Mostrando postagens com marcador HIPPIOS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HIPPIOS. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de março de 2021

MONSTROS - IV

O que fica de mais consequente da história do Golem é que ele, como proposta última, é uma criatura do mundo religioso, representando a pretensão que o homem tem de imitar a Deus. Sua criação, segundo essa mesma visão religiosa, não passa de algo incompleto; o ser criado é destituído de liberdade, inclina-se para o mal, tornando-se escravo de suas paixões. Numa outra intepretação, mais adequada talvez, o Golem seria a imagem da criação tecnológica que se rebela contra o seu próprio criador e que pode esmagá-lo. 

HEFESTO
Essas ideias sempre circularam ao longo da história do homem em todo o mundo medieval, sendo oriundas, para a cultura ocidental, principalmente da Grécia antiga. O deus Hefesto, grande divindade metalúrgica, mestre do fogo e das artes da transformação, sintetiza certamente no seu mito todas estas pretensões humanas. É por essa razão visto como o deus da tecnologia, capaz de criar maravilhas sob o ponto de vista técnico, mas é totalmente amoral, aético na sua ação. Basta-lhe, apenas, a perfeição técnica do que cria, não entrando ele jamais em outras cogitações e questionamentos sobre o que produz. É, como tal, como se disse, símbolo do demiurgo amoral e, como tal, uma das grandes imagens da tecnologia moderna.  

Os rabinos, segundo a tradição cabalística medieval, entenderam que Deus não fabricara Adão de uma só vez. O caminho parece ter sido longo, combinações repetidas e corrigidas várias vezes. As disposições alfabéticas indicavam que era preciso, partindo do tetragrama IHVH, combinar as letras 231 vezes para dar vida à criatura. Tal foi feito, transformando-se aquele monte de terra acumulado, ao embalo monótono das recitações, num ser encorpado, terroso. A obra se completou quando, como se disse, lhe foi inscrita na testa a palavra Emet (Verdade). Também como já se viu, deram-lhe a missão de proteger os habitantes de Josefov dos ataques antissemitas.

Mas o monstro ficava cada dia maior, a ponto de sua cabeça romper o telhado da casa. A população da cidade começou a acorrer ao bairro para ver o prodígio. Vagando à noite, o Golem começou a matar indiscriminadamente as pessoas. A violência tomou conta da cidade. Os habitantes do bairro, antes protegidos, começaram a se sentir ameaçados pelo monstro, pedindo a sua morte. Não restou outra alternativa ao rabino senão a de destruí-lo. Uma noite, numa sala da casa, só o criador e a criatura, o rabino acercou-se dela e conseguiu apagar a primeira letra do nome que ela trazia gravado na testa. Imediatamente, o Golem se desmanchou, se desfez. Uma massa informe ocupou toda a sala, sufocando o rabino. Como um teraphim, nome que lhe deram os hebreus, o Golem, nesse sentido, não só se aproximou do simbolismo do urso (ser humano incompleto), como daquele que cercava os Penates e os Lares romanos (deuses protetores da casa e da família). 

LÂMIA
(JOHN WATERHOUSE, 1849-1917
Pela aproximação acima e lançando agora o nosso olhar ao antigo mundo grego, um dos monstros que mais chama a nossa atenção é a Lâmia, cujo nome provém de um radical grego lem, que tem o sentido de devorar, sugar. A mitologia, na versão mais canônica, nos informa que ela é filha de Poseidon e de Líbia, aparecendo nas histórias como um monstro raptor e devorador de jovens ou crianças. Poseidon é o deus do elemento líquido, dos oceanos, dos mares, dos rios e dos lagos. Um de seus apelidos é Hippios, o gerador de cavalos, ligando-se, como tal, a esses animais como símbolos da vida ctônica, do psiquismo inconsciente. Um de seus filhos é, por exemplo, Pégaso, cavalo alado da mitologia grega, que tem a ver com a inspiração, com a imaginação poética, desde que montado por heróis (artista competente). Aqueles que o montam sem uma preparação adequada, sem uma técnica trabalhada, longamente adquirida, comparada, avaliada, produzem monstruosidades artísticas, sendo por ele apeados, humilhados ou mortos.

POSEIDON -  HIPPIOS  ( CERÂMICA )

Os filhos de Poseidon são todos disformes, violentos, descontrolados, entregando-se à hybris com relativa facilidade. Tal propensão, como é fácil ver, decorre de sua origem, o elemento líquido, a água, que, no seu aspecto negativo, indica ausência de limites, falta de contenção, sempre. Negativamente, o elemento líquido, como se sabe, quando prepondera na personalidade de alguém produz uma sensibilidade extremada, favorecendo a permeação. Surgem então os estados de abandono, de inflação emotiva, inconscientes, que levam este alguém a se confundir com esses estados que sempre o ultrapassam. Ou seja, o que a pessoa sente escapa sempre da possibilidade de qualquer controle.

Inicialmente, Lâmia é descrita como uma mulher de grande beleza, tendo sido por essa razão notada pelo Senhor do Olimpo. Sentindo-se incompleta sem filhos, e desejando-os maravilhosos, não relutou em ceder às investidas de Zeus. Teve os filhos, mas as crianças assim que nascidas eram sistematicamente eliminadas a mando de Hera. Não sabendo o que fazer, desesperada, refugiou-se Lâmia numa caverna, passando a odiar toda a humanidade, sobretudo as mulheres que tinham filhos normalmente. 

HIPNOS
Aos poucos, tomada por um ódio crescente, começou a sair da sua caverna à noite para raptar crianças e devorá-las. Hera continuou a persegui-la, tirando-lhe o sono, não deixando que Hipnos, deus do sono, como fazia com todos, tocasse as suas pálpebras com o seu tridente.

Compadecido, para aliviar o seu sofrimento, Zeus concedeu-lhe o privilégio de poder arrancar e recolocar os seus olhos quando bem entendesse. Mas isso não resolveu o seu problema, a sua grande frustração. Desesperada, Lâmia, mesmo arrancando os seus olhos, e conseguindo às vezes dormir, vivia em grande irritação e, ao mesmo tempo, em profunda depressão. Começou então, cada vez mais cheia de ódio, a se embriagar e a sair às noites para se prostituir ou para raptar e matar crianças. Aos poucos, foi Lâmia se tornando uma criatura completamente descontrolada psíquica e fisicamente. Enorme, gorda, relaxada, imunda, sexualmente insaciável, transformou-se num monstro, a rondar as casas onde morassem crianças e jovens.

ILÍTIA
(TERRACOTA DE CHIPRE)

A história de Lâmia sempre foi considerada como uma ilustração da inveja, do ódio, do ciúme da mulher que não pode ter filhos e/ou da mulher que os tem fora da união legal; como tal, é um mito ligado aos valores da deusa Hera: casamento e prole oficiais. Hera, lembremos, era a deusa das justas núpcias, protetora das esposas legítimas e da descendência legal. Uma de suas filhas, aliás, a deusa Ilítia (a que faz vir à luz), é a deusa dos partos. Fiel seguidora da mãe, Ilítia sempre perseguiu implacavelmente as amantes de Zeus.

Muito próxima da Lâmia, encontramos na mitologia grega a Empusa (esvoaçar, voltear) uma espécie de íncubo feminino, ligado a pesadelos (cauchemar, nightmare). Ela faz parte do séquito de Hécate, a grande deusa lunar triforme infernal. Empusa vagueia pelas noite de Lua Nova, aparecendo sobretudo às mulheres e às crianças. Alimenta-se de carne humana. Quando queria atrair homens, tomava a forma de uma belíssima mulher que aparecia nas encruzilhadas.

AQUERONTE  ( GUSTAVE  DORÉ, 1832 - 1883 )

Com versões da Lâmia, os gregos tinham ainda os monstros femininos Mormo, Mormólice e Gelo. A primeira, cujo nome lembra espantalho, era um bicho-papão que ameaçava as crianças; tinha o hábito de mordê-las nas pernas, tornando-as coxas, aleijadas. Já a segunda era um demônio feminino em forma de loba, gênio infernal que assustava as crianças. Era ama de Aqueronte, um filho de Geia, condenado a viver no Hades como um rio porque dera de beber aos Gigantes quando da luta que travaram contra os olímpicos. No Inferno, ele se uniu a Orfne, ninfa das trevas, nascendo dessa união Ascálafo, transformado em coruja por Deméter.  A última acima mencionada, Gelo (devorar, etimologicamente) era um monstro feminino que vivia em Lesbos. Na origem, era a alma penada de uma jovem que morrera sem ter filhos. Voltava constantemente ao mundo dos vivos para devorar as crianças e/ou para se utilizar delas sexualmente.

A palavra lâmia passou com o tempo a designar na antiguidade grega monstros femininos com cauda de serpente que devoravam crianças e sugavam o seu sangue, como os vampiros. Na Idade Média, elas aparecem associadas às feiticeiras, declarando alguns demonólogos que eram demônios ferozes, que às vezes apareciam sob a forma de belas mulheres.

Aos poucos, as características acima mencionadas, embora sempre presentes, latentes, foram dando lugar a outras, passando a Lâmia, nas suas diversas versões folclóricas, populares, a tomar a forma de um monstro que devorava as crianças travessas, malcriadas ou desobedientes. 


BICHO-PAPÃO
Por exemplo: da península ibérica veio para o Brasil, no período colonial, o Bicho-Papão, um descendente da Lâmia, um ser monstruoso, que às vezes podia tomar a forma de bichos, naturalmente sempre com uma boca enorme, muitas vezes com olhos de fogo, tendo no lugar do estômago um forno ardente para fazer jus ao “papão” de seu nome, como devorador de crianças. 


Na literatura oral portuguesa, a Coca é um bicho-papão que rouba as criancinhas. É às vezes chamada de Maria-da-Manta, soltando esta fogo pelos olhos. É uma entidade maligna que está sempre à espreita (estar sempre à coca) para impedir que o sono chegue. Vai-te Coca, vai-te Coca/ Para cima do telhado/ Deixa dormir o menino/ Um soninho descansado.

GIL VICENTE

Gil Vicente, 1465-1536, o genial criador do teatro português, identificava o Diabo como o marido da Coca, chamando-o de Coco, por isso. A Coca era normalmente figurada como um dragão. Nas festas de Corpus Christi, São Jorge vinha lutar contra a Coca. Como variantes do Bicho-Papão temos no nosso folclore o Homem do Saco e a Cuca, representações associadas, sempre tendo a função de assustar ou mesmo devorar as crianças desobedientes, monstros que encheram de terror muitas noites infantis. Educação, respeito e obediência aos pais e aos adultos eram, em antigos tempos, o melhor remédio para evitar a visita desses monstros.

A Cuca é uma versão feminina do Bicho-Papão. Durma, meu benzinho, que a Cuca logo vem era um dos versos das velhas cantigas de ninar. É interessante observar que o medo infundido pela Cuca às crianças também podia vitimar os adultos. Em Portugal e no Brasil colonial circulava, nos meios populares adultos, a frase: Eu cá não tenho medo de Cucas! e tomava-se uma talagada de boa cachaça: matava-se o bicho.

COCA
A origem dessa expressão se prende a motivos medicinais. Isto é, tomar uma bebida alcoólica forte para matar qualquer bicho (agente patológico) que estivesse alojado no corpo. Dizia-se, segundo uma história do séc. XVI vinda da França, que uma mulher morrera e se constatara, aberto o seu peito, que havia um verme grudado ao seu coração. A única maneira de matá-lo foi a de se colocar sobre ele um pedaço de pão embebido em vinho. A partir de então, dizem,  os médicos recomendaram que todo o jejum, pelas manhãs, fosse quebrado, além do pão, também com  vinho. 

Os beberrões logo adotaram a ideia, matando o  bicho a qualquer hora do dia, substituindo-se o vinho pela cachaça. E como bicho poderia ser também o Bicho-Papão, a prática pegou. No mundo da cachaça, são equivalentes a matar o bicho expressões como morder a batata, acender a lamparina, alertar as ideias, mudar de camisa, salgar o galo.

É em antigas cantigas de ninar e acalantos, entoados para para fazer as crianças dormirem, que encontramos as melhores referências a esses monstros. Chamadas berceuses na França e ninnananna na Itália, essas cantigas têm como personagens importantes o Bicho-Papão e a Cuca, além de referências religiosas a anjos (entidades protetoras), a pais ausentes e a entidades míticas do sono como João Pestana.  

JOÃO PESTANA
O João Pestana merece referência especial. É uma entidade mítica que personifica o sono que está para chegar. É muito tímido e assustadiço, só se aproximando quando tudo está quieto e silencioso. Ao menor barulho, ele se afasta, foge. Quando ele chega, as pálpebras (pestanas) se fecham; por isso, nunca ninguém o viu. No folclore português, de onde o herdamos, ele é parente do Pedro Chosco, que põe pequeninos grãos de areia nos olhos das crianças para que elas durmam. Este personagem, no mundo anglo-saxão, chama-se  Sandman.

Todos são temas de cantigas de embalar em muitas línguas. João Pestana costuma trazer muita ansiedade já que ele compete com entidades poderosas como a Cuca e o Bicho-Papão. Monteiro Lobato, em seu livro O Saci, diz que a Cuca tem cara de jacaré e só dorme uma noite a cada sete anos. Quando enraivecida, solta urros que podem ser ouvidos a léguas de distância. 

Dentre todas estas entidades a que talvez se aproxime mais da Lâmia no nosso folclore seja a Cabra-Cabriola, que não é propriamente uma cabra, mas um monstro gigantesco com dentes agudíssimos, que solta fogo pelos olhos e pelas narinas. Ela costuma andar perdida pelas noites, invadindo as casas e devorando indiscriminadamente todas as crianças que encontra.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

PRIMEIRO TRABALHO DE HÉRCULES




 

As Éguas de Diomedes - Diomedes, filho de Ares e  de Pirene, rei da Bistônia, possuía éguas selvagens, negras, antropófagas, que soltavam fogo pelas ventas.
DIOMEDES
Chamavam-se elas Podargo, Lâmpon, Xanto e Dino e eram filhas de uma das Harpias, pavorosos monstros infernais arrebatadores. Alimentavam-se de carne humana que Diomedes lhes dava, principalmente a dos estrangeiros que inadvertidamente entravam no território trácio e por ele eram mortos. Geravam essas éguas cavalos selvagens como elas, indomáveis, destruidores. A tarefa de Hércules era a de dominar os animais e levá-los a Micenas.

A Bistônia ou Trácia ficava ao norte da Grécia, perto do mar Egeu. As tribos que lá viviam, oriundas da Ásia Menor, falavam uma língua derivada do indo-europeu. Eram pastores, belicosos e ferozes, famosos pelas suas bebedeiras, e gostavam muito de cavalos. Adoravam o deus Dioniso e suas sacerdotisas, tão
 alucinadas quanto as mênades, eram conhecidas pelo nome de bistônidas Forneciam escravos e mercenários aos gregos. Tinham uma cultura importante, com destaque para a música e para a poesia. É desse mundo que saem os cultos dionisíacos e os mitos referentes a Orfeu, Lino, às musas Piérides e aos Cabiros que vão permear toda a cultura grega. 

HÉRCULES E LINO

Chegando ao seu destino, Hércules foi logo desafiado por Diomedes. Atracam-se; golpeado mortalmente pelo nosso herói, o corpo do rei da Bistônia foi lançado às éguas, que o devoraram.
HÉRCULES E DIOMEDES
Uma vez saciadas, mais calmas, Hércules conseguiu dominá-las com relativa facilidade, pondo-lhes cabresto, e as entregou aos cuidados de seu amigo Abderis (um filho do deus Hermes) para que ele as conduzisse com a recomendação de que fossem mantidas sob rígido controle. Descuidando-se, porém, Abderis acabou devorado por elas. Hércules teve que recapturá-las, um trabalho intenso, cansativo; ao cabo de muito tempo, conseguiu aprisioná-las, levando-as a Euristeu, que as mandou soltar no monte Olimpo, onde foram mortas por bestas selvagens.



HÉRCULES DOMINANDO AS ÉGUAS (ARTE ETRUSCA)
Diomedes é um nome grego cuja etimologia nos remete à ideia de que as ações humanas devem ser inspiradas por princípios superiores, o que jamais aconteceu, como se pode constatar pela extensa biografia do filho do deus Ares. Diomedes é um exemplo típico de arianos que podemos chamar de primeiro nível, ou seja, aqueles inteiramente dominados pela vida instintiva e que se caracterizam sobretudo por uma grande disposição combativa, por um incontrolável espírito de contradição e por uma forte tendência a dispender a esmo enormes quantidade de energia.


ARES E AFRODITE
Quanto ao pai, Diomedes, como se disse, era filho de Ares, deus da guerra, uma divindade que, embora fizesse parte do panteão olímpico oficial, nunca se aproximou muito de Zeus. Ele e Afrodite, considerados como divindades “estrangeiras”, jamais mantiveram boas relações com os olímpicos. Ares era oriundo da Trácia, que ficava perto da Macedônia, uma região muito temida pelos gregos, cujos habitantes sempre foram por eles mantidos à distância. Em grego antigo, aliás, Trácia quer dizer perturbação, agitação. Além do mais, Ares tinha um aspecto brutal, seu comportamento violento e agressivo, seu prazer pela carnificina e pelas batalhas nunca o tornaram simpático aos deuses e aos mortais.

Ares, como toda divindade grega, era acompanhado nos seus deslocamentos por um séquito barulhento  agressivo, dele
ARES
fazendo parte, além de outras, entidades como Eris, a deusa da discórdia, as Keres, deusas das carnificinas, as Harpias, monstros infernais, Enio (em Roma chamar-se-á Belona), demônio da guerra,  a condutora dos carros de batalha, Bia, a Violência, e Crato, o Poder, estes dois últimos também capangas de Zeus, todos eles espíritos belicosos.   

A mãe de Diomedes chamava-se Pirene (etimologicamente, de pyr, fogo), sendo, ele, portanto, irmão de Cicno, bandido violento e sanguinário que matava peregrinos que se dirigiam a Delfos. A pedido de Apolo, Senhor do famoso oráculo, Hércules o matou. Numa peça de Eurípedes, Alceste, Hércules, numa de suas falas, nos revela que era de seu costume opor-se constantemente aos outros filhos de Ares (Licaon e Cicno). 

Os gregos, a elite grega do período clássico mais especialmente, muito voltada para os prazeres da inteligência e para as sutilezas do espírito, manifestaram sempre uma certa repugnância por Ares, deus que, no fundo, tanto pela sua origem como por seu caráter e atribuições, era visto como um “mal necessário”. Ou seja, Ares era até muito útil na medida em que a aristocracia grega colocava as suas aventuras colonialistas sob  a sua tutela. Nesse sentido, lembre-se, por exemplo, que o ciclo dos argonautas (a conquista do Velocino de Ouro objetivava na realidade a instalação de colônias gregas na Cólquida) é um mito tipicamente ariano.



JASÃO E O  VELOCINO DE OURO
Foi durante a sua caminhada em direção da Trácia que Hérculesrealizou o primeiro dentre os seus muitos trabalhos secundários (episódios de percurso). Ao passar pela Tessália, região muito inóspita, em Feres, sua capital, recebeu a informação de que o rei da região, Admeto, fora sorteado para baixar ao Hades. O deus Apolo, que em seu exílio na Terra trabalhara para Admeto, interveio, obtendo das Moiras que elas o poupassem, desde que alguém o substituísse. Os pais do rei, já velhos, não se animaram a fazer o sacrifício pelo filho. Outras pessoas consultadas também não. Só Alceste (modelo de fidelidade conjugal), jovem e bela esposa do rei, se prontificou a morrer pelo marido. Foi neste momento, quando a jovem estava prestes a partir, conduzida por Thanatos, o deus da morte, que Hércules chegou à cidade, pedindo hospitalidade. Tomando conhecimento da história, nosso herói, como era de seu feitio, se dispôs a intervir e travou então um combate terrível contra Thanatos, vencendo-o, conseguindo arrancar Alceste de suas garras.

Mas vamos às éguas: neste trabalho, elas representam simbolicamente a vida na escala instintiva, o primeiro nível do elemento fogo (o segundo é o da vida racional e o terceiro da vida espiritual, que, na astrologia, correspondem, respectivamente, aos signos de Leão e Sagitário), fonte de ideias, conceitos ou teorias que costumam nos levar a paixões e a conflitos destrutivos, mortais. Como matrizes descontroladas, essas éguas geravam cavalos (os nossos próprios atos) indomáveis, assassinos, que, como percebeu Hércules, se tornavam muito mais furiosos e enlouquecidos ao beber das águas de um lago próximo, alimentado por um rio da região. Hércules entendeu que se impedisse que as águas do rio chegassem ao lago, os cavalos perderiam muito de sua fogosidade. Foi o que fez; desviou-as, tornando-se os animais, ao consumir apenas a água do lago, muito mais calmos, o que facilitou sobremodo a sua captura. É neste trabalho, como podemos notar, que Hércules demonstra pela primeira vez um forte traço de sua personalidade, repetido outras vezes, a sua grande inclinação por trabalhos hidráulicos, inclusive de drenagem, para a solução dos problemas concretos que encontrava.   

Os cavalos, como sabemos, são símbolos do psiquismo inconsciente, aparecendo associados sempre à impetuosidade, à força indomável dos desejos, que podem se impor à mente racional (segundo nível do fogo), ao bom senso e à lógica. Será preciso dominá-los, mantê-los sob permanente controle. Do contrário, eles nos destruirão, como aconteceu com Abderis (símbolo do mental descuidado, distraído, desatento). Para homenagear seu amigo morto, Hércules fundou Abdera, cidade trácia que se tornaria depois muito importante. 



POSEIDON
Os cavalos, lembremos, segundo o mito grego, são criaturas de Poseidon, deus do elemento líquido, dos mares e dos oceanos, que os gerou sob o nome de Hippios. Esta a razão pela qual esses animais em todas as tradições, dentre outras hipóteses simbólicas, sempre apareceram associados à fertilidade, às águas de origem subterrânea, a fontes, a algo que podia aflorar descontroladamente na superfície. Relacioná-los com a imaginação e com estados mediúnicos foi (é) também algo muito difundido. Não é por acaso que em certas tradições religiosas se dá o nome de cavalo àquele que recebe entidades, espíritos, àquele que inconscientemente dá passagem a energias sobre as quais não consegue ou não pode exercer controle, sendo cavalgado por elas.

Há palavras no léxico de algumas línguas que conservam essa relação entre o cavalo e vida inconsciente. Em francês e inglês, temos, respectivamente, cauchemar e nightmare, pesadelo, palavras que etimologicamente significam a “opressão do cavalo”. A Bíblia, ao usar o cavalo como símbolo do psiquismo descontrolado, contém várias recomendações sobre a necessidade de se controlá-lo, tudo com o sentido de que o homem deve dominar os seus instintos como o bom cavaleiro domina a sua montaria. 



ILUMINAÇÃO DE BUDA
Talvez o melhor exemplo que possamos apontar sobre a relação cavalo-psiquismo inconsciente nos venha do budismo. Sidarta Gautama só se tornou Buda, o Desperto, quando dominou o seu turbilhão mental, alimentado por grandes pressões inconscientes (sentimentos e emoções). Essa conquista ele a realizou, como nos revela a tradição, num plenilúnio (festival de Wesak, Lua cheia do signo de Touro) sentado sob uma árvore que tinha o nome de ashvatha (ficus religiosa), etimologicamente, a “árvore em baixo da qual os cavalos se aquietam”.


PÉGASO (CONSTELAÇÃO)
O que aqui se coloca ficará mais claro com uma referência a
Pégaso, cavalo alado da mitologia grega. Símbolo da inspiração poética, foi esse animal, filho de Poseidon, que, ferindo com uma patada as encostas do monte Helicon, ali fez brotar a fonte de Hipocrene (Fonte do Cavalo), muito visitada por poetas, onde viviam as Musas. Pégaso só podia ser montado por heróis (artistas), isto é, por aqueles que o soubessem dominar, que tivessem a tekhne. A imaginação criativa, por si só, não era suficiente. 

Em Áries, começa o equinócio da primavera; a energia universal,
QUANDO DOIS ARIANOS SE ENCONTRAM
da qual uma pequena parte está em nós, inicia a sua trajetória no plano da matéria. O pensamento precisa comandar a ação, impor-se à vida instintiva, controlá-la, não suprimi-la. Áries é o nascimento desse impulso vital, sendo o seu regente o planeta Marte. Daí o signo governar o nascimento do dia, a aurora, as iniciativas, o começo das coisas e também, no corpo, a cabeça. Corresponde o signo ao nascente, à aurora, ao leste, ao oriente. Os olhos e o fogo são de Áries (aries, arietis, carneiro). Aríete é máquina de guerra para derrubar muros e também saliência reforçada na proa de navios para avariar o casco de embarcações inimigas. Ganhar na marra, vencer à força, a qualquer preço (marrar é bater com a cabeça, acometer com os chifres), é atitude ariana muito comum.

Áries é a primeira emanação de autoconsciência que nos põe diante de um processo de individuação, processo este que analogicamente corresponde a uma cosmogonia. É sempre a imagem do aparecimento de algo acima da superfície (no que lembra um vegetal), trazendo, portanto, a ideia de individuação, de uma energia em busca de forma. É o primeiro movimento, sendo o signo representado, por isso, pelo carneiro, o animal do sacrifício (a energia cósmica presa a uma forma). Na natureza, as plantas começam a despontar, os frutos a buscar a sua forma, os animais saem da sua hibernação. Na Índia, o signo de Áries, ao se relacionar com o impulso vital ainda não orientado adequadamente, para objetivos e metas devidamente formulados, tem o nome de Aja (não nascido). Ou seja, é um signo “a ser”; por isso, os seus nativos só nascerão efetivamente depois de tomarem consciência do que
MOISÉS (G. DORÉ)
significam Touro (segundo mês da primavera, aparecimentos das formas) e Gêmeos (último mês da primavera, as trocas com o meio exterior). Por razões análogas, os antigos astrólogos judeus sempre consideraram os signos de Áries e de Touro como instintivos, associando o início da vida mental a Gêmeos. Este, aliás, é o signo de Moisés, aquele que, com as suas leis escritas, deu realmente nascimento à nação de Israel.

Fogoso, impetuoso, indomável, o carneiro é suporte simbólico de diversos mitos e histórias. Ao representar as forças irrefreáveis e criadoras da natureza, ele representa o instinto de procriação que assegura a continuidade da vida. Cada cultura traduziu tudo isso à
AKEDÁ
sua maneira. Entre os judeus, por exemplo, é bastante ilustrativa a história de Isaac. Abraão, por ordem de Deus, deveria sacrificar esse filho tão ansiosamente esperado. A esse sacrifício os judeus davam o nome de Akedá (amarração). No último momento, o arcanjo Gabriel deteve a mão de Abraão. Isaac, que se submetera voluntariamente à ordem paterna, estava amarrado num altar. Salvo, no seu lugar foi colocado um carneiro. Do chifre desse
CHOFAR
carneiro se fez o chofar. Desamarrado, Isaac ficou, entretanto, com a visão muito prejudicada, pois estivera com o rosto voltado para o Sol durante muito tempo, e também porque as lágrimas dos anjos, com muita pena do seu triste destino, como nos diz sua história, caíram sobre seus olhos abertos. Astrologicamente, como sabemos, a visão é regida pelo signo de Áries.  



REI DAVID E SUA HARPA
É desse animal, o carneiro, que tem dez tendões no corpo, que saíram as dez cordas utilizadas por David (nome ariano, derivado de raízes indo-europeias que significam conduzir, brilhar, arder), para fazer a sua harpa. Mil anos antes de nossa era, o reino desse ariano, pastor e guerreiro, marca o apogeu do poderio israelense e anuncia a vinda de um messias. 


ELIAS SUBINDO AOS CÉUS
Ainda dentro desse mesmo cenário, lembremos que o profeta Elias, que ascendeu aos céus numa carruagem puxada por cavalos de fogo, usava um cinto feito com a pele do carneiro. De um dos chifres desse animal foi feito o chofar (trompa), instrumento de sopro tocado na festa de Rosh Há-Shaná para despertar as pessoas de sua letargia espiritual e para convocá-las ao arrependimento. Por trás destas representações está o carneiro que substituiu Isaac na história do Akedá. É por isto que entre os judeus a festa de Pessach, onde se toca o chofar, é comemorada na primavera, no mês de Nissan, o primeiro mês do calendário hebraico. Era nesse mês que se dava início à colheita da cevada, período situado entre março e abril, quando o Sol atravessa o signo zodiacal de Áries.  

O potencial energético do ariano é imenso, tudo nele é movimento, impulso. Falta-lhe, contudo, a noção de limite, de objetivo, de experiência, ou seja, muito fogo e carência do elemento terra. Inflama-se e muda com facilidade, precisa de constante excitação, animação. Sua dificuldade está em se relacionar com os outros, o que implicará sempre em concessões segundo o seu modo de pensar, algo sempre difícil para ele. Receber ordens será também um problema, assim como examinar com cuidado todos os detalhes quando ele tiver que se envolver numa ação. 

 Os cavalos, na mitologia grega, são criação do deus Poseidon sob o nome de Hippios, tendo relação, simbolicamente, como se disse, com o psiquismo inconsciente ou com a psique que não é humana. Parecem-se os cavalos, pela sua imagem ao galopar, crinas ao vento, como a corrida impetuosa das ondas do reino de Poseidon. Lembram possessão, vida inconsciente, impetuosidade dos desejos, que se impõe à vida consciente, simbolizada pelo cavaleiro, o mental. À mercê das forças descontroladas que o cavalo simboliza, o cavaleiro é um possuído, tornando-se o animal um agente devorador do mundo ctônico, das trevas.  O ardor ariano (esta é a lição) deve ser usado não só para movimentar o corpo, para dilatá-lo ou expandi-lo, mas para ativar a mente de modo a que a vida instintiva se submeta à racional e esta, se possível, à espiritual (menos eu, mais o Todo). Tudo isto pede percepção do que está à nossa volta, talvez um pouco menos de entusiasmo e um pouco mais de consideração (etimologicamente, olhar o céu com atenção) pelos outros. O fogo ariano deverá ser transmutado em luz, para que seja possível uma melhor visão do caminho.




No simbolismo astrológico, o carneiro (aries, em latim) representa o começo do Zodíaco. A razão pelo carneiro estar entre os signos zodiacais se deve ao mito do Velocino de Ouro. Em reconhecimento à sua participação nesta história, foi o animal colocado entre as constelações. A longa permanência da pele (velo) de ouro do animal na Cólquida teria enfraquecido o brilho desta constelação e explicaria a razão pela qual as suas estrelas são de magnitude inferior. Esta é uma história que os antigos astrólogos gregos nos contam...

As pessoas nascidas quando do trânsito do Sol por esta constelação entre 21 de março e 20 de abril ou nascidas, pela hora, quando a Terra para ela se volta (Ascendente), se caracterizam normalmente, como dissemos, por disposições combativas, por uma vitalidade incandescente, por um espírito de contradição (criadores de casos), por buscarem sempre um ritmo de vida progressivo, ainda que no geral desorientado. É por essa razão que o tipo clássico ariano alia a sua fogosidade e a sua generosidade a uma obstinação que podem perturbar a sua visão, levando-o por caminhos perigosos. Tipicamente um primário diante da vida, ou seja, é um tipo que processa rapidamente os estímulos recebidos, vivem muitos no tumulto e na intensidade; é desse universo que saem os ativistas, aqueles que  costumam, correr todos os riscos, com os seus choques, seus perigos e suas proezas, mesmo que isso possa significar a morte.

Normalmente, o ariano se sente submetido a um imperativo interior que o leva sempre para frente, obedecendo uma única lei, a da sua própria vontade. Sempre presente a ideia de vencer obstáculos, de vencer os seus antagonistas. A vontade ariana não costuma admitir obstáculos ou limites. Desconsideração e temeridade, próprias do signo, lembram uma de suas máximas, a de que todos os meios são bons, desde que eficazes, como já se disse. O signo pressupõe exploração, iniciação, autoconfiança, liderança nas suas melhores expressões.

Nas suas expressões inferiores, simbolizadas neste trabalho pelos cavalos, o signo lembra impulsividade, grosseria, falta de controle, imprevisibilidade, brutalidade, despotismo. Como proposta de vida superior, o signo pede um aprendizado mais ou menos longo quanto à necessidade do desenvolvimento de atitudes que lembrem moderação, tato, receptividade, percepção do outro, inspiradas por signos que com ele dialogam mais diretamente, Câncer, Libra e Capricórnio, principalmente os dois últimos, Libra, que lhe é complementar, e Capricórnio, que é o seu oposto psicológico.



PERSEU E ANDRÔMEDA
Ao signo de Áries e consequentemente ao primeiro trabalho de Hércules associamos cinco constelações: Cassiopeia, Cefeu,
Andrômeda, Ceto e Eridano. A primeira (25º Áries – 0º Gêmeos) nos fala de uma rainha orgulhosa, tomada pela hybris (descomedimento), muito vaidosa, que se considerava mais bela que as nereidas. Incomodadas por essa ofensa, elas pedem a intervenção do pai, o deus Poseidon. Cassiopeia quer dizer tanto beleza de rosto e de voz quanto orgulho. O deus dos oceanos enviou um monstro marinho, Ceto, para destruir o país. Consultado, o oráculo diz: para que isto não aconteça, alguém terá que ser oferecido em sacrifício. Andrômeda, filha de Cassiopeia e de Cefeu, o rei, acaba sendo escolhida. Perseu, herói que voltava da expedição em que degolara a Medusa, intervém e salva a princesa, que lhe é dada em casamento, condição imposta pelo herói para intervir. A mais importante estrela da constelação de Cassiopeia é Schedar, a 7º05´Touro, cujas influências apontam para honras, respeito, desejo de reconhecimento.

Andrômeda (em grego, andros, homem viril, corajoso; medein, impor-se comandar) vai de 12º Áries – l5º Touro. Sua influência é de natureza venusiana. Suas principais estrelas atuam em l3º 37 Áries (Alpheratz, alfa), inclinando à vida em liberdade, novas ideias; em 29º42´Áries (Mirach, beta), favorecendo a receptividade, a intuição criativa, a sensibilidade para ouvir.

Cefeu (em grego, soberania do macho, zangão) vai de 17º Peixes – 0º Câncer. Características saturno-jupiterianas, ideias de limites impostos pela lei. No mito, não deixou herdeiros masculinos; será substituído por Perses, seu neto. Aldemarin é a sua estrela mais importante, a l2º05´Áries; proporciona benefícios por atitudes não agressivas, menos dramaticidade na ação.



FAETONTE FULMINADO POR ZEUS
Eridano no mito é filho de Oceano e de Tetis, um deus-rio. Está ligado à história de Faetonte, filho do deus solar Hélio e de Clímene. Jovem, impetuoso, ele pede ao pai o seu carro solar. Atendido por intercessão materna, recebe a recomendação de não se afastar da eclíptica. Desprezando o conselho, não sabendo dominar os cavalos do carro solar, põe em perigo a ordem cósmica, ameaçando especialmente a Terra (Geia), com os seus perigosos rasantes. É fulminado por Zeus, caindo o seu corpo no rio Eridano. Suas irmãs, as Helíades, recolheram-no, prestando honras fúnebres. As lágrimas das irmãs, em contacto com as terras das margens do rio, provocaram o nascimento de árvores que lembram tristeza (chorões, salgueiros). A constelação vai de 15º Peixes – 0º Gêmeos. Eridano corre em direção do oceano levando tudo no seu fluxo, indiferente ao que arrasta. Ao final, a chegada à indiferenciação oceânica. Descendo montanhas, atravessando planícies, perdendo-se nos lagos, os rios simbolizam o fluir da existência humana com os seus desejos, as suas intenções, os seus sentimentos e emoções. Neste sentido é Eridano o rio da vida. Sua principal estrela é Achernar, que será analisada em Peixes.



CETO, PERSEU E ADRÔMEDA
Ceto era o monstro que devoraria Andrômeda. Perseu o matou ao
lhe apresentar a cabeça da Medusa. É uma espécie de descomunal baleia que tudo engole. Vai de l7º Peixes – 14º Touro Os astrólogos cristãos medievais a identificaram como a baleia que engoliu Jonas. Sua principal estrela é Menkar, a 13º37´Touro. Predispõe a sofrer influências da vida coletiva, podendo ajudar, se bem aspectada, a escolher caminhos favoráveis. Ceto faz parte da galeria dos grandes monstros  que se caracterizam por sua bocarra gigantesca, da qual fazem parte o crocodilo (na Índia, Makara, nome do signo de Capricórnio), o hipopótamo, o lobo, o jaguar etc. São animais de grande goela, que tudo devoram, funcionando simbolicamente a sua bocarra como instrumento de mediação entre dois estados, o inferior e o superior, lembrando vida infernal ou renascimento (a saída do ventre da baleia).

A constelação de Áries, entre mais ou menos 2.000 aC e 500 dC (matematicamente, entre 1.662 aC e 498 dC) adquiriu a condição

de heliacal (a que aparece com o Sol), marcando por isso o equinócio da primavera e assumindo uma posição de liderança no chamado zodíaco trópico. A boa leitura astrológica dos céus sempre nos permitiu entender que quando o equinócio da primavera se movimenta (precessão dos equinócios) para uma nova constelação, a cada 2.160 anos, grandes acontecimentos mudam a vida na Terra (questões religiosas, políticas, sociais, econômicas, culturais).

Quando Áries assumiu a posição apontada tivemos historicamente uma grande movimentação das tribos no chamado mundo indo-europeu, com migrações que acabaram por dar origem às civilizações indiana, grega e celta. Foi durante a era cósmica de Áries (signo de fogo, cardinal) que constatamos a ocorrência de grandes invasões e a ocupação de grandes territórios na Europa e na Ásia (primeiro nível do fogo, correspondente ao império da vida instintiva; guerras, destruição etc.), que tivemos, no ocidente, o aparecimento da filosofia (segundo nível do fogo, pensamento racional; a escola jônica na Grécia; a substituição do mito pelo
TALES DE MILETO (ESCOLA JÔNICA)
logos, a “morte” dos deuses gregos em nome da razão; Hermetismo greco-alexandrino etc.) e que, finalmente, grandes profetas apareceram (terceiro nível do fogo, vida espiritual), instituindo-se oficialmente muitas religiões, crenças e seitas filosófico-religiosas: Buda, Lao-Tse, Mahavira, Mitra, Moisés, Confúcio, Cristo, Maomé (a última religião da era de Áries), Mani etc. As principais religiões da era de Áries encontram a sua mais antiga expressão nas grandes religiões patriarcais, monoteístas, as religiões do Uno, a judaica (inspirada no culto do deus Aton, sob o patrocínio do faraó Akhenaton) e suas dissidências, a cristã e a islâmica, todas se valendo dos principais ingredientes do signo para se impor:  guerras, ocupação militar, colonização, catequização forçada e grande patrimônio em bens materiais e financeiros.