usado para ornar o trono de reis, sempre com o propósito de lembrar luz irradiante, generosidade, coragem, nobreza.

Na antiga arte simbólica, o leão, a par de suas qualidades positivas, era usado também para representar o poder destrutivo do Sol, tão necessário para manter a harmonia universal quanto o seu poder regenerador. No antigo Egito, indo um pouco além do que já falamos sobre Sekhmet, lembremos, existia uma relação entre o Sol e o leão, este considerado como símbolo da força, emblema da alma, da incandescência e da eterna vigilância. 

Hércules venceu o leão numa gruta que tem duas aberturas. Esta gruta é a imagem (analogia) de uma pequena gruta semelhante que o ser humano tem na cabeça, uma estrutura óssea que protege uma das mais importantes glândulas do corpo humano, a hipófise ou pituitária. O corpo pituitário é duplo. Na parte posterior, temos o

racional; na parte anterior a emoção e a imaginação. Desta glândula endócrina depende o controle de nossa personalidade, sendo ela essencial para o nosso crescimento. Ela é chamada de glândula cibernética ao controlar as mensagens hormonais (do grego, hormao, excitar). Hércules bloqueou a parte anterior da entrada, onde estão simbolicamente as ilusões do ego, as emoções e a imaginação, para poder controlar melhor outra entrada, onde temos simbolicamente a vida racional. É na região da hipófise que as doutrinas orientais situam o chamado “terceiro olho”, que leva o conhecimento superior, de natureza espiritual.

Astrologicamente, o planeta que governa a hipófise é Urano, regente do signo de Aquário, oposto ao de Leão. É na ação reflexa entre esses dois signos e nas relações entre os seus astros regentes, Sol-Urano, que encontramos, em grande parte, as explicações para os distúrbios de crescimento da personalidade leonina. Urano, como a astrologia ensina, opera no sentido contrário do Sol. Conhecido como a oitava superior de Mercúrio, Urano tem a ver
AJÑA
com a eletricidade cerebral, regendo o influxo nervoso e, a rigor, tudo o que pulsa no organismo humano. São dele a aura física e magnética, as forças eletromagnéticas do organismo psicossomático. É na região onde encontramos a hipófise (etimologicamente, do grego, nascimento ou crescimento da parte inferior) que as filosofias hindus (Yoga) situam o chakra ajña (chakra do comando), correspondendo a ele os tattvas (etapas de desenvolvimento) psíquicos: faculdade mental (manas), sentido de individuação (ahamkara) e intelecto (buddhi).  


Aprender a dominar o leão personalidade, pois, do contrário, só teremos devastação e morte nas relações humanas. Menos ênfase no ego e mais ênfase no todo, colaborar mais, ajudar, saber atenuar a individualidade para buscar formas de convivência mais
O LEONINO LUÍS XIV
harmoniosas e menos escandalosas ou espetaculares. Pensar menos em “vencer na vida”, deixar de lado a máxima de que “todos os meios são bons, desde que eficazes.” A procura superior do leonino deverá se dar através da criação, da arte, da expressão pedagógica, da coordenação, do comando judicioso e, sobretudo, da doação do seu poderoso ego a favor da humanidade. Uma recomendação importante: manter permanentemente a atenção, o controle, pois  sempre podem se apresentar as tentadoras tendências de dominação e de manipulação, aliadas, nos tipos mais grosseiros e inferiores, ainda que ricos e poderosos materialmente, a uma grande propensão ao espetacular, ao teatral, às demonstrações de poder.

Uma das mais perigosas expressões leoninas que vieram da mitologia grega está hoje na Psicologia com o nome de narcisismo. Narciso é nome grego que sugere embriaguez, consciência entorpecida. Narko em grego é sono, narkê é torpor. Narcótico é o que tonteia, que provoca torpor, que embriaga. Narciso é o embriagado de si mesmo. No mito, tudo começa com a história de um jovem (que ainda não se chamava Narciso), de uma beleza divina, que andava pelo mundo a despertar grandes paixões. Amado por todos, sempre seduzindo, nunca seduzido. Fixado no seu ego, não via ninguém. Um dia, uma jovem ninfa o viu e por ele se apaixonou perdidamente. Indiferente, gélido, insensível, o jovem não lhe deu a mínima atenção. A jovem ninfa, prisioneira de um sofrimento indescritível, passou a viver solitariamente num rochedo, definhando cada vez mais, e acabando por se fundir com ele, transformando-se numa rocha.



NARCISO

Aos poucos, a história dessa ninfa se espalhou, passando ela a ser
NÊMESIS
conhecida pelo nome de Eco. Isto porque o rochedo ao qual ela se fundira adquiriu a propriedade de devolver os últimos sons que lhe chegavam. Assim, Eco tomou o significado de tudo o que era impessoal, de tudo para e no outro, enquanto o lindíssimo jovem significava tudo em e para si mesmo. As amigas da jovem ninfa pediram vingança à deusa Nêmesis, a que curva os orgulhosos. Ela as atendeu, condenando o lindíssimo jovem “a amar um amor impossível”.

Um dia, o jovem se aproximou de um lago. Debruçou-se sobre a sua superfície, um espelho líquido. Viu-se então como nunca se vira. Viu a sua imagem, apaixonou-se por ela, não conseguindo mais sair dali. Apaixonara-se pelo próprio reflexo. A sentença divina se cumprira. A princípio, as pessoas que passavam por perto do lago não prestaram muita atenção à cena. Contudo, depois de alguns dias, intrigados, foram ao lugar onde o haviam avistado. Procuraram o corpo. No lugar apenas uma delicada flor amarela, cujo centro era circundado por pétalas brancas. Era o narciso. O mais belo dos efebos morrera, vendo-se.

O narciso em muitas regiões do mar Mediterrâneo foi em toda a antiguidade plantado junto a túmulos. Ele simbolizava nessas
NARCISO
tradições o entorpecimento da morte, uma espécie de sono profundo. No simbolismo grego, principalmente, o narciso é o emblema da vaidade, do egocentrismo e do desdém pelos outros. O perfume do narciso é perturbador, embriagador. Na linguagem das flores, flor dos amantes estremecidos, corresponde à seguinte mensagem: "Você não tem coração.”
     
Na psicanálise, sabemos, narcisismo é o amor pela própria imagem. Num estágio inicial de desenvolvimento, crianças, jovens ou mesmo adultos podem se eleger a si mesmos como objetos privilegiados da sua sexualidade. Um traço importante desta tendência pode ser notado em pessoas, homens e mulheres, que erotizam o seu corpo para se tornarem desejados, mas que são incapazes de reciprocidade na relação amorosa, inclusive sexualmente. Investem só em si mesmos. O ego não vai para os outros. O narcisismo é uma variante do solipsismo (ipse em latim é o mesmo, de si mesmo), doutrina segundo a qual só existem efetivamente o eu e suas sensações, sendo os outros entes (seres humanos e objetos) meras impressões sem existência própria. Assim, o solipsismo é a tendência para fazer de si próprio o ponto de referência em torno do qual se organiza toda a experiência obtida. Por isso, desastres, tragédias podem acontecer quando alguém descobre que é não é tão “único” como supunha ser e que o mundo não foi construído segundo os seus exclusivos interesses.

Uma das grandes características astrológicas de Leão é a expansão, sempre favorecida pelas duas qualidades primitivas que
PAULO FREIRE, PEDAGOGO
constituem o elemento fogo, o quente e o seco, nessa ordem. Isso nos lembra que o fogo para fulgurar, para se desenvolver, precisa de ar, de oxigênio. Ou, de outro modo, de trocas. Os signos de fogo, inclusive o de Leão, embora considerado fixo (2º mês do verão), precisam de comunicação, a passagem rápida de um estado a outro, de uma ação que leve do desequilíbrio ao equilíbrio. Por isso, fazem parte do universo leonino o proselitismo (catequese, apostolado) e/ou a pedagogia. Sempre ideias de guiar, de orientar.

A “realeza” só se manifesta realmente quando o leonino, saindo dos quatro pontos cardeais, se encaminha instintivamente para o centro,

sempre representado pelo número cinco. Uma das melhores expressões do que aqui se coloca está na tradição chinesa: o número cinco era o número do imperador da antiga China; no Ming Tang, o templo, ele ocupava o lugar central porque havia saído da dispersão, representada pelos quatro cantos do quadrado, tudo conforme simbolizado pelos quadrados mágicos, tema sobretudo da predileção de místicos e astrólogos árabes. O centro, o lugar privilegiado, é o lugar de onde emanam as imposições que vão estabelecer uma ordem, dar uma organização, pois sem ele tudo é caos. O centro implica assim uma ideia de cosmos (etimologicamente, princípio de ordem), no qual cada parte encontra a sua função pela relação que com ele mantém. 

MING TANG

Outra característica importante de Leão é a necessidade de anexar, sendo, por isso, o signo inspirador, ao longo da história da humanidade, de todas as aventuras colonialistas que precisam de exércitos (signo de Áries) e da religião (signo de Sagitário), os três do elemento fogo. É por essa razão que todo as aventuras colonialistas gregas durante a antiguidade grega, principalmente no período  clássico, foram decididas e patrocinadas pelo colégio sacerdotal do Oráculo de Delfos, cujo patrono era o deus solar Apolo. No plano humano, isto quer dizer que todo leonino (vale a generalização!) busca conscientemente ou não se tornar um centro, tal como o Sol é o centro do sistema solar. O melhor exemplo do que estou a expor aqui é o de Napoleão Bonaparte (15 de agosto de 1.769) em torno de quem se alinharam vários satélites.

Apolo é a grande divindade da mitologia grega que associamos ao
ORÁCULO DE DELFOS - RUÍNAS
signo de Leão. Ele, como se disse, era a divindade que inspirava o estabelecimento das colônias  (apoikias), unidas à metrópole (Atenas), sobretudo por laços religiosos, embora mantendo uma certa autonomia administrativa. O Oráculo de Delfos era obrigatoriamente consultado por todo grego que decidisse emigrar. Fracassos de empreendimentos coloniais foram atribuídos ao desprezo dessa prática religiosa. A sentença oracular apontava inclusive para as regiões que deveriam ser invadidas.

De início, no mundo grego, Apolo se apresentou como uma divindade caracterizada por fortes traços de prepotência, de orgulho, de violência, produto de um grande sincretismo (como todas as divindades gregas o são, aliás!), que incorpora elementos asiáticos, hiperbóreos, mediterrâneos. Aos poucos, à medida que a sociedade grega se tornou mais complexa, as atribuições apolíneas também foram se alterando. Os primitivos componentes de sua imagem (violência, invasão, guerra) foram se atenuando. Já ao fim do período arcaico, ele passou a ser considerado como um ideal de sabedoria, de estilo de vida, que definia o “milagre” grego.

Todas as colônias gregas, através de suas elites (algo muito semelhante ao que temos hoje!), sempre adesistas, reverenciavam a matriz grega. Platão, em A República, recomendava aos legisladores que pensassem em Apolo quando tivessem que estabelecer regras e leis. Estas leis, todas de inspiração apolínea, deveriam contemplar questões como: fundação dos templos, ritos sacrificiais, cultos religiosos em geral, definição do que era demoníaco e heroico, culto dos mortos etc.


Todavia, Apolo nem sempre conseguiu assumir esse papel no mundo grego. Operado politicamente pela aristocracia grega, foi utilizado como representante do colonialismo grego, inspirador de aventuras militares e econômicas que acabaram por levar a polis à derrocada. Os valores apolíneos acabaram por se banalizar em formas pomposas e solenes, mas sem valor intrínseco algum. 




APOLO

Apolo acabou sendo absorvido por uma duvidosa arte que o transformou  numa  figura  aloirada,  de  cabelos  encaracolados, esplêndido apenas fisicamente, que serviu de modelo a uma masculinidade efeminada, sob a ameaça de pressões (inconscientes?) narcísicas e homossexuais, sempre muito atraída pelos espelhos. É daqui que sai o adjetivo apolíneo (e o nome próprio Apolinário), aplicado a jovens belíssimos, mas vazios de mente e espírito.

Nietzsche usará o adjetivo para designar estados interiores em que a contemplação da beleza e da harmonia podem afastar todo o sofrimento humano. Ou seja, a contemplação do belo apenas sob o ponto de vista físico que leve a um êxtase e transfigure o ser humano, aproximando-o do divino. Este sentimento opunha-se àquele que Dioniso provocava, um sentimento de horror e sofrimento que a sua simples presença física causava, como um agente de destruição das formas. Um pensamento muito reacionário, convenhamos, bastante revelador, por outro lado, da  complicada problemática sexual do filósofo.

O signo de Leão tem muito a ver (ou tudo?) com aquilo que a psicologia chama de ego consciente, adquirido ao longo da vida tanto por um diálogo entre o fator somático da personalidade, o meio ambiente e depois por encontros ou colisões com o mundo exterior e interior. A nossa personalidade visível, é bom lembrar, nunca poderá ser mais do que uma imagem incompleta do que acreditamos ser o nosso ego consciente porque há muitos aspectos que ficam fora deste último. A nossa imagem pública teria que incluí-los, o que não acontece. Podemos mesmo dizer que aquilo que mais afeta a nossa personalidade visível é inconsciente, só sendo percebido pelos outros ou por nós com uma ajuda externa.


MÁSCARAS GREGAS (PERSONA)

Grande parte da vida dos seres humanos é vivida só através de uma máscara chamada persona (o Ascendente, astrologicamente), muito usada nos diversos embates da vida. Este problema começa na infância, quando, por exemplo, a criança é pressionada pela família. No geral, comporta-se para receber aprovação. Essa é a primeira experiência vivida através das relações entre ego e persona. A
maior parte das pessoas perde totalmente a consciência com relação a esses dois elementos. Persona e ego passam a viver só em função da primeira, procurando todos usar a máscara social o mais favoravelmente possível. A individualidade se confunde com essa máscara. Uma obra fundamental para a compreensão do que aqui se expõe, de modo muito claro, objetivo, sem os tecnicismos e cacoetes dos especialistas, é “A Náusea”, de Sartre, marco literário do século XX.

CONSTELAÇÃO DO LEÃO

A constelação do Leão estende-se hoje entre 12º Leão e 22º Virgem. Ptolomeu atribui às duas estrelas da cabeça influências como as de Saturno e Marte, esta parcial. As três estrelas do pescoço atuam como Saturno, com discreta participação de Mercúrio. As que estão no lombo lembram influências de Saturno e Vênus. As das coxas atuam como Vênus e, menos, como Mercúrio. 

A estrela alfa de Leão é Regulus, de 1ª magnitude, hoje a 29º08´, conhecida como Cor Leonis, atuando como Marte e Júpiter. Esta estrela, como já foi dito, era uma das quatro estrelas reais dos
AHURA MAZDA
persas. Eles a consideravam como a “guardiã do Norte”, ligada ao todo-poderoso rei mítico Feridum. A história deste rei merece que nos detenhamos nela um pouco mais porque ela é arquetípica: na eterna luta entre o Bem (Ahura Mazda) e o Mal (Ahriman), este último conseguiu se apoderar através da magia da personalidade Zohak, príncipe do deserto, que, com isso, obteve muitas vitórias. Uma noite, Zohak teve um sonho: um jovem príncipe o derrotava. Interpretado pelos sábios, Zohak ficou sabendo que esse futuro príncipe de nome Feridum, acabara de nascer e que herdaria o seu trono. Zohak manda então assassinar todas as crianças recém-nascidas do seu reino.

A mãe de Feridum, uma jovem e sábia mulher, conseguiu contudo salvá-lo. Ela o confiou a um jardineiro que cuidava de um terreno ajardinado onde vivia uma vaca maravilhosa, que aleitou a criança. Jovem, Feridum foi levado às escondidas, pela mãe às montanhas do Hindustão, onde  passou a viver sob a tutela de piedoso mestre. Tornando-se adulto, Feridum soube pela mãe dos desmandos e crimes do rei Zohak. Depois de muitas peripécias, inclusive participação de seres angelicais, Feridum acabou vencendo Zohak, ajudado por um pequeno grupo de descontentes. Instalando no poder, Faridum reinou por muito e muitos anos, sempre proporcionando muita felicidade aos seus súditos. Morrendo muito velho, deixou, forçado, a coroa para seus descendentes, que a disputaram desastrosamente entre si o reino.


Desde tempos muito remotos, Regulus sempre apareceu  associada a sucesso em posições de mando, honras militares, altos postos em comando, podendo, contudo, atrair agressões (complôs). “Regulus”, em latim, é diminutivo de Rex, rei, isto é, rei ainda criança ou muito jovem. Às vezes, a palavra toma o sentido de chefe de pouca importância (reinos da África), mas de temperamento tirânico. Em Ptolomeu, Rex é o equivalente de Basilikos. Na Índia, a estrela é Magha, a Poderosa, dona da 8ª


mansão lunar. Entre os árabes é Malikiy. Entre os romanos, Basilica Stela. No ascendente a estrela reveste a personalidade de “realeza”, empurra para o sucesso, para o brilho, mas pode trazer problemas como uma hipersensibilidade quando esta “realeza” não é reverenciada, reconhecida. Um mapa para estudo de Regulus é, por exemplo, o do compositor francês Claude Debussy.

A estrela beta de Leão é Denebola, situada na cauda da figura celeste, hoje a 20º 55´ Virgem. O nome vem do árabe, Dhanab al Asad. Costuma ser chamada de Deneb. Para Ptolomeu, com características de Saturno e Vênus, esta estrela tem um forte componente aquariano, podendo levar a pessoa a viver fora dos padrões sociais, afrontando a sociedade, um traço não conformista. Pode colocar por isso a pessoa adiante do seu tempo.

A estrela gama de Leão é Algeiba, “escondida” na juba, não usada astrologicamente. A estrela delta é Zosma (a cinta ou a cintura, em grego), perto da cauda, hoje a 10º 37´ Virgem. É uma estrela potencialmente perigosa, podendo, conforme o caso, tornar a pessoa vítima de alguma coisa, algo injusto, mas de caráter inexorável, muitas vezes. Na casa em que está, indica possibilidade de abuso, de algum ataque, de alguma violência. Segundo a tradição mitológica, Zosma foi o ponto do corpo do Leão de Nemeia atacado por Hércules. O mapa do presidente americano Jonh F. Kennnedy é um bom exemplo para o estudo de Zosma.  


Uma curiosidade que se liga à constelação é uma chuva de meteoros, denominados os Leônidas, que ocorre a cada ano, entre 9 e 17 de novembro, proveniente da região da cabeça da figura. Tal fenômeno se verifica de modo particularmente espetacular a cada 33 anos (um número solar), tendo ocorrido o último no ano de 1.999. Há notícias dos Leônidas desde a antiguidade.



CONSTELAÇÃO DA HIDRA

A constelação que associamos à de Leão é a da Hidra ou da Serpente. Ao se estender de Câncer a
ANANTA
Escorpião, cobre cerca de 95º do zodíaco, sendo a maior dos céus, portanto. Relacionada com a água, esta constelação é depositária dos mitos que, em várias tradições, nos contam histórias sobre a criação. Na Índia, ela é Ananta; entre mesopotâmicos é Tiamat, por exemplo. A sua importância com relação a Leão está no fato de sua principal estrela, Alphard sensibilizar a região entre o seu 26º e 27 graus. É nessa região que a estrela se manifesta como pressão inconsciente de caráter violento. Ela  pode criar também uma área de tensão, de resistência, reforçando as características fixas do signo de Leão. William Blake tinha esta estrela em destaque no seu tema astrológico.