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domingo, 16 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (3)


ARES


Ares, entre os gregos, é o deus da guerra, da violência, do enfurecimento. Seu nome, em grego, lembra infortúnio, desgraça. Filho de Zeus e Hera, no panteão grego ele e Afrodite eram as divindades mais distantes do Senhor do Olimpo, o que aponta para a sua origem estrangeira, ele oriundo da Trácia e ela oriental, mesopotâmica e fenícia.





Ares representava uma forma de energia ligada ao mundo guerreiro, à violência, à força bruta, algo nunca muito bem assimilado pelo mundo grego, principalmente no período clássico (sécs. V e IV aC), todo ele inspirado pelos princípios apolíneos, que nos falam de harmonia, de equilíbrio, de controle da vida instintiva, de espiritualização. 

Pelo seu aspecto, sempre armado, pelas suas companhias, sempre ruidosas, pelas suas antipatias e desavenças e pelas suas vilegiaturas, sua convivência olímpica era, com efeito, muito complicada. Os filhos de Ares eram, como ele, violentos, malfeitores, facínoras, salteadores, todos ímpios e cruéis. 


ERIS
Faziam parte do seu séquito, dentre outras, figuras sinistras como Eris, a deusa da discórdia; as Keres, as Devastadoras, sempre de negro, aladas, garras aduncas, entidades que definiam a morte dos guerreiros, além de depredadoras dos cadáveres nos campos de batalha; eram irmãs de Hipnos e de Thanatos. As Keres apareciam sempre nas cenas das batalhas e nos momentos de grande violência. Outra companheira de Ares era Enio, demônio feminino da guerra,
UMA   DAS   KERES
amante das carnificinas; é representada sempre coberta de sangue; passa às vezes por  mãe de Ares ou por sua ama; em Roma, toma o nome de Belona, deusa da guerra. Fobos (Pavor) e Deimos (Terror), gêmeos,  filhos que tivera com Afrodite, jamais se separam dele, pois a mãe nunca os reconheceu como filhos. Ares gostava muito de passar longas temporadas na Trácia, ao norte da Grécia, onde se divertia, participando de jogos militares, lugar de gente selvagem, briguenta,  de criadores de cavalos e de soldados mercenários. 


Consta de antigas tradições míticas que originariamente Ares era uma divindade ligada às tempestades, mais especialmente aos furacões. Aos poucos, estes sentidos se perderam, passando o deus a assumir um caráter bélico, aparecendo inclusive como deus dos conflitos nas relações humanas. Seus grandes prazeres nas batalhas eram a morte violenta e o massacre. Daí, a sua grande antipatia por Palas Athena, também deusa guerreira, mas considerada oficialmente como deusa da força guiada pela razão, das justas batalhas.

O lema de Ares era o da violência pela violência, não lhe interessando motivações éticas ou morais. Entregava-se totalmente ao impulso agressivo, sendo por isso às vezes ferido, já que se descuidava da sua segurança. Um exemplo do que afirmamos aqui está na guerra de Troia, quando tomou sob sua proteção o herói troiano Heitor e foi ferido por Diomedes, ajudado por Athena.


PALAS   ATHENA

Neste sentido, vexaminosa foi a sua captura por Otos e Elphiates, os Alóadas, gigantescos filhos de Poseidon e de Ifimedia, então casada com Aloeu. Irritados com Ares, que havia assassinado Adonis, grande amor de Afrodite, os gigantes conseguiram prender Ares num enorme vaso de bronze, que ali ficou por longo tempo até que Hermes o libertou. 


ALÓADAS   E   ÁRTEMIS

Ares, com o seu temperamento irritadiço, indispunha-se com frequência com os demais deuses olímpicos, principalmente com Palas Athena e com Hera. Zeus mal o suportava, vendo-o como um “mal necessário”. Era chamado, por isso, de mainomenos, isto é, louco, possesso. Somente Afrodite, com as suas artes amorosas, o acalmava.

HOPLITA  ESPARTANO
Gigantesco, esplêndido fisicamente, Ares usava sempre uma armadura de bronze e carregava a espada, a lança, o escudo e as cnêmides (polainas metálicas). Era o modelo do combatente de infantaria (hoplita), isto é, do soldado que combate a pé. Ares julgava indignos o arco e a flecha, de inspiração apolínea, chegando mesmo a considerá-los como arma dos covardes, pois os que os usavam evitavam o corpo a corpo, o contacto direto.   

Nas suas batalhas pessoais, porém, nem sempre se saiu bem. Hércules conseguiu feri-lo. Hefesto o ridicularizou. Seu culto era pobre em Atenas, sendo mais reverenciado em Esparta, polis militarizada, na Beócia e em Tebas. Era chamado pelos gregos, os de Atenas principalmente, de o “Deus das Lágrimas”, de “Bebedor de Sangue” ou de “Flagelo dos Humanos”. Sempre brutal e insensível, jamais se adaptou à Hélade. 

Positivamente, Ares era saudado como deus da primavera, protetor das colheitas (missão guerreira). Ainda segundo esse entendimento, era o vingador de todas as ofensas, principalmente as da violação dos juramentos. Favorecia a circulação da seiva na natureza. Suas festas se realizavam em março, na primavera, quando Sol ingressava na constelação do Carneiro (Áries). Era também o deus da juventude, guia dos jovens que emigravam em busca de uma outra vida nas terras novas. Dentre os seus atributos, destacamos uma tocha flamejante, sinal que, com a lança, carregadas por seus sacerdotes, significava o início de batalhas. Entre os seus animais temos o abutre, o carneiro, o lobo e o javali

O lobo, animal ligado à vida instintiva (primeiro nível do fogo, o signo de Áries na Astrologia), é um dos símbolos do poder destrutivo do Sol. Não é por acaso, aliás, que na mitologia celta o lobo representa Loki, o grande destruidor, gênio do mal. Este aspecto perigoso é evidenciado nos contos e lendas em várias tradições nas quais o animal personifica a ferocidade ou uma força que hipocritamente aparece como tentadora, a do sedutor masculino, ávida, destituída de escrúpulos, como no caso do Chapeuzinho Vermelho. É o lobo uma imagem arquetípica da libido descontrolada, representada muitas vezes por uma avidez oral, onde aparecem tendências egoístas, antissociais, violentas, virtualmente destrutivas do outro. Como a serpente e o urso, o lobo simboliza também a sombra, aspecto inconsciente da personalidade, cuja emersão pode ser perigosa pelas energias que desperta  e que ameaçam fazer a consciência submergir.


A ameaça da vida instintiva é uma constante no ser humano. O lobo foi um dos animais escolhidos para representá-la. Não é por acaso que o tema da licantropia é universal, a transformação do ser humano em lobo. Desde a antiguidade, aliás, o lobo sempre foi considerado um “animal fantasma”, bastando a sua visão para tornar as pessoas mudas, paralisadas. Na iconografia cristã, o lobo sempre apareceu como um símbolo das forças diabólicas que ameaçam o rebanho dos fiéis (os cordeiros). Só os santos têm o poder, graças à força do seu amor, de transformar a sua ferocidade em piedade (São Francisco de Assis).

Uma das imagens mais interessantes do lobo está na Alquimia. Os alquimista falam do lupus metallorum que devora o ouro para  “resgatá-lo”. Trata-se esta operação de um processo de purificação do ouro com a ajuda do antimônio, conhecido como o “lobo cinzento” nos laboratórios alquimistas. 


LABORATÓRIO    ALQUÍMICO

O antimônio, lembremos, na Alquimia simbólica, representa a última etapa de um ser no seu elã evolutivo. Esse metal tem a função a limpar as últimas impurezas do ouro antes dele atingir a perfeição. Estas impurezas têm muito a ver, como se pode concluir facilmente, com os aspectos da vida instintiva, que precisam ser controlados (não eliminados; não há ouro 100% puro) devidamente pelo antimônio. Quando julgávamos já ter conquistado o ouro da vida espiritual, eis que, sem que atinemos bem porquê, levanta-se um lobo dentro de nós e  se cometem os desatinos inexplicáveis.

Nesta etapa, a última, como os alquimistas sabem, da transformação do chumbo em ouro (nosso processo evolutivo), muitos falham (a maioria, todos?), não conseguindo controlar o seu lobo interior, embora pensem em tê-lo controlado. Ficam (ficamos) falando de vida espiritual, suas (nossas) emoções estão nela, mas não as suas (nossas) ações. Lembremos, a propósito, que na batalha pela instauração do reino do espírito, impondo-o sobre o reino da matéria e da vida animal, Zeus não conseguiu acabar com Tifon, o maior dos monstros...

Já o javali, como força brutal, que aparece na história de Adônis, é a forma que o deus Ares toma para assassinar o grande amor de Afrodite, deus da vegetação, um símbolo outonal. Adônis é assassinado no outono (desaparecimento da vegetação). A morte de Adônis, como o rapto de Kore, são alegorias de descidas infernais. Daí representar o javali a destruição, sendo, por isso, em muitas tradições, visto como emblema guerreiro. É considerado geralmente como um animal demoníaco pela sua impetuosidade (a devastação dos campos que provoca). Associado ao fogo (signo de Áries) lembra também o fogo das paixões.


VARAHA
Noutras tradições, como na celta, o javali é,entretanto, símbolo espiritual, no que lembra, pelos seus hábitos solitários, a figura do druida. Na Grécia, o javali, positivamente, faz parte de um conjunto simbólico (espiritual) ligado a Zeus no qual se incluem o carvalho, a águia e a trufa. Na Índia, Varaha, o Javali, é uma das encarnações (avatar) do deus Vishnu, segunda pessoa da trindade hinduísta, aspecto sob o qual o deus retirou a Terra das águas e a organizou. 

O carneiro aparece em muitos mitos associado à ideia de arrebatamento e de vitalidade sexual.         Como suporte simbólico,
representa as forças incontidas e criativas da natureza, o instinto de procriação que assume a continuidade da vida, inclusive o impulso agressivo. No Egito, por exemplo, Khnemu ou Khnum (fig. esq.), o deus da criação e da fertilidade, é representado com uma cabeça de carneiro. Na religião egípcia, o carneiro é um símbolo do poder fertilizador-gerador, tendo relação com todas as divindades que têm relação com a regeneração periódica da natureza. O deus Amon, por seu lado, costumava ser representado com chifres de carneiro. Diz a lenda que quando da conquista do Egito Alexandre Magno foi tomado por um enviado celeste, pois sua cabeleira parecia encobrir dois chifres de carneiro. 



Fogoso, indomável e poderoso, o carneiro faz parte das imagens de alguns deuses gregos, como a de Hermes Kriophoros e de Apolo Karneios. Quanto a Hermes, narra o mito que o deus livrou a Beócia de uma epizootia quando apareceu carregando um carneiro nos ombros. Quanto a Apolo, nessa forma, era muito honrado pelo militarismo espartano.


As tribos que invadiram a Grécia por volta do ano 1000 aC, os dóricos, trazendo a metalurgia do ferro, a pederastia como forma de educação militar e a nudez do atleta contribuíram bastante para que o culto de Ares ganhasse um novo impulso. Se os sacerdotes de
VELOCINO   DE   OURO
Delfos, oráculo de Apolo, foram os inspiradores do colonialismo grego, Ares foi o “executor” dessa política, fazendo o trabalho de campo, invadindo e ocupando várias regiões do Mediterrâneo e da Ásia Menor. A história dos argonautas, heróis gregos que foram à Cólquida (Ásia Menor) se apoderar o Velocino de Ouro é uma ilustração do que acabamos de dizer. Lembro que uma “atualização” cristã do mito dos argonautas aparecerá na Idade Média com o nome de a Busca do Santo Graal.



IXION

A descendência de Ares é responsável por uma lamentável crônica de violência e de crimes. Seus filhos, como se disse, lembram nesse sentido os de Poseidon. Flégias (inflamado), por exemplo, foi pai de Coronis e de Ixion. A primeira, amante de Apolo, o traiu, embora carregasse no ventre um filho dele, o futuro deus médico, Asclépio. Ixion, por seu lado, foi um dos grandes criminosos da mitologia grega, preso para sempre no Tártaro. Unindo-se a Nephele, a Nuvem, um simulacro da deusa Hera, a quem queria estuprar, Ixion tornou-se pai dos Centauros, monstruosas figuras híbridas, com busto de homem terminado por um corpo de cavalo. Passaram essas figuras a representar as constantes ameaças da vida instintiva que o ser humano tem que suportar na sua trajetória existencial. Lembre-se que o cavalo, associado aos Bestiários medievais sempre foi considerado como um símbolo universal da energia psíquica posta a serviço das paixões humanas, em particular da paixão sexual que, não controlada, leva o homem à destruição.

HÉRCULES   E   DIOMEDES

Com Pirene, Ares foi pai de três filhos, Cicno, Diomedes Trácio e Licaon. O primeiro assaltava peregrinos que se dirigiam ao oráculo de Delfos; Diomedes Trácio alimentava os seus animais (éguas) com carne humana, como está no primeiro trabalho de Hércules; Licaon bateu de frente com Hércules e morreu nas mãos do herói, como havia ocorrido com os outros dois.



Um episódio de destaque na vida do deus foi o da morte de Halirrótio, filho de Poseidon. Ares matou-o porque ele tentara estuprar sua filha, Alcipe. Levado pelos deuses a um tribunal, Ares, para espanto de todos, defendeu-se brilhantemente, sendo absolvido.  Esse tribunal se reuniu numa colina, o Areópago (Areios Pagos, colina de Ares), em Atenas. Orestes, o matricida, também foi julgado nesta colina.


AREÓPAGO  

Na história de Atenas, o Areópago funcionou historicamente tanto como um tribunal judiciário como assembleia política, reduzida depois a sua estrutura para, como órgão administrativo, exercer apenas o controle dos costumes públicos e da aplicação das leis da cidade. Uma curiosidade: foi a esse local que, em 375 aC, compareceu a cortesã Frineia, amiga e modelo do escultor
DENYS   AREOPAGITA
Praxíteles, para ser acusada publicamente de impiedade. Seu defensor, Hypéride, num golpe de mestre, a desnudou diante de todos os presentes e proclamou:”Merecerá beleza como esta a condenação?” Obviamente, a grande cortesã  foi absolvida e carregada em triunfo pelas ruas da polis. Foi neste local também que São Paulo pregou, convertendo o senador Dyonisus, conhecido depois pelo nome de Denys Areopagita, primeiro bispo de Atenas, e  santificado pela Igreja católica.

AFRODITE   E   ARES
O caso mais escandaloso de Ares foi o do seu affaire com Afrodite (uma ilustração astrológica do eixo Áries-Libra). Mal chegada ao Olimpo, Zeus literalmente “empurrou” a deusa para um casamento com Hefesto, o deus metalúrgico, artífice divino.Esta “generosidade” de Zeus para com seu filho é explicada: embora desejasse muito se aproximar sexualmente da belíssima recém-chegada, ele não o conseguiu, pois Hera, sua imperial esposa, manteve marcação cerrada sobre ele quando das festas realizadas no Olimpo para receber Afrodite, que a todos encantava.
  
Feio, aleijado, vivendo mais para as suas “indústrias” (na ilha vulcânica de Lemnos), Hefesto era o deus da metalurgia e das forjas. Descuidando-se de seus deveres matrimonias, deixou a jovem e apetitosa Afrodite abandonada no seu palácio. Numa das
AFRODITE,  ARES   E   ALECTRION  (TINTORETTO)
muitas reuniões olímpicas, ela e Ares se conheceram, sentindo-se a bela deusa atraída pelo esplendor físico do deus da guerra. Logo se tornaram amantes. Numa das vezes em que se encontraram, Ares escalou para ficar à porta do quarto, como sentinela, um assessor, Alectrion, com a incumbência de avisá-lo antes que Hélio, o deus-Sol aparecesse nos céus. Tal não aconteceu, Alectrion dormiu. A luz solar pôs então tudo à mostra, os dois amantes abraçados, dormindo, entregues ao doce cansaço de uma fogosa noite de amor. 



AFRODITE ,  ARES   E   EFESTO

Os deuses do Olimpo acorreram. As deusas, entretanto, advertidas por Aidos, o Pudor, evitaram comparecer. Hefesto, tomando conhecimento do acontecido, se deslocou rapidamente para o seu palácio ainda a tempo de surpreender os amantes presos ao sono. Como deus dos nós, das soldas, dos ferrolhos,  Hefesto lançou sobre os dois uma rede, prendendo-os de tal modo que jamais conseguiriam se libertar. Instado pela turma do “deixa disso”, acabou o deus coxo entretanto concordando em libertá-los. Afrodite demonstrou não se importar muito com a cena. Retirou-se logo para a ilha de Chipre, a ilha do cobre, onde, recebida pelas Horas  e pelas Cárites, se recompôs rapidamente com banhos, cremes e massagens, voltando logo a reassumir as suas funções de deusa do
FOBOS   E   DEIMOS
amor, como se nada tivesse acontecido. Ares, por seu turno, se mandou para a Trácia e lá ficou por uns tempos, praticando esportes, metido com os seus cavalos, limpando as suas armas. Alectrion, o dorminhoco, foi transformado por Ares num galo, obrigado a cantar às madrugadas antes de Hélio aparecer. Outra consequência desse affaire: Ares e Afrodite tornaram-se pais de três filhos: Fobos, Deimos e Harmonia (filha da guerra e da paz), que se casaria com Cadmo, fundador da aristocracia tebana.

Além da Trácia, Ares foi particularmente venerado na Cítia;, região próxima do Mar Negro, onde vivia um povo guerreiro;  em Olímpia o deus recebia o nome de Ares-Hippios e em, Esparta, de Ares-Enyalios (Belicoso), nomes, aliás, perfeitamente justificados sob o ponto de vista astrológico. Dentre todos os deuses do Olimpo, Zeus, como está na Ilíada, o considera como o mais odioso, pois “tu não amas senão a discórdia e os combates; tens o espírito intratável de tua mãe, que mal consigo reprimir com minhas palavras.”

Ao se referir ao filho dessa maneira, Zeus definia o seu  caráter, “deus furioso, naturalmente mau e inconstante, que, na sociedade olímpica, nenhuma simpatia desperta.” A imagem antropomorfizada  que a estatuária grega passou dele, a de um tipo fortíssimo, alto, barbudo, sempre armado, conduzindo muitas vezes um carro de combate, apesar de ser o grande modelo do infante (hoplita, o militar que combate a pé), fixou a sua imagem como a de um grande soldado. Sem se contestar aqui o seu grande valor como guerreiro, o que o prejudicava, porém, era a sua permanente sede de sangue e de carnificina, de corpos dilacerados, a sua pressa em destruir os seus alvos humanos e de encerrar as suas batalhas.

Mas não será por essas características que ele se diferenciava de Palas Athena. O que o irritava na deusa era a sua pretensão de se fazer passar por uma divindade em que a força se mostrava sempre controlada pela razão, que a sua a coragem era  inteligente e refletida. Na realidade, Palas Athena não era nada disso, era até muito competitiva, gostava das disputas, provocava-as, inclusive. A deusa, como se sabe, tinha um forte componente masculino na sua personalidade, vivia armada, seu corpo  indevassável, sempre protegido por um elmo. E como se tudo isto não bastasse, lembre-se que havia recebido de Zeus o privilégio de se manter eternamente virgem. Ela e Ares irritavam-se constantemente. A visão de Athena o punha furioso. Por essas razões, pela sua impetuosidade e agressividade cega, é que Ares deixou de vencer muitas lutas nas quais se empenhou. 

Cada tradição mítica da antiguidade teve o seu deus da guerra. Se nos aprofundarmos um pouco mais na questão da formação desse arquétipo entre os romanos notaremos que ele é, como aconteceu com  os gregos, um produto da contribuição de várias tradições. Por trás do Marte romano temos sem dúvida o Ares grego, o Marte dos Sabinos e muitos outros. 

Não podemos esquecer que Ares, como tudo indica, foi uma
NERGAL
“importação” da Trácia, das tribos que dessa região chegaram, como invasoras, na Tessália, na Beócia e na Fócida. Quando Ares chegou ao mundo grego, antes certamente da idade do bronze, os gregos o aproximaram do Hades, já que vinha acompanhado simbolicamente de serpentes e dragões, tinha a ver com os mortos e aceitava sacrifícios humanos, no que lembrava bastante, aliás, o deus Nergal dos mesopotâmicos.


Consta que a primeira união dessa divindade importada em território grego foi a que estabeleceu com uma das Erínias com a qual gerou um dragão. Esse dragão, como se sabe, foi liquidado por Cadmo (nome grego que traduz uma ideia de sobrepujar). Cadmo é um herói tebano, alcançando seu mito o mundo mediterrâneo, a Ásia Menor e o norte da África (Líbia). 


Cadmo (filho de Agenor e de Telefassa, reis de Tiro e Sídon) era irmão da princesa Europa, que, unindo-se a Zeus, deu origem à dinastia minoana. Depois de uma longa viagem, Cadmo acabou se fixando na Beócia. Mandou que um de seus companheiros fossem buscar água numa fonte próxima. Ao se aproximar, seus homens viram que a fonte era guardada por um dragão. Cadmo conseguiu matar o monstro e, a conselho de Palas Athena, semeou-lhe os dentes. No local em que os dentes do dragão tocaram a terra surgiram homens armados e violentos, aos quais foi dado o nome de spartoi, isto é, os semeados, ancestrais dos espartanos. Cadmo lançou pedras entre eles; não sabendo quem as atirava, acusaram-se mutuamente e entraram em luta, sobrevivendo apenas cinco spartoi.

CADMO   E   HARMONIA
A morte do dragão, por decisão dos deuses, teve que ser expiada por Cadmo. Ele foi obrigado a servir o deus Ares por oito anos como escravo. Terminado esse período, Zeus lhe deu como esposa Harmonia, a filha de Ares e de Afrodite. Segundo o mito, Tebas teria sido fundada pelo fenício Cadmo. Uma das filhas dele e de Harmonia, lembre-se, Sêmele, tornou-se mãe do grande deus Dioniso.  
  

Diodoro Sículo afirma que historicamente o primeiro Marte foi Belo, um rei da Babilônia, inventor de armas e da arte de dispor os exércitos nos campos de batalha. Higino, por sua vez, declara que este rei foi assim chamado, Belo, por ter sido o primeiro a usar dardos (belos) como arma de guerra. O Marte romano teria, na linha dessas contribuições, incorporado traços de um chamado Marte Hiperbóreo, divindade que, entre os germânico-escandinavos, era chamado de Odin ou Wottan. 

Os gregos formaram o seu Ares, como aliás todas as mitologias o fizeram, incorporando os traços de vários deuses da guerra, agregando ao modelo as características próprias de suas tradições, da sua invenção e da sua fantasia. Hesíodo, na sua Teogonia, deu a Ares como pais Zeus e Hera. Muitos dos traços da divindade grega passaram para o Marte romano, sem dúvida. Entretanto, é preciso lembrar que um deus da guerra já era honrado em terras itálicas antes da chegada do modelo grego.

domingo, 25 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (3)


ADÔNIS

O mito mais completo e conhecido das divindades fenícias do primeiro milênio antes de Cristo, ao qual já nos referimos, é o de Adônis. Por ele, ficamos conhecendo a Afrodite fenícia, de nome Astarte. Adônis entre os fenícios aparece como uma espécie de sucessor de Aleyin e Mot. Estes eram, nos poemas de Ras Sahmra, duas divindades da vegetação que lutavam entre si anualmente.


ASTARTE

Mot, filho de El, grande divindade solar, era o espírito da colheita. Seu tempo era o verão, período em que os grãos ficavam maduros e deviam ser colhidos. Num combate, ele será vencido por Aleyin,
BAAL
filho de Baal, o maior dos deuses depois de El, sendo sua atribuição a de alimentar os cursos de água. É o espírito das fontes, aquele que favorece o desenvolvimento da vegetação, que cresce e se desenvolve na estação das águas. Era honrado através de monumentos  chamados pelos gregos de memnonia, levantados na foz dos rios da Fenícia, lugar onde eram celebradas as cerimônias em homenagem aos mortos. Aleyin, aquele que “cavalgava as nuvens”, morrerá também, por intervenção da deusa Anat, já que o risco de catastróficas inundações precisava ser contido.



NASCIMENTO DE ADÔNIS

Nascido de uma árvore (mirra) na qual sua mãe havia se transformado, Adônis era de uma beleza sem igual. A história aqui narrada se passa na Síria, onde a filha do rei Teias, pretendendo-se mais bela que a deusa do amor (Astarte, Afrodite), foi por ela punida. A punição consistiu fazê-la alimentar uma paixão incestuosa pelo pai, o rei Teias. Unindo-se a ele, por noites sucessivas, na escuridão do seu quarto, a princesa acabou sendo descoberta e condenada à morte pelo pai. Rogando aos deuses, foi por eles atendida, sendo transformada na mirra. A criança, lindíssima, como se disse, saltou do caule da árvore no tempo devido, sendo recolhida por Astarte (Afrodite). 
  
A mirra é uma árvore espinhosa que pode atingir cinco metros de altura, com flores vermelho-amareladas, de cuja casca provém uma resina especialmente usada na medicina e na produção de incenso
MIRRA
desde a antiguidade, considerada rara e valiosa. Nas línguas semíticas, mirra vem do adjetivo amargo (mar, em hebraico). A mirra é muito conhecida por suas propriedades antissépticas, sendo muito usada pelos egípcios nos rituais de mumificação. Desde fins da Idade Média, vem sendo usada em missas, funerais e cremações como incenso, tanto como purificação como meio de ligação terra-céu. Na história cristã dos três reis magos que visitaram Jesus quando do seu nascimento, a mirra aparece como um dos presentes por eles levados. No caso, por sua relação com o embalsamamento, como os egípcios a usavam, a mirra simbolizou o renascimento. Consta que em exames do santo sudário nele foi constatada a presença de mirra. O sudário, como se sabe, é uma espécie de lençol que serve para envolver cadáveres, mortalha. O santo sudário aqui referido teria sido um pano usado para limpar o suor e o sangue que saía dos ferimentos de Cristo, quando da sua crucificação, pano no qual seu rosto ficou impresso.

Encerrada numa arca, a criança foi entregue por Afrodite a Perséfone. Mais tarde, ao tentar recuperá-la, Afrodite viu seu intento negado. A disputa acabou arbitrada por Zeus, sendo decidido que o agora belíssimo Adônis passaria um terço do ano com Perséfone, outro terço com Afrodite e outro terço conforme desejasse. O jovem não titubeou, optando logo pela companhia de Afrodite. 


AFRODITE  E  ADONIS

O mito nos conta que Adônis gostava da caça, paixão da qual Afrodite sempre procurara demovê-lo. Certo dia, porém, quando se entregava à sua paixão venatória, Adônis foi atacado por um imenso javali e ferido mortalmente. Esse javali não era outro senão o deus Ares, antigo amante da deusa, que inconformado por não mais ser admitido no seu divino leito, atacou furiosamente o belíssimo jovem. Ao correr para socorrê-lo, Afrodite pisou num espinho. Dos seus formosos pés, alguma gotas de sangue caíram sobre pétalas de algumas flores brancas que floresciam ao lado do corpo do infeliz jovem; de imediato, essas flores se tornaram inteiramente vermelhas, passando elas desde então a simbolizar o amor. Na linguagem das flores, como se sabe, as rosas de pétalas brancas têm a ver com o amor suspiroso, não correspondido. As vermelhas, desde então, passaram a representar o amor apaixonado.


AFRODITE SOCORRENDO ADÔNIS

A rosa sempre apareceu nos mitos da região mediterrânea e da Ásia Menor como símbolo do amor que vence a morte e do renascimento. No Egito, por exemplo, a rosa era muito usada nos Mistérios de Ísis como símbolo do silêncio exigido pela iniciação e imagem da morte carnal, tornando-se o Egito, como se disse, o maior produtor e exportador dessa flor na antiguidade. É de se registrar ainda que, no mundo inteiro, os grupos esotéricos que usam a rosa em seus ritos de iniciação cunharam a expressão “sub rosa” para designar a transmissão de conhecimentos que não podia ser divulgada exotericamente. 


SUB  ROSA

Divindade do mundo vegetal, espírito da vegetação que, como Aleyin se manifesta nos grãos dos cereais, Adônis, no mito grego, era conhecido como Adoni, meu senhor, meu mestre, nome que as mulheres fenícias repetiam sem cessar, como lamentação, nas festas em homenagem ao deus. Na Bíblia, Ezequiel chama Adônis de Tamuz, este divindade mesopotâmica da vegetação e do grão. 



ADÔNIS  MORTO

O culto de Adônis estava difundido por toda Fenícia, mas era em Biblos que acontecia a sua celebração mais pomposa. Perto de Biblos e de Baalbek, elevava-se um suntuoso santuário levantado em honra a Astarte, destruído mais tarde pelo imperador Constantino, quando definiu o cristianismo como a  única religião do império romano. As mulheres fenícias, a cada ano, celebravam a volta do deus a estes lugares no final da colheita. 




Os gregos davam o nome de Adonias a estas festas. Imagens do deus em cera ou em terracota eram colocadas na entrada ou nos terraços das casas; as mulheres iam para as ruas da cidade, proferindo as suas lamentações, cabelos desgrenhados, golpes de mão no peito, tudo para demonstrar a sua grande dor; dançavam e cantavam ao som das flautas curtas e estridentes (giggros), muitas usadas em cerimônias fúnebres. 

Foi o maravilhoso poeta grego Teócrito (sécs. III-II aC) quem nos deixou uma descrição destas festas, celebradas com grande pompa
oriental, como ele as viu em Alexandria, no palácio de Arsinoé, esposa do imperador Ptolomeu-Philadelpho. O poeta nos descreveu os famosos Jardins de Adônis do palácio de Arsinoé, extensos terraços, onde em enormes caixas rasas eram cultivadas rosas, irrigadas com água quente para que florescessem mais depressa. Nesses jardins eram também cultivadas, em nome do deus, outros vegetais que também germinavam e cresciam  rapidamente, o funcho, o centeio, o trigo e sobretudo a alface, que tinha um papel importante no culto de Adônis. 

O mito nos informa que tendo recolhido o corpo inerte do seu infeliz amante, Afrodite o depositou num leito de prata recoberto com um manto púrpura e com folhas de alface. Ao lado do leito, vasos com perfumes raros, frutos, mel, bolos e inúmeras corbeilles de rosas. Os vegetais acima mencionados, morrendo logo, pelo fato de produzidos da maneira apontada, não tinham raízes, nada que os prendesse à Terra, sendo considerados como emblemas da efêmera existência de Adônis. Os Jardins de Adônis, assim artificialmente criados, eram expostos com imagens do deus, sendo depois jogados no mar ou nas fontes. A alface, usada em banquetes funerários, era considerada na antiguidade um alimento nefasto; ingerida em excesso, provocava a impotência, impedia a concepção ou, no caso de mulher grávida, tornava imbecil o filho. Era também usada para combater a concupiscência.

Entre os fenícios, Astarte era a mais importante deusa feminina como dona da fertilidade, da sexualidade e da guerra, adorada principalmente em Sidon, Tiro e Biblos. Do seu culto, muito diversificado, faziam parte ritos de natureza sexual e libações. Suas principais festas se realizavam no equinócio da primavera. Consta que o rei Salomão entregou-se ao seu culto, mandando inclusive levantar um templo em sua homenagem.

A história de Adônis foi introduzida na Grécia principalmente pela via poética, passando a fazer parte dos mitos ligados a Afrodite. 
O tema sempre inspirou poetas das mais diversas correntes. Do original mesopotâmico, passamos ao fenício e deste ao grego. Poetas como Bion de Esmirna e Ovídio, poeta latino, enriqueceram a histórico do jovem deus com variantes. O primeiro, do início do séc III dC, deixou-nos O Epitáfio de Adonis, inspirado por Teócrito (As Mulheres na Festa de Adônis). Ovídio, do início da era cristã, fala-nos de Adônis no décimo livro de suas Metamorfoses.

A história de Adônis chegou à Grécia pelo caminho das ilhas do Egeu. Quem pela primeira vez abordou o tema parece ter sido Safo,
SAFO
a grande poetisa de Lesbos. Apoderando-se dele, as mulheres gregas o difundiram, mas não escaparam do deboche dos comediógrafos machistas de então (séc. V aC). Foi por essa época que Plutarco, o historiador, escreveu sobre os Jardins de Adônis, ganhando o culto uma expressão espetacular em Alexandria. 


A história de Adônis, ao longo dos séculos, desde a antiguidade grega, sempre seduziu os poetas, principalmente. No Renascimento,
RONSARD
com a volta do mundo greco-romano, o lado caçador de Adônis é destacado, notando-se uma clara preferência pelo aspecto lunar de sua personalidade (da deusa Ártemis) e empobrecimento do seu aspecto venusiano, sendo esquecida inclusive a tragédia de Mirra. Franceses (Ronsard e La Fontaine), ingleses (John Milton e Spenser), espanhóis (Lope de Veja e Calderón de la Barca), ingleses (John Keats e Percy Shelley), italianos (G.B. Marino e Gabriel d´Annunzio) e franceses (Gustave Flaubert, Gérard de Nerval e Ernest Renan) se apoderão do tema, levando-o, alguns, para o teatro.


Os primitivos gregos, bem antes da “chegada” de Afrodite à região mediterrânea oriental, vinda da Ásia Menor, parecem ter tido uma divindade do amor, que não deixou traços. O que temos de mais certo quanto ao tema é que a irradiação dos cultos de Ishtar e de Astarte fez da deusa grega do amor uma divindade muito parecida com as duas deusas orientais. A mitologia grega, através de Homero (Ilíada), fez Afrodite filha de Dione e de Zeus, helenizando os traços da Astarte fenícia para representá-la, ficando ela conhecida pelo nome de Dioneia. Dione (brilhante, luminosa) era, numa versão, uma divindade da primeira dinastia, filha de Urano e Geia, e de Oceano e Tétis noutra variante.

Na ordem que introduziu na mitologia grega, Hesíodo (Teogonia), conservando no modelo grego muitos dos traços das deusas orientais, ligou o nascimento de Afrodite à castração de Urano por seu filho caçula Cronos. Este, como sabemos, instigado pela mãe, Geia, ao castrar o pai com a foi de silex que ela lhe dera, decretou o fim da primeira fase da mitologia grega (autogenia), representada pela dinastia cujos titulares eram os seus pais.

A castração (esquizogenia)  de  Urano,  segunda  fase  da  mitologia
grega, possibilitou o aparecimento da ordem cósmica ao pôr fim à indiscriminada fecundação celeste uraniana. O entrechoque das forças elementares, a desordem dos primeiros momentos da criação, representada pelos filhos que ele e Geia geravam, os titãs, chegou assim ao seu término. Gigantescos, estapafúrdios, descomunais, os titãs, que simbolizavam as forças elementares descontroladas, foram se acalmando, se acomodando, vencidas pela nova ordem, dando origem ao que os gregos chamaram de cosmos. 

Por oposição ao caos (indeterminação, indiferenciação), o cosmos significava para os gregos a ordenação do universo segundo
EROS
princípios e leis inteligíveis, sobretudo as irrevogáveis leis que haviam sido estabelecidas por Cronos. Na ordem cósmica não havia lugar para ideias de acaso ou destino. O cosmos não podia depender de uma vontade, de caprichos ou mesmo da arbitrariedade dos deuses, mas de regras que assegurassem o seu contínuo  desdobrar-se, o devenir universal, segundo uma ordem determinada. Com a castração de Urano, as coordenadas de espaço (1ª dinastia, Urano-Geia) e tempo (2ª dinastia, Cronos-Reia) se fixaram, passando as relações humanas, até então comandadas por Eros (satisfação unilateral), a se orientar por novas formas de convivência (reciprocidade) que a ordem cósmica pedia.


AFRODITE ANADIÔMENE 
 Da castração de Urano, da sua genitália lançada ao mar, em meio a secreções, sangue e abundante espuma, nos conta Hesíodo, nasceu Afrodite (aphros, espuma), conservando ela, sob uma aparência grega, muitos dos traços da Ishtar assiro-babilônica e da Astarte siro-fenícia. Um dos nomes pelos quais Afrodite será conhecida é derivado da sua origem marinha, Anadiômene. A ilha de Cithera, ao sul do Peloponeso, foi a primeira etapa da penetração do culto das deusas orientais do amor na Grécia. Quem “conduziu” Afrodite a Cithera foi o Zéfiro, deus do vento que sopra na direção oeste-leste, ao entardecer. 


Do sangue que da ferida de Urano caiu sobre a Terra, fecundando Geia ou Titaia novamente, nasceram, ao mesmo tempo que Afrodite, outros seres, as Erínias ou Fúrias, os Gigantes e as ninfas Melíades ou dos Freixos, as deusas da vingança, além dos descomunais inimigos do vida espiritual e as ninfas do sangue e da
FREIXO
guerra, respectivamente. As primeiras, como sabemos, ligar-se-ão muito à ação de Afrodite, pois terão a função fazer com que sejam respeitadas as leis da natureza e os limites físicos e morais na convivência humana. Todos aqueles que ultrapassassem os limites dos seus direitos em detrimento dos direitos dos outros seriam por elas punidos. Já os Gigantes, encarnação dos pavores que atormentavam o homem arcaico, personificavam os elementos irracionais que na vida psíquica fazem oposição aos impulsos evolutivos do homem, opondo-se à sua transcendência, prendendo-o à terra, como filhos de Geia que eram. As ninfas Melíades (melia, freixo) estão ligadas à raça que viveu na Idade do Bronze, gente violenta e belicosa, sempre guerreando. Tinham eles, como símbolo, a lança, cujo cabo era confeccionado com a madeira do freixo. O cabo da garrocha de Aquiles era de freixo, assim como o arco de Eros. Para os germânicos, o freixo era a primeira árvore da criação, chamada por eles de Yggdrasil.


Em virtude de seu nascimento marinho, Afrodite passou a governar o princípio da reciprocidade nos relacionamento humanos, equilibrando assim o seu oposto, o quente, como promessa do desenvolvimento de formas, mas, também, como ameaça de absorção. Por sua ligação com o elemento líquido, Afrodite foi chamada desde então de Anadiômene, a nascida das ondas do mar, fixada nessa forma pelo pintor grego Apeles.





De Cithera, Afrodite foi levada a Chipre, a Ilha do Cobre (em grego chalkos e em latim cuprum). Desde a antiguidade grega, conforme o simbolismo dos metais, o cobre correspondia a Afrodite, sendo mais tarde associados a ambos o planeta Vênus. O cobre, na medida em que no jogo das polaridades exerce a função magnética, por oposição à elétrica (Marte), é um excepcional condutor de energia. Sempre representou o cobre também a água como princípio gerador da vida. Em virtude de sua passagem por Chitera e Chipre, Afrodite era chamada pelos nomes de Citeréia e Cípria, conforme Homero registrou. 

Para uma melhor visualização deste período da vida de Afrodite, será sempre interessante uma visita à obra de alguns artistas para uma adequada compreensão do significado e do alcance do seu mito. Grande fonte de inspiração da poesia de Safo, Afrodite foi
AFRODITE (PRAXÍTELES)
sobretudo tema escultórico e pictórico de muitos artistas, destacando-se as estátuas que dela fizeram Calímaco (Venus Genitrix, assim chamada pelos latinos), Lisipo (bronzes de Afrodite) e Praxíteles (suas famosas Afrodites, orientalizadas, tiveram como modelo sua amante Frineia, a cortesã mais rica e célebre de Atenas). Na pintura, menção especial para a famosa obra de Sandro Botticelli O Nascimento de Vênus, de 1485, destinada a embelezar o palácio de um dos membros da família Médici. Essa tela, como se sabe, impregnada dos ideais neoplatônicos que então circulavam nos meios cultos da época, é uma representação dos valores materiais subordinados aos espirituais. A beleza corporal de Vênus (Afrodite) se vê sublimada pela pureza das linhas fluídas e leves. 


Boticelli, nesta sua tela, procurou, sem dúvida, seguir as ideias de Platão, que no seu diálogo O Banquete fez uma distinção entre duas das várias “faces” da deusa. De um lado a Afrodite Urânia, que não teve mãe, que é celeste, inspiradora de amores etéreos, imateriais, sublimes, que não é carnal; de outro, a Afrodite Pandêmia, popular, a dos amores vulgares, a que se dá com (para) todos, promíscua. Não será necessário muito esforço para se perceber onde hoje a Afrodite Pandêmia pontifica...

Ao surgir das águas, Afrodite se mostrou tão bela que as nereidas, os tritões e todos os demais habitantes do mundo líquido acorreram apressados para contemplá-la, rodeando sua concha nacarada, seu meio de transporte em direção das referidas ilhas. As ondas, ativadas pelo sopro de Zéfiro, começaram antão a empurrá-la docemente, o ar se tornou mais leve, uma luz suave cobria a terra e toda a natureza se regozijava.  

Ao chegar a Chipre, recebida pelas Horas,  seu  primeiro cuidado,                                                                                          
relatam antigos textos, se voltou para os seus cabelos. Secos e ajeitados, com o auxílio de suas atenciosas preceptoras, logo emolduraram o seu maravilhoso rosto em resplandecentes ondas acobreadas. A seguir, sempre com colaboração das Horas, Afrodite cuidou de seu corpo, cobrindo-o com muita naturalidade, primeiro com o chiton, como veste de baixo; depois o péplos e o himation, a túnica e o manto. Um cinto (zone), onde guardava todos os artifícios da arte da sedução (enkrateia), apertava a túnica à cintura. Nos formosos pés, as sandálias (krepis), muito elegantes. No mais, as jóias, os brincos (enonon), os colares (hormos), os anéis (daktylos), as pulseiras (amphidai) e as argolas para as pernas (periskelis).

A seguir, as Horas lhe ofereceram as primícias dos frutos que cada estação proporciona e com elas a deusa trocou ideias sobre a boa prática de comover os corações, de neles infundir prudência, de entender claramente os deveres da amizade, da vida conjugal, das obrigações familiares, de incorporar à vida social os necessários e cuidadosos cerimoniais das refeições, dos divertimentos, das festas e, por fim, da sábia arte do repouso.


AS  HORAS

Hora (divisão de tempo) era palavra grega que servia para designar as estações do ano (Primavera, Verão e Inverno). Depois, aos poucos, a palavra passou a dar nome às divisões do dia e da noite, estendendo-se seu número a doze,  reduzido, em seguida, a apenas quatro. No mito, eram filhas de Zeus e de Têmis, esta a deusa das leis imprescritíveis. Eram três a princípio: Eunômia, a Disciplina, Dikê, a Justiça, e Irene, a Paz. Popularmente, recebiam o nome, respectivamente, de Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). 

Homero considerava as Horas como porteiras dos céus, cabendo a elas abrí-los e  fechá-los. Gozavam de um privilégio especialíssimo: todo ano desciam ao Hades para trazer Adônis de volta a Afrodite. Eram encarregadas de distribuir a umidade necessária à vida vegetal, dosando-a convenientemente. Por isso, assumiram também a tutela da educação das crianças, para que elas “brotassem”, “florescessem” e “frutificassem” no tempo certo. Como reguladoras de toda a vida social, cujo equilíbrio mantinham, as Horas eram presença obrigatória em todas as cerimônias nupciais celebradas no mito. 


CÁRITES

Os gregos as reverenciavam oferecendo-lhes as primícias dos frutos de cada estação. Sempre acompanhadas por Têmis, eram representas por três graciosas jovens com asas de borboletas; levavam nas mãos quadrantes, relógios e outros símbolos da veloz fuga do tempo. Gostavam as Horas da companhia das Cárites e integravam ambas, sempre, o cortejo de Afrodite e ocasionalmente os de Apolo e de Dioniso.

A fama das excelências de Afrodite chegou ao Olimpo, manifestando os Imortais um vivo desejo de conhecê-la. As Horas, alvoroçadíssimas, a prepararam então, ataviando-a devidamente, perfumando-a, coroando sua cabeça com uma maravilhosa grinalda de rosas e pedrarias e cingindo sua cintura com o famoso cinturão que continha todos os truques e combinações possíveis das artes que faziam parte do jogo amoroso. Subiu então Afrodite à Mansão dos Deuses, acompanhando-a Eros e Hímeros, o Amor e o Desejo. 


HÍMEROS

No anverso do cinturão de Afrodite estavam fórmulas que favoreciam a vida afetiva; no verso, as que a envenenavam. No primeiro caso, por exemplo, se indicava como Eros e Hímeros, devidamente guiados pela Esperança (Elpis) e acompanhados pelo Pudor (Aidós), pelos suspiros, por débeis acentos amorosos, por carinhosas fórmulas hipocorísticas, por juramentos e pela disposição conciliadora, podiam favorecer a vida afetiva. No verso, estavam, ainda exemplificando, fórmulas através das quais Eros e Hímeros podiam ser inteiramente liberados, dando-se assim oportunidade a que as Erínias pudessem ser convocadas, pois sempre se estaria diante de casos de perfídia, de ciúmes, de inveja, de hipocrisia e de traição, tudo isto contribuindo para que a vida afetiva se tornasse um verdadeiro inferno. Usado adequadamente, porém, o cinto sempre proporcionaria graça, beleza e juventude, superando-se com eles quaisquer obstáculos na vida afetiva. 

Não foi por outra razão, por exemplo, que Hera, a Senhora do Olimpo, tentando reconquistar seu amado esposo, depois de grave entrevero por causa dos seus amores extraconjugais, pediu que Afrodite lhe emprestasse o seu famoso cinturão. A deusa do amor enviou-o com um bilhete: “Recebe-o, ocultando-o junto do teu corpo. O quanto puderes desejar nele se encontra e, por um encanto secreto que não se pode explicar, ele fará com que te saias bem em todos os teus empreendimentos.” Sabe-se que Afrodite usou o seu famoso cinturão em várias oportunidades, para se sair bem nos seus inúmeros affaires amorosos. Com muita facilidade, por exemplo, como se verá, obteve o perdão de Hefesto, seu marido, depois do seu rumoroso caso com Ares, o deus da guerra. 

Assim que pôs os pés no Olimpo, Afrodite arrancou grandes exclamações de admiração dos deuses, suscitando grande apreensão e mesmo cenas de ciúme explícitas por parte de várias deusas. Foi cercada por vários deuses, inclusive por Zeus que, contudo, teve que se conter, pois Hera exercia grande controle sobre ele, não o largando um minuto sequer a sós com a deusa recém-chegada. Todos disputavam a honra de a ela se unir, seja tomando-a como esposa ou como amante.


AFRODITE  E  HEFESTO  ( VÊNUS  E  VULCANO )

Zeus resolveu então casá-la com seu filho Hefesto, um prêmio por sua incansável atividade como ferreiro divino e fabricante de maravilhas técnicas e armas que tanto encantavam os olímpicos. Foi assim que o mais feio dos deuses se transformou no marido da mais bela das deusas. Rainha de Pafos (cidade de Chipre, muito famosa pelos cultos que nela se celebravam em honra a Afrodite) e Deusa do Amor, como Homero a chamou na Ilíada, soberana do prazer, da formosura, a deusa uniu-se, por razões de Estado, digamos, com um marido rico, “industrial”, muito chegado ao poder olímpico, mas coxo e feio, que andava coberto de fuligem e que vivia muito mais para as suas indústrias que para a convivência amorosa. Realmente, Afrodite não poderia amá-lo. Por isso, incontáveis foram os seus casos...


HEFESTO, O DE PÉS TORTOS

Muitos acreditam, todavia, que o primeiro amor de Afrodite foi Zeus, nascendo dessa relação as Cárites, as Graças. Para evitar problemas com Hera, sempre foi divulgado que a mãe das três belas jovens seria Eurínome, uma oceânida. Seja como for, as Cárites logo se integraram ao cortejo de Afrodite e, às vezes, ao de Apolo, atribuindo-se a elas as influências benéficas sobre a atividade intelectual e as obras de arte em geral. 

A maior parte dos habitantes do Olimpo e mesmo os seus frequentadores, divindades de nível inferior que lá não tinham moradia, eram de opinião que Afrodite consumou seu primeiro adultério com o deus Ares, o Senhor da Guerra. Todos são unânimes em afirmar que tal fato se deveu ao descaso de Hefesto para com a sua bela esposa. Metido sempre nas suas forjas, situadas em longínquas ilhas vulcânicas, Hefesto abandonava Afrodite, deixando de vê-la por longos períodos. 


PANDORA

Alguns, como Hesíodo, por exemplo, atribuem este estranho comportamento de Hefesto à sua origem. Filho de Zeus e de Hera, ele teria vindo ao mundo “sem amor”, isto é, conforme o poeta, teria sido gerado apenas pela deusa num momento de cólera, por causa do nascimento de Palas Athena. Suas relações com o mundo feminino sempre foram lamentáveis. Sua suprema vingança, entretanto, veio com Pandora, sua genial “criação”, a primeira mulher, fascinante e irresistível, que instaurou definitivamente a divisão entre os sexos. 

Afrodite e Ares encontraram-se numa das famosas reuniões do Olimpo. Marcado um encontro no palácio de Hefesto, este ausente como sempre, Ares apresentou-se a Afrodite todo armado, como se fosse participar de uma batalha. Deixando de lado os circunlóquios, Ares foi diretamente ao assunto. Afrodite, relatam as crônicas, sentiu-se um pouco atemorizada a princípio. Mas ele logo, sofregamente, retirando a sua couraça e depondo as suas armas, as suas perneiras, exibiu à deusa a sua excepcional forma física. Foi o necessário para que ela se entregasse a ele totalmente. Hélio, o Sol, já havia despontado no horizonte quando acordaram.

Segundo o poeta abaixo mencionado, estas foram as únicas palavras de Ares, quando do seu encontro amoroso com a divina Citereia: “Ó deusa que adoro, vem a meus braços, entreguemos nossos corações ao encanto do amor; Hefesto está ausente, foi a Lemnos e te abandona por seus bárbaros companheiros.” Consta que a única palavra de Afrodite foi: “Abrasa-me!” 


AFRODITE   E   ARES

Muitos cronistas nos relatam esse episódio, mas quem o fez melhor foi, sem dúvida,  Demodokos, um poeta cego que frequentava muito a corte do rei Alcinoo, dos feácios. No palácio real, perante o rei, convivas e Ulisses, ainda incógnito, o poeta contou histórias sobre este último. No mercado da cidade, perante grande público, o poeta, depois de ter contado muitas histórias sobre as façanhas do marido de Penélope, foi à praça da cidade e, com acompanhamento musical, narrou a história do encontro amoroso de Afrodite e Ares, a todos dando prazer e divertindo-os muito.



O poeta relata que o deus Hélio, que tudo via, pôs à mostra a cena dos dois amantes enlaçados no leito nupcial do palácio de Hefesto. Todo o Olimpo tomou imediatamente conhecimento do que ocorria,
HEFESTO
inclusive Hefesto, na distante ilha de Lemnos onde tinha as suas forjas. Os deuses accorrem pressurosos para ver a cena, o mesmo fazendo Hefesto, que, apesar de coxo, deslocou-se com espantosa velocidade. Todos chegam a tempo de encontrar ainda enlaçados os dois amantes. As deusas, ouvindo as recomendações de Aidos, o Pudor, eximiram-se de ir ao palácio. Assim que entrou no quarto nupcial do seu palácio, sem dizer uma palavra, Hefesto lançou uma rede sobre Afrodite e Ares, envolvendo-os de tal modo que, apesar dos esforços do deus da guerra, não conseguiram eles se libertar. A velha máxima hefestiana mais uma vez prevaleceu: aquilo que o deus das forjas, das ligas, dos metais incandescentes e dos nós unia, ninguém desatava.  



A  REDE  DE  HEFESTO

Ao ver a rede lançada por Hefesto, uma risada tomou conta do grupo de imortais que havia acorrido para presenciar a inusitada cena. Ouviam-se frases como estas: “as tramas crimonosas têm cedo ou tarde sua consequência fatal”, “Ora, ora, eis que a lentidão triunfa sobre a rapidez” e outras mais... Assim, o coxo Hefesto, com a sua arte e astúcia, surpreendeu a sua esposa e Ares, o mais veloz dos deuses do Olimpo, chamado de Gravidus por isso mesmo, “o de passos largos”.


PODEIDON

Dentre os deuses presentes, Apolo, dirigindo-se a Hermes, disse-lhe: “Mensageiro dos deuses e benfeitor dos humanos, aprisionado por estas indestrutíveis malhas, suportarias esta vergonha para passar a noite nos braços da ruiva Afrodite?” A resposta de Hermes veio prontamente: “Ó vergonha digna de inveja! Multiplicai essas inumeráveis ligaduras e que venham todos os deuses do Olimpo presenciar a cena, tudo valeria a pena para passar uma noite nos braços da deliciosa Afrodite.” Ouvidas estas palavras, renovaram-se as gargalhadas por todo lado. Só Poseidon permaneceu sério, logo pedindo a Hefesto que libertasse os dois amantes, livrando-os de tanto opróbrio, comprometendo-se inclusive a pagar o preço do resgate que Hefesto pedisse por tal libertação. Hefesto cedeu e, com as suas poderosas mãos, rompeu a rede maravilhosa. 

Quem nos conta o final desta história é Homero: livres dos laços que pareciam indestrutíveis, os amantes correm para longe do Olimpo, fugindo de todos os olhares. Ares se precipitou em direção da Trácia enquanto Afrodite se retirou para Chipre, indo para Pafos, onde, em um pequeno bosque, havia um templo levantado em sua homenagem. Recebida pelas Cárites, Afrodite foi por elas conduzida ao banho; depois, todo o corpo da deusa foi massageado levemente com perfumadíssimos óleos pelas três jovens, que a vestiram com maravilhosos e transparentes véus, preparando-a assim para voltar ao convívio dos seus pares. 

Antes de partir para a Trácia, a fim de, em longa temporada, visitar as suas estrebarias e casas de armas, Ares transformou num galo (obrigado a cantar três vezes antes do nascimento do Sol) o seu escudeiro Alectrion (galo, em grego), que se esquecera de avisá-lo, como fora determinado, para que Hélio não o surpreendesse com Afrodite. Consta que em virtude dessa união com Ares, Afrodite gerou Harmonia e os gêmeos Fobos e Deimos, este último personificação do Terror e o outro, do Pavor, que tomaram feição demoníaca e passaram a acompanhar o pai onde houvesse batalhas e derramamento de sangue.