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terça-feira, 6 de abril de 2021

AS CAVERNAS E O DEUS PAN

             

Se num primeiro momento grutas e cavernas são proteção, agasalho, nutrição, segurança, noutro elas poderão se constituir em abafamento, sufocação, castração e mesmo morte. Sair da gruta será sempre um problema, qualquer que seja o motivo. Foi certamente pensando nisto e em muitos outros aspectos relacionados com elas que os antigos gregos deram forma ao mito do deus Pan e, na filosofia, Platão, A República (Livro VII). 

No mito, Pan, nome que em grego quer dizer tudo, o todo, a totalidade, é filho do deus Hermes e da ninfa Dríope. Consta que por ser muito feio, peludo, teriomorfo, com orelhas pontiagudas, patas como as de bode no lugar de pés, e um pequeno rabo, foi rejeitado pela mãe. Hermes o levou então para o Olimpo. Saltitante, inteligente, curioso, querendo participar de tudo, desde logo o filho de Hermes deu também demonstrações de ter nascido com um intenso furor erótico. Foram os deuses que lhe deram o nome de Pan. O deus Dioniso se encantou com o jovem Pan, obtendo a permissão do pai para integrá-lo ao seu séquito, sempre ruidoso e barulhento, com as suas sacerdotisas, as mênades. 

PAN
Pan passou a viver na Arcádia, região de pastores e poetas, sendo-lhe atribuída, de comum acordo com a deusa Ártemis, a tutela das regiões que ficavam além do oikos, dos territórios que ligavam o conhecido ao desconhecido, lugares que levavam do mundo familiar ao Grande Mundo, ao Todo. Pan passava os seus dias perambulando pelos campos, sem um lugar fixo, em meio a brincadeiras, ora dormindo em grutas, banhando-se nos rios, sempre com muitos companheiros, tocando a sua flauta (syrinx), perseguindo as ninfas e assustando os viajantes que se aventurassem pelos caminhos, pelas florestas e pelas montanhas. 

Antes, porém, uma palavra sobre o oikos. Na Idade do Bronze, que precedeu o período  arcaico da história grega, no fim do qual pequenos núcleos urbanos e vilarejos começaram a se formar, o oikos era a unidade familiar básica, constituída pela propriedade (casa, terras, plantações, pastos, escravos e animais). O pai era a autoridade suprema, fazendo-se a transmissão da propriedade e dos bens sempre pela via patrilinear. A palavra economia, como a usamos hoje, tem a sua origem em oikos (família) e nomos (lei, regra, regulamento), ou, muito simplesmente, a lei da família, a lei da casa.

O sentimento de solidão e de desamparo que costumava atacar os viajantes quando longe do oikos, principalmente nos dias escuros, de mau tempo, ou em noites sem Lua, quando nenhuma voz era ouvida, os campos silenciosos, os animais recolhidos, esse sentimento começou a ser considerado, não se sabe bem por qual razão, como inspirado por Pan. Ansiosos, alarmados, aterrorizados, os viajantes, os peregrinos, sem um motivo justificável, ficavam paralisados por essa presença oculta de Pan, que se anunciava, como logo começou a se propagar, por um som por ele produzido, um som terrível, entre o grito humano e o uivo animal. Aos poucos, esse sentimento passou a ser chamado de terror pânico, um estado entre o pavor e o espanto, inexplicável, geralmente somatizado de diversos modos pelos que se afastavam do oikos, taquicardia, problemas respiratórios, paralisias, desmaios, quando não uma sensação de morte iminente.

NINFAS E PAN
Os companheiros de Pan nas suas aventuras eram os sátiros, os centauros e os silenos.  As ninfas (oréadas, dríadas, potâmidas, creneias e muitas outras), mesmo as mais retraídas, mostravam-se todas sempre muito curiosas com relação a Pan e seus companheiros, sobretudo pela lubricidade que sempre demonstravam. Da história de Pan consta que ele prestou serviços aos deuses quando da titanomaquia (luta entre os deuses olímpicos e os titãs), e que, juntamente com seu pai Hermes, salvou Zeus (seu avô), quando do ataque de Tiphon, o maior dos monstros da mitologia grega, que imobilizara o Senhor do Olimpo, cortando-lhe os tendões dos braços e das pernas. 

FAUNO
Dioniso, como se disse, gostava demais da companhia do filho de Hermes, fazendo questão de levá-lo em suas viagens, ficando famosa a que o deus do vinho fizera com ele  à Ásia para divulgar o seu culto. Um dos apelidos de Pan era Hylaeos, como divindade das florestas. Da Grécia seu culto foi levado para a Itália, como protetor de rebanhos. Lá foi assimilado aos faunos (protetores da fertilidade), aos egipãs (Pans na forma de homenzinhos que lembram a forma caprina). Consta que no norte da África, na Líbia, havia uns egipans com cauda de peixe, dos quais teria saído a representação do signo de Capricórnio, dos silvanos (protetores do verde da Natureza), estes conhecidos também pelo nome de paniscus.

PRÍAPO
Muito semelhante a Pan era Príapo, um filho espúrio de Dioniso e de Afrodite, protetor das colheitas e da fecundidade em geral, dono de uma magia simpática (apotropaica) infalível. Grande divindade asiática, Príapo pontificava na cidade de Lampsaco, na Misia, nas margens do Helesponto. Tinha uma ereção desmedida, persistente. Deu nome ao priapismo, uma patologia sexual. Diferente da satiríase, também uma patologia sexual, é o priapismo caracterizado por uma grande e mórbida ereção, nela não entrando nenhum desejo sexual, o que acaba levando o vitimado por ela à impotência, à esterilidade.  

SILENOS

Todas estas divindades campestres se ligavam a Dioniso e a Pan. Dioniso, aliás, era chamado também de Baco, nome retirado de um verbo grego que significava ser tomado por um transporte divino.  Dessas divindades, por exemplo, saíram designações como sátiro, que usamos para qualificar hoje o homem obsceno, lúbrico, voyeur ou exibicionista. Segundo Homero, teria existido nas montanhas da Cítia um povo inteiro de sátiros, que, quando envelheciam eram chamados de silenos (sátiros envelhecidos). Os sátiros (etimologicamente, nome ligado a um verbo que significa distender, entumescer, inchar) eram divindades menores da natureza que acabaram se integrando também ao cortejo de Dioniso. Híbridos, eram humanos, com acentuados traços que lembravam sobretudo os bodes: orelhas pontudas, pequenos chifres na testa, peludos, cascos ao invés de pés. 

CENTAURO

Os centauros, filhos de Nephele, a Nuvem, e de Ixion (que viverá no Tártaro até o final dos tempos), costumavam também frequentar os territórios de Pan, chamados pelos gregos, de agros. Brutais, quase sempre embriagados, vivendo em bandos, alimentando-se de carne crua, os centauros simbolizam a concupiscência carnal, a ameaça da vida instintiva, sempre presente no homem que não sabe controlá-la. É neste sentido que os antigos gregos consideravam o centauro como uma antítese do cavaleiro que sabia dominar e controlar a sua montaria. 

PAN
Em parte zoomorfo, em parte humano, Pan era uma divindade turbulenta, que com os seus aparecimentos súbitos provocava, como se disse, o pânico entre os humanos, entre as ninfas e mesmo entre os deuses. Nos humanos, o terror neles infundido será diagnosticado, muito mais tarde, como uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas observáveis como vários processos patológicos. No seu aspecto mais visível, uma condição crítica passível de despertar inicialmente insegurança, medo, e terminar como prostração, imobilidade, às vezes com a sensação de morte súbita, como exposto acima. 

A chamada síndrome do pânico impede que a energia vital, certamente por pressões inconscientes vindas da gruta, isto é, do inconsciente, se readapte diante de situações existenciais não familiares, desconhecidas, que exigem prontas mudanças, rápidas respostas, novos procedimentos, novas maneiras de ser diante de situações inusitadas, imprevistas. Astrologicamente, é de se lembrar que o deus Pan “vive” entre a quarta e a quinta casas astrológicas, ou, de outro modo, entre o signo de Câncer e o de Leão, sendo também possível a seu aparecimento nas posições e aspectos desarmônicos que a Lua vier a formar numa carta astral. 

CÂNCER
O signo de Câncer relaciona-se com a fecundação e a concepção, com a alimentação, presentes sempre os conceitos de segurança, proteção e amparo. Câncer tem a ver com o lar, a mãe, a tribo, as heranças, as impressões, as lembranças, a força psíquica das origens, os sentimentos e emoções, a memória. Inferiormente, o signo lembra: estreiteza mental, impressionabilidade, acumulação, adesão incondicional ao passado, emotividade, humor caprichoso, indolência, infantilismo psíquico, atavismo, idiossincrasias, o domínio do hábito. Já o signo de Leão, bem ou mal, aponta para a conquista de um ego poderoso, autonomia, ardor vital, auto-expressão criativa, império da vontade, força emotiva ativa, busca da própria razão de viver, iniciativa, ampliação, orgulho, passionalismo, tendência à ação sem compartilhamento, narcisismo, infantilidade, cólera, necessidade de reverências, generosidade, exibicionismo etc.

LASCAUX ,  FRANÇA

Ornadas de pinturas e desenhos, como nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos da história da humanidade, as cavernas sempre apareceram associadas aos órgãos genitais femininos e, por extensão, à fertilidade. Vários povos, os astecas, por exemplo, relacionavam, num mesmo contexto simbólico, a Lua, a caverna, a mulher e a chuva.

Aparecendo no simbolismo dos sonhos de alguém, as cavernas podem indicar, como nos explicam muitos onirólogos, a necessidade de ser buscado por este alguém um novo sentido para a sua vida, uma renovação, um renascimento. Sob o ponto de vista psicanalítico, sonhos deste tipo costumam representar sempre uma descida às camadas profundas da vida subconsciente. Escondem, quem sabe, um forte anseio que possa levar a uma regressão, a uma vida pré-natal, uma volta a um mundo obscuro, morno, a bolsa amniótica, onde não há escolhas, angústias nem decisões, onde tudo é recebido de graça, sem esforço algum.

As cavernas e grutas exercem, sem dúvida, um grande fascínio (que o digam os espeleólogos!) sobre todos aqueles que pretendem conhecer um pouco mais de si mesmos, indo às profundezas de sua personalidade. Qualquer que seja o enfoque, grutas  e cavernas representam sempre abrigos absolutos. Entrar nelas é psicologicamente um retorno ao mundo maternal, uma negação do nascimento, um mergulho no indefinido. É, neste sentido, uma renúncia à vida atual, terrestre, e um desejo de renascimento sob uma outra forma, como se disse. 

É de se lembrar também que muitas cerimônias de iniciação se realizavam em cavernas, em antros, grutas naturais e profundas, materializando o que os latinos chamavam de “regressus ad uterum”. Era neste sentido que entrar numa caverna, nessas cerimônias, era fazer um retorno à vida original com a pretensão de mais facilmente se chegar aos céus depois.

O mito da caverna, num sentido mais amplo, diz respeito a todos aqueles que não vêm o mundo por si mesmos, iluminados pela luz do Sol, aos que obtêm as suas informações e conhecimentos sempre de segunda-mão, através de outras pessoas, nunca por si mesmas. É como se vivessem simbolicamente num lugar de ignorância, percebendo apenas, quando muito, as sombras dos seres e das coisas do mundo que de fora lhes chega, projetadas nas suas paredes. Vivem com informações distorcidas, falsas, vagas, incompletas, reflexos confusos.

CULTO A MITRA
Nas cavernas de muitos povos da antiguidade, como se constatou, realizavam-se cerimônias, cultos, representações ctônicas associadas aos poderes de entidades noturnas e infernais, com a finalidade de fazer com que os iniciados (mystes) pudessem buscar o caminho da luz. Um exemplo do que aqui se diz nós encontramos nas cavernas onde os antigos persas celebravam os seus cultos ao deus Mitra, com tal finalidade.

SÃO JOÃO EVANGELISTA
Influenciando de modo marcante o cristianismo então nascente, sabemos que as festas em honra ao deus persa não só contribuíram para que os romanos estabelecessem a data de nascimento de Cristo no final do mês de dezembro como para inspirar a iconografia cristã. Tanto o nascimento de Jesus (estábulo de Belém) como seu túmulo, quando de sua inumação, foram fixados em grutas. Mais ainda: registre-se que João Evangelista recebeu a visão do Apocalipse numa caverna na ilha de Patmos.     


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (2)

                                                  

KIRON  E  A  MÚSICA
O mito que melhor explica o signo de Sagitário para a cultura ocidental é o do centauro Kiron,  como os antigos gregos o elaboraram, com base certamente nas influências recebidas dos mesopotâmicos. Antes, porém, é preciso entender que Kiron, como tantos outros monstros, faz parte da galeria de estranhos seres bicorpóreos produzidos pela imaginação humana,  que encontramos em todas as culturas. Monstros são sempre símbolos das dificuldades e dos obstáculos que o homem deve vencer para ter acesso a certos bens e/ou a níveis superiores de vida, seja material ou espiritualmente. Sempre
MONSTROS , ILUMINURA   MEDIEVAL ,  SÉCULO XIV
associados à vida primordial na Terra, os monstros míticos são seres de um mundo que antecedeu a organização do cosmos, um tempo em que a ordem ainda não se impusera aos seus elementos constitutivos, um tempo anterior ao da História. Nesse sentido é que os monstros, onde aparecem, lembram sempre regressão, indiferenciação, indeterminação, confusão,  como agentes do caos. Significam sempre uma perturbação, uma perversão, uma resistência à ordem, um desejo de voltar a um estado que antecedia o mundo conhecido como obra dos deuses e dos homens. 

O SONHO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS
( FRANCISCO  DE  GOYA , 1746 - 1828 )
Produzidos pelos excessos e descontroles da imaginação criadora dos homens, a faculdade que que eles têm de representar seres ou coisas ausentes, os monstros “vivem” no psiquismo dos homens, invadem a sua consciência, anulando ou distorcendo o que se entende por vida racional. Seja pela memória, pelo hábito, pelos sonhos, por  desejos recalcados ou por complexos, essas entidades vêm, ao longo de  milênios, dando provas de seu poder, da sua ineludível presença na vida dos seres humanos.

Todas as sociedades humanas sempre procuraram estabelecer o que devia ser entendido por seus membros como essencial para a sua sobrevivência, principalmente sob o ponto de vista moral, das suas relações, do seu convívio, em termos de sentimentos, ação e razão. Conceitos como humano, humanidade, humanismo, vida comunitária, por exemplo, pedem limites  bem definidos. Comportamentos que afrontam ou que contrariam esses conceitos, baseados em práticas e valores diferentes, devem ser desestimulados, condenados, proibidos. 

Na história da humanidade, um dos meios mais eficazes para falar de comportamentos socialmente nefastos, condenáveis, que atentem contra a ordem estabelecida, foi o de compará-los com exemplos retirados do reino animal, considerados totalmente contrários àqueles que são esperados de um ser humano normal. Daí se caracterizar, de uma maneira no geral muito simplista  até, como animal, bestial, esses comportamentos, como se houvesse uma fronteira perfeitamente definida entre a vida instintiva e a vida racional.


CAPITEL  ROMÂNICO  FRANCÊS
IGREJA  DE  ST. PATRICE, NIÈVRE
O comportamento animal diz respeito ao que se denomina vida instintiva. Instinto é impulso para agir que independe da razão. No animal, tem caráter compulsivo e nele costumamos distinguir três características: é inato, uniforme e específico a cada espécie. Já quanto ao ser humano, a vida instintiva apresenta bem maior complexidade: depende do temperamento de cada um, da sua inteligência, do seu nível de consciência, e da maior ou menor pressão por ele sentida com relação às regras sociais.

É preciso lembrar que nenhuma outra fonte iconográfica proporcionou ao homem tantas possibilidades para ele estabelecer o seu universo simbólico como o animal. Poucas são as qualidades e peculiaridades humanas que não podem ser representadas pelo mundo animal. Os mitos, as religiões e mais perto de nós a psicologia sempre procuraram representar o simbolismo da vida instintiva, do inconsciente, da libido e das emoções valendo-se sobretudo de exemplos colhidos no mundo animal. 


MONSTROS   DE   BESTIÁRIO   MEDIEVAL


CENTAURO
Na mitologia grega, os centauros fazem parte de um grupo de monstros bicorpóreos, formados por uma parte humana e por uma parte animal. Representam assim a permanente ameaça da vida instintiva à vida racional. Na sua parte superior, pelo ser humano, possuem cabeça, tronco e dois braços; na parte inferior, pelo cavalo, possuem a genitália animal, quatro pernas e patas.  Concupiscentes, lúbricos, os centauros mais conhecidos, viviam em bandos, alimentavam-se de carne crua, eram barulhentos e gostavam do vinho, embriagando-se facilmente, entregues sempre às mais baixas paixões.


POSEIDON   E   ANFITRITE 
O cavalo, na mitologia grega, foi “inventado” pelo deus Poseidon quando disputou com Palas Athena a tutela da polis ateniense. Conta o mito que o povo da cidade optou pela “invenção” que a deusa lhe ofereceu, a oliveira, rejeitando a oferta do deus dos oceanos. Dentre as várias possibilidades significativas que o cavalo adquiriu, uma das mais importantes foi a de se considerá-lo como um símbolo universal da energia psíquica colocada a serviço das paixões humanas, a sexual sobretudo, paixões que se não controladas podem levar o homem à destruição. É com este sentido, por exemplo, que ele aparece nos bestiários medievais como um ser da impulsividade, da impetuosidade dos desejos, das pulsões instintivas que acometem o homem. Esta associação do cavalo com as forças obscuras que atuam no psiquismo do ser humano, visualiza-o sempre como uma encarnação da libido negativa que se opõe a qualquer tentativa de controle. 

É de se lembrar que algumas línguas, como a francesa e a inglesa, encerraram  na designação que deram a sonhos angustiantes, os pesadelos, essa relação entre o cavalo e as forças obscuras do inconsciente. O pesadelo, como se sabe, é um sonho  aflitivo que nos oprime, como se algo (a pata de um cavalo) pressionasse o nosso peito, podendo afetar a nossa respiração, causando inclusive perturbações respiratórias, dispneia. Em francês, pesadelo é cauchemar, palavra formada pelo verbo cauchier (calcar, oprimir; calcare, em latim) e por mare, palavra oriunda de antigas línguas europeias nas quais tinha tanto o sentido de besta, animal, cavalo como de fantasma noturno). Para os ingleses, a mesma coisa: pesadelo é nightmare, que podemos traduzir como a opressão noturna do cavalo. 


PÉGASO  ( JAN  BOECKHORST , 1604 - 1668 )

Apesar desta visão negativa do cavalo aparecer com muito ênfase nas tradições mítico-religiosas e artísticas, não podemos esquecer que foram os próprios gregos que também viram o animal positivamente. Esta versão positiva do animal, que recebeu o nome de Pégaso (nome que lembra fonte, em grego), tem na sua origem uma história na qual aparece o  próprio deus Poseidon, que o gerou ao se unir à Medusa. Aparecendo como um animal em tudo diferente dos centauros, Pégaso é, no mito, tanto montaria de heróis como um símbolo de elevação, da imaginação criadora e fonte da inspiração poética. 


HIPOCRENE ( JOOS  DE  MOMPER , O JOVEM , 1564 - 1635 )

Branco e alado, rápido como o vento, só poderia ser montado por heróis. Ao escoicear o flanco do monte Helicon, fez brotar a fonte de Hipocrene (Fonte do Cavalo), de cuja água podiam se beneficiar os artistas para a sua inspiração. Para que isto acontecesse, porém, os artistas, como os heróis, deveriam ter o domínio completo da sua montaria, isto é, ser donos de uma tekhne (técnica) perfeita. Sem esta, Pégaso lançava ao solo tanto cavaleiros como artistas despreparados. 


LA  DAME  À  LA  LICORNE, 1484 -1538
Em muitas tradições, depois, lembre-se, na esteira da grega, temos o registro da transformação do cavalo num símbolo positivo, como, por exemplo, o encontramos na famosa tapeçaria de La Dame à La Licorne. No início da Idade Média, o cavalo adquiriu um status de nobreza, uma aura solar. Apesar de continuar trabalhando nos campos e de simbolizar a impetuosidade dos desejos, associado à vida inconsciente, sua imagem consagrada neste período é a que o considera como a montaria do guerreiro, do cavaleiro, do caçador, sempre valorizado positivamente pelas ordens de cavalaria que se fundam em vários países da Europa.      

Agrupam-se os centauros na mitologia grega em duas famílias. Uma delas está relacionada com a história de Ixion, filho do deus Ares, rei dos lápitas, um povo da Tessália. Insolente e falastrão, para se casar com a bela Dia, Ixion prometeu ao pai da jovem, Dioneu, que o cumularia de presentes, uns cavalos maravilhosos. Realizado o casamento, nada de presentes, porém. Ao reclamá-los ao genro, Dioneu foi assassinado por ele, que lançou o corpo do sogro num poço cheio de carvões em brasa. Ocultando o acontecido, falso e hipócrita, Ixion passou a cultuar a memória do sogro em cerimônias que Dia realizava.

Historicamente, os lápitas eram rudes criadores de cavalos e mercenários. Violentos e cruéis, viviam nos maciços montanhosos ao norte da Grécia. Úmida e fria no inverno, muito quente no verão, a Tessália se integrou ao mito pelas histórias de muitos de seus personagens, do deus-rio Pneu, da ninfa Filira, de Lápites (filho de Apolo), de Mopso e de muitos outros, alguns inclusive participantes da expedição dos argonautas.


O assassinato de Dioneu acabou sendo descoberto e levou os lápitas a investigar outros crimes cometidos por seu rei, todos desvendados. Ixion foi afastado do trono e expulso do seu reino.Tornou-se um ser errante, um nômade, por todos amaldiçoado. Zeus, que do alto tudo via, compadeceu-se inexplicavelmente de seu neto, chamando-o para viver no Olimpo. Mal instalado na mansão dos deuses, atacado por imensa hybris, ousou Ixion cometer um crime muito mais grave do que aqueles que cometera em sua vida terrena. Tentou violentar a deusa Hera, esposa imperial de Zeus, seu protetor. 

ZEUS  E  HERA ( PETER - PAUL RUBENS , 1577 - 1640 )

Cientificado do fato por Hera, Zeus mandou confeccionar com nuvens um simulacro de sua esposa, em tudo idêntico a ela, chamando Nephele (nuvem, em grego). Ixion caiu no engodo. Unindo-se sexualmente com o simulacro da deusa, tornou-se pai de uma grande ninhada de centauros, machos e fêmeas, despachados para viver na Terra, chamados desde então de ixiônidas. Para castigar o insolente Ixion, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o imortal, e depois o mandou para o Tártaro, o mais profundo do mundo infernal, para que, até o final dos tempos, ficasse amarrado com serpentes a uma roda incandescente ali a girar. Alguns poucos mortais que visitaram o Hades, contam que Ixion, preso à roda, grita dia e noite: Honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão. 

KRONOS    E   FILIRA
( PARMIGIANINO , 1503 - 1540 )
O outro grupo familiar onde encontramos centauros é o que tem por origem a relação que Kronos manteve com uma jovem e belíssima oceânida, que passou à história com o nome de Filira (nome grego da tília, árvore-símbolo da amizade). Kronos uniu-se à jovem sob a forma de esplêndido garanhão, já que ela, para fugir dele, tomara a forma de uma égua. Dessa união, nasceram vários centauros, totalmente diferentes dos ixiônidas. Gentis, pacíficos, eram amigos dos deuses e dos humanos. Dentre todos, porém, destacava-se um, inteligentíssimo, ao qual foi dado o nome de Kiron (do grego, kheir, mão), “o que trabalha com as mãos”.

Além dos dois grupos familiares mencionados acima, temos que fazer referência também a um outro centauro, pela sua participação indireta na morte de Kiron. De nome Folo, filho único de um sileno e de uma ninfa melíade, este ser, nascido como centauro, era
NINFAS   E   SÁTIRO
pacífico. Silenos participam do mito como companheiros envelhecidos do deus Dioniso, fazendo parte de seu séquito. As melíades, nascidas do sangue derramado de Urano, quando de sua castração por Kronos, são ninfas dos freixos, árvores que fornecem uma madeira especial pela qual os heróis gregos têm especial predileção para a confecção dos cabos de suas lanças. Vivendo na Arcádia,  Folo recebeu Hércules quando nosso herói para lá se dirigiu para dar cumprimento ao seu sétimo trabalho, a captura do javali de Erimanto. 

Certa vez, quando em visita à Terra, o deus Dioniso, hospedado por Folo, deu-lhe uma botija de precioso vinho, recomenando que só a abrisse quando Hércules passasse pela região. Lembrando-se da recomendação do deus, mas, ao mesmo tempo, sabendo que se abrisse a botija os centauros ixiônidas que por ali viviam  invadiriam a sua gruta, relutava em fazê-lo. Precipitando-se, Hércules rompeu o lacre da botija; imediatamente, os ixiônidas, com grande algazarra, invadiram a gruta, tentando arrancá-la das mãos do nosso herói. Reagindo, Hércules matou alguns, pondo-se a perseguir outros que fugiram. Ao retornar, Hércules encontrou Folo agonizante. Ao sepultar diligentemente os centauros que nosso herói matara, uma das flechas, que eram envenenadas, acidentalmente desprendeu-se e o atingiu na perna. Hércules esperou que Folo morresse, preparando-lhe um funeral magnífico.

Pesarosa, diante dos monstruosos filhos que tivera, a jovem oceânida rejeitou-os e pediu aos deuses que a metamorfoseassem, sendo ela então transforma
POTNIA   THERON
da numa tília. Kronos, por seu lado, entregou Kiron a Ártemis e a Apolo, os deuses da Lua e do Sol, respectivamente, para que eles se encarregassem de sua educação. Como preceptora do infante Kiron, Ártemis assumiu diante dele o seu aspecto “oriental”, o de Potnia Theron, a Senhora das Feras, divindade protetora de todas as crias, filhotes e rebentos do mundo animal, protetora de tudo o que entrava na vida, mas que devia aprender que vida pede desapegos, como um passar, um fluir, um devenir constante.


ÁRTEMIS
Embora a corça seja o seu animal predileto, que está sempre ao seu lado, Ártemis nos lembra que em razão de seus imutáveis condicionamentos instintivos, a corça não “sabe passar”, não sabe adaptar-se a situações novas que tem de enfrentar. É, nesse sentido, instinto puro e, como tal, tem que ser sacrificada. Não é preciso se fazer muito esforço para perceber o quanto dessa educação pode ser aplicável aos seres humanos que não sabem construir uma personalidade autônoma nem nela integrar hábitos, atavismos e os comportamentos herdados, de modo a transformá-los  em algo seu. É por isso que a Lua, como se sabe, sob o ponto de vista aqui expresso,  encarna astrologicamente a anima, o princípio feminino, maternal, passivo, as trevas do inconsciente. Rege, por isso, os temperamentos linfáticos, digestivos, receptivos, marcados por forte instinto de conservação, sempre voltados para a calma, para vida protegida, a ser vivida dentro de fronteiras seguras.

A Ártemis de que falamos aqui nada tem a ver com aquela que os creto-micênicos veneraram como deusa da fertilidade do solo e da fecundidade humana. Esta deusa que aqui relacionamos com Kiron é chamada de Elafieia, a que massacrava corças e veados, no festival de Elafebolion, realizado anualmente em março, no qual, em alguns lugares da Grécia, se praticavam os ritos do diasparagmos (despedaçamento das vítimas ainda vivas) e da omophagia (consumo da carne e do sangue do animal sacrificado).


APOLO , KIRON , ASCLÉPIO

Quanto a Apolo, como deus da luz e da harmonia, transmitiu ele a Kiron que um ideal de sabedoria que só poderia se realizar pelo controle das pulsões, dos desejos humanos, pela via racional, e por sua progressiva orientação a caminho, sempre, de uma crescente espiritualidade. Faziam parte desse ideal apolíneo também os ensinamentos complementares referentes à ética, à mântica profética, à medicina, à leitura do céu e às artes em geral, com destaque especial para a música,  

Apolo explicou a Kiron, sob o conceito de inteligência, todo um conjunto de funções (sensação, associação, memória, imaginação, entendimento, razão e consciência) que lhe permitiram racionalmente compreender todas as relações entre os seres e as
KIRON , TAPEÇARIA  MEDIEVAL
coisas do mundo. Assim o fazendo, incutiu-lhe Apolo todo um ideal de sabedoria que, no homem, se realizaria por sua caminhada em direção de uma espiritualização progressiva pelo alargamento cada vez maior do campo da sua consciência. Um ideal de sabedoria no qual a vida instintiva e a razão, aquela devidamente iluminada por esta, se ajustariam para que ambas, cada uma no seu nível, se tornassem servidoras da vida espiritual, uma concepção ternária que o próprio Kiron emblematizava com o seu corpo híbrido e com o arco e a flecha que Apolo lhe pusera nas mãos. 

Aqueles que não sabiam “passar, que continuavam apegados às influências das suas origens, inteiramente presos à vida instintiva, não sabendo integrá-las a um eu novo que teriam que construir na sua caminhada,  Ártemis os “matava” impiedosamente. Era nesta condição que a deusa aparecia como cruel, sanguinária, bárbara, em vários cultos como o do Elaphebolion. 


APOLO   E   MUSAS

Como aconteceu também com relação à dupla personalidade de Ártemis, a personalidade apolínea que se relacionou com Kiron foi a do deus como venerada na Ática, a de uma magnífica figura, representada pelo Sol e pela luz civilizadora, sendo neste papel conhecido ele pelo nome de Apolo Musagetes (condutor das Musas), divindade tutelar de todas as artes. Não foi como uma divindade dórica, ligada à vida castrense e às aventuras colonialistas, honrado nos acampamentos militares, o violento, vingativo e temível Toxoforo (Arqueiro), que Apolo assumiu a educação de Kiron. Foi como um deus ático, ateniense, que ele transmitiu a Kiron um conhecimento que refletia um ideal de beleza e de progresso, representado pelo arco e pela flecha, por ele oferecido ao centauro, um símbolo complexo, do qual fazem parte, na perspectiva apolínea, ideais de separação e de libertação por um domínio em que se harmonizassem, uma servindo à outra, a vida instintiva, a vida racional e a vida espiritual. 

Kiron, do grego kheir, mão,  o que trabalha com as mãos, com os ensinamentos recebeidos de Ártemis e de Apolo, tornou-se um ser muito diferente dos seus congêneres ixiônidas. Sábio e prudente, amigo dos deuses e benfeitor dos humanos, era muito conhecido como médico, cirurgião, herborista e terapeuta, além de profundo conhecedor de todas as artes. Logo se tornou o tutor de um grande número de filhos de deuses e de futuros heróis. Vivendo num gruta do monte Pelion, casado com Cáriclo (a de grande beleza e renomada, etimologicente), oceânida, foi pai de três filhas, Hipe, Endeis e Ocírroe,  e de um filho, Caristo.

Passaram pela gruta de Kiron, como seus discípulos, além de  outros, os Discuros (Castor e Polideuces); Aquiles, o fremente; Hércules, cuja amizade lhe seria fatal; Jasão, o chefe da expedição dos argonautas; Ulisses, o polimetis; Meleagro; Acteon; Amphiaraos, o duplamente maldito; Diomedes. Dentre seus discípulos, merece referência especial Asclépio, filho de Apolo, que se tornaria a maior divindade médica da Grécia no grande santuário de Epidauro.


PELEU , AQUILES  E KIRON
Foi Kiron, por exemplo, quem deu sábios conselhos a Peleu para que ele cortejasse e se unisse a Tétis,para que dessa união nascesse Aquiles, o maior guerreiro dos gregos. Foi Kiron quem preparou o calendário de que se serviram os argonautas para a sua viagem à Cólquida, além de orientá-los com relação à posição dos astros no céu. Consta que Kiron, com os acordes de sua lira, curava muitas doenças e que pelo conhecimento da influência dos corpos celestes prevenia os homens quanto às suas influências nefastas. Muito se poderia dizer sobre a vida de Kiron e do quanto ajudou mortais, heróis e deuses. As informações mais detalhadas que temos sobre ele estão registradas em Apolodoro (Biblioteca Mitológica) e Apolônio de Rodes (Argonáutica).

A morte de Kiron se deve a uma fatalidade, ligada diretamente à  morte do centauro Folo, acima relatada. Hércules,  ao perseguir  os brutais e selvagens centauros que fugiram da gruta de Folo, disparou uma flecha que, trespassando o coração de um deles, de nome Elato, atingiu acidentalmente Kiron na coxa. O sangue dos centauros, como se sabe, é um veneno contra o qual não havia antídotos. A flecha envenenada não matou Kiron, pois tinha em seu corpo um lado imortal, como filho de Kronos. Isto não impediu entretanto que as dores o atingissem, causando-lhe  muito sofrimento ao seu lado mortal. Diante dessa aflitiva situação, Hércules propôs um acordo a seu pai divino, Zeus: que Kiron cedesse o seu lado imortal ao titã Prometeu, condenado a padecer eternamente por ter roubado o fogo dos céus e tê-lo entregue aos humanos. 

Acorrentado nas montanhas do Cáucaso por ordem de Zeus, um abutre gigantesco destruía diariamente o fígado do titã, que se recompunha à noite quando a monstruosa ave se afastava. Zeus afirmara que só o libertaria se um imortal cedesse a sua imortalidade a ele e fosse para o Hades, o reino dos mortos. Aceita a proposta, Kiron foi liberado de seu sofrimento e pode assim morrer tranquilamente. Para homenagear o desprendimento de Kiron e para que o seu exemplo jamais fosse esquecido pela humanidade, Zeus colocou o centauro-mestre nos céus, com o arco e a flecha nas mãos, como a constelação de Sagitário, a nona do círculo zodiacal.


CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO

Desde então a constelação de Sagitário é representada pela mítica imagem do centauro, com um arco e uma flecha a ser disparada nas mãos. Muitas vezes, porém, ao invés da imagem do centauro, em algumas tradições astrológicas, já na antiguidade, a constelação era representada apenas por uma flecha, disposta de modo a formar um ângulo de 45º com a base da figura, o melhor ângulo para se atingir a máxima distância.  

quarta-feira, 4 de junho de 2014

HÉRCULES - SÉTIMO TRABALHO


HÉRCULES

O JAVALI  DE  ERIMANTO - Erimanto era uma região desolada, montanhosa, da Arcádia. Nela vivia um javali gigantesco, que aterrorizava os habitantes da região, destruindo ou matando tudo o que encontrasse pela frente. A missão de Hércules era a de capturá-lo e de levá-lo vivo para Argos. Antes de se dirigir ao local, nosso herói procurou aconselhar-se com o deus Apolo quanto à melhor maneira de dar cumprimento ao que lhe determinara Euristeu. O deus lhe falou que o animal era do deus Ares, sendo também muito caro à sua irmã, a deusa Ártemis. Disse-lhe Apolo que a melhor maneira de enfrentar o monstro e de vencê-lo era a de lutar sem lutar. Hércules se impacientou com as palavras de Apolo, não as compreendeu, e resolveu que decidiria o que fazer quando se visse frente a frente com a fera.



Chegando a Erimanto, nome que lembra não só a cor vermelha como traduz uma ideia de violência e de excitação, Hércules entrou em contacto com o centauro Folo, um centauro pacífico, muito diferente dos demais. Ele havia recebido do deus Dioniso, segundo
DIONISO
Diodoro Sículo, há muito, uma botija de vinho com a recomendação de que só a abrisse quando procurado pelo filho de Alcmena, que viria lhe pedir hospitalidade. Assim aconteceu: aberta espontaneamente pelo centauro a botija de vinho, conforme recomendação de Dioniso, uma grande surpresa; inúmeros centauros que viviam por perto, atraídos pelo odor do vinho, invadiram a gruta na qual Folo e Hércules se encontravam, trocando brindes.

Outra versão, a de Apollodoro, nos revela que, embora preferindo carne crua, como era costume entre os centauros, Folo ofereceu a nosso herói carne assada, como a consumiam os humanos, reclamando nosso herói a falta de vinho para acompanhar a refeição. Folo mostrou-se muito temeroso, pois se servisse vinho, os centauros que viviam por perto seriam fatalmente atraídos pelo odor da bebida, o que certamente lhes causaria muitos problemas. Lembrou Folo que não era  recomendável aproximar o vinho tanto de cíclopes como de centauros, pois, ainda que consumindo doses mínimas, eles se tornavam sempre muito violentos, descontrolados. Hércules não deu ouvidos ao centauro e tomou a iniciativa de abrir o recipiente de vinho guardado. Em pouco tempo, atraídos pelo buquê do precioso líquido, os centauros invadiram a gruta de Folo, armados de pedras e de porretes.

Antes de prosseguir, será importante nos fixarmos um pouco na figura dos centauros já que eles têm um papel importante não só neste trabalho como na história de nosso herói como se verá. Muitos mitógrafos, aliás, quando abordaram este sétimo trabalho, destacaram muito mais a luta que Hércules travou contra os centauros do que a sua vitória sobre o javali. Justificavam este entendimento por alguns fatores: primeiro, porque o javali de Erimanto não fora enviado pelos deuses, sendo apenas um desvio da energia animal presente no universo. Segundo, não era ele propriamente um ser da família dos monstros, pois estes, como sua própria designação indica, são sempre enviados pelos deuses.
TOURO   DE   CRETA
Etimologicamente,  monstro é objeto ou ser de caráter sobrenatural que anuncia a vontade divina. O javali do sétimo trabalho, embora tenha uma conformação anormal, por excesso, ele não tem a marca do divino como outros monstros que Hércules enfrentou, a saber, o touro enlouquecido de Creta, a corça Cerinita, o caranguejo enviado por Hera, Cérbero, o cão tricéfalo e outros. A título de esclarecer melhor esta questão, lembre-se que  a palavra monstro está relacionada com o verbo monere, que em latim significa fazer pensar, fazer lembrar, advertir. É desse verbo, por exemplo, que sai a palavra monumento.

Segundo versões dignas de todo crédito, da progênie de Ixion fazia
TESEU
parte também Piritoo, filho que tivera com Dia, figura sinistra, muito ligado a Teseu, famoso rei de Atenas. Herói lápita da Tessália, Piritoo e suas as histórias  acabaram, com o tempo, por se integrar ao mito de Teseu, de quem ele se tornou escravo, fascinado pelo seu majestoso porte e por suas inúmeras façanhas. Como se explicará no décimo trabalho de Hércules, a descida ao Hades para lutar contra Cérbero, Piritoo, até o final dos tempos, permanecerá prisioneiro no Tártaro. 
   
Para Diodoro, além de pedras e porretes, os centauros costumavam carregar também machados próprios para matar bois. Ainda que fossem filhos de Nephele, um simulacro criado por Zeus, não se pode considerar a mãe dos centauros como divindade. O que temos então é que os centauros, pelo seu duplo corpo, nada têm de divino, pois são constituídos apenas por uma parte animal e por uma parte humana, esta sobreposta aquela.


KIRON   E   AQUILES

Os centauros, no mito, com exceção de Kiron (filho de Cronos e de Filira) e de Folo (filho de Sileno e de uma ninfa Melíade), se distinguiam de todos os outros, o primeiro por sua grande sabedoria e o segundo por sua grande bondade. Os demais eram todos filhos de Ixion e de Nephele, a Nuvem. Ixion, por seu lado, era filho do deus Ares e seu reino ficava na Tessália.  Tentando fazer da belíssima jovem Dia sua esposa, fez Ixion ao seu futuro sogro, Dioneu, várias promessas. Quando este, depois das núpcias, foi
IXION   
reclamar o cumprimento do prometido, Ixion o matou, lançando-o traiçoeiramente num poço cheio de brasas. Além de eliminar o sogro, tornando-se um assassino, Ixion cometeu o crime do perjúrio, ao não aceitar, como havia prometido, as divindades da família da sua esposa. Ademais, como se tudo isto não bastasse, como rei dos lápitas, ele tinha uma história de inúmeros crimes. Tantos foram os seus desatinos que acabou expulso da cidade que governava pelos seus próprios súditos. Não tendo para onde ir, pôs-se a perambular pelas estradas, transformando-se num pedinte, amaldiçoado por todos.

Zeus, que das alturas tudo via, acabou se condoendo dos sofrimentos de seu neto e resolveu oferecer a ele uma oportunidade de regeneração, acolhendo-o no Olimpo. Mal chegado à mansão dos deuses, porém, Ixion, tomado por incontrolável desvario, que os gregos chamam de hybris, tentou violentar sexualmente Hera, a Senhora do Olimpo. Avisado por ela, Zeus confeccionou uma nuvem (nephele, em grego), dando-lhe uma forma em tudo igual a Hera. Ixion, sem nada perceber,  relacionando-se com ela, tornou-se pai dos famigerados centauros. Castigando-o, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o assim imortal, e o lançou no Tártaro, a prisão dos maus, onde ele, amarrado por serpentes, preso a uma roda de fogo, a girar eternamente, ali ficará até o final dos tempos. Aqueles que lá o viram, como Ulisses, por exemplo, dizem que no seu grande tormento, Ixion profere em altos gritos, na sua sofrida solidão, a frase: honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão

Etimologicamente, a palavra centauro parece ter relação com um verbo grego, kenteo, que tem o sentido de picar, aguilhoar, lembrando esta ação o aguilhão do instinto. Com efeito, o centauro, metade-animal (cavalo), metade-homem, por seus costumes brutais, por andar sempre em grupos, barulhentos e avessos a qualquer disciplina, por sua paixão imoderada pelo vinho, pela carne crua e pela sua sexualidade descontrolada, sempre foi considerado, com relação ao ser humano, como um símbolo das ameaçadas da vida instintiva à vida racional. 


SÁTIRO   ( RUBENS )

É neste sentido que os centauros se assemelham aos sátiros, aos faunos, aos silenos e a outros seres da mitologia, fortemente marcados por características animais, caprinas, no caso. Percorrendo sem cessar os campos e as montanhas a fim de satisfazer seus apetites, são considerados como verdadeiros demônios da natureza. Luxuriosos, insolentes e violentos, ambos, centauros e sátiros, representam, negativamente, sob o ponto de vista social, as constantes ameaças das forças da barbárie à civilização  e da desordem à lei.  

  Hércules foi um justiceiro que sempre procurou combater, além dos monstros e bandidos, os ímpios, os maus e os perjuros. Durante toda a sua vida, lutou sobretudo contra os centauros, uma luta contra si mesmo, no fundo. Símbolo da força, da energia e do heroísmo, grande consumidor de álcool, glutão insaciável, com uma sexualidade inesgotável, salvador de homens e fundador de cidades, Hércules, ainda que venerado como um semideus, jamais conseguiu, contudo, controlar as pressões instintivas que o assaltaram a vida inteira. 


NEPHELE   ( RUBENS )

Pondo para correr os centauros que invadiram a gruta de Folo, Hércules os perseguiu, no que foi atrapalhado por Nephele que, segundo Diodoro, enviou uma chuva torrencial  sobre a região. Em terrenos enlameados, como se sabe, os bípedes encontram muito mais dificuldade para correr do que os quadrúpedes. Hércules, contudo, superou esse obstáculo e, alcançando-os, travou com eles violenta luta, matando muitos deles.

Ainda segundo descrições de Apollodoro, os poucos centauros que escaparam do massacre promovido por Hércules foram se refugiar junto de Kiron. Nosso herói, entretanto, continuou a atacá-los, disparando várias flechas envenenadas. Uma delas atingiu a perna de Kiron, acidentalmente, na altura do seu joelho, ferindo-o mortalmente. De nada adiantou a medicação aplicada por Hércules, fornecida pelo próprio Kiron. A ferida era incurável. O mestre centauro se retirou então para a sua gruta, para morrer, embora sabendo que isto seria impossível, pois uma parte de seu corpo era divina, como filho de Cronos que era. Foi preciso que Prometeu, consoante proposta que fez a Zeus e aceita, cedesse a Kiron o seu lado mortal para que o centauro mestre pudesse morrer e que este cedesse a Prometeu o seu lado imortal, o que possibilitaria a sua libertação. Os detalhes desta troca nos são narrados, além de Ovídio, principalmente por Ésquilo na sua famosa tragédia Prometeu Acorrentado. Kiron, a seguir, foi colocado por Zeus nos céus como a constelação de Sagitário, entre Escorpião e Capricórnio.


PROMETEU  ( CERÂMICA   GREGA )

Ao retornar, Hércules encontrou Folo a abrir sepulturas na terra para enterrar alguns centauros mortos. Contudo, uma das flechas que se contaminara com o sangue de um deles atingira acidentalmente uma das patas de Folo, ferindo-o gravemente. O sangue dos centauros filhos de Ixion e de Nephele era veneno mortal contra o qual não havia antídoto (Hércules, lembremos, também será vitimado mais tarde da mesma maneira). Folo sucumbiu em pouco tempo nada conseguindo nosso herói fazer para aliviar o seu sofrimento. Não lhe restou outra alternativa senão a de organizar um magnífico funeral para honrar o seu hospedeiro. Depois destes acontecimentos, os centauros, como grupo, desapareceram. Viverão, os poucos que escaparam, isoladamente. Embora perigosos, não mais se atreveram a incomodar os humanos como o faziam. Por intervenção de Poseidon, passarão os remanescentes a viver no interior da terra, ctonicamente.


POSEIDON

Hércules dirigiu-se então à montanha, encaminhando-se para o seu pico. Aos gritos, subiu, mas adotando aquilo que lhe pareceu a melhor estratégia, subir de costas. O javali, atraído pelos gritos do nosso herói, pôs-se a persegui-lo; voltado para ele, foi recuando e subindo ao mesmo tempo. À medida que subiam, o terreno montanhoso tornava-se cada vez mais íngreme, principalmente devido à neve, acumulada no topo, sempre mais espessa. Num determinado ponto, o javali deteve-se subitamente, parecendo perplexo. Cansado, imobilizado, estava atolado, não conseguindo dar mais um passo. Hércules, então, deu uma volta, pegou-o pelas patas traseiras, descendo assim com ele a montanha, entre risos e aplausos da multidão que se juntara para presenciar a cena. Desta maneira, Hércules conseguiu levar o animal até Argos, entregando-o ao apavorado Euristeu, que chamou seus soldados para que dessem fim ao animal. 


HÉRCULES  SENTADO  SOBRE  O  JAVALI  ( LOUVRE )

O javali é um dos grandes símbolos do mundo indo-europeu, fazendo parte da chamada tradição hiperbórea. Os hiperbóreos, na mitologia grega,  constituíam um grupo racial que vivia além do vento norte, o Bóreas, portanto, numa região que seria o extremo norte para os gregos. A região dos hiperbóreos era considerada como uma espécie de paraíso nostálgico, de difícil localização. Talvez o país dos sonhos, da imaginação, da idade de ouro da utopia, de todas as tradições míticas. 

O caráter hiperbóreo do javali pode ser notado na medida em que ele representa o elã primordial, associado nesse contexto à simbologia do fogo nas mais diversas culturas. É neste sentido uma imagem primordial da força, do ataque intrépido e da coragem resoluta, sobretudo na Europa setentrional e no mundo celta, onde representava a autoridade espiritual. A sua carne era comida só ritualmente. A ferocidade do animal provocava tanto horror como
XENOFONTE
respeito. Associações entre o javali e o comportamento destrutivo dos guerreiros que o usavam como emblema fizeram com que ele, no cristianismo, se tornasse um símbolo da tirania, das paixões e da luxúria. Seu apelido era, por isso, o  O Cão do Diabo. Xenofonte, no seu tratado Da Caça, nos diz que quando um javali morre os pelos de seu focinho se crispam tanto que podem causar queimaduras a quem os tocar.  

   Consagrado aos deuses da guerra no mundo grego (Ares) e  romano (Marte), o javali sempre apareceu associado à primavera e 
à juventude. Nos países onde não temos a tradição cristã, o javali é um símbolo da coragem e da temeridade, como no Japão. Em outras tradições, o animal é visto como símbolo da autoridade espiritual, opondo-se ao urso, que representa o poder temporal. Ligado a Zeus no mundo grego, associa-se à águia, ao carvalho, ao raio e à trufa. Caçar o javali é atacar o poder espiritual. Na Índia, o javali é um dos avatares de Vishnu, com o nome de Varaha. Na mitologia hinduísta, é através dele que a terra é trazida à superfície das águas primordiais, fixando-se na coluna de fogo (lingam). No mundo celta, é o próprio druida, o sacerdote, enquanto este vive solitariamente nas florestas. 

VARAHA


O nome Erimanto, como vimos, nos remete a uma ideia de vermelho, ardor, a cor do deus Eros, do deus Ares grego e do deus Marte romano. O verbo grego para designar disputas, querelas, é eridzo. Se não dominamos o nosso "javali" interior, destruiremos os campos, as plantações, os vinhedos, poderemos matar pessoas,  não criaremos possibilidades para fazer de nossa vida social algo produtivo, útil, a nós e aos outros. Dominar o javali é transformar a energia vital impulsiva,  em vida espiritual, compreensão que sempre começa pela percepção do "outro", simbolicamente pela nossa "morte" consciente (outono).        Ou seja, transformar o fogo

instintivo  (signo de Áries), sob  a  orientação  do  racional  (signo de Leão),  em  espiritual  (signo de Sagitário), o que nos levará  a um afastamento da nossa condição animal, brutal,  instintiva. Todas estas considerações nos dizem também que não podemos matar o javali, temos que mantê-lo vivo, utilizando a sua energia racionalmente, ajustando-nos assim à vida social, sempre uma preparação para a vida espiritual, onde aparecem os conceitos de coletividade, humanitarismo, fraternidade etc.

Sem esse controle não haverá acordo, união, consenso, vida moral. Eros é força vital descompromissada, desejo em estado puro, força
EROS
cega, carência que se satisfaz unilateralmente. Eros (javali, um de seus símbolos) é pulsão fundamental do ser, libido, força que atualiza as nossas virtualidades. É essa força que cria o possível. Esta criação, contudo, só se dá pelo contacto com os outros, por uma série de trocas materiais, sensíveis, e depois, num plano superior, espirituais. Interações, choques, disputas, acordos, atenuações conscientes. É no signo de Libra, a sétima constelação zodiacal, que aprendemos a superar os antagonismos, a assimilar o diferente, a integrá-lo, a controlar o nosso javali, em suma.

Depois da purificação de Virgo, temos que buscar o equilíbrio (equinócio, dias e noites iguais), a união com o oposto, com o outro. Ideias de Justiça, cujo símbolo é a balança aparecem então. O signo de Libra é regido pelo planeta Vênus, que tem a ver com uniões, matrimônios, acordos, contratos, a dualidade que se faz una, um perder e um ganhar constantemente renovado. O planeta Saturno também tem a ver com este signo. Saturno (Cronos) é em Libra o tempo. Todo contrato terá que ser realizado no tempo. Surgirão então sentimentos de equidade, de harmonia (Harmonia é filha de Ares e de Afrodite). Raramente um libriano superior se imporá a alguém ou tentará confiscar algo do outro em proveito próprio. As virtudes superiores do signo, encanto, polidez, educação, diplomacia e mesmo a sedução podem muitas vezes levar ao objetivo, à vitória, se quisermos, sem necessidade de luta. O belo, a estética, os matizes, as nuances, o romantismo, a elegância são de Libra. Esse elemento de beleza e de elegância se encontra, por exemplo, em pintores do signo, como Watteau e Bonnard, e em músicos como Gabriel Fauré.


GILLES ,  LE   PIERROT   ( WATEAU )

Negativamente, Libra pode ser o signo da vacilação, da divisão, do amaneirado, do dúbio, do desejo de agradar de qualquer modo, da protelação, do adiamento, da enorme dependência do outro, da impessoalidade (veja o mito de Eco), da falta de combatividade, do desejo de buscar só o agradável, de evitar o trabalhoso ou o sujo. Mulheres de Libra podem se tornar rainhas da elegância. Figuras librianas podem ser citadas, cada uma seu modo: Oscar Wilde, John Lennon, Brigitte Bardot, Luis XIII, Lamartine, Gandhi, Erasmo de Roterdam (exemplo de um libriano saturnizado) etc.



O libriano pode ser classificado como outonal ou sentimental. No primeiro, prevalece a influência saturnina, tem menos vida, menos elã, pondera mais, legisla, procura a forma, é mais escuro. Já o outro tem invariavelmente um grande desejo de agradar, é mais fraco, sem vontade, resiste pouco às pressões externas, dobra-se, é adaptável, sendo mais “claro”, sociável, fazendo-lhe muita falta as festas e as reuniões.

Neste sétimo trabalho, as lições mais importantes tornam-se evidentes:  recuar é subir, atenuar é aumentar, dividir é somar. É o primeiro trabalho em que não há luta. Hércules, contudo não o entende bem. O episódio onde entra Folo é um desvio libriano (prazer, jovialidade, adiamento, é o famoso "dar um tempo" dos do signo). A solução de Hércules é prática, deu-lhe a vitória sobre o javali, mas ele não percebeu conscientemente o significado transcendente do trabalho. O abrandamento da nossa personalidade, a atenuação da nossa luz, o controle do nosso "javali" tem que ser consciente. O javali é símbolo aqui de tendências obscuras, egoístas, ignorantes. Em algumas culturas, há interdições, por isso, quanto ao consumo da carne do javali (porco). 

Eros (a libido, muitas vezes representada pelo javali) deve se submeter a Afrodite, a deusa que propõe relações por consenso. Na natureza, a luz, em Libra, começa o seu lento retorno à unidade. Dosar a atenuação, nunca transformá-la em morte. Por isso, a Balança quer dizer equilíbrio, lugar onde as oposições devem se
resolver continuamente. A comunicação é de Gêmeos; uma boa comunicação leva a acordos (Libra) e bons acordos levam a amigos (Aquário), os três signos de ar do zodíaco. No fundo, entendimento de que tudo o que se manifesta como vida está sujeito à dualidade e à oposição. O primeiro ato que temos de praticar para participar socialmente de algo é o da atenuação do nosso eu. 





Uma das constelações associadas ao signo de Libra é a de Lupus (Lobo). Mais um símbolo evidente, equivalente ao javali: em Libra temos que sacrificar o nosso "lobo", nossa vida instintiva (como o javali, o lobo é sinônimo de agressividade, de astúcia, de voracidade, de selvageria). O poder do lobo diminui na medida em que nos equilibramos melhor, isto é, na medida em que a alma não mais se deixa devorar pela matéria. Com Libra, entramos no hemisfério superior, sendo sete o seu número, que é o das totalizações provisórias a indicar um semiciclo que se fecha e um outro que se abre. Saímos em Libra da vida subconsciente para entrar na vida supraconsciente

TÊMIS
No signo de Libra vivem várias divindades. Têmis (limite), etimologicamente, estabelecer como norma ela é a deusa dos princípios superiores, por oposição ao nomos que é a lei humana, que é consuetudo, o costume, o hábito, o  usual. Têmis tem a ver com leis imprescritíveis; aparece como dona dos oráculos e dos ritos. Titânida honrada e respeitada pelos olímpicos, era a titular do oráculo de Delfos com sua mãe, Geia, tendo ensinado a mântica a Apolo. Têmis era também a mãe das Horas, divindades do tempo (Eunomia, Dikê e Irene), que asseguravam o equilíbrio da vida vegetal e da vida social, distribuindo a umidade corretamente, amadurecendo tanto os frutos como as ações humanas. Eram as divindades que velavam pela educação das crianças, que deviam aparecer, florescer e frutificar no tempo certo, sem pressa, com ritmo.


AS   GRAÇAS   ( BOTTICELLI )

Em Libra vivem também as Cárites (etimologicamente, graça, encanto), também divindades da vegetação e responsáveis pela alegria e pelo contentamento que devem morar no coração dos deuses e dos humanos. Eram chamadas as Graças, Aglaia (Cintilante), Talia (Festa) e Eufrósina (Alegria do Coração). Viviam em companhia das Musas e, como tal, tinham grande influência sobre as obras de arte. Um exemplo disto está, por exemplo, no antigo conceito latino Vita Brevis, que Lamartine usa, como ninguém, no seu famoso poema Le Lac, talvez o mais belo hino libriano já escrito.

Grande parte dos males librianos estão centrados na aparência (pele), tendo por motivação, invariavelmente, sentimentos refreados, frustrações afetivas, decepções no amor etc. A icterícia
ICTERÍCIA
(ictero, verde), por exemplo, infiltração de bile nos tecidos, é o fel: doença dos que remoem, não liberada a força de Marte (Eros). Eczemas, Psoríase e outros males que se projetam na pele são comuns em Libra. Sentimentos de não aceitação, de injustiça. O retido (amor, afeto, Vênus) não tem outra saída senão pela pele (Saturno). No libriano inferior, a dinâmica do psiquismo está sempre voltada para o agradar; fraco, sem vontade (Sol em queda), ele faz todas as "médias", sofre do chamado complexo do avestruz (fazer de conta que não vê) decorrendo dessa acomodação muitos de seus problemas físicos e psíquicos. Problemas renais são também comuns nos do signo, além de dores de cabeça (ação reflexa por Áries, signo oposto). Uma grande tendência dos librianos inferiores é a de transferir sentimentos de culpa para os outros, pois, procuram sempre passar uma imagem de bem intencionados e de compreensivos. 


Astrologicamente, recordemos que na Índia, Thula (Libra) é o signo através do qual é entendido o conceito de Dharma, a lei moral, considerada não como castigo, mas como reajuste, recomposição do equilíbrio rompido. Neste sentido, é que na antiga astrologia védica (Jyotish) o Sol e Marte são vistos como agentes do karma e Vênus e Saturno como agentes do Dharma

A diminuição do material a partir de Libra tem que ser conquistada, produto de uma conquista consciente. É só nesta perspectiva que diminuir significa aumentar. É neste signo, como já se percebeu, que, sob o ponto de vista cósmico, começa visivelmente o retorno à unidade, a reintegração da matéria. Declínio do mundo orgânico, a substância retorna à sua origem. Libra é assim um ponto médio entre o que foi construído e as forças que começam a provocar a sua desintegração. É por essa razão que o outono tem o nome de Fall (Queda) nas línguas anglo-saxônicas. Entre nós, é neste signo que encontramos conceitos como de poente (com relação ao dia), de outono (com relação ao ciclo das estações), de ocidente, lugar de queda, etimologicamente (com relação às direções do espaço).

Em Libra a vida se recolhe, devemos começar a aprender o que na prática significam conceitos como os de despojamento, renúncia, involução física e evolução espiritual. Em Libra tudo o que nasceu, cresceu e se desenvolveu chega ao seu ponto mais elevado e é obrigatoriamente em Libra que tudo começa a descer, declinar, desaparecer. 


ADONIS   E   AFRODITE

Um dos mitos gregos, herança mesopotâmica e fenícia, que melhor expressa o que aqui se expõe é o de Afrodite e de Adonis, seu grande amor. Atacado por um javali (o deus Ares), Adonis (Tamuz para os povos semíticos) era um deus da vegetação que, em muitas tradições religiosas orientais, morre anualmente, uma representação do ciclo vegetal. Morto, Adonis, tem que abandonar Afrodite, para descer ao mundo subterrâneo, para lá passar uma temporada com a
ANÊMONA
deusa Perséfone, rainha do mundo infernal. Do sangue do deus, nascerão as anêmonas (etimologicamente, vento), que representam o efêmero. Flor solitária, de beleza simples, a anêmona tornou-se ao mesmo tempo símbolo da riqueza, da precariedade e da beleza da vida. É a anêmona a flor, mais do que qualquer outra, que evoca o amor submetido às flutuações das paixões e dos caprichos dos ventos.