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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ARIES (3)



ILÍADA


Aquiles é a figura mais importante do poema homérico A Ilíada. Tétis, a nereida, filha de Nereu e de Doris, era lindíssima, corteja por deuses. Uma sentença oracular  declarara que se um filho dela com uma divindade nascesse ele se tornaria mais poderoso que o pai. Os candidatos mais próximos, Zeus e Poseidon, logo desistiram e procuram alguém para casá-la. Aparece Peleu, que, orientado pelo centauro Kiron, conseguiu submeter a bela nereida, apesar de suas sucessivas metamorfoses. O casamento se realizou com grande pompa no monte Pelion, recebendo os noivos inúmeros presentes. Um acontecimento, todavia, perturbou a solenidade. A deusa Éris, a Discórdia, por não ter sido convidada, jogou no recinto o famoso pomo da discórdia, de tão triste memória, causador, para muitos, da guerra de Troia.


JULGAMENTO   DE   PARIS  ( ENRIQUE  SIMONET , 1904

Depois de seis filhos consumidos pelo fogo, na ânsia de torná-los imortais, Tétis resolveu mergulhar o último nas águas do rio Estige,
TÉTIS  MERGULHA
AQUILES  NO  ESTIGE
que tinham o poder de tornar invulnerável tudo o que nelas fosse mergulhado. Essa criança era Aquiles, cujo calcanhar, porém, não foi banhado pelas águas, pois por ali a mãe o segurara. Já um esplêndido jovem, Aquiles foi enviado à gruta de  Kiron. Consta que o centauro operou o calcanhar de seu jovem pupilo, nele implantando um osso do gigante Dâmiso, o maior corredor que já existira, jamais vencido. Cuidaram do seu rápido restabelecimento a mãe do centauro, Fílira, e  sua esposa, a ninfa Cáriclo.

EDUCAÇÃO  DE  AQUILES
( J.B. REGNAULT , 1820 )
A partir dos doze anos, Aquiles fora adestrado nas cinco artes que Kiron passava a todos os jovens que queriam ingressar no caminho heroico, na caça (Cinegética), na equitação (Hípica), na medicina (Iátrica), na luta (Agonística).  Kiron passou-lhe o respeito pelos mais velhos, a defesa da honra pessoal, o amor à verdade. Ao chegar à gruta do centauro mestre, Aquiles chamava-se Líguiron (agudo, sibilante).O jovem se alimentava das entranhas de leões e de javali, de moelas de ursos, tudo para adquirir coragem, força, vigor. Do mel, recebia doçura e afabilidade.

Calcas, o adivinho, profetizou que a cidade de Troia, na Ásia, só seria conquistada com a participação de Aquiles. Tétis veio do fundo do mar e escondeu o filho, vestindo-o de mulher para que ele não fosse convocado. Assim, educado como uma jovem, passou Aquiles muito tempo. Chegando a profecia ao conhecimento dos chefes militares aqueus, foram eles buscá-lo, sendo-lhes difícil
MORTE  DE  AQUILES
( VEYRIER )
reconhecer no meio das moças aquele que seria o maior guerreiro de todos os tempos. A perspicácia de Ulisses acabou por descobri-lo. Engajado, Aquiles foi à luta com um amigo, Pátroclo, e o preceptor Fênix, comandando uma tropa tessaliana, com cinquenta barcos. Tétis sabia que o filho se fosse a Troia teria uma glória eterna, mas sua vida seria breve. Se ficasse, viveria muito, sem nenhuma glória. Aquiles, conhecendo o dilema, optou pelo morrer jovem. 

ODISSEU  E  NEOPTÓLEMO
Indo para a guerra, Aquiles deixou para trás amores, um filho, Neoptólemo, mais tarde chamado de Pirro (Pirra era o nome "feminino" de Aquiles). Depois de alguns acontecimentos preliminares, as tropas gregas, devido a uma tremenda calmaria enviada pela deusa Ártemis, ausência total de ventos, ficaram imobilizadas em Áulide. A deusa reclamava o sacrifício de Ifigênia, filha do comandante de todos os gregos, Agamemnon. Este, para atrair a filha sem despertar suspeitas, falou em casá-la com Aquiles, que nada sabia da história. 

Já no décimo ano da guerra que não se resolvia, Aquiles e Agamemnon tiveram uma séria desavença. Este último mandara buscar a escrava e amante de Aquiles, Briseida. Atingido em sua
SACRIFÍCIO DE IFIGÊNIA  
honra pessoal, Aquiles retirou-se da luta. A vitória dos aqueus ficou ameaçada. Tétis, a mãe do herói, subiu aos céus e foi pedir a Zeus que tornasse os troianos vitoriosos enquanto Aquiles não combatesse. Zeus atendeu-a; os acontecimentos começaram a favorecer os troianos, embora a guerra ainda não tivesse chegado ao seu auge. Diante da derrota iminente, Agamemnon se retratou: devolveria Briseida e daria a Aquiles mais vinte escravas dentre as mulheres mais belas de Troia, além de, como prêmio máximo, lhe concederia como esposa uma de suas filhas. Aquiles se manteve irredutível. 

AQUILES   E   PÁTROCLO
Pátroclo, grande amigo de Aquiles, seu companheiro de tenda, partiu em socorro dos gregos, desmoralizados por sucessivas derrotas. Aquiles consentiu que o amigo partisse, emprestando-lhe sua armadura. Pátroclo acabou sucumbindo, golpeado por Heitor, herói troiano. Tomado por imensa dor, Aquiles acabou se reconciliando com Agamemnon, voltando à luta, apesar de seu cavalo, Xanto, que tinha o dom da profecia, lhe ter anunciado sua morte próxima. Desprezando o aviso, avançou contra os troianos como uma máquina de guerra em movimento. Heitor tentou atingir Aquiles. O deus Poseidon interveio, livrando-os do choque mortal. Depois de vários escaramuças, Aquiles e Heitor voltaram a se encontrar. Zeus se decidiu pela morte do troiano. Ao morrer, Heitor falou a Aquiles sobre a hora de sua morte, que estava bem próxima. Aquiles, tomado pelo ódio, mutilou o corpo de Heitor, nunca esquecendo que ele matara Pátroclo. 


AQUILES  MATA  PENTESILEIA
( A.ROTHAUG , 1870 - 1946 )
Nesse ínterim, as Amazonas entram na luta, em socorro de Troia. Aquiles selvagemente mata Pentesileia, a rainha da mulheres guerreiras. As lutas prosseguiram, o número de mortos aumentava. A cólera de Aquiles pela morte de Antíloco foi enorme. Preparava-se o filho de Tétis para o assalto final às muralhas de Troia. Teria tomado a cidade certamente se o deus Apolo não o intimasse a parar a luta. Não sendo atendido, Apolo guiou uma flecha disparada  por Páris para que ela atingisse
NINFAS ( BOUGUEREAU )
o único lugar vulnerável de Aquiles, o calcanhar. Em meio a estertores, lançando gritos de cólera e dor, Aquiles tombou finalmente morto. A disputa pelo seu corpo foi grande, conseguindo Ulisses e Ajax recuperá-lo. Os funerais foram celebrados por Tétis, pelas Ninfas, pelas Musas. Palas Athena passou ambrosia no corpo de Aquiles para que ele não entrasse em putrefação. Todos lhe prestaram homenagens até que o fogo acabou por consumi-lo totalmente. 



MUSAS

Uma versão nos informa que Aquiles teve suas cinzas reunidas às de Pátroclo e levadas para o alto de um promontório para que todos, inclusive os navegantes, vissem a urna funerária do grande herói e de seu amigo. Outras versões registram que Tétis levou a urna para uma ilha deserta, chamada Leuce, a Branca. Outros ainda contam que Aquiles passou a viver nessa ilha, que fica na foz do Danúbio. Os navegantes narram que durante certas noites são ouvidos, vindos da ilha, ruídos do entrechoque de armas, cantos guerreiros e de banquetes. Por fim, outras versões narram que o

herói se encaminhou depois de morto para os Campos Elíseos, no Hades, onde se uniu a Polixena, por quem sentiu grande amor, uma filha de Príamo, rei de Troia. Outros dizem que o herói no Hades se uniu a Medeia ou com Ifigênia ou com Helena. A Odisseia nos mostra Aquiles entre os mortos num diálogo com Ulisses, quando este, realizada a  cerimônia de invocação das almas (Nekya), ouve do eídolon do herói uma triste confissão, a de que, no fundo, teria preferido a vida longa, mesmo que na condição de um humilde servidor de um pobre camponês. 

Ainda com relação ao mundo grego, registre-se que o signo de Áries tem relação com o primeiro trabalho tem Hércules. Neste trabalho, ele recebe a incumbência de ir à Bistônia, onde reinava Diomedes, filho do deus Ares e de Pirene. Este rei possuía éguas selvagens, negras, antropófagas, que vomitavam fogo. Alimentavam-se de carne humana, principalmente dos estrangeiros que se atreviam a entrar no território trácio, onde ficava o reino. Elas geravam cavalos indomáveis, destruidores, que soltavam fogo pelas ventas. A tarefa de nosso herói foi a de dominar os animais (símbolo do psiquismo inconsciente) e levá-los a Micenas (para maiores informações, veja neste blog a matéria sobre os doze trabalhos de Hércules).

Áries rege o nascimento do dia, a aurora, a hora dourada matinal. É, por isso, o signo dos precursores. Uma incursão ao que os chineses nos deixaram será sempre válida para iluminar melhor o
que até se disse sobre Áries, sem dúvida. Dentre os 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações dos chineses, o signo de Áries corresponde ao hexagrama Tai, Paz, no simbolismo chinês, querendo isto significar que os dois princípios universais (yin e yang) devem procurar atuar em harmonia. No simbolismo ocidental, nós atribuímos a guerra a este signo. Tanto a paz como a guerra, lembra o I Ching, dependem antes de mais nada do início da ação, que é do signo de Áries (todos os inícios são de Áries). A guerra e a paz dependem muito do modo pelo qual iniciamos uma ação.  

O hexagrama Tchen é também de Áries na medida em que ele significa despertar e também trovejar. É sob a inspiração deste hexagrama que dentro do yin aparecem os traços do yang, gerando este impulsos de exteriorização. Este movimento é normalmente imprevisível, inopinado, geralmente cheio de exasperação, que costuma provocar medo, pânico. Os chineses viam estes acontecimentos, por exemplo, nas tempestades de primavera, entre março e abril. 

O terceiro hexagrama do signo é Li, o fogo, manifestação que não tem forma limitada; é ele quem anima o corpo, quem o põe em movimento. Daí ser Áries o signo que governo todos os inícios, todos os germes. Tem relação com o amanhecer, com todos os começos, que em todas as tradições sempre foram revestidos da maior importância. Os gregos, por exemplo, colocavam a iniciação aos Mistérios de Elêusis quando da chegada da primavera, fazendo-a coincidir com as Antestérias, as festas das flores.     

O signo de Áries corresponde ao leste, ao oriente, ao nascente do dia. Sua pedra preciosa é o rubi, a pedra do sangue, utilizada antigamente na Homeopatia para a preparação de anti-hemorrágicos; ela dá vigor e clarifica o sangue. Os hindus lhe dão o nome de ratnanavaka, “o senhor das pedras preciosas”. Por causa de sua cor, sempre apareceu o rubi associado ao fogo, representando as virtudes arianas, ousadia e bravura. Sempre considerada a pedra dos amantes, o rubi ajuda a superar as decepções e mágoas no amor, favorecendo as reconciliações. Durante milênios, na antiguidade, misturou-se pó de rubi à água para o tratamento de inflamações oculares. A pedra era também muito eficaz no tratamento da hidropisia e de hemorragias. 

O mais belo e maior dos rubis é, como o chamam os franceses, o escarboucle (poderíamos traduzir essa palavra por escarbúnculo, mas ela não existe no nosso léxico), pedra famosa por atravessar com os seus raios a escuridão. Na literatura fantástica, era a pedra da qual eram feitos os olhos de dragões e de determinadas serpentes. O escarboucle foi parar na poesia romântica alemã com o nome de karbunkel  para representar, arianamente, os desejos mais ardentes escondido no coração do homem. 

As manifestações tempestuosas do céu na entrada da primavera são, entre os chineses, expressões do yang, coincidindo com o
DRAGÃO
despertar da vida, com o aparecimento da vegetação, com a renovação cíclica. Quem representa este momento cósmico entre eles é o dragão, que corresponde ao leste, ao oriente, ao equinócio da primavera. Este dragão mergulhará no tempo devido, seis meses depois, no abismo, no equinócio do outono. Para os chineses, correspondem a Áries o trono, o dragão, o primogênito, o bambu, o cálamo, o junco, as plantas de rápido crescimento, as pedras vulcânicas, a lava, o ferro e tudo o que com ele se elabore. O simbolismo chinês e americano colocam o tigre e o jaguar sob a tutela do signo 

Em todas as culturas do mundo mediterrâneo, nas quais temos tanto pastores nômades como agricultores mais ou menos fixados à terra, o carneiro novo, até a idade de um ano, era (é) chamado de cordeiro, usado para simbolizar o ser humano cândido e pacífico.
Esse animal, no mundo cristão, passou a ser chamado de cordeiro de São João. Pela sua brancura imaculada, luminosa mesmo, o pequeno animal foi logo considerado como uma cratofania primaveril. Era a encarnação do que era novo, o triunfo das forças vitais que sempre se regeneravam. Neste sentido o animal é a vítima propiciatória enquanto representa a humildade e a inocência. Por isso, assumirá, como símbolo, um papel muito importante no mundo judaico-cristão e muçulmano. 

O cordeiro simboliza a criatura inocente, que se torna facilmente a vítima do lobo, que, neste exemplo, representa a voracidade, a vida instintiva, a ferocidade, o diabólico, a tentação. Já o carneiro, bem diferente do cordeiro, simbolizará a vitalidade, a resolução descontrolada, o impulso incontido. O cordeiro, um dos primeiros animais domésticos do homem, desde os tempos do neolítico, passou a encarnar a pureza, a inocência, a mansidão, a ingenuidade, e, como tal, sempre foi considerado como a vítima sacrificial por excelência.     

Os muçulmanos considerarão também o cordeiro do mesmo modo, como a vítima sacrificial de todas as ocasiões, cuja expressão maior está na Grande Festa (Aid-al-Kebir). Lembremos que o cordeiro branco já era imolado em honra a deuses e heróis no mundo greco-romano. Esta ligação do cordeiro ao sacrifício está bem evidente no cristianismo numa passagem do Evangelho de S.João  ao nele se registrar o que João Batista disse quando viu Jesus: Eis o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Para os mais interessados, ao se falar deste tema, valerá sempre visitar, como possível, uma das mais belas obras pictóricas de todos os tempos, O Cordeiro Místico, de Van Eyck, séc.XV, obra-prima da arte flamenga, Bélgica. 


O   CORDEIRO   MÍSTICO  ( VAN  EYCK )

A primeira indicação de Áries nos céus foi feita, ao que parece, pelos mesopotâmicos sob o nome de Luhunga, que pode ser traduzido como “O que trabalha diariamente”. Já os árabes, bem antes de terem adotado a representação celeste de Ptolomeu, davam a esta constelação o nome de Al Hamal, O Cordeiro, para eles ocupando nos céus longitudes muito maiores que as dos gregos.

DANTE  ALIGHIERI
Os romanos, além de Áries, davam à constelação que abria o Zodíaco o nome de Phrixea Ovis, Portitor Phrixi, Phrixium Pecus ou Phrixi Vector, numa homenagem clara a Frixo, o filho do rei Atamas. Dante Alighieri mencionou a constelação em A Divina Comédia, italianizando-a, dando-lhe o nome de Montone (carneiro).


MARTE
O signo de Áries tem relação com o início da idade do ferro, metal tutelado por Marte, regente do signo, enquanto o Sol, nele se exaltando, governa o ouro. Esta idade, que durou 2.160 anos, começou quando o Astro-Rei entrou no signo de Áries. Ela foi marcada de modo especial pela civilização romana, notadamente guerreira, nela se destacando dentre todas as divindades Marte, o deus da guerra. 

Dentre as inúmeras possibilidades significativas encerradas no signo de Áries,  que nos lembram a primariedade, possibilidades que se manifestaram em direção da vida das coletividades, não podemos esquecer que, ao longo da História, foram os países tutelados pelo signo do Carneiro que deram início a grandes movimentos históricos. A mais notável manifestação ariana na antiguidade , como se disse, foi o aparecimento e a expansão da civilização romana. 

BISMARCK
Em tempos mais próximos, tivemos o exemplo da Alemanha do séc. XIX, uma criação tipicamente ariana,centralizada na figura de Otto von Bismarck, o chamado Marechal de Ferro, o grande unificador do país através de uma política de força. Mais perto de nós ainda, temos o exemplo de uma "coincidência" muito significativa que vem em abono do que estamos a expor: quando o Sol, a 21 de março de 1933, ingressou no signo de Áries, Hitler, nesse dia, com o seu famoso discurso na capela de Potsdam, dava por constituído o novo Reichstag.

Segundo esta mesma perspectiva, o exemplo japonês também poderá ser aqui invocado. O Japão, sob o ponto de vista astrológico, é um país tipicamente ariano. Do século XIX para o século XX tornou-se a primeira potência não-europeia e a segunda economia do mundo. Montando uma indústria moderna e formando quadros militares eficientes, que passaram a controlar em grande parte a indústria, o Japão, como se sabe, envolveu-se em aventuras bélicas (Mandchúria, China e USA), além de ter formado, com a Alemanha e a Itália, durante a segunda guerra mundial, sob o nome de Potências do Eixo, a frente militar que lutou contra os Aliados. 

Metal ariano, lembre-se que na história da humanidade, o ferro, por ser superior à pedra e ao bronze, assim que descoberto, passou logo a ser empregado sobretudo na fabricação de armas, instrumentos satânicos da guerra e da morte, consagrados a Marte. Tornou-se assim o símbolo de uma energia dura, impura, infernal, ctônica, porque retirada das profundezas da terra. Daí, simbolicamente, por suas qualidades físicas, ele representar a inflexibilidade, o rigor excessivo, a obstinação, a teimosia.  Em poucas culturas, o lado positivo do ferro, foi celebrado, como um símbolo da fertilidade, mas sempre cercado o seu uso, sob este aspecto, por muitas interdições. Uma das mais notáveis diz respeito ao efeito deletério que o ferro causava pelo seu toque. Os herboristas da antiguidade não utilizavam nenhum instrumento de ferro para coletar as suas plantas. Os druidas, por exemplo, só as colhiam, o agárico, o visco, sua planta sagrada, com uma pequena foice de ouro.  

A constelação de Áries estende-se de 18ºÁries a 20ºTouro. As suas

principais estrelas são: Hamal, alfa, de 2ª magnitude, a 75 anos-luz da Terra; Sheratan, beta, de 3ª magnitude, a 52 anos-luz da Terra; Mesartin, gama, e Botein, delta, ambas próximas da 5ª magnitude. A primeira, para os acádios, seria também uma representação de Aloros, que reinara antes do dilúvio. Mesartin é uma das estrelas duplas mais famosas do céu. Os árabes viam nessa estrela uma espécie de tripé formado por três pedras para sustentar caldeirões onde eles, ao fogo, na sua cozinha ao ar livre, preparavam sua comida. Pesquisas arqueológicas realizadas na Grécia (Francis Penrose, arqueólogo inglês) indicam que muitos templos, como aconteceu no Egito, foram construídos com base na posição de estrelas. No caso da
ASTRONOMIA
Grécia, Penrose nos informa que entre 1.580 e 360 aC a construção de cerca de oito templos, no mínimo, foi orientada por Hamal, a maioria em homenagem a Zeus e a Palas Athena, a quem muitos astrólogos greco-latinos (Marcus Manilius, por exemplo, contemporâneo dos imperadores Augusto e Tibério, do séc. I DC, como está no seu poema Astronomia) chegaram a atribuir a regência do signo de Áries. 

Não podemos esquecer que São Paulo, o apóstolo dos gentios, escolheu o Areópago para lá proferir aos atenienses o seu famoso
POETICE ET ASTRONOMIE
( ARATEORUM )
sermão Agnotos Theos (A Um deus Desconhecido). No sermão, aparece ipsis literis a citação de um verso muito comentado do poema Phaenomena, de Aratos, 270 aC, que fala de constelações zodiacais. Algumas exegeses viram nesta passagem uma clara referência astrológica, conhecida por Paulo, já que tanto ele quanto o poeta eram conterrâneos. Tarsus, onde Paulo e Arato nasceram, ficava na Cilícia, hoje Turquia.

AREÓPAGO
O Areópago era uma pequena colina de Atenas, assim denominada em honra ao deus Ares. Era o local sede de um tribunal ateniense no qual eram julgados crimes administrativos de homens públicos e atentados aos costumes em geral. Esse tribunal tinha a ver também com questões educacionais e de ordem pública (polícia). No governo de Péricles foi retirada desse tribunal a função de supervisionar a administração pública, cabendo-lhe apenas a jurisdição em matéria criminal. O tribunal do Areópago era célebre pela elevada moralidade de seus membros, princípio que eles sempre procuraram  manter mesmo nos períodos de maior corrupção da polis.

Áries assumiu, entre 1.700 e 1600 aC, como vimos, a condição de constelação heliacal com relação ao equinócio da primavera. Assim, deve ficar claro por isso para nós que a cada vez que o equinócio da primavera se move na direção de uma nova constelação uma nova era se inicia e novos deuses surgem. Com o movimento equinocial das estrelas de Touro (a era de Touro se estendeu de 3.822 a 1.662 aC) para as de Áries,  ocorrido exatamente no ano de 1.662 AC, essa mudança deixou para trás,
ENLIL
mas não “mortos”, divindades e mitos que eram representadas ou que tinham o touro como tema em muitas civilizações (Rudra e Indra na Índia; Enlil entre os babilônicos; El, entre os semitas; Apis, entre os egípcios; Mitra, entre os persas; Zeus, Poseidon e Dioniso, entre os gregos etc.). 

Ao ingressar a humanidade na era de Áries, como sempre acontece, novas divindades surgiram, as monoteístas. Lembremos que poucos séculos antes de se iniciar a era de Áries ocorreram as grandes migrações das tribos guerreiras indo-europeias. Essas migrações se encaminharam na direção da futura Índia (árias), na direção da Grécia (aqueus) e na direção da Europa ocidental (celtas). O que caracteriza sobretudo a era de Áries é que os três níveis do fogo se manifestaram ao longo dela de modo muito evidente. 

Sob o ponto de vista espiritual, religioso, o fogo deu origem ao monoteísmo, as  religiões de um deus único, centralizador, patriarcal, um modelo religioso tipicamente ariano que foi se impondo sobretudo através de guerras de conquista e aventuras colonialistas, com deuses únicos que não dividiram seu poder e
AMON-RA
glória com mais nenhum outro. Um dos modelos religiosos mais bem acabados desse período é o judaico, com Javé, como divindade absoluta. É nesse período que, no Egito, Amon-Ra se imporá como deus único, que usa como símbolo os chifres do carneiro com o título de “O Senhor da Cabeça”. Depois, como acima mencionado, Aton, por um tempo, se fixará como deus único. Não é por acaso que os gregos aproximarão também bastante o seu Zeus de Amon-Ra e que ao nome de Apolo se agregará o de Karneiros.

É ainda na esfera expressiva do fogo considerado espiritualmente que teremos, na era de Áries, o aparecimento de grandes figuras como Buda, Mahavira, Zaratustra, Lao-Tse, Confúcio, Pitágoras, Patanjali e outros. Maomé será o último representante desta série, na era de Áries, embora nascido na era seguinte, a de Peixes , por volta de 600 dC. O mesmo aconteceu com Jesus Cristo, nascido na era de Áries, mas cuja figura se projetará  inteiramente na era seguinte, 

Na era de Áries, conservada a mesma ideia ligada a esse elemento, é que teremos, sob o ponto de vista intelectual, as primeiras elaborações filosóficas no ocidente, a partir da chamada escola pré-socrática. A Filosofia é, nesse sentido, uma criação típica era de Áries.  Em resumo, pois, na era de Áries, temos as três grandes manifestações da vida humana através do fogo, instinto, intelecto e espírito. Sob o ponto de vista instintivo, as migrações tribais a partir do mundo indo-europeu e as invasões que vão dar origem ao mundo ária (Índia), ao mundo aqueu (Grécia) e ao mundo celta (Europa ocidental, Inglaterra e Irlanda). Sob o ponto de vista intelectual, a substituição do mito pelo logos e o aparecimento das primeiras elaborações filosóficas e cosmológicas gregas. Sob o ponto de vista espiritual, o fogo nos revelou grandes profetas e as três religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.


ÁRIES
Ptolomeu atribui às estrelas situadas na cabeça do Carneiro influências marcianas e saturninas. Hamal, hoje a 6º 58´ de Touro, e Sheratan,   a 3º 16´ de Touro são as duas únicas consideradas pela Astrologia. Na era seguinte, a de Peixes, uma nova religião se fixou para assumir um primeiro plano na vida religiosa da humanidade, trazendo a demonização de muitos aspectos do Carneiro. Não é por acaso que o símbolo deu origem a máquinas de guerra (aríete) que permitem derrubar portões e muralhas das cidades sitiadas, isto é, abrir a carapaça protetora das coletividades. Se na Grécia, na Beócia, o carneiro aparece associado à figura de Hermes (Hermes Kriophoro, o Bom Pastor), em Esparta ele vem com Apolo Karneiros, o lado guerreiro do deus.

Negro, o carneiro adquire importância na necromancia. Além do mais, por seu temperamento incontrolável, fogoso, convulsivo, desmedido, ele passou a representar no mundo cristão uma das formas que o Diabo e feiticeiros poderiam tomar. Em inúmeras tradições, entre as aparições fantásticas do Diabo, são comuns as do carneiro negro, que vomita chamas. 

Hamal, nos mapas, costuma indicar um ponto onde uma certa independência e determinação podem se manifestar, mas sempre difícil o foco. No seu pior lado, Hamal é contestação, frustração ou inabilidade para lidar com os princípios de autoridade e vida
HELENA   BLAVATSKY
familiar e social. No seu melhor papel, Hamal, próxima do Sol, desde que este esteja com dignidade e bem aspectada, pode proporcionar alguma liderança, posições de destaque etc. Em temas femininos, acentua traços marcianos, podendo inclusive virilizar (a chamada mulher fálica da Psicologia). Um bom exemplo para se estudar esta estrela é o que nos oferece o mapa de Helena Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica. 

Quanto a Sheratan, é palavra que significa duplo signo em árabe, já que esta estrela marcava tanto o equinócio vernal como o início do ano. Considerada mais violenta e agressiva que Hamal, Sheratan atua mais na direção do corpo físico e na vida material, podendo ocasionar ferimentos, destruição pelo fogo, levar a disputas e terremotos.


domingo, 16 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (3)


ARES


Ares, entre os gregos, é o deus da guerra, da violência, do enfurecimento. Seu nome, em grego, lembra infortúnio, desgraça. Filho de Zeus e Hera, no panteão grego ele e Afrodite eram as divindades mais distantes do Senhor do Olimpo, o que aponta para a sua origem estrangeira, ele oriundo da Trácia e ela oriental, mesopotâmica e fenícia.





Ares representava uma forma de energia ligada ao mundo guerreiro, à violência, à força bruta, algo nunca muito bem assimilado pelo mundo grego, principalmente no período clássico (sécs. V e IV aC), todo ele inspirado pelos princípios apolíneos, que nos falam de harmonia, de equilíbrio, de controle da vida instintiva, de espiritualização. 

Pelo seu aspecto, sempre armado, pelas suas companhias, sempre ruidosas, pelas suas antipatias e desavenças e pelas suas vilegiaturas, sua convivência olímpica era, com efeito, muito complicada. Os filhos de Ares eram, como ele, violentos, malfeitores, facínoras, salteadores, todos ímpios e cruéis. 


ERIS
Faziam parte do seu séquito, dentre outras, figuras sinistras como Eris, a deusa da discórdia; as Keres, as Devastadoras, sempre de negro, aladas, garras aduncas, entidades que definiam a morte dos guerreiros, além de depredadoras dos cadáveres nos campos de batalha; eram irmãs de Hipnos e de Thanatos. As Keres apareciam sempre nas cenas das batalhas e nos momentos de grande violência. Outra companheira de Ares era Enio, demônio feminino da guerra,
UMA   DAS   KERES
amante das carnificinas; é representada sempre coberta de sangue; passa às vezes por  mãe de Ares ou por sua ama; em Roma, toma o nome de Belona, deusa da guerra. Fobos (Pavor) e Deimos (Terror), gêmeos,  filhos que tivera com Afrodite, jamais se separam dele, pois a mãe nunca os reconheceu como filhos. Ares gostava muito de passar longas temporadas na Trácia, ao norte da Grécia, onde se divertia, participando de jogos militares, lugar de gente selvagem, briguenta,  de criadores de cavalos e de soldados mercenários. 


Consta de antigas tradições míticas que originariamente Ares era uma divindade ligada às tempestades, mais especialmente aos furacões. Aos poucos, estes sentidos se perderam, passando o deus a assumir um caráter bélico, aparecendo inclusive como deus dos conflitos nas relações humanas. Seus grandes prazeres nas batalhas eram a morte violenta e o massacre. Daí, a sua grande antipatia por Palas Athena, também deusa guerreira, mas considerada oficialmente como deusa da força guiada pela razão, das justas batalhas.

O lema de Ares era o da violência pela violência, não lhe interessando motivações éticas ou morais. Entregava-se totalmente ao impulso agressivo, sendo por isso às vezes ferido, já que se descuidava da sua segurança. Um exemplo do que afirmamos aqui está na guerra de Troia, quando tomou sob sua proteção o herói troiano Heitor e foi ferido por Diomedes, ajudado por Athena.


PALAS   ATHENA

Neste sentido, vexaminosa foi a sua captura por Otos e Elphiates, os Alóadas, gigantescos filhos de Poseidon e de Ifimedia, então casada com Aloeu. Irritados com Ares, que havia assassinado Adonis, grande amor de Afrodite, os gigantes conseguiram prender Ares num enorme vaso de bronze, que ali ficou por longo tempo até que Hermes o libertou. 


ALÓADAS   E   ÁRTEMIS

Ares, com o seu temperamento irritadiço, indispunha-se com frequência com os demais deuses olímpicos, principalmente com Palas Athena e com Hera. Zeus mal o suportava, vendo-o como um “mal necessário”. Era chamado, por isso, de mainomenos, isto é, louco, possesso. Somente Afrodite, com as suas artes amorosas, o acalmava.

HOPLITA  ESPARTANO
Gigantesco, esplêndido fisicamente, Ares usava sempre uma armadura de bronze e carregava a espada, a lança, o escudo e as cnêmides (polainas metálicas). Era o modelo do combatente de infantaria (hoplita), isto é, do soldado que combate a pé. Ares julgava indignos o arco e a flecha, de inspiração apolínea, chegando mesmo a considerá-los como arma dos covardes, pois os que os usavam evitavam o corpo a corpo, o contacto direto.   

Nas suas batalhas pessoais, porém, nem sempre se saiu bem. Hércules conseguiu feri-lo. Hefesto o ridicularizou. Seu culto era pobre em Atenas, sendo mais reverenciado em Esparta, polis militarizada, na Beócia e em Tebas. Era chamado pelos gregos, os de Atenas principalmente, de o “Deus das Lágrimas”, de “Bebedor de Sangue” ou de “Flagelo dos Humanos”. Sempre brutal e insensível, jamais se adaptou à Hélade. 

Positivamente, Ares era saudado como deus da primavera, protetor das colheitas (missão guerreira). Ainda segundo esse entendimento, era o vingador de todas as ofensas, principalmente as da violação dos juramentos. Favorecia a circulação da seiva na natureza. Suas festas se realizavam em março, na primavera, quando Sol ingressava na constelação do Carneiro (Áries). Era também o deus da juventude, guia dos jovens que emigravam em busca de uma outra vida nas terras novas. Dentre os seus atributos, destacamos uma tocha flamejante, sinal que, com a lança, carregadas por seus sacerdotes, significava o início de batalhas. Entre os seus animais temos o abutre, o carneiro, o lobo e o javali

O lobo, animal ligado à vida instintiva (primeiro nível do fogo, o signo de Áries na Astrologia), é um dos símbolos do poder destrutivo do Sol. Não é por acaso, aliás, que na mitologia celta o lobo representa Loki, o grande destruidor, gênio do mal. Este aspecto perigoso é evidenciado nos contos e lendas em várias tradições nas quais o animal personifica a ferocidade ou uma força que hipocritamente aparece como tentadora, a do sedutor masculino, ávida, destituída de escrúpulos, como no caso do Chapeuzinho Vermelho. É o lobo uma imagem arquetípica da libido descontrolada, representada muitas vezes por uma avidez oral, onde aparecem tendências egoístas, antissociais, violentas, virtualmente destrutivas do outro. Como a serpente e o urso, o lobo simboliza também a sombra, aspecto inconsciente da personalidade, cuja emersão pode ser perigosa pelas energias que desperta  e que ameaçam fazer a consciência submergir.


A ameaça da vida instintiva é uma constante no ser humano. O lobo foi um dos animais escolhidos para representá-la. Não é por acaso que o tema da licantropia é universal, a transformação do ser humano em lobo. Desde a antiguidade, aliás, o lobo sempre foi considerado um “animal fantasma”, bastando a sua visão para tornar as pessoas mudas, paralisadas. Na iconografia cristã, o lobo sempre apareceu como um símbolo das forças diabólicas que ameaçam o rebanho dos fiéis (os cordeiros). Só os santos têm o poder, graças à força do seu amor, de transformar a sua ferocidade em piedade (São Francisco de Assis).

Uma das imagens mais interessantes do lobo está na Alquimia. Os alquimista falam do lupus metallorum que devora o ouro para  “resgatá-lo”. Trata-se esta operação de um processo de purificação do ouro com a ajuda do antimônio, conhecido como o “lobo cinzento” nos laboratórios alquimistas. 


LABORATÓRIO    ALQUÍMICO

O antimônio, lembremos, na Alquimia simbólica, representa a última etapa de um ser no seu elã evolutivo. Esse metal tem a função a limpar as últimas impurezas do ouro antes dele atingir a perfeição. Estas impurezas têm muito a ver, como se pode concluir facilmente, com os aspectos da vida instintiva, que precisam ser controlados (não eliminados; não há ouro 100% puro) devidamente pelo antimônio. Quando julgávamos já ter conquistado o ouro da vida espiritual, eis que, sem que atinemos bem porquê, levanta-se um lobo dentro de nós e  se cometem os desatinos inexplicáveis.

Nesta etapa, a última, como os alquimistas sabem, da transformação do chumbo em ouro (nosso processo evolutivo), muitos falham (a maioria, todos?), não conseguindo controlar o seu lobo interior, embora pensem em tê-lo controlado. Ficam (ficamos) falando de vida espiritual, suas (nossas) emoções estão nela, mas não as suas (nossas) ações. Lembremos, a propósito, que na batalha pela instauração do reino do espírito, impondo-o sobre o reino da matéria e da vida animal, Zeus não conseguiu acabar com Tifon, o maior dos monstros...

Já o javali, como força brutal, que aparece na história de Adônis, é a forma que o deus Ares toma para assassinar o grande amor de Afrodite, deus da vegetação, um símbolo outonal. Adônis é assassinado no outono (desaparecimento da vegetação). A morte de Adônis, como o rapto de Kore, são alegorias de descidas infernais. Daí representar o javali a destruição, sendo, por isso, em muitas tradições, visto como emblema guerreiro. É considerado geralmente como um animal demoníaco pela sua impetuosidade (a devastação dos campos que provoca). Associado ao fogo (signo de Áries) lembra também o fogo das paixões.


VARAHA
Noutras tradições, como na celta, o javali é,entretanto, símbolo espiritual, no que lembra, pelos seus hábitos solitários, a figura do druida. Na Grécia, o javali, positivamente, faz parte de um conjunto simbólico (espiritual) ligado a Zeus no qual se incluem o carvalho, a águia e a trufa. Na Índia, Varaha, o Javali, é uma das encarnações (avatar) do deus Vishnu, segunda pessoa da trindade hinduísta, aspecto sob o qual o deus retirou a Terra das águas e a organizou. 

O carneiro aparece em muitos mitos associado à ideia de arrebatamento e de vitalidade sexual.         Como suporte simbólico,
representa as forças incontidas e criativas da natureza, o instinto de procriação que assume a continuidade da vida, inclusive o impulso agressivo. No Egito, por exemplo, Khnemu ou Khnum (fig. esq.), o deus da criação e da fertilidade, é representado com uma cabeça de carneiro. Na religião egípcia, o carneiro é um símbolo do poder fertilizador-gerador, tendo relação com todas as divindades que têm relação com a regeneração periódica da natureza. O deus Amon, por seu lado, costumava ser representado com chifres de carneiro. Diz a lenda que quando da conquista do Egito Alexandre Magno foi tomado por um enviado celeste, pois sua cabeleira parecia encobrir dois chifres de carneiro. 



Fogoso, indomável e poderoso, o carneiro faz parte das imagens de alguns deuses gregos, como a de Hermes Kriophoros e de Apolo Karneios. Quanto a Hermes, narra o mito que o deus livrou a Beócia de uma epizootia quando apareceu carregando um carneiro nos ombros. Quanto a Apolo, nessa forma, era muito honrado pelo militarismo espartano.


As tribos que invadiram a Grécia por volta do ano 1000 aC, os dóricos, trazendo a metalurgia do ferro, a pederastia como forma de educação militar e a nudez do atleta contribuíram bastante para que o culto de Ares ganhasse um novo impulso. Se os sacerdotes de
VELOCINO   DE   OURO
Delfos, oráculo de Apolo, foram os inspiradores do colonialismo grego, Ares foi o “executor” dessa política, fazendo o trabalho de campo, invadindo e ocupando várias regiões do Mediterrâneo e da Ásia Menor. A história dos argonautas, heróis gregos que foram à Cólquida (Ásia Menor) se apoderar o Velocino de Ouro é uma ilustração do que acabamos de dizer. Lembro que uma “atualização” cristã do mito dos argonautas aparecerá na Idade Média com o nome de a Busca do Santo Graal.



IXION

A descendência de Ares é responsável por uma lamentável crônica de violência e de crimes. Seus filhos, como se disse, lembram nesse sentido os de Poseidon. Flégias (inflamado), por exemplo, foi pai de Coronis e de Ixion. A primeira, amante de Apolo, o traiu, embora carregasse no ventre um filho dele, o futuro deus médico, Asclépio. Ixion, por seu lado, foi um dos grandes criminosos da mitologia grega, preso para sempre no Tártaro. Unindo-se a Nephele, a Nuvem, um simulacro da deusa Hera, a quem queria estuprar, Ixion tornou-se pai dos Centauros, monstruosas figuras híbridas, com busto de homem terminado por um corpo de cavalo. Passaram essas figuras a representar as constantes ameaças da vida instintiva que o ser humano tem que suportar na sua trajetória existencial. Lembre-se que o cavalo, associado aos Bestiários medievais sempre foi considerado como um símbolo universal da energia psíquica posta a serviço das paixões humanas, em particular da paixão sexual que, não controlada, leva o homem à destruição.

HÉRCULES   E   DIOMEDES

Com Pirene, Ares foi pai de três filhos, Cicno, Diomedes Trácio e Licaon. O primeiro assaltava peregrinos que se dirigiam ao oráculo de Delfos; Diomedes Trácio alimentava os seus animais (éguas) com carne humana, como está no primeiro trabalho de Hércules; Licaon bateu de frente com Hércules e morreu nas mãos do herói, como havia ocorrido com os outros dois.



Um episódio de destaque na vida do deus foi o da morte de Halirrótio, filho de Poseidon. Ares matou-o porque ele tentara estuprar sua filha, Alcipe. Levado pelos deuses a um tribunal, Ares, para espanto de todos, defendeu-se brilhantemente, sendo absolvido.  Esse tribunal se reuniu numa colina, o Areópago (Areios Pagos, colina de Ares), em Atenas. Orestes, o matricida, também foi julgado nesta colina.


AREÓPAGO  

Na história de Atenas, o Areópago funcionou historicamente tanto como um tribunal judiciário como assembleia política, reduzida depois a sua estrutura para, como órgão administrativo, exercer apenas o controle dos costumes públicos e da aplicação das leis da cidade. Uma curiosidade: foi a esse local que, em 375 aC, compareceu a cortesã Frineia, amiga e modelo do escultor
DENYS   AREOPAGITA
Praxíteles, para ser acusada publicamente de impiedade. Seu defensor, Hypéride, num golpe de mestre, a desnudou diante de todos os presentes e proclamou:”Merecerá beleza como esta a condenação?” Obviamente, a grande cortesã  foi absolvida e carregada em triunfo pelas ruas da polis. Foi neste local também que São Paulo pregou, convertendo o senador Dyonisus, conhecido depois pelo nome de Denys Areopagita, primeiro bispo de Atenas, e  santificado pela Igreja católica.

AFRODITE   E   ARES
O caso mais escandaloso de Ares foi o do seu affaire com Afrodite (uma ilustração astrológica do eixo Áries-Libra). Mal chegada ao Olimpo, Zeus literalmente “empurrou” a deusa para um casamento com Hefesto, o deus metalúrgico, artífice divino.Esta “generosidade” de Zeus para com seu filho é explicada: embora desejasse muito se aproximar sexualmente da belíssima recém-chegada, ele não o conseguiu, pois Hera, sua imperial esposa, manteve marcação cerrada sobre ele quando das festas realizadas no Olimpo para receber Afrodite, que a todos encantava.
  
Feio, aleijado, vivendo mais para as suas “indústrias” (na ilha vulcânica de Lemnos), Hefesto era o deus da metalurgia e das forjas. Descuidando-se de seus deveres matrimonias, deixou a jovem e apetitosa Afrodite abandonada no seu palácio. Numa das
AFRODITE,  ARES   E   ALECTRION  (TINTORETTO)
muitas reuniões olímpicas, ela e Ares se conheceram, sentindo-se a bela deusa atraída pelo esplendor físico do deus da guerra. Logo se tornaram amantes. Numa das vezes em que se encontraram, Ares escalou para ficar à porta do quarto, como sentinela, um assessor, Alectrion, com a incumbência de avisá-lo antes que Hélio, o deus-Sol aparecesse nos céus. Tal não aconteceu, Alectrion dormiu. A luz solar pôs então tudo à mostra, os dois amantes abraçados, dormindo, entregues ao doce cansaço de uma fogosa noite de amor. 



AFRODITE ,  ARES   E   EFESTO

Os deuses do Olimpo acorreram. As deusas, entretanto, advertidas por Aidos, o Pudor, evitaram comparecer. Hefesto, tomando conhecimento do acontecido, se deslocou rapidamente para o seu palácio ainda a tempo de surpreender os amantes presos ao sono. Como deus dos nós, das soldas, dos ferrolhos,  Hefesto lançou sobre os dois uma rede, prendendo-os de tal modo que jamais conseguiriam se libertar. Instado pela turma do “deixa disso”, acabou o deus coxo entretanto concordando em libertá-los. Afrodite demonstrou não se importar muito com a cena. Retirou-se logo para a ilha de Chipre, a ilha do cobre, onde, recebida pelas Horas  e pelas Cárites, se recompôs rapidamente com banhos, cremes e massagens, voltando logo a reassumir as suas funções de deusa do
FOBOS   E   DEIMOS
amor, como se nada tivesse acontecido. Ares, por seu turno, se mandou para a Trácia e lá ficou por uns tempos, praticando esportes, metido com os seus cavalos, limpando as suas armas. Alectrion, o dorminhoco, foi transformado por Ares num galo, obrigado a cantar às madrugadas antes de Hélio aparecer. Outra consequência desse affaire: Ares e Afrodite tornaram-se pais de três filhos: Fobos, Deimos e Harmonia (filha da guerra e da paz), que se casaria com Cadmo, fundador da aristocracia tebana.

Além da Trácia, Ares foi particularmente venerado na Cítia;, região próxima do Mar Negro, onde vivia um povo guerreiro;  em Olímpia o deus recebia o nome de Ares-Hippios e em, Esparta, de Ares-Enyalios (Belicoso), nomes, aliás, perfeitamente justificados sob o ponto de vista astrológico. Dentre todos os deuses do Olimpo, Zeus, como está na Ilíada, o considera como o mais odioso, pois “tu não amas senão a discórdia e os combates; tens o espírito intratável de tua mãe, que mal consigo reprimir com minhas palavras.”

Ao se referir ao filho dessa maneira, Zeus definia o seu  caráter, “deus furioso, naturalmente mau e inconstante, que, na sociedade olímpica, nenhuma simpatia desperta.” A imagem antropomorfizada  que a estatuária grega passou dele, a de um tipo fortíssimo, alto, barbudo, sempre armado, conduzindo muitas vezes um carro de combate, apesar de ser o grande modelo do infante (hoplita, o militar que combate a pé), fixou a sua imagem como a de um grande soldado. Sem se contestar aqui o seu grande valor como guerreiro, o que o prejudicava, porém, era a sua permanente sede de sangue e de carnificina, de corpos dilacerados, a sua pressa em destruir os seus alvos humanos e de encerrar as suas batalhas.

Mas não será por essas características que ele se diferenciava de Palas Athena. O que o irritava na deusa era a sua pretensão de se fazer passar por uma divindade em que a força se mostrava sempre controlada pela razão, que a sua a coragem era  inteligente e refletida. Na realidade, Palas Athena não era nada disso, era até muito competitiva, gostava das disputas, provocava-as, inclusive. A deusa, como se sabe, tinha um forte componente masculino na sua personalidade, vivia armada, seu corpo  indevassável, sempre protegido por um elmo. E como se tudo isto não bastasse, lembre-se que havia recebido de Zeus o privilégio de se manter eternamente virgem. Ela e Ares irritavam-se constantemente. A visão de Athena o punha furioso. Por essas razões, pela sua impetuosidade e agressividade cega, é que Ares deixou de vencer muitas lutas nas quais se empenhou. 

Cada tradição mítica da antiguidade teve o seu deus da guerra. Se nos aprofundarmos um pouco mais na questão da formação desse arquétipo entre os romanos notaremos que ele é, como aconteceu com  os gregos, um produto da contribuição de várias tradições. Por trás do Marte romano temos sem dúvida o Ares grego, o Marte dos Sabinos e muitos outros. 

Não podemos esquecer que Ares, como tudo indica, foi uma
NERGAL
“importação” da Trácia, das tribos que dessa região chegaram, como invasoras, na Tessália, na Beócia e na Fócida. Quando Ares chegou ao mundo grego, antes certamente da idade do bronze, os gregos o aproximaram do Hades, já que vinha acompanhado simbolicamente de serpentes e dragões, tinha a ver com os mortos e aceitava sacrifícios humanos, no que lembrava bastante, aliás, o deus Nergal dos mesopotâmicos.


Consta que a primeira união dessa divindade importada em território grego foi a que estabeleceu com uma das Erínias com a qual gerou um dragão. Esse dragão, como se sabe, foi liquidado por Cadmo (nome grego que traduz uma ideia de sobrepujar). Cadmo é um herói tebano, alcançando seu mito o mundo mediterrâneo, a Ásia Menor e o norte da África (Líbia). 


Cadmo (filho de Agenor e de Telefassa, reis de Tiro e Sídon) era irmão da princesa Europa, que, unindo-se a Zeus, deu origem à dinastia minoana. Depois de uma longa viagem, Cadmo acabou se fixando na Beócia. Mandou que um de seus companheiros fossem buscar água numa fonte próxima. Ao se aproximar, seus homens viram que a fonte era guardada por um dragão. Cadmo conseguiu matar o monstro e, a conselho de Palas Athena, semeou-lhe os dentes. No local em que os dentes do dragão tocaram a terra surgiram homens armados e violentos, aos quais foi dado o nome de spartoi, isto é, os semeados, ancestrais dos espartanos. Cadmo lançou pedras entre eles; não sabendo quem as atirava, acusaram-se mutuamente e entraram em luta, sobrevivendo apenas cinco spartoi.

CADMO   E   HARMONIA
A morte do dragão, por decisão dos deuses, teve que ser expiada por Cadmo. Ele foi obrigado a servir o deus Ares por oito anos como escravo. Terminado esse período, Zeus lhe deu como esposa Harmonia, a filha de Ares e de Afrodite. Segundo o mito, Tebas teria sido fundada pelo fenício Cadmo. Uma das filhas dele e de Harmonia, lembre-se, Sêmele, tornou-se mãe do grande deus Dioniso.  
  

Diodoro Sículo afirma que historicamente o primeiro Marte foi Belo, um rei da Babilônia, inventor de armas e da arte de dispor os exércitos nos campos de batalha. Higino, por sua vez, declara que este rei foi assim chamado, Belo, por ter sido o primeiro a usar dardos (belos) como arma de guerra. O Marte romano teria, na linha dessas contribuições, incorporado traços de um chamado Marte Hiperbóreo, divindade que, entre os germânico-escandinavos, era chamado de Odin ou Wottan. 

Os gregos formaram o seu Ares, como aliás todas as mitologias o fizeram, incorporando os traços de vários deuses da guerra, agregando ao modelo as características próprias de suas tradições, da sua invenção e da sua fantasia. Hesíodo, na sua Teogonia, deu a Ares como pais Zeus e Hera. Muitos dos traços da divindade grega passaram para o Marte romano, sem dúvida. Entretanto, é preciso lembrar que um deus da guerra já era honrado em terras itálicas antes da chegada do modelo grego.