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segunda-feira, 4 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (3)



NINFA   AMALTEIA

CORNUCÓPIA
Entre os antigos gregos, a constelação de Capricórnio era uma homenagem de Zeus à ninfa Amalteia (maltakos, em grego, é suave, doce, terna) que, na forma de uma cabra, o amamentou quando escondido pela mãe, Reia, em Creta, para protegê-lo do pai, Kronos, que devorava seus filhos assim que nascidos. Mais tarde, brincando com a sua ama-de-leite, quebrou um de seus  chifres. Redimindo-se, Zeus o
PALAS ATHENA
transformou na cornucópia, símbolo da abundância, depois atributo tanto de Tykhe, deusa do Acaso, entre os gregos, como de Flora, deusa do mundo vegetal, entre os romanos. Da pele do animal  (
aigós) fez um escudo, a égide (aigis), palavra que tanto traduz uma ideia de proteção, como arma de defesa, e como arma de ataque, com o sentido de furacão, tempestade. A égide, neste sentido, cedida por Zeus, passou a ser usada por Palas Athena, nela se fixando emblematicamente a cabeça da Medusa, a Górgona que Perseu matou.


AURIGA
Entre os gregos, a cabra montanhesa sempre apareceu associada ao relâmpago, a chuvas e a tempestades. Isto se deve evidentemente ao solstício de verão (a cabra é um dos animais do eixo Câncer-Capricórnio) e, astrologicamente, à influência da estrela da Cabra, Capella, que sensibiliza atualmente o grau 21º-22º de Gêmeos). Esta estrela faz parte da constelação do Auriga (10º de Gêmeos-3º de Câncer).

MOISÉS - ( G. DORÉ, 1832 - 1883 ) 
Quanto aos judeus, Javé, como se disse, manifestou-se a Moisés no alto do Sinai entre relâmpagos em meio a uma grande tempestade. Esta a razão pela qual a cobertura do tabernáculo foi feita de pele de cabra. O tabernáculo, tenda, em latim, entre os hebreus continha a arca da aliança. No templo de Jerusalém, construído por Salomão, o tabernáculo era o “Santo dos Santos”. No culto cristão, ele passou a guardar as
TABERNÁCULO
hóstias consagradas. Onde quer que se encontre, o tabernáculo lembra o templo na sua origem, a arca da aliança, onde a lei recebida era guardada, parte da própria energia divina, prefigurando a Jerusalém celeste. Numa sinagoga, o tabernáculo, a santa arca, guarda os rolos da Torá. A festa do tabernáculo, Sukot, é uma das grandes cerimônias do judaísmo, celebrada no mês de Tishrei, associado ao signo de Libra, o sétimo mês do calendário hebraico a contar de Nissan (Áries) e o primeiro mês a contar do ano novo (Rosh-há-shaná).



SUKOT ( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

Astrologicamente, como sabemos, a pele tem relação com Vênus (Libra), com Saturno (Capricórnio) e com Mercúrio (Gêmeos), ou seja, respectivamente, significando contacto, lugar de toques, carícias, quanto ao primeiro planeta; limite, defesa, isolamento quanto ao segundo; e respiração, troca com o exterior, comunicação, quanto ao último. Fixando-nos em Capricórnio, é importante ressaltar que a pele é o maior órgão do corpo humano, representando cerca de 15% do peso corpóreo. Por ser o único órgão que tem contacto com o meio externo, funciona como barreira e também serve para estabelecer contacto com esse meio e o interior do corpo, protegendo o ser humano de agressões externas, regulando a temperatura e mantendo o organismo em equilíbrio.  Detalhando-se um pouco mais, lembre-se ainda, sob o ponto de vista astrológico, que Vênus tem domínio sobre a epiderme (a camada mais externa da pele) e que Saturno com a derme (a camada mais profunda da pele).

Sabemos que, de um modo geral, os capricornianos têm a pele sensível, que esse revestimento exterior reflete muitas vezes seus tormentos interiores e que ele, a pele, por isso, costuma se constituir num lugar privilegiado de somatizações; cóleras recolhidas, emoções não exteriorizadas, falta de sensibilidade para com os próprios sentimentos e os dos outros; dificuldades com qualquer tipo de intimidade podem deixar marcas profundas (algo até como esfoladuras nos casos mais significativos) na pele dos tipos capricornianos ou mesmo na de outros tipos astrológicos em que Saturno ocupe uma posição relevante, especialmente se em relação desarmônica com Vênus. É neste sentido que Capricórnio (e os demais signos de terra, Touro e Virgem, também, a seu modo) é tido como bem mais estoico do que é na realidade, simplesmente porque só toma consciência de seus “ferimentos”, de seus problemas cutâneos, com muito atraso, depois de muito tempo, de muitas marcas, no geral pouco notadas. 

ZEUS
A cabra Amalteia nos conduz naturalmente a um outro personagem capricorniano, muito ignorado quanto a esta associação. Refiro-me a Pan, divindade dos povos gregos da Arcádia. Além de Zeus Lycaios (Lobo), naturalmente, as duas divindades mais veneradas na região eram a deusa lunar Ártemis e Pan. É interessante registrar que os habitantes da Arcádia eram chamados de pelasgos ou de aborígenes pelos outros gregos, pois descendiam de tribos pré-históricas e, como tal, considerados como oriundos do povo mais antigo da Grécia.  


PAN
Pan era filho de Hermes e da mortal Dríope (a que tem o aspecto de uma árvore, etimologicamente). Rejeitado pela mãe por causa de seu aspecto monstruoso, foi envolvido pelo pai numa pele de cabra e levado para o Olimpo. Os deuses se encantaram com a criança, de modo especial Dioniso, de cujo cortejo ele viria mais tarde a fazer parte. Recebeu o filho de Hermes, dos Imortais, pela alegria que lhes causou, o nome de Pan, pois viram que um filho do deus que unia o céu, a terra e o inferno e que, no plano terrestre, dominava as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), só poderia encarnar a totalidade universal criada.


Sob a inspiração de Pan, os filósofos estoicos elaboraram na antiguidade grega uma doutrina segundo a qual Deus se confundia com o Todo,
SPINOSA
identificando-se ele assim com o mundo. Foram os estoicos que desenvolveram a ideia de que Deus é a força vital imanente ao mundo. Spinosa, bem mais tarde, retomou esta ideia, expressando-a por uma frase célebre: Deus sive natura. Outros filósofos depois a utilizaram, fazendo-a invadir sobretudo o romantismo alemão do final do séc. XVIII ao início do séc. XIX, com Novalis, Schlegel, Jacobi, Scheling e outros. Muitos historiadores da cultura vêem o panteísmo como uma concepção do divino que se expressa através de uma energia impessoal presente em toda a natureza e em todos os seres. A palavra panteísmo foi usada pela primeira vez na filosofia ocidental no início do séc. XVIII. Lembre-se que a teologia cristã moderna (vide inclusive a condenação de Spinosa pela sinagoga) identificou o panteísmo como um ateísmo por que ele recusava a ideia de um Deus pessoal. Ao evocar o panteísmo a ideia de uma força impessoal presente em todo o universo e no homem, não há como deixar de aproximá-lo daquilo que os povos védicos na Índia, numa elaboração superior, nos deram através do conceito de Brahman.

PAN
O corpo de Pan era peludo, possuindo ele chifres e cascos no lugar de pés, como os de bode, e orelhas pontiagudas.  Prodigiosamente ágil, perambulava pelos bosques e vales tocando a sirinx, flauta por ele inventada, sempre à procura de ninfas e de mênades para atacá-las e com elas copular. Quando não as encontrava, masturbava-se furiosamente. Foi reverenciado inicialmente como deus dos rebanhos e dos pastores, passando a encarnar depois o princípio da ordem universal, invocado inclusive nas litanias órficas como um princípio amoroso, criador, incorporado à matéria e formador do mundo. Neste sentido, era fonte e origem de todas as coisas, representando a matéria animada pelo espírito divino (princípio da imanência), a natureza como um todo, nela se concentrando os quatro elementos constitutivos do universo. Era dele que provinham as criaturas mistas, sátiros, silenos, egipãs, faunos etc.


CORTEJO   DE   DIONISO

Estas criaturas mistas, entre o animal e o humano, eram divindades menores do mundo natural nos mitos greco-romanos, criaturas de energia sexual inesgotável. Faziam parte do barulhento cortejo do deus Dioniso, vivendo em campos e bosques, a comer e a beber, perseguindo incansavelmente, como se disse, as mênades e as ninfas. É de uma das mais notáveis figuras do séquito de Dioniso que sai o nome satiríase para designar uma patologia sexual. Esta patologia se caracterizava, para os antigos gregos, por super-excitação mórbida que levava os homens a manter o seu membro viril em permanente ereção, com ejaculações constantes, que acabavam por lhes causar esgotamento e morte. A satiríase, nesse contexto, distinguia-se do priapismo (de Príapo, deus itifálico, protetor dos jardins, filho de Afrodite e de Dioniso), também patologia sexual que se caracterizava por uma ereção persistente e dolorosa, mas, diferentemente da satiríase, sem nenhum desejo.   

PAN
A aparição de Pan nos campos provocava o pânico, um terror inexplicável, paralisante, que se apossava das pessoas que o viam. Gostava Pan de repousar nos períodos de calor intenso, ninguém ousando perturbá-lo, ficando tudo silencioso e calmo na natureza. Aqueles que o perturbassem incorriam na ira do deus, que os atacava, inspirando-lhes o terror pânico. Consta que na batalha de Maratona, Pan atacou os persas, o que praticamente determinou a vitória dos gregos sobre os seus figadais inimigos. Em agradecimento ao deus, os gregos erigiram um templo em sua homenagem na Acrópole.

Na história de Pan, há registros que nos falam de seu amor por Selene e pela ninfa Eco, às quais teria oferecido, como presente, rebanhos de bois brancos. Um dos acontecimentos mais importantes na crônica desse deus tem relação com Tifon, o maior dos monstros descritos pela mitologia grega. Filho de Geia e do Tártaro, era um agente do caos, uma perigosa ameaça para a ordem cósmica. Podia andar pelos mares mais profundos sem que sua cabeça fosse coberta pela água; sua estatura ultrapassava em muito os picos das maiores montanhas, indo além das nuvens mais altas; ao abrir os braços, suas mãos alcançavam com facilidade o oriente e o ocidente. Seu corpo era coberto por víboras, possuía asas e seus olhos lançam dardos de fogo.


ZEUS   ATACA   TIFON

Para escapar do ataque de Tifon ao Olimpo, contam os mitos, os deuses gregos fugiram apavorados, inclusive Pan, que se lançou num rio com a intenção de se transformar em peixe. Tudo aconteceu tão rapidamente que ele ganhou apenas uma cauda pisciforme. Quando retornou de seu mergulho, soube que Zeus havia sido mutilado pelo monstro, que lhe cortara os tendões dos braços e das pernas. Em companhia do pai (Hermes), Pan conseguiu, contudo, afastar Tifon com o seu famoso grito que causava terror e fuga. Dirigindo-se depois a uma gruta, onde o Senhor do Olimpo jazia inerte, ambos, ele e o pai, conseguiram reconstituí-lo, ligando os seus tendões, dando-lhe assim uma nova forma, equivalente a um segundo nascimento, que o projetou num nível superior de existência divina.


MONTE   ETNA
Assim recomposto, Zeus, como sabemos, voltou a se defrontar com Tifon, que se refugiou na ilha da Sicília. Zeus o perseguiu, travando-se então uma batalha terrível. Ao final, Zeus conseguiu vencê-lo, lançando sobre ele o monte Etna. Aprisionado, mas não morto, Tifon, até hoje, através de labaredas e gases, continua a dar sinais de sua presença, lembrando-nos a sua contida presença que as forças do caos, ainda que dominadas momentaneamente, se constituem numa ameaça permanente. Segundo os gregos, para recompensar Pan dos inestimáveis serviços que lhe prestou, Zeus o colocou nos céus como a constelação de Capricórnio.

Esta identificação de Pan com o Todo, como a antiguidade no-la legou, encontra a meu ver a sua melhor explicação se considerarmos que  Capricórnio é o signo que abre o quarto quadrante  zodiacal, quadrante que nos coloca na décima casa, o meio-do-céu, o setor que marca a possibilidade da mais elevada realização individual, o mais elevado grau de influência que podemos ter sobre o mundo. Esta influência, para a maioria, só costuma tomar o caminho da vida material ( simbolizado pela cabra montanhesa). Para outros, uma significativa minoria (simbolizado pelo licorne), a subida poderá tomar um sentido espiritual. A partir de Capricórnio, entendido o signo através deste símbolo do licorne, é que o Todo, sob a tutela de  Pan, poderá se abrir para nós. É neste quadrante que temos, depois de Capricórnio, o signo de Aquário, que superiormente representa a humanidade, e, fechando o ciclo zodiacal, o signo de Peixes, o signo da doação, que independe de retribuição e de reconhecimento. 

CAPRICÓRNIO
(ALEISTER CROWLEY, 1875-1947)  
A antiguidade grega atribuía a Pan dons proféticos, os mesmos que encontramos em outros seres telúricos, mais instintivos, que, ao invés da razão, preferem ouvir aquele “saber” espontâneo que “sabe” mais que ela, aquele saber que percebe as verdades essenciais, as que têm importância realmente. A parte “úmida” de Capricórnio (a cauda pisciforme de Pan) tem, astrologicamente, muito a ver com o lado inconsciente do signo, lado que, ao invés de causar problemas maiores, contribui positivamente, principalmente quando pensamos nos tipos superiores do signo. É este lado úmido que faz com que, embora possa se encontrar numa posição de poder ou de influência, o capricorniano de terceiro tipo (licorne) sabe que há uma autoridade real ou simbólica diante da qual terá que se curvar, há o poder das origens (Câncer), que nunca poderá ser esquecido. 

O lado úmido de Capricórnio (Pan), segundo o mito, teria vindo do delfim, o peixe sempre associado a Apolo e ao oráculo de Delfos. Uma versão mitológica nos informa que os delfins são antigos piratas que, depois de terem atacado Dioniso, caíram na água e se arrependeram. Tornando-se símbolos da regeneração, estes peixes, ainda segundo o mito, ajudam os náufragos, muitos deles inclusive, para salvá-los, empurrando-os até as praias. Plutarco, o escritor e moralista, sacerdote de Apolo em Delfos, conta que o poeta e músico Arion (séc. VII aC) foi salvo dessa maneira. Os delfins eram muito conhecidos  pela sua sabedoria e prudência (virtudes capricornianas), sendo considerados, pela sua maneira de se deslocar, como mestres navegadores.


ARION ( W.A.BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )

Além de ter há muito invadido a filosofia, Pan invadiu invadiu também na nossa modernidade a psicologia para dar nome a uma síndrome, a do pânico. Esta síndrome é definida como um transtorno de ansiedade que produz geralmente, sem evidência de uma causa aparente, medo, muita apreensão, temores, tidos como infundados, levando a pessoa por eles tomada a “sentir” que algo indefinido e ruim está para lhe acontecer. Recorrente e inesperado, o transtorno acaba gerando, antes das crises, estados de preocupação constantes com a desconfiança de que ele esteja para ocorrer novamente, fazendo a pessoa imaginar que, numa delas, não conseguirá se controlar.  No mais, o quadro de sempre: transpiração, aceleração de batimentos cardíacos, dor no peito, tontura, sensação de desmaio, calafrios, palidez são os seus variáveis sintomas. A medicina desconhece as causas desta síndrome, limitando-se ao tratamento dos seus sintomas e a um acompanhamento psicológico.

Para entender a origem esta síndrome, hoje de caráter “epidêmico”, o que temos de melhor é, sem dúvida, ir às relações entre Pan e Ártemis. Pan, em grego, como se disse, significa o todo, tudo, sendo considerado como o deus da fecundidade e da potência sexual. Brutal em seus desejos e terrível nas suas aparições, anunciadas por gritos apavorantes, ele provocava o terror naqueles que se aventuravam nos territórios em que vivia, o grande Todo, sem honrá-lo devidamente. Estes territórios, que eram dele, se situavam entre o conhecido, regiões protegidas, da deusa Ártemis, (grutas, lugares de nascimento) e o desconhecido (o grande Todo).


PAN   E   ÁRTEMIS
Quem ousasse ir em direção do grande Todo, teria que estar preparado, isto é, saber se separar dos lugares conhecidos, protegidos por Ártemis, simbolizados pela gruta, sempre uma vitória sobre os temores do desconhecido. Ártemis e Pan nos dizem que a vida é feita de passagens, sendo a primeira delas a da saída da gruta. Passagens a serem refeitas constantemente, a fim de que, em meio às provas e dificuldades, aprendamos a conquistar e a preservar a nossa necessária autonomia nos embates da vida. Ártemis, lembremos, é a deusa das passagens, aquela que protege tudo o que deve e precisa entrar na vida, cuidando das crias, dos brotos, das ervas novas, dos riachos, a fim de que caminhem em direção de uma vida “adulta”.

CAVERNA
Cavernas, grutas, todos os lugares sombrios e profundos, são arquétipos maternais, lembrando vida inconsciente.  Eles se associam nos mitos à Lua, a Ártemis, não só como lugares protegidos, relacionando-se inclusive a ritos de iniciação. Aqueles que não conseguem se separar da gruta são os lunares, os que ficam presos aos seus hábitos, aos seus automatismos corporais,  às suas pressões atávicas, aos seus condicionamentos e idiossincrasias. São os que  permanecem ou demoram-se demais na infância, preferindo o dentro ao fora, inclinando-se à esquizoidia.

Aqueles que se atrevem a enfrentar o desconhecido, o grande Todo, sem ter sabido se desligar da gruta, vão sempre cheios de culpa e de ruminações inconscientes dolorosas, sempre com o seu olhar
TARÔ
voltado para trás, como Orfeu; serão as vítimas preferidas, primeiro de Pothos, o deus da saudade, e depois de Pan, que os enche de ansiedade e de terror pânico. Quem melhor explica esta síndrome é, sem dúvida, a Astrologia, encontrando-se as suas maiores vítimas entre os cancerianos e/ou aqueles que têm a Lua em destaque (angular) nos seus mapas por posição e aspectos. A lâmina XVIII do Tarot é uma das melhores ilustrações desta síndrome.

Em todas as tradições míticas, as grutas sempre foram consideradas como um lugar de nascimento. Na mitologia grega eram de Ártemis Encontradas em lugares sombrios e profundos, sejam subterrâneas, encravadas em montanhas ou em encostas escarpadas, as grutas são arquétipos matriciais. Nesse sentido, tanto fazem parte de mitos de origem e dos ritos de iniciação como lugares de renascimento. Morada dos humanos desde tempo pré-históricos, são simbolicamente verdadeiros reservatórios de energia e de lembranças, de complexos, de sentimentos e de emoções que muitas vezes se agitam inexplicável e confusamente na interioridade do ser humano, perturbando a sua vida consciente.

Tanto antigos lugares de culto da humanidade, ornadas de pinturas e gravuras, como, nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos, consideradas como um lugar materno, por excelência, as grutas sempre apareceram associadas  aos órgãos genitais femininos e, como tal, à fertilidade. Vários povos relacionavam num mesmo contexto simbólico a caverna, a mulher, a chuva e a Lua.

No simbolismo dos sonhos, por exemplo, um caminho a ser percorrido, no qual se tenha que passar por grutas pode ser visto como uma busca de um novo sentido para a vida. Sob o ponto de vista psicanalítico, tal percurso representa sempre uma descida às profundas camadas da vida subconsciente relacionadas com o inconsciente materno. Este percurso também poderá ser entendido, quem sabe,  como uma regressão a uma situação pré-natal, intra-uterina,  um desejo de retorno à indeterminação, volta a um mundo obscuro e morno, onde não há escolhas nem decisões, onde tudo é recebido de graça. Neste caso, as suas maiores vítimas serão certamente os piscianos e/ou aqueles que têm em seus mapas astrais um Netuno poderoso.    

As grutas exercem um grande fascínio (talvez muito mais sobre os espeleólogos; speleo, gruta, em grego))  sobre todos aqueles que pretendem conhecer um pouco mais, num plano simbólico, a respeito das profundezas de sua personalidade. Qualquer que seja o enfoque, grutas representam sempre abrigos absolutos. Entrar nelas é psicologicamente um retorno ao seio maternal, uma negação do nascimento, um mergulho no indefinido. É, neste sentido, ao mesmo tempo, uma renúncia à vida terrestre e um desejo de renascimento sob uma nova forma.


PLATÃO
O mito da caverna, como sabemos, tem um papel importante na filosofia de Platão. As pessoas que vivem em grutas, jamais indo além de sua entrada, não podem conhecer o mundo. Só percebem dele apenas sombras, conhecem tão só reflexos da realidade exterior, maior, mais vasta, projetados nas paredes. Para conhecer esta realidade que está fora, além, a verdade que a luz do Sol permite captar, é preciso sair da gruta. É por essa razão que se afirma que o conhecimento lunar, obtido só através de uma vida protegida desse modo,  é  indireto, herdado, atávico.

Se num primeiro momento a gruta é proteção, agasalho, nutrição,  segurança, noutro ela poderá se constituir em abafamento, sufocação, castração e mesmo em lugar mortal. Sair da gruta será sempre um problema, qualquer que seja o modo pelo qual abordemos este tema. Foi certamente pensando nisto e em muitos outros aspectos míticos relacionados com grutas que os antigos gregos deram forma ao mito do deus Pan.

De comum acordo com a deusa Ártemis, a tutela das regiões que ficavam além do oikos, dos territórios que ligavam o conhecido ao desconhecido, foram atribuídas a Pan. O conceito de oikos, já estava estabelecido na Idade do Bronze, antes do período arcaico da história grega, no fim do qual pequenos núcleos urbanos começaram a se formar. O oikos era a unidade básica da família, constituída pela propriedade (casa, terras, plantações, pastos, escravos e animais). O pai era a autoridade suprema, fazendo-se a transmissão da propriedade sempre pela via patrilinear. A palavra economia, como a usamos hoje, tem na sua origem nas palavras oikos (família)  e  nomos (lei), economia, a lei da família, a lei da casa. 

O sentimento de solidão e de desamparo que costumava atacar os viajantes quando longe do oikos, principalmente nos dias escuros, de mau tempo, em noites sem Lua, quando nenhuma voz era ouvida, os campos silenciosos, os animais recolhidos, esse sentimento de solidão e desamparo, continuando, começou a ser considerado, não se sabe bem por qual razão, como inspirado por Pan. Ansiosos, alarmados, aterrorizados, os viajantes, os peregrinos, sem um motivo justificável, ficavam paralisados por essa presença oculta de Pan, que se anunciava, como logo começou a se propalar, por um som ouvido, um som terrível, entre o grito humano e o uivo animal. Aos poucos, esse sentimento passou a ser chamado de terror pânico, um estado entre o pavor e o espanto, inexplicável, geralmente somatizado de diversos modos. 


SILVANO
Um dos nomes de Pan era Hylaeos (o da floresta) como divindade das florestas. Da Grécia, seu culto foi levado para a Itália, como protetor de rebanhos. Lá foi assimilado aos faunos (protetores de rebanhos e da fertilidade), aos egipãs (homenzinhos que lembram a forma caprina). Consta que no norte da África, na Líbia, havia uns egipãs com cauda de peixe, dos quais teria saído a representação do signo de Capricórnio, dos silvanos (protetores do verde da Natureza), estes conhecidos também pelo nome de paniscus

Todas estas divindades campestres se ligavam a Pan, presentes na fertilidade animal e vegetal. Delas, por exemplo, saem designações como sátiro que usamos para qualificar o homem obsceno, lúbrico, voyeur ou exibicionista. Segundo Homero, teria existido nas montanhas da Cítia um povo inteiro de sátiros, que, quando envelheciam eram chamados de silenos. Os sátiros (etimologicamente, nome ligado a um verbo que significa distender, entumescer, inchar) eram divindades menores da natureza que acabaram se integrando também ao cortejo de Dioniso, como se disse. 

CENTAUROS  ( PETER   PAUL  RUBENS , 1577 - 1640 )

Os centauros, filhos de Nephele, a Nuvem, e de Ixion (que viverá no Tártaro até o final dos tempos), entre o humano e o cavalo, lembre-se, costumavam também frequentar os territórios de Pan, chamados pelos gregos, de agros. Brutais, quase sempre embriagados, vivendo em bandos, alimentando-se de carne crua, os centauros simbolizam a concupiscência carnal, a ameaça da vida instintiva, sempre presente no homem que não sabia controlá-la. É neste sentido que os antigos gregos consideravam o centauro como uma antítese do cavaleiro que sabia dominar e controlar a sua montaria. 

Em parte zoomorfo, em parte humano, Pan era uma divindade turbulenta, que com os seus aparecimentos súbitos provocava o pânico entre os humanos, entre as ninfas e mesmo entre os deuses. Nos humanos, o terror neles infundido será diagnosticado, muito mais tarde, como uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas observáveis como vários processos patológicos. No seu aspecto mais visível, uma condição crítica passível de despertar inicialmente insegurança, medo, e terminar como prostração, imobilidade, às vezes com a sensação de morte súbita. 

A chamada síndrome do pânico impede que a energia vital, certamente por pressões inconscientes vindas da gruta, se readapte diante de situações existenciais que exigem prontas mudanças, rápidas respostas, novos procedimentos, novas maneiras de ser diante de situações novas. Astrologicamente, é de se lembrar que o deus Pan “vive” entre a quarta e a quinta casas astrológicas, ou, de outro modo, entre o signo de Câncer e o de Leão e, também, é claro, poderá se “manifestar” através de uma Lua angular, mal posicionada e aspectada num mapa astrológico. 


QUADRANTES   ASTROLÓGICOS

O signo de Câncer relaciona-se com a fecundação e a concepção, com a alimentação, presentes sempre os conceitos de segurança, proteção e amparo. Câncer tem a ver com o lar, a mãe, a tribo, as heranças, as impressões, as lembranças, a força psíquica das origens, os sentimentos e emoções, a memória. Inferiormente, o signo lembra estreiteza mental, impressionabilidade, acumulação, adesão incondicional, emotividade, humor caprichoso, indolência, infantilismo psíquico, atavismo, idiossincrasias, domínio do hábito.

Leão, para o bem ou para o mal, aponta para: conquista do ego, autonomia, ardor vital, auto-expressão criativa, império da vontade, força emotiva ativa, busca da própria razão de viver, iniciativa, ampliação, orgulho, passionalismo, tendência à ação sem compartilhamento,  narcisismo, infantilidade, cólera, necessidade de reverências, generosidade, exibicionismo.  
       
   
        

sábado, 2 de abril de 2011

O ARCANO O OU 22 DO TARÔ


ALGUMAS QUESTÕES SEMÂNTICAS

A Semântica é um ramo da Linguística que se ocupa do significado das palavras. Faz parte da Semântica a Etimologia, que estuda as origens das palavras. Semântica vem do grego, "sema", sinal distintivo, marca. Já Etimologia, do grego também, vem de etymos, verdade, e logos, palavra.

A Etimologia nos revela que as palavras têm uma história. Desde que criadas passam elas de geração em geração, por séculos e séculos, milênios muitas vezes, carregando experiências, sentidos que se perdem, que se alteram. Como nós, as palavras nascem, vivem, envelhecem e morrem...

Tentarei inicialmente fazer algumas breves incursões etimológicas que, acredito, nos ajudarão a alargar um pouco mais o campo semântico de algumas das palavras colocadas em questão pelo nosso título, o arcano (lâmina) 0 ou 22 do Tarô e suas várias designações.

Primeiro, a palavra arcano. Essa palavra é usada normalmente pelos tarólogos com o sentido de mistério, arcanum, em latim. No jargão tarológico, arcano e lâmina costumam aparecer como equivalentes. Lâmina, isto é, carta de baralho, é graficamente uma folha ou chapa na qual se encontram pintados ou gravados um retrato, uma figura, imagens. Em latim, lamina é qualquer folha ou pedaço de metal, ou de outra matéria dura, delgada e chata, destinada a usos diversos. Já baralho será o conjunto de cartas ou lâminas usadas para se jogar.

A palavra arcano só se fixa nas línguas latinas por volta do século XV. Para entender melhor o sentido de uma palavra, a recomendação dos mestres é a de que devemos alcançar sempre as suas raízes mais profundas. No caso, ir ao grego, ou melhor, à filosofia grega. Em grego, arché quer dizer tanto começo, ponto de partida, princípio, como suprema substância subjacente ou princípio supremo indemonstrável.

Um dos grandes temas da filosofia pré-socrática, presente também no Hermetismo e na Alquimia posteriores, é o da busca de uma substância a partir da qual todas as coisas teriam sido feitas. Era dessa substância que tudo decorria. É a partir desta raiz que temos o antepositivo arqu, em português, com o sentido de "aquilo que está na frente, o que está no começo, na origem, ponto de partida de um entroncamento", traduzindo também o referido antepositivo idéias de poder, autoridade, império, superioridade.



Daí, palavras como arcanjo (chefe dos anjos), arquiteto (chefe dos construtores), hierarquia (poder sagrado), anarquia (falta ou ausência de poder), arcaico (obsoleto, primitivo, velho), arquétipo (forjado há muito tempo, padrão, modelo exemplar). Na formação das línguas europeias encontramos a raiz ark, com a indicação de conter, limitar, afastar, exercer, coagir. Exemplos desta raiz estão em muitas palavras do grego, do latim, do francês, do alemão, do castelhano e do português.

Enriqueceremos o sentido da palavra arcano se nos detivermos um pouco no simbolismo da palavra arca, derivada do referido radical. De um modo geral, o simbolismo da arca é o mesmo em todas as culturas e tradições. Os hebreus, por exemplo, tinham a Arca da Aliança e a colocavam sempre no lugar mais recôndito do Tabernáculo (santuário portátil). A Arca continha a essência da tradição judaica, desenvolvida na forma das tábuas da lei.




Arca da Aliança

A Arca da Aliança tinha as mesmas proporções da Arca de Noé, só que em escala reduzida. A Arca é para o patriarca Noé, para a sua família e para muitos animais a embarcação salvadora. É a partir dessa imagem que se elabora a chamada disciplina arcana, um saber secreto escondido nas pranchas de madeira (lâminas) da Arca. A viagem na Arca daria acesso a esse saber, livrando o viajante do dilúvio, isto é, de se afogar no oceano das paixões.


Noutra direção, arca, analogicamente, era um  dos nomes que se davam ao vaso alquímico, princípio maternal, ao qual podemos associar também temas astrológicos (o signo de Virgem) e mitos medievais (o Graal), todos lembrando lugares onde se operam transformações do humano em espiritual, receptáculos onde se encerram possibilidades de renascimento sob uma outra forma mais evoluída.

No latim, arcanus toma inclusive o sentido de "em segredo, em particular", funcionando como advérbio. Já o substantivo "arca" é cofre, armário, prisão, cela, de onde sai o adjetivo arcano (arcanus) com o sentido de discreto, seguro, indubitável, infalível, como na expressão de Ovídio, arcana nox (noite discreta, infalível). Arcano será ainda aquilo que se guarda numa arca, num cofre, por ser misterioso, secreto, valioso.

Outra aproximação que podemos fazer é entre arcano e enigma. Comumente, enigma é algo que por suas qualidades ou particularidades é difícil de entender. Os oráculos na antiguidade, por exemplo, manifestavam-se por enigmas. Ora, o Tarô funciona como um oráculo, palavra que na antiguidade indicava tanto um local, o santuário onde se realiza uma consulta à divindade, como a própria resposta que ela dava enigmaticamente através de um médium, uma pitonisa, uma sibila. No lugar de palavras, temos, no Tarô, então, figuras. Enigma tanto em grego como em latim é algo obscuro, misterioso, que pede a interpretação de um enigmista. Enigmista, no caso, é quem decifra enigmas, função sacerdotal. As atribuições de criar, propor e decifrar enigmas são, como sabemos, do deus Hermes, que tanto fecha como abre o sentido das mensagens, sendo, por isso, ao mesmo tempo, o patrono do Hermetismo e da Hermenêutica. Várias ilações poderiam ser tiradas destas aproximações e relações. Uma delas, muito frutífera quanto às suas possibilidades significativas, seria, por exemplo, a de relacionar o Tarô com o Hermetismo greco-alexandrino e com Hermes Trimegisto.




Édipo e a Esfinge

Dessas sumárias incursões etimológicas, entendo que à palavra arcano poderão ser associadas algumas possibilidades significativas como: 1) o profundamente enigmático, misterioso, secreto; 2) o que é incompreensível, que não pode ser desvendado, a não ser com o auxílio de um hermeneuta, de um enigmista; 3) segredos sobre os mistérios de uma religião, como no Cristianismo primitivo, especialmente quanto à eucaristia (transubstanciação); 4) na Alquimia, um dos grandes segredos da natureza que os adeptos procuravam desvendar através da prática da Grande Obra; 5) remédio maravilhoso, panaceia universal, elixir, que tudo cura, transforma, regenera.


Partindo das possibilidades significativas que acabamos de alinhar, podemos lembrar, por exemplo, que a palavra arcano tanto nos remete a conceitos de enigma como nos aponta para idéias de cura, de remédio, elixir (símbolo de um estado de consciência transformada) ou, de uma panaceia (nome de uma filha do deus Asclépio, nome que significa "a que cura todas as doenças"). Presente em ambas as colocações está subentendida a presença dessa divindade grega, Asclépio, o deus "toupeira", filho de Apolo, grande deus médico da cidade santuário de Epidauro. Seus sacerdotes decifravam enigmas, os sonhos dos que se internavam no santuário em busca da cura. Esta cura era obtida a partir da nooterapia, método terapêutico essencialmente espiritual que levava o doente a uma regeneração física, emocional e psíquica, a uma "metanoia", fazendo com ele acordasse para a sua real identidade.

Mais ainda: podemos ir ao grego e levantar o que na Grécia antiga era entendido por mistério, palavra que aparece muito no Tarô. Mysterion era uma cerimônia religiosa secreta, nome aplicável principalmente aos chamados Mistérios de Elêusis, que falam de experiências de morte simbólica e renascimento. A palavra mystes designava o iniciado nesses mistérios. Por trás dessas palavras estava o verbo grego myo, fechar-se, manter a boca ou os olhos fechados, permanecer silencioso. Lembrar que mychos, do mesmo campo semântico, é a parte mais baixa ou mais profunda de alguma coisa; a parte mais interiorizada de uma casa, de uma gruta, com relação à sua entrada; o interior de uma cidade, de um país; o fundo mar, da terra, de uma montanha; o interior da inteligência, da alma. O caráter esotérico (eso, dentro, o mais íntimo; ensino ministrado a círculos restritos e fechados) estava sempre presente nas chamadas religiões de mistério na antiguidade (cultos de Ísis, Cibele,
 Mitra, Zaratustra, Orfeu, Pitágoras etc.), todos exigindo iniciação, catecumenato (processo de aprendizado pelo qual as instruções são recebidas de viva voz), sob orientação de um mistagogo, de um mestre iniciador, um "professor de mistérios". Evidentemente, se pensarmos em tudo isso não há como não deixar de ver o Tarô como um ensinamento esotérico, com todas as conseqüências que dessa constatação possamos tirar...

Outra questão relacionada com o Tarô, que me parece não suficientemente trabalhada pela maioria dos tarólogos, é a de que ele é um jogo, jogo de cartas que se corporifica num baralho. Esta última palavra tem, ao que parece, origem provençal. A Provença constitui o sul da França. Antiga província, a região, desde o séc.VII AC, era visitada pelos gregos, que a colonizaram, fundando no litoral Massalia, futura Marselha. A língua da região era (é) o provençal, também chamado de occitano.

Quanto a jogo, a palavra é colocada normalmente dentro de um campo semântico muito restrito, sendo vista como designativa de uma atividade sem finalidade útil, ou quando muito, por psicólogos ou pedagogos, como uma possibilidade de análise superficial do caráter do que a ele se entrega. No mais, o jogo é via de regra considerado como uma atividade gratuita, não de todo inútil, que pode funcionar como relaxante, redutor de tensões etc. Ora, a palavra jogo aparece aqui como um sema que se abre para propostas que vão muito além de tudo isto. Perdem-se, se ficamos presos à visão restritiva da palavra, aberturas muito ricas que ela poderá nos dar. O jogo, quando o consideramos por esta perspectiva mais ampla, em que a colocavam os povos da antiguidade, é atividade fundamentalmente agônica (agon, luta) trazendo imagens de luta, combate, acaso, simulacro, determinismo, covardia, heroísmo... Como para o herói grego, sempre uma personalidade agônica, angustiada, a luta aparece aqui como meio de captação de poderes, para que, empenhado no combate, vitorioso, seja a ele possível tanto o aumento da sua capacidade vital como redimensionada a sua personalidade. O jogo vai além de uma atividade específica ao pôr em ação uma totalidade de figuras, de símbolos, implicando, ao mesmo, noções de totalidade, de regras e de liberdade.

O Tarô faz parte, dentro das doutrinas esotéricas, do mundo dos jogos sagrados (o aprendizado do herói na Grécia mítica era feito através dos jogos), que pode abrir aos que a eles se entregam várias possibilidades de transcendência. Todavia, qualquer que seja a avaliação que possamos fazer do Tarô como sagrado, para mim parece claro é que ele escapa a qualquer tentativa de sistematização, pois parece haver nele, sempre, algo impossível de se alcançar. No mais, e acima de tudo, é preciso lembrar sempre também que temos de entrar nele, diante de seu aspecto divinatório, com uma proposta de imaginação educada e com uma grande cautela de julgamento, qualidades que só podem ser obtidas através de uma longa prática (o Tempo, queiramos ou não, nas doutrinas esotéricas, é o Grande Mestre) e com o imprescindível concurso da mente usada diacrônica e sincronicamente, como na Mitologia.


Baralho, baralha em provençal, é o nome dado a um conjunto de cartas de jogar, de número variável, conforme o jogo. A palavra teria vindo de varalia, esta por sua vez oriunda de vara, isto é, de uma braçada de varas ou de vimes, a indicar entrelaçamento, urdidura. No castelhano, baralho pode ser baraja. A palavra, desde que fixada no provençal, toma o sentido de confusão, conflito, disputa, de algo sem organização, desarrumado. Os baralhos, como se sabe, têm origem oriental, derivando todos diretamente das lâminas de cartomancia já conhecidas dos antigos egípcios, chineses, indianos e árabes.

O Tarô, num certo sentido, faz parte também daquilo que os antigos gregos chamavam de mancia (manteia, em grego), adivinhação por meio de algo designado pela palavra que a precede. Cartomancia será, pois, a adivinhação pelas cartas. Uma arte divinatória. Adivinhar é descobrir o que está oculto, seja por meios sobrenaturais, supranormais ou por engenhosos artifícios, algo que geralmente não se pode conhecer ou que não é naturalmente cognoscível. Lembremos que adivinhar vem do verbo latino divinare, predizer o futuro, pressagiar. A palavra divinus em latim quer dizer "dos deuses", adivinho seria aquele a quem os deuses deram o dom de adivinhar. É aquele, no caso do Tarô, que dá um sentido ao jogo, à confusão, às cartas lançadas, por delegação divina, "adivinhando" (função oracular). Esta mesma noção, lembremos, aparece no Hermetismo, na Cabala, na Alquimia, ou seja, a de se passar da indeterminação, da confusão (a alma submetida às paixões) à determinação. Ou, alquimicamente, ir do inferior ao superior, do chumbo ao ouro.

O Tarô, nessa perspectiva, é um jogo e todo jogo é basicamente um símbolo de luta (agon), como dissemos, seja contra o mundo, contra as forças elementares, hostis, contra a própria pessoa que o joga, contra as suas próprias tendências regressivas. Jogando-o, procura-se encontrar através dele um lugar no mundo. O jogo constitui por si mesmo um complexo de relações, de dados e de possibilidades combinatórias através das quais se aprendem tanto noções de totalidade como de regras e de liberdade. Dar-se a um jogo, ao Tarô, no caso, significa, em última instância, investir nele a própria força vital para que seja encontrada a sua melhor adaptação ao mundo real. Por isso, o Tarô é tanto rito de entrada como rito de saída. O Tarô não opera diretamente com a noção de adversário. Ele nos põe antes em contacto com a própria organização do cosmos que passamos de certo modo a imitar quando "jogamos", um percurso individual de iniciação pelo qual se vai de uma etapa a outra num processo de autoconhecimento. Lembremos que para os antigos gregos o processo de individuação e as cosmogonias eram equivalentes. Sob este ponto de vista, é possível encarar o Tarô como uma expressão semelhante àquela que se tem no jogo de relações que encontramos na cruz cardinal da Astrologia, a partir do Ascendente.

O arcano 0 ou 22 é conhecido sob diversos nomes, Louco, Bobo, Bufão, Andarilho, Indefinido. É conhecido também como o arcano que não tem número. Pensemos um pouco no zero. Zero é a total ausência de quantidade, número que corresponde a um conjunto vazio. Aquilo que de mais recuado sabemos sobre o zero está na Índia, uma criação dos místicos indianos, que colocavam em torno de um z um círculo, chamando o símbolo de cifra. Os árabes usaram o símbolo, chamando-o de sifr.


Os gregos chamaram o símbolo de Zéphyro, um deus-vento de sua mitologia, que sopra na direção oeste-leste. Zéfiro passou a designar simplesmente o vento, o sopro, isto é, nada.


A letra z é a 22ª do alfabeto latino, sendo a 6ª do grego. A origem do zero também pode ser pesquisada em outras tradições (maia).

Qualquer que seja a sua origem, porém, o que importa é que o zero é sempre um símbolo de todas as potencialidades, o Brahman do Hinduísmo, no qual tudo que foi, é e será está contido. Equivale também o zero ao ovo cósmico, base de todas as cosmogonias que, como já sabemos, são análogas ao nosso processo de individuação. Simbolicamente, o zero é o princípio feminino, é a matriz, o útero. É o zero aquilo que antecede a manifestação, ou seja, o um.

Na Índia, o zero é o não-ser dotado de energia criadora. Já os sábios muçulmanos sempre demonstraram um particular interesse por este não-ser, por este não-existente, por este nada criador, por eles chamado muitas vezes de Deus escondido, o deus absconditus dos místicos latinos, o deus insondável e infinito, o Todo dos hermetistas, aquele que não se deixa apreender pela razão humana, a não ser pela coincidentia oppositorum.

O zero simboliza também o objeto que não tendo valor por si mesmo, mas somente pela sua posição, confere valor aos outros, multiplicando por dez os números colocados à sua esquerda. Por isso, o zero simboliza também a pessoa que só tem valor por delegação. Um zero à esquerda é uma pessoa destituída de valor. É neste sentido que o arcano 0 do Tarô se coloca. Não sendo numerado, pode valorizar ou anular os outros, segundo a sua posição.


Encontramos a ilustração do que acabamos de dizer na mitologia do Popol-Vuh (poema simbólico e esotérico escrito em língua quiche pouco antes da conquista espanhola, descrevendo a origem do mundo e as tradições religiosas do povo maia). Nessa mitologia, o zero (segundo muitos, conceito descoberto pelos maias, já utilizado por eles há mais de mil anos antes de ter aparecido na Europa) corresponde ao momento do sacrifício do deus-herói do milho por imersão num rio e da sua ressurreição a fim de subir aos céus para se transformar no Sol. No processo de germinação do milho, este momento corresponde ao da desintegração da semente na terra, antes que a vida volte a se manifestar, fazendo aparecer a pequenina haste da planta nascente. Esta ideia está no ocultismo ocidental, na Astrologia, sendo o instante da reversão da polarização, que separa o fim do semi-círculo involutivo e marca o começo do evolutivo no ciclo zodiacal. O zero maia explica assim o grande mito da regeneração cíclica, o eterno jogo entre o 0 e o 22 no Tarô.


Se o 0 indica o início das possibilidades, o número 22 indica o fim. As letras do alfabeto hebraico, como sabemos, são 22, que é também o número das correntes que ligam os dez "sephirot" entre si, elementos essenciais na tradição cabalística.


Os sephirot são atributos do divino, representando a sua manifestação descendente, desde kether (Coroa) até Malchut (Reino).
Existe uma relação natural entre o zero e a numeração, a multiplicidade. É a partir do zero que se desenvolvem os princípios matemáticos de positivo e negativo. Zero é o ponto de chegada da contagem reversiva, indicando uma globalidade indiferenciada e vazia. É por essa razão que o 1, que surge do nada, é seu filho "consubstancial". Por isso, o 1 encerra todas as potencialidades do ser, que no zero existiam em estado informal. Sephira em hebraico é o plural de sephirot, sendo saphar o verbo enumerar, palavras que lembram em grego sphaira, bola, esfera, círculo. Todas estas aproximações sugerem uma forte e determinante "presença" da Cabala no Tarô. A Cabala é um sistema filosófico-religioso judaico de origem medieval (sécs. XII-XIII), que integra elementos que remontam ao início da era cristã, desenvolvido principalmente da Espanha. De natureza mística, esotérica e taumatúrgica, caracterizam-na principalmente indagações sobre a doutrina da criação do universo pelo princípio da emanação divina.


O Louco, um dos nomes do arcano, se considerado a partir do 0, tomará um sentido evolutivo-involutivo, isto é, da matriz original dos números até o estado a partir dos quais eles deixam de existir. Ele representa tanto o vagabundo que caminha como o louco (a mente que não sossega jamais, representada na Astrologia pelo planeta Mercúrio) do rei (o eu superior, o Sol). Poeta, inspirado, alucinado, idiota, o louco em todas as antigas tradições não tinha só a função de divertir, ele gozava também da chamada "liberdade dos loucos", denominada também como "loucura divina", a prerrogativa de poder dizer a verdade sem temor de punição, sob a condição de que ela fosse proferida como brincadeira, como sátira ou como deboche.

Os loucos na antiguidade grega eram sempre seres tocados pelo divino, mesmo no caso da loucura comum, causada por doenças, por males físicos, diferente daquelas formas de loucura enviadas pelos deuses, também chamadas de mânticas (profética, mistérica, poética e erótica). O louco sempre esteve fora das normas, das regras sociais. Uma das prerrogativas do louco é a de poder dizer o que lhe passe pela cabeça, dizer a verdade sem temor nenhum de ser punido. Pela roupa que veste e por outros símbolos que carrega, o louco pode ser visto como uma representação da sabedoria espontânea, ingênua, dos chamados "loucos de Deus", de inúmeras tradições místicas (Índia, Grécia, Islã etc.).



Kiron

Um detalhe importante da figura de que tratamos é o cão, tradicionalmente associado a caçadores, a exploradores. Nessa condição, os cães sempre caminham à frente do caçador e, como tal, são muito importantes na chamada arte cinegética, uma das cinco artes que o centauro Kiron ensinava aos seus discípulos, futuros heróis. Na figura de que tratamos, o cão não vai à frente, pelo contrário parece andar à volta do personagem, atrás. Nos mitos, os cães, simbolicamente, são indicadores de trilhas, de caminhos, andam à frente do caçador (o eu que virá). É neste sentido que deve ser entendida uma antiquíssima tradição dos povos indo-europeus, a do sacrifício desse animal aos mortos, a fim de que lhes fosse servir de guia no outro mundo. É nesse sentido também que devemos entender a posição desse animal em vários mitos e na astrologia (a estrela Sirius, que anuncia a plenitude do verão, estrela da constelação do Cão Maior, que faz a ligação entre as constelações zodiacais de Câncer e Leão). Ora, o cão neste arcano não nos permite pressupor que sua função seja a de guiar, de orientar, de indicar caminhos. Brincalhão e lépido, saltitante, parece simbolizar muito mais a dispersão, a desconcentração, ou seja, a grande dificuldade que o ser humano tem em fixar a sua mente, a atividade do seu pensamento, a dificuldade em organizar, enfim, o conjunto dos seus processos cognitivos e as atividades psicológicas que lhes são correlatas. Uma fórmula alquímica talvez traduza muito melhor o que acabamos de colocar, solve et coagula, ou seja, a alternância entre a conquista e a perda da forma na caminhada existencial.



O 0-22 descreve, nessa leitura, a ronda infinita da criação (o 22 retornando ao 0 e deste novamente àquele). O 0 é o infinito como o En-Sof da Cabala é o vazio absoluto do infinito divino. A Cabala antecede a série dos números (sephirot) por uma fonte não manifesta, o En-Sof, que designa o incognoscível, o incriado. O zero e o infinito, que o Tarô representa pelo 22, são os dois modos diversos da mesma realidade inapreensível.






No Tarô de Marselha, o arcano de que tratamos é chamado de Le Mat, que alguns traduzem por "O Louco". A palavra francesa mat vem do baixo latim, começando a se fixar no século XI. O verbo latino que lhe deu origem é o verbo madere, estar úmido. Mat é contração de maditus, particípio passado de madere, que traduzo por "umedecido", no sentido de "estar tocado", "um pouco embriagado". Esse sentido inicial de embriaguez foi se perdendo, passando mat a designar o que não tem polimento, brilho, ou que o perdeu. Lado mat de um objeto, em francês, é o lado que não brilha, o opaco. Nesse sentido, falamos de uma fotografia mate, esmaecida, que não tem nenhuma cor, fosca, sem luminosidade. Som mat é um som abafado. Mat poderá ser também, em francês, aflito, abatido.

A palavra aparece também através do árabe (mat) no sentido de "não poder se mover do lugar em que se encontra sob pena de ser morto". Em árabe e persa, temos shah mat ou "o rei está morto".



Daí, o xeque-mate do lance do xadrez. Lembremos ainda que em italiano encontramos matto, ou seja, pessoa dominada por impulsos irracionais, que provoca mais hilaredade que apreensão ou aversão pelo seu estado; falamos também em italiano de matto (sei matto?) como privado de sentido ou como de algo muito intenso (una voglia matta). Matto pode ser também adjetivo usado para designar uma parte do corpo não sadia de todo (una gamba matta). Por último, lembremos que em português temos a palavra matusquela, que ou quem não é bom da cabeça, doido. Uma gíria afetiva ítalo-brasileira de São Paulo.

Em inglês, o arcano é designado por The Fool ( Le Fou ou Fol, em francês). Em latim, follis é um balão cheio de ar (os bons estudiosos do Tarô sempre associam o arcano 0 ao elemento ar). O Verbo latino é follere, fazer o vai-e-vem de um fole (follis). Em inglês, fool é o que age com falta de bom senso, uma pessoa estúpida. A palavra designa também o bufão profissional ou aquele que, descontrolado, não sabe administrar seu tempo, seu dinheiro. Tanto em francês quanto em inglês, fou ou fool pode indicar uma pessoa de alegria muito exuberante, extravagante. É desse universo semântico que sai a palavra folia, divertimento, dança, brincadeira, com o sentido de loucura, porque o cérebro de um folião era comparado a um saco vazio (follis). Foliculário será o nome dado ao pasquineiro, ao jornalista de pouco ou nenhum valor .

Já a palavra bufão vem, na sequência, do antepositivo buf, do verbo bufar, soprar, que significa também grotesco (bufo é sapo, em latim). Bufa é também ventosidade anal silenciosa e geralmente fétida. Buffa, em italiano, deu zombaria, burla. Daí, ópera-bufa, ópera de origem italiana (séc.XVIII), ligeira, satírica, espirituosa. O bufão às vezes toma o nome de bobo (este provavelmente originário de balbus, latim, gago, que fala mal, aturdido), indivíduo geralmente grotesco (anão, corcunda), que desde a antiguidade reis e poderosos mantinham ao pé de si para se divertirem com suas caretas, suas graças e zombarias a respeito da própria corte e que podia circular por todas as dependências do palácio.



Desde o século XVI, circulava na França um livro popular, Til l´Éspiègle, baseado numa lenda germânica do século XIV, cujo personagem, Til, o malicioso, o esperto, o arteiro e também algo ingênuo e idiota, parece ter sido tomado para modelo da representação do arcano no Tarô de Marselha. Esta representação caracterizava a figura como um símbolo da experiência espontânea e ingênua da "loucura pura" própria da sabedoria. O mesmo tema, o dos loucos de Deus, lembremos, é encontrado na Índia shivaísta, na mística muçulmana e em outras tradições. Outro dado importante para entender este arcano é que durante a Idade Média os doentes mentais eram obrigados a usar uma blusa e um gorro com guizos. Gozavam da "liberdade dos loucos", não podendo ser responsabilizados pelo que diziam nem pelo que faziam .



O arcano 0 ou 22 é considerado como curinga, como sabemos. Curinga é o indivíduo versátil que se presta a múltiplas e diferentes funções, capaz de atuar em várias posições e de representar diversos papéis, podendo substituir qualquer outro. Entre nós, no Brasil, o curinga é chamado muitas vezes de dunga. Esta palavra significa uma pessoa sem igual em sua especialidade, exímia, arrojada, excepcional. Esta palavra veio para nós da África, com os negros de Angola, zindunga, homem pertencente a uma importante sociedade secreta, aquele que age sub-repticiamente, sendo, por isso, muito importante. Já a palavra curinga, de origem também africana, kuringa, significa fingir. O curinga em inglês é joker, que se liga a jeu, giuoco, jogo, em francês e italiano. O verbo latino é jacere, atirar, lançar. Jactabilis em latim é móvel, aquele que se movimenta com facilidade.

O arcano 0 ou 22, como o Andarilho ou o Indefinido, designações às quais temos que incorporar forçosamente tudo o que até aqui se colocou, nada mais é, afinal, para mim, do que, na perspectiva da cultura ocidental, o deus Hermes, a divindade que une os três mundos, céu, terra e inferno. Mensageiro celeste, Hermes é também o deus ctônico, do reino subterrâneo para onde conduzia as almas. Além de deus das trocas é o de todas as dualidades de que o ser humano pode fazer parte, Hermes é o deus das estradas e das encruzilhadas, dos comerciantes e mercadores. Tanto governa os caminhos que percorremos em vida como o da nossa alma depois da morte. Assimilado ao deus Toth, o da cabeça de ibis, é mestre da sabedoria na medida em que se torna o nosso guia na busca espiritual. É ao mesmo tempo deus da Alquimia ao propor que, através do trabalho entre os elementos, a partir da "matéria prima" (indeterminação, zero), da terra negra, cheguemos ao ouro (22). Esta a Grande Obra que não termina nunca, alternância permanente entre formas que se conquistam e se perdem, oscilação eterna entre o 0 e o 22. Esta oscilação pode ser apreendida pelas inúmeras possibilidades de leitura que nos oferecem os ternários e septenários possíveis entre os números 1 e 21.

Este arcano pode ser visto também como uma expressão do uróboro, a imagem da serpente que engole a própria cauda. A imagem representa, sob uma forma animal, o círculo do eterno retorno, indicando que um novo começo coincide com um fim numa perpétua repetição, ou que o fim e o começo de uma via são uma mesma coisa sob o ponto de vista superior (é neste sentido que a morte é um estado intermediário e não um fim). O uróboro assinala a existência de um indiferenciado de onde todas as coisas saem e ao qual retornam. Podemos ver o arcano, pois, como um símbolo da simples repetição, onde tudo volta ao caos básico ou, ao contrário, como uma renovação perpétua que supera constantemente a mesma fase de morte e renascimento até que atinjamos o indiferenciado (divino) que está além de todos os pares de opostos, que escapa sempre de todas as categorias de nossa lógica e da nossa linguagem.




Quanto à origem do Tarô, impossível certamente chegar a ela. Teria ele vindo dos mistérios sapienciais do antigo Egito, das artes divinatórias da China, da Índia? Teria sido criado por Hermes Trimegisto, durante o período helenístico da história grega, ou elaborado no fim da Idade Média a partir de contribuições astrológicas, ciganas (boêmias), alquímicas, cabalísticas e cristãs? Ou é uma mistura de tudo isto e de algo que talvez nunca saibamos? A viagem que o Tarô propõe não está ligada a peregrinações, travessias de desertos, escalada de montanhas, visitas ao mundo ctônico nem à busca de paraísos como o Valhala, a Pasárgada, o Eldorado, o Bosque do Velocino de Ouro, o Pays de Cocagne, o Jardim do Éden  os Campos Elíseos, a Terra do Nunca, o Jardim das Hespérides, o Ming-Tang etc. O marco zero para o início da viagem que o Tarô nos propõe deve ser colocado numa recusa, a de não querer ser mais como somos. É desse ponto em diante que pode começar talvez aquela que seja a única viagem que realmente interesse, a que podemos fazer ao nosso mundo interior...



Palestra proferida (2005-2006) no encerramento da Jornada com os Arcanos Maiores - Clube do Tarô.