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domingo, 16 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (3)


ARES


Ares, entre os gregos, é o deus da guerra, da violência, do enfurecimento. Seu nome, em grego, lembra infortúnio, desgraça. Filho de Zeus e Hera, no panteão grego ele e Afrodite eram as divindades mais distantes do Senhor do Olimpo, o que aponta para a sua origem estrangeira, ele oriundo da Trácia e ela oriental, mesopotâmica e fenícia.





Ares representava uma forma de energia ligada ao mundo guerreiro, à violência, à força bruta, algo nunca muito bem assimilado pelo mundo grego, principalmente no período clássico (sécs. V e IV aC), todo ele inspirado pelos princípios apolíneos, que nos falam de harmonia, de equilíbrio, de controle da vida instintiva, de espiritualização. 

Pelo seu aspecto, sempre armado, pelas suas companhias, sempre ruidosas, pelas suas antipatias e desavenças e pelas suas vilegiaturas, sua convivência olímpica era, com efeito, muito complicada. Os filhos de Ares eram, como ele, violentos, malfeitores, facínoras, salteadores, todos ímpios e cruéis. 


ERIS
Faziam parte do seu séquito, dentre outras, figuras sinistras como Eris, a deusa da discórdia; as Keres, as Devastadoras, sempre de negro, aladas, garras aduncas, entidades que definiam a morte dos guerreiros, além de depredadoras dos cadáveres nos campos de batalha; eram irmãs de Hipnos e de Thanatos. As Keres apareciam sempre nas cenas das batalhas e nos momentos de grande violência. Outra companheira de Ares era Enio, demônio feminino da guerra,
UMA   DAS   KERES
amante das carnificinas; é representada sempre coberta de sangue; passa às vezes por  mãe de Ares ou por sua ama; em Roma, toma o nome de Belona, deusa da guerra. Fobos (Pavor) e Deimos (Terror), gêmeos,  filhos que tivera com Afrodite, jamais se separam dele, pois a mãe nunca os reconheceu como filhos. Ares gostava muito de passar longas temporadas na Trácia, ao norte da Grécia, onde se divertia, participando de jogos militares, lugar de gente selvagem, briguenta,  de criadores de cavalos e de soldados mercenários. 


Consta de antigas tradições míticas que originariamente Ares era uma divindade ligada às tempestades, mais especialmente aos furacões. Aos poucos, estes sentidos se perderam, passando o deus a assumir um caráter bélico, aparecendo inclusive como deus dos conflitos nas relações humanas. Seus grandes prazeres nas batalhas eram a morte violenta e o massacre. Daí, a sua grande antipatia por Palas Athena, também deusa guerreira, mas considerada oficialmente como deusa da força guiada pela razão, das justas batalhas.

O lema de Ares era o da violência pela violência, não lhe interessando motivações éticas ou morais. Entregava-se totalmente ao impulso agressivo, sendo por isso às vezes ferido, já que se descuidava da sua segurança. Um exemplo do que afirmamos aqui está na guerra de Troia, quando tomou sob sua proteção o herói troiano Heitor e foi ferido por Diomedes, ajudado por Athena.


PALAS   ATHENA

Neste sentido, vexaminosa foi a sua captura por Otos e Elphiates, os Alóadas, gigantescos filhos de Poseidon e de Ifimedia, então casada com Aloeu. Irritados com Ares, que havia assassinado Adonis, grande amor de Afrodite, os gigantes conseguiram prender Ares num enorme vaso de bronze, que ali ficou por longo tempo até que Hermes o libertou. 


ALÓADAS   E   ÁRTEMIS

Ares, com o seu temperamento irritadiço, indispunha-se com frequência com os demais deuses olímpicos, principalmente com Palas Athena e com Hera. Zeus mal o suportava, vendo-o como um “mal necessário”. Era chamado, por isso, de mainomenos, isto é, louco, possesso. Somente Afrodite, com as suas artes amorosas, o acalmava.

HOPLITA  ESPARTANO
Gigantesco, esplêndido fisicamente, Ares usava sempre uma armadura de bronze e carregava a espada, a lança, o escudo e as cnêmides (polainas metálicas). Era o modelo do combatente de infantaria (hoplita), isto é, do soldado que combate a pé. Ares julgava indignos o arco e a flecha, de inspiração apolínea, chegando mesmo a considerá-los como arma dos covardes, pois os que os usavam evitavam o corpo a corpo, o contacto direto.   

Nas suas batalhas pessoais, porém, nem sempre se saiu bem. Hércules conseguiu feri-lo. Hefesto o ridicularizou. Seu culto era pobre em Atenas, sendo mais reverenciado em Esparta, polis militarizada, na Beócia e em Tebas. Era chamado pelos gregos, os de Atenas principalmente, de o “Deus das Lágrimas”, de “Bebedor de Sangue” ou de “Flagelo dos Humanos”. Sempre brutal e insensível, jamais se adaptou à Hélade. 

Positivamente, Ares era saudado como deus da primavera, protetor das colheitas (missão guerreira). Ainda segundo esse entendimento, era o vingador de todas as ofensas, principalmente as da violação dos juramentos. Favorecia a circulação da seiva na natureza. Suas festas se realizavam em março, na primavera, quando Sol ingressava na constelação do Carneiro (Áries). Era também o deus da juventude, guia dos jovens que emigravam em busca de uma outra vida nas terras novas. Dentre os seus atributos, destacamos uma tocha flamejante, sinal que, com a lança, carregadas por seus sacerdotes, significava o início de batalhas. Entre os seus animais temos o abutre, o carneiro, o lobo e o javali

O lobo, animal ligado à vida instintiva (primeiro nível do fogo, o signo de Áries na Astrologia), é um dos símbolos do poder destrutivo do Sol. Não é por acaso, aliás, que na mitologia celta o lobo representa Loki, o grande destruidor, gênio do mal. Este aspecto perigoso é evidenciado nos contos e lendas em várias tradições nas quais o animal personifica a ferocidade ou uma força que hipocritamente aparece como tentadora, a do sedutor masculino, ávida, destituída de escrúpulos, como no caso do Chapeuzinho Vermelho. É o lobo uma imagem arquetípica da libido descontrolada, representada muitas vezes por uma avidez oral, onde aparecem tendências egoístas, antissociais, violentas, virtualmente destrutivas do outro. Como a serpente e o urso, o lobo simboliza também a sombra, aspecto inconsciente da personalidade, cuja emersão pode ser perigosa pelas energias que desperta  e que ameaçam fazer a consciência submergir.


A ameaça da vida instintiva é uma constante no ser humano. O lobo foi um dos animais escolhidos para representá-la. Não é por acaso que o tema da licantropia é universal, a transformação do ser humano em lobo. Desde a antiguidade, aliás, o lobo sempre foi considerado um “animal fantasma”, bastando a sua visão para tornar as pessoas mudas, paralisadas. Na iconografia cristã, o lobo sempre apareceu como um símbolo das forças diabólicas que ameaçam o rebanho dos fiéis (os cordeiros). Só os santos têm o poder, graças à força do seu amor, de transformar a sua ferocidade em piedade (São Francisco de Assis).

Uma das imagens mais interessantes do lobo está na Alquimia. Os alquimista falam do lupus metallorum que devora o ouro para  “resgatá-lo”. Trata-se esta operação de um processo de purificação do ouro com a ajuda do antimônio, conhecido como o “lobo cinzento” nos laboratórios alquimistas. 


LABORATÓRIO    ALQUÍMICO

O antimônio, lembremos, na Alquimia simbólica, representa a última etapa de um ser no seu elã evolutivo. Esse metal tem a função a limpar as últimas impurezas do ouro antes dele atingir a perfeição. Estas impurezas têm muito a ver, como se pode concluir facilmente, com os aspectos da vida instintiva, que precisam ser controlados (não eliminados; não há ouro 100% puro) devidamente pelo antimônio. Quando julgávamos já ter conquistado o ouro da vida espiritual, eis que, sem que atinemos bem porquê, levanta-se um lobo dentro de nós e  se cometem os desatinos inexplicáveis.

Nesta etapa, a última, como os alquimistas sabem, da transformação do chumbo em ouro (nosso processo evolutivo), muitos falham (a maioria, todos?), não conseguindo controlar o seu lobo interior, embora pensem em tê-lo controlado. Ficam (ficamos) falando de vida espiritual, suas (nossas) emoções estão nela, mas não as suas (nossas) ações. Lembremos, a propósito, que na batalha pela instauração do reino do espírito, impondo-o sobre o reino da matéria e da vida animal, Zeus não conseguiu acabar com Tifon, o maior dos monstros...

Já o javali, como força brutal, que aparece na história de Adônis, é a forma que o deus Ares toma para assassinar o grande amor de Afrodite, deus da vegetação, um símbolo outonal. Adônis é assassinado no outono (desaparecimento da vegetação). A morte de Adônis, como o rapto de Kore, são alegorias de descidas infernais. Daí representar o javali a destruição, sendo, por isso, em muitas tradições, visto como emblema guerreiro. É considerado geralmente como um animal demoníaco pela sua impetuosidade (a devastação dos campos que provoca). Associado ao fogo (signo de Áries) lembra também o fogo das paixões.


VARAHA
Noutras tradições, como na celta, o javali é,entretanto, símbolo espiritual, no que lembra, pelos seus hábitos solitários, a figura do druida. Na Grécia, o javali, positivamente, faz parte de um conjunto simbólico (espiritual) ligado a Zeus no qual se incluem o carvalho, a águia e a trufa. Na Índia, Varaha, o Javali, é uma das encarnações (avatar) do deus Vishnu, segunda pessoa da trindade hinduísta, aspecto sob o qual o deus retirou a Terra das águas e a organizou. 

O carneiro aparece em muitos mitos associado à ideia de arrebatamento e de vitalidade sexual.         Como suporte simbólico,
representa as forças incontidas e criativas da natureza, o instinto de procriação que assume a continuidade da vida, inclusive o impulso agressivo. No Egito, por exemplo, Khnemu ou Khnum (fig. esq.), o deus da criação e da fertilidade, é representado com uma cabeça de carneiro. Na religião egípcia, o carneiro é um símbolo do poder fertilizador-gerador, tendo relação com todas as divindades que têm relação com a regeneração periódica da natureza. O deus Amon, por seu lado, costumava ser representado com chifres de carneiro. Diz a lenda que quando da conquista do Egito Alexandre Magno foi tomado por um enviado celeste, pois sua cabeleira parecia encobrir dois chifres de carneiro. 



Fogoso, indomável e poderoso, o carneiro faz parte das imagens de alguns deuses gregos, como a de Hermes Kriophoros e de Apolo Karneios. Quanto a Hermes, narra o mito que o deus livrou a Beócia de uma epizootia quando apareceu carregando um carneiro nos ombros. Quanto a Apolo, nessa forma, era muito honrado pelo militarismo espartano.


As tribos que invadiram a Grécia por volta do ano 1000 aC, os dóricos, trazendo a metalurgia do ferro, a pederastia como forma de educação militar e a nudez do atleta contribuíram bastante para que o culto de Ares ganhasse um novo impulso. Se os sacerdotes de
VELOCINO   DE   OURO
Delfos, oráculo de Apolo, foram os inspiradores do colonialismo grego, Ares foi o “executor” dessa política, fazendo o trabalho de campo, invadindo e ocupando várias regiões do Mediterrâneo e da Ásia Menor. A história dos argonautas, heróis gregos que foram à Cólquida (Ásia Menor) se apoderar o Velocino de Ouro é uma ilustração do que acabamos de dizer. Lembro que uma “atualização” cristã do mito dos argonautas aparecerá na Idade Média com o nome de a Busca do Santo Graal.



IXION

A descendência de Ares é responsável por uma lamentável crônica de violência e de crimes. Seus filhos, como se disse, lembram nesse sentido os de Poseidon. Flégias (inflamado), por exemplo, foi pai de Coronis e de Ixion. A primeira, amante de Apolo, o traiu, embora carregasse no ventre um filho dele, o futuro deus médico, Asclépio. Ixion, por seu lado, foi um dos grandes criminosos da mitologia grega, preso para sempre no Tártaro. Unindo-se a Nephele, a Nuvem, um simulacro da deusa Hera, a quem queria estuprar, Ixion tornou-se pai dos Centauros, monstruosas figuras híbridas, com busto de homem terminado por um corpo de cavalo. Passaram essas figuras a representar as constantes ameaças da vida instintiva que o ser humano tem que suportar na sua trajetória existencial. Lembre-se que o cavalo, associado aos Bestiários medievais sempre foi considerado como um símbolo universal da energia psíquica posta a serviço das paixões humanas, em particular da paixão sexual que, não controlada, leva o homem à destruição.

HÉRCULES   E   DIOMEDES

Com Pirene, Ares foi pai de três filhos, Cicno, Diomedes Trácio e Licaon. O primeiro assaltava peregrinos que se dirigiam ao oráculo de Delfos; Diomedes Trácio alimentava os seus animais (éguas) com carne humana, como está no primeiro trabalho de Hércules; Licaon bateu de frente com Hércules e morreu nas mãos do herói, como havia ocorrido com os outros dois.



Um episódio de destaque na vida do deus foi o da morte de Halirrótio, filho de Poseidon. Ares matou-o porque ele tentara estuprar sua filha, Alcipe. Levado pelos deuses a um tribunal, Ares, para espanto de todos, defendeu-se brilhantemente, sendo absolvido.  Esse tribunal se reuniu numa colina, o Areópago (Areios Pagos, colina de Ares), em Atenas. Orestes, o matricida, também foi julgado nesta colina.


AREÓPAGO  

Na história de Atenas, o Areópago funcionou historicamente tanto como um tribunal judiciário como assembleia política, reduzida depois a sua estrutura para, como órgão administrativo, exercer apenas o controle dos costumes públicos e da aplicação das leis da cidade. Uma curiosidade: foi a esse local que, em 375 aC, compareceu a cortesã Frineia, amiga e modelo do escultor
DENYS   AREOPAGITA
Praxíteles, para ser acusada publicamente de impiedade. Seu defensor, Hypéride, num golpe de mestre, a desnudou diante de todos os presentes e proclamou:”Merecerá beleza como esta a condenação?” Obviamente, a grande cortesã  foi absolvida e carregada em triunfo pelas ruas da polis. Foi neste local também que São Paulo pregou, convertendo o senador Dyonisus, conhecido depois pelo nome de Denys Areopagita, primeiro bispo de Atenas, e  santificado pela Igreja católica.

AFRODITE   E   ARES
O caso mais escandaloso de Ares foi o do seu affaire com Afrodite (uma ilustração astrológica do eixo Áries-Libra). Mal chegada ao Olimpo, Zeus literalmente “empurrou” a deusa para um casamento com Hefesto, o deus metalúrgico, artífice divino.Esta “generosidade” de Zeus para com seu filho é explicada: embora desejasse muito se aproximar sexualmente da belíssima recém-chegada, ele não o conseguiu, pois Hera, sua imperial esposa, manteve marcação cerrada sobre ele quando das festas realizadas no Olimpo para receber Afrodite, que a todos encantava.
  
Feio, aleijado, vivendo mais para as suas “indústrias” (na ilha vulcânica de Lemnos), Hefesto era o deus da metalurgia e das forjas. Descuidando-se de seus deveres matrimonias, deixou a jovem e apetitosa Afrodite abandonada no seu palácio. Numa das
AFRODITE,  ARES   E   ALECTRION  (TINTORETTO)
muitas reuniões olímpicas, ela e Ares se conheceram, sentindo-se a bela deusa atraída pelo esplendor físico do deus da guerra. Logo se tornaram amantes. Numa das vezes em que se encontraram, Ares escalou para ficar à porta do quarto, como sentinela, um assessor, Alectrion, com a incumbência de avisá-lo antes que Hélio, o deus-Sol aparecesse nos céus. Tal não aconteceu, Alectrion dormiu. A luz solar pôs então tudo à mostra, os dois amantes abraçados, dormindo, entregues ao doce cansaço de uma fogosa noite de amor. 



AFRODITE ,  ARES   E   EFESTO

Os deuses do Olimpo acorreram. As deusas, entretanto, advertidas por Aidos, o Pudor, evitaram comparecer. Hefesto, tomando conhecimento do acontecido, se deslocou rapidamente para o seu palácio ainda a tempo de surpreender os amantes presos ao sono. Como deus dos nós, das soldas, dos ferrolhos,  Hefesto lançou sobre os dois uma rede, prendendo-os de tal modo que jamais conseguiriam se libertar. Instado pela turma do “deixa disso”, acabou o deus coxo entretanto concordando em libertá-los. Afrodite demonstrou não se importar muito com a cena. Retirou-se logo para a ilha de Chipre, a ilha do cobre, onde, recebida pelas Horas  e pelas Cárites, se recompôs rapidamente com banhos, cremes e massagens, voltando logo a reassumir as suas funções de deusa do
FOBOS   E   DEIMOS
amor, como se nada tivesse acontecido. Ares, por seu turno, se mandou para a Trácia e lá ficou por uns tempos, praticando esportes, metido com os seus cavalos, limpando as suas armas. Alectrion, o dorminhoco, foi transformado por Ares num galo, obrigado a cantar às madrugadas antes de Hélio aparecer. Outra consequência desse affaire: Ares e Afrodite tornaram-se pais de três filhos: Fobos, Deimos e Harmonia (filha da guerra e da paz), que se casaria com Cadmo, fundador da aristocracia tebana.

Além da Trácia, Ares foi particularmente venerado na Cítia;, região próxima do Mar Negro, onde vivia um povo guerreiro;  em Olímpia o deus recebia o nome de Ares-Hippios e em, Esparta, de Ares-Enyalios (Belicoso), nomes, aliás, perfeitamente justificados sob o ponto de vista astrológico. Dentre todos os deuses do Olimpo, Zeus, como está na Ilíada, o considera como o mais odioso, pois “tu não amas senão a discórdia e os combates; tens o espírito intratável de tua mãe, que mal consigo reprimir com minhas palavras.”

Ao se referir ao filho dessa maneira, Zeus definia o seu  caráter, “deus furioso, naturalmente mau e inconstante, que, na sociedade olímpica, nenhuma simpatia desperta.” A imagem antropomorfizada  que a estatuária grega passou dele, a de um tipo fortíssimo, alto, barbudo, sempre armado, conduzindo muitas vezes um carro de combate, apesar de ser o grande modelo do infante (hoplita, o militar que combate a pé), fixou a sua imagem como a de um grande soldado. Sem se contestar aqui o seu grande valor como guerreiro, o que o prejudicava, porém, era a sua permanente sede de sangue e de carnificina, de corpos dilacerados, a sua pressa em destruir os seus alvos humanos e de encerrar as suas batalhas.

Mas não será por essas características que ele se diferenciava de Palas Athena. O que o irritava na deusa era a sua pretensão de se fazer passar por uma divindade em que a força se mostrava sempre controlada pela razão, que a sua a coragem era  inteligente e refletida. Na realidade, Palas Athena não era nada disso, era até muito competitiva, gostava das disputas, provocava-as, inclusive. A deusa, como se sabe, tinha um forte componente masculino na sua personalidade, vivia armada, seu corpo  indevassável, sempre protegido por um elmo. E como se tudo isto não bastasse, lembre-se que havia recebido de Zeus o privilégio de se manter eternamente virgem. Ela e Ares irritavam-se constantemente. A visão de Athena o punha furioso. Por essas razões, pela sua impetuosidade e agressividade cega, é que Ares deixou de vencer muitas lutas nas quais se empenhou. 

Cada tradição mítica da antiguidade teve o seu deus da guerra. Se nos aprofundarmos um pouco mais na questão da formação desse arquétipo entre os romanos notaremos que ele é, como aconteceu com  os gregos, um produto da contribuição de várias tradições. Por trás do Marte romano temos sem dúvida o Ares grego, o Marte dos Sabinos e muitos outros. 

Não podemos esquecer que Ares, como tudo indica, foi uma
NERGAL
“importação” da Trácia, das tribos que dessa região chegaram, como invasoras, na Tessália, na Beócia e na Fócida. Quando Ares chegou ao mundo grego, antes certamente da idade do bronze, os gregos o aproximaram do Hades, já que vinha acompanhado simbolicamente de serpentes e dragões, tinha a ver com os mortos e aceitava sacrifícios humanos, no que lembrava bastante, aliás, o deus Nergal dos mesopotâmicos.


Consta que a primeira união dessa divindade importada em território grego foi a que estabeleceu com uma das Erínias com a qual gerou um dragão. Esse dragão, como se sabe, foi liquidado por Cadmo (nome grego que traduz uma ideia de sobrepujar). Cadmo é um herói tebano, alcançando seu mito o mundo mediterrâneo, a Ásia Menor e o norte da África (Líbia). 


Cadmo (filho de Agenor e de Telefassa, reis de Tiro e Sídon) era irmão da princesa Europa, que, unindo-se a Zeus, deu origem à dinastia minoana. Depois de uma longa viagem, Cadmo acabou se fixando na Beócia. Mandou que um de seus companheiros fossem buscar água numa fonte próxima. Ao se aproximar, seus homens viram que a fonte era guardada por um dragão. Cadmo conseguiu matar o monstro e, a conselho de Palas Athena, semeou-lhe os dentes. No local em que os dentes do dragão tocaram a terra surgiram homens armados e violentos, aos quais foi dado o nome de spartoi, isto é, os semeados, ancestrais dos espartanos. Cadmo lançou pedras entre eles; não sabendo quem as atirava, acusaram-se mutuamente e entraram em luta, sobrevivendo apenas cinco spartoi.

CADMO   E   HARMONIA
A morte do dragão, por decisão dos deuses, teve que ser expiada por Cadmo. Ele foi obrigado a servir o deus Ares por oito anos como escravo. Terminado esse período, Zeus lhe deu como esposa Harmonia, a filha de Ares e de Afrodite. Segundo o mito, Tebas teria sido fundada pelo fenício Cadmo. Uma das filhas dele e de Harmonia, lembre-se, Sêmele, tornou-se mãe do grande deus Dioniso.  
  

Diodoro Sículo afirma que historicamente o primeiro Marte foi Belo, um rei da Babilônia, inventor de armas e da arte de dispor os exércitos nos campos de batalha. Higino, por sua vez, declara que este rei foi assim chamado, Belo, por ter sido o primeiro a usar dardos (belos) como arma de guerra. O Marte romano teria, na linha dessas contribuições, incorporado traços de um chamado Marte Hiperbóreo, divindade que, entre os germânico-escandinavos, era chamado de Odin ou Wottan. 

Os gregos formaram o seu Ares, como aliás todas as mitologias o fizeram, incorporando os traços de vários deuses da guerra, agregando ao modelo as características próprias de suas tradições, da sua invenção e da sua fantasia. Hesíodo, na sua Teogonia, deu a Ares como pais Zeus e Hera. Muitos dos traços da divindade grega passaram para o Marte romano, sem dúvida. Entretanto, é preciso lembrar que um deus da guerra já era honrado em terras itálicas antes da chegada do modelo grego.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

PRIMEIRO TRABALHO DE HÉRCULES




 

As Éguas de Diomedes - Diomedes, filho de Ares e  de Pirene, rei da Bistônia, possuía éguas selvagens, negras, antropófagas, que soltavam fogo pelas ventas.
DIOMEDES
Chamavam-se elas Podargo, Lâmpon, Xanto e Dino e eram filhas de uma das Harpias, pavorosos monstros infernais arrebatadores. Alimentavam-se de carne humana que Diomedes lhes dava, principalmente a dos estrangeiros que inadvertidamente entravam no território trácio e por ele eram mortos. Geravam essas éguas cavalos selvagens como elas, indomáveis, destruidores. A tarefa de Hércules era a de dominar os animais e levá-los a Micenas.

A Bistônia ou Trácia ficava ao norte da Grécia, perto do mar Egeu. As tribos que lá viviam, oriundas da Ásia Menor, falavam uma língua derivada do indo-europeu. Eram pastores, belicosos e ferozes, famosos pelas suas bebedeiras, e gostavam muito de cavalos. Adoravam o deus Dioniso e suas sacerdotisas, tão
 alucinadas quanto as mênades, eram conhecidas pelo nome de bistônidas Forneciam escravos e mercenários aos gregos. Tinham uma cultura importante, com destaque para a música e para a poesia. É desse mundo que saem os cultos dionisíacos e os mitos referentes a Orfeu, Lino, às musas Piérides e aos Cabiros que vão permear toda a cultura grega. 

HÉRCULES E LINO

Chegando ao seu destino, Hércules foi logo desafiado por Diomedes. Atracam-se; golpeado mortalmente pelo nosso herói, o corpo do rei da Bistônia foi lançado às éguas, que o devoraram.
HÉRCULES E DIOMEDES
Uma vez saciadas, mais calmas, Hércules conseguiu dominá-las com relativa facilidade, pondo-lhes cabresto, e as entregou aos cuidados de seu amigo Abderis (um filho do deus Hermes) para que ele as conduzisse com a recomendação de que fossem mantidas sob rígido controle. Descuidando-se, porém, Abderis acabou devorado por elas. Hércules teve que recapturá-las, um trabalho intenso, cansativo; ao cabo de muito tempo, conseguiu aprisioná-las, levando-as a Euristeu, que as mandou soltar no monte Olimpo, onde foram mortas por bestas selvagens.



HÉRCULES DOMINANDO AS ÉGUAS (ARTE ETRUSCA)
Diomedes é um nome grego cuja etimologia nos remete à ideia de que as ações humanas devem ser inspiradas por princípios superiores, o que jamais aconteceu, como se pode constatar pela extensa biografia do filho do deus Ares. Diomedes é um exemplo típico de arianos que podemos chamar de primeiro nível, ou seja, aqueles inteiramente dominados pela vida instintiva e que se caracterizam sobretudo por uma grande disposição combativa, por um incontrolável espírito de contradição e por uma forte tendência a dispender a esmo enormes quantidade de energia.


ARES E AFRODITE
Quanto ao pai, Diomedes, como se disse, era filho de Ares, deus da guerra, uma divindade que, embora fizesse parte do panteão olímpico oficial, nunca se aproximou muito de Zeus. Ele e Afrodite, considerados como divindades “estrangeiras”, jamais mantiveram boas relações com os olímpicos. Ares era oriundo da Trácia, que ficava perto da Macedônia, uma região muito temida pelos gregos, cujos habitantes sempre foram por eles mantidos à distância. Em grego antigo, aliás, Trácia quer dizer perturbação, agitação. Além do mais, Ares tinha um aspecto brutal, seu comportamento violento e agressivo, seu prazer pela carnificina e pelas batalhas nunca o tornaram simpático aos deuses e aos mortais.

Ares, como toda divindade grega, era acompanhado nos seus deslocamentos por um séquito barulhento  agressivo, dele
ARES
fazendo parte, além de outras, entidades como Eris, a deusa da discórdia, as Keres, deusas das carnificinas, as Harpias, monstros infernais, Enio (em Roma chamar-se-á Belona), demônio da guerra,  a condutora dos carros de batalha, Bia, a Violência, e Crato, o Poder, estes dois últimos também capangas de Zeus, todos eles espíritos belicosos.   

A mãe de Diomedes chamava-se Pirene (etimologicamente, de pyr, fogo), sendo, ele, portanto, irmão de Cicno, bandido violento e sanguinário que matava peregrinos que se dirigiam a Delfos. A pedido de Apolo, Senhor do famoso oráculo, Hércules o matou. Numa peça de Eurípedes, Alceste, Hércules, numa de suas falas, nos revela que era de seu costume opor-se constantemente aos outros filhos de Ares (Licaon e Cicno). 

Os gregos, a elite grega do período clássico mais especialmente, muito voltada para os prazeres da inteligência e para as sutilezas do espírito, manifestaram sempre uma certa repugnância por Ares, deus que, no fundo, tanto pela sua origem como por seu caráter e atribuições, era visto como um “mal necessário”. Ou seja, Ares era até muito útil na medida em que a aristocracia grega colocava as suas aventuras colonialistas sob  a sua tutela. Nesse sentido, lembre-se, por exemplo, que o ciclo dos argonautas (a conquista do Velocino de Ouro objetivava na realidade a instalação de colônias gregas na Cólquida) é um mito tipicamente ariano.



JASÃO E O  VELOCINO DE OURO
Foi durante a sua caminhada em direção da Trácia que Hérculesrealizou o primeiro dentre os seus muitos trabalhos secundários (episódios de percurso). Ao passar pela Tessália, região muito inóspita, em Feres, sua capital, recebeu a informação de que o rei da região, Admeto, fora sorteado para baixar ao Hades. O deus Apolo, que em seu exílio na Terra trabalhara para Admeto, interveio, obtendo das Moiras que elas o poupassem, desde que alguém o substituísse. Os pais do rei, já velhos, não se animaram a fazer o sacrifício pelo filho. Outras pessoas consultadas também não. Só Alceste (modelo de fidelidade conjugal), jovem e bela esposa do rei, se prontificou a morrer pelo marido. Foi neste momento, quando a jovem estava prestes a partir, conduzida por Thanatos, o deus da morte, que Hércules chegou à cidade, pedindo hospitalidade. Tomando conhecimento da história, nosso herói, como era de seu feitio, se dispôs a intervir e travou então um combate terrível contra Thanatos, vencendo-o, conseguindo arrancar Alceste de suas garras.

Mas vamos às éguas: neste trabalho, elas representam simbolicamente a vida na escala instintiva, o primeiro nível do elemento fogo (o segundo é o da vida racional e o terceiro da vida espiritual, que, na astrologia, correspondem, respectivamente, aos signos de Leão e Sagitário), fonte de ideias, conceitos ou teorias que costumam nos levar a paixões e a conflitos destrutivos, mortais. Como matrizes descontroladas, essas éguas geravam cavalos (os nossos próprios atos) indomáveis, assassinos, que, como percebeu Hércules, se tornavam muito mais furiosos e enlouquecidos ao beber das águas de um lago próximo, alimentado por um rio da região. Hércules entendeu que se impedisse que as águas do rio chegassem ao lago, os cavalos perderiam muito de sua fogosidade. Foi o que fez; desviou-as, tornando-se os animais, ao consumir apenas a água do lago, muito mais calmos, o que facilitou sobremodo a sua captura. É neste trabalho, como podemos notar, que Hércules demonstra pela primeira vez um forte traço de sua personalidade, repetido outras vezes, a sua grande inclinação por trabalhos hidráulicos, inclusive de drenagem, para a solução dos problemas concretos que encontrava.   

Os cavalos, como sabemos, são símbolos do psiquismo inconsciente, aparecendo associados sempre à impetuosidade, à força indomável dos desejos, que podem se impor à mente racional (segundo nível do fogo), ao bom senso e à lógica. Será preciso dominá-los, mantê-los sob permanente controle. Do contrário, eles nos destruirão, como aconteceu com Abderis (símbolo do mental descuidado, distraído, desatento). Para homenagear seu amigo morto, Hércules fundou Abdera, cidade trácia que se tornaria depois muito importante. 



POSEIDON
Os cavalos, lembremos, segundo o mito grego, são criaturas de Poseidon, deus do elemento líquido, dos mares e dos oceanos, que os gerou sob o nome de Hippios. Esta a razão pela qual esses animais em todas as tradições, dentre outras hipóteses simbólicas, sempre apareceram associados à fertilidade, às águas de origem subterrânea, a fontes, a algo que podia aflorar descontroladamente na superfície. Relacioná-los com a imaginação e com estados mediúnicos foi (é) também algo muito difundido. Não é por acaso que em certas tradições religiosas se dá o nome de cavalo àquele que recebe entidades, espíritos, àquele que inconscientemente dá passagem a energias sobre as quais não consegue ou não pode exercer controle, sendo cavalgado por elas.

Há palavras no léxico de algumas línguas que conservam essa relação entre o cavalo e vida inconsciente. Em francês e inglês, temos, respectivamente, cauchemar e nightmare, pesadelo, palavras que etimologicamente significam a “opressão do cavalo”. A Bíblia, ao usar o cavalo como símbolo do psiquismo descontrolado, contém várias recomendações sobre a necessidade de se controlá-lo, tudo com o sentido de que o homem deve dominar os seus instintos como o bom cavaleiro domina a sua montaria. 



ILUMINAÇÃO DE BUDA
Talvez o melhor exemplo que possamos apontar sobre a relação cavalo-psiquismo inconsciente nos venha do budismo. Sidarta Gautama só se tornou Buda, o Desperto, quando dominou o seu turbilhão mental, alimentado por grandes pressões inconscientes (sentimentos e emoções). Essa conquista ele a realizou, como nos revela a tradição, num plenilúnio (festival de Wesak, Lua cheia do signo de Touro) sentado sob uma árvore que tinha o nome de ashvatha (ficus religiosa), etimologicamente, a “árvore em baixo da qual os cavalos se aquietam”.


PÉGASO (CONSTELAÇÃO)
O que aqui se coloca ficará mais claro com uma referência a
Pégaso, cavalo alado da mitologia grega. Símbolo da inspiração poética, foi esse animal, filho de Poseidon, que, ferindo com uma patada as encostas do monte Helicon, ali fez brotar a fonte de Hipocrene (Fonte do Cavalo), muito visitada por poetas, onde viviam as Musas. Pégaso só podia ser montado por heróis (artistas), isto é, por aqueles que o soubessem dominar, que tivessem a tekhne. A imaginação criativa, por si só, não era suficiente. 

Em Áries, começa o equinócio da primavera; a energia universal,
QUANDO DOIS ARIANOS SE ENCONTRAM
da qual uma pequena parte está em nós, inicia a sua trajetória no plano da matéria. O pensamento precisa comandar a ação, impor-se à vida instintiva, controlá-la, não suprimi-la. Áries é o nascimento desse impulso vital, sendo o seu regente o planeta Marte. Daí o signo governar o nascimento do dia, a aurora, as iniciativas, o começo das coisas e também, no corpo, a cabeça. Corresponde o signo ao nascente, à aurora, ao leste, ao oriente. Os olhos e o fogo são de Áries (aries, arietis, carneiro). Aríete é máquina de guerra para derrubar muros e também saliência reforçada na proa de navios para avariar o casco de embarcações inimigas. Ganhar na marra, vencer à força, a qualquer preço (marrar é bater com a cabeça, acometer com os chifres), é atitude ariana muito comum.

Áries é a primeira emanação de autoconsciência que nos põe diante de um processo de individuação, processo este que analogicamente corresponde a uma cosmogonia. É sempre a imagem do aparecimento de algo acima da superfície (no que lembra um vegetal), trazendo, portanto, a ideia de individuação, de uma energia em busca de forma. É o primeiro movimento, sendo o signo representado, por isso, pelo carneiro, o animal do sacrifício (a energia cósmica presa a uma forma). Na natureza, as plantas começam a despontar, os frutos a buscar a sua forma, os animais saem da sua hibernação. Na Índia, o signo de Áries, ao se relacionar com o impulso vital ainda não orientado adequadamente, para objetivos e metas devidamente formulados, tem o nome de Aja (não nascido). Ou seja, é um signo “a ser”; por isso, os seus nativos só nascerão efetivamente depois de tomarem consciência do que
MOISÉS (G. DORÉ)
significam Touro (segundo mês da primavera, aparecimentos das formas) e Gêmeos (último mês da primavera, as trocas com o meio exterior). Por razões análogas, os antigos astrólogos judeus sempre consideraram os signos de Áries e de Touro como instintivos, associando o início da vida mental a Gêmeos. Este, aliás, é o signo de Moisés, aquele que, com as suas leis escritas, deu realmente nascimento à nação de Israel.

Fogoso, impetuoso, indomável, o carneiro é suporte simbólico de diversos mitos e histórias. Ao representar as forças irrefreáveis e criadoras da natureza, ele representa o instinto de procriação que assegura a continuidade da vida. Cada cultura traduziu tudo isso à
AKEDÁ
sua maneira. Entre os judeus, por exemplo, é bastante ilustrativa a história de Isaac. Abraão, por ordem de Deus, deveria sacrificar esse filho tão ansiosamente esperado. A esse sacrifício os judeus davam o nome de Akedá (amarração). No último momento, o arcanjo Gabriel deteve a mão de Abraão. Isaac, que se submetera voluntariamente à ordem paterna, estava amarrado num altar. Salvo, no seu lugar foi colocado um carneiro. Do chifre desse
CHOFAR
carneiro se fez o chofar. Desamarrado, Isaac ficou, entretanto, com a visão muito prejudicada, pois estivera com o rosto voltado para o Sol durante muito tempo, e também porque as lágrimas dos anjos, com muita pena do seu triste destino, como nos diz sua história, caíram sobre seus olhos abertos. Astrologicamente, como sabemos, a visão é regida pelo signo de Áries.  



REI DAVID E SUA HARPA
É desse animal, o carneiro, que tem dez tendões no corpo, que saíram as dez cordas utilizadas por David (nome ariano, derivado de raízes indo-europeias que significam conduzir, brilhar, arder), para fazer a sua harpa. Mil anos antes de nossa era, o reino desse ariano, pastor e guerreiro, marca o apogeu do poderio israelense e anuncia a vinda de um messias. 


ELIAS SUBINDO AOS CÉUS
Ainda dentro desse mesmo cenário, lembremos que o profeta Elias, que ascendeu aos céus numa carruagem puxada por cavalos de fogo, usava um cinto feito com a pele do carneiro. De um dos chifres desse animal foi feito o chofar (trompa), instrumento de sopro tocado na festa de Rosh Há-Shaná para despertar as pessoas de sua letargia espiritual e para convocá-las ao arrependimento. Por trás destas representações está o carneiro que substituiu Isaac na história do Akedá. É por isto que entre os judeus a festa de Pessach, onde se toca o chofar, é comemorada na primavera, no mês de Nissan, o primeiro mês do calendário hebraico. Era nesse mês que se dava início à colheita da cevada, período situado entre março e abril, quando o Sol atravessa o signo zodiacal de Áries.  

O potencial energético do ariano é imenso, tudo nele é movimento, impulso. Falta-lhe, contudo, a noção de limite, de objetivo, de experiência, ou seja, muito fogo e carência do elemento terra. Inflama-se e muda com facilidade, precisa de constante excitação, animação. Sua dificuldade está em se relacionar com os outros, o que implicará sempre em concessões segundo o seu modo de pensar, algo sempre difícil para ele. Receber ordens será também um problema, assim como examinar com cuidado todos os detalhes quando ele tiver que se envolver numa ação. 

 Os cavalos, na mitologia grega, são criação do deus Poseidon sob o nome de Hippios, tendo relação, simbolicamente, como se disse, com o psiquismo inconsciente ou com a psique que não é humana. Parecem-se os cavalos, pela sua imagem ao galopar, crinas ao vento, como a corrida impetuosa das ondas do reino de Poseidon. Lembram possessão, vida inconsciente, impetuosidade dos desejos, que se impõe à vida consciente, simbolizada pelo cavaleiro, o mental. À mercê das forças descontroladas que o cavalo simboliza, o cavaleiro é um possuído, tornando-se o animal um agente devorador do mundo ctônico, das trevas.  O ardor ariano (esta é a lição) deve ser usado não só para movimentar o corpo, para dilatá-lo ou expandi-lo, mas para ativar a mente de modo a que a vida instintiva se submeta à racional e esta, se possível, à espiritual (menos eu, mais o Todo). Tudo isto pede percepção do que está à nossa volta, talvez um pouco menos de entusiasmo e um pouco mais de consideração (etimologicamente, olhar o céu com atenção) pelos outros. O fogo ariano deverá ser transmutado em luz, para que seja possível uma melhor visão do caminho.




No simbolismo astrológico, o carneiro (aries, em latim) representa o começo do Zodíaco. A razão pelo carneiro estar entre os signos zodiacais se deve ao mito do Velocino de Ouro. Em reconhecimento à sua participação nesta história, foi o animal colocado entre as constelações. A longa permanência da pele (velo) de ouro do animal na Cólquida teria enfraquecido o brilho desta constelação e explicaria a razão pela qual as suas estrelas são de magnitude inferior. Esta é uma história que os antigos astrólogos gregos nos contam...

As pessoas nascidas quando do trânsito do Sol por esta constelação entre 21 de março e 20 de abril ou nascidas, pela hora, quando a Terra para ela se volta (Ascendente), se caracterizam normalmente, como dissemos, por disposições combativas, por uma vitalidade incandescente, por um espírito de contradição (criadores de casos), por buscarem sempre um ritmo de vida progressivo, ainda que no geral desorientado. É por essa razão que o tipo clássico ariano alia a sua fogosidade e a sua generosidade a uma obstinação que podem perturbar a sua visão, levando-o por caminhos perigosos. Tipicamente um primário diante da vida, ou seja, é um tipo que processa rapidamente os estímulos recebidos, vivem muitos no tumulto e na intensidade; é desse universo que saem os ativistas, aqueles que  costumam, correr todos os riscos, com os seus choques, seus perigos e suas proezas, mesmo que isso possa significar a morte.

Normalmente, o ariano se sente submetido a um imperativo interior que o leva sempre para frente, obedecendo uma única lei, a da sua própria vontade. Sempre presente a ideia de vencer obstáculos, de vencer os seus antagonistas. A vontade ariana não costuma admitir obstáculos ou limites. Desconsideração e temeridade, próprias do signo, lembram uma de suas máximas, a de que todos os meios são bons, desde que eficazes, como já se disse. O signo pressupõe exploração, iniciação, autoconfiança, liderança nas suas melhores expressões.

Nas suas expressões inferiores, simbolizadas neste trabalho pelos cavalos, o signo lembra impulsividade, grosseria, falta de controle, imprevisibilidade, brutalidade, despotismo. Como proposta de vida superior, o signo pede um aprendizado mais ou menos longo quanto à necessidade do desenvolvimento de atitudes que lembrem moderação, tato, receptividade, percepção do outro, inspiradas por signos que com ele dialogam mais diretamente, Câncer, Libra e Capricórnio, principalmente os dois últimos, Libra, que lhe é complementar, e Capricórnio, que é o seu oposto psicológico.



PERSEU E ANDRÔMEDA
Ao signo de Áries e consequentemente ao primeiro trabalho de Hércules associamos cinco constelações: Cassiopeia, Cefeu,
Andrômeda, Ceto e Eridano. A primeira (25º Áries – 0º Gêmeos) nos fala de uma rainha orgulhosa, tomada pela hybris (descomedimento), muito vaidosa, que se considerava mais bela que as nereidas. Incomodadas por essa ofensa, elas pedem a intervenção do pai, o deus Poseidon. Cassiopeia quer dizer tanto beleza de rosto e de voz quanto orgulho. O deus dos oceanos enviou um monstro marinho, Ceto, para destruir o país. Consultado, o oráculo diz: para que isto não aconteça, alguém terá que ser oferecido em sacrifício. Andrômeda, filha de Cassiopeia e de Cefeu, o rei, acaba sendo escolhida. Perseu, herói que voltava da expedição em que degolara a Medusa, intervém e salva a princesa, que lhe é dada em casamento, condição imposta pelo herói para intervir. A mais importante estrela da constelação de Cassiopeia é Schedar, a 7º05´Touro, cujas influências apontam para honras, respeito, desejo de reconhecimento.

Andrômeda (em grego, andros, homem viril, corajoso; medein, impor-se comandar) vai de 12º Áries – l5º Touro. Sua influência é de natureza venusiana. Suas principais estrelas atuam em l3º 37 Áries (Alpheratz, alfa), inclinando à vida em liberdade, novas ideias; em 29º42´Áries (Mirach, beta), favorecendo a receptividade, a intuição criativa, a sensibilidade para ouvir.

Cefeu (em grego, soberania do macho, zangão) vai de 17º Peixes – 0º Câncer. Características saturno-jupiterianas, ideias de limites impostos pela lei. No mito, não deixou herdeiros masculinos; será substituído por Perses, seu neto. Aldemarin é a sua estrela mais importante, a l2º05´Áries; proporciona benefícios por atitudes não agressivas, menos dramaticidade na ação.



FAETONTE FULMINADO POR ZEUS
Eridano no mito é filho de Oceano e de Tetis, um deus-rio. Está ligado à história de Faetonte, filho do deus solar Hélio e de Clímene. Jovem, impetuoso, ele pede ao pai o seu carro solar. Atendido por intercessão materna, recebe a recomendação de não se afastar da eclíptica. Desprezando o conselho, não sabendo dominar os cavalos do carro solar, põe em perigo a ordem cósmica, ameaçando especialmente a Terra (Geia), com os seus perigosos rasantes. É fulminado por Zeus, caindo o seu corpo no rio Eridano. Suas irmãs, as Helíades, recolheram-no, prestando honras fúnebres. As lágrimas das irmãs, em contacto com as terras das margens do rio, provocaram o nascimento de árvores que lembram tristeza (chorões, salgueiros). A constelação vai de 15º Peixes – 0º Gêmeos. Eridano corre em direção do oceano levando tudo no seu fluxo, indiferente ao que arrasta. Ao final, a chegada à indiferenciação oceânica. Descendo montanhas, atravessando planícies, perdendo-se nos lagos, os rios simbolizam o fluir da existência humana com os seus desejos, as suas intenções, os seus sentimentos e emoções. Neste sentido é Eridano o rio da vida. Sua principal estrela é Achernar, que será analisada em Peixes.



CETO, PERSEU E ADRÔMEDA
Ceto era o monstro que devoraria Andrômeda. Perseu o matou ao
lhe apresentar a cabeça da Medusa. É uma espécie de descomunal baleia que tudo engole. Vai de l7º Peixes – 14º Touro Os astrólogos cristãos medievais a identificaram como a baleia que engoliu Jonas. Sua principal estrela é Menkar, a 13º37´Touro. Predispõe a sofrer influências da vida coletiva, podendo ajudar, se bem aspectada, a escolher caminhos favoráveis. Ceto faz parte da galeria dos grandes monstros  que se caracterizam por sua bocarra gigantesca, da qual fazem parte o crocodilo (na Índia, Makara, nome do signo de Capricórnio), o hipopótamo, o lobo, o jaguar etc. São animais de grande goela, que tudo devoram, funcionando simbolicamente a sua bocarra como instrumento de mediação entre dois estados, o inferior e o superior, lembrando vida infernal ou renascimento (a saída do ventre da baleia).

A constelação de Áries, entre mais ou menos 2.000 aC e 500 dC (matematicamente, entre 1.662 aC e 498 dC) adquiriu a condição

de heliacal (a que aparece com o Sol), marcando por isso o equinócio da primavera e assumindo uma posição de liderança no chamado zodíaco trópico. A boa leitura astrológica dos céus sempre nos permitiu entender que quando o equinócio da primavera se movimenta (precessão dos equinócios) para uma nova constelação, a cada 2.160 anos, grandes acontecimentos mudam a vida na Terra (questões religiosas, políticas, sociais, econômicas, culturais).

Quando Áries assumiu a posição apontada tivemos historicamente uma grande movimentação das tribos no chamado mundo indo-europeu, com migrações que acabaram por dar origem às civilizações indiana, grega e celta. Foi durante a era cósmica de Áries (signo de fogo, cardinal) que constatamos a ocorrência de grandes invasões e a ocupação de grandes territórios na Europa e na Ásia (primeiro nível do fogo, correspondente ao império da vida instintiva; guerras, destruição etc.), que tivemos, no ocidente, o aparecimento da filosofia (segundo nível do fogo, pensamento racional; a escola jônica na Grécia; a substituição do mito pelo
TALES DE MILETO (ESCOLA JÔNICA)
logos, a “morte” dos deuses gregos em nome da razão; Hermetismo greco-alexandrino etc.) e que, finalmente, grandes profetas apareceram (terceiro nível do fogo, vida espiritual), instituindo-se oficialmente muitas religiões, crenças e seitas filosófico-religiosas: Buda, Lao-Tse, Mahavira, Mitra, Moisés, Confúcio, Cristo, Maomé (a última religião da era de Áries), Mani etc. As principais religiões da era de Áries encontram a sua mais antiga expressão nas grandes religiões patriarcais, monoteístas, as religiões do Uno, a judaica (inspirada no culto do deus Aton, sob o patrocínio do faraó Akhenaton) e suas dissidências, a cristã e a islâmica, todas se valendo dos principais ingredientes do signo para se impor:  guerras, ocupação militar, colonização, catequização forçada e grande patrimônio em bens materiais e financeiros.